Arquivos da categoria: Energia

O que não estão lhe contando sobre a crise mundial do petróleo

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Em sua eterna luta para jogar mais sombras onde já não existe luz, a imprensa brasileira está ignorando o fato mais importante do ano na economia mundial: a dramática queda do preço do petróleo.

É um fato que terá impactos brutais no mundo globalizado, mas a mídia nacional prefere centrar seus holofotes na Petrobras, como se se tratasse de um caso único de depressão num ambiente de extrema alegria.

Desde junho, quando atingiu o pico de 115 dólares o barril, o preço do petróleo caiu pela metade. Nesta semana, o barril está sendo vendido na casa dos 60 dólares.

Vários fatores se somaram para que isso acontecesse, mas você pode resumir a explicação na tradicional lei da demanda e da oferta.

A produção de petróleo, hoje, supera amplamente o consumo.

Isso está ligado à crise econômica mundial. Com sua economia se desacelerando, a China consome hoje muito menos petróleo do que fazia. O mesmo ocorre com outra potência, a Alemanha.

Os Estados Unidos, tradicionalmente os maiores importadores, está quase auto-suficiente, graças ao “shale oil” — saudado como uma revolução no campo energético.

Trata-se, essencialmente, da extração de gás e petróleo do xisto, um tipo de rocha.

Reduzida a demanda, era esperado que a OPEP, a organização que congrega os maiores exportadores, baixasse sua produção, para defender o preço.

Mas não.

Para surpresa generalizada, a OPEP, numa reunião em novembro, decidiu manter a produção nos mesmos níveis.

Foi quando o universo do petróleo entrou em convulsão.

Mas por que os produtores tomaram essa decisão?

Especialistas acham que o objetivo maior é matar o “shale oil” americano. A extração é muito mais cara. Caso o barril fique barato, a indústria do “shale oil” tende a se inviabilizar, e esta seria uma excelente notícia para os países da OPEP.

Mas efeitos muito mais imediatos da baixa da cotação estão já sendo sentidos em países como a Rússia, o Irã e a Venezuela. Todos eles dependem visceralmente das exportações de petróleo.

Para o orçamento russo se manter equilibrado, o barril deve estar na faixa dos 100 dólares.

Economistas já preveem uma queda de 5% do PIB russo em 2015. O sofrimento russo deu margem a que fosse ventilada a teoria de que por trás de tudo estariam os Estados Unidos, empenhados em criar problemas para Putin.

Faz sentido? Faz. Ou pode fazer. Mas o custo, para os americanos, é elevado. Sua florescente indústria de “shale oil” pode simplesmente se desintegrar.

E o Brasil, no meio disso tudo?

O quadro ainda não é totalmente claro. Há alguns benefícios: apesar de produzir como nunca, o Brasil ainda é um grande consumidor de petróleo.

Isso significa que as despesas de importação se reduzirão substancialmente. É, também, um alívio financeiro para a Petrobras, que subsidia os consumidores brasileiros.

A Petrobras vende a gasolina no Brasil por um preço inferior àquele pelo qual ela compra. O subsídio se destina, primeiro e acima de tudo, a controlar a inflação.

A ameaça mais séria, para o Brasil, vem do pré-sal. Como o “shale oil” americano, a extração do pré-sal é mais cara que a convencional.

Alguns estudos sugerem que com o barril a 40 dólares o pré-sal se inviabilizaria. Mas antes disso a vítima seria a indústria americana de óleo alternativo.

É razoável supor que o barril não descerá muito além dos 60 dólares.

A OPEP disse que ia esperar uns meses para ver o que ocorria. Um preço muito baixo, por um tempo longo, poderia ser fatal para a OPEP.

Assim, é presumível que, em algum momento nos primeiros meses de 2015, a produção seja reduzida para que o preço se recomponha.

Enquanto isso, as companhias petrolíferas são ferozmente castigadas. Nos últimos seis meses, as ações da Goodrich Petroleum caíram 86%. As da Oasis Petroleum, 75%.

A Petrobras é um caso entre muitos, e não um caso único, ao contrário do que a imprensa brasileira noticia.

Nada na economia mundial, em 2014, foi tão importante quanto o colapso dos preços do petróleo – mas a mídia brasileira, no afã de bater na Petrobras e consequentemente no governo, parece que não percebeu.

Cúpula climática em Paris terá mais dificuldades após acordo em Lima

Via Correio do Brasil

Os textos concordados em Lima vão obrigar governos a fornecerem apenas alguns vagos planos para limitar emissões de gases-estufa

A cúpula do clima de Paris em 2015 terá uma missão mais difícil para obter um acordo da ONU para desacelerar as mudanças climáticas, depois que as esperanças de que um acordo entre Estados Unidos e China fosse uma chave mágica para destravar um impasse global se dissolveram nas conversas preparatórias em Lima.

No melhor dos casos, Paris pode ser uma chance para reformar um sistema de conversas anuais da ONU, mais de 11 mil delegados compareceram às conversas de dois dias em Lima, e descobrir maneiras de impulsionar ações de longo prazo para conter as crescentes emissões de gases-estufa.

Mas o impulso político do acordo EUA-China deu lugar às familiares divisões e “linhas vermelhas” que rotineiramente empacam as conversas, especialmente sobre a questão da diferenciação das responsabilidades dos países riscos e pobres.

– O anúncio EUA-China indicou uma mudança fundamental em colocar países desenvolvidos e em desenvolvimento em um patamar mais igual. Não é surpresa que, em Lima, um monte de países em desenvolvimento resistiram – disse Elliot Diringer, do Centro para Mudanças Climáticas e Soluções em Energia.

A Organização das Nações Unidas diz que já está claro que as promessas para reduções de emissões em uma cúpula de Paris, que acontecerá em dezembro de 2015, serão muito fracas para avançar para a meta da ONU de limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

– Teremos muito trabalho a fazer – disse o ministro francês do Exterior, Laurent Fabius, sobre o desafio de Paris.

Mesmo assim, 2015 ainda carrega uma esperança de reformas para que o sistema da ONU tenha maior controle sobre políticas de emissões de gases-estufa, que são culpados por ondas de calor, inundações, secas e aumento dos níveis do mar.

Paris pode marcar uma mudança de rumo das duas décadas de diplomacia climática em direção a um sistema mais tecnocrático, que permitiria que compromissos nacionais para ações climáticas fossem comparados e fortalecidos nos próximos anos.

Yvo de Boer, um ex-chefe da ONU para questões climáticas, disse que um problema era que negociadores da ONU não tinham autoridade. “Se os líderes do Grupo dos 20 se reunissem e dissessem ‘vamos fazer isso’, toda essa conversa acabaria em 30 minutos”, disse ele à Reuters.

De Boer, que agora lidera o Instituto Global de Crescimento Verde, que ajuda países em desenvolvimento, notou que as conversas climáticas anuais cresceram muito desde que 1.000 delegados se reuniram pela primeira vez em 1994.

– Paris pode ser uma oportunidade para mudar isso, se forem identificados pontos que precisam ser completados. Isso pode ser transformado em um processo técnico, e não político – disse.

Até agora, no entanto, os sinais não são tão bons.

Os textos concordados em Lima vão obrigar governos a fornecerem apenas alguns vagos planos para limitar emissões de gases-estufa, após a China ter negado um esforço da União Europeia por relatos detalhados dos planos.

Assim, o resultado das conversas de Lima, que atraíram desde ministros de países da Opep até veganos vestidos como frangos, significa que um acordo em Paris deve ser um mero remendo das ofertas nacionais para conter as emissões.

Petrobrás: o que está em jogo é a corrupção?

Por Cibele Vieira | Via Brasil de Fato

O que estamos vendo no mercado mundial de petróleo nada mais é do que a lógica de Dumping: abaixa-se o preço para eliminar concorrentes e depois ter um maior controle sobre os preços. É nesse contexto, de luta pelo controle do preço mundial, que se situam os ataques à Petrobrás, camuflados de combate a corrupção.

Por mais que sempre ouçamos falar que o petróleo mundial vai acabar, a verdade é que, desde 2008, com a crise do capitalismo, vemos a demanda caindo ao mesmo tempo em que a oferta tem aumentado.

Houve novas descobertas como o pré-sal (Brasil e Argélia), o petróleo não convencional Xisto (EUA) e Areia Betuminosa (Canadá), assim como um aumento da produção nos países da OPEP devido a uma maior estabilidade política depois da “Primavera Árabe”. (Vale ressaltar que estudos apontam a inviabilidade da exploração do Xisto em longo prazo).

O que estamos vendo no mercado mundial de petróleo nada mais é do que a lógica de Dumping: abaixa-se o preço para eliminar concorrentes e depois ter um maior controle sobre os preços. O valor do barril que chegou a ser mais do que U$120 agora está U$66.

Apesar do raciocínio ser esse, não é fácil sua caracterização porque a derrubada dos preços não necessariamente são abaixo do custo de extração que assim como a dependência da economia dos países produtores de petróleo variam. Sendo assim, países como Arábia Saudita e Estados Unidos podem trabalhar com um preço inferior do que Rússia e Venezuela, por exemplo.

O preço de exploração divulgado pela Petrobrás é de U$14 (sem participações governamentais) e estima-se U$50 somando tudo, inclusive os investimentos para a descoberta. Portanto, a exploração, mesmo com a queda dos preços, continua viável. Porém os investimentos de U$141 milhões por dia e o conteúdo nacional, nem tanto. Os investimentos que planejam colocar o Brasil como quarto ou quinto maior produtor mundial de petróleo.

É nesse contexto, de luta pelo controle do preço mundial, que se situam os ataques à Petrobrás, camuflados de combate a corrupção. Denunciamos no ano passado a espionagem americana no Brasil e no México (não à toa, houve a quebra do monopólio mexicano de petróleo).

Se as empresas estrangeiras não certificarem o balanço da Petrobrás, esta não poderá mais negociar ações e terá muitas dificuldades para financiamentos. No ano que vem já estão previstos dois leilões de petróleo no Brasil, dos quais estão fazendo de tudo para que a Petrobrás sequer possa participar. O jornal “O Globo” já questiona abertamente a lei de partilha que garante a participação e controle da Petrobrás no pré-sal.

Se não conseguiram vencer as eleições, não conseguiram entregar de vez o nosso petróleo para o EUA, vão tentar inviabilizar a Petrobrás tanto nos investimentos quanto em conseguir novas reservas de petróleo. Se o mercado quer nos estrangular será que não é a hora de fazer o inverso e tornar a Petrobrás 100% pública?

Globo amplia pressão para abrir Pré-Sal a gringos

Via Brasil 247

Um dia depois de defender, em editorial, que empresas internacionais, como Shell, BP, Exxon e Chevron, assumissem a liderança da exploração das reservas brasileiras de petróleo no pré-sal, o jornal O Globo agora produz reportagem sobre a mudança iminente nas regras, em razão dos problemas vividos pela Petrobras; “essa reflexão vai acontecer”, disse, em off, uma suposta fonte governamental ao governo; não se sabe ainda nem quem será o novo ministro de Minas e Energia, mas O Globo já vende a tese de que o segundo governo Dilma adotará o programa de Aécio Neves no petróleo.

Um dia depois de produzir um editorial defendendo a abertura do pré-sal a empresas estrangeiras, o jornal O Globo, dos irmãos Marinho, produziu reportagem sobre uma suposta mudança nas regras da exploração de petróleo no País.

De acordo com o jornal, o modelo de partilha, que obriga os consórcios exploradores, sempre liderados pela Petrobras, a dividir parte da receita com a União (o que se explica pelo menor risco exploratório, uma vez que as reservas já estão comprovadas), seria substituído pelo de concessões.

Embora o governo ainda não tenha definido quem será o futuro ministro de Minas e Energia, cargo para o qual aparece cotado o senador Eduardo Braga (PMDM-AM), O Globo se ancora em fontes “em off” para tratar da suposta mudança. “Essa reflexão vai acontecer”, diz a suposta fonte.

Pelo novo modelo, empresas internacionais, como Shell, Exxon, BP e Chevron poderiam arrematar concessões para, assim, explorar as reservas descobertas pela Petrobras ao longo dos últimos anos. O Globo aposta na tese de que a Petrobras, que ainda não conseguiu publicar seu balanço, ficará fragilizada financeiramente, será rebaixada por agências internacionais de risco e não conseguirá captar recursos para tocar seu plano de investimentos. Assim, a abertura aos grupos internacionais seria inevitável.

Este modelo era exatamente que vinha sendo defendido pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) durante a campanha presidencial. “Acho que nós temos que discutir o que é melhor para o Brasil, se em determinados casos não é melhor o modelo de concessão. É uma discussão que nós vamos fazer lá na frente, obviamente respeitando os contratos vigentes”, disse o senador, durante a campanha presidencial.

COP20: aprovada responsabilidade diferenciada entre países ricos e pobres na redução do efeito estufa

Por Marcela Belchior | Via Adital

Há até bem pouco tempo, o debate acerca do meio ambiente girava em torno da mensuração da interferência humana na alteração do clima mundial. Ao que tudo indica, esta já não é a grande questão da agenda global. Durante a primeira semana da 20ª Conferência das Partes sobre a Mudança Climática das Nações Unidas (COP20), que acontece desde o último dia 1º de dezembro, em Lima, capital do Peru, a discussão se concentra nos riscos que a transformação climática apresenta à população e à economia, e os possíveis mecanismos de enfrentamento desse novo contexto. Para isso, uma proposta brasileira que muda o compromisso de cada país já foi aceita pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Pela proposta da diplomacia brasileira, os países em desenvolvimento serão divididos em diferentes graus de responsabilidade pelo aquecimento. A ideia foi lançada pelo país ainda em novembro deste ano e permite que nações emergentes como China, Brasil e Índia assumam compromissos mais ambiciosos de cortes de emissões.

Países ditos menos desenvolvidos, ou seja, mais pobres e menos industrializados, seriam apenas estimulados a reduzir emissões, ficando livres de cumprirem meta. Isto porque essas nações, sobretudo situadas na África e na Ásia, são uma parte muito pequena do bolo de emissões mundiais. No caso dos países em desenvolvimento, as metas de corte seriam relativas, ficando dependentes do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), do número populacional ou das projeções de emissões.

Já os 37 países considerados desenvolvidos teriam metas de redução de emissões e de ajuda financeira. Para este caso, cientistas recomendam um corte global de 40% a 70% até 2050. Com esse modelo de divisão, a expectativa é de que os países pobres que melhorarem seus padrões de vida migrem, gradualmente, para o centro, assumindo metas de corte de emissão mais rígidas.

Uma vantagem dessa proposta é que deve incluir no acordo os Estados Unidos e as nações emergentes, que são os grandes emissores e vinham se recusando a adotar medidas. Já uma desvantagem está na ausência de uma lei que garanta o cumprimento do acordo. A grande diferença entre a proposta brasileira e o atual modelo (Protocolo de Kyoto, de 1997) é que o número de países submetidos a metas rigorosas pode aumentar pouco a pouco.

Segundo a COP20, as mudanças climáticas matam mais de meio milhão de pessoas por ano. Foto: COP20.

As primeiras conversações desta semana se sustentaram no debate com cientistas do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), do secretariado da Convenção e dos representantes das Partes, para discutir dados técnicos. O momento serve de base para a tomada de decisões políticas e funciona como um termômetro de como anda o processo de negociação entre os países envolvidos na Convenção.

Nestes primeiros dias de debate, pesquisas técnico-científicas têm sido utilizadas no diálogo político para a construção do acordo climático. Compreendendo que já vivemos em um planeta climaticamente alterado por ações danosas do ser humano, o esforço da Convenção é na busca por instrumentos que suavizem essa repercussão socioambiental. Com uma temperatura média do planeta Terra 0,8°C mais alta, o foco é entender o que, efetivamente, é necessário fazer para que esse aumento não supere os 2°C até o final do século XXI.

O evento é dividido em duas partes. Na primeira semana, são realizadas reuniões oficiais e paralelas, com a função de alinhar os temas e preparar a negociação de acordos. Os negociadores, membros das equipes de cada país, juntamente com o secretariado da Organização das Nações Unidas (ONU), avançam no processo de formulação das ações e orientações mundiais. Já na segunda semana da COP20, com a presença dos chefes de Estado, são firmados os acordos formalmente.

Os dias iniciais da Conferência se deram sob a expectativa de grandes mudanças no tratamento da questão, principalmente pelo recente anúncio de compromisso (informal, até agora) entre Estados Unidos e China, os dois maiores poluidores do globo (concentrando juntos praticamente a metade das emissões), para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. O principal objetivo da Conferência é revestir um caminho para um grande acordo global que deve ser selado em 2015, em Paris, capital da França, durante a COP21.

Esse rascunho deve abordar as principais questões do setor, debatidas há duas décadas pelos países. Uma delas é a responsabilidade comum das nações, mas diferenciada, respeitando as chamadas condições de “desenvolvimento” de cada uma. Assim, todos os países devem assumir algum tipo de compromisso com relação à mitigação da mudança climática. Os chamados “desenvolvidos”, historicamente os maiores responsáveis pelo acúmulo de gases danosos na atmosfera, deverão assumir compromissos mais audaciosos que os demais. O evento se estende até o próximo dia 12 de dezembro.

Temperatura da Terra já aumentou em 0,8°C. Foto: COP20.

Entenda a COP20

A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC), que entrou em vigor em 1994 com o objetivo de reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Até o momento, 195 países participam das discussões e apresentam recursos para ratificarem os acordos e orientações internacionais. As nações reúnem-se anualmente para debaterem como são aplicadas as deliberações da Convenção, negociarem novos compromissos com responsabilidades comuns, considerando suas prioridades nacionais e regionais de desenvolvimento, seus objetivos e circunstâncias nacionais. Nesta 20ª edição, participam cerca de 10 mil delegados de todo o mundo.

Movimentos sociais fazem debate alternativo

De 08 a 11 de dezembro, também na capital peruana, será realizada a Cúpula dos Povos Frente à Mudança Climática, um encontro paralelo à COP20. O intuito é promover um espaço livre para que os movimentos sociais e civis debatam o fenômeno da mudança climática e formulem alternativas, ampliando a discussão institucional realizada pelas Nações Unidas. Com o lema “Mudemos o sistema, não o clima!”, o evento estima a participação de 8 mil representantes de vários setores, além da presença de 200 organizações de todo o mundo.

Dentre os participantes, a Cúpula dos Povos receberá delegações indígenas de diversos países. Foto: Cúpula dos Povos.

Metri: Futuro do Pré-Sal

Por Paulo Metri | Via Correio da Cidadania

O pico do petróleo

O artigo de Colin Campbell e Jean Laherrère, intitulado “The End of Cheap Oil”, de março de 1998, teve certa repercussão à época. Eles afirmavam que a produção mundial de petróleo convencional começaria a declinar dentro de uns dez anos, ou seja, ela passaria por um máximo por volta de 2008. A partir desta data, haveria uma demanda insatisfeita e, como consequência, o preço do barril tenderia a subir. O Fundo Monetário Internacional, no seu documento “World Economic Outlook” de abril de 2011 (1), admitiu um quadro de futura escassez de petróleo, quando a demanda mundial não conseguiria ser atendida pela produção.

Contudo, Campbell e Laherrère se referiram a um quadro de escassez do petróleo convencional. Eles não incluíram, por exemplo, o uso de óleo e gás de xisto. Outra crítica que pode ser feita a este trabalho é o fato deles não terem avaliado corretamente a possibilidade de novas fronteiras petrolíferas serem descobertas. A avaliação da produção futura das descobertas passadas nas diversas regiões do mundo foi perfeita. Mas, à medida que novas tecnologias eram desenvolvidas, foi possível melhorar a análise de dados e a prospecção, o que resultou em novas descobertas, como foi o caso da descoberta do Pré-Sal.

Inversão do quadro

No entanto, hoje há um quadro de superprodução de petróleo no mundo, com a concomitante diminuição da demanda, o que acarreta a queda no preço do barril. Assim, o barril, que custava US$ 115, durante o conflito no Iraque, passou a custar US$ 85, em outubro último, e existe a perspectiva que irá decrescer mais ainda. A Agência Internacional de Energia, após a quarta redução da projeção do consumo de petróleo para 2014, chegou à média anual de 92,4 milhões de barris por dia (MM bpd) e a oferta em setembro deste ano foi de 93,8 MM bpd. No presente artigo, são usados muitos dados do artigo de Ghirardi (2), cuja leitura é recomendada.

A crise econômica pela qual passam quase todas as economias do mundo, continuação da crise financeira de 2008, certamente contribui para a diminuição da demanda mundial por petróleo. Até a China, que cresce a 7% ao ano, ainda assim pode ser considerada como estando em crise, pois cresceu em torno de 10% durante mais de uma década.

Fora isso, os países do Oriente Médio, que compõem a maioria dos membros da OPEP, de uma forma geral, não aceitaram a proposta de redução das suas cotas de produção na última reunião da organização. A proposta era que esta redução viesse a segurar o preço do barril em torno de US$ 100. No entanto, existiram países da região que aumentaram a produção. O Iraque, depois da introdução do modelo que incluiu empresas estrangeiras no setor, aumentou sua produção em 700 mil bpd, pois saiu de 2,4 MM bpd no início de 2011 e chegou a 3,1 MM bpd nos dias atuais. Fora da OPEP, pode-se salientar o pequeno aumento da produção do Brasil. Entretanto, é esperado que o país esteja exportando 1 MM bpd em 2020.

Fora do petróleo convencional, surpreendeu o acréscimo de produção de gás e petróleo de xisto nos Estados Unidos de 2008 até o momento presente, correspondendo a reduções na necessidade de importação de petróleo deste país. A média anual de importações de petróleo dos Estados Unidos caiu de 11 MM bpd em 2008 para 6,5 MM bpd em 2013.

Cada país exportador tem um valor mínimo para o preço do barril a ser exportado, a partir do qual qualquer diminuição adicional do preço significará a não atratividade da exportação. Deste preço mínimo de exportação, é retirada a receita da empresa produtora, obtendo-se a arrecadação limite de tributos ainda aceitável para satisfazer os gastos previstos de governo. A Arábia Saudita se diz confortável com preços do barril entre US$ 90 e US$ 80. O Kuwait pode aceitar preços abaixo de US$ 80.

As empresas petrolíferas têm também seus limites para o negócio. Os custos relacionados com os investimentos e os de produção, adicionados aos tributos pagos e ao lucro mínimo visado pela empresa, nunca podem alcançar a receita da produção, que é função do preço de venda do barril. Resumindo, o preço do barril é primordial para a definição da atratividade, em nível governamental, da arrecadação de tributos do país e a permanência de empresas do ramo no país. A primeira conclusão é que está ocorrendo uma brutal briga de concorrentes supridores de petróleo ao mercado mundial, restando saber quais os verdadeiros objetivos desta briga.

Autores passam a listar empreendimentos ao redor do mundo que estariam fadados à inviabilidade se o barril de petróleo ficar abaixo de determinados valores. Lembro que já se fala em o barril estabilizar em US$ 60. O mais visado, segundo alguns autores, seria a produção de petróleo e gás de xisto, mas outras iniciativas estariam também comprometidas. Os produtores de baixo custo do barril, os do Oriente Médio, estariam forçando a saída do negócio de concorrentes menos competitivos.

Por outro lado, o mais comum na economia é a formação de cartéis entre empresas do mesmo ramo para a proteção mútua dos seus integrantes, sendo a OPEP um cartel formado às claras com este objetivo. A Venezuela é um antigo membro da OPEP e a sua posição de redução das cotas, na última reunião da organização, não foi aceita. Poderia existir outra razão para a não redução das cotas e a consequente superprodução atual de petróleo?

O componente geopolítico

Não existe país que prescinda da importação de itens do exterior, cuja compra requer a posse de moeda forte. Assim, os países precisam ter superávit nas suas contas externas para que seja possível importar os itens de consumo que precisam e os bens de capital e serviços necessários para o desenvolvimento. Como é usualmente lido na literatura, a União Soviética sobreviveu durante muitos anos, em boa medida, graças à exportação do petróleo e gás de Surgut e Baku.

De “O Segredo das Sete Irmãs, a Vergonhosa História do Petróleo”(3), no capítulo “O Urso Dançarino”, obtém-se: “O programa antimíssil ‘Guerra nas Estrelas’ dos Estados Unidos visava fornecer proteção contra uma guerra nuclear, mas o objetivo para Washington era, acima de tudo, forçar os soviéticos a entrarem numa frenética corrida armamentista. Ronald Reagan, eleito presidente em 1983, e William Cassey, seu diretor da CIA, planejaram a primeira fase da armadilha. Assim, começou a grande caçada ao urso, um ser assustador. Era o Exército Vermelho com cinco milhões de homens e armas nucleares. A vasta máquina de guerra era abastecida por dinheiro do petróleo”.

“François Roche, jornalista e escritor: ‘Para poder constantemente fazer frente ao avanço tecnológico dos EUA, o governo soviético foi obrigado a mobilizar somas muito significativas. E com que dinheiro os soviéticos financiaram o seu complexo militar e industrial de guerra? Com receitas de exportações de matérias-primas, essencialmente, petróleo e gás’”.

“A segunda parte da armadilha seria montada pelos sauditas. Reagan persuadiu o seu aliado rei Fahd a usar o petróleo como uma arma para desestabilizar a URSS. Em 1983, a Arábia Saudita abriu as comportas do petróleo e inundou o mercado. Ao encorajar os sauditas a produzirem de forma que a oferta mundial ficasse bem acima da demanda, Reagan baixou o preço do petróleo. O barril caiu para US$ 13. Isso ocorreu na década de 1980 e provocou um desastre em muitos países. Mas o maior efeito foi na União Soviética, que dependia quase inteiramente de petróleo e gás para ter receitas em divisas. As fraturas internas cresceram e o regime colapsou”.

“A União Soviética já não tinha dinheiro para pagar as pensões, para pagar aos mineiros, para comprar sabão para os mineiros, para pagar os serviços sociais que mantinham a população calada. Para comprar vodca. O urso soviético já não dançava. Estava de ressaca e falido. As lojas estavam vazias, os salários por pagar e anteviam-se problemas. Mikahail Gorbachev estava impotente. O país estava arruinado. O preço do petróleo tinha desmembrado definitivamente a União Soviética. Em 1989, cai o Muro de Berlim. Os Estados Bálticos da Geórgia e Armênia declaram as suas independências. No dia 25 de dezembro de 1991, Gorbachev demite-se do cargo de chefe de Estado. O império comunista rui”.

A história da débâcle da União Soviética lembra em parte o momento atual. Hoje, a mesma Arábia Saudita, eterna aliada dos Estados Unidos, com a ajuda do Iraque e da Líbia dominados e de outros países do Oriente Médio, inundam o mercado de petróleo. A pergunta correta a ser feita é: “Que países produtores irão sofrer mais com a queda e a permanência prolongada do preço do barril em US$ 50 (abaixo deste valor, as finanças dos próprios promotores do ‘dumping’ seriam também fortemente impactadas)?” Creio que a resposta é: “A Rússia, o Irã e a Venezuela”. Estes países são produtores de petróleo e gás, cujas vendas são a principal fonte geradora de divisas, que acionam suas economias. A atual queda de preço do barril e a permanência no nível baixo do preço por um período razoável irá colocá-los em difícil situação econômica. O caso da Rússia é um pouco diferente porque a sua maior produção é de gás natural, que obriga maior fidelidade por parte de seus consumidores, no entanto, ainda assim, ela sofrerá consequências.

Dentre os Estados nacionais existentes no mundo, estes não são os únicos que buscam escapar da hegemonia norte-americana, mas eles têm atitudes confrontantes com os desígnios do império. Então, a baixa no preço do barril pode não ter sido decidida para feri-los e, sim, para inviabilizar o petróleo e gás de xisto, por exemplo. Mas a verdade é que a superprodução de petróleo tolhe também o crescimento destes países.

E o Pré-Sal?

Outra pergunta que surge é: “Como ficará o Pré-Sal com o barril a US$ 50?” A resposta é: “Ainda viável. O custo do petróleo do Pré-Sal está na casa de US$ 45 por barril, de forma que o consórcio que o estiver o produzindo terá uma margem pequena, mas ainda será uma margem positiva. O petróleo da Bacia de Campos, com custo em torno de US$ 14 por barril, não estará de forma alguma ameaçado”. Esta posição privilegiada do Brasil é consequência, além da natureza, da capacidade técnica e empresarial da Petrobras.

Resta um pensamento. O petróleo na crosta terrestre é necessariamente finito. Não haverá desenvolvimentos tecnológicos que estenderão a produção de petróleo indefinidamente, ainda mais a produção de petróleo barato, como Campbell e Laherrère bem frisaram. Com a pressa inexplicável dos governos brasileiros em fazer leilões de áreas de petróleo e como há uma defasagem entre o momento do leilão e o início da produção oriunda daquele leilão, o Brasil estará colocando no mercado mundial seus excedentes de petróleo na pior hora possível.

Precisa ser compreendido pelo povo que os governos, no afã de conseguirem fechar as contas anuais do superávit primário (portanto, contas de curtíssimo prazo), promovem leilões de áreas de petróleo para receberem o bônus da venda da área, no ato de assinatura das concessões e contratos de partilha, que irão acarretar enormes prejuízos para a sociedade durante mais de 30 anos. Prejuízos estes causados não só pelos fatores explicados à exaustão, em outros artigos, mas, agora, também devido à perda de receita com esta queda no preço do barril.

Em algum ponto do futuro, a Arábia Saudita e seus seguidores irão parar de tendenciar o mercado e o preço do barril voltará no mínimo ao nível anterior, em torno de US$ 100. Os excedentes do Pré-Sal podem, então, ser comercializados. O óbvio a ser feito é o governo não cair mais na tentação de promover leilões, até porque o mercado nacional estará fartamente satisfeito pela Petrobras durante os próximos 40 anos, no mínimo, e a ANP deve retirar a pressa do desenvolvimento de muitos campos da Petrobras, pois o mercado futuro de petróleo estará excessivamente ofertado. Esta medida virá também ao encontro de outros interesses nacionais, como livrará a Petrobras da necessidade de tomar novos empréstimos.

Com a queda do preço do barril, a Petrobrás terá reflexos em suas receitas, em um momento de fragilidade política devido à atitude de ladrões, que se apoderaram de alguns dos seus cargos de mando. Mas isto merece outro artigo.

Notas:

1) Jornalistas Andrea Murta e Alvaro Fagundes, notícia “FMI vê escassez de petróleo, com risco ao crescimento global”, Folha de São Paulo, caderno Mundo, 08/04/2011.

2) Engenheiro André Ghirardi, artigo “Petróleo: a virada nos mercados globais e o Pré-sal”, site “Correio da Cidadania”.

3) Produtores Frédéric Tonolli e Arnaud Hamelin, vídeo “O Segredo das Sete Irmãs, a Vergonhosa História do Petróleo”, endereço https://www.youtube.com/watch?v=jQYK3ttfVaw

Duas decisões extemporâneas: Será a oficialização da deflação e recessão global?

Por Helio Silveira, 27/11/2014

A primeira no exterior, em Viena: A OPEP, capitaneada pela Arábia Saudita, decide manter a oferta do petróleo nos níveis atuais. Preços futuros desabam, dando continuidade à queda dos últimos meses, para desespero da Venezuela. Se considerarmos que cerca de 2/3 da oferta mundial são de países que estão fora da OPEP pode-se imaginar a guerra de preços instalada. A cotação do “Brent” principal referência do mercado, caiu para U$ 72,58, uma queda de 6,65%.

A Bloomberg publicou dois artigos que explanam esta decisão.

Possíveis consequências:

Em 1973, o mundo entrou em choque de oferta, recessão com inflação elevada – estagflação – por conta do aumento do insumo mais estratégico do mundo.

2014, 41 anos depois do choque de 1973 portanto, os principais países da OCDE, lutam contra a recessão e a deflação e recebem este golpe que constitui um choque deflacionário no principal insumo (custo) global.

O cenário internacional mediante essa medida:

O Japão, forte consumidor de petróleo, luta para enfraquecer o iene a fim de criar inflação no mercado interno e recebe um choque deflacionário dessa magnitude.

Estados Unidos, que também lutam contra a deflação. Entretanto, por lá o consumidor que ainda reclama de aumentos de preços referentes ao custo de vida e moradia, recebem este choque deflacionário com uma consequência de 2ª ordem: a ameaça de inviabilizar seu “contraditório” sucesso, a indústria do gás de xisto. O dólar possivelmente se fortalecerá o que os forçará a manter os juros negativos por muito tempo, podendo ainda ter de retomar o quantitative easing, afrouxamento quantitativo, a única política que fazem, obviamente destinada ao 1%.

A União Europeia até outro dia estava sendo estrangulada pelo gás russo que passa pela Ucrânia. Agora, minimizam este obstáculo mas enfrentarão outro, a deflação intensificada por mais esse choque.

China, também preocupada com a queda dos preços internos, recebe este choque deflacionário.

Para os produtores de commodities, Brasil inclusive, o petróleo representa um importante insumo da agropecuária na forma de rações, fertilizantes, defensivos e transporte com possível deflação das cotações. A Petrobras possivelmente terá perda líquida. Isso porque tiveram de importar petróleo caro sem poder repassar para a gasolina. Será beneficiada a curto prazo, mas a médio e longo terá prejuízos sua produção própria.

A Índia possivelmente se beneficiará da queda do petróleo, já que é altamente dependente do insumo e luta contra uma inflação renitente e preços internos elevados do setor de alimentação.

Os países pobres ao menos terão algum alívio no preço da alimentação e transportes.

A segunda, no Brasil:

Dilma, como em 2010, comete o mesmo erro estratégico. Enquanto o mundo inteiro teme a deflação (em 2010 era o início da recessão, mas com commodities ainda inflacionadas, ela aumenta consistentemente a SELIC de 10% para 12%). Ao apresentar seu trio principal da equipe econômica nos “premia” com um extemporâneo e desastrado arrocho fiscal e mais aumentos de juros, no mesmo dia da decisão da OPEP.

As perspectivas são negativas diante deste desarranjo.