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Modelo de partilha garante mais recursos ao Brasil

Via Portal Brasil

Alvo de polêmica, o sistema permite que Petrobras opere em todas as áreas do pré-sal e se fortaleça em uma área que já apresenta resultados altamente positivos.

Opção pela partilha foi compensadora para o Brasil, através da alta produtividade e baixo custo de produção no pré-sal

Brasília – O modelo de “partilha” tornou-se, nos últimos anos, uma das principais fontes da disputa que envolve o Pré-sal. Empresas privadas preferem o formato de “concessão” em que a produção é uma propriedade delas. O governo brasileiro optou pela partilha que garante uma fatia de, pelo menos, 30% à Petrobras nos consórcios de exploração e mais poder ao Estado.

“Neste momento, as grandes empresas do setor querem mudar os contratos do Pré-sal e têm muitos ´advogados` para defender sua posição na opinião pública”, diz o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos. “A partilha é o modelo mais avançada e não se trata de uma novidade brasileira.”

Segundo ele, a opção pela partilha foi a mais acertada e compensadora para o Brasil, o que se comprova agora pela produtividade alta e pelos custos de produção menores no Pré-sal. “São reservas extraordinárias a custos baixos. Hoje, nos Estados Unidos, as empresas estão com dificuldades com xisto [shale gas] que tem obstáculos na área ambiental”, afirma.

O debate sobre partilha e concessão chegou ao Congresso Nacional. O líder do governo na Câmara Federal, deputado José Guimarães (PT-CE), se posicionou contrariamente à mudança no modelo de exploração. Os números, segundo ele, mostram que as concessões destinam de 40 a 50% do lucro para o Estado brasileiro. No caso de Libra, o rendimento é de 85%.

“A partilha concede ao Estado maior soberania na gestão dessa riqueza nacional e, consequentemente, maior autonomia sobre a aplicação dos recursos decorrentes da exploração desse bem, como será feito com educação e saúde, que receberão 75% e 25%, respectivamente, do fundo social”, ressaltou Guimarães, em artigo no jornal Folha de S. Paulo.

Movimentos sociais contra projeto entreguista de Serra: Petróleo só é nosso com a partilha e a Petrobras como operadora única do pré-sal

Via Viomundo

Seis motivos que justificam a importância de manter a Petrobrás como operadora única na área do pré-sal.  (rejeitando o entreguismo do projeto de lei PLS 131-2015 do Senador José Serra PSDB-SP).

1-  Para avançar com soberania energética e ambiental: controlando a produção, garantido o abastecimento nacional, evitando a extração predatória, os riscos de acidentes e maiores custos econômicos no futuro.

A operação única pela Petrobrás no pré-sal brasileiro garante ao Estado nacional, que detém a maioria do capital votante da empresa, o planejamento da produção, escapando da armadilha da produção rápida e predatória, que compromete os reservatórios e trás inúmeros riscos ambientais como o ocorrido no acidente no campo de frade no litoral do Rio de Janeiro em novembro 2011 operado pela estadunidense Chevron.

O Petróleo por muitos anos será estratégico como energético (responsável por mais de 50% da matriz mundial) e como matéria prima (presente em mais de 3.000 produtos). Garantir, sua exploração  e  uso  adequado  na  atualidade,  e  que  não  faltará  este  recurso  para  as  futuras gerações de brasileiros é obrigação de todos.

São inúmeros os exemplos de nações que submeteram a produção a multinacionais que operam sobre a lógica meramente econômica e hoje se encontram em maus lençóis. As situações vividas por nossos vizinhos argentinos onde após a privatização exportaram petróleo a 04 dólares o barril e mais tarde tiveram que importar a mais de 100 dólares, ou da Indonésia, que exportou petróleo a 01 dólar o barril e hoje drena seus recursos pagando pelo mesmo barril de petróleo 60 dólares, são procedimentos que não devemos repetir em nosso país.

2- Para preservar e ampliar o conhecimento, bem que vale mais do que o dinheiro.

Ter a Petrobras como operadora única é essencial para garantir o domínio e a continuação do desenvolvimento tecnológico. O nível tecnológico atingido pelos trabalhadores da Petrobrás é fruto  de  muito  trabalho  e  desenvolvimento  científico.  Ceder  a  condição  de  operadora  única dificulta esta vantagem estratégica, expõe nossa capacidade de vanguarda a potenciais competidores e desperdiça oportunidades de aprendizado.

A Petrobras recebeu em maio de 2015 o prêmio da OTC (Offshore Technology Conference) considerado o Nobel da indústria petroleira. Este prêmio foi graças a nossa produção no pré-sal. Chegar a essa condição custou sangue, suor e lágrimas a gerações de brasileiros. As três coisas mais importantes para uma empresa de energia são: mercado,    reservas e conhecimento tecnológico. O Brasil através da Petrobras detém os três sendo o conhecimento o mais difícil de ser alcançado.

Não temos nenhuma dúvida que a história vitoriosa da Petrobrás, e seu extraordinário potencial indica plena capacidade de ser a operadora única no pré-sal. Mesmo vivenciando dificuldades momentâneas em relação a sua capacidade financeira, fato que já esta sendo superado com uma política adequada de preços, a Petrobrás conseguiu em apenas 8 anos após a descoberta do pré-sal, uma produção de cerca de 800 mil barris por dia, fato inédito na indústria do petróleo.

3- Para garantir que o petróleo produzido e os royalties recolhidos sirvam aos interesses do povo brasileiro.

A operadora é responsável por medir o petróleo produzido e submeter a informação às instituições de controle e regulação.

A produção sobre as condições do pré-sal, a quilômetros de distancia da costa dificulta e muito a fiscalização. Seguramente a melhor forma de acompanhamento pelo povo, e por nossas instituições nacionais dessa importante questão é estar sob controle da Petrobrás. Ter a Petrobrás como operadora única, com o adequado controle público, é maior garantia na destinação dos Royalties para educação e para a saúde.

Além do mais, a propriedade do petróleo da às nações vantagens geopolíticas, na medida em que, o Estado pode administrar uma base natural rara, não renovável, desigualmente distribuído no planeta e sobretudo essencial para a sobrevivência a segurança e o bem estar de todos os Estados.

4- Para alavancar o desenvolvimento, com o conteúdo local, gerando mais e melhores empregos.

A Petrobrás como operadora única tem plenas condições de dirigir os empreendimentos. Incentivando de forma organizada o desenvolvimento da indústria   de bens e serviços. Essa condição é essencial para a política industrial brasileira, maximizando o conteúdo local, em bases competitivas, e garantindo o desenvolvimento integrado a nível nacional.

Segundo dados do SINAVAL (Sindicato da Construção Naval) apesar da existência de inúmeras operadoras privadas e estrangeiras no Brasil apenas a Petrobras tem encomendas de navios e plataformas aos nossos estaleiros, portanto, a prática nos conduz a convicção, que sem a Petrobras,  a  política  do  conteúdo  local  tão  importante  para  impulsionar  o  desenvolvimento nacional ficará só no papel.

A operação e a condução dos empreendimentos pela Petrobrás possibilitam que mais e melhores empregos sejam criados no Brasil. Este fator estimula o estudo, a pesquisa e o conhecimento, potencializando a inteligência local, garantindo as condições para o intercambio de experiência com o conhecimento produzido a nível mundial.

5- Para manter a integralidade da lei da Partilha.

A  lei  da  Partilha  12.351/2010  aprovada  pelo  Congresso  Nacional  representou  um  salto  de qualidade para a produção de Petróleo no Brasil. Esta lei possibilita a estruturação de uma grande nação alavancando o desenvolvimento nacional, garantindo soberania energética e dando destino social ao retorno econômico, resolvendo assim nossos ainda graves problemas sociais.

A Petrobras, como operadora única do Pré-Sal, é parte fundamental do modelo formulado na partilha para garantir esse tripé: soberania energética, desenvolvimento econômico e destinação social. Mudar esse ponto irá “desfigurar a Lei da Partilha” comprometendo a utilização adequada de um recurso que a natureza levou 150 milhões de anos para produzir.

6- Porque acreditamos no Brasil, na nossa potencialidade e na nossa capacidade.

A História da indústria do petróleo em nossa Pátria é cheia de desafios, que foram sendo superados um a um com perseverança, determinação e muito trabalho.

Superamos o desafio de encontrar o sonhado petróleo no Brasil. Superamos o desafio de desenvolver uma empresa e uma indústria potente e exemplar.

Superamos o desafio de sermos autossuficientes em petróleo. Superamos o desafio histórico, ao descobrir o pré-sal, que para o consumo nacional, temos petróleo para mais de 100 anos.

Confiamos plenamente no povo brasileiro, na capacidade de superarmos problemas que possam surgir.

A Petrobrás operadora única no pré-sal é mais uma conquista histórica. Manter esta conquista é um desafio de todos que lutam por um país justo, democrático e fraterno.

Rio de Janeiro, 15 de junho de 2015.

FUP Federação Única dos Petroleiros

CUT

MAB Movimento dos Atingidos por Barragens

Plataforma Operária e Camponesa para Energia

A nova geopolítica do petróleo

Por Ignacio Ramonet | Via Esquerda.net

Esta política prioritária de atenção ao Extremo Oriente e de contenção da China só é possível se os Estados Unidos conseguirem afastar-se do Próximo Oriente.

Washington não quer ver-se de novo na humilhante situação da Guerra Fria (1948-1989), quando teve de compartilhar a sua hegemonia mundial com outra superpotência, a União Soviética. Os conselheiros de Obama formulam esta teoria da seguinte maneira: Um único planeta, uma única superpotência.

Em que contexto geral está a ser desenhada a nova geopolítica do petróleo? O país hegemónico, os Estados Unidos, considera que a China é a única potência contemporânea capaz, a médio prazo (na segunda metade do século XXI), de rivalizar com ele e ameaçar a sua hegemonia solitária à escala planetária. Por isso Washington instaurou secretamente, desde os inícios de 2000, uma desconfiança estratégica em relação a Pequim.

O presidente Barack Obama decidiu reorientar a política externa dos EUA tendo este parâmetro como critério principal. Washington não quer ver-se de novo na humilhante situação da Guerra Fria (1948-1989), quando teve de compartilhar a sua hegemonia mundial com outra superpotência, a União Soviética. Os conselheiros de Obama formulam esta teoria da seguinte maneira: um único planeta, uma única superpotência.

Em consequência, Washington continua a aumentar as suas forças e as suas bases militares na Ásia oriental, com o intuito de conter a China. Pequim constata já o bloqueio da sua capacidade de expansão marítima devido aos múltiplos conflitos em torno de ilhotas com a Coreia do Sul, Taiwan, Japão, Vietname, Filipinas… E pela poderosa presença da sétima frota dos Estados Unidos. Paralelamente, a diplomacia de Washington reforça as suas relações com todos os Estados que têm fronteiras terrestres com a China (exceto a Rússia). O que explica a recente e espetacular aproximação de Washington com o Vietname e a Birmânia.

Esta política prioritária de atenção ao Extremo Oriente e de contenção da China só é possível se os Estados Unidos conseguirem afastar-se do Próximo Oriente. Neste palco estratégico, a Casa Branca intervém tradicionalmente em três campos. Primeiro, no militar: Washington está implicado em vários conflitos, especialmente no Afeganistão contra os talibans e no Iraque-Síria contra a organização Estado Islâmico. Segundo, no diplomático, em particular com a República Islâmica do Irão, com o objetivo de limitar a sua expansão ideológica e impedir o acesso de Teerão à força nuclear. Terceiro, o da solidariedade, especialmente a respeito de Israel, para o qual os Estados Unidos continuam a ser uma espécie de protetor em última instância.

Este grande envolvimento direto de Washington na região (particularmente após a guerra do Golfo, em 1991) mostrou os limites da potência americana, que não pôde realmente ganhar nenhum dos conflitos nos quais se envolveu fortemente (Iraque, Afeganistão). Conflitos que tiveram, para os seus cofres, um custo astronómico com consequências desastrosas até para o sistema financeiro internacional.

Atualmente Washington sabe que os Estados Unidos não podem realizar simultaneamente duas grandes guerras de alcance planetário. Portanto, a alternativa é a seguinte: ou continuam mergulhados no pantanal do Próximo Oriente, em conflitos típicos do século XIX, ou concentram-se na urgente contenção da China, cujo impulso fulgurante poderia anunciar a decadência dos Estados Unidos a médio prazo.

A decisão de Obama é óbvia: tem de enfrentar o segundo desafio, pois este será decisivo para o futuro dos Estados Unidos no século XXI. Em consequência, tem de retirar-se progressivamente – mas imperativamente – do Próximo Oriente.

Aqui coloca-se uma questão: por que, desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos se envolveram tanto no Próximo Oriente, ao ponto de descuidarem o resto do mundo? Para esta pergunta, a resposta pode limitar-se a uma palavra: petróleo. Desde que os Estados Unidos deixaram de ser auto-suficientes em petróleo, no final dos anos 40, o controlo das principais zonas de produção de hidrocarbonetos converteu-se numa obsessão estratégica. Isso explica parcialmente a diplomacia dos golpes de Estado de Washington, especialmente no Médio Oriente e na América Latina.

No Próximo Oriente, nos anos 50, à medida em que o velho império britânico se retirava e ficava reduzido ao seu arquipélago inicial, o império americano substituía-o, colocando os seus homens à frente dos países dessas regiões. Sobretudo na Arábia Saudita e no Irão, principais produtores de petróleo do mundo, junto com a Venezuela, já sob controlo dos EUA na época.

Até há pouco, a dependência de Washington do petróleo e do gás do Próximo Oriente impediu-o de considerar a possibilidade de retirar-se da região. Que mudou então para que os Estados Unidos pensem agora em sair do Próximo Oriente? O petróleo e o gás de xisto, cuja produção pelo método chamado fracking aumentou significativamente em começos dos anos 2000. Isto modificou todos os parâmetros. A exploração desse tipo de hidrocarbonetos (cujo custo é mais elevado que o do petróleo tradicional) foi favorecida pelo importante aumento do preço dos hidrocarbonetos, que em média superaram 100 dólares por barril entre 2010 e 2013.

Atualmente, os Estados Unidos recuperaram a auto-suficiência energética e estão mesmo a converter-se outra vez num importante exportador de hidrocarbonetos. Portanto, podem agora por fim considerar a possibilidade de se retirarem do Próximo Oriente. Com a condição de sarar rapidamente várias feridas que por vezes datam de mais de um século.

Por essa razão, Obama retirou a quase a totalidade das suas tropas do Iraque e do Afeganistão. Os Estados Unidos participaram muito discretamente nos bombardeios da Líbia. E recusaram-se a intervir contra as autoridades de Damasco, na Síria. Por outro lado, Washington procura em ritmo forçado um acordo com Teerão sobre a questão nuclear. E pressiona Israel para que o seu governo progrida urgentemente em direção a um acordo com os palestinianos. Em todos estes temas, percebe-se o desejo de Washington de fechar as frentes do Próximo Oriente para passar a outra questão (China) e esquecer os pesadelos do Próximo Oriente.

Todo este cenário desenvolveu-se perfeitamente enquanto os preços do petróleo continuavam altos, ao redor de 100 dólares por barril. O preço de exploração do barril de petróleo de xisto é de aproximadamente 60 dólares, o que deixa aos produtores uma margem considerável (entre 30 e 40 dólares por barril).

Foi aqui que a Arábia Saudita decidiu intervir. Riad opõe-se a que os Estados Unidos se retirem do Próximo Oriente, sobretudo se antes Washington estabelecer um acordo sobre a questão nuclear com Teerão. Acordo que os sauditas consideram demasiado favorável ao Irão e que, segundo a monarquia wahabita, exporia os sauditas, e mais em geral os sunitas, a converterem-se em vítimas do que chamam de expansionismo xiita. Há que ter presente de que as principais jazidas de hidrocarbonetos sauditas se encontram em zonas de população xiita.

Considerando que dispõe das segundas reservas mundiais de petróleo, a Arábia Saudita decidiu usar o crude para sabotar a estratégia dos Estados Unidos. Opondo-se às orientações da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), Riad decidiu, contra toda a lógica comercial aparente, aumentar consideravelmente a sua produção e fazer, desse modo, baixar os preços, inundando o mercado de petróleo barato. A estratégia deu resultado rapidamente. Em pouco tempo os preços do petróleo baixaram 50 por cento. O preço do barril desceu para 40 dólares (antes de subir ligeiramente, até aproximadamente 55-60 dólares atualmente).

Esta política desferiu um duro golpe ao fracking. A maioria dos grandes produtores norte-americanos de gás de xisto estão atualmente em crise, endividados e correm o risco de falir (o que implica uma ameaça para o sistema bancário dos EUA, que tinha generosamente oferecido abundantes créditos aos neopetrolíferos). A 40 dólares o barril, o xisto já não é rentável. Nem as perfurações profundas off shore. Muitas companhias petrolíferas importantes já anunciaram que interrompem as suas explorações em alto mar por não serem rentáveis, provocando a perda de dezenas de milhares de empregos.

Uma vez mais, o petróleo é menos abundante. E os preços sobem ligeiramente. Mas as reservas da Arábia Saudita são suficientemente importantes para que Riad regule o fluxo e ajuste a sua produção de maneira a permitir um ligeiro aumento de preço (até 60 dólares aproximadamente). Mas sem superar os limites que permitiriam ao fracking e às jazidas marítimas de grande profundidade recomeçarem a produção. Deste modo, Riad converteu-se no árbitro absoluto em matéria de preço do petróleo (parâmetro decisivo para as economias de dezenas de países, entre os quais figuram a Rússia, a Argélia, a Venezuela, a Nigéria, o México, a Indonésia, etc).

Estas novas circunstâncias obrigam Barack Obama a reconsiderar os seus planos. A crise do fracking poderia representar o fim da auto-suficiência de energia fóssil nos Estados Unidos e, portanto, o regresso à dependência do Próximo Oriente (também da Venezuela, por exemplo). Por agora, Riad parece ter ganho a aposta. Até quando?

Petrobras, sua história e a soberania: Entrevista com Wladmir Coelho

Por Rennan Martins | Curitiba, 08/06/2015

A Operação Lava-Jato desencadeou uma série de mudanças no rumo da gestão da Petrobras. Independente ou não da intencionalidade, o fato é após o escândalo a estatal tomou um rumo ainda mais pró-mercado, algo deveras providencial a certos interesses internacionais.

O enfraquecimento das políticas de desenvolvimento e soberania ora apoiadas na Petrobras deu-se num contexto nebuloso em que uma campanha midiática denuncia os mal feitos ao mesmo tempo que apresenta como única solução intensificar as medidas entreguistas e privatistas.

A fim de situar o debate em termos diversos, porém fundamentais para compreensão do real propósito da empresa, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou Wladmir Coelho, Historiador, Mestre em Direito, Conselheiro e pesquisador da Fundação Brasileira de Direito Econômico, e autor do blog Política Econômica do Petróleo. Coelho faz uma importante retrospectiva histórica do petróleo e sua relação com o desenvolvimento econômico brasileiro, relembra que os interesses contrários a soberania nacional não descansam e é taxativo quando aponta que o modelo de partilha é também uma forma de financiamento do oligopólio transnacional do petróleo.

Confira a íntegra:

Como você caracteriza a gestão petista da Petrobras? A retórica nacionalista é condizente com a prática?

A criação da Petrobras representou uma ruptura com o modelo econômico de base colonial encarnando, esta empresa, os sentimentos de independência econômica cuja representação maior encontra-se na figura de Tiradentes.

A Inconfidência de Minas Gerais passou para a história como um movimento em defesa das recursos minerais – simbolizado no ouro – permanecendo este aspecto como espécie de fundação do nacionalismo no Brasil.

Assim qualquer movimento de base nacionalista em nosso país, necessariamente, apresenta em sua estrutura a defesa da utilização do ouro, minério de ferro ou petróleo como forma de alcançar a independência econômica.

No início do século passado Arthur Bernardes, Pandiá Calógeras, Monteiro Lobato e outros tantos quando falavam em nacionalismo entendiam a necessidade de uma legislação voltada para o controle brasileiro do setor mineral.

Veja que a Petrobras resulta de uma longa história iniciada no final do século XVIII e sua criação efetivou-se graças a mobilização de diferentes setores da sociedade que assumiam a condição de herdeiros deste sentimento nacionalista e, desta forma, o dever de concretizar a independência econômica do Brasil.

A Petrobras nasceu da mobilização popular contra o controle dos grupos internacionais que impediam a exploração do petróleo nacional. O povo brasileiro, de forma ousada, criou uma empresa para quebrar um gigantesco oligopólio que controlava, ou ainda controla, a produção mundial.

Sabemos que estes mesmos grupos internacionais jamais desistiram de desviar a Petrobras de sua missão. Sempre agiram manipulando dados e informações a começar pelo relatório Link cujo teor apontava a inviabilidade comercial da exploração do petróleo em terra no Brasil.

A ditadura militar, ao internacionalizar a Petrobras e criar o chamado contrato de risco, seguido do governo de Fernando Henrique Cardoso que jogou no lixo 300 anos de lutas pela emancipação econômica do Brasil, anulando o monopólio estatal do petróleo, representam o tamanho da disputa que ainda temos a nossa frente.

Quanto ao atual governo observo que o discurso nacionalista em defesa da Petrobras foi abandonado. O ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, advoga sem o menor pudor a redução do chamado conteúdo nacional – e vejam que nossa Constituição desde 1995 apresenta-se bastante flexível em relação a definição de empresa nacional – isso sem falar do desespero de sua excelência em efetivar o mais rápido possível os leilões.

Vamos juntando ao tema o chamado desinvestimento cujo verdadeiro nome é venda de partes da Petrobras. A todo momento surge o fantasma da entrega de campos de produção em território nacional para a satisfação dos lucros de acionistas residentes do outro lado do Atlântico. Esta prática não apresenta características nacionalistas.

Completo dizendo o seguinte: Desde o início da discussão a respeito da forma de exploração do pré-sal apontei o grave erro presente no modelo que oferecia a Petrobras a condição de operadora ficando, todavia, com apenas 30% de controle dos blocos. A empresa nacional transformou-se em financiadora dos oligopólios.

A Petrobras não foi criada para “concorrer” com os oligopólios petrolíferos, sua missão não é oferecer ganhos ao mercado internacional de ações e sim garantir à autossuficiência nacional protegendo a economia dos ataques especulativos representados na condição pendular dos preços do petróleo.

De que forma o pré-sal insere o Brasil no mapa geopolítico? Quem são os maiores interessados em nossas reservas petrolíferas?

 

Wladmir Coelho

As reservas petrolíferas brasileiras sempre estiveram na mira dos oligopólios do petróleo. No início do século XX a Standard Oil controlava, em nosso país, vastas áreas com potencial produtivo e graças à existência de uma legislação permissiva que impedia a pesquisa e consequente exploração do petróleo brasileiro.

A estratégia para impedir a exploração do petróleo nacional completava-se quando inúmeros geólogos, quase sempre ligados a Standard Oil, negavam através de relatórios “científicos”, a existência de reservas petrolíferas, em condição de exploração comercial, em território brasileiro.

Temos ainda a conhecida subserviência da grande imprensa nacional aos interesses dos oligopólios internacionais. Monteiro Lobato, ao defender a criação de empresas nacionais de exploração petrolífera, foi atacado duramente em artigos do jornal O Globo, nos quais era acusado de louco a inconsequente. Também não podemos nos esquecer que durante muitos anos a ESSO brasileira foi responsável pelo programa jornalístico de maior audiência no rádio, o Repórter Esso.

Voltando a geopolítica devemos lembrar que no período em questão os Estados Unidos eram os maiores produtores de petróleo do mundo e lutavam para garantir o preço que atendia aos interesses, principalmente, da Standard Oil. Preço e volume da produção, naturalmente.

Este fato como sabemos sofreu alterações nos anos 70 quando verificou-se uma crescente dependência dos EUA do petróleo originário do Oriente Médio. Este aspecto nunca agradou os responsáveis pela elaboração da política de defesa estadunidense, preocupados com a instabilidade política da região. Instabilidade, diga-se de passagem, decorrente, em grande parte, em função da manutenção de governos favoráveis aos Estados Unidos.

Somado ao fato instabilidade política em nossos dias a quantidade de petróleo encontrado em áreas de fácil acesso, os chamados campos tradicionais, revelam evidente queda restando a exploração nas profundezas oceânicas ou regiões de clima extremo como o Ártico.

O curioso deste momento consiste no retorno dos Estados Unidos a condição de grande produtor mundial de petróleo graças a polêmica exploração do xisto. Verifica-se com clareza uma movimentação dos EUA no sentido de controlar áreas com potencial produtivo.

Vejamos o caso do Canadá cuja economia encontra-se em franca desorganização em função de sua recente dependência da exportação do petróleo de xisto – algo próximo dos 90% de sua produção – aos Estados Unidos.

Devemos ainda acrescentar o México, as tentativas de isolamento da Venezuela acusada de ameaça a segurança nacional dos Estados Unidos. Qual ameaça? Simples. A Venezuela levanta-se contra os acordos comerciais que ignoram a soberania nacional.

O pré-sal de forma evidente encontra-se nos planos da chamada segurança energética dos Estados Unidos. No mínimo temos uma enorme quantidade de petróleo nas profundezas do oceano e sua eventual exploração representa o poder de intervenção no mercado internacional e consequente aumento do poder econômico brasileiro.

A utilização deste patrimônio como produto de simples exportação atenderá diretamente aos interesses de sempre e diminui o peso, a importância geopolítica do Brasil. Precisamos utilizar melhor o poder econômico decorrente da exploração petrolífera e para este fim devemos repensar o formato atual da Petrobras.

Como a Operação Lava Jato está influenciando a Petrobras? Quais são os impactos mais significativos?

Petróleo e corrupção sempre andaram juntos. As maiores empresas petrolíferas compraram governos e quando encontravam alguma resistência oficial promoviam, ou promovem, golpes de estado, assassinatos.

Esta prática inclui os países de origem, bastando para este fim verificar a ligação entre petróleo e indústria da guerra nos Estados Unidos ou Inglaterra, acrescidos os recentes escândalos ligados a exploração do xisto cujo resultado nefasto encontra-se nos prejuízos ao meio ambiente e a saúde dos moradores de áreas de exploração.

A Petrobras foi criada em oposição aos métodos mercadológicos dos oligopólios, portanto não deveria permanecer na condição de mais uma empresa ou concorrente destas. Este projeto é uma triste herança da ditadura acrescida da ficção neoliberal dos anos 90.

O tempo todo a grande imprensa aponta como “salvação” da Petrobras a sua total submissão as regras do chamado mercado. Não, este caminho mostrou-se prejudicial aos interesses do povo brasileiro.

A submissão da Petrobras ao mercado implica na aceitação pura e simples de sua associação aos interesses dos oligopólios que em nome do lucro passam a ditar a política econômica da empresa. A Petrobras nasceu para combater este modelo.

É possível que se aproveitem da repercussão dos escândalos para promover políticas privatizantes?

Os inimigos da Petrobras nunca descansaram. Com ou sem escândalo a empresa sempre foi atacada, ora como incompetente, argumento usado desde a ditadura quando foi introduzido a primeira quebra do monopólio através dos contratos de risco ou “dinossauro” estatal, mesmo que nunca tenha funcionado nesta condição, que impedia a livre concorrência e consequente preços baixos para o combustível. Este discurso foi moda nos anos 90 durante o período de Fernando Henrique Cardoso.

No fim do ano passado, uma comissão de procuradores foi aos EUA e assinou com o Banco Mundial um acordo de cooperação nas investigações da Lava Jato. Este tipo de movimentação é comum? É possível dizer que o Banco Mundial tenha influência no andamento dos processos?

O Banco Mundial constitui instrumento poderoso para a implantação e manutenção das políticas neoliberais. Sua atuação contra a Petrobras é bastante conhecida. Um exemplo:

O processo de privatização da Petrobras nos anos 90 recebeu amplo apoio do órgão financeiro em questão. Diga-se de passagem o financiamento do gasoduto da Bolívia ao Brasil apresentava como condição primeira a presença dos oligopólios de sempre, naturalmente para beneficiarem-se da estrutura construída com o endividamento dos dois países sul-americanos.

Há diferenças significativas entre o regime de partilha e o de concessões? Em sua visão, qual é o mais vantajoso e por que?

Os dois entregam o petróleo. Os dois reduzem a Petrobras a condição de financiadora dos oligopólios de sempre e apresentam em sua base as formas para garantir a simples exportação de matéria prima.

Quando o governo adotou o modelo de partilha apresentou como a melhor forma do mundo associando este ao sucesso da exploração petrolífera da Noruega. Naquele país, afirmava o antigo colaborador da ditadura Edison Lobão, o Estado criou uma empresa para administrar os contratos e aplicava ou guardava os recursos para uso futuro em um fundo de ações.

Não foi bem assim. A Noruega, durante o auge da exploração no Mar do Norte, estatizou todo o processo e aplicou, sem destinar ao mercado de ações, os recursos diretamente e principalmente em políticas de bem-estar social.

Somente no início dos anos 2000, como forma de garantir o apoio da União Europeia a exploração do petróleo do Ártico, disputado inclusive com a Rússia, a Noruega aceitou compartilhar parcela da exploração nacional com empresas privadas.

O mais vantajoso para o Brasil é suspender o modelo atual e em questão o seguinte: Qual a vantagem de destinarmos trabalho e recursos financeiros para criarmos uma indústria de exportação de matéria prima?

Considerando que a cada dia se torna mais barato o uso de outras fontes de energia, você vê o petróleo perdendo seu valor estratégico? A soberania sobre as jazidas continuará sendo questão de alta relevância?

Sabemos todos da existência de fontes alternativas de energia, todavia a utilização destes recursos representam novos desafios. Um exemplo: A transformação de alimentos como o milho ou soja em matéria prima para combustíveis.

Temos ainda uma estrutura empresarial e industrial totalmente dependente do petróleo, que apesar do evidente declínio de áreas tradicionais para exploração ainda apresenta-se como forma mais viável, do ponto de vista econômico, como forma de energia.

Devemos ainda acrescentar que o petróleo é também matéria prima para parcela considerável das mais variadas formas de indústria. Temos petróleo em quase tudo atualmente.

Agora, precisamos entender que um país no estágio histórico e econômico como o Brasil deve pensar ou repensar sua matriz energética considerando novas ou alternativas fontes de energia. Contudo este fato não reduz a relevância do controle das áreas com potencial petrolífero.

Em relação as tensões internacionais. Em que regiões se espera um acirramento pelo controle das jazidas de petróleo e derivados? Que sinais desses conflitos já se manifestam?

Primeiro as regiões disputadas economicamente entre a China e Estados Unidos. Neste caso temos os países da Ásia Central. Existe ainda a tensão da China, principalmente, com o Japão relativa ao controle e acesso ao Mar do Sul da China, uma região com grande potencial petrolífero.

Nesta disputa pelo controle da Ásia Central temos ainda os interesses da Rússia cuja influência nesta região relativa a exploração petrolífera tem origem na era soviética, e devemos acrescentar nesta disputa o Irã um grande fornecedor da China que constitui limites com as áreas disputadas no centro asiático.

Os sinais destes conflitos manifestam-se, dentre outros, no processo de recriação ou rearmamento do exército japonês, na política de isolamento da Rússia, além dos acordos comerciais envolvendo os países do Pacifico.

Quanto a América Latina, verifica-se a clara oposição dos Estados Unidos aos países que apresentam resistências a assinatura dos famosos acordos comerciais com cláusulas de renúncia a soberania.

Que posição o Brasil deveria assumir, daqui pra frente, em relação a Petrobras e ao tabuleiro geopolítico internacional?

Não há outro caminho a não ser a retomada do projeto que criou a Petrobras. Defendo o retorno do monopólio da empresa desta vez apoiado na estatização do processo. A Petrobras empresa de capital mista revela-se fragilizada e neste ponto vou recorrer novamente à história:

O processo que resultou na criação de uma empresa mista detentora do monopólio não foi o desejo dos brasileiros durante a campanha do Petróleo é Nosso. A defesa de uma empresa estatal estava presente, inclusive, através do projeto dos empresários de Minas Gerais, elaborado a partir dos estudos do professor Washington Albino e intitulado Tese Mineira do Petróleo.

Neste projeto revelava-se com clareza a criação de uma empresa petrolífera estatal como elemento-chave para a garantia da autossuficiência energética e utilização do poder econômico decorrente desta exploração em beneficio do projeto nacional de desenvolvimento.

Diante dos problemas que hoje vivemos incluindo os fatos sobre corrupção, relações internacionais e crise econômica mundial devemos, no mínimo, criar condições para a discussão da questão do petróleo no Brasil.

A nova disputa pelo Pré-Sal

Por Mauro Santayana | Via AEPET

Os jornais voltam a anunciar que se discute, dentro e fora do governo, o fim da atuação da Petrobras como operadora exclusiva do pré-sal, com fatia mínima de 30%.

Alegam, entre outras coisas, seus adversários que seria inviável para a Petrobras continuar a explorar o petróleo do pré-sal com a baixa cotação atual do barril no mercado global, quando a produção oriunda dessa área cresceu 70% em março e se aproxima de 500 mil barris por dia.

Ora, se a Petrobras, que acaba de ganhar (pela terceira vez) o maior prêmio da indústria internacional de exploração de petróleo em águas marinhas, o OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations and Institutions, nos EUA, justamente pelo desenvolvimento de tecnologia própria para a extração do óleo do pré-sal em condições extremas de profundidade e pressão, estaria tendo prejuízo na exploração desse óleo, porque as empresas estrangeiras, a quem se quer entregar o negócio, conseguiriam ter lucro como operadoras, se não dispõem da mesma tecnologia?

Se a Petrobras explora petróleo até nos Estados Unidos, em campos como Cascade, Chinook e Hadrian South, onde acaba de descobrir reservas de 700 milhões de barris, em águas territoriais norte-americanas do Golfo do México, porque tem competência para fazer isso, qual é a lógica de abandonar a operação do pré-sal em seu próprio país, onde pode gerar mais empregos e renda com a contratação de serviços e produtos locais, e o petróleo é de melhor qualidade?

A falta de sustentação dessa tese não consegue ocultar seus principais objetivos. Se quer aproveitar uma “crise” da qual a empresa sairá em poucos meses (as ações com direito a voto já se valorizaram 60% desde janeiro; o balanço foi apresentado com enormes provisões para perdas por desvios de R$ 6 bilhões, que delatores “premiados”, cuja palavra foi considerada sagrada em outros casos, já negaram que tenham ocorrido; a produção e as vendas estão em franco crescimento) para fazer com que o país recue no regime de partilha de produção, de conteúdo nacional mínimo, e na presença de uma empresa nacional na operação de todos os poços, para promover a entrega da maior reserva de petróleo descoberta neste século para empresas ocidentais, como a Exxon, por exemplo, que acaba de perder, justamente para a Petrobras, o título de maior produtora de petróleo do mundo de capital aberto.

Como ocorreu na década de 1990, cria-se um clima de terror para promover a entrega de uma das últimas empresas sob controle nacional ao estrangeiro.

Enquanto isso não for possível, procura-se diminuir sua dimensão e importância, impedindo sua operação na exploração de reservas que são suas, por direito, situadas em uma área que ela descobriu, sozinha, graças ao desenvolvimento de tecnologia própria e inédita e à capacidade de realização da nossa gente.

ANP informa que produção de petróleo no pré-sal atinge 715 mil barris por dia

Por Vladimir Platonow | Via Agência Brasil

A produção de petróleo na camada de pré-sal chegou a 715 mil barris diários no mês de abril, divulgou hoje (1º) a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). No pré-sal, a produção foi originada de 49 poços, que também forneceram 27,1 milhões de metros cúbicos diários de gás natural.

O total de petróleo em todos os campos no país, no mesmo período, foi 2,394 milhões de barris diários. A produção de gás natural atingiu 94,3 milhões de metros cúbicos por dia. De acordo com a ANP, houve aumento de 11,6% na produção de petróleo nacional, comparada a abril de 2104, e crescimento de 13,9% na produção de gás natural na mesma base comparativa.

Os campos operados pela Petrobras foram responsáveis pela produção de 94,3% de petróleo e gás natural, dos quais 93,3% do petróleo e 76,5% do gás foram extraídos de campos marítimos. O campo de Roncador, na Bacia de Campos, foi o de maior produção de petróleo, com 344,8 mil barris por dia. O campo de Lula, na Bacia de Santos, foi o campeão de gás natural, com produção média diária de 14 milhões de metros cúbicos.

A produção nacional foi extraída de 313 concessões, operadas por 24 empresas. No total, são 9.064 poços, sendo 820 marítimos e 8.244 terrestres. As informações completas podem ser obtidas na página da ANP na internet (www.anp.gov.br).

Novo desvio de riqueza da Petrobrás

Por Paulo Metri

A novidade

Deparo-me com a notícia do jornal Folha de S. Paulo, de 26/5/2015, pertencente à mídia do capital: a Petrobras vai se desfazer de cinco áreas do Pré-Sal e uma do Pós-Sal. Sendo verdadeira a notícia, a Petrobras está claramente trabalhando com conceitos ultrapassados e, o que é pior, prejudiciais à nossa sociedade. A parcela da sociedade que conseguiu se desvencilhar dos canais tortos de informação, nossa mídia tradicional, sabe que o neoliberalismo leva à concentração de riqueza a quem já é rico, diminui a qualidade de vida da população e permite nossa exploração por forças externas, nos colocando como supridores de grãos e minérios para o mundo opulento.

Temos que reconhecer que estes grupos econômicos estrangeiros do petróleo nunca desistem. Levaram Getúlio ao suicídio, tentaram, junto a JK, financiar a construção de Brasília em troca do término do monopólio, conseguiram uma vitória parcial com os contratos de risco do Geisel, foram à vitória completa com FHC, sofreram um baque com os contratos de partilha de Lula e, agora, atuam na dubiedade do governo Dilma para, pelo menos, minimizarem o baque.

Certamente, gestores do nível intermediário da Petrobras, lá colocados por FHC e, até hoje, incrustados na administração da empresa, devem ter ajudado na elaboração da proposta kamikaze. Também, a presidente foi pegar um homem, dito como sendo do mercado, para ocupar a Petrobrás. A presidente deveria ouvir menos o mercado e, mais, o desenvolvimento. Senhora presidente, chame o Luiz Gonzaga Belluzzo ou o José Luís Fiori para conversar. Não dê ouvidos aos políticos que estiveram na oposição à candidata.

Ainda tenho dúvida sobre o presidente Bendine. Em benefício da dúvida, sugiro a este presidente que se conscientize que não há pressa para a exploração e o desenvolvimento dos campos do Pré-Sal. O país está abastecido por, no mínimo, 50 anos –, aliás, graças à Petrobrás. De passagem, saiba que, nos contratos da Agência Nacional do Petróleo (ANP), não há nenhum compromisso da empresa estrangeira para o abastecimento do Brasil, excetuando em caso de grave crise, declarada pela Presidência da República e, mesmo assim, só para elas contribuírem na proporção das suas produções com o abastecimento dos próximos 30 dias. Enfim, elas só querem levar o petróleo extraído do território nacional rapidamente para o exterior e têm esta permissão.

O fluxo de caixa futuro da Petrobrás, que lhe apresentam, reflete os compromissos por ela assumidos nos contratos com a ANP, reflexo do arremate de inúmeras áreas leiloadas, em atividade louvável da empresa, pois não permitiu as evasões de petróleo e lucro do país, além de ter, eventualmente, tolhido a formação de cartéis para o arremate de áreas das rodadas de leilões. Lembrar que cartéis podem ser formados e bem sucedidos, e só os membros deles é que ficarão sabendo das suas existências. A Petrobrás, à medida que não participa deles, se bem administrada, é um antídoto, à disposição do Estado, contra a formação deles.

Na notícia do jornal, é dito que a coordenação da venda será do Bank of America Merrill Lynch, que deve ser para trazer moralidade à venda. Esta informação, além de mostrar o “complexo de vira-lata”, não traz segurança. A Merrill Lynch foi uma distribuidora de títulos podres nos Estados Unidos e ajudou o doleiro Youssef a trazer dinheiro para o Brasil em 2008, de suas transações corruptas.

A ANP, para alguns prazos exigidos, está seguindo a lei 9.478 e, para outros, exige prazos criados por ela, que não estão na lei. Para estes últimos, basta o governo Dilma dar a ordem, em benefício da sociedade brasileira, de serem postergados. Não sei se estou sendo claro, senhor presidente da Petrobrás: não havendo tanta pressa, alguns prazos podendo ser postergados (deixar aqueles que representam receitas iminentes), o fluxo de caixa da empresa fica mais “achatado” (sem picos e em um nível menor), e ela não precisa fazer nenhum desinvestimento ou, pelo menos, aqueles que representam grandes perdas. Para os prazos que estão na lei 9.478, seria necessária a aprovação de outra lei, que os modificasse, o que é problemático, mas não impossível.

Alguém realmente acredita que seis áreas de petróleo com reservas já constatadas, com alguns campos gigantes, valem só quatro bilhões de dólares? Quanto vale a possibilidade de se garantir o abastecimento de derivados a vários países do Mercosul, a preços de mercado (não se trata de doação dos derivados), e, com isso, tê-los como aliados nas votações da OEA, da Unasul, do Mercosul, da ONU e das demais entidades internacionais?

Obviamente, sou contra os desinvestimentos de áreas com campos já descobertos. Com relação aos demais desinvestimentos citados, precisaria ter mais informações para formar opinião. Mas, no terreno das hipóteses, suponhamos que eles tenham de existir. Usar o expediente de carta convite e decisão intramuros, pouco transparente, é um escárnio com os brasileiros. Onde está a diretoria criada para garantir uma menor probabilidade de roubos na empresa?

Sei que não fere nenhuma lei usar o sistema de carta convite. Mas não se trata da busca da legalidade e, sim, da moralidade. Este sistema é imoral, porque cria a possibilidade de o cartel estar sendo formado até dentro da Petrobrás, criando a desconfiança na população de que se trata da velha fórmula de formação de caixa dois para os partidos políticos que estão no governo e de entrega de uns trocados para os agentes do governo responsáveis pela formação do conluio. Nunca pensei que fosse dizer isto, mas, comparativamente: “Viva os leilões da ANP!”. Pelo menos, lá não se usam cartas convite.

Histórico

O governo FHC, com visão neoliberal e subalterna aos interesses externos, extinguiu o monopólio estatal do petróleo e criou o sistema de concessões para a exploração e a produção de petróleo. Havia muito interesse do capital internacional neste petróleo. Este governo pregava que, sob o ponto de vista da nossa sociedade, a atuação das petrolíferas estrangeiras era idêntica à atuação da Petrobrás e o petróleo era só uma commodity como qualquer outra, sem valor estratégico, o que não é certo.

Este governo sabia de tudo, mas não queria conscientizar a sociedade sobre as suas perdas. De passagem, existe a possibilidade de as votações das mudanças legislativas do setor terem ocorrido com votos comprados. Existe a suspeição, nunca investigada, sobre a compra de votos para a reeleição, que é de época próxima. Por que não iriam comprar votos também em tema de vital importância como o do petróleo? O modelo das concessões é bom para as empresas e países estrangeiros, e péssimo para a sociedade brasileira.

Seguindo as regras da concessão, o concessionário, que descobre petróleo, fica com a totalidade dele e a quase totalidade do lucro que ele proporciona, pois só uma parcela pequena do lucro é entregue ao país espoliado sob as rubricas de royalty e participação especial. Quando a Petrobras arrematava uma área, os brasileiros conscientes suspiravam aliviados, apesar de o Estado brasileiro continuar recebendo pouco, mas, pelo menos, o lucro extraordinário não iria se esvair para o exterior.

O capital internacional e governos estrangeiros precisavam ter segurança de que as regras iriam ser sempre aplicadas em seus benefícios e, para resolver isto, foi criada a ANP, cujos mandatários, através de acordo verbal, teriam de ser aprovados pelas forças estrangeiras. O “marido traído”, que nunca sabe de nada, nesta história, é o povo brasileiro. Porém, com a mídia existente, parte integrante do capital, não é difícil enganar o povo. Esta Agência, respaldada na lei das concessões, promoveu rodadas de leilões em profusão. O objetivo era esgotar a capacidade financeira da Petrobras, incluindo a sua capacidade de tomar empréstimos.

A lei nefasta também exigia de quem arrematasse áreas uma pressa na exploração e desenvolvimento de eventuais campos descobertos, que satisfazia unicamente as petrolíferas estrangeiras. Estas querem realizar o butim, rapidamente. Querem descobrir o petróleo, o que é facilitado na área do Pré-Sal, produzi-lo e levá-lo para seus países de origem, onde estão suas refinarias, deixando aqui duas miçangas: o royalty e a participação especial.

No período FHC, buscou-se preparar a empresa para a privatização. Os ideólogos da privatização contavam que, com a apologia ao mercado nos veículos de comunicação e a recriminação diuturna de tudo que é do Estado, ela seria aceita facilmente. Entretanto, bastou quererem mudar o nome da empresa, como parte do preparo para a privatização, e a sociedade se rebelou.

Contudo, estes ideólogos deixaram sequelas até hoje. Eles aumentaram muito o salário dos gestores de nível intermediário, podendo-se dizer que era a compra da cumplicidade, à medida que passaram a exigir deles o cumprimento de determinações prejudiciais à sociedade. Além disso, foram nomeados para estes cargos intermediários “técnicos com visão do mercado”, significando neoliberais. O mais interessante é que muitos deles, nomeados nesta época, ainda se encontram nos mesmos cargos.

Big Brother

Não tenho provas de que aconteceu da forma como descrevo, mas, além de não existirem provas em contrário, a versão imaginada explica muito do inexplicável. Os órgãos de inteligência dos Estados Unidos fazem levantamentos minuciosos em muitos países, principalmente naqueles com possibilidade de se tornarem, em curto espaço de tempo, em novos hegemones. Assim, eles souberam, há anos, sobre a corrupção que crescia na Petrobras. Quando ela começou, logo souberam e nada fizeram, porque não teriam nenhum ganho se entregassem a informação.

Souberam também com antecedência, antes da sociedade brasileira, sobre a potencialidade da área do Pré-Sal. No entanto, ninguém tinha a comprovação da existência do petróleo, o que só chegou em 2006, graças à Petrobras. Existia no Brasil, na época, um governo não hostil, mas também não capacho. O governo Lula, logo após a descoberta, declarou que iria fazer um novo marco regulatório para esta área, que prometia ser muito promissora, como, hoje, está comprovado.

Os Estados Unidos, no interesse de suas empresas e das demais de regiões do capitalismo vitorioso, fez pressão diplomática a favor da continuação do sistema de concessão na área do Pré-Sal. Entenda-se que a pressão diplomática deste país vem com o respaldo do maior poderio bélico do mundo. As petrolíferas estrangeiras, que seriam grandes beneficiárias da permanência das concessões no Pré-Sal, fizeram lobby pesado no Congresso Nacional.

Mesmo assim, em momento de grande afeição à nossa sociedade, o governo Lula forçou a aprovação do sistema de partilha no Pré-Sal, para desespero do governo dos Estados Unidos e das petrolíferas estrangeiras. Bem aplicado, este sistema significa mais petróleo e mais lucro para o Estado brasileiro e a Petrobras. Nele, existe um Fundo Social, cujos usos só poderão ter objetivos sociais.

Aliás, na lei 2.004 de 1953, faltou a criação deste Fundo, resultando em que, desde este ano até a criação do royalty, o lucro da atividade petrolífera ficava, praticamente todo, com a empresa petrolífera, nada indo diretamente para a sociedade. É claro que não foi dinheiro jogado fora, pois a grandiosidade e a importância da Petrobrás demonstram como foram bem aplicados aqueles recursos. Também, em 1953, não passava na maioria das cabeças do Brasil que nosso país, um dia, teria grandes reservas de petróleo.

Tomou posse a presidente Dilma e cresceu a esperança das forças estrangeiras para que fosse revisto o modelo do Pré-Sal – afinal de contas, 200 bilhões de barris não poderiam ficar amarrados ao modelo de partilha. A rentabilidade das empresas e a garantia de suprimento dos países são menores com a adoção deste modelo. Cooptaram até o ministro das Minas e Energia, que, após ter sido desmentido pela presidente, faria mais bonito se tivesse pedido para sair. Os prepostos do capital internacional no Congresso se atropelaram, apresentando projetos de lei pedindo o retorno das concessões para o Pré-Sal ou a mitigação dos efeitos negativos para as empresas (mas positivos para a sociedade) do contrato de partilha.

O serviço de inteligência externo concluiu que a melhor hora para entregar as informações sobre corrupção na Petrobras para algum grupo confiável que vai dar prosseguimento às apurações era a que ocorreu recentemente. O raciocínio foi o seguinte: as informações irão fragilizar a Petrobrás, expulsar empresas de engenharia nacionais das obras do Estado e acusar os governos Lula e Dilma. A Petrobras pode perder a condição de operadora única do Pré-Sal e deixar de participar de todos os consórcios desta área. As empresas de engenharia estrangeiras poderão finalmente entrar no Brasil. Diminui a chance de Lula voltar à presidência em 2018 e a presidente Dilma fará um governo espremido no canto do rinque.