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A crise é global e fruto da desigualdade e assimetria no desenvolvimento: Entrevista com Rogerio Studart

Por Rennan Martins | Vila Velha, 15/09/2015

O 1% controla 46% da riqueza mundial – Oxam. “…Ainda não é o suficiente…”. Tradução livre.

O modelo de globalização baseado no aumento creditício e endividamento familiar, no achatamento dos salários e aprofundamento da desigualdade gerou as distorções que desencadearam a quebradeira de 2008 ainda não superada. A crise econômica, por sua vez, atingiu o Brasil depois da persistência do cenário recessivo global e do megainvestimento chinês que gerou excesso de capacidade produtiva, de infraestrutura e oferta imobiliária, encerrando o boom das commodities.

A política contracíclica do governo falhou não por excesso, mas por basear-se somente na ampliação do crédito e consumo, sem atacar com a devida energia a falta de investimentos, limitados por conta das amarras do tripé macroeconômico. O ajuste fiscal e monetário concomitante e exagerado derrubaram a atividade produtiva e arrecadação, que conjugada as denúncias sistemáticas de corrupção produziram a tempestade perfeita que exige do país mostrar seu valor na superação da crise.

Esta é a visão do professor da UFRJ e representante do Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento no Brasil, Rogerio Studart. Nesta longa e rica entrevista, Studart analisa a crise nacional e internacional, apontando seus pontos de confluência e diagnosticando que o modelo econômico em que impera a vontade do mundo das finanças é incapaz de sair da instabilidade social, da atividade produtiva anêmica e do aumento das desigualdades.

Confira a íntegra:

Em sua concepção, quais foram as causas desta crise que já é considerada a segunda mais grave depois da de 29?

Studart: Sempre acreditei que a crise financeira de 2008 tenha sido somente uma manifestação, apesar de importante e muito ruidosa, de profundos desequilíbrios no crescimento e desenvolvimento – tanto nas economias individualmente como em nível global. No primeiro caso, tomemos um exemplo central: os Estados Unidos. Aqui o crescimento se deu com a expansão do consumo baseado em um extraordinário aumento do crédito e da dívida privada – com base em garantias (por exemplo, moradias) que se valorizavam como parte de um boom especulativo. Esta alavancagem financeira ocorreu concomitante ao achatamento do salário médio real do trabalho, tendo como consequência um enorme aumento da desigualdade de renda e riqueza.

Este crescimento com desigualdade e alavancagem creditícia se reproduziu no desenvolvimento global, na própria integração comercial e financeira – ou seja, tornou-se “modelo” da globalização. Para manter abastecido um mercado de bens para uma população (em economias avançadas) com poder de compra em queda, promoveu-se a expansão da produção e uma reestruturação das cadeias de produção de forma que parte crescente da produção de bens de consumo se transferisse para países com remuneração do trabalho muitíssimos inferiores as observadas em economias maduras. A China caiu “como uma luva” nesta nova arquitetura, devido as suas peculiaridades – por ter sistema econômico aberto, sistema politico fechado e população abundante. Com estas características, pode-se manter maior controle sobre este processo, e especialmente sobre os custos de produção de bens para um mercado global dominado ainda pelos consumidores de economias avançadas. Desenvolveu-se assim uma nova normalidade calcada na desigualdade crescente (interna e externa) e na existência de nações “consumidoras de última instância”, nações “produtoras de última instância” – tudo isto permitido por um rápido crescimento do sistema de financiamento doméstico e internacional, e da liberdade e influência das finanças globais. A crise americana afetou o coração da “nova normalidade”, porque fechou os canais de financiamento nos Estados Unidos, e depois nas finanças globais. E com isto acabou gerando um efeito em cadeia, passando pelo comércio internacional, a produção, o emprego, a renda, o nível de preços dos ativos e assim por diante.

Claro que se somou a isto a inabilidade das principais lideranças globais em enfrentar a crise de forma coordenada e endereçando os problemas estruturais. No máximo os representantes das vinte maiores economias do mundo no G-20 enfrentaram, como coletivo, os sintomas da crise, e não suas origens. E em muitos casos com politicas domésticas e internacionais que somente agravaram os problemas estruturais. Mas deixemos isto para a pergunta seguinte. Podemos pelo momento resumir que esta crise, como a vejo, a crise da desigualdade e das assimetrias do desenvolvimento – em níveis nacional e global. Por isso é que se tornou tão complexa, e por isso tende, apesar das idas e vindas, a persistir.

A crise de 2008 afetou prontamente os países desenvolvidos e, passados alguns anos, atinge agora as economias emergentes. Que fatores explicam o timing e a persistência do cenário desfavorável? As respostas das autoridades monetárias e financeiras têm conseguido combater este quadro?

Rogerio Studart

Studart: Isto tem a ver com os impactos primários e secundários da crise, mas especialmente em como os diferentes países reagiram a ela.

Nos Estados Unidos, por exemplo, foram imediatos os impactos sobre os circuitos de financiamento, sobre preços de ativos, sobre as garantias e sobre a solvência das instituições financeiras – logo também sobre o pilar básico do crescimento, da produção (especialmente de serviços) e do emprego. Dada a gravidade do problema de solvência das instituições financeiras (e especialmente a influência do mundo das finanças), não tardaram as respostas para evitar o débâcle dos sistemas financeiros nacionais e global. Aqui o salvamento de instituições, mas também de alguns ícones do setor industrial americano (o automobilístico por exemplo), consumiu trilhões de dólares, e foi seguida de uma politica de injeção de liquidez voltada a manter os preços de ativos financeiros (inclusive hipotecas) e as taxas de juros no solo.

Já na politica fiscal, e outras iniciativas voltadas, a garantir diretamente o nível de emprego, a resistência do establishment foi impressionante – o que se somou a oposição ao recém-eleito presidente à época, para gerar o maior jogo de obstrução à atividade fiscal anticíclica de que tenho conhecimento. Com um único instrumento de politica anticíclico – a politica monetária – a recuperação norte-americana teve de esperar a estabilização dos preços de ativos e contar com outros determinantes exógenos (como por exemplo, a explosão do investimento gerado pela prospecção de óleo de xisto) para se consolidar o crescimento. Só agora há sinais, ainda frágeis creio eu, de uma recuperação mais robusta do mercado de trabalho nos Estados Unidos.

Na Europa a primeira reação foi de enfrentar a crise com austeridade fiscal, especialmente no tratamento das crises na sua “periferia” (Portugal, Espanha, Grécia etc) – dentro da fórmula: “ajustar os preços domésticos, ampliar a produtividade e competitividade, e sair da crise exportando mais”. Claro que em um cenário de comércio internacional andando de lado o resultado foi o que foi: espetacular aumento do desemprego, retração da produção e maior desigualdade; fora as tensões politicas domésticas, que só agravam mais ainda as tentativas de soluções concertadas para o problema etc. De crise em crise, a Europa não entrou em parafuso porque, por exemplo, a demanda gerada pela resposta chinesa, sobre a qual falaremos a seguir, deu dinâmica para a máquina de exportar bens de capital (a Alemanha). Depois, assim como nos Estados Unidos, a politica de taxas de juros baixas permitiu que outras economias (dentre elas a Inglaterra) tivessem um desempenho melhor.

Já a China respondeu a crise como sabia: investindo ainda mais. Este investimento não se voltou somente para a ampliação da capacidade produtiva, mas também da infraestrutura e construção civil – e dai o investimento sobre PIB ter ultrapassado a 50% do PIB no período imediato ao início da crise global. De quebra, fizeram “vista grossa” `a expansão do chamado “sistema bancário sombra”, um sistema de crédito desregulamentado, que, no caso da China, nada mais é do que um canal que permite a remuneração das grandes fortunas pessoais – que cresceram enormemente nos últimos anos na China. O brutal aumento do crédito acabou sendo canalizado para construção imobiliária e para a própria aquisição de imóveis, e mais recentemente para os mercados acionários – em um esquema especulativo que envolveu o mundo das finanças “sombra”, governos provinciais e até investidores estrangeiros.

A resposta gerou contradições, que eram perceptíveis, mas que a China está expondo ao mundo agora. Por um lado, considerando que a dinâmica da demanda agregada na China ainda depende fortemente do setor externo, o aumento do investimento redundou em excesso de capacidade produtiva, excesso de infraestrutura e excesso de oferta mobiliaria. (Por outro, o castelo de cartas de dívidas privadas tornou-se uma das grandes preocupações do governo – e do mundo. Especialmente depois que o mercado de imóveis esfriou, e, mais recentemente, o acionário derreteu). Em suma, a reação da China a crise permitiu, entretanto, o boom da demanda internacional por insumos (por exemplo, aço). Com estas respostas, os países exportadores, inclusive os emergentes como o Brasil, tiveram uma dupla era de ouro: a resposta de politica monetária nos EUA, Japão e depois na Europa permitiram uma enorme liquidez no mercado financeiro internacional, que permitiu a valorização de algumas commodities agrícolas; enquanto a resposta da China promovia um boom dos preços e quantidades de commodities agrícolas.

Em suma, repetindo o que disse no começo, apesar das especificidades de cada economia a crise os afetou “em ondas”, devido aos seus impactos primários e secundários, as especificidades das economias atingidas (estrutura produtiva, sistema de administração macroeconômica e mesmo contexto politico) e, portanto, como os diferentes países reagiram a cada uma destas “ondas” de impacto.

Como o Brasil se inseriu inicialmente no cenário pós-crise e como o faz atualmente? O que transformou a “marolinha” numa onda de porte?

Studart: A resposta pode ser parcialmente inferida do dito na pergunta anterior. Hoje todos sabemos que a crise somente intensificou a demanda de commodities, gerando o que costumam agora chamar de “super-boom” de commodities. O Brasil tem características evidentemente peculiares, e quatro, me parecem, são essenciais para entender o que aconteceu. Possuímos uma estrutura produtiva diversificada, não só na indústria como no agronegócio; um sistema de administração macroeconômico calcado no “tripé macroeconômico” – com câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e sistemas de metas; e um sistema de poder que em parte se legitimou através de uma redução da pobreza e desigualdade, com base em sistemas de transferências de renda e salários mais elevados. Apesar do super-boom de commodities garantir a expansão da produção de commodities agrícolas, no pós-crise o país sofreu com a retração das fontes de financiamento do comércio; além disto, o excesso de liquidez e de divisas obtidas com a exportação acabaram por gerar a valorização do Real – o que por sua vez jogava o peso da resposta sobre o nosso setor industrial, já debilitado pela concorrência chinesa e pelo baixo investimento realizado na renovação da sua capacidade produtiva. A reação do governo foi inicialmente balizada pelas quatro características que mencionamos, que se tornaram parâmetros na definição da resposta anticíclica.

Por exemplo, desde 2009 sabia-se que a crise poderia reverter o quadro de estabilidade e de crescimento do emprego, o que poderia ameaçar os ganhos sociais. Esperava-se que a crise seria breve (uma “marolinha”), e a opção foi por uma politica de manutenção da produção e empregos na indústria, a partir de uma politica de incentivos e subsídios; de uma ampliação do consumo e do investimento produtivo, com base em ampliação muito significativa do crédito publico; e de uma tentativa de ampliar os investimentos em infraestrutura, além daqueles originados na preparação da Copa e da Olimpíada.

A “marolinha” se tornou um tsunami por três motivos: por um lado, a realmente a crise externa durou muito mais do que o governo imaginava; segundo, porque não se pode manter o crescimento somente na base da ampliação do crédito e do consumo, sem criar condições duradouras para a ampliação do investimento privado; e terceiro, porque a resposta aprofundou o problema cambial, gerando uma tendência depressiva ainda maior sobre a produção e, especialmente, o investimento industrial.

Desde 2010 vimos observando uma perda de dinâmica na economia brasileira, a insuficiência das respostas. Mas a situação politica – com o aquecimento das insatisfações expressas em manifestações, a intensificação das denúncias de corrupção, e depois o calor das eleições presidenciais – fez com que se gerasse inércia (e inação) no trato do problema. Não era o caso somente de “empurrar com a barriga”, mas uma tentativa de dobrar a aposta na politica anticíclica. E creio que foi neste contexto que aumentou-se a pressão por respostas “inovadoras” para manter uma situação insustentável, dentro das amarras extremamente restritivas do modelo macroeconômico adotado. E, devo ressaltar, o que ficou conhecido como “contabilidade criativa” foi somente uma das expressões deste fenômeno.

Evidentemente, nem todo tsunami que vivemos agora se associa a erros de politica no passado. Parte dele se deve a resultados diretos e indiretos dos processos como a Lava-Jato, que, se absolutamente necessários, acabaram por travar o setor de construção e investimentos em cadeias produtivas importantes na economia – envolvendo algo em torno de 20% do PIB nacional. Note-se que isto não se deve simplesmente a prisão de altos executivos, mas a paralisação dos negócios, o temor e mesmo a proibição de firmar contratos e assim por diante. Outra parte do tsunami se deve a erros novos – sobre qual podemos falar como resposta a próxima pergunta.

Nesse contexto, que influência teve o ajuste fiscal iniciado este ano? Os cortes foram responsáveis pela derrubada na arrecadação e atividade econômica?

Studart: Antes de responder, quero esclarecer um ponto de vista meu sobre o tema fiscal. Primeiro, a “austeridade” sempre deve ser um princípio básico da boa administração pública, de quem administra recursos públicos e escassos. Segundo, seguramente há, sim, distorções nos gastos públicos e na estrutura tributaria (muito injusta!) no Brasil, e é portanto saudável rever os dois. E, terceiro, como discípulo de Keynes que sou, creio no equilíbrio fiscal como meta, como uma condição importante para manter a capacidade do governo de fazer politicas contra cíclicas, quando necessário. Minhas preocupações com o ajuste atual estão relacionadas a sua forma e seu sequenciamento, que foram absolutamente disfuncionais e contra produtivos.

Elas podem se resumir da seguinte forma: foi equivocada tentativa de realizar ajustes (fiscal, de preços administrados e monetário) de uma forma abrupta e, especialmente, sem o necessário apoio politico (do Congresso e da população). Dadas as condições econômicas e politicas que o precediam, não me surpreendo que o ajuste tenha se tornado um pesadelo: primeiramente porque ficou impossível implementar os cortes planejados; em segundo lugar, mas porque o “tombo” na economia – gerado por cortes de gastos, queda de investimento e retração do crédito – esfacelou-se a base tributária. (E este esfacelamento não foi somente porque a base tributária depende do nível de produção, emprego e consumo, mas também porque parte do empresariado passou a adotar a postergação do pagamento de tributos como estratégia de sobrevivência).

Por isto, nestes últimos nove meses, o que já era uma situação grave de perda de dinamismo e paralisação de uma parte da economia nacional transformou-se em “tombo” na produção e emprego, uma crise de sustentabilidade fiscal e um imbróglio politico. Uma tempestade perfeita que tem riscos de transformar-se em um problema estrutural de crescimento, e com riscos políticos graves.

Concomitante ao ajuste fiscal temos um Banco Central que aumentou vertiginosamente a taxa básica de juros nas últimas reuniões do COPOM. Há descoordenação entre a Fazenda e o Bacen? O esforço de contenção será anulado pelo serviço da dívida?

Studart: Em condições “normais”, a eficácia de qualquer politica econômica depende da correta orientação técnica – ou seja, do diagnostico preciso e utilização adequada de instrumentos. No Brasil, o Banco Central tem um mandato que envolve explicitamente a estabilidade de preços e do setor financeiro, e implicitamente apoiar a correção dos excessos de ciclos de negócios. Já antes da tempestade perfeita que estamos vivendo, o BACEN vinha (injustamente creio) sendo questionado na sua capacidade de autonomamente perseguir este mandato. De fato, o Banco Central foi duramente (e injustamente, creio) criticado por sua suposta leniência em relação a um dos seus importantes mandatos: a estabilidade de preços. Aumentar as taxas de juros passou a ser visto como mais do que um instrumento de politica monetária, também como uma forma de reafirmar autonomia técnica do BACEN frente a uma inflação que sistematicamente estava acima da meta.

A situação do BACEN se complicou com o choque de preços gerado pelo súbito reequilíbrio dos preços administrados – que era necessário no médio, mas talvez não no afã que foi realizado. A inflação mudou de patamar abruptamente, ao mesmo tempo que a pressão sobre o BACEN para ter de assumir sozinho o papel de manter a inflação dentro da meta – uma situação que foi reforçada pelo discurso de uma parte importante da equipe econômica da instituição ao dizerem que o BACEN “estava atento para evitar mais inflação”. Com isto, parece compreensível que sua diretoria tenha optado por uma elevação da SELIC ao patamar que está. Se não o fizessem seriam acusados de não cumprirem com sua parte. Mais do que um erro de coordenação, creio que o problema foi um erro de atribuição, e uma visão equivocada sobre como enfrentar o problema inflacionário – tema da próxima pergunta.

As alegações recorrentes para os mais altos juros do mundo giram em torno da necessidade de conter a inflação. A alta nos preços aqui observada é contida com aumento da Selic? Existiriam métodos mais eficazes?

Studart: Combater a inflação alta é, de fato, uma prioridade importante em uma economia que tem passado hiper-inflacionário, e que vive ainda na sombra da volta da indexação generalizada. Mas nunca acreditei que a forma de tratar o tema passasse unicamente pelo instrumento monetário. Mas, como já mencionamos, o Banco Central foi chamado a assumir um papel que é bem maior do que os instrumentos que possui, e portanto vem repetindo uma receita pouco eficaz.

Considero o patamar de juros absurdo, mas creio que até a diretoria do BACEN assim o considere. Mas para mim, ele também se tornou contraproducente como instrumento de politica econômica, inclusive porque dificulta manter uma trajetória de ajuste fiscal – por razoes já mencionadas. Pouca eficácia, não quer dizer nenhuma: os juros altos podem, sim, ser efetivos em reduzir a inflação mas pelo estrago que causam – tombo na produção e emprego, deterioração da capacidade de pagamento das famílias e das empresas e abrupta contração da demanda de insumos produtivos e de bens de consumo. Ou seja, os juros na estratosfera podem reduzir a inflação, ajustando os custos pela recessão e o desemprego e provocando mais desajustes fiscais.

Creio, sim, que há outras formas de tratar o problema. Mas haveria que se ter paciência e esperar que o sistema absorva os aumentos de preços provocados pela desvalorização do Real e pelo aumento dos preços administrados. Pelo lado da demanda, manter uma politica monetária vigilante é importante, mas há formas de controlar a expansão do consumo e do crédito, e modular a expansão da demanda agregada doméstica, que naturalmente surgiu de uma economia de classe média. Do lado da oferta, é preciso investir-se em aumentos da produtividade – tanto pela renovação da capacidade produtiva quanto no investimento em “capital humano”, inclusive no setor de serviços.

Qual a sua avaliação sobre a situação fiscal brasileira em relação ao mundo? A relação dívida/PIB está em patamares aceitáveis ou é preciso se alarmar?

Studart: A relação dívida/PIB no Brasil é relativamente baixa, entretanto temos um problema de rolagem da dívida que torna a questão fiscal complexa. Ou seja, como temos dívida de prazo relativamente curto, e juros elevados, há sempre o risco de flutuações cíclicas normais tornarem a dívida um problema crônico.

Por sinal, este é o problema que estamos passando no momento. A abrupta queda da base de tributação, e o consequente deficit fiscal que é financiado a mais de 14% de juros, pode gerar um crescimento considerável da dívida bruta. Na medida em que isto aumenta a percepção de controle fiscal, o custo de rolagem da dívida pública aumenta consideravelmente. Por outro lado, podemos assim sair de uma situação desconfortável e de suspeita do mercado, para uma situação de descontrole em que os investidores têm razoes efetivas para temer – gerando saídas de capital, e pressões ainda maiores por aumento de juros.

Ou seja, a relação da dívida sobre o PIB não é ruim no momento. Mas como temos uma situação de financiamento da dívida peculiar, e como temos um “cobertor curto” no modelo de administração macroeconômica, a situação fiscal pode deteriorar muito rapidamente. Todo cuidado, portanto, sempre é pouco.

O Brasil corre o risco de entrar numa espiral de recessão econômica como aconteceu a Grécia e Espanha? Quais são as semelhanças e diferenças entre esses países e nós?

Studart: Sim, há este risco de uma espiral recessiva. Mas há mais diferenças, do que similaridades com a Espanha e a Grécia. A única similaridade que vejo é a tentativa inicial nos dois últimos países de procurar utilizar simultaneamente os ajustes fiscais e monetários para atacar um problema macroeconômico que vai além do que estes instrumentos se servem.

Quanto tempo durará esta recessão? Que medidas imediatas seriam recomendáveis para a retomada do crescimento e reversão das expectativas?

Studart: Não tenho a mínima ideia do tempo que demorará, e admiro os colegas economistas que fazem previsões. Isto porque o que está gerando a crise não são fatores puramente econômicos – se é que exista alguma coisa como “fatores puramente econômicos”.

Posso dizer uma coisa. No momento, os fundamentos macroeconômicos não são o desastre, e temos colchões para enfrentar a crise – inclusive o nível de reservas internacionais e uma capacidade produtiva diversificada e um empresariado inovador e resiliente. Neste sentido, o Brasil tem enormes condições não só de enfrentar os atuais problemas na medida em que possam – governo, empresariado e sociedade civil – concertar uma visão para enfrentar o momento e para construir um projeto que seja sustentado, sustentável e politicamente factível.

Estamos sendo testados como nação, e esta é a hora de mostrar nosso valor.

Os EUA são o principal responsável pela tragédia dos refugiados

Via ODiário,info

O governo dos EUA e os seus aliados da União Europeia ocultam a questão fundamental da responsabilidade pela tragédia dos refugiados do Médio Oriente.

Os media ditos de referência, de Washington a Paris, deixam transparecer preocupação crescente, quase alarme, com a vaga de gente desesperada que vinda sobretudo da Síria, desembarca diariamente nas praias da Grécia e dai, através dos Balcãs, tenta chegar à Alemanha. Derramam lágrimas pelos que morrem no mar. Imagens do menino sírio afogado numa praia do Egeu, e da angústia das multidões tratadas como gado na Hungria pelo primeiro ministro fascista Orban, correm mundo suscitando indignação. Mas são farisáicas essas expressões de pesar. «Praga» chamou o inglês Cameron, em comentário racista, à onda de refugiados; mas, duramente criticado pelos seus próprios compatriotas, desculpou-se e agora manifesta disponibilidade para abrir a Grã-Bretanha àqueles que injuriou.

Inesperadamente, a chanceler Ângela Merkel recebe elogios de todos os azimutes ao informar que a Alemanha está preparada para conceder asilo a 80 000 refugiados.

Estamos perante um gesto de humanismo desinteressado? Não.

A Alemanha enfrenta um grave problema demográfico. Nos últimos anos, o total de alemães falecidos é superior ao de nascimentos. O bom funcionamento da sua economia, a mais dinâmica do Continente, necessita anualmente de milhares de trabalhadores estrangeiros.

O coro de lamentações sobre a tragedia dos refugiados é omisso – repetimos – sobre a questão fulcral das responsabilidades.

O tema é incómodo. Por que foge em massa essa multidão de párias de novo tipo da Síria, mas também do Iraque e do Afeganistão?

Porque a engrenagem de poder imperial dos EUA, no âmbito da sua estratégia de dominação mundial, invadiu e ocupou o Afeganistão e o Iraque, arruinando esses países, apropriando-se das suas riquezas, destruindo as suas infraestruturas e semeando ali o caos. Posteriormente, armou e financiou organizações terroristas que tentam há anos, sem êxito, derrubar na Síria o governo de Bashar Al – Asad.

Quem criou os Talibans foram o Pentágono e a CIA.

Bush pai e filho iniciaram essa escalada de terrorismo de Estado. Obama deu-lhe continuidade.

Os crimes abjetos do chamado Estado Islâmico são justamente condenados pela humanidade.

Mas não há campanha mediática que possa apagar factos denunciados pela própria imprensa estado-unidense. Muitos dos assassinos do Estado Islâmico foram treinados por instrutores da CIA e da US ARMY para atuarem nas guerras de agressão no Afeganistão, na Líbia e no Iraque.

É caso para dizer que o feitiço acabou por se voltar contra o feiticeiro.

O discurso hipócrita de Obama, Cameron, Hollande, Rajoy, e aliados menores como Passos, não tem o poder de esconder a verdade: o sistema de poder dos EUA é o grande responsável pela tragédia dos refugiados.

Por que o senador José Serra quer tirar a Petrobrás do pré-sal

Por Fernando Siqueira | Via AEPET

O Senador José Serra apresentou um Projeto de Lei do Senado – o PLS 131/15, que retira a Petrobrás da condição de operadora única do pré-sal, com uma participação obrigatória de, no mínimo, 30%. Ou seja, 70% ainda estão à disposição das petroleiras internacionais. Então, por que ele apresentou esse projeto? Por que apresentou neste momento? Estas são as principais dúvidas que tentaremos explicar de forma bastante resumida.

No site: https://wikileaks.org/Nos-bastidores-o-lobby-pelo-pre.html, vemos algumas pistas que nos levam a informações importantes. Uma delas: “A indústria do petróleo (leia-se o cartel do petróleo) vai conseguir combater a lei do pré-sal?” “Este é o título de um extenso telegrama enviado pelo Consulado Americano do Rio de Janeiro ao Governo americano em Washington em 2 de dezembro de 2009”. “Nossas empresas não serão mais donas do petróleo como na Lei 9478/97. No contrato de Partilha, a união volta a ser a dona dele”.

Como este, outros cinco telegramas publicados pelo Wikileaks mostram como a missão americana acompanhou todo o processo de mudança da legislação – da Lei 9478/97, da era FHC, e que dá todo petróleo às petroleiras – para a Lei 12351/2010, que instituiu modelo de Partilha, mais favorável ao País e o mais usado pelos países grandes produtores.

Os telegramas mostram também como eles fizeram lobby para defender o interesse das petroleiras internacionais e explicitam a insatisfação do cartel das petroleiras com a nova Lei, em especial com o fato de a Petrobrás ser operadora única, pois isto impede a ocorrência dos dois maiores focos de corrupção na produção mundial do petróleo: 1) o superfaturamento dos custos de produção, em que a petroleira é ressarcida em petróleo (ex.: ela gasta US$ 2 bilhões e alega que gastou US$ 3 bilhões, recebendo US$ 1 bilhão em petróleo, de forma indevida, e livre de impostos; 2) a medição fraudulenta (ex.: ela produz 500 mil barris por dia e declara que produziu 300 mil, assim ela fica com 200 mil barris totalmente livre de impostos e royalties).

O telegrama da diretora da Exxon Mobil, Carla Lacerda, diz que a Petrobrás terá todo o controle sobre a compra de equipamentos, tecnologias e contratação de pessoal, o que poderá prejudicar os fornecedores e os trabalhadores americanos.

Já o telegrama da diretora de relações governamentais da Chevron, Patrícia Padral, acusa o Governo brasileiro de fazer uso politico do modelo. Padral reclamou da oposição: “O PSDB não apareceu neste debate”. Segundo ela, José Serra se opunha a lei, mas não demonstrava senso de urgência; “Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E, se eleito, nós mudaremos de volta”, teria lhe dito o então candidato a presidente.

Como o Serra não foi eleito, ele agora se aproveitou das denúncias de corrupção que, usadas pela grande mídia para fragilizar a Petrobrás e apresentou o projeto para anular a Lei de Partilha. Nossa mídia esconde que as petroleiras internacionais são as empresas mais corruptas e corruptoras do mundo: subornam, corrompem, depõem e assassinam governos, além de vir promovendo todas as guerras mundiais com o objetivo de se apoderar de petróleo.

Segundo os telegramas, com a lei 12351/10 aprovada, a estratégia agora é recrutar parceiros para trabalhar no Senado buscando aprovar projetos de lei ou emendas para “corrigir” a lei de partilha. Entre os parceiros estariam a FIESP, a CNI e o embaixador americano Thomas Shannon, que a Chevron pressionou pela a aprovação do seu nome no Congresso americano.

Portanto, o projeto do senador Serra, faz parte da estratégia americana de tirar a Petrobrás do caminho e se apoderar do pré-sal.

Cabe a nós brasileiros impedir esse crime de lesa-pátria.

Alemanha contradiz os EUA e apoia a Rússia

Via Sputnik Brasil

A Alemanha saiu da aliança com os EUA, apoiando a participação da Rússia na resolução no conflito sírio, escreve o Deutsche Wirtschats Nachrichten.

Entre os políticos que são a favor dessa ideia estão a ministra da Defesa, o ministro das Relações Exteriores e a chanceler alemã.

A ministra da Defesa alemã Ursula von der Leyen saudou a iniciativa do presidente russo Vladimir Putin de criar uma coalizão antiterrorista no Oriente Médio para lutar contra o Estado Islâmico, agrupamento extremista proibido na Rússia.

Em 4 de setembro o líder russo disse ter mantido uma conversa telefônica sobre a criação de uma coalizão antiterrorista com o seu colega norte-americano Barack Obama.

No sábado (12), num encontro em Berlim, Angela Merkel anunciou que, na situação atual, é impossível encontrar uma solução para a crise síria, escreve o Deutsche Welle.

“Precisamos da cooperação tanto com a Rússia, como com os EUA, de outro modo não é possível encontrar a solução do problema”, afirmou a chanceler.

Além disso, Frank-Walter Steinmeier, chefe da diplomacia alemã, apoiou a iniciativa russa.

Entretanto, as autoridades americanas reagiram ambiguamente à proposta russa, nota o Deutsche Wirtschafts Nachrichten. Parece que Washington não quer que Moscou colha os louros, resolvendo a situação na Síria, supõe o autor. É por que os EUA se comportam com cautela e avisaram sobre tentativas de envolver a Rússia na resolução da crise. Segundo a versão dos americanos, isto pode intensificar o fluxo dos refugiados em direção à Europa.

Em geral, são os neoconservadores que são contra a iniciativa russa, destaca o autor do artigo. Em comparação, Barack Obama não explicou se a iniciativa russa tinha sido coordenada com a Casa Branca.

O jornalista alemão também pressupõe que, vendo o afluxo dos migrantes à Europa, o governo norte-americano reviu a sua posição e está disposto a cooperar com Moscou no Oriente Médio.

Agência que rebaixou Brasil levou multa bilionária em fevereiro

Via BBC Brasil

Agência baixou a nota do Brasil e tirou seu grau de investimento, espécie de selo de bom pagador. Reuters

A decisão da agência Standard & Poor’s de rebaixar o Brasil em sua avaliação sobre os riscos do país não apenas poderá custar bilhões à economia do país pela fuga de investimentos como promete acirrar ainda mais a crise política envolvendo a presidente Dilma Rousseff.

Há alguns meses, no entanto, quem se via sob fogo cerrado era a própria instituição: a S&P foi ré em um processo movido pelo Departamento de Justiça dos EUA, que acusou a agência de ter mascarado o grau de risco de investimentos nos chamados papéis subprime, os vilões da crise financeira desencadeada em 2008.

Segundo as acusações, a empresa teria propositalmente ocultado chances de prejuízos.

Em um acordo extrajudicial anunciado em 3 de fevereiro, a S&P concordou em pagar ao Tesouro americano o equivalente a quase US$ 1,4 bilhão (R$ 5,4 bilhões na cotação atual). O episódio reacendeu o debate sobre a credibilidade das agências de classificação de risco e os possíveis conflitos de interesse envolvendo suas atividades.

Basicamente, a S&P e outras agências semelhantes como Moody’s e Fitch são empresas que avaliam, entre outras questões, a capacidade que uma empresa ou país tem de pagar suas dívidas.

No caso do Brasil, a agência baixou a nota do país de BBB- para BB+, tirando seu grau de investimento (espécie de selo de bom pagador). Em seu comunicado, a S&P diz que “os desafios políticos que o Brasil enfrenta continuaram a aumentar”, tendo reflexos sobre “a capacidade e a vontade do governo” em submeter um Orçamento para 2016 “coerente com a significativa sinalização de correção” da política econômica no segundo governo Dilma Rousseff.

‘Vereditos’

Os “vereditos” das agências servem de orientação para investidores em busca de oportunidades para aplicar seu dinheiro. Alguns fundos só podem, segundo as normas de seu estatuto, aplicar seus recursos em países que tenham grau de investimento.

Nos últimos anos, sua atuação gerou polêmica. Em 2011, quando a mesma S&P reduziu a nota dos Estados Unidos de AAA para AA+ pela primeira vez na história – citando “desafios fiscais e econômicos” ante o “enfraquecimento” das instituições políticas americanas -, o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman escreveu em artigo que a agência tem pouca “credibilidade” e é “a pior instituição à qual alguém deveria recorrer para receber opiniões sobre as perspectivas do nosso país (EUA)”.

“O grande deficit orçamentário dos Estados Unidos é, afinal de contas, basicamente o resultado da queda econômica que se seguiu à crise financeira de 2008. E, a Standard & Poor’s, juntamente com as outras agências de classificação de riscos, desempenhou um papel importante no que se refere a provocar aquela crise, ao conceder classificações AAA a papéis lastreados em hipotecas que acabaram se transformando em lixo tóxico”, escreveu Krugman.

Agências de risco foram acusadas de erros nas avaliações que precederam a crise do subprime nos EUA. AFP

E em 2012, o órgão fiscalizador da União Europeia para a indústria de serviços financeiros, a Esma, publicou uma danosa avaliação do trabalho das três agências, apontando problemas de transparência em suas avaliações.

No final de 2014, quando publicou seu mais recente relatório anual, a entidade manteve as críticas.

“Encontramos problemas no controle da qualidade de informação e em metodologias, por exemplo, que poderiam afetar a qualidade das avaliações de risco”, disse na ocasião o presidente do órgão, Steven Maijoor.

Concentração

Uma crítica específica girou justamente em torno da crise desencadeada na Europa no início da década. Além de rebaixar países em dificuldades, como Grécia, Irlanda e Portugal, as agências também revisaram para baixo o grau de investimento de países como França e Áustria.

Para algumas autoridades da União Europeia, isso ajudou a intensificar os problemas no bloco e desencadeou pedidos para a criação de uma agência independente europeia de classificação de crédito (as três empresas têm sede nos EUA).

S&P, Fitch e Moody’s controlam uma parcela de mais de três quartos do mercado global de avaliações de risco, o que desperta críticas sobre conflitos de interesse em seus serviços, já que acabam sendo pagas pelos mesmos clientes que deveriam estar examinando – um ponto que se tornou ainda mais polêmico no caso da Moody’s, que em 2000 lançou ações na bolsa.

Um estudo conjunto de universidades americanas, divulgado em julho do ano passado, e coordenado pelo acadêmico Shivaram Rajgopal, alega que a Moody’s teria sido mais generosa que a concorrência na avaliação de títulos emitidos por empresas ligadas a seus principais acionistas.

“É uma situação em que uma indústria de oligopólio ganhou enorme poder, então tal problema é inevitável”, disse Rajgopal.

Questionada pela BBC Brasil a respeito da crise de credibilidade das agências de risco após as críticas relativas à crise de 2008, a analista Alessandra Ribeiro, da Tendências, diz que essa “crise não foi totalmente superada, mas a questão é que até hoje não foi criada nenhuma alternativa a essas agências, e os investidores precisam dessas informações para saber onde colocar seus recursos”.

No início do ano, ao anunciar o acordo e multa sobre a S&P, o então secretário de Justiça dos EUA, Eric Holder, afirmou que a agência admitiu que “executivos da empresa se queixaram de que a empresa resistiu a rebaixar ativos de baixa performance temendo que isso prejudicasse os seus negócios”.

Mas, na mesma ocasião, a McGraw Hill – conglomerado que inclui a S&P – afirmou que o acordo “não traz nenhuma descoberta de violação da lei”.

ONU aprova resolução regulando processos de renegociação de dívidas externas

Por Monica Yanakiew | Via Agência Brasil

Cristina Kirchner discursou na ONU contra os fundos abutres

A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou nesta quinta-feira (10), por ampla maioria, uma iniciativa argentina para regular processos de renegociação da dívida externa dos países e limitar a atuação de fundos especulativos.

Apesar de a resolução não ser vinculante, para o governo argentino foi uma vitória politica: 136 países votaram a favor, 41 se abstiveram e apenas seis (Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, Israel e Japão) votaram contra.

A Argentina enfrenta uma longa batalha judicial com os chamados fundos “abutres” – aqueles que adquiriram títulos da divida argentina a preços baixos, depois do calote de 2001, e recorreram à Justiça para cobrar o devido sem desconto.

Embora sejam minoria, eles ganharam na Justiça norte-americana o direito de cobrar a totalidade dos papéis que compraram (cerca de US$ 1,6 bilhão) e de impedir o governo argentino de pagar a dvida reestruturada, até o cumprimento da sentenca judicial.

Essa decisão levou a Argentina a decretar um “default técnico”: o pais podia e queria honrar seus compromissos com os detentores de 93% dos títulos da divida (que aceitaram a proposta de reestruturação), mas foi impedido por um juiz de Nova York. Inétida, a crise inédita abriu um debate internacional.

A resolução da ONU estabelece “princípios básicos dos processos de reestruturação da divida soberana”. Estabelece ainda que essa reestruturação “não deve ser frustrada ou impedida por qualquer medida abusiva”. Apesar de a medida não modificar a decisão da Justiça norte-americana, o governo argentino comemorou a vitória diplomática.

“Não pode haver credores que cobrem dois pesos e outros milhões só porque especularam”, disse a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, em discurso em cadeia nacional de rádio e televisão. Segundo ela, a resolução foi “um reconhecimento da soberania dos estados em formular suas politicas macroeconômicas e reestruturar suas dividas”.

É a Globo que dá ao Brasil uma nota de mau pagador

Por J. Carlos de Assis

Entre todas as patifarias ideológicas vomitadas pela Grande Mídia, sobretudo pela TV Globo, relativamente às decisões das chamadas agências de risco, a mais sórdida é a que define a nota emitida por elas como um atestado de bom ou mau pagador. Ora, como se pode dar atestado de mau pagador antes que se saiba que a empresa ou país pagaram suas obrigações? Seria um atestado de não pagamento futuro? Se é assim, é melhor para o país que não pague agora; assim, ficará com algum dinheiro em caixa para eventualidades!

É claro que isso tudo é um absoluto nonsense. Não há a mais remota possibilidade de o Brasil suspender o pagamento de suas dívidas em função do que dizem as agências de risco. Temos reservas internacionais de quase 400 bilhões de dólares. É verdade que, sobretudo por erros acumulados na política cambial do passado, e sobretudo por causa da estúpida taxa de juros, temos também muitas dívidas externas de curto prazo. Contudo, o balanço nos é ainda favorável. E não precisamos, para isso, de nota de bom pagador de agências de risco.

O mais repugnante, porém, não é o conceito em si de mau pagador que se atribui ao país por causa da agência mas o fato extraordinário de que não é a agência, em si, que usa essa terminologia – ela libera apenas uma nota -, mas a forma como a TV Globo, por sua conta e risco, “explica” a nota. São os jornalistas da Globo, como Bonner, que dizem que a nota é um “atestado de mau pagador”. Como consequência, caindo a nota, perdemos o status de bom pagador mesmo que nada nos tenha sido cobrado e a economia funcione como antes.

A embromação não para aí. A nota das agências é um expediente tremendamente arbitrário. Se tivesse um mínimo de cientificidade não teria havido o desastre de 2008, no qual todas as agências de risco – rigorosamente, todas – haviam dado nota de “bom pagador” AAA a empresas, bancos e títulos que, por suas fraudes, quase destruíram o sistema financeiro mundial. Sob aperto do Congresso para explicar o que, afinal, havia acontecido, todas combinaram a mesma resposta: O que fizemos foi dar nossa opinião, mais nada.

Então qual é a razão para a Grade Imprensa dar tanta atenção às agências? Simplesmente porque elas funcionam como a vanguarda dos interesses financeiros, e são os interesses financeiros que dão suporte à Grande Imprensa. No caso atual, a agência está dando um sinal para que o Governo brasileiro mantenha taxas de juros básicas extorsivas e estrangule o orçamento público para tapar o déficit primário, irrisório em relação ao orçamento como um todo, o qual, caso mantido, não traria qualquer consequência negativa para a economia real.

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José Carlos de Assis é economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor do recém-lançado “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, ed. Textonovo, SP. Pode ser adquirido pela Internet.