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ANP perde na justiça e leilão de xisto é suspenso

Via AEPET

Exploração de xisto no Paraná, pela Petrobras. Memória Petrobras/Reprodução

A Justiça Federal do Paraná, através do desembargador Cândido Alfredo Leal, recusou o recurso da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e manteve a suspensão da 12ª Rodada de Licitações, realizada em novembro, que se referia à exploração do gás de folhelho (xisto). A decisão atende ao pedido do Ministério Público Federal (MPF), que solicitou a suspensão por causa do risco ambiental envolvido. Já a ANP argumentava que a decisão prejudicaria investimentos de R$ 195 milhões. “Não se pode atropelar o meio ambiente”, rebateu o desembargador.

O vice-presidente da AEPET, Fernando Siqueira, que participou de audiência pública realizada pelo MPF, registrou que a operação, além de desnecessária, envolveria realmente um grande risco ambiental. “O pré-sal já irá oferecer gás em quantidade bastante para manter o Brasil auto-suficiente por mais de 30 anos”, argumentou, na época, acrescentando que o gás de folhelho provém de uma rocha muito impermeável, que exige injeção de água a 10 mil libras, o que representa uma explosão sem controle da rocha. “Esta explosão pode liberar hidrogênio de forma descontrolada, além do fato de que a água de fraturamento tem cerca de uma centena de produtos químicos nocivos ao meio ambiente.”

Siqueira acrescenta que o edital da ANP deixava o julgamento da periculosidade dos projetos para responsabilidade do próprio empreiteiro. “Seria outro absurdo, agravado pelo fato de que a principal reserva se encontra embaixo do Aqüífero Guarani, a maior reserva de água doce do mundo, que pertence a cinco países”, destaca, acrescentando que, durante a audiência pública um dirigente do IBAMA encarregado de licenciamentos ambientais de projetos fez depoimento dramático revelando, como pessoa física, e não como representante oficial do IBAMA, que condenava com veemência esta iniciativa da ANP sem nenhuma discussão com a sociedade e ainda permitindo que a própria concessionária se auto-fiscalizasse. “O referido dirigente frisou que nem os 90 fiscais que o IBAMA dispõe atuando juntos não teriam condições de fiscalizar esses projetos. Como a ANP não tem um corpo de fiscais nesta área, ele considerou que seria grande irresponsabilida fazer um leilão nessas condições”, relata Siqueira.

O vice-presidente da AEPET pondera ainda que, da mesma forma que não precisará recorrer a fontes alternativas de gás por muito tempo, o país tem reservas de petróleo para mais de 60 anos, não fazendo sentido, portanto, a realização de nenhum leilão. “Estaríamos apenas cedendo às pressões do governo norte-americano, que quer baratear o custo do petróleo convencional e tirar os EUA da insegurança econômica e energética pelo fato de ser o maior consumidor do mundo e não ter reservas, já que sua população representa 4% da população mundial e eles consomem 33% da energia produzida no mundo”.

Salvem o futebol das mãos da Fifa

Por Andrew Jennings, via Blog da Boitempo

Sepp Blatter não quer que saibamos, mas já está gastando com advogados em Zurique boa parte do dinheiro que levará do Brasil. O motivo? Desde novembro ele tenta impedir a publicação de um livro.

Seria uma obra séria de jornalismo investigativo repleta de alegações de corrupção devidamente documentadas? Não. Acusações de que ele rouba o dinheiro do futebol? Não nessas páginas. Compra de votos? Isso aparece em outros textos. O conteúdo do livro é muito mais danoso a Herr Blatter, que se convenceu de que é o homem mais importante do planeta. Trata-se de uma coleção de caricaturas que não o levam muito a sério. É esse o “crime” que os advogados suíços tentam comprovar há sete meses.

O ex-jogador dinamarquês Olé Andersen desenvolveu uma segunda carreira após aposentar-se e trabalhou por muitos anos na Fifa como artista gráfico. Lá, ele viu o mundo secreto de Sepp Blatter e produziu um divertido livro de caricaturas.

Não contem aos advogados do presidente, mas eu já vi o livro. As caricaturas são engraçadas. Não há nenhuma baixaria, nada de indecente. Então, o que elas mostram, afinal? Será que ouso revelar? Andersen cometeu o crime mais grave do futebol mundial: suas caricaturas demonstram desrespeito em relação a Herr Blatter, o deus-rei do futebol. Para Blatter, levar o caso aos tribunais não custa um centavo. Ele diz que, quando é insultado, a Fifa é insultada – e, por isso, a organização arca com a conta. Ótima jogada, Sepp! Um engradado de lagostas terá de ser subtraído da conta final da hospedagem no Copacabana Palace, e haverá menos pares de chuteiras infantis para os países pobres que Blatter diz amar.

O desrespeito está no fato de as caricaturas mostrarem o Blatter de verdade. A barriga imensa, os olhos pequenos e estreitos, sempre tramando algo, as papadas de peru, a palidez da pele antes de receber a maquiagem para as aparições perante o Congresso.

A equipe de Blatter é formada por mestres do Photoshop. Seu olhar sábio e benevolente está em todas as publicações da Fifa. Jamais adivinharíamos que ele tem 78 anos e traz as cicatrizes de uma tumultuada vida pública e particular. Quer que acreditemos que o futebol não pode sobreviver sem ele.

Blatter engana a si mesmo pensando ser o homem capaz de resolver a disputa entre israelenses e palestinos num campo de futebol, coroando sua carreira com um Prêmio Nobel da Paz. Esse é um dos motivos pelos quais quer mais quatro anos.

As caricaturas mostram esse homenzinho obeso e acabado, arqueado sob o peso dos anos de manipulação e mentiras para se manter no poder.

Olé gostaria de dar uma declaração, mas isso não seria prudente.

Na semana passada, os advogados de Blatter depositaram sobre a cabeça do cartunista um tsunami legal de 21 páginas externando o pesar do presidente. O tom se alterna entre o pomposo e o suplicante. Eles dizem ao tribunal: “O livro destruirá o nome de Blatter, arruinando sua reputação”. Seria de fato surpreendente se, após décadas de alegações de corrupção, ele ainda tivesse algo de positivo na reputação.

Como seus advogados conseguem manter uma expressão séria? Eles recebem muito dinheiro porque seu chefe reluta em ir aos tribunais para descrever a dor que sente. O drama dele seria objeto da atenção da mídia mundial e, principalmente, dos risos do público. Será que esse bebê chorão de pele sensível é a pessoa mais indicada para administrar nosso esporte?

O que deixou o ditador da Fifa mais irritado? Vou dar uma dica. Trata-se de uma caricatura mostrando Blatter como Charlie Chaplin no filme O Grande Ditador.

Quarta-feira telefonei a Olé Andersen para dar-lhe umas palavras de conforto. Alguns anos atrás, Blatter procurou secretamente seu tribunal favorito em Zurique, que prontamente proibiu meu livro Jogo Sujo. Sua triunfalista assessoria de imprensa me enviou um e-mail dizendo que o livro estava morto e, se eu insistisse na tentativa de publicá-lo, acabaria encarcerado na Suíça.

Meus advogados pediram para se reunir com o tribunal no dia seguinte e solicitaram a presença de Blatter para que explicasse o problema. Ele não o fez, retirou a queixa e ainda divulgou um pronunciamento mentiroso dizendo que a obra tinha sido revisada sob pressão dele e não era mais problemática. Foi bobagem, porque o livro já tinha sido impresso e nenhuma mudança poderia ser feita. Com o episódio aprendi muito a respeito da honestidade de Blatter.

Olé vai ganhar a disputa e, poucos dias depois, suas Caricaturas de Blatter estarão disponíveis no Kindle nos mais diferentes idiomas. Nem preciso dizer muito sobre o livro: as ilustrações são incríveis!

Vou acompanhar atentamente aquilo que minha televisão mostrar do Maracanã. Quero assistir ao futebol, mas meus olhos estarão sempre buscando o reluzir das joias atrás das janelas de acrílico dos camarotes VIP. Minha pergunta: será que José Maria Marin trará secretamente seu benfeitor, Ricardo Teixeira, com a cabeça escondida sob a bandeira nacional, para assistir ao jogo de um desses exorbitantes salões corporativos?

Os contribuintes brasileiros pagaram por esses camarotes, assentos que os fãs brasileiros jamais poderiam comprar. Em nome da família Blatter, gostaria de agradecer a vocês. E também um muito obrigado da empresa Taittinger, dona do contrato exclusivo de distribuição de champanhe. O contrato de hospitalidade corporativa de todos os estádios foi concedido por tio Sepp à empresa Match, da qual a empresa Infront, do sobrinho dele, Philippe Blatter, é dona de uma parte. Os proprietários majoritários da Match são os irmãos mexicanos Jaime e Enrique Byrom, trazidos para o mundo dos lucros do futebol algumas décadas atrás por João Havelange.

Os irmãos Byrom são sortudos. Eles têm também um contrato para fornecer todos os 3 milhões de ingressos da Copa do Mundo. Das entradas, 450 mil são reservadas para a elite nos camarotes com seus chefs, garçonetes e estacionamentos privilegiados. Aqueles que estiverem desesperados por um ingresso para a final podem se encaminhar para a Entrada dos Podres de Ricos e ver se algum dos 12 mil bilhetes entregues pelo tio e por Teixeira ao sobrinho e aos irmãos está sobrando.

Os brasileiros que percorrem grandes distâncias para assistir aos jogos precisarão de quartos de hotel, e nisso os irmãos podem ajudar. Tio Sepp deu a eles o contato da indústria hoteleira e, como perderam muito dinheiro na África do Sul em 2010, a Fifa concedeu-lhes um empréstimo sem juros da ordem de £ 6 milhões (cerca de R$ 22 milhões) para lubrificar a engrenagem comercial.

Caso Sepp Blatter queira sair inteiro do aeroporto do Galeão, o Brasil precisa ser campeão da Copa do Mundo. Por isso, se Neymar, Fred ou Hulk quebrarem a perna ou se Marcelo sofrer um mal súbito como ocorreu com Ronaldo, em 1998, não há motivo para preocupação.

Por pior que seja o desempenho da seleção nos campos, Blatter tem muito poder sobre o resultado. No passado, alguns juízes das partidas não passaram de fantoches interessados apenas em viajar pelo mundo, receber quantias vultosas e participar de intercâmbios culturais nos bordéis. Blatter encontrou dois capachos do tipo em Seul em 2002, demonstrando que nada tem a aprender com os criminosos responsáveis por resultados arranjados que ele tanto gosta de criticar.

Assim como a corrida de camelos parece ser o esporte preferido no Catar, a Coreia do Sul é fã do beisebol. Uma vez que a seleção do país fosse eliminada, os estádios ficariam vazios e as emissoras de TV do mundo inteiro ficariam constrangidas ao mostrar as fileiras de assentos vagos.

A Coreia do Sul conseguiu se classificar na fase de grupos e enfrentou a Itália, sempre uma adversária formidável. Mas, para os italianos, formidável mesmo foi o juiz Byron Moreno, do Equador. Ele apitou um pênalti duvidoso para a Coreia do Sul com apenas quatro minutos de jogo – mas o goleiro defendeu. Os minutos foram passando e a Itália foi melhor, com um gol de Christian Vieri. A aparente vitória foi impedida aos 44 minutos do segundo tempo, quando a Coreia do Sul empatou.

O jogo foi para a prorrogação e, pouco antes do intervalo, Francesco Totti foi derrubado na área coreana. Os replays mostraram que um pênalti deveria ter sido apitado em favor da Itália. Em vez disso, Totti foi castigado por simulação.

No segundo tempo, o gol de ouro de Damiano Tommasi foi anulado, mais uma vez deixando perplexos os fãs do mundo inteiro. Três minutos antes do final da prorrogação, Ahn Jung-hwan saltou mais alto do que a zaga italiana para marcar de cabeça o gol de ouro. A Coreia do Sul avançou para enfrentar a Espanha nas quartas de final.

A Espanha enfrentou três adversários. A Coreia do Sul, o juiz Gamal Al-Ghandour e o bandeirinha Michael Ragoonath, de Trinidad, escolhido para apitar no torneio pelo conhecidamente corrupto Jack Warner. A Espanha marcou no segundo tempo; o juiz anulou o tento. A partida foi para prorrogação. O espanhol Fernando Morientes fez gol, mas Ragoonath ergueu a bandeira. A Coreia cobrou um tiro de meta. Nos replays, vemos que o bandeirinha foi incompetente, na melhor das hipóteses.

A Espanha conseguiu um escanteio no último minuto da prorrogação, mas o juiz encerrou a partida um minuto antes do término do segundo tempo da prorrogação, antes que a seleção espanhola tivesse chance de cobrar o lance. A Coreia do Sul venceu nos pênaltis e se classificou para as semifinais. Os estádios continuaram cheios.

Assim, se a seleção não for capaz de avançar por mérito próprio, os juízes de Blatter resolverão o problema. Ele é mesmo um grande presidente!

Vamos torcer para que João Havelange tenha pedido aos seus sócios gângsteres naquilo que restou do clã Andrade no Rio de Janeiro que declarassem cessar-fogo durante o campeonato. Não precisamos de uma repetição de abril de 2010, quando uma bomba explodiu o jovem Diogo Andrade, morte seguida por outros assassinatos vingativos, numa disputa pelo controle da corrupção.

Graças à egocêntrica determinação de Blatter de se manter na presidência da Fifa, o futebol mundial apresenta hoje um amargo cisma. Jornalistas como eu, que revelam como ele e seus associados subornaram funcionários menos ricos na África e na Ásia, são denunciados como “racistas”. Ele não tem limites. Sem nenhum constrangimento, mais dinheiro é doado aos gananciosos funcionários para que comprem votos para Blatter.

Independentemente de ele vencer a eleição ou não, seu legado será marcado pela corrupção e pelo ódio. A Fifa é uma piada global, alvo da gozação de comediantes. Depois que nos livrarmos de Blatter a Fifa vai precisar de uma faxina, para que as feridas infligidas por ele possam cicatrizar.

A resposta mais fácil é aquela seguida por muitos governos. O Parlamento suíço deve anunciar que, antes do fim do ano, a Fifa deve usar os grotescos lucros obtidos no Brasil para tornar tudo disponível na web. Registros de reuniões, votações nominais, recibos de despesas, pagamentos “especiais” autorizados por Blatter e, especialmente, o grande segredo da Fifa: a quantia que ele recebe como salário e as bonificações que atribui a si.

Na rede podemos descobrir as atividades de nossos governos. A imensa corrupção comandada por Blatter contra o esporte das multidões só pode ser reparada com uma transparência proporcional. Se a Fifa não atender a essa demanda, será necessário expulsá-la do palácio de vidro e mármore nas colinas nos arredores de Zurique.

O que mais Blatter pode fazer? Bater em retirada rumo ao Catar? Até os xeques ficariam constrangidos com as gargalhadas do mundo.

Entre os fãs existe uma tradição global de vaiar Blatter. Este ano, insisto para que todos entoem um pedido de transparência na rede sempre que ele mostrar o rosto em público, para que o mundo ouça o que precisa ser feito para salvar o futebol das mãos da Fifa.

Wallerstein: O jogo geopolítico da Rússia e da China

Por Immanuel Wallerstein, tradução revista pelo autor de Luis Leiria, via Esquerda.net

Journal Georgetown/Reprodução

O que a Rússia realmente procura é um acordo com a Alemanha. E o que a China realmente quer é um acordo com os Estados Unidos. E o truque é anunciar esta aliança “para sempre” entre eles.

Governos, políticos e média no mundo “ocidental” parecem incapazes de compreender os jogos geopolíticos na forma como são praticados por quaisquer outros. As suas análises do anunciado novo acordo da Rússia e da China são disto um surpreendente exemplo.

Em 16 de maio, Rússia e China anunciaram ter assinado um “tratado de amizade” que duraria “para sempre” mas não é uma aliança militar. Simultaneamente, anunciaram um acordo sobre o gás, pelo qual os dois países irão construir um gasoduto para exportar gás russo para a China. A China vai emprestar à Rússia o dinheiro com o qual esta construirá a sua parte do gasoduto. Parece que a Gazprom (o maior produtor russo de gás e de petróleo) fez algumas concessões de preço à China, uma questão que esteve a reter durante algum tempo a assinatura do acordo.

Se formos ler os meios de comunicação do dia 15 de maio, estão cheios de artigos explicando por que um acordo com este era improvável. Quando, mesmo assim, ele foi assinado no dia seguinte, os governos ocidentais, os políticos e os média dividiram-se entre os que o viram como uma vitória geopolítica do presidente russo Vladimir Putin (e a deploraram) e os que argumentaram de que não irá fazer muita diferença em termos geopolíticos.

É bastante claro, quando se olha para as discussões e as votações do Conselho de Segurança da ONU dos últimos anos, que a Rússia e a China partilham uma aversão às diversas propostas avançadas pelos Estados Unidos (e frequentemente secundadas por vários países europeus) para autorizar o envolvimento direto (abrindo em última instância o caminho ao envolvimento militar) na guerra civil na Ucrânia e nos múltiplos conflitos no Médio Oriente.

As sanções unilaterais que os Estados Unidos já impuseram à Rússia devido ao seu alegado comportamento na Ucrânia e a ameaça de impor ainda mais sanções apressaram o desejo da Rússia de encontrar novas saídas para o seu gás e petróleo. E isto, por seu turno, leva a muita conversa sobre uma ressurreição da Guerra Fria entre Rússia e Estados Unidos. Mas será este na verdade o ponto principal do novo acordo Rússia-China?

Parece-me que ambos os países estão realmente interessados numa reestruturação das alianças entre Estados. O que a Rússia realmente procura é um acordo com a Alemanha. E o que a China realmente quer é um acordo com os Estados Unidos. E o truque é anunciar esta aliança “para sempre” entre eles.

A Alemanha está claramente dividida internamente quanto à perspetiva de incluir a Rússia na esfera europeia. A vantagem para a Alemanha de um acordo deste tipo seria consolidar a base de clientes russos para a sua produção, garantir as suas necessidades energéticas e incorporar a força militar russa no seu planeamento global de longo prazo. Como isto inevitavelmente significaria a criação de uma Europa pós-NATO, há oposição à ideia não só dentro da Alemanha mas, evidentemente, também na Polónia e nos Estados bálticos. Do ponto de vista da Rússia, o objetivo do tratado de amizade Rússia-China é fortalecer a posição dos que na Alemanha querem trabalhar com a Rússia.

A China, por outro lado, está fundamentalmente interessada em amansar os Estados Unidos e reduzir o seu papel na Ásia oriental. Mas, dito isto, quer reforçar, não enfraquecer, as suas ligações com Washington. A China procura investir nos Estados Unidos aos preços de saldo que considera estarem a ser oferecidos. Quer que os Estados Unidos aceitem a sua emergência como potência regional dominante na Ásia oriental e do sudoeste. E quer que os Estados Unidos usem a sua influência para impedir o Japão e a Coreia do Sul de se tornarem potências nucleares.

É claro que o que a China quer não está em consonância com a linguagem ideológica que prevalece nos Estados Unidos. Porém, parece haver dentro dos Estados Unidos um apoio discreto a esta evolução de alianças, especialmente no interior das principais estruturas empresariais. Tal como a Rússia quer usar o tratado de amizade para encorajar certos grupos na Alemanha a moverem-se na direção que considera mais útil, também a China deseja fazer o mesmo com os Estados Unidos.

Será que estes jogos geopolíticos vão funcionar? Possivelmente, mas isso de forma alguma é certo. Ainda assim, nas perspetivas tanto da Rússia quanto da China, têm tudo a ganhar e muito pouco a perder usando este ardil. A questão real é como o debate interno na Alemanha e nos Estados Unidos vai evoluir no futuro próximo. Quanto ao argumento de que o mundo está a voltar à Guerra Fria entre os Estados Unidos e a Rússia, pensem nele como o ardil dos que compreendem o jogo da Rússia e da China e estão a tentar contrariá-lo.

Países da América Latina são solidários à Argentina contra especulação

Via Vermelho e Prensa Latina

Lainfo/Reprodução

A América Latina e o Caribe manifestaram nesta segunda-feira (30) apoio à Argentina diante dos ataques dos chamados fundos abutres e advertiram para as consequências nocivas que esses capitais especulativos acarretam para a região.

Durante uma reunião extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, os países da região apoiaram a solicitação de Buenos Aires de convocar para a próxima quinta-feira (3) um encontro de chanceleres para discutir o tema.

Nesse encontro, os ministros argentinos das Relações Exteriores, Héctor Timerman, e da Economia, Axel Kicillof, defenderão a tese de Buenos Aires.

“Nosso mais absoluto apoio e solidariedade com a Argentina; o problema dos fundos abutres implica todos nós, é um atentado contra a segurança jurídica e contra os direitos humanos, sublinhou o embaixador uruguaio, Milton Romani.

Seu colega do Equador, Marco Albuja, denunciou que a sentença da Corte Suprema dos Estados Unidos em favor desses fundos põe em risco o sistema financeiro internacional e em especial a Argentina.

O equatoriano considerou muito grave o precedente dessa sentença judicial e recordou os ataques especulativos desses fundos contra as nações mais pobres da África nos últimos anos.

Todo país tem o direito de reestruturar suas dívidas, desconhecer esse poder é pôr em risco a economia do país, no caso a Argentina, isso é grave e perigoso para a região, afirmou o representante da Nicarágua, Denis Moncada.

Os embaixadores de Colômbia, Chile, Santa Lúcia, México, Guiana e Venezuela, entre outros, também se solidarizaram com a nação sul-americana.

Por sua parte, o secretário-geral da OEA, o chileno José Miguel Insulza, não levou em consideração a sugestão do representante do Panamá de adiar a reunião de chanceleres, ao assinalar a premência e a importância do tema.

Em janeiro de 2012, o juiz nova-iorquino Thomas Griesa determinou que o país sul-americano pague cerca de 1,3 bilhão de dólares aos fundos abutres, que se negaram a entrar na renegociação da dívida aceita por 92,4 por cento dos credores.

Essa decisão foi ratificada este mês pela Corte Suprema dos Estados Unidos, o que provocou duras críticas de Buenos Aires e de numerosos países da região.

Desde então, a Argentina lançou uma campanha para denunciar a sentença e os ataques dos fundos abutres, iniciativa respaldada pela América Latina.

Síria: Obama prolonga a guerra

Via Moon Of Alabama

Obama pede dinheiro ao Congresso para treinar rebeldes sírios “adequadamente selecionados”:[1]

“O presidente Obama pediu $500 milhões ao Congresso na 5ª-feira, para treinar e equipar “membros da oposição síria adequadamente selecionados”, como disse a Casa Branca, mostrando crescente preocupação com o ‘respingamento’ do conflito sírio sobre o Iraque.”

É ideia de doidos e movimento lunático. Injetar mais armas e mais rebeldes armados no conflito sírio só fará aumentar o conflito e afetará negativamente a situação da segurança na Síria, no Iraque, no Líbano, na Turquia e na Jordânia. Assim se comprova que ninguém está preocupado com qualquer ‘respingamento’.

Em agosto do ano passado, Edwald Luttwak escreveu que os EUA ganham, se os dois lados continuarem a lutar; e que os EUA portanto deveriam estender o conflito o mais possível:[2]

“O objetivo dos EUA deve ser manter o impasse. E o melhor meio possível para conseguir manter o conflito é armar os rebeldes quando parecer que as forças do Sr. Assad estejam em ascensão; e cortar o suprimento, se os rebeldes parecerem estar realmente vencendo.”

Tudo sugere que Obama, mesmo ao preço de fracasso regional mais amplo, está seguindo essa política.

Os porta-vozes de Obama merecem outra medalha Orwell:

“Apesar de continuarmos a crer que não há solução militar para essa crise e que os EUA não devem pôr soldados norte-americanos em combate na Síria, esse pedido marca mais um passo para ajudar o povo sírio a defender-se contra ataques do regime” – disse Caitlin Hayden, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, em declaração.

O maior perigo para os civis e para o Exército Sírio Livre, cujo principal comandante oficial foi (outra vez) demitido por corrupção,[3] não são as forças do governo de Assad, mas os terroristas jihadistas.

Os EUA já treinam e armas rebeldes “adequadamente selecionados” há, no mínimo, dois anos! E já entregaram a eles toneladas de armas. Aquelas armas acabaram em mãos dos terroristas jihadistas e os rebeldes “selecionados” estão hoje ou mortos ou já se uniram a grupos associados à AlQaeda. O novo treinamento tomará seis meses, antes de os ‘treinados’ estarem, digamos, ‘prontos’. Em seis meses, o exército sírio legal estará em melhor posição do que está hoje e o principal inimigo para todos naquele campo de batalha será o ISIS.

Não será surpresa para mim quando os tais rebeldes “adequadamente selecionados” e já treinados se unirem ou às tropas de Assad ou às tropas do ISIS, tão logo retornem à Síria, no final do ‘treinamento’ que os EUA desejam que tenham.

Referências:

[1] http://www.nytimes.com/2014/06/27/world/middleeast/obama-seeks-500-million-to-train-and-equip-syrian-opposition.html

[2] http://www.nytimes.com/2013/08/25/opinion/sunday/in-syria-america-loses-if-either-side-wins.html?_r=1&

[3] https://news.yahoo.com/syria-opposition-sacks-rebel-command-over-graft-allegations-093619778.html?soc_src=mediacontentsharebuttons

 

Robben merecia ser punido como Suárez

Por Scott Moore, via DCM

DCM/Reprodução

Ladies & Gentlemen:

Um escritor afirmou que o pior pecado depois do pecado é a publicação do pecado.

Foi o que ocorreu hoje com Robben, o atacante holândes.

Depois de uma série infindável de mergulhos para simular pênaltis, ele admitiu a uma tevê holandesa que pelo menos uma vez tentou enganar o árbitro.

Diante da repercussão dessa confissão desconcertante, ele emendou posteriormente que não foi o caso do pênalti que afinal classificou a Holanda.

Neste caso, segundo ele, foi mesmo pênalti – uma afirmação que as imagens colocam claramente sob dúvida. O zagueiro mexicano teria pisado no seu pé, segundo os crédulos. Ora, isto tivesse mesmo ocorrido, o pé pisado, e portanto preso, impediria o voo de Robben. Elementar.

Ladies & Gentlemen: minha tia Mimi dizia, de um certo ator, que era muito bom apesar de careca. (Nota da tradutora: in spite of being bald.)

Sigo tia Mimi e digo que Robben é um grande jogador, apesar de careca.

Mas é também um fanfarrão. Assim como Suárez é um mordedor serial, Robben é um mergulhador serial, compulsivo.

Também como Suárez, é um caso psiquiátrico, mais que futebolístico. Ele sabe que age errado, e mesmo assim não consegue se corrigir.

Nós, europeus, conhecemos bem essa característica detestável de Robben. Não é a primeira vez que ele se desculpa publicamente por trapacear.

O que espanta é que o juiz tenha caído na armadilha de Robben. Não teria informações suficientes sobre ele? É possível.

O técnico mexicano tem razão: Robben já deveria ter recebido cartão amarelo pelas simulações antes do lance fatal. Dificilmente ele teria dado aquele último mergulho que eliminou o bravo México.

Suarez foi punido. E Robben, réu confesso, não deveria ser também?

Tenho certeza de que não será. E sei a razão: ele não é uruguaio, ou sul-americano, ou africano.

É europeu.

Sincerely.

Scott

Tradução: Erika Kazumi Nakamura

PS: Corre nesta segunda a informação de que a Fifa poderia punir Robben por encenação.

 

A agonia do jornalismo

Por Cristina Mestre, via Voz da Rússia

Há dez anos atrás, costumava comprar uma revista de informação publicada em Portugal, a Visão. Mas houve um dia em que a “minha” revista mudou em tudo. Passou a exibir uma capa vermelha apelativa com letras maiores, os artigos passaram a ser muito mais pequenos, passou a haver mais notícias sobre “fait divers”, mais fotos e menos texto. As reportagens de investigação com várias páginas passaram a ser mais raras. Comecei a perder o interesse.

Eu, sem saber, estava presenciando a “revolução no jornalismo” ou, segundo outros, a “agonia do jornalismo”. Ao longo desta última década muitas coisas aconteceram: dezenas de jornais e revistas deixaram de existir, centenas ou milhares de jornalistas foram despedidos, muitas pessoas deixaram de comprar jornais e passaram a obter a informação de forma gratuita na Internet.

Não sendo eu jornalista e arriscando ser criticada pelo meu diletantismo, vejo o desespero de uma classe profissional que está desaparecendo; os que ainda permanecem adaptam-se como podem, condescendem, praticam a autocensura.

Há quem invente desculpas: o jornalismo é hoje uma indústria cuja mercadoria – a informação – se orienta prioritariamente para o mercado, sujeita às leis da oferta e da procura, lutando pela sobrevivência como qualquer outro setor da economia. Será mesmo assim? Ou será que o jornalismo ainda se orienta pelos valores da procura da verdade, da independência e da equidistância face aos diversos poderes?

Muitos apontam a causa desta revolução: A Internet. Antes, a imprensa escrita (para além da rádio e da TV) praticava um “caminho de sentido único”, só ela dispunha do monopólio da divulgação da informação. Hoje, essa supremacia acabou. Não há emissores puros nem recetores puros que tenham de resignar-se com tal função. A revolução que vivemos é que cada receptor pode ser também emissor. Todos podem fazer uma página na Internet, publicar textos no Facebook ou Twitter, manter um blogue. Agora, como consequência das mudanças técnicas e culturais, o leitor, a audiência, têm um poder como nunca tiveram.

A estrutura da indústria da informação e a maneira de produzir informação estão a ser transformadas. Muitos jornais passaram para o suporte digital. O jornalismo de investigação, o gênero mais nobre, está a desaparecer.

Dizem que não há recursos para fazer investigação jornalística, menos ainda para enviar uma equipe a outra parte do mundo para produzir notícias. Os donos das empresas jornalísticas queixam-se que as receitas da publicidade estão caindo. Em Portugal, por exemplo, o mercado publicitário contraiu 50% nos últimos anos.

A crise da comunicação social tem origem, outros afirmam, na opção pelo simplismo e o sensacionalismo, que veio acompanhada por cortes abruptos na qualidade.

Jornalismo e democracia

O declínio do jornalismo acompanha (e também provoca) o declínio da democracia.

Porque a democracia só pode funcionar se surgem críticas e reivindicações da sociedade, que sempre foram transmitidas e denunciadas pelo quarto poder. Quando este não cumpre a sua função, a sociedade e a democracia começam a degradar-se.

É possível ver a agonia do jornalismo na forma de funcionamento dos jornais regionais portugueses (embora tal deva acontecer também em muitos outros países).

“O jornalista está algemado aos interesses do cacique, do partido político dominante, da Câmara Municipal local, dos grandes e médios empresários da zona, e tudo por causa da publicidade. São eles que dão dinheiro aos jornais e às rádios, e são eles que, com esse dinheiro, chantageiam os diretores, chefes de redação e até jornalistas a seguirem as suas linhas de orientação, pois, caso assim não seja, os cortes financeiros serão acentuados e o próprio órgão de informação correrá o risco de desaparecer. A liberdade de expressão está, como se sabe – mas poucos querem assumir – regrada, obstaculizada, condicionada e, por vezes, adulterada nos grandes órgãos de comunicação social. O assédio psicológico sobre os jornalistas é uma constante em algumas dessas empresas. As tais empresas que controlam os jornais e rádios regionais.” Este é o testemunho de José Gonçalves, um jornalista português de um jornal regional.

“O jornalismo tornou-se sensacionalista e deixou de interessar aos cidadãos porque os jornalistas não estão a cumprir devidamente o seu papel de informar com qualidade”, afirma o jornalista Nuno Ramos de Almeida.

Deixou de interessar aos cidadãos ou será algo mais grave?

A verdade é que vivemos num mundo com constante fluxo de informação, através de múltiplos canais. Houve uma altura em que se pensava que a Internet e as redes sociais tornariam a informação não só mais variada mas também mais fidedigna e isenta, que “democratizariam” as mentalidades e ajudariam as pessoas a analisar as notícias de forma mais racional. Isso aconteceu mas só parcialmente.

Com o aumento exponencial da informação na Internet, a sociedade parece estar cansada e ter deixado de distinguir entre o que é verdade e o que é simulação da verdade, o que faz com que seja mais fácil divulgar informação manipulada ou apenas não rigorosa.

Uma jovem jornalista, Susana Valente, escreve algo que é tanto uma confissão como um lamento:

“Deixamo-nos apanhar, nós jornalistas, esta espécie em vias de extinção, pela vacuidade dos dias, onde a informação é só mais um bem perecível e, cada vez mais, um bem terciário, relegado para o fundo da lista de prioridades do público. Creio que muitos dos leitores/espectadores/ouvintes não desejam sequer uma informação isenta e imparcial; esperam, simplesmente, por notícias que enformem as suas “vidinhas”, que vão ao encontro daquilo que são os seus desesperos e as suas esperanças. Não querem uma perspectiva desinteressada e clara da realidade, mas antes um ponto de vista que justifique a sua condição. Não querem ser elucidados, preferem ser iludidos. E se há esta divergência nítida entre o dever do jornalista e o interesse do seu público, como sustentar o futuro da profissão?”

Embora o drama de ser posto à margem do sistema seja vivido por muitos jornalistas, julgo que estes têm o futuro nas suas mãos. O futuro e o poder.

Basta recordar, como uma das formas possíveis de ultrapassar a situação atual, os projetos de auto-organização de jornalistas, que já existem em vários países como os EUA, a França, a Espanha ou o Brasil.

Não, não se trata de os jornalistas criarem empresas a partir do modelo de negócios baseado na publicidade. O financiamento, questão central de qualquer meio de imprensa, pode revestir-se de formas inovadoras, ou seja, ser público mas não estatal, isto porque um jornalismo de interesse público não pode depender do Estado (ou seja, do governo) e também não deve depender de determinados grupos privados, onde há conhecidos conflitos de interesses. Já há, em vários países, jornalistas que se juntam trabalhando em regime de financiamento coletivo (crowdfunding), geralmente sem fins lucrativos.

O crowdfunding permite uma total independência sob o ponto de vista do financiamento e poderá ser uma das respostas. Mas para que este modelo tenha sucesso resta explicar às pessoas que a isenção e a independência não se alcançam facilmente e precisam do apoio de todos nós.