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WikiLeaks vaza documentos sigilosos sobre acordo comercial internacional

Via Brasil Post

Telegraph/Reprodução

O ciberativista e criador do WikiLeaks, Julian Assange, comemorou na quinta passada (19) seu segundo ano na embaixada do Equador em Londres com o que sabe fazer melhor: vazar documentos secretos.

Há várias horas, o Twitter do WikiLeaks avisava que publicaria documentos que afetam 50 países e 68% do livre comércio internacional. Em seguida, foi divulgado um documento secreto do “Trade In Services Agreement” (Tisa), um acordo comercial e internacional de serviços criado pelos Estados Unidos em 2012.

Os protagonistas das discussões são EUA e União Europeia, mas participam do Tisa 50 países no total. No início, os grandes emergentes como China, Brasil e Índia, se recusavam a fazer parte do Tisa, dizendo que isso diminuiria as chances de acordo na Rodada Doha, que está paralisada há vários anos. Mas a China recentemente se mostrou interessada. Já o Brasil manteve-se à margem das discussões, e foi criticado por isso.

As discussões no Tisa foram centradas, inicialmente, na atualização das regras existentes do Acordo de Serviços. EUA e Japão submeteram as primeiras ofertas de acesso aos mercados, impulsionando assim compromissos efetivos de mais liberalização dos participantes.

Segundo o WikiLeaks, o acordo de livre comércio prevê a “liberalização” de tudo, até de dados pessoais. “O documento de serviços financeiros estipula regras que ajudam na expansão de multinacionais – com sedes em Nova York, Londres, Paris e Frankfurt – sobre outros países evitando barreiras regulatórias”, diz o WikiLeaks. A organização também afirma que os documentos provam que os EUA estão interessados em aumentar a fluxo de dados além das fronteiras, o que pode permitir a transferência de dados pessoais e financeiros.

O jornal australiano The Age avalia que as mudanças propostas no Tisa podem prejudicar a capacidade da Austrália de responder a qualquer crise financeira global no futuro. O jornal mexicano La Jornada disse que o documento mostra que o país negocia em segredo um acordo para maior abertura no comércio de serviços.

Segundo a avaliação do professor de direito da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), Jane Kelsey, o caráter secreto da negociação ultrapassa o Acordo Estratégico Transpacífico de Associação Econômica (TTPA) e contraria a posição da Organização Mundial do Comércio (OMC) a respeito de uma maior transparência.

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Nota da redação: A legislação e o memorando secretos, originais, estão disponíveis aqui e aqui.

Diálogos Desenvolvimentistas: A Associação dos Engenheiros da Petrobras se posiciona sobre os ataques à empresa

Edição por Rennan Martins

Eugênio Mancini – A AEPET merece respeito e admiração pelo papel relevante que, desde a sua criação, vem desempenhando em defesa da Petrobras, dos seus empregados e dos interesses da nação brasileira. Na atual conjuntura, no entanto, penso que devemos ter muito mais cuidado na escolha da estratégia de defesa a ser utilizada. A aceitação, pura e simples, da enxurrada de denúncias veiculada diariamente pela imprensa engajada, sem qualquer comprovação, pode reforçar junto à opinião pública o entendimento de que tudo se passa na empresa conforme retratado pela mídia.

Engrossar a ladainha da imprensa pode ser, em minha opinião, um grande equívoco, pois, boa parte das suspeitas levantadas poderá não ser verdadeira, mas, a impressão de corrupção generalizada na Companhia permanecerá.

A rigor, apenas o caso da operação Lava-Jato, envolvendo um ex-diretor da Petrobras em atividades ilícitas, é reconhecido como possibilidade de corrupção também na empresa, durante o período em que ele ainda era diretor. Essa suspeita, no entanto, ainda requer comprovação, o que, me parece, vem sendo exaustivamente buscado pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelo Tribunal de Contas, pelo Congresso e pela própria mídia, esta última interessada, como sabemos, em fragilizar ao máximo a Petrobras.

O cidadão comum, bombardeado pela campanha maciça da imprensa nos últimos meses, está formando uma imagem negativa da nossa empresa. Quando os próprios empregados da Petrobras repercutem as mesmas denúncias e suspeitas veiculadas por aquela imprensa comprometida, estão, no final, contribuindo para cristalizar, na opinião do público, um posicionamento contrário à Petrobras e ao monopólio estatal do petróleo, com imprevisíveis consequências políticas futuras. A intenção de defender a Companhia pode, portanto, funcionar ao revés.

A escolha, portanto, é muito delicada. Não podemos nos omitir, porém, devemos evitar a adesão simplista ao denuncismo desenfreado que tomou conta do noticiário. Separar o joio do trigo, como ensina a tradição, é indispensável, mas, não podemos esperar isso de nossa imprensa dita investigativa.

A manifestação de um petroleiro sobre o que está acontecendo exige elevados níveis de discernimento e de responsabilidade. De resto, defendo a apuração dos crimes de corrupção e prevaricação que forem cometidos, de acordo com os instrumentos disponíveis, dentro da lei e da ordem, sem preconceitos e sem injustiças.

Fernando Siqueira – Temos denunciado a imprensa Golpista que não perde oportunidade para denegrir a imagem da Petrobras. Lembro que, em 1995, na campanha pela quebra do monopólio, a Veja entrevistou o Diomedes (que me passava a presidência da Aepet), entrevistou a mim e a todos os diretores da Petrobras. Lembro que o jornalista entrevistador, o Arnaldo César, que tinha uma boa relação com a Aepet, nos disse algo mais ou menos assim: “olha, meus amigos quero alertá-los de que, de tudo o que vocês disseram, pode não sair nada na Revista. Há uma matéria já pronta e o grupo de redação só espera que eu consiga um fato negativo das entrevistas. Se ele não aparecer, nada sairá do que vocês disseram. Estou alertando para vocês não ficarem zangados comigo”.

Dito e feito a edição da seguinte Veja publicou uma matéria de 10 páginas batendo furiosamente na Petrobras e os “empregados marajás”. A Aepet e a Petrobras redigiram matérias contestando ponto a ponto o artigo da Veja. Ela, obviamente não publicou; a Petrobras transformou a sua matéria-resposta em um texto publicitário, reduzindo para 5 páginas. Nem assim a veja aceitou como matéria publicitária paga. Ela alegou que não iria se desmoralizar perante os seus leitores.

Entremos na justiça invocando o artigo 5º da Constituição. Até hoje não deu em nada.

Por outro lado, no Governo Itamar, o TCU e o Senado fizeram 3 investigações na Petrobras, virando-a do avesso. Como não acharam nada, nada publicaram e a imprensa, de forma criminosa escondeu os fatos. Cobramos do relator da CPI, senador José Fogaça, e do Presidente do TCU, ministro Adhemar Ghise (se não me engano) divulgação dos resultados da CPI e da devassa do TCU. Eles não responderam e a imprensa “esqueceu os fatos”.

Mas houve uma vantagem: a mídia parou de bater na Companhia, pois ficou sem os argumentos. E é mais ou menos o que está acontecendo com Pasadena: como foi demonstrado que o negócio foi bom na época, a mídia está “esquecendo Pasadena”

Portanto, caro Eugênio, acho que devemos incentivar os órgãos investigadores mais sérios, que são o Ministério Publico e a Polícia Federal a investigarem as denúncias contra a Petrobras, como o caso da operação lava-jato que nos parece coisa grave. Com isto, se pode depurar a instituição de uma meia dúzia de pessoas que desonraram os seus cargos e expuseram a companhia e seus empregados à sanha da mídia que defende os interesses estrangeiros.

Como eu disse antes, a Companhia tem cerca de 88.000 empregados sérios, honestos e competentes, que não podem ser postos sob suspeita porque meia dúzia de irresponsáveis que agiram de forma incorreta.

A razão principal dessa nova campanha para denegrir a imagem da nossa empresa é a descoberta do pré-sal. O FHC fez uma Lei, a 9478/97 que dá todo o petróleo para quem o produzir e uma obrigação de pagar 10% de Royalties e cerca de 18% em impostos, tudo em dinheiro.

O Governo Lula fez um novo marco regulatório que melhorou a questão para a União em dois pontos: 1) na partilha de produção (concessão por FHC) a propriedade do petróleo volta para a União e esta ressarce os custos de produção em petróleo; 2) a Petrobras será a operadora única do pré-sal.

Este segundo ponto causou uma reação brutal nos lobistas do Cartel internacional: Se a Petrobras for operadora única ela impede que ocorram os dois principais focos de corrupção na produção mundial: o superdimensionamento dos custos de produção (ressarcidos em petróleo) e o subdimensionamento na medição da produção.

Pode checar nas entrelinhas dessa nova campanha difamatória que “a Petrobras não tem recursos nem tecnologia para ser operadora única”.

Noam Chomsky: O acordo comercial de Obama como um “ataque neoliberal” para favorecer a “dominação” corporativa

Via IHU

Chomsky, um dos intelectuais mais representativos da atualidade. Raw Story/Reprodução

O Acordo Comercial Transpacífico – TPP (sigla em inglês) do governo Obama é um “ataque” ao povo trabalhador na intenção de favorecer a “dominação” corporativa, de acordo com o autor e ativista Noam Chomsky.

“Este acordo é feito para levar adiante o projeto neoliberal de maximizar os lucros e a dominação, além de pôr os trabalhadores do mundo em competição uns com os outros, de forma a reduzir salários e aumentar a insegurança”, Chomsky disse durante uma entrevista ao HuffPost Live, 13-01-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O governo Obama vem negociando o Acordo Comercial Transpacífico – TPP com 11 países do Pacífico durante anos. Embora o acordo não tenha sido finalizado e muito dele venha sendo mantido sob sigilo, grupos americanos corporativos de interesse – incluindo a Câmara do Comércio dos EUA – já manifestaram forte apoio, descrevendo-o como um acordo de livre comércio que irá encorajar o crescimento econômico.

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos também defendeu as negociações, dizendo que o acordo irá incluir proteções regulatórias robustas. Porém, os sindicatos e uma série de grupos tradicionalmente progressistas de interesse – incluindo ambientalistas e defensores da saúde pública – criticaram duramente o acordo.

Chomsky sustenta que grande parte das negociações dizem respeito a questões alheias em relação ao que muitos consideram um acordo, e diz que elas estão focadas, isto sim, em limitar as atividades que os governos podem regular, impondo novos padrões de propriedade intelectual no exterior e aumentando o poder político corporativo.

“É chamado de livre comércio, porém não passa de uma piada”, disse Chomsky. “Estas são medidas altamente protecionistas projetadas para minar a liberdade de comércio. Na verdade, grande parte do que vazou sobre o Acordo Comercial Transpacífico – TPP indica que não se trata absolutamente de acordos comerciais, mas sim dos direitos dos investidores”.

O governo Obama está tratando os termos do acordo como informações confidenciais. Ele vem impedindo muitos funcionários do Congresso de ver os textos da negociação e limitando a informação disponíveis aos próprios congressistas. Os únicos documentos da negociação disponíveis publicamente vieram à luz através de arquivos vazados. Documentos recentes foram publicados no WikiLeaks e no HuffPost.

De acordo com os documentos que vazaram, o TPP irá empoderar as empresas para alterar diretamente as leis e regulamentações dispostas por países estrangeiros perante um tribunal internacional. Ao tribunal seria dado a autoridade não só para anular as normas legais dos países como também impor penalidades econômicas a eles. Sob os tratados da Organização Mundial do Comércio – OMC, as empresas devem convencer um país soberano a trazer casos comerciais diante de uma corte internacional. Chomsky disse que o acordo é uma escalada para os objetivos políticos neoliberais anteriormente dispostos pela OMC e pelo Acordo de Livre Comércio da América do Norte.

“É muito difícil fazer qualquer coisa do TPP porque ele vem sendo mantido em segredo”, contou Chomsky ao HuffPost Live. “Eu diria: um segredo pela metade. Não é segredo algum para as centenas de advogados e lobistas das empresas que estão escrevendo a legislação. Para eles é perfeitamente público este acordo. Na verdade, eles estão o escrevendo. O acordo está sendo mantido em segredo para a população, a qual, é claro, levanta perguntas e dúvidas obviamente.

Vários membros do Congresso, incluindo companheiros democratas de Barack Obama, atacaram o sigilo intenso em torno das negociações. Mas outros querem dar ao TPP o caminho mais curto para sua aprovação.

Os senadores Max Baucus (Democrata, do estado de Montana) e Orrin Hatch (Republicano, do estado de Utah) introduziram uma lei, na terça-feira, que impedirá membros do Congresso de apresentar alterações ao acordo comercial de Obama, qualquer que ele venha ser.

Porém, o movimento para acelerar o Acordo Comercial Transatlântico – TPP encontrou ventos contrários na Casa Branca, onde nenhum democrata concordou em apoiar a legislação. O porta-voz John Boehner (Republicano, do estado de Ohio) disse que o projeto não passa sem o apoio dos democratas.

Noam Chomsky brincou dizendo que é claro que o governo e os legisladores irão querer acelerar um acordo comercial como este, que pode estar mais ao lado dos interesses das empresas do que ao lado dos interesses da população.

“É muito compreensível que ele seja mantido em segredo”, disse Chomsky. “Por que as pessoas deveriam saber do que acontece com elas?”

 

América Latina realiza primeira cúpula de Investimentos Climáticos

Via Portal Vermelho

O Cantareira, um dos símbolos do que pode fazer as mudanças climáticas. Último Segundo/Reprodução

Começou nesta terça-feira (24), na Jamaica, a primeira cúpula dos Fundos de Investimentos Climáticos (CIF, sigla em inglês) na América Latina e no Caribe, na qual os atores da região, onde a luta contra a mudança climática está ligada ao modelo de desenvolvimento, avaliam estratégias para não repetir os erros dos países desenvolvidos.

“A mudança climática nos países em desenvolvimento é um tema de desenvolvimento. Há uma tendência de pensar que a luta contra a mudança climática é responsabilidade dos países mais ricos e dos que mais poluem, entretanto, a escolha do modelo sobre o qual uma nação vai crescer é crucial”, disse em entrevista à EFE, Claudio Alatorre, especialista em mudança climática do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

“Todas as decisões contam. Em desenvolvimento urbano, planejamos cidades densas ou mais espalhadas? Construímos mais infraestruturas como estradas ou damos mais ênfase no transporte coletivo e nas ciclovias? Há opções para se escolher e muitas são de políticas e investimentos”, acrescentou.

O BID é a organização multilateral com a qual o CIF organiza seu fórum este ano, um encontro realizado a cada 18 meses e que reúne governos, setor privado, comunidades indígenas, organizações de desenvolvimento e pesquisadores.

Brasil, Bolívia, México, Chile, Colômbia, Peru, Honduras e as nações caribenhas são os “países piloto” da região que participam dos CIF, fundos criados em 2008 como um compromisso dos países desenvolvidos para fornecer recursos para projetos sustentáveis nas nações em desenvolvimento.

Com informações da EFE

Pikettismos: a desigualdade na mira

Por Ladislau Dowbor, via Carta Maior

Carta Maior/Reprodução

Thomas Piketty, com a força da juventude e uma saudável distância das polarizações ideológicas que tanto permeiam a análise econômica, abriu novas janelas.

O livro de Thomas Piketty está nos fazendo refletir, não só na esquerda, mas em todo o espectro político. Cada um, naturalmente, digere os argumentos, e em particular a arquitetura teórica do volume, à sua maneira. Achei interessante comunicar em pequenas notas as reflexões que a leitura me trouxe. Inclusive como tira-gosto para que leiam o original. Os números de páginas se referem ao original francês.

A verdade é que Thomas Piketty, com a força da juventude e uma saudável distância das polarizações ideológicas que tanto permeiam a análise econômica, abriu novas janelas, trouxe vento fresco, nos permitiu deslocar a visão. Se bem que o problema da distribuição da renda sempre estivesse presente nas discussões, a teoria econômica terminou centrando-se muito mais no PIB, na produção de bens e serviços, e muito insuficientemente na repartição e nos mecanismos que aumentam ou reduzem a desigualdade.

Esta atingiu níveis obscenos. Quando uma centena de pessoas são donas de mais riqueza do que a metade da população mundial, enquanto um bilhão de pessoas passa fome, francamente, achar que o sistema está dando certo é prova de cegueira mental avançada. Mas para muita gente, trata-se simplesmente de incompreensão, de desconhecimento dos mecanismos.

A lenta dissipação da neblina que cerca o problema da desigualdade vem sendo construída nas últimas décadas. Basicamente, enquanto a partir dos anos 1980 o capitalismo entra na fase de dominação dos intermediários financeiros sobre os processos produtivos – o rabo passa a abanar o cachorro (the tail wags the dog) é a expressão usada por americanos como Joel Kurtzmann – e com isto passa a aprofundar a desigualdade, foram se construindo, com grande atraso, as análises das implicações.

Um amplo estudo do Banco Mundial ajudou bastante ao mostrar que basicamente quem nasce pobre permanece pobre, e que quem enriquece é porque já nasceu bem. É a chamada armadilha da pobreza, a poverty trap. Esta pesquisa mostrou que a pobreza realmente existente simplesmente trava as oportunidades para dela sair. Com Amartya Sen passamos a entender a pobreza como falta de liberdade de escolher a vida que se quer levar, como privação de opções. O excelente La Hora de la Igualdad da CEPAL mostrou que a América Latina e o Caribe atingiram um grau de desigualdade que exige que centremos as nossas estratégias de desenvolvimento em torno a esta questão. Isto para mencionar algumas iniciativas básicas. O livro do Piketty não surge do nada, sistematiza um conjunto de visões que vinham sendo construídas.

E há naturalmente o acompanhamento do desastre crescente através de tantas instituições de estudos estatísticos. Hoje conhecemos o tamanho do rombo, temos dados para tudo, sabemos quem são os pobres. O The Next 4 Billion do Banco Mundial mostra que temos quase dois terços da população do planeta “sem acesso aos benefícios da globalização”, outros dados nos mostram os dois bilhões que vivem com menos de dois dólares ao dia, outros ainda se debruçam sobre os que vivem com menos de 1,25 dólar ao dia (um pouco mais de um bilhão de pessoas), temos inclusive os detalhes dos 180 milhões de crianças que passam fome, de 4 milhões de crianças que morrem anualmente por não ter acesso a uma coisa tão elementar como água limpa. O Working for the Few, da Oxfam/UK, apresenta uma visão geral da desigualdade, em particular a da riqueza (patrimônio familiar acumulado), que ultrapassa de longe a desigualdade da renda.

Os nossos dilemas não são misteriosos. Estamos administrando o planeta para uma minoria, através de um modelo de produção e consumo que acaba com os nossos recursos naturais, transformando o binômio desigualdade/meio ambiente numa autêntica catástrofe em câmara lenta. Enquanto isto, os recursos necessários para financiar as políticas de equilíbrio estão girando na ciranda dos intermediários financeiros, na mão de algumas centenas de grupos que sequer conseguem administrar com um mínimo de competência as massas de dinheiro que controlam.

O desafio, obviamente, é reorientar os recursos para financiar as políticas sociais destinadas a gerar uma economia inclusiva, e para financiar a reconversão dos processos de produção e de consumo que revertam a destruição do meio ambiente.

Falta convencer, naturalmente, o 1% que controla este universo financeiro diretamente através dos bancos e outras instituições e crescentemente de modo indireto através da apropriação dos processos políticos e das legislações. As pessoas não entendem o que é bilionário, e realmente não é um desafio que faz parte do nosso cotidiano. Mas uma forma simples de entender esta estranha criatura nos é apresentada por Susan George: um bilhão de dólares aplicados em modestos 5% ao ano numa poupança, rendem ao seu proprietário 137 mil dólares ao dia. O que ele vai fazer com este dinheiro? Por mais guloso que seja o bilionário, não há caviar que resolva. O dinheiro, portanto, é reaplicado, e a fortuna se transforma numa bola de neve, gerando os super-ricos, os que literalmente não sabem o que fazer com o seu dinheiro.

Um segundo mecanismo a ser entendido, é a diferença entre a renda e o patrimônio. A renda é anual – resultado de salário, de aluguéis, do rendimento de aplicações financeiras etc. – enquanto o patrimônio (net household wealth, patrimônio domiciliar líquido) – constitui a riqueza acumulada, sob forma de casas, contas bancárias (menos dívidas), ações e outras formas de riqueza. A verdade é que quem ganha pouco compra roupa para os filhos, paga aluguel, gasta uma grande parte da sua renda em comida e transporte, e não compra belas casas, fazendas e iates, e muito menos ainda faz aplicações financeiras de alto rendimento. O pobre gasta, o rico acumula. Sem processo redistributivo, gera-se uma dinâmica insustentável a prazo.

O livro do Piketty não é apenas muito bom, é oportuno. Pois é nesta situação explosiva de desigualdade no planeta, quando até Davos (Davos, meu Deus!) clama que a situação é insustentável, que surge uma explicitação de como se dão os principais mecanismos que geram a desigualdade, como evoluíram no longo prazo, como se apresentam no limiar do século XXI, e em particular como o problema pode ser enfrentado.

O raciocínio básico é simples e transparente: os avanços produtivos do planeta se situam na ordem de 1,5% a 2% ao ano, enquanto as aplicações financeiras dos que possuem capital acumulado aumentam numa ordem superior a 5%. Isto significa que uma parte crescente do que o planeta produz passa para a propriedade dos detentores de capital, que passam a viver da renda que este capital gera, o que justamente nos leva à fantástica concentração de riqueza nas mãos de poucos. E do lado propositivo, esperar que mecanismos econômicos resolvam o desequilíbrio crescente faz pouco sentido: precisamos criar ou expandir, segundo os casos, um imposto progressivo sobre o capital. O que inclusive seria produtivo, pois incitaria os seus detentores a buscar realizar investimentos produtivos em vez de observarem sentados o crescimento das suas aplicações financeiras.

Utópico? Os ricos pagarem impostos não é utópico, é necessário. E tributar o capital parado nas cirandas financeiras, rendendo sem produção correspondente, é particularmente interessante. Na proposta de Piketty para a Europa, seriam 0% para patrimônios inferiores a 1 milhão de euros, 1% para os que se situam entre 1 e 5 milhões, e 2% para os acima de 5 milhões. Não é trágico, não deve levar os muito ricos ao desespero, e geraria o equivalente a 2% do PIB europeu (cerca de 300 bilhões de euros), o suficiente para liquidar por exemplo o endividamento público em pouco anos, e tirar os países membros das mãos dos intermediários financeiros. (889). Seria um bom primeiro passo.

Novo? Não, não é novo, mas é apresentado no livro do Piketty de maneira muito legível (inclusive para não economistas), extremamente bem documentada, e com uma clareza na explicação passo a passo que transforma a obra numa ferramenta de trabalho de primeira ordem.

 

Diálogos Desenvolvimentistas: A escalada da violência na Ucrânia e seus desdobramentos internacionais

Portal Vermelho/Reprodução

Edição por Rennan Martins

No último dia 15, o renomado jornalista Mauro Santayana, publicou artigo intitulado “Um tiro no pé”, no qual noticia a suspensão das obras do gasoduto proveniente da Rússia, que passaria pela Bulgária, o que constituiria uma alternativa de fornecimento do gás russo à Europa, no caso da instabilidade ucraniana impedir esta transação.

A paralisação se deu após uma comissão norte-americana, liderada pelo senador John Mccain, visitar Budapeste. É sintomático o acontecimento, tendo em vista que a Europa abre mão da garantia de fornecimento do gás que alimenta suas indústrias, casas e comércio, e se sujeita a posição dos EUA, sem ao menos ter uma alternativa palpável de outra fonte do recurso.

Nesse ínterim é relevante acrescentar que a Rússia anunciou que a venda de gás a Kiev está condicionada a pagamento prévio. Um dos blogs de mais destaque na cobertura da crise na Ucrânia, o The Vineyard of the Saker, considera que a junta golpista passará a roubar o gás comprado pela Europa, que necessariamente passa por eles. União Europeia e Estados Unidos alimentaram esta aberração, agora também sofrem com seus efeitos.

A escalada do conflito se dá incessantemente e o risco de guerra aberta se torna cada vez mais iminente. As hostilidades praticadas por Kiev, apadrinhadas pelas potências ocidentais, tornam a intervenção militar russa na região questão de tempo para alguns analistas.

Considerando que o que está ocorrendo na Ucrânia é somente parte menor de um plano de contenção de potências por parte dos EUA, nossos colaboradores Ceci Juruá, doutora em políticas públicas, Paulo Timm, economista, Carlos Ferreira, engenheiro e Adriano Benayon, doutor em economia debateram o cenário internacional da atualidade a luz de fatos históricos. Nas colocações a impressão de que essa escalada na tensão resultará numa grande guerra chama a atenção.

Confira:

Ceci Juruá – Não seria a primeira vez em que os capitalistas das potências centrais caminham cegamente em direção a uma política suicida, mas esperemos que não conduzam a uma guerra, como já o fizeram em outras ocasiões similares.

Paulo Timm – Pessoalmente, acho que dificilmente escaparemos a uma nova Grande Guerra. Todos os antecedentes, similares a I e II Guerras estão presentes: Crise da Economia, Crise do Centro Hegemônico, disputas acentuadas por áreas de influência e território. Uma grande guerra jamais começa, também, grande. Ela se inicia, deflagrada até por um incidente marginal como o famoso atentado em Sarajevo, e vai aglutinando forças em conflito. Vejo um potencial bélico muito grande entre USA x RUSSIA e, lamentavelmente, não encontro aí mais do que interesses nacionais. Sou de uma Era da internacional comunista em que reverenciávamos o internacionalismo proletário como defesa intransigente da urss, acima, até, do nacionalismo. E confiávamos, cegamente, que lá naquela luz do Kremlin, que jamais cessava de brilhar uma luz, um grande líder velava pelo destino da classe trabalhadora do mundo inteiro. Hoje sinto que isso foi um erro. Levou a muitos erros de interpretação dos comunistas, principalmente no Brasil, em 1935, depois em 1954, vésperas da morte de Vargas. Lembremo-nos que os jornais ditos comunistas não foram poupados pela ira popular no 24 de agosto fatídico. Hoje, honestamente, mesmo sem ser entusiasta do Governo PT e da Dilma, acho que eles estão à esquerda de Putin.

Mas é aquela velha história: Se eu errei antes e mesmo agora erro às vezes, posso estar enganado quanto ao caráter político da Russia atual.

Ceci Juruá – Creio que agora apoiamos Putin não mais como sobrevivente da União Soviética, mas porque ele está em defesa da paz, e não por ideologia, mas por necessidade.

Carlos Ferreira – A Primeira Guerra Mundial, foi tenazmente fomentada com o intuito da Inglaterra de bloquear o crescimento da Alemanha como potência mundial, principalmente em atendimento a doutrina inglesa de não permitir o surgimento de nenhuma Marinha de Guerra que pudesse ameaçar o poderio da marinha real britânica. Por conseguinte, a hegemonia da Inglaterra no domínio dos mares, base então de seu secular poder mundial. Justamente contra isto, a Alemanha vinha implementado um formidável programa de construção naval, provendo a marinha imperial alemã de meios navais modernos, capazes e poderosos. Soma-se a isto o desejo da França de recuperar os territórios perdidos na Guerra com a Prússia, na qual foi derrotada, bem como o desejo pueril do Tzar de dominar o estreito de Bósforos.

Utilizando os tratados de ajuda militar mútua, ficou fácil tecer e viabilizar o incidente de Sarajevo, conduzindo aquela carnificina que foi a Primeira Guerra Mundial. Ressalta-se que a Alemanha tudo vez para evitar a guerra, mas em vão contra a intransigência inglesa que prevaleceu.

Realmente, como já escrevi, vejo o momento atual como uma situação análoga aquela de 1913/1914, isto é, a manutenção de hegemonias e no momento presente, praticada pelos EUA, que aplica a ferro & fogo a sua doutrina de poder (Zbigniew/Wolfowitz). Tudo, mas tudo mesmo será feito para impedir o surgimento de uma potência ou potências, que possam rivalizar militarmente com os EUA. Neste contexto, a Rússia é a “bola da vez”, após a qual será tratada a China, que por sinal também já sofre forte processo de contenção.

Deve-se observar também os processos de desestabilização dos BRICS, que serão intensificados se na reunião programada para o próximo mês em Fortaleza, ocorrer a criação de bancos próprios e a heresia máxima, utilização de moedas nacionais nas transações entre membros.

Já há uma “Guerra Morna”, com forte possibilidade de escalar e se tornar incontrolável. A Rússia está sendo levada a um ponto insustentável de pressão política/midiática/econômica/militar. Não há como prever até onde Putin terá condições de aguentar, sem reagir militarmente e levar a guerra, que é o grande objetivo a ser alcançado.

Adriano Benayon – Não me pauto por ideologia, por considerações como se alguém está à esquerda, se é marxista, se não é etc. Claro que PT, Lula e Dilma não são esquerda.

São incaracterísticos demais do ponto de vista da filosofia política (nem tem estofo cultural para isso; e claro que tampouco o têm os vendilhões do PSDB, PMDB e de n outras siglas; aliás, ao contrário de vocês, penso que FHC não merece respeito algum, não apenas por sua carreira política caracterizada pela corrupção entreguista, mas também do ponto de vista intelectual, como demonstrei em alguns tópicos de meu livro).

Por outro lado, parece-me incontestável a superioridade de Putin em relação a esses elementos amorfos e cuja maior preocupação em suas vidas são suas próprias carreiras políticas.

Nem me parece válido sequer comparar um líder de potência que vem contribuindo para algum equilíbrio na balança de poder mundial, inclusive através de entendimentos com outras potências na direção do Oriente, com figuras que objetivamente, fazem a alegria dos banqueiros com os juros mais altos do mundo, cumulam de benefícios e subsídios os grandes concentradores, as montadoras de veículos e outras transnacionais, liberam os letais transgênicos e agrotóxicos, satisfazem o agronegócio e agravam a inserção do Brasil em posição subalterna na divisão internacional do trabalho. Além disso, são tão fracos que subsidiam também e às centenas de bilhões de reais a mídia que os vilipendia.

Se isso é ser esquerda, quero distância da esquerda. Já Putin renacionaliza empresas importantes, defende os interesses nacionais, impede que as ONGs usem a Rússia como casa da sogra, como fazem no Brasil. Se isso é ser direita, então nada contra a direita.

Quanto aos comunistas, reconheçamos e não condenemos demais os erros que cometeram no Brasil. Em momentos importantes, foram enganados pelos serviços secretos britânicos, por exemplo. Se hoje forem capazes de se juntar aos que querem defender o Brasil, cuja própria integridade está em dificuldades, sejam bem-vindos. Que os anticomunistas, também iludidos pelos serviços secretos angloamericanos não continuem a ver nos comunistas a fonte de todos os males e que aprendam as lições: foram usados pelo império e jogados fora como laranja chupada. Os empresários que temiam ser expropriados pelos comunistas, o foram pelas transnacionais.

Copa: o Brasil ganhou, a mídia perdeu

Por Luís Nassif, em seu blog

Joatam/Reprodução

Já se tem o resultado parcial da Copa: reconhecimento geral – da imprensa nacional e internacional – que é uma Copa bem organizada, com estádios de futebol excepcionais, aeroportos eficientes, sistemas de segurança adequados, logística bem estruturada e a inigualável hospitalidade do povo brasileiro.

Vários jornais (internacionais) já a reconhecem como a maior Copa da história.

Agora, voltem algumas semanas atrás, pouco antes do início da Copa. A imagem disseminada pela imprensa nacional – era a de um fracasso retumbante. Por uma mera questão política, lançou-se ao mundo a pior imagem possível do Brasil. O maior evento da história do país, aquele que colocou os olhos do mundo sobre o Brasil, que atraiu para cá o turismo do mundo, foi manchado por uma propaganda negativa absurda. Em vez das belezas do país, da promoção turística, do engrandecimento da alma brasileira, da capacidade de organização do país, os grupos de mídia nacionais espalharam a imagem de um país dominado pelo crime e pela corrupção, sem capacidade de engenharia para construir estádios – justo o país que construiu duas das maiores hidrelétricas do planeta -, com epidemias grassando por todos os poros.

Um dos jornais chegou a afirmar que haveria atentados na Copa, fruto de uma fantasiosa parceria entre os black blocks e o PCC. Outro informou sobre supostas epidemias de dengue em locais de jogo da Copa.

O episódio é exemplar para se mostrar a perda de rumo do jornalismo nacional, a incapacidade de separar a disputa política da noção de interesse nacional. E a falta de consideração para com seu principal produto: a notícia.

Primeiro, cria-se o clima do fracasso.

Criado o consenso, abre-se espaço para toda sorte de oportunismos. É o ex-jogador dizendo-se envergonhado da Copa, é a ex-apresentadora de TV dizendo que viajará na Copa para não passar vergonha.

Tome-se o caso da suposta corrupção da Copa. O que define a maior ou menor corrupção é a capacidade de organização dos órgãos de controle. O insuspeito Ministério Público Federal (MPF) montou um Grupo de Trabalho para fiscalizar cada ato da Copa, juntamente com o Tribunal de Contas da União e a Controladoria Geral da União. O GT do MPF tornou-se um case, por ter permitido economia de quase meio bilhão de reais.

Antes da hora, é fácil afirmar que um estádio não vai ficar pronto, que um aeroporto não dará conta do movimento, que epidemias de dengue (no inverno) atingirão a todos, que os turistas serão assaltados e mortos. Fácil porque são apostas, que não têm como ser conferidas antecipadamente.

Quando o senhor fato se apresenta, todos esses factóides viram pó.

A boa organização da Copa não é uma vitória individual do governo ou da presidente Dilma Rousseff. É de milhares de pessoas, técnicos federais, estaduais e municipais, consultores, membros dos diversos poderes, especialistas em segurança, trânsito, empresas de engenharia, companhias de turismo, hotelaria.

E tudo isso foi jogado no lixo por grupos de mídia, justamente os maiores beneficiários. Eram eles o foco principal de campanhas publicitárias bilionárias, sem terem investido um centavo nas obras. Pelo contrário, jogando diuturnamente contra o sucesso da competição e contra qualquer sentimento de autoestima nacional.