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A bomba destinada a explodir serviços públicos no mundo todo, TISA, mais um tratado negociado em segredo

Por Bruno Odent, via l’Humanité e Resistir

Resistir/Reprodução

Os Estados Unidos, os países da UE e uma vintena de outros Estados encetaram em Genebra negociações sobre o comércio de serviços. Estas negociações deveriam permanecer secretas durante cinco anos. A WikiLeaks conseguiu em parte levantar o véu acerca do seu conteúdo.

Tudo devia permanecer totalmente secreto. Nada devia transparecer das negociações acerca do acordo sobre o comércio dos serviços (ACS) encetadas desde há dois anos na embaixada da Austrália em Genebra entre os Estados Unidos, a União Europeia e uma vintena de países. Um vasto empreendimento de liberalização que afecta até os serviços públicos fundamentais. Foram tomadas medidas assegurando uma confidencialidade total das discussões, numa linguagem digna de um cenário de James Bond. Os textos que estabelecem o avanço das conversações foram “classificados”, conforme um jargão geralmente utilizado para os dossiers secretos da defesa. Eles devem ser “protegidos de toda divulgação não autorizada” e armazenados num sistema de computadores ele próprio classificado e mantido “num edifício ou num contentor fechado” sob alta vigilância. O objectivo declarado é que nada possa transpirar do conteúdo destas negociações “até cinco anos após a conclusão do acordo” ou o fim das negociações se estas acabarem por não se concluir.

Isto era ignorar a perícia dos lançadores de alerta da WikiLeaks, que conseguiram recuperar uma parte dos textos superprotegidos. Assim, a 19 de Junho, eles publicaram no seu sítio o anexo do tratado em preparação que trata dos serviços financeiros: https://wikileaks.org/tisa-financial/

Estas revelações sublinham, de facto, a amplitude da ofensiva iniciada por Washington, seguida pelos Estados membros da União Europeia, para permitir às multinacionais açambarcar, quando chegar o momento, o comércio dos produtos financeiros assim como o de todos os serviços nos grandes mercados transatlântico e transpacífico, cujas negociações, sabe-se avançam ao mesmo tempo na maior discrição.

Contornar as resistências populares e os refractários à OMC

As conversações secretas para chegar a um acordo sobre o comércio dos serviços (ACS) arrancaram em 2012 e seus iniciadores pretendem fazer todo o possível para concluí-las antes do fim de 2015. Elas são de facto destinadas a contornar o obstáculo que constituíam as resistências de forças progressistas, de movimentos sociais, de sindicatos e de vários países em desenvolvimento para a conclusão de um acordo global sobre o comércio dos serviços (AGCS) no seio da Organização Mundial de Comércio (OMC). Diante da paralisia do processo multilateral lançado em 2001 no quadro do ciclo dito de Doha da OMC, um grupo de países decidiu, sob o impulso dos Estados Unidos e dos Estados membros da UE, encetar, há dois anos, uma negociação paralela.

Dito de outra forma: repudiado democraticamente e portanto saído pela porta, o AGCS podia assim entrar pela janela sob o impulso de cerca de 50 governos. Os autoproclamados negociadores têm a esperança de definir normas num quadro plurilateral para que elas se impunham, a prazo, como referência internacional única. Eles apostam evidentemente no seu peso económico – representam em conjunto cerca de 70% do comércio mundial – para no final das contas arregimentar os países recalcitrantes da OMC que seriam curto-circuitados. O lugar geográfico das negociações foi simplesmente transferido de algumas ruas em Genebra, passado na sede da OMC para o edifício da embaixada da Austrália, país oportunamente inteiramente dedicado à liberalização.

Principal fonte de inspiração do grupo: os “peritos” da “coligação global dos serviços” (GSC) no seio da qual encontram-se, do lado estado-unidense, os gigantes do sector (banca, Internet, energia) mas também, do lado europeu, o Medef [1] ou peso pesado francês Veolia [2] . O documento divulgado pela WikiLeaks, que corresponde ao sumário da negociação de 14 de Abril último, revela o forçamento desenvolvido para banalizar o comércio dos produtos financeiros, como se nada houvesse sido retido das causas do crash devastador que se verificou há apenas sete anos.

Intercâmbios financeiros, o retorno do delírio

As normas propostas no anexo do texto secreto dedicado ao comércio dos produtos financeiros visam em primeiro lugar restringir a capacidade de intervenção do poder público e fixam abertamente como objectivo um modelo “auto-regulador” da finança. Os Estados signatários do futuro ACS praticamente já não seriam autorizados a aprovar leis que limitassem as transacções transfronteiriças (artigo X 3.2.).

Em nome da livre concorrência os “monopólios de Estado em matéria de fundos de pensão” – tradução: os sistemas públicos de Segurança Social – seriam, a prazo, desmantelados. Mesmo “os seguros para calamidades naturais” não deveriam mais funcionar sob controle público.

A aprovação da autorização de produtos financeiros inovadores é investigada (artigo X 2.1.). Sabe-se quanto o laxismo organizado em relação a eles alimentou o inchaço financeiro que explodiu, há sete anos. “Os CDS (credit default swaps), que foram considerados como produtos inovadores, estiveram no cerne da crise”, observou com justeza Jane Kelsey, professora da faculdade de Auckland, Nova Zelândia, no sítio da WikiLeaks.

As empresas Internet estado-unidenses fazem pressão para transmitir sem verdadeiro resguardo os dados dos seus clientes. Estas são em particular apresentadas nos sistemas ditos “clouds” (nuvens) que permitem armazenar documentos fora do disco duro do computador. Esta informação desde o dia da sua revelação pela WikiLeaks, em 19 de Junho, uma viva reacção na imprensa alemã onde as revelações de um outro lançador de alerta, Edward Snowden, sobre a espionagem em massa praticada pela NSA (National Security Agency), com a cumplicidade dos gigantes estado-unidenses da Internet, já haviam provocado muitas inquietações na opinião pública.

Privatizações proibidas

As orientações do texto secreto estipulam que as sociedades estrangeiras não poderiam ser vítimas de um tratamento dito “discriminatório”. Dizendo o mesmo de outra forma: elas devem ter acesso ao mercado dos países signatários exactamente nas mesmas condições que a firmas locais, quer forneçam ou não um serviço público à população.

Assim, um gigante do fornecimento de água ou de gás, como os franceses Veolia ou GDF Suez, não teria apenas o direito de se instalarem em mercados terceiros. Eles poderiam também fazer valer uma cláusula em relação à concorrência para exigir beneficiarem-se de subvenções de um montante igual àquele dado pelo Estado em causa ao serviço público de água ou de energia.

Além disso o retorno a uma nacionalização de um serviço público privatizado, ainda que fosse parcial, seria estritamente proibido aos Estados signatários em nome das garantias concedidas aos investidores a fim de favorecer, explica-se, a fluidez dos intercâmbios. Assim tornar-se-ia impossível uma remunicipalização da água decidida em muitos lugares da França, como em Paris, após a fraude a explosão das facturas dos particulares provocada pelos vigaristas da Générale de Eaux e da Lyonnaise des Eaux, que durante muito tempo partilharam o mercado da capital francesa.

Educação, saúde, transportes, nada escaparia ao apetite privado

O ACS deve-se aplicar a todos os domínios capazes de fornecer um serviço à escala internacional. Segundo a Public Services International (PSI), que reúne 669 sindicatos no mundo inteiro, ele engloba um campo imenso: o fornecimento transfronteiriço (o modo 1 da ex-AGCS) – tal como a tele-medicina, a formação a distância ou as apostas na Internet –, o turismo (modo 2 da ex-AGCS), o investimento directo estrangeiro com os princípios e as consequência que se acaba de expor (modo 3 da ex-AGCS). O objectivo de acordos como este cuja negociação é tramada secretamente, denuncia Rosa Pavanelli, a secretária geral da PSI, é “institucionalizar os direitos dos investidores e proibir toda intervenção dos Estados num vasto leque de sectores”.

Saúde, educação, transportes, nada escaparia a esta lógica que aceleraria, em dimensões inéditas, a liberalização dos serviços públicos. Segundo uma lógica de desnatamento pelo capital privado em dificuldade para adquirir novos recursos na fase actual da crise em que as aberturas se contraem. Ele procura açambarcar os sectores financeiramente mais prometedores. Assim, os ferroviários franceses em luta perceberam perfeitamente a ameaça que poderia conduzir a uma polarização dos investimentos privados sobre os percursos de viagens mais rentáveis quando dezenas de vias ditas secundárias, e portanto estações, seriam condenadas ao desaparecimento. O 4º pacote ferroviário da Comissão Europeia não é certamente o tratado secreto em vias de negociação. Nem por isso adopta menos a linha devastadora para o futuro dos serviços públicos e, de passagem, para… um certo modo de construção europeia. Como se deveria saber, pelo menos desde a eleição de 25 de Maio, a ferocidade liberal, pronta a negar a democracia a ponto de agir às escondidas contra os interesses dos cidadãos, põe a Europa em perigo.

[1] Medef: confederação patronal francesa.

[2] Veolia: transnacional do fornecimento de água.

 

BC francês fecha acordo para estruturar sistema de pagamento em moeda chinesa

Via Correio do Brasil

O yuan vale cerca de 1/5 do dólar. CdB/Reprodução

O Banco Central (BC) francês disse neste domingo que assinou um memorando de entendimento com a China para estabelecer um sistema de pagamento do renminbi em Paris.

“Este memorando é o primeiro passo para a criação de uma infraestrutura de câmara de compensação e liquidação para o renminbi em Paris”, disse o BC francês, em comunicado.

A concorrência é feroz entre os principais centros financeiros da Europa para operar a moeda chinesa. Frankfurt e Luxemburgo estão disputando com Londres, favorita de muitos analistas, e a Suíça está tentando fortalecer seu caminho para a competição.

O sistema de pagamento acordado entre a França e a China vai funcionar com base em um banco de compensação, que será designado pelo Banco do Povo da China (PBOC), disse o banco central francês.

A China intensificou os planos de aumentar a utilização internacional de sua moeda em outubro passado , com um acordo entre o BC Europeu e o PBOC, para trocar euros e iuanes.

 

 

Chile: Uma democracia servil ao capital?

Por Micaela Lobos, via El Mostrador

Nos dias posteriores a vitória de Salvador Allende, Richard Nixon pedia a seu secretário de Estado, Henry Kissinger, para “fazer gritar a economia do Chile” no sentido de impedir a chegada da Unidade Popular ao poder. Esta declaração, que faz parte de um dos 350 documentos desclassificados há algumas semanas pela CIA, retrata a resistência do primeiro governo eleito sob uma democracia liberal que abertamente dizia não defender os interesses do capital. A história que se seguiu é bastante conhecida.

Em um artigo recente, o professor Boaventura de Sousa Santos analisa a relação entre capitalismo e democracia, assinalando que “o capitalismo só se sente seguro se é governado por quem tem o capital ou se identifica com suas ‘necessidades’”. No caminho contrário está a democracia, entendida, em sua definição mais perfeita, como um governo das maiorias “que não tem capital nem razões para identificar-se com as ‘necessidades’ do capitalismo”. Ademais, ressalta-se que as necessidades minoritárias do capital “colidem” com as necessidades das classes trabalhadoras, criando um conflito distributivo entre os que concentram a riqueza e os que reivindicam repartição mais equitativa dela.

Frente a isto, como é possível que a democracia sobreviva em sistemas dominados por uma minoria acumuladora de capital? Houve períodos em que esta simplesmente sucumbiu, quando as elites dominantes viram ameaçados seus interesses. Sem embargo, em grande parte do mundo instalou-se uma democracia liberal, utilizada – segundo argumenta o autor – para evitar que as maiorias pobres cheguem ao poder, recorrendo para isso a uma séria de dispositivos legais e legitimados, tais como restrições ao sufrágio, leis de lobby, consagração e supremacia do direito à propriedade privada e repressão da atividade política fora da institucionalidade, entre outros.

Sob o governo da Unidade Popular houve o golpe de Estado, 17 anos de ditadura cívico-militar e 24 de governos eleitos em normas democráticas. Pode a democracia chilena sobrepor-se aos interesses das minorias? Quem são os que tem governado o Chile e que interesses representam? Esta não é uma pergunta que se responde facilmente. Porém, é interessante esboçar uma aproximação para o caso chileno a luz de evidências recentes que parecem consenso e amplamente aceitas entre os diversos setores políticos.

Recentemente houve a apresentação do informe da Auditoria da Democracia no Chile, elaborado prlo PNUD, em que colaboraram distintos centros de pensamento (Centro de Estudos Públicos, Corporação de Estudos para a América Latina, Liberdade e Desenvolvimento, Projeto América, Instituto Liberdade, Fundação Jaime Guzmán e Fundação Chile 21). O informe, que analisa a democracia qualitativamente, reconhece que, em sua extensão formal, os princípios e ideais da democracia, tais como igualdade e controle popular do governo, seguem distantes.

Um importante elemento para esboçar uma resposta é saber quais figuras tem sido eleitas governantes. A supremacia dos partidos políticos em ocupar os cargos de eleição popular deixou pouco ou nenhum espaço a candidaturas independentes e, com elas, seus eleitores. Esta elitização do espaço para tomada de decisões aumenta com a baixa rotação e alternância de autoridades em seus cargos, informa o relatório. No caso do congresso, o sistema eleitoral binominal contribuiu para representar exageradamente certos setores políticos em detrimento de outros, os processos eleitorais “desde o retorno à democracia têm sido altamente previsíveis e com escassa competência efetiva de percepção dos eleitores”. Importante acrescentar neste ponto que nas últimas eleições, partidos e movimentos políticos que haviam sido excluídos de cargos de representação popular ganharam espaço, incluindo na coalizão governante. Ainda que, salvo exceções, grande parte se deu por negociações e pactos com os grupos políticos dominantes.

A crise de representatividade é evidenciada também nos baixos níveis de confiança que as pessoas têm no congresso e nos partidos políticos; em 2013, somente 15% manifestou ter muita confiança nos partidos. Ainda maios se faz a distância ao contatarmos que a identificação das pessoas com os partidos é baixa: em 2013, só 35% dos entrevistados manifestou identificação com algum partido político. 51% deles crê que os partidos compõem-se de políticos que atuam em causa própria.

O paradoxo se materializa quando a cidadania se vê forçada a eleger e sentir-se representada por políticos os quais não se têm confiança nem identificação.

Estas percepções parecem ter correlação com o comportamento eleitoral. O relatório demonstra um nível cada vez menor de participação das pessoas em idade de voto desde 1989, quando 86% da população foi às urnas, cifra que chegou a 59,5% em 2009, e a 51,7% na eleição presidencial de 2013. Esta tendência não se reverteu com a institucionalização da inscrição automática e do voto voluntário, a realidade é que as eleições se dão com cada vez menos eleitores, o que deixa o poder de decisão nas mãos de uns poucos. Talvez a abertura do espaço a novos grupos políticos seja uma oportunidade de aumento da participação.

Diante disto, não é de se estranhar que o capital se sinta seguro em um sistema político que está longe do controle popular. Tampouco surpreende que a institucionalidade laboral, instaurada na época da ausência democrática, permaneceu inalterada, favorecendo os grandes interesses econômicos e a desigualdade social. Atualmente os trabalhadores têm praticamente nula capacidade de incidir sobre a distribuição da riqueza (baixa sindicalização, negociação coletiva) e, por isso, menos influência nas decisões que pesam sobre suas próprias condições de vida.

Os dados demonstram a existência de um espaço político que está cada vez mais distante do alcance popular, dominado por partidos cada vez mais alheios aos interesses da sociedade e que servem muito bem aos interesses de uma minoria. Essa é a pedra fundamental de onde devemos construir alternativas distintas.

Tradução: Rennan Martins

Ultradireita na Ucrânia organiza marcha “antipaz” em protesto a cessar-fogo com separatistas

Via Opera Mundi

População ucraniana saiu às ruas para pedir que governo continue campanha “antiterrorista” contra separatistas pró-Rússia. Efe/Reprodução

Manifestantes exigem que presidente Piotr Poroshenko revogue acordo de paz com grupos pró-russos

Grupos ligados à ultradireita ucraniana realizaram neste domingo (29/06) uma marcha para protestar contra o cessar-fogo estabelecido entre governo e separatistas pró-russos. Chamada de marcha “antipaz”, a manifestação exigiu que o presidente ucraniano, Piotr Poroshenko, não prorrogue a trégua estabelecida com grupos pró-Rússia de Donetsk e Lugansk, regiões no leste da Ucrânia.

O prazo do cessar-fogo entre separatistas pró-Rússia e o Exército da Ucrânia expira amanhã (30). Na tarde de hoje (29), Petro Poroshenko realizou conferências com o presidente russo, Vladimir Putin, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, François Hollande, para discutir a trégua entre partes.

O temor da comunidade internacional é que a violência volte a crescer com o fim do acordo. “Amanhã, depois que terminar o cessar-fogo, já podemos esperar um aumento das ações militares por parte do exército”, afirmou o líder da autoproclamada república popular de Lugansk, Valeri Bolotov à Efe.

Segundo informações da imprensa europeia, o cessar-fogo faz integra um plano do governo ucraniano para descentralizar o poder, organizando eleições locais e um programa especial para a criação de emprego na região.

Apesar da prorrogação da trégua declarada por Kiev, algo que foi saudado por boa parte da comunidade internacional, os combates na realidade não terminaram, segundo várias testemunhas de ambos os lados, que se acusam de violar o cessar-fogo desde seu início.

Só na últimas 24 horas, cinco militares morreram e pelo menos 12 ficaram feridos, segundo informou o serviço de imprensa da “operação antiterrorista” lançada pelas autoridades de Kiev.

“Os guerrilheiros dispararam com morteiros em várias ocasiões contra um posto de controle perto de Slaviansk. Como resultado, três militares morreram e outros quatro foram feridos”, disse o porta-voz da operação, Alexei Dmitrashkovski.

União Europeia e transnacionais sabotam tratado de direitos humanos

Via IPS notícias

Um menino trabalhando em uma fábrica têxtil na Índia. Foto: Photo Stock

Nações Unidas, 26/6/2014 – A Organização das Nações Unidas (ONU) propôs a adoção de um código de conduta para as corporações transnacionais na década de 1970, mas a ideia nunca chegou a ir adiante devido à vigorosa oposição do poderoso setor privado e dos países industrializados. Agora, a história volta a se repetir.

A redação de um tratado internacional que responsabilize as companhias transnacionais no atual período de sessões do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra, que terminará amanhã. Mas a proposta gerou a mesma reação política dos anos 1970, com uma forte oposição dos interesses econômicos e dos países industrializados, desta vez especificamente dos 28 membros da União Europeia (UE).

Jens Martens, diretor da Global Policy Forum Europa, uma organização independente que monitora o trabalho da ONU, disse à IPS que existe um acalorado debate no Conselho de Direitos Humanos sobre a criação de um grupo de trabalho intergovernamental que negocie o instrumento juridicamente vinculante proposto com relação às transnacionais. “Portanto, a discussão atual não se trata da substância do código de conduta ou tratado, mas do processo”, acrescentou.

A atual sessão do Conselho apresentou dois projetos de resolução em Genebra. Um patrocinado por Equador e África do Sul, que pede ao órgão que defina um grupo de trabalho intergovernamental. Este projeto tem o apoio do Grupo dos 77 (G77) países em desenvolvimento e de uma coalizão de mais de 500 organizações não governamentais. Um segundo projeto de resolução, patrocinado por Noruega, Rússia, Argentina e Gana, apoia o atual grupo de trabalho sobre empresas e direitos humanos e pede a extensão de seu mandato por mais três anos. O mesmo tem o apoio dos Estados Unidos, da UE e de outros.

Martens, co-autor do recente estudo A Influência Corporativa na Agenda Empresarial e de Direitos Humanos da ONU, disse que os “atores empresariais tiveram um êxito absoluto com a implantação de estratégias de relações públicas que contribuíram para apresentar as empresas comerciais como boas cidadãs corporativas”. Também deram a impressão de “buscar o diálogo com os governos, a ONU e as partes interessadas, capazes de implantar normas ambientais, sociais e de direitos humanos por meio de iniciativas voluntárias de responsabilidade social empresarial”, acrescentou o ativista.

Martens apontou que o Pacto Global e os Princípios Reitores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos são os principais exemplos de um enfoque supostamente pragmático baseado no consenso, no diálogo e na colaboração com o setor privado, em contraste com a estratégia reguladora. Alberto Villarreal, ativista da organização Amigos da Terra Uruguai, disse à IPS que, ao reconhecer o ativismo ambiental em todas suas expressões como uma legítima defesa dos direitos humanos, “podemos contribuir com a luta dos defensores dos direitos ambientais e mantê-los a salvo”.

A Global Exchange, uma ONG de direitos humanos com sede em Londres, apresentou uma lista das “dez principais empresas criminosas”, acusando-as de cumplicidade com violações dos direitos humanos e do ambiente. A relação inclui Shell/Royal Dutch Petroleum, Nike, Blackwater International, Syngenta, Barrick Gold e Nestlé, acusadas por péssimas condições de trabalho para os operários de suas fábricas, ausência de direitos sindicais, contaminação, trabalho infantil, despejo de lixo tóxico, práticas trabalhistas desleais, discriminação e destruição de terras indígenas para a exploração de minerais e petróleo.

Anne van Schaik, ativista da Amigos da Terra Europa, disse que muitos países apoiam a proposta de um tratado vinculante, mas que a UE advertiu que se negará a analisá-lo se chegar a ser adotado. “Portanto, a UE boicota o Conselho de Direitos Humanos da ONU e defende os interesses das empresas, em lugar dos direitos humanos”, afirmou.

“Não estamos certos se este problema será resolvido amanhã”, respondeu Schaik quando a IPS lhe perguntou se a atual sessão do Conselho tomaria uma decisão a respeito. “A estratégia extremamente obstrucionista” da UE significa que, se a resolução for adotada, o bloco não participará do processo intergovernamental para criação do tratado e “prejudicará de maneira efetiva o processo democrático de tomada de decisões na ONU”, acrescentou.

Schaik explicou que a resolução da Noruega afirma que se deveria discutir o tema do acesso aos recursos, judiciais e não judiciais, para as vítimas de abusos dos direitos humanos derivados da atividade empresarial na agenda do Fórum de Empresas e Direitos Humanos. Na prática, isto significa que na sessão desta semana haverá uma discussão, mas não haverá consequências nem planos de acompanhamento, acrescentou.

O Equador propõe “criar um grupo de trabalho intergovernamental de composição aberta com mandato para elaborar um instrumento internacional juridicamente vinculante sobre as empresas transnacionais com relação aos direitos humanos”, acrescentou Schaik. Isto significa que haverá um novo instrumento que indicará obrigações para transnacionais, o que é muito mais transcendente do que uma discussão em um fórum da ONU, assegurou.

O estudo sobre o tratado de direitos humanos escrito por Martens se centra especificamente nas respostas das companhias transnacionais e de seus grupos de interesse diante das diversas iniciativas da ONU, e especifica os principais atores e seus objetivos. Também destaca a interação entre as demandas privadas e a evolução dos debates regulamentares no fórum mundial.

O estudo apresenta um grau de influência que têm as corporações e sua capacidade, em colaboração com poderosos Estados membros da ONU, para a adoção de normas internacionais vinculantes com relação às empresas transnacionais.

Por outro lado, a organização Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, exortou o Conselho de Direitos Humanos a promover a adoção de normas claras e vinculantes sobre a vigilância e a censura na internet. “As empresas vendem tecnologia a regimes autoritários que lhes permite fazer a vigilância em grande escala de sua população na internet”, afirmou a entidade em um comunicado.

Esta tecnologia é usada na Líbia, no Egito, Marrocos e na Etiópia para deter, prender e torturar os dissidentes, e as companhias que fornecem esta tecnologia não podem afirmar que ignoram a situação, acrescentou a Repórteres Sem Fronteiras. Envolverde/IPS

 

Albert Camus ficaria orgulhoso da seleção da Argélia

Por Pedro Zambarda de Araújo, via DCM

Albert Camus

“O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem eu devo ao futebol”, dizia Camus. Argelino de Mondovi, atual Dréan, o menino franzino sempre gostou de bola e era goleiro. Escritor, dramaturgo e jornalista, Albert Camus certamente teria orgulho de assistir a Copa do Mundo 2014 no Brasil. Por quais motivos? Pela classificação inédita da seleção da Argélia nas oitavas de final — e pelo protesto do craque Karim Benzema ao não cantar o hino da França por ter raízes muçulmanas e argelinas, assim como Zinédine Zidane.

Albert Camus era o que os franceses chamavam de “pied-noir”, um “pé preto”. Essa expressão significava que ele era um filho de europeus que viviam na colônia francesa da Argélia. Pobre, e cercado pela cultura dos árabes mesclada à dos brancos, se dedicou cedo aos estudos, obtendo um diploma de filosofia em Argel. O ensino universitário e a militância comunista foram seus passaportes para o jornalismo.

Como tinha tuberculose, nunca conseguiu levar a sério sua paixão pelo futebol, jogando apenas como lazer.

Na imprensa, conheceu e se tornou amigo do francês Jean-Paul Sartre. Com a ajuda do filósofo existencialista, passou a viver em Paris durante a Segunda Guerra Mundial, fazendo jornalismo engajado contra a Alemanha nazista.

Albert Camus publicou o romance “O Estrangeiro”, em 1942, falando sobre o absurdo, pensamento de que seres humanos cometem atos imperdoáveis quando estão na liberdade absoluta, desligados da história e de um passado ou de um futuro. Levou suas teses para explicar a Segunda Guerra Mundial e as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.

O sucesso literário lhe rendeu um Nobel de Literatura em 1957 e desentendimentos filosóficos e ideológicos com Sartre nos jornais. Embora quem não conheça profundamente sua obra o considere um filósofo existencialista, Albert Camus dizia que não era um pensador, mas apenas um escritor da sua realidade de país pobre e, depois, sobre a França. Segundo ele, Jean-Paul Sartre era sim um filósofo por suas teorias originais sobre o ser. Mesmo dando créditos ao amigo, brigou quando Sartre apoiou a Revolução Chinesa, o stalinismo e Cuba.

Durante a Guerra de Independência da Argélia, Albert Camus não tomou partido da esquerda armada e das milícias que queriam a independência. Suas convicções pessoais, mais pacifistas, ficaram abaladas com os assassinatos sistemáticos de franceses e argelinos em sua terra natal. Foi criticado, duramente, por sua falta de ação na época. Os argelinos, embora tenham um Nobel na literatura, não reconhecem Camus por isso.

No entanto, foi venerado justamente por suas posturas originais dentro do pensamento de esquerda, sempre condenando as guerras e a violência promovidas pelo capitalismo, sobretudo na Alemanha nazista. Camus se transformou em um dos maiores nomes da intelectualidade do século 20, ao lado de seu ex-amigo Sartre. Morreu tragicamente em um acidente de carro em Villeblevin, perto de Paris, em 1960. Tinha 46 anos e optou pelo automóvel ao invés de tomar um trem. Uma decisão fatal.

Em 1949, Albert Camus viajou ao Brasil. Passou por Recife, pelo Rio de Janeiro e conheceu Manuel Bandeira, Otto Lara Resende, Otto Maria Carpeaux e Érico Veríssimo. Deu entrevista a Claudio Abramo no Estado de S. Paulo.

Registrou suas impressões em uma coletânea que foi lançada no Brasil com o nome “Diário de Viagem”. O que ele achou de nosso país? “O Brasil com sua fina armadura moderna, uma chapa metálica sobre esse imenso continente fervilhante de forças naturais e primitivas”.

As forças naturais e primitivas estão agora trabalhando pela seleção da Argélia.

Pedro Zambarda de Araújo é escritor, jornalista e blogueiro. Atualmente escreve sobre tecnologia e games no site TechTudo. Teve passagem pelo site da revista EXAME. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, estuda filosofia na FFLCH-USP.

 

Plataforma Operária e Camponesa da Energia apoia contratação direta da Petrobras

Plataforma apoia medida em defesa da soberania nacional e do povo brasileiro

O governo federal anunciou nesta terça-feira (24/06) a transferência direta para a Petrobrás de quatro áreas importantes do pré-sal (Búzios, entorno de Iara, Florim e nordeste de Tupi) com estimativa de 10 a 14 bilhões de barris de petróleo, para serem explorados através da lei de partilha. A medida fortalece a maior estatal do Brasil (Petrobrás) e a soberania nacional do país sobre o petróleo brasileiro, porque garante que parte importante e estratégica do petróleo mantenha-se sob controle do Estado.

Em 2010 o governo Lula adotou medidas de capitalização da Petrobrás e na época repassou o direito de exploração de 5 bilhões de barris de uma área de pré-sal no litoral de São Paulo, na bacia de Santos. Depois que se completaram as pesquisas e estudos, se confirmou que existem volumes bem maiores, cerca de 10 a 14 bilhões de barris a mais.

Com base no Artigo 12, da lei 12.351 de 2010, “lei de partilha de produção”, visando a preservação do interesse nacional, a União pode entregar um campo de petróleo diretamente para a Petrobrás. A estatal assina um contrato onde garante que um percentual do “óleo-lucro” deverá ser remetido para o “Fundo Social”, obtido por definição do governo, para garantir o melhor benefício ao povo brasileiro.

Ao utilizar esse mecanismo, na visão das entidades integrantes da “Plataforma Operária e Camponesa para Energia”, o atual governo federal adota postura de defesa dos interesses nacionais e do povo brasileiro e favorece o controle do Estado sobre as reservas estratégicas de energia. No ano passado, nossas organizações realizaram uma grande mobilização nacional para impedir o leilão do campo de Libra e reivindicávamos estas mesmas medidas, agora, a luta popular obtém grande vitória.

A presidenta Dilma certamente contrariou fortes interesses de empresas petrolíferas internacionais, que, sabedoras das enormes reservas existentes de petróleo na região do chamado pré-sal tinham a intenção de se apropriarem dessas reservas através de leilões futuros.

Os setores empresariais e representações políticas defensores das privatizações saíram derrotados, já que este enorme volume de petróleo ficará 100% com a empresa brasileira Petrobrás e afasta qualquer possibilidade de leilão futuro dessas reservas.

A medida anunciada pela presidenta Dilma impõe uma derrota aos setores que pressionam para retroceder e adotar o antigo “modelo de concessões”, onde a totalidade do lucro vai para as empresas. A exploração dessas reservas será através do “modelo de partilha”, que obriga que parte do lucro extraído seja revertida para a formação do “Fundo Social”, que vai canalizar os recursos para melhoria da educação e saúde.

Os movimentos sociais e sindicais que fazem parte da “Plataforma Operária e Camponesa para Energia” apoiam a medida, porque vai ao encontro dos interesses do povo brasileiro e às lutas e reivindicações, que vêm sendo realizadas pelos trabalhadores do campo e da cidade nos últimos anos.

Com a recente medida, o governo brasileiro dá um passo significativo em defesa da soberania nacional e na busca da melhor distribuição da riqueza no país, cuja desigualdade social é ainda muito gritante.

A medida anunciada pode significar um passo político importante na direção de maior controle do estado brasileiro sobre as reservas naturais estratégicas, fortalece a estatal Petrobrás e a soberania do país sobre o petróleo brasileiro, o que vai de encontro com a pauta das reivindicações populares brasileiras.

Pode também significar um movimento no sentido de construção e de fortalecimento da unidade política dos povos na América Latina em oposição às forças imperialistas, pois esta ação indica o propósito político de construção de uma soberania sobre os recursos naturais e energéticos dos estados nacionais da América Latina, como vem acontecendo em importantes países de nosso continente.

Também significa um movimento que fortalece o país no posicionamento externo, exatamente, em momento que a independência energética estadunidense parece ser uma grande farsa e o grau de dependência energética do imperialismo tradicional – EUA e União Europeia – está cada vez mais exacerbado.

Por fim, assim como há 60 anos o povo brasileiro protagonizou a campanha “o petróleo é nosso”, que resultou na construção da Petrobras, mantemos nossa disposição de seguir firmes na luta apoiando e cobrando medidas importantes em defesa da soberania e na distribuição da riqueza ao povo brasileiro.

Assinam:

Federação Única dos Petroleiros-FUP;

Federação Nacional dos Urbanitários-FNU;

Movimento dos Atingidos por Barragens-MAB; Sindieletro MG;

Sinergia SC, Federação Interestadual de Sindicados de Engenheiros-FISENGE;

SENGE PR;

SENGE RJ;

STIU DF;

SINERGIA SP;

FTIUESP;

Via Campesina.