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A ascensão liberal, a falência do modelo e o caminho a ser tomado

Casacom/Reprodução

Por Rennan Martins

O avanço da direita liberal-conservadora, iniciado após Pinochet, Thatcher e Reagan, foi de tamanho ímpeto que, na atualidade, a ascensão de um genuíno social-democrata, a saber, Rafael Correa, se dá num projeto político alcunhado Revolución Ciudadana. O espectro do debate político-econômico foi tão puxado pra direita, que propor um Estado de bem-estar social é revolucionário.

Correa, que tem mandato até 2017, já fala em emenda constitucional no tocante a reeleição. Tem consciência da dificuldade que é enfrentar a reação, cada vez mais inescrupulosa e virulenta.

Em discurso comemorativo ao aniversário da Revolução Liberal do Equador, ocorrida em 1895, as palavras mais enérgicas que proferiu foram em relação a imprensa corporativa, definida inúmeras vezes como “corrupta e corruptora”. O papel de oposição suja exercido pela grande mídia na América Latina é facilmente constatado em todos os países que questionam, ainda que minimamente, a abordagem econômica neoliberal. A própria Judith Brito, na época, presidente da Associação Nacional de Jornais, admitiu.

Saindo do país vizinho, entrando em nossas fronteiras, o assunto reeleição, projeto político e mídia está ainda mais quente. Ignacio Ramonet, em seu publicação intitulada Brasil, futebol e protestos, considerou que nas próximas eleições presidenciais brasileiras está em jogo não só o futuro do país, mas de todo o continente abaixo dos Estados Unidos. A atual conjuntura dá sinais de que somente por aqui há correlação de forças no sentido da construção de um regime mais inclusivo e participativo.

Wallerstein, no ano passado, já apontava, em seu artigo Capitalismo, austeridade e saídas, que vivemos um período de bifurcação, o qual resultará num regime mais autoritário, pra garantir a opulência do 1%, ou, no sentido inverso, atingiremos algo mais democrático e igualitário. Pontuou ele que a instabilidade que o capitalismo financeiro desregulado produz nos força a uma transição.

Soma-se a essa visão o livro Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, que já entrou pra história, ao demonstrar, com estatísticas exaustivas, que o capitalismo é um regime oposto a democracia, pois paga melhor a riqueza que o trabalho, construindo então uma oligarquia.

A imprensa-empresa lançou seu time de articulistas, que, de forma afobada têm tentado reduzir os danos dessas revelações. Porém, a histeria e insegurança que demonstram perante Piketty diz mais do que as críticas que dirigem a ele.

Em concomitante, assistimos aqui e ali declarações de mea-culpa de algumas lideranças do capital. O Valor Econômico do dia 27 do mês passado publicou artigo de Paul Polman, CEO da Unilever, e Lynn Forester de Rothschild, CEO do E.L Rothschild no qual eles diagnosticam que a exclusão social massiva ameaça a ordem social, e, de forma intrigante, assumem que somente “uma ação conjunta de empresas e outras instituições” é capaz de construir uma alternativa a nosso modelo em crise.

Mas o que importa nesse ponto é o próximo passo a ser dado. Se diante da bifurcação continuarmos seguindo receitas excludentes, o resultado será o fortalecimento do autoritarismo e a consolidação da plutocracia, extinguindo o que ainda nos resta de democrático. Se, por outro lado, encamparmos a construção coletiva de um arranjo mais inclusivo e participativo, temos uma boa perspectiva.

Os neonazistas da Ucrânia aumentam dramaticamente as provocações

Via The Vineyard of The Saker, tradução Vila Vudu

Agora, vocês provavelmente já ouviram: o presidente da Gazprom, Alexei Miller, já anunciou[1] que a Rússia está trabalhando em regime de “pagamento no pedido” para venda de gás para a Ucrânia; e Lavrov anunciou[2] que “não tem o que conversar” com o palhaço Ukie[3] atualmente no papel de Ministro de Relações Exteriores, Andrii Deshchytsia, e que “não se encontrará com ele.”

Diferente do sempre calmo e impecavelmente diplomático Lavrov, Miller não fez esforço algum para disfarçar desgosto e desprezo pela junta em Kiev que, para ele, não passa de bando de chantagistas e assaltantes. Foi particularmente visível, quando disse que a quantidade de gás que os Ukies têm como ‘reservas’ é exatamente igual à quantidade de gás pelo qual se recusam a pagar.

Em português bem claro: os Ukies roubaram gás da Rússia para encher suas reservas e agora vão começar a roubar gás comprado pelos europeus. Gente fina. Muito “euro-compatíveis”…

Minha primeira reação foi de júbilo, porque Lavrov e Miller afinal manifestaram desagrado e trataram o líder da junta com o desprezo que ele merece. Mas, na sequência, ocorreu-me pensamento muito desagradável: não seria exatamente o que os Ukies desejavam?

Como já escrevi um milhão de vezes – a junta em Kiev está condenada; o Banderastão não é viável; a Ucrânia está em ruínas e terminalmente falida, e ninguém no ocidente pode mudar isso. E aposto que os Ukies também sabem disso. É por isso que, do ponto de vista deles, é vital envolverem os russos, porque a Rússia é o ÚNICO bode expiatório possível sobre o qual podem jogar todas as culpas.

E, agora, a Rússia “cortou o gás”, e o ministro de Relações Exteriores da Rússia anunciou que “não vai se reunir” com seu “contraparte ucraniano”. Sabem como a máquina de propaganda Ukie apresentará tudo isso? É. Etc. etc. etc. A imprensa-empresa repetirá tudo, tão sempre igual que já nem tem graça.

Mas há algo que me preocupa mais que isso: a tática dos Ukie é tática sólida. Por quê?

Pensem bem. Se um lado está realmente desesperado para provocar o outro lado, quais as chances de que ele fracasse? Se eu e você nos encontramos e eu me dedico integral e completamente, com toda minha energia e minha criatividade, ao único objetivo de atrair sua atenção e forçar você a responder, quanto tempo você imagina que será necessário, para eu alcançar o meu objetivo?

O mesmo se aplica aqui. A única coisa que interessa aos Ukies é escalar e escalar e escalar cada vez mais, e, dado que não interessa o que façam, as Psakis do ocidente sempre higienizarão qualquer imundície, aprovarão e até elogiarão, não há limite para o que a junta neonazista pode fazer. Reproduzo aqui um pequeno trecho do que “Juan” escreveu-me hoje:

Kramatorsk como já escrevi está sendo literalmente demolida, a cidade inteira está sendo bombardeada intensamente, com Grad e Hurricane MLRS. Tudo: áreas industriais, shopping-centers, infraestrutura, áreas residenciais, tudo está sendo demolido à bomba. Serão centenas, se não mil, ou mais, civis mortos. É a atrocidade necessária para trazer os russos? Não sei. Ainda não.

Duas cidades europeias estão sendo convertidas em novas Oradour-sur-Glane,[4] e ninguém no ocidente faz caso.

Alemanha e França aprovam leis que proíbem a pesquisa histórica honesta sobre as atrocidades cometidas pelos nazistas na 2ª Guerra Mundial, e ao mesmo tempo não apenas negam, mas, sim, apoiam e promovem novas atrocidades nazistas, num país que, dizem eles, é parte da Europa. Até que ponto essa loucura ainda chegará?!

Está melhorando. Todos – e significa todos-mesmo – sabiam perfeitamente que os Ukies, mais cedo ou mais tarde, começariam a roubar gás europeu. Era portanto bem evidente que a solução certa seria ter um gasoduto Ramo Norte e um gasoduto Ramo Sul que contornasse o Banderastão, para garantir que gás EUROPEU (é gás europeu, porque foi pago pelos europeus, que o compraram!) chegasse ao comprador. Mas, não! A União Europeia critica a Bulgária, McCain faz uma viagenzinha a Sofia e, voilà, os búlgaros suspendem a construção do Ramo Sul, suspensão que, é claro, só prejudicará a União Europeia (não a Rússia nem os EUA).

Assim sendo, resumamos o que temos:

A junta neonazista em Kiev não pode sobreviver e sabe disso;

Tio Sam está desesperado para empurrar a Rússia para uma intervenção militar; e

A União Europeia é o que, nas prisões norte-americanas, se chama delicadamente de “Mariazinha”.

Assim sendo, quais as reais chances de os russos não se deixarem provocar nesse contexto? Na minha avaliação: essas chances são bem perto de zero.

O que Lavrov e Miller fizeram hoje ou, melhor dizendo, foram forçados a fazer hoje, é só um primeiro passo. Na essência, ainda que Miller e Lavrov tenham feito a coisa certa, apenas deram aos Ukies exatamente o que os Ukies queriam. E isso é assustador. Porque esse ‘sucesso’ alimentará a fúria dos Ukies e virão novas tentativas para forçar a Rússia a reagir. O que mais acontecerá?

Como escrevi ontem, “Não descarto que ataquem com bombas ou, até, com mísseis, digamos, um jardim de infância na Crimeia ou até em Belgorod. Podem também sequestrar o office-boy de uma empresa russa que ainda esteja operando em Kiev ou, em ato de extremo heroísmo, podem massacrar um miniônibus com uma tripulação da Aeroflot a caminho do aeroporto.” Podem também atacar um posto russo de fronteira, bombardear um barco russo no Mar Negro, ou, até, explodir uma igreja do Patriarcado de Moscou. Ok. E então? A Rússia persistirá nos protestos verbais?

Não estou inventando nada. Houve pelo menos um caso, de um Su-25 ucraniano que penetrou espaço aéreo russo para atacar um posto de fronteira controlado pelas Forças de Defesa de Novorossyiia. Os russos poderiam *facilmente* derrubar o Su-25 (têm a tecnologia necessária para fechar grande parte de todo o espaço aéreo da Novorossyiia, sem nem precisar mover uma única bateria de mísseis ou radar através da fronteira). Mas decidem não fazê-lo, simplesmente porque se o fizerem terão de provar que o invasor estava em espaço aéreo russo; mas muito antes que possam prová-lo, a versão Ukie (covarde agressão russa, é claro) já estará na primeira página de todos os veículos de todas as empresas-imprensa do mundo.

Lembram-se de o quanto demorou até que o ocidente afinal, e muito relutantemente, admitisse que “sim, está bem: foi o lado da Geórgia que atacou primeiro”? E quantos, até hoje, sequer ouviram falar dessa admissão de culpa?

Tenho total certeza de que o pessoal no Kremlin sabe perfeita e totalmente disso tudo e, a julgar por o que o Kremlin anda dizendo, a decisão já foi tomada em Moscou: esperar o máximo possível, para obter justificação para a intervenção russa (inevitável), e que seja a mais absolutamente clara possível. Entendam, por favor, que a Rússia não precisa organizar qualquer movimento específico de preparação para intervir na Novorossia. Toda as bobagens que a OTAN repete, sobre movimento de tropas russas e concentração de soldados ao longo da fronteira é só propaganda dirigida aos civis.

Fato é que Putin pode ordenar e, em 30 minutos, todo o espaço aéreo do Donbass estará protegido por uma zona aérea de exclusão; nos 60 minutos seguintes praticamente todas as posições de artilharia ucraniana e postos de comando estarão destruídos por mísseis, depois do que as Forças de Defesa da Novorossia (NDF) (apoiadas por mais alguns voluntários) serão basicamente suficientes para assumir total controle no Donbass. Quanto aos esquadrões-da-morte dos Ukie, terão de escafeder-se o mais depressa que consigam. O único problema é acertar o momento certo.

O Kremlin espera ansiosamente por qualquer sinal de que os europeus estejam começando a perceber o mostro que libertaram na Ucrânia. Pessoalmente, não acredito que os europeus criarão, de repente, consciência ou espinha dorsal, e tomarão conhecimento da operação de assassinato em massa que está em andamento na Novorossia. Continuo com a opinião de que a intervenção russa é inevitável.

Enquanto isso, as provocações continuarão. Acabo de ver um vídeo de dois jornalistas do canal russo de TV Zvezda News, que foram sequestrados por um esquadrão-da-morte ucraniano, em troca dos quais os Ukies estão pedindo resgate de $200 mil. Não há muitos detalhes; os dois foram terrivelmente espancados, um tinha um inchaço sob o olho, o outro estava surdo do ouvido esquerdo. Também há notícias de uma tentativa de explodir o consulado russo em Odessa, mas foi evitada (pela polícia local?) e a coisa terminou em pancadaria. E, claro, nesse momento continuam a chover bombas e foguetes sobre Kramatorsk e Slaviansk – os terroristas continuam em plena atividade.

Os Ukies ‘vencerão’, no sentido de que conseguirão disparar uma intervenção russa, que eles farão o possível para converter em guerra. Se conseguirem, será guerra curta, mas o dano político será imenso. Por tudo isso, suponho que o argumento definitivo para que Putin espere o mais que possa é obter a máxima porcentagem possível de indignados na população russa, antes de se mover, de forma que se veja que não foi “decisão de Putin”, mas “exigência do povo russo”.

Assim sendo, concordo plenamente com “Juan”: ainda vai piorar muito, antes de começar a melhorar, e muita gente vai morrer. Mas no final a Rússia – e nós todos – venceremos. Disso, não há dúvida alguma.

The Saker

Referências:

[1] 16/6/2014, BBC, http://www.bbc.com/news/world-europe-27862849

[2] http://en.itar-tass.com/russia/736278

[3] http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2014/06/kindergarten-nuthouse-zoo-you-pick.html

[4] Oradour-sur-Glane (Occitano: Orador de Glana) é uma comuna no departamento de Haute-Vienne, na região de Limousin no centro oeste da França. A população da cidade foi morta dia 10/6/1944, todos, inclusive mulheres e crianças, por uma companhia da Waffen-SS alemã. Uma nova cidade foi construída depois da guerra em área próxima, por ordem do então presidente da França, Charles de Gaulle; as ruínas da cidade original foram preservadas como museu e memória da guerra. (Em http://en.wikipedia.org/wiki/Oradour-sur-Glane) [NTs].

Governo golpista da Ucrânia mata 8 civis após bombardear a cidade de Lugansk

A cidade de Lugansk, um dos pólos separatistas da Ucrânia, foi bombardeada pelo governo de Kiev, que assumiu controle do país após um golpe de Estado, apoiado pela União Europeia e os Estados Unidos. O ataque, realizado no último dia 2, teve como alvo um prédio público da administração da cidade e resultou em 8 mortos segundo a agência RT.

Em encontro na Bolívia, países emergentes pedem reforma da estrutura financeira mundial

Via Opera Mundi

Cúpula foi convocada para celebrar sua primeira reunião há 50 anos. Agência Efe/Reprodução

Durante encontro do G-77, países criticaram economia “orientada ao lucro” e apoiaram Cuba contra o bloqueio econômico mantido pelos EUA

A Cúpula do G-77 mais China, realizada em Santa Cruz de la Sierra, reativou o organismo internacional após meio século de sua fundação. Trata-se de um “relançamento para que siga trabalhando com políticas de complementaridade e solidariedade”, disse o presidente boliviano e anfitrião da reunião, Evo Morales. A erradicação da pobreza, a luta contra a desigualdade, as críticas a uma economia “orientada ao lucro” e o “direito universal aos serviços básicos” deram a tônica do encontro liderado por presidentes, primeiros-ministros e altos funcionários que representam 60% da população mundial.

O grupo aprovou, em sua declaração final de 242 pontos, que a defesa da soberania das nações sobre seus recursos naturais, a importância de tornar mais leve o peso da dívida externa e a necessidade de um maior compromisso internacional perante os efeitos da mudança climática são prioridades para os Estados em desenvolvimento. O encontro de dois dias foi concluído neste domingo (15/06).

Entre os latino-americanos, além do presidente anfitrião, Evo Morales, estiveram presentes os mandatários da Venezuela, Nicolás Maduro; de Cuba, Raúl Castro; da Argentina, Cristina Kirchner; de Equador, Rafael Correa; do Peru, Ollanta Humala; de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén; do Uruguai, José Mujica; e do Paraguai, Horacio Cartes.

“O neoliberalismo gerou uma crise econômica global que empurrou milhões de pessoas para a pobreza extrema. É hora de caminhar em outro sentido para construir uma ordem social mais justa”, declarou o presidente cubano, Raúl Castro em seu discurso no evento.

Outro mundo

Evo defendeu, em sua fala, nove tarefas para “construir a irmandade planetária dos povos”. Entre os princípios aprovados pelo documento estão a erradicação da pobreza, a promoção da multipolaridade, a descolonização, a integração e a cooperação sul-sul. No âmbito financeiro, os participantes defenderam a soberania dos Estados e povos sobre os recursos naturais e exortaram a realização de uma reforma da atual estrutura financeira mundial.

O texto final convoca o respeito à “independência dos Estados, a soberania nacional, a integridade territorial e a não ingerência em assuntos internos dos Estados”.

Os participantes do G-77 também condenaram a “continuação da ocupação militar israelense no território palestino” e reafirmaram os direitos do povo palestino à autodeterminação, à independência e à disposição sobre os recursos naturais, incluindo a terra, a água e os recursos energéticos. Os emergentes também condenaram e pediram o fim do bloqueio econômico e comercial que os Estados Unidos mantêm contra Cuba.

Na mesma linha, a presidente argentina, Cristina Fernández, afirmou que o “anarco capitalismo” é responsável pela “unilateralidade dos organismos internacionais hegemômicos”. Os países presentes apoiaram a demanda da Argentina pelo restabelecimento da soberania sobre as ilhas Malvinas, hoje sob domínio da Grã Bretanha.

Entre as propostas apresentadas por Evo estão a criação de um “Instituto para a descolonização”. Agência Efe/Reprodução

Em sua exposição, o mandatário uruguaio, José Pepe Mujica, ressaltou que é necessário instaurar uma “mudança cultural”: “não é fácil mudar as relações de propriedade como as culturais, (mas) é preciso fazê-lo, porque se não há mudança cultural, não há nada”.

Outros temas

Também foram tratadas questões como meio ambiente, o combate à pobreza e Direitos Humanos. Como a reunião não abordou o controle dos recursos naturais e a industrialização, será realizado um novo encontro, com os ministros de mineração e hidrocarbonetos em agosto na cidade boliviana de Tarija.

O grupo também decidiu que uma nova reunião será realizada com a coordenação da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial, e organismos econômicos de América Latina e Caribe, África, Ásia e Pacífico e Ásia Ocidental.

Petrobras foi a única grande operadora de petróleo a crescer produção nos últimos 6 anos, diz estudo

Via Opera Mundi

Sede da Petrobras, no Rio; empresa foi a única entre as grandes a registrar aumento de produção de barris de petróleo nos últimos 6 anos. Jim Killock/Flickr

Produção subiu da média de 1,918 milhão de barris de petróleo por dia em 2007 para 2,059 milhões em 2013, de acordo com consultoria britânica

A Petrobras foi a única empresa entre as grandes do setor a registrar aumento de produção de barris de petróleo nos últimos seis anos, de acordo com um estudo da consultoria britânica Evaluate Energy. O dado foi divulgado pela companhia no último sábado (14/06).

De acordo com o levantamento, a produção de petróleo da Petrobras subiu da média de 1,918 milhão de barris por dia em 2007 para 2,059 milhões em 2013. Isso representa um aumento de cerca de 140 mil barris por dia, se forem levados em conta os campos operados dentro e fora do Brasil.

A companhia também prevê chegar ao final de 2014 com crescimento de 7,5% em relação a 2013 (com este número podendo variar 1 ponto percentual para mais ou para menos).

A produção na província do pré-sal tem acompanhado essa tendência de crescimento, informou a Petrobras. Segundo a companhia, a produção nesta província já ultrapassou a marca de 480 mil barris diários nos campos das bacias de Campos e Santos.

O número, que é recorde, se deve à entrada em operação do poço CRT-49, que interligado à plataforma P-48, no campo de Caratinga – localizado, por sua vez, na bacia de Campos.

Mauro Santayana: Europa e seu tiro no pé

Por Mauro Santayana, em seu blog

(Hoje em Dia) – Plamen Oresharski, o Primeiro-Ministro da Bulgária, acaba de anunciar a suspensão das obras de um gasoduto a ser construído pelos russos, que serviria para levar gás à Europa, sem passar pela Ucrânia.

A decisão foi tomada após reunião de membros do governo búlgaro com uma “delegação” chefiada pelo Senador republicano John Mcain, que se deslocou com numerosos diplomatas para a capital búlgara, Sofia, para pressionar o governo .

Washington quer impedir a construção do gasoduto que passa pela Bulgária, por uma razão simples. Com ele, os russos teriam rota alternativa para levar seu gás à Europa, e poderiam fechar o gasoduto que passa pela Ucrânia quando quisessem, usando dessa prerrogativa para manipular os ucranianos.

Surpreendentemente, em um gesto de abjeta sujeição aos Estados Unidos, a União Europeia apoiou a suspensão das obras, sob alegação de que há dúvidas sobre o processo de escolha dos vencedores da concorrência, e que é preciso assegurar que a obra esteja em conformidade com a legislação européia.

Gennadi Timechenko, que lidera o consórcio vencedor, é um dos empresários russos que está na lista das personalidades sancionadas pelos Estados Unidos depois dos conflitos na Ucrânia.

Sem alternativas para a obtenção de energia, a Europa confia demais no gás de xisto norte-americano, que poderia abastecê-la no futuro. Para que esse gás chegasse ao continente europeu seria necessário gastar dezenas de bilhões de dólares em navios, terminais portuários e infraestrutura. Além disso – e mais importante – descobriu-se agora que as reservas norte-americanas desse combustível fóssil seriam pelo menos dez vezes menores do que foi divulgado inicialmente, devido a falhas da empresa que fez o levantamento de seu potencial para o governo dos EUA.

A situação da Rússia, ainda nesse aspecto, é mais confortável. Na hipótese, improvável, de que a Europa conseguisse diversificar suas fontes de suprimento, trazendo gás dos EUA, ou explorando gás de xisto diretamente, com risco de destruição do subsolo e da contaminação do meio ambiente, os russos teriam como clientes a Índia e a China, com quem acabam de assinar o maior contrato de fornecimento de gás da história, e seus bilhões de habitantes.

Ao endossar a pressão norte-americana sobre o governo búlgaro, a Europa não se tornará menos, mas ainda mais dependente do gás russo, e de um único caminho para obtê-lo. O que ocorrerá se, daqui a alguns meses, a situação na Ucrânia evoluir para uma guerra civil aberta e esse gasoduto for sabotado, e tiver seu funcionamento interrompido em pleno conflito? Os russos ficarão sem receber, a cada mês, o seu dinheiro, mas os europeus congelarão, no inverno, até a medula, sem a alternativa que poderia haver, dentro de um ano, com a construção do ramal que passaria pela Bulgária.

Pepe Escobar: Geopolítica da Copa do Mundo

Por Pepe Escobar, via Portal Vermelho

Seleção alemã confraterniza com índios Pataxó na Bahia. Vermelho/Reprodução

Numa das imagens que, até aqui, definem a Copa do Mundo, vê-se a Mannschaft alemã – a seleção alemã de futebol – confraternizando com índios pataxó, a poucas centenas de metros de distância de onde o Brasil foi “descoberto”, em 1500. Praticamente, um redescobrimento dos trópicos exóticos.

E há também a Seleção Inglesa, deitando e rolando à beira-mar, numa base militar, com o Pão de Açúcar como deslumbrante pano de fundo, sob uma parafernália de equipamentos e respectivo especialista científico em umidade e ventiladores industriais (afinal, haverá o “Duelo na Selva” contra a Itália, no próximo sábado, “nas profundezas da Floresta Tropical Amazônica”, como dizem tabloides britânicos).

A Copa do Mundo – o maior espetáculo da Terra – começa no momento em que uma incansável campanha de propaganda de demonização contra-China e contra-Rússia, inventada no Ocidente (estados-fregueses incluídos), fez subir ao topo os níveis de histeria universal.

Significa que o Brics estão no olho do alvo; no caso do Brasil, é a potência emergente localizada estrategicamente sobre a parte mais rica da Floresta Tropical Amazônica, em tempos em que uma integração progressista da América Latina ousou reduzir a papel higiênico (Marca Registrada) a Doutrina Monroe.

Nos anos recentes, o Brasil tirou pelo menos 30 milhões de pessoas da miséria. A China investe em atenção pública à saúde e à educação. A Rússia recusa-se a se deixar abusar, como nos anos de Ieltsin, o bebum. Nos anos recentes, a Copa do Mundo tem sido assunto, sempre, de países BRICS: África do Sul em 2010, Brasil agora, e Rússia em 2018. Qatar em 2022 – como acontece sempre – parece mais um programa de chantagem movido a petrodólares do Golfo, que saiu pela culatra.

É interessante verificar como a City de Londres – que ama o dinheiro russo, anseia por investimentos chineses e tem uma quedinha pelo poder soft do Brasil – está analisando o quadro. Com um toque de humor britânico, poderiam facilmente interpretar o Duelo na Selva, como a OTAN combatendo na muito ambicionada floresta tropical (pensem nas guerras da água que virão em futuro próximo).

E então, apenas dois dias depois de iniciada a Copa do Mundo, a Bolívia, vizinha do Brasil, estará hospedando nada menos que uma reunião de cúpula do G-77+China – de fato, é reunião das 133 nações-membro da ONU, a coisa toda lá presidida pelo presidente Evo Morales, da Bolívia, que é uma espécie de primo andino distante dos Pataxós que tanto fascinaram os alemães.

Trata-se, pode-se dizer, de uma reunião da Alba (Aliança/Alternativa Bolivariana para as Américas e que inclui Cuba) e do Brics (só a Rússia não estará presente). Os excepcionalistas norte-americanos estão furiosos, porque o Brics estão conduzindo a transição na direção de um mundo multipolar – que já existe no futebol (pense em Espanha, Alemanha, Itália, de um lado; e Brasil, Argentina e Uruguai, do outro).

E tem a ver também com promover o futebol, com uma espécie de contragolpe Sul-Sul à hegemonia do norte industrializado. Brasil, China e Rússia, com suas diferentes estratégias, todos apostam em mais integração sul-sul – do Banco do Sul, ao banco de desenvolvimento do Brics, em constituição (há reunião de cúpula do Brics, crucialmente importante, mês que vem, em Fortaleza), na via para um sistema mais igualitário que, idealmente, poderia ser financiado por uma porcentagem da dívida externa, uma porcentagem dos gastos militares e um imposto global sobre transações financeiras especulativas.

E sempre vale a pena recordar que o G77 é sobre descolonização; nada de Império de Bases; nada de interferência pelo complexo orwelliano/Panopticon da Agência de Segurança Nacional dos EUA no Sul Global.

Agora comparem tudo isso com a Copa do Mundo: Adidas; Coca-Cola; Hyundai; Kia Motors; Emirates; Sony; Visa; Anheuser-Busch InBev (Budweiser); Castrol; Continental; Johnson & Johnson; McDonald’s; Itaú; Fifa, festa e entretenimento de 2014-Brasil, que a bíblia da indústria, Advertising Age apresentou como “um Super Bowl todos os dias, o mês inteiro”.

Em firme oposição, há uma coorte de movimentos Sul-Sul sociais/de solidariedade que denunciam tudo que, de ruim, esteja envolvido na super empreitada, de neocolonização pós-capitalista hardcore a furiosa criminalização dos mais pobres.

E entre esses movimentos, não surpreendentemente, lá está o ícone do Sul Global, Diego “Mão de Deus” Maradona, que disse essa semana que:

“… a Fifa tira US$4 bilhões (da Copa) e a nação campeã só US$35 milhões. Não está certo. É a empresa desfechando golpe mortal contra o futebol.”

Futebol é guerra

Muito se tem ouvido sobre o paralelo entre a globalização hiper-capitalista – como se vê bem graficamente na Copa do Mundo e nos meganegócios do futebol contemporâneo – e o nacionalismo.

Ora, o mundo não é e jamais será plano. É um Himalaia/Pamir/Hindu Kush de diferentes altitudes da desigualdade, exposto a avalanches de neve, de comércio, trocas, fluxos de imigrantes e terremotos tecnológicos. Nada disso desfaz os tecidos/fibras nacionais. Ainda é “nós” contra “eles”, com o Sul Global a definir norte-americanos e europeus como “gringos”, tanto quanto levas do Norte industrializado a patrocinar/lucrar no/do “exótico” Sul Global.

Nada há de pós-nação ou pós-nacional na Copa do Mundo. No terreno da geopolítica mais hardcore, a supercentralizada União Europeia vai-se fragmentando sob o peso de um bando de partidos nacionalistas de direita ou de extrema-direita; no futebol, a maior diferença, na comparação com a geopolítica hardcore, é que não há só uma potência excepcionalista, mas um punhado, de Espanha ao Brasil, de Alemanha a Itália, de Argentina a França.

Rinus Michels, técnico do “Carrossel Holandês”, seleção nacional que deslumbrou o mundo em 1974 (mas não levou a taça), disse certa vez que futebol é guerra (feito Samuel Fuller, diretor de cinema e gênio solitário, que disse que o cinema é um campo de batalha). A Copa do Mundo é guerra por outros meios; um duelo oficial, permitido, ritualizado, entre nacionalismos. É questão, só, de escolher sua tribo; só depois que sua tribo já tiver saído da competição, escolha uma tribo substituta – que, para qualquer epicuriano afetado atenderá provavelmente pelo nome de Itália. Afinal, é o mais entusiasmante hino nacional. A melhor comida. Os melhores ternos. E, claro, eles também têm Andrea “O Mago” Pirlo.

Novo jeito de jogar bola?

Brasil, justamente elogiado como Terra do Futebol, é também líder mundial na redução das emissões de carbono, segundo pesquisa recentemente publicada na revista Science – e simultaneamente conseguiu aumentar a produção agrícola, ao mesmo tempo em que diminuiu o desmatamento, salvando mais florestas.

Mas, como sempre em tudo que tenha a ver com Brasil e Copa do Mundo, tudo se misturou – metáfora ao vivo do típico conjunto variado de problemas que o Sul Global tem de enfrentar. A presidenta Dilma Rousseff do Brasil foi forçada a apelar ao estereótipo do brasileiro “homem cordial”, e falou muito de tolerância, diversidade, necessidade de diálogo e até de sustentabilidade, tanto quanto condenou o racismo e os preconceitos, para exortar a população a dar um tempo nas dificuldades locais e do dia a dia, para receber bem uma legião de visitantes estrangeiros.

Quase desnecessário, se se considera que o brasileiro médio é naturalmente caloroso e muito amigável; mas o demônio está nos detalhes – por exemplo, em pelo menos 200 mil pessoas deslocadas de onde moravam, ou, no mínimo, ameaçadas de expulsão, para dar lugar a grandes obras para aumentar a “mobilidade urbana”. Ok. Só 10% dessas obras foram concluídas, em vários casos por culpa da corrupção massiva. No Rio de Janeiro, não se investiu um único real num sistema de transportes caótico usado pelo crescente proletariado das periferias urbanas.

Lula, o ex-presidente ainda super, super, super popular, disse, quando estava na presidência, em 2009, que não seria gasto nenhum dinheiro de impostos, na Copa do Mundo. De fato, não, diretamente. Os financiamentos saíram do BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, que empresta dinheiro a bancos. E as empresas que construíram os novos estádios também se beneficiaram de várias isenções de impostos.

Resumo da história é que o governo da presidenta Dilma acabou perdendo a batalha “midiática”. Várias vezes a presidenta teve de explicar que a Copa custaria o correspondente a uma pequena fração do que é investido em saúde e educação (tema sobre o qual ainda cabe discussão). Pode dizer que metade da população brasileira ou não entendeu ou não foi convencida.

E nada garante, até agora, que uma vitória do Brasil na Copa do Mundo garanta automaticamente a reeleição da presidenta Rousseff. [1] Mas é preciso dizer que as recentes ondas de protesto, onda após onda, começaram, de fato, antes do governo da presidenta Rousseff. É como se todos esses diversos movimentos sociais estivessem manifestando agora, concentradamente, o mais radical e utópico dos desejos: apagar, de uma só varrida, séculos de injustiças perpetradas pelas elites brasileiras notoriamente rapinantes e arrogantes e ignorantes – as quais mesmas elites sempre implementaram políticas de total exclusão política e econômica, baseadas na mais abjeta segregação racial e de classe.

Significa que o drama todo não é simplesmente sobre tendências “antineoliberais” ou “anticapitalistas”. Vai muito além do nacionalismo. E bem pode ser muito mais profundo e importante que um manual de revolução que use o futebol como pretexto. Seja qual for o resultado dessa guerra que se trava em torno do futebol, mesmo assim o Brasil ainda poderá ensinar boa lição a todo o Sul Global.

Na vitória, ou mesmo na derrota gloriosa, talvez o Brasil encontre a estamina necessária para tentar uma nova abertura estratégica – um novo modo, novo, não arrogante, não neocolonial, não armado, não excepcionalista de liderar e usar o poder, para construir alianças e firmar grandes acordos geopolíticos em mundo multipolar. Um jeito novo de jogar o jogo. Que comece, então, o Novo Grande Jogo.

Nota dos tradutores:

[1] 8/6/2014, The Guardian em: “Brazil’s politicians banking on World Cup victory to help soothe unrest”

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

Livros:

- Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War, Nimble Books, 2007.

- Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.

- Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

Fonte: Rede Castorphoto. Traduzido pelo coletivo Vila Vudu