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Ucrânia retoma controle de uma série de cidades subordinadas aos separatistas

Por Nikolai Litóvkin, via Gazeta Russa

Milícia conseguiu romper o bloqueio de Slaviansk e se retirou para a cidade vizinha de Kramatorsk, e de lá para Donetsk Foto: ITAR-TASS

De acordo com a versão de representantes da autoproclamada República Popular de Donetsk, ao amanhecer do sábado passado (5), a milícia conseguiu romper o bloqueio de Slaviansk e se retirou para a cidade vizinha de Kramatorsk, e de lá para Donetsk. A retirada da cidade sitiada foi uma “manobra tática imprescindível para a concentração das tropas e a defesa bem sucedida de Donetsk”, disseram fontes internas.

Durante o cerco de dois meses de Slaviansk, com população de 110 mil habitantes, os militares ucranianos bloquearam o acesso a alimentos, bem como interromperam o fornecimento de luz e água. De acordo com o jornal russo “Kommersant”, que cita os habitantes de Slaviansk, a Guarda Nacional realizava “operações de limpeza” na cidade, com o intuito de descobrir potenciais sabotadores e identificar pessoas que colaboravam com as milícias.

Segundo o analista político independente ucraniano Dmítri Ponamartchuk, é improvável que as autoridades de Kiev suspendam as operações de combate após a tomada de um dos principais centros da milícia. “Não se deve esquecer que o presidente está rodeado por um influente grupo de partidários da linha dura. Mesmo se [Petrô] Porochenko quisesse seguir o caminho dos acordos, concessões e medidas amenas, essas pessoas não teriam permitido, especialmente agora”, diz.

O especialista salienta que um cerco à cidade de Donetsk, com utilização de artilharia e aviões, se tornaria um desastre humanitário e levaria a um enorme número de vítimas entre a população civil. Por isso, a batalha pelo reduto da resistência irá se passar no mesmo cenário de Sloviansk: cerco com a suspensão das comunicações, interrupção do fornecimento de alimentos e evacuação da população civil.

A tomada de Kramatorsk pelos militares ucranianos foi efetivada, nas palavras de Viktor Litovkin, perito militar independente, graças à decisão dos habitantes da cidade de não apoiar a resistência para não expor a cidade aos ataques com morteiros da Guarda Nacional.

“A mesma situação pode acontecer em Donetsk: as pessoas podem se recusar a apoiar a resistência e preferir entregar a cidade ao Exército ucraniano, ficando à mercê do vencedor. Em uma visão de longo prazo, fica claro que as forças de resistência não têm condições de vencer a máquina do Estado, superior em número e equipamentos”, garante Litovkin. O objetivo de Kiev é seguir até o fim, pois o governo central acredita que a única maneira de parar o derramamento de sangue é aumentando a pressão política por parte de Paris, Berlim e Moscou.

“Um acordo de paz entre a metrópole e as repúblicas poderia ser assinado nos moldes do acordo de paz de Khasaviurt, de 1996 , firmado entre a Federação Russa e a Tchetchênia. Como resultado do acordo, as tropas do governo foram retiradas do território da República e a Tchetchênia tornou-se praticamente um Estado independente, com seu presidente, fronteira e Exército. O acordo marcou o fim da primeira guerra da Tchetchênia”, explica Litovkin.

A nova rodada de negociações já foi adiada várias vezes. Após a comunicação sobre a tomada de Slaviansk, o grupo de contato que trata da Ucrânia emitiu uma declaração sobre a necessidade urgente de tomar medidas concretas para uma solução pacífica para a crise e realizar a próxima rodada de conversações o mais rápido possível.

Fronteira russa

Conforme relatado por funcionários aduaneiros russos, são frequentes os tiros e disparos de metralhadora da parte da autodeclarada República de Lugansk, e os projéteis dos morteiros chegaram a atingir o território da Rússia.

Na manhã de sexta-feira passada (4), algumas ogivas explodiram no posto de controle de “Novochakhtinsk”, na região de Rostov. Um funcionário da alfândega russa foi ferido em consequência de um incidente parecido cerca de duas semanas atrás.

O presidente recém-eleito na Ucrânia, Petro Poroshenko. Gazeta Russa/Reprodução

 

De acordo com testemunhas, uma das minas explodiu na pista de movimentação dos carros, deixando uma cratera de meio metro de diâmetro, mas não houve registro de vítimas.

Anteriormente, vários postos de controle russos haviam sido fechados devido aos tiroteios no território da Ucrânia. As autoridades fronteiriças suspenderam o trabalho dos postos “Donetsk”, “Veselo-Voznesenka” e “Kuibichevo”.

Parlasul declara apoio à Argentina em disputa contra ‘fundos abutres’

Via Agência Senado

Requião, com Luiz Henrique e Dr. Rosinha ao fundo, defendeu posição Argentina contra fundos. Agência Senado/Reprodução

O Parlamento do Mercosul (Parlasul) aprovou nesta segunda-feira (7) uma declaração de apoio à Argentina em sua disputa contra os “fundos abutres”. O governo argentino tenta fazer pagamentos a credores que aceitaram acordos de reestruturação das dívidas, mas a Justiça americana bloqueou as transferências, devido à objeção de fundos especulativos.

Ao recordar o histórico da disputa, o senador Roberto Requião (PMDB-PR), vice-presidente do Parlasul, afirmou que os fundos abutres que resistem ao acordo e exigem o pagamento integral das dívidas argentinas representam apenas 0,45% do total de credores.

- O que vale mais? Os fundos abutres ou a soberania de uma nação? – questionou.

Requião voltou a criticar a decisão da Justiça americana, confirmada pela Suprema Corte daquele país, de não permitir o pagamento argentino apenas à maioria de credores que aceitaram reestruturações feitas em 2005 e 2010. Há duas semanas, um juiz determinou a devolução de US$ 539 milhões, depositados pela Argentina com essa finalidade.

Declaração

Na declaração, o Parlasul expressa “solidariedade com o povo e o governo da República Argentina e apoio à consecução de uma solução que não comprometa o amplo processo de reestruturação da sua dívida soberana, rejeitando o comportamento de agentes especulativos que põem em risco os acordos alcançados entre devedores e credores, afetando a estabilidade financeira global”.

O Parlasul também recomenda ao Conselho do Mercado Comum, órgão decisório máximo do Mercosul, que aprove a declaração e peça aos governantes dos estados-membros a liderar um processo de discussão das dívidas externas soberanas nas esferas competentes, em nível mundial.

O parlamentar argentino Guillermo Carmona agradeceu o apoio dos colegas e reiterou que o desejo argentino é apenas o de cumprir suas obrigações.

- A Argentina tem expressado por meio de sua presidente [Cristina Kirchner] a firme vontade de cumprir com suas obrigações frente aos credores, desde que não seja afetada severamente a estabilidade e o desenvolvimento social e econômico.

Com informações da Assessoria de Imprensa do Parlasul

 

A Argentina e os fundos abutres: entrevista com Matías Vernengo

Adital/Reprodução

Por Rennan Martins

Em 23 de dezembro de 2001, a República Argentina declarou unilateralmente, a maior moratória da história. Um montante de 132 bilhões de dólares. Esta foi a primeira medida tomada por Adolfo Rodriguez Saá, anunciada na posse, em discurso improvisado. O país inteiro estava em colapso e teve, em 12 dias, 5 presidentes.

Após anos difíceis, o governo iniciou em 2005, com Nestor Kirchner na presidência, a renegociação da dívida, processo que findou em 2010, 93% dos credores aderiram, com descontos entre 45 à 70%. Portanto, os 7% restantes exigem o recebimento do valor integral dos títulos.

No último dia 26, o juiz federal norte-americano, Thomas Griesa, decidiu que a Argentina teria de pagar sua dívida à NML Capital, aos fundos Aurelius e Blue Angel e a outros 15 credores argentinos integralmente. São cerca de 1,3 bilhão de dólares. Entendeu também que não poderiam pagar aos credores que renegociaram enquanto não quitasse este compromisso.

Os chamados fundos abutres são aqueles que compram papéis de dívida de alto risco de calote e tentam, na justiça, receber o montante. Neste caso, os lucros são de 1.600% segundo o governo argentino.

A decisão favorável aos fundos abutres aumentaram o risco de um novo default, ou calote. No dia 30 de junho venceu o prazo de pagamento de mais uma parcela aos credores que aceitaram a reestruturação. A carência é de um mês e o impasse se dá pela cláusula Rufo, que prevê igual tratamento aos credores e caso aplicada, a dívida passará dos 100 bilhões.

Para entender melhor o caso entrevistei o professor-associado da Universidade de Bucknell e ex-pesquisador sênior do Banco Central da Argentina, Matías Vernengo. Ele considera que a decisão de Thomas Griesa “Põe em dúvida a possibilidade de reestruturar dívidas, que é prática normal dos mercados financeiros.” Entende ainda que afetam “a soberania nacional e a independência do banco central de um país endividado”.

Sem mais delongas, confira a íntegra da entrevista:

Como explicar a situação da Argentina em relação aos fundos abutres? O que exatamente praticam estes tipos de fundo?

Existem mercados secundários onde qualquer um pode comprar os títulos da dívida argentina, bem como de qualquer outro país. Quem compra são basicamente fundos de pensão. Os fundos ditos abutres se dedicam a comprar títulos a preços baixos, nos quais as chances de recuperar o que foi investido são tidas, pelo menos no momento da compra, como muito baixas. A ideia é exatamente obter no sistema judiciário garantias de pagamento de acordo com as regras da emissão dos títulos. No caso argentino, os títulos basicamente permitiam que a jurisdição para qualquer problema legal com os títulos fosse Nova Iorque.

Matías Vernengo. Bucknell/Reprodução

O Estado argentino possui condições de arcar com essa decisão judicial? Em que situação ficariam se tiverem de acatar esta medida?

Para pagar diretamente aos fundos abutres há dinheiro, uma vez que o montante não é elevado, por volta de US$ 1,3 bilhões. O banco central tem por volta de US$ 28 bilhões. O problema é que os detentores dos títulos reestruturados, 93% da dívida argentina por sinal, teriam o direito de reclamar, uma vez que uma das clausulas da reestruração da dívida é que ninguém teria um tratamento privilegiado e receberia melhores condições dos que aceitaram os novos termos da dívida. Nesse caso, os efeitos de ter que pagar aos fundos abutres podem ser bem maiores do que simplesmente a dívida direta com eles.

Esta situação põe em risco a estabilidade do sistema financeiro internacional? Que precedentes são abertos com ela?

Põe em dúvida a possibilidade de reestruturar dívidas, que é prática normal dos mercados financeiros. O critério normal de reestruturação de dívidas é a condição ou capacidade do devedor de pagar. Dito de modo simples, melhor receber algo do que nada. Também reduz a margem de manobra para o uso das reservas internacionais, o que afeta a soberania nacional e a independência do banco central de um país endividado. Em outras palavras, reduz a margem de manobra para as políticas macroeconômicas nos países periféricos.

Qual a chance da Argentina ter de recorrer a moratória? Há possibilidade de ajuste das partes antes do prazo?

Tudo depende da negociação com os fundos abutre. O juiz Griesa proibiu que a Argentina pagasse aos detentores da dívida reestruturada. Sem acordo haverá default.

Diversos países latino-americanos manifestaram solidariedade à Argentina e a ONU declarou que o tribunal de Nova York afronta a soberania argentina e não segue nem mesmo as leis nacionais. Em que perspectiva se compreende esta decisão?

O governo dos Estados Unidos e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que responde ao primeiro, que antes tinham se declarado contra a decisão de Griesa, pediram que se acatasse a decisão da Suprema Corte, e se abstiveram da votação favorável à Argentina na Organização dos Estados Americanos (OEA). Os tribunais de Nova Iorque neste caso são mais um instrumento, como o FMI, o Clube de Paris, e outros organismos, de controle dos devedores pelos credores. A lição é não aceitar jurisdições internacionais para dirimir conflitos econômicos, nos quais os países devedores sempre estarão em desvantagem.

Em sua opinião, é necessário maior controle sobre as especulações com títulos de dívida soberanos?

Regulamentação internacional seria bem-vinda. Mas diminuir a especulação, a possibilidade de comprar e vender títulos em mercados secundários, simplesmente fecharia o mercado de capitais para os países periféricos. O que seria necessário realmente são instituições dos países devedores mais organizadas, como as dos países credores, que permitissem negociar em melhores condições aos países periféricos. Por exemplo, a idéia de um fundo que empreste dinheiro quando o país tem um déficit estrutural nas contas externas é boa, mas o FMI impõe condições que fazem desse empréstimos uma armadilha. A questão não é eliminar o FMI, mas reformá-lo.

Finalizando, em que sentido devem atuar os Estados a fim de evitar esses ataques especulativos? O que pode ser feito pra coibir essa prática?

Veja bem, os fundos abutre não são um ataque especulativo per se. Um ataque especulativo pode até ocorrer como resultado de um default causado pelos abutres. Nesse caso, uma corrida para o dólar levaria a uma maxidesvalorização do peso. As soluções clássicas são taxas de juros mais elevadas, controles de capital, coibindo a compra e venda de dólares, e o acumulo prévio de reservas internacionais em dólares. Isso aí continua sendo o que pode ser feito.

Os crimes de guerra dos militares ucranianos

Por Natalia Kovalenko, via Voz da Rússia

RIA Novosti/Evgueni Kotenko

Os militares ucranianos reforçaram sua operação militar no sudeste do país. Começaram sendo usados bombardeamentos aéreos e ataques com sistemas lançadores de foguetes múltiplos pesados Smerch com munições de fragmentação, que antes o exército ucraniano evitava utilizar. Os resultados são dezenas de mortos entre a população civil.

Enquanto o governo de Kiev negoceia com Moscou, Berlim e Paris relativamente à necessidade de um cessar-fogo de longo prazo no sudeste, os militares ucranianos iniciaram uma ofensiva. Os ataques não são efetuados apenas contra os postos de controle das milícias. Os tapetes de bombas cobrem igualmente as povoações com civis. Antes as pessoas se escondiam das balas e estilhaços no subsolo. Mas das armas que os militares ucranianos usam agora não há salvação possível.

No povoado de Stanitsa Luganskaya na quarta-feira foi destruída uma rua inteira. Foram mortos e morreram debaixo dos escombros dezenas de habitantes de todas as idades. Onde ainda há pouco existiam casas, agora só há crateras com dois metros de profundidade e muitos estilhaços de obuses. Muitos ostentam mesmo a marcação que os permite identificar nas fotos e nos vídeos, diz o coronel da Força Aérea Russa Serguei Reznichenko:

“Através desses fragmentos metálicos podemos concluir, sem qualquer dúvida, que isto é o local de rebentamento de um foguete aéreo não guiado S-25. Ele simplesmente atravessa toda a casa, perfura o subsolo, afunda-se ainda mais e depois explode. O efeito da explosão é muito potente: de uma casa não fica absolutamente nada”.

A direção militar ucraniana não conseguiu esconder o ataque aéreo contra uma povoação nos arredores de Lugansk. É verdade que primeiro surgiram declarações que os aviões não sobrevoavam essa área, que a artilharia fazia fogo para outra área e que os militares alegadamente cumpriam a diretiva do presidente Piotr Poroshenko de não disparar contra áreas habitadas. Mas depois reconheceram a realização do ataque aéreo: “Teve lugar um erro dos pilotos”, declarou o porta-voz dos militares Igor Mosiychuk.

Em princípio esses erros não são raros numa guerra. Tantas foram as vezes em que pilotos norte-americanos disparavam contra civis no Paquistão, no Afeganistão e no Iraque tendo-os tomado por combatentes. Mas na Ucrânia a guerra é entre os seus. Os pilotos apertam o gatilho ao sobrevoar pátios onde brincam crianças.

Contudo, não podemos excluir que os militares não sabem eles próprios onde vai cair a munição que dispararam, considera o editor principal da revista Arsenal Otechestva (Arsenal da Pátria) e coronel na reserva Viktor Murakhovsky:

“Quem usa as bocas de fogo e os sistemas de foguetes múltiplos têm muito baixa qualificação. Eles praticamente não têm experiência de fogos reais. Os pilotos da aviação ucraniana têm muito poucas horas de voo. Além disso, temos de referir as poucas forças e meios de reconhecimento do exército ucraniano. Por isso, eles frequentemente não conseguem transmitir as coordenadas corretas dos alvos que pretendem atingir. Fazem apenas fogo contra áreas”.

Mas mesmo que se conheça um alvo com precisão e o artilheiro saiba disparar, não é nada seguro que o projétil atinja o alvo designado, continua o perito militar Viktor Murakhovsky:

“As munições são velhas. Existem os chamados prazos de validade, durante os quais é garantido o uso seguro e preciso das munições, e esses prazos já estão ultrapassados. Durante todo o seu período de existência o exército ucraniano não encomendou, não fabricou, nem adquiriu munições novas. Tudo o que está sendo usado é ainda de fabrico soviético dos anos de 1980. Por isso, as características das munições, nomeadamente suas trajetórias de voo, são completamente imprevisíveis”.

Apesar de tudo isso, os militares ucranianos utilizam essas armas para bombardear as localidades. Utilizam mesmo as bombas de fragmentação e incendiárias proibidas pelas convenções internacionais. Mas o Ocidente simplesmente prefere ignorar esses fatos. As fotografias, filmagens em vídeo e testemunhos oculares para eles não são provas suficientes. Mas como Kiev também não está interessado na confirmação dos seus crimes de guerra, os peritos independentes têm o acesso vedado aos locais onde foram usadas armas de destruição maciça.

O Ministério das Relações Exteriores russo exigiu, mais uma vez, a Kiev que cesse os bombardeamentos contra alvos civis para salvaguardar as vidas das pessoas. Moscou insiste na realização de investigações dos crimes cometidos no sudeste desde abril deste ano. A Rússia apela às partes em confronto para que declarem um regime de cessar-fogo e iniciem negociações para a regularização da situação.

Os Batalhões de Mulheres do Exército Árabe Sírio

Via canal Eduardo Lima

As mulheres são destinadas principalmente as posições de retaguarda ou de segurança e controle dentro da cidade. São responsáveis ​​por registrar as mulheres nos Postos de Segurança para proteger a dignidade delas mesmas, raramente entram em combate, somente como último recurso.

Um bom exemplo de Portugal para a democratização da comunicação no Brasil

Por Theófilo Rodrigues, via Conexão Cultura Política

Núcleo Piratininga/Reprodução

Sei que há léguas a nos separar

Tanto mar, tanto mar

Sei, também, quanto é preciso, pá

Navegar, navegar

(Chico Buarque)

No ano em que celebramos os 40 anos da Revolução dos Cravos em Portugal um tema parece ter passado em branco nas comemorações aqui no Brasil. Poucos são os que sabem que a Constituição da República Portuguesa que entrou em vigor em 25 de abril de 1976 trouxe grandes avanços para a democratização das comunicações naquele país. Conquistas que permanecem até os dias de hoje do lado de lá, mas que do lado de cá do oceano não foram reproduzidas.

Uma das mais importantes inovações democráticas geradas pela Constituição de 1976 foi a possibilidade de direito de antena para as organizações da sociedade civil nos meios de comunicação. Para quem não reconheceu o termo, “direito de antena” é aquele tempo gratuito de inserção nas televisões e nos rádios que aqui no Brasil somente os partidos políticos dispõem. Pois é, em Portugal não apenas os partidos possuem esse direito, mas também as organizações da sociedade civil, associações, sindicatos, movimentos sociais etc. O artigo 40 da Constituição de Portugal diz o seguinte:

“Art. 40. Os partidos políticos e as organizações sindicais, profissionais e representativas das actividades económicas, bem como outras organizações sociais de âmbito nacional, têm direito, de acordo com a sua relevância e representatividade e segundo critérios objectivos a definir por lei, a tempos de antena no serviço público de rádio e de televisão”.

No caso da televisão o artigo 40 da Constituição de Portugal é regulamentado pela lei 08/2011 que garante “Noventa minutos para as organizações sindicais, noventa minutos para as organizações profissionais e representativas das actividades económicas e cinquenta minutos para as associações de defesa do ambiente, do consumidor e dos direitos humanos”. Já para as rádios o sistema é regulado pela lei 54/2010 e garante “sessenta minutos, por categoria, para as organizações sindicais, profissionais, e representativas das atividades econômicas” e mais sessenta minutos para “associações de defesa do ambiente e do consumidor, e, ainda, às organizações não governamentais que promovam a igualdade de oportunidades e a não discriminação”.

Agora, será que conseguimos imaginar todas as possibilidades que seriam abertas no Brasil se essa lei portuguesa valesse também por aqui? Imagine se o MST tivesse um espaço na televisão e na rádio para convocar para o abril vermelho ou para o grito dos excluídos no 7 de setembro. Imagine as potencialidades do movimento estudantil se a UNE pudesse convocar canal de televisão e rádio para mobilizar para as tradicionais passeatas de 11 de agosto. Imagine o empoderamento que as mulheres feministas teriam se suas associações como a UBM ou a MMM pudessem convidar a população para o 8 de março. Imagine a enorme capacidade de mobilização que as centrais sindicais passariam a ter para o primeiro de maio.

Para que tudo isso não fique apenas na imaginação, mas que torne-se concretude, assim como já ocorre em Portugal, a sociedade civil organizada no Brasil tem recolhido assinaturas para o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Mídia Democrática. O nosso Projeto de Lei propõe que as emissoras de televisão e rádio, por serem concessões públicas, assegurem, “como direito de antena, 1 hora por semestre para cada um de 15 grupos sociais relevantes, definidos pelo órgão regulador por meio de edital com critérios transparentes e que estimulem a diversidade de manifestações”. Como por enquanto inexiste no Congresso Nacional qualquer proposta nessa direção, a sociedade civil resolveu ela mesma fazer seu projeto de lei através de iniciativa popular e para isso precisa recolher cerca de um milhão e trezentas mil assinaturas para que o PL entre em tramitação na Câmara dos Deputados.

Em um ano de eleições nacionais como este, o debate sobre a democratização da mídia precisa ocupar a esfera pública. Precisamos conhecer a opinião de cada um dos candidatos sobre o tema, pois dar voz ao povo é necessidade urgente de nossa democracia. A tarefa é difícil, mas como bem disse Chico Buarque, sabemos quanto é preciso navegar, navegar.

Theófilo Rodrigues é cientista político e coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

 

Santayana: O recado alemão

Por Mauro Santayana, em seu blog

(Hoje em Dia) – Encaradas, por alguns setores, apenas como uma espécie de “chilique” da Presidente Dilma, as reações do governo brasileiro às ações de espionagem levadas a cabo pela NSA, dos Estados Unidos, têm sido até brandas quando comparadas às de outras nações.

Ontem, a Alemanha mandou duro recado a Washington, com a suspensão de vultoso contrato com a norte-americana Verizon.

“Há indicações de que a Verizon é legalmente obrigada as fornecer informações à NSA, e essa é uma das razões pelas quais a cooperação com a Verizon não continuará. – afirmou Tobias Plate, porta-voz do Ministério do Interior do governo alemão.

Com a decisão, os contratos, relativos à prestação de serviços de internet a vários órgãos governamentais, deverão ser repassados para a Deutsche Telekom, que tem participação do governo, e administra as comunicações de alguns ministérios e dos órgãos de inteligência do país.

Enquanto isso ocorre na Alemanha – tradicional aliada dos Estados Unidos e maior economia do continente europeu – no Brasil o governo insiste em continuar contratando serviços de empresas estrangeiras para setores estratégicos sensíveis.

Esse é o caso da INDRA, empresa espanhola de telecomunicações, que conta, atualmente, com importantes contratos na área de defesa concedidos pelo governo brasileiro, nas áreas de comunicações militares via satélite (é fornecedora das estações terrestres do exército), de sistemas de vigilância por radar, e – pasmem os leitores – de nossos sistemas de guerra eletrônica, que estão voltados justamente para enfrentar ameaças a ameaça de inimigos externos.

E isso, apesar de ter um governo estrangeiro, membro da OTAN, como um de seus principais acionistas. O governo espanhol, que detêm mais de 20% de suas ações, é um dos mais abjetamente subalternos aos Estados Unidos, não apenas do ponto de vista de sua política externa, mas também no campo militar, como mostra sua atuação como linha auxiliar das forças armadas dos EUA em lugares como a Líbia e o Afeganistão. Nos EUA, a INDRA coopera diretamente com o governo, e possui uma subsidiária, instalada na cidade de Orlando.

O governo brasileiro precisa entender que existem limites no que pode ser contratado a uma empresa estrangeira. Comprar, ou desenvolver, ou copiar, por engenharia reversa, uma determinada peça, de uma empresa de outro país, é uma coisa. Outra, muito diferente, é encomendar lá fora sistemas fechados, que podem ser anulados ou sabotados facilmente em caso de conflito. O que precisamos é desenvolver, aqui dentro, mesmo, nossos projetos de defesa, e, quando não pudermos fazer isso, contratar técnicos e cientistas, no exterior, para trabalhar dentro de nossas fronteiras. Foi isso que os norte-americanos e os russos sempre fizeram. E nunca se arrependeram.