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Marinha rebate matéria enviesada do Estadão sobre o PROSUB

Via Revista Operacional

Em relação às matérias do jornalista Fábio Fabrini publicadas em 8 de agosto, último, na página A8 da edição impressa do jornal “Estado de São Paulo”(clique aqui e veja a matéria), a Marinha do Brasil, além de reiterar que o TCU acompanha a execução do PROSUB, desde 2009, a pedido da própria Marinha, presta as seguintes informações adicionais:

A solicitação de esclarecimentos sobre um possível “excedente de preço” de que trata a matéria refere-se a um acórdão do Tribunal de Contas da União (TCU) datado de 8 de outubro de 2014, sobre o qual a Marinha submeteu suas considerações, em análise por aquele Tribunal. O artigo “TCU aponta sobrepreço em base naval” dá a entender, desde seu título, que o assunto é atual, fruto de supostas investigações em curso da qual a Marinha do Brasil não tenha conhecimento.

Além disso, conforme consta do referido Acórdão, o que está sendo tratado são indícios de possível “excedente de preço”, conforme já havia sido informado anteriormente. Cabe destacar que a inspeção do TCU, a qual deu origem ao Acórdão, foi realizada durante período de duas semanas, nos meses de março e abril de 2014, com acesso a todo o processo Contrato/Termo Aditivo, recebendo toda a documentação solicitada, sem nenhuma restrição.

Para assegurar a acurácia do controle de custos, a MB conta com o Instituto Brasileiro de Custo (IBEC) que auxilia na verificação dos critérios de medição e dos respectivos custos e com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), que apoia na verificação da quantidade e da qualidade dos serviços medidos na obra.

Ao contrário do que faz parecer na mesma matéria, o PROSUB não tinha o Vice-Almirante (Reformado) Othon Luiz Pinheiro da Silva como uma “espécie de supervisor”, estando o mesmo na reserva desde 1994. Destaca-se que o gerenciamento desse projeto naval de grande envergadura cabe à própria Marinha do Brasil.

Ressalta-se que muitas das informações apresentadas pela Marinha do Brasil em resposta ao jornalista, em 6 de agosto último, não foram utilizadas em sua íntegra, nem no jornal impresso, nem na matéria do sítio eletrônico divulgada pela Agência Estado em 7 de agosto, último e replicada por diversos órgãos da mídia, o que pode ter prejudicado a compreensão dos fatos pelos leitores. Portanto, reenviamos, abaixo, as respostas encaminhadas ao jornalista Fábio Fabrini, em 6 de agosto, último.

Com face nesta declaração o CCSM, por via de seu Diretor, responde a algumas perguntas pertinentes neste momento:

1) “O Tribunal de Contas da União (TCU) detectou sobrepreço de R$ 406 milhões nas obras. O que a Marinha, que está apresentando suas alegações em processo em curso na corte, tem a dizer a respeito?”

A Marinha do Brasil (MB) tem cumprido todas as orientações do TCU, que acompanha a execução do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) desde o início de 2009, por meio da realização de diversas auditorias.

O TCU, em acórdão datado de 8 de outubro de 2014, encaminhou demanda à MB, para que, por meio de oitiva, apresentasse o posicionamento em relação a um “possível excedente de preço” na execução das obras civis do programa. As informações solicitadas já foram submetidas e encontram-se em análise por aquele Tribunal, cumprindo-se a recomendação de se manter a salvaguarda das informações constantes do processo.

2) “Qual é o orçamento da obra?”

Esta pergunta está respondida na resposta 6.

3) “Quanto já foi pago, no total, e em especial à Construtora Norberto Odebrecht (CNO)?”

Em preços atuais, R$ 6.145.520.268,46.

4) “Qual foi a modalidade de contratação da CNO (dispensa de licitação, inexigibilidade de licitação) e a justificativa para a contratação nessa modalidade? Por que, afinal, não houve nenhum tipo de concorrência?”

Não houve processo licitatório, tendo em vista as características de sigilo de que, necessariamente, reveste-se a obra: tratam-se de plantas de instalações nucleares militares, envolvendo características que não podem ser objeto de divulgação pública. Em que pesem esses fatos, a lei no 8.666/93 foi cumprida, mediante termo de dispensa de licitação aprovado pela Advocacia Geral da União. O TCU acompanha todo o desenvolvimento do PROSUB desde o primeiro momento, a pedido da Marinha do Brasil.

5) “Por quais motivos a Odebrecht foi escolhida, e não outra empresa?”

A escolha da ODEBRECHT não coube à Marinha. Como as obras civis de construção do estaleiro e da base seriam realizadas no Brasil, somente uma empresa nacional poderia fazê-lo. Daí resultou a necessidade de a Direction dês Construtions Navales et Services Societé Anonyme (DCNS) se associar a uma empresa brasileira de grande porte que pudesse fazê-lo.

A seleção da Odebrecht como parceira na empreitada foi de livre escolha da DCNS, que, para tanto, empregou critérios próprios. Evidentemente, pesou nessa decisão o fato de a Odebrecht, nos anos 1980, ter construído a Base Naval de Mocanguê e ter participado, ainda, da construção das usinas nucleares de Angra dos Reis, além de ser reconhecida internacionalmente como capaz de executar obras civis e atividades industriais complexas.

6) “Houve um aditivo contratual que elevou o valor da obra em cifra bilionária. Qual foi a justificativa para esse aditivo e qual foi o valor exato dele?” 7) “Quem aprovou o aditivo?”

Dentre as cláusulas do contrato inicial, pode ser verificado que o preço do estaleiro e da base naval era estimado, bem como a razão para esse fato, como parte do Contrato Principal podemos citar algumas transcrições: “Preço Básico da Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM) e Estaleiros e Base Naval. (EBN).

Tendo em vista a natureza especialíssima e a complexidade inerente ao objeto, e ainda, considerando que a elaboração do Projeto Básico e do Projeto Executivo do Estaleiro Naval e da Base Naval dependem da consecução de certas obrigações das Partes, não é possível fixar, neste momento, o Preço Básico para a Construção e instalação do Estaleiro Naval, que somente poderá ser fixado após a elaboração do Projeto Básico e do Projeto Executivo do Estaleiro Naval e da Base Naval [...]”, “[...] O preço estimado, referido à descrição preliminar do Estaleiro Naval e da Base Naval (Anexo D ao Contrato Principal), é de R$ 4.997,998.215,00”.

Esse contrato para a construção do estaleiro e da base foi celebrado com preço estimado com base em 2008 e previsão de atualização monetária.
À época não havia como considerar o redimensionamento necessário para atender os impactos dos requisitos para área nuclear que sofreu alteração significativa no projeto inicial, com reposicionamento da “ilha nuclear”, por exigência de segurança nuclear e da transferência de Tecnologia.

Em razão do processo de transferência de tecnologia francesa não havia, também, na época todas as informações necessárias à elaboração de um projeto básico capaz de fornecer os elementos para formação do preço certo e ajustado, conforme aceito pelo TCU, com base em sua jurisprudência (Acórdão 479/2007 TCU Plenário).

Quanto ao valor não houve um termo aditivo de acréscimo, mas sim termos aditivos quanto à implementação das fases com seus projetos básicos, aprovados pela AGU. Em função desses aditivos, o custo do estaleiro e da base naval foi atualizado de R$ 4.997,998.215,00 para R$ 7.880.000,00, a preços de 2008.

7) “Qual foi a participação do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva na concepção e na execução da obra e do Prosub?”

Não houve a participação do Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva no processo de tomada de decisão da Marinha. Da mesma forma, o gerenciamento dos projetos navais, caso do PROSUB, é da inteira responsabilidade das autoridades navais às quais esses programas estejam afetos.

Em determinada ocasião, o Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva encaminhou à Marinha algumas sugestões relativas à estrutura de governança que, no seu entender, deveriam ser adotadas, mas a Marinha, então, já atendia a recomendações do TCU, para o aperfeiçoamento daquela estrutura.

8) “Qual foi a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na concepção e na execução da obra e do Prosub?”

O PROSUB é o resultado da decisão do Brasil em projetar e construir um Submarino com Propulsão Nuclear, pautada em diretriz estabelecida na Estratégia Nacional de Defesa (END), assinada, em 18 de dezembro de 2008, pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As tratativas do PROSUB foram efetuadas durante o governo do Presidente Lula. Em 23 de dezembro de 2008, foram assinados pelos Presidentes do Brasil e da França documentos de alto nível, estabelecendo uma parceria estratégica entre os dois países.

Atenciosamente,

FLÁVIO AUGUSTO VIANA ROCHA Contra-Almirante

Diretor do Centro de Comunicação Social da Marinha

Apesar dos detratores, a Petrobras teve um resultado operacional extraordinário

Por Paulo César Ribeiro Lima

A Petrobras teve um ótimo desempenho no 1º semestre de 2015. O lucro operacional da empresa foi de R$ 22,8 bilhões, 39% superior ao do 1º semestre do ano passado. O EBITDA (Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado foi de R$ 41,3 bilhões, um aumento de 35% em relação ao 1º semestre do ano anterior. Além disso, o fluxo de caixa livre foi positivo em R$ 4,5 bilhões ante R$ -15,8 bilhões no 1º semestre de 2014. A produção de petróleo e gás natural da Petrobras (Brasil e exterior) cresceu 9% em relação ao 1º semestre de 2014, atingindo a média de 2 milhões 784 mil barris de óleo equivalente.

Por que o lucro do 2º trimestre foi de apenas R$ 531 milhões? Porque a Petrobras decidiu reconhecer uma despesa tributária de IOF (R$ 3,1 bilhões) e juros sobre essa despesa tributária (R$ 1,3 bilhão). Teve, ainda, um impairment de ativos (R$ 1,3 bilhão) devido à postergação, retirada e alteração de escopo de projetos de acordo com as novas premissas do Plano de Negócios e Gestão 2015-2019. Essa despesa tributária está relacionada com pagamento de IOF sobre empréstimos entre ela e suas controladas no exterior. Coisa de muitos anos e que não vai se repetir. Como a Petrobras tinha tributos a compensar e carregava no balanço R$ 21,9 bilhões em prejuízo fiscal e base negativa de CSLL, aproveitou, então, a oportunidade para essa compensação, ou seja, de fato não foi pago nada.

Em suma, tirando esse “esqueleto” tributário e o impairment (que virou moda entre as empresas para pagar menos impostos e gerar caixa com o dinheiro que era para ser público), o lucro da Petrobras foi de R$ 0,531 + R$ 3,1 + R$ 1,3 + R$ 1,3 = R$ 6,2 bilhões no 2º semestre. Somado ao lucro de R$ 5,3 bilhões, o lucro, de fato, no 1º semestre foi de R$ 11,5 bilhões. Se não fosse a desvalorização cambial, esse resultado teria sido maior ainda.

O que me intriga é porque neste momento tão grave a Petrobras resolveu lançar esses “esqueletos de IOF”, diminuir seu lucro e passar para a sociedade que o desempenho da empresa não teria sido bom.

O que vale mesmo é o EBITDA de R$ 41,3 bilhões em apenas um semestre. Apenas para comparar, o EBITDA da Vale S.A. foi de R$ 11,5 bilhões no mesmo período.

O resultado da Petrobras foi extraordinário!

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Paulo César Ribeiro Lima é consultor legislativo da Câmara dos Deputados.

Mídia entreguista esconde a verdade: Petrobras tem lucro superior ao da BP, Chevron e Exxon no primeiro semestre

Por Alessandra Murteira (FUP) | Via Viomundo

Resultado da Petrobrás no primeiro semestre é superior ao da BP, Chevron e Exxon

A Petrobrás divulgou na noite desta quinta-feira, 06, os resultados operacionais e financeiros do segundo trimestre, registrando um lucro líquido de R$ 531 milhões e R$ 9,5 bilhões de lucro operacional. Levando em conta todo o primeiro semestre de 2015, a estatal alcançou um lucro líquido de R$ 5,8 bilhões e um lucro operacional de R$ 22,8 bilhões.

Apesar do lucro líquido da Petrobrás neste semestre ter sido 43% inferior ao do mesmo período de 2014, se comparado com outras grandes empresas petrolíferas, ainda assim, a estatal brasileira ficou à frente da britânica BP, cujo lucro despencou em 144%, e das norte-americanas Chevron e Exxon Mobil, que apresentaram redução de 69% e 49%, respectivamente.

A queda acentuada dos preços do barril de petróleo tem sido um dos principais fatores da grave crise que afeta a indústria mundial de petróleo. No caso da Petrobrás, soma-se a isso a variação cambial. No entanto, mesmo neste cenário de instabilidade, a estatal brasileira conseguiu elevar sua produção de petróleo e gás natural em 9%, chegando à marca de 2,784 milhões de barris por dia. Somente no pré-sal, a produção atingiu em junho o recorde de 747 mil barris por dia.

Integração é o grande trunfo da Petrobrás

Os resultados operacionais, que há décadas vêm impactando positivamente os números da Petrobrás, reforçam a importância de se preservar a companhia como uma empresa integrada de energia. Além de ter elevado a produção de petróleo e gás, a estatal manteve sua produção de derivados em cerca de 2 milhões de barris por dia, aumentou a geração de energia elétrica em 15% e continua sendo a líder do mercado nacional de distribuição de derivados, através da BR.

O fato da Petrobrás atuar em diferentes segmentos do setor energético foi fundamental para reduzir os efeitos perversos da crise que atinge a indústria de petróleo em todo o mundo e também para continuar cumprindo o seu papel de uma empresa comprometida com a soberania energética do país. A integração, portanto, é um grande trunfo não só para a empresa, mas, principalmente, para o povo brasileiro, cujas conquistas sociais estão diretamente relacionadas aos investimentos e empregos impulsionados pela estatal nos últimos anos.

Preservar a Petrobrás como uma empresa integrada de energia deve ser compromisso de todos os trabalhadores. A FUP e seus sindicatos continuarão na luta para barrar a venda de ativos e manter a estatal como operadora única do pré-sal.

O “caráter” das petrolíferas estrangeiras

Por Paulo Metri

Escrevi, recentemente, o artigo “Projeto de José Serra sobre o Pré-Sal precisa ser observado pela sociedade”, veiculado por este Correio da Cidadania. Nele, escrevi a seguinte frase: “Além de tudo isso, a questão é que, se a Petrobras não for a operadora única, muito do petróleo brasileiro e dos tributos a serem pagos ao país, com as destinações para saúde e educação, serão roubados. Não há modelo de aferição do petróleo produzido e do levantamento dos custos incorridos que sejam confiáveis, se não se tiver a Petrobras como operadora”.

Recebi uma crítica, porque eu estaria “pressupondo a existência de um roubo futuro sem ter a mínima prova de que ele irá acontecer”. O meu crítico não entende que eu não preciso esperar um roubo ocorrer para constatá-lo. Aliás, é interessante conseguir prevê-lo. Para isso, basta constatar que o modo de proceder estabelecido facilita o roubo acontecer e, também, é preciso conhecer o caráter daqueles a quem se entrega a responsabilidade de medir o volume produzido de petróleo e de levantar os custos de produção.

O artigo 17.1 do contrato de partilha do campo de Libra, que define a medição do volume de petróleo produzido no campo pelas empresas petrolíferas consorciadas e, provavelmente, será repetido nos futuros contratos de partilha, reza o seguinte: “A partir da data de início da Produção de cada Campo, os Consorciados deverão, periódica e regularmente, mensurar o volume e a qualidade do Petróleo e Gás Natural produzidos no Ponto de Medição. (…)”. Ou seja, os próprios consorciados serão os responsáveis pelo levantamento da produção do consórcio.

Ratificando o artigo citado acima, o inciso VI do artigo 2o da lei 12.351, define o “operador” de qualquer consórcio, formado para atuar nas áreas onde esta lei se aplica, que inclui o Pré-Sal, da seguinte forma: “a Petróleo Brasileiro S.A. (que é a operadora única destas áreas devido a esta mesma lei), responsável pela condução e execução, direta ou indireta, de todas as atividades de exploração, avaliação, desenvolvimento, produção e desativação das instalações de exploração e produção.” Nestas atividades, está incluída a referida medição do volume de petróleo produzido.

As petrolíferas de médio e pequeno porte não têm a mínima possibilidade de participar de consórcios do Pré-Sal e a Petrobrás é a única grande petrolífera brasileira. Assim, o projeto de lei 131 do senador José Serra, ao propor a retirada da Petrobras da condição de operadora única dos consórcios formados no Pré-Sal, está transferindo várias decisões a serem tomadas por estes consórcios para as novas operadoras, as grandes petrolíferas estrangeiras (Chevron, Exxon, Shell, BP, Total, CNPC, CNOOC e outras), inclusive a definição sobre os volumes produzidos pelos consórcios.

Então, restam as perguntas-chave: “Qual o ‘caráter’ destas empresas? Como elas têm atuado no mundo, já que começaram a atuar no Brasil só recentemente? Ou seja, o que se pode esperar delas?” O passado de cada uma é revelador do seu “caráter”. Para responder a estas perguntas, alguns fatos relacionados a elas, ocorridos no mundo, são listados, sem a pretensão de esgotar a lista de seus malfeitos.

1) Irã

Nos primeiros anos do século 20, os britânicos controlavam o petróleo do Irã através da empresa Anglo-Persian, que, depois, viria a se chamar British Petroleum (BP). Era sua a refinaria de Abadan, neste país, a maior do mundo então. Os tributos pagos ao Estado iraniano eram insignificantes, mas suficientes para satisfazer o monarca Mohammed Reza Shah Pahalavi e comprar o seu silêncio. A empresa era outro Estado dentro do Irã, onde a lei e o estilo de vida eram britânicos. Os habitantes locais eram considerados seres inferiores.

A BP recusou-se, em 1951, a melhorar os salários dos seus trabalhadores, resultando em uma greve, que paralisou a refinaria de Abadan. Comerciantes, a classe média, comunistas e líderes religiosos xiitas foram às ruas. O líder do movimento era o deputado nacionalista Mohammed Mossadegh. Sua reivindicação era a nacionalização do petróleo.

Pressionado pelo parlamento, o Shah nomeou Mossadegh como primeiro-ministro. No dia seguinte, 01/05/1951, ele conduziu a votação para a nacionalização do petróleo do Irã. O exército ocupou os campos petrolíferos, mas, como era a primeira nacionalização da região, foi mal planejada e os iranianos não tiveram capacidade para manter a produção. Três mil técnicos britânicos e suas famílias abandonaram o país. Além disso, a Marinha britânica bloqueou os portos e os países ocidentais declararam um bloqueio ao petróleo iraniano, ou seja, o Irã já não podia mais vender o seu petróleo.

Ainda assim, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill pediu ajuda aos norte-americanos, entrando em ação a CIA. Foram distribuídas somas inimagináveis de dólares para subornar deputados e altos oficiais do Exército. Houve um golpe militar. Cinco mil opositores ao golpe foram fuzilados, incluindo generais democratas, comunistas e nacionalistas. Mossadegh foi preso e condenado à morte, mas sua sentença foi posteriormente reduzida a exílio. Tendo organizado o golpe de Estado, os EUA reclamaram a sua recompensa, ou seja, a BP tinha que permitir a entrada das empresas norte-americanas. As empresas petrolíferas recuperaram o seu antigo poder. O Irã ficou submerso no medo e, por isso, durante vários anos, ninguém se atreveu a fazer nada.

2) Formação do cartel das Sete Irmãs

França e Grã Bretanha, após a primeira guerra mundial, através dos acordos Sykes-Picot, dividiram o Oriente Médio entre suas empresas, deixando as empresas estadunidenses de fora. Nesta época, os países, que eram sedes das petrolíferas, entravam na disputa pela posse do petróleo do Terceiro Mundo abertamente, apoiando suas empresas.

Pierre Terzian, diretor da Revista “Petrostratégie”, lembra que: “os contratos de concessão eram textos curtos de 15 ou 20 páginas, através dos quais os Estados cediam quase todo o seu território para a exploração petrolífera em condições prejudiciais para seus povos”.

Consta que, no dia 28/08/1928, no castelo de Achnacarry, na Escócia, a Royal Dutch Shell (atual Shell), a Standard Oil (atual Exxon) e a Anglo Persian Oil Company (atual BP) firmaram os princípios gerais de um Cartel do petróleo. Tudo teria de ser acordado e partilhado: zonas de produção, custos de transporte, preços de venda etc. Posteriormente, outras empresas uniram-se à conspiração destas petrolíferas. Assim, nasceu o cartel das Sete Irmãs, composto por Exxon, Shell, BP, Mobil, Texaco, Gulf e Chevron.

Com o passar do tempo, empresas nasceram, outras saíram do mercado e algumas se fundiram ou foram incorporadas, de forma que este número, hoje, não é mais sete e o grupo não tem, aparentemente, o domínio do mercado como tinha no passado, mas é verdade que elas atuam em cartel e não têm consideração para com as sociedades dos locais onde atuam. (Observação: neste trabalho, o cartel continuará sendo chamado de “cartel das Sete Irmãs”, apesar do número de irmãs poder ser diferente de sete.)

Michael Economides, editor “The Energy Tribune”, diz que: “As Sete Irmãs eram sete petrolíferas que, durante um período, dominaram a indústria mundial do petróleo. Nesta época, a indústria não significava apenas progresso e poder econômico, mas era também um instrumento de projeção do imperialismo norte-americano e europeu no Terceiro Mundo“.

Uma constante em quase todos os países em que este cartel atuava é que estas empresas exerciam influência sobre os governos locais. Elas buscavam corromper o poder estabelecido para poder usufruir do petróleo em boas condições, em detrimento da sociedade do país. Quando não conseguiam atuar desta forma, a CIA era chamada para desestabilizar os governantes do país.

Nos anos 60, as Sete Irmãs chegaram a ter 85% das reservas mundiais de petróleo. No entanto, após as nacionalizações destas reservas por países, principalmente os do Oriente Médio, ocorridas no final dos anos 60 e durante os anos 70, a OPEP passou a deter 70% das reservas mundiais, acarretando um baque para as Sete Irmãs. Nos anos 2000, elas controlavam somente 10% do petróleo do mundo.

Entretanto, continuaram a lucrar com os aumentos de preço do barril provocados pelos embargos da OPEP e com qualquer desestabilização política do mercado, como, por exemplo, com a guerra do Yom Kippur ou a invasão do Irã pelo Iraque.

Posteriormente, países do Oriente Médio são invadidos por tropas dos Estados Unidos e a sua Marinha garante a segurança das rotas marítimas dos petroleiros. Tudo em nome da sua segurança energética.

O governo George W. Bush se caracterizou pela atuação pouco dissimulada a favor das Sete Irmãs. O próprio pai do presidente, George Bush, fez fortuna no setor com direitos de exploração no Kuwait, depois da II guerra mundial. O vice-presidente de Bush filho, Dick Cheney, era presidente da Halliburton antes de se candidatar. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, tinha sido uma executiva da Chevron antes de assumir o cargo.

Com o aumento das produções fora da OPEP, como na Rússia, Noruega, Cáucaso e, recentemente, com a produção do gás e óleo de xisto nos EUA, esta organização perdeu muito da sua força.

As Sete Irmãs continuam insuflando saques ao petróleo alheio, como as recentes invasões do Iraque e da Líbia, pois, incontinente, passam a deter concessões nos países dominados. Em países com sistemas políticos estáveis, elas atuam, hoje, com ações camufladas e sofisticadas. Buscam a modificação da estrutura institucional de exploração do petróleo do país, alegando ser algo benéfico para a sociedade. Usam o controle da mídia, a pressão de agências internacionais para haver as mudanças na legislação, a espionagem de agências de inteligência e a captura de lideranças políticas do país explorado.

3) Arábia Saudita

Em 1936, ouvindo o conselho do controverso Harry St John Philby, um espião inglês, que se converteu ao Islã e teria traído seu próprio país, o rei Ibn Saud da Arábia Saudita vendeu aos norte-americanos os direitos petrolíferos do reino. Na mesma época, foi criado o reino da Arábia e, também, foi fundada a Aramco, um consórcio composto por Exxon, Chevron, Mobil e Texaco, todas elas petrolíferas norte-americanas.

Abastecer o mercado norte-americano sempre foi uma preocupação constante de todos os governantes deste país, não importando de que partido pertencessem. Isso explica porque o presidente Roosevelt, nos seus últimos meses de vida, já em estado de sofrimento, sentiu a necessidade de se reunir com o rei da Arábia Saudita, Abdelaziz Ibn Saud.

Assim, em 14/02/1945, quando retornava da Conferência de Yalta, mandou o navio da Marinha estadunidense USS Quincy, em que se encontrava, ancorar perto do Canal de Suez para se reunir com este rei. Não foi assinado acordo algum, mas foi reafirmado o acordo feito em 1936. Em troca do petróleo, o rei exigiu proteção para o seu país e muito dinheiro para si e os seus 3.000 príncipes, que lhe garantiam o poder.

A produção de petróleo da Arábia começou realmente em 1946, depois da reunião entre Roosevelt e Ibn Saud. Vinte mil norte-americanos foram, então, trazidos para o país. Os recursos petrolíferos do deserto se revelaram fabulosos e o acordo entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita muito profícuo para o primeiro.

Sheikh Ahmed Zaki Yamani, ex-ministro do petróleo Saudita entre 1962 e 1986, diz que: “a Arábia Saudita não tinha uma lei que permitisse controlar a Aramco. Ela tinha o poder de produzir o petróleo e exportá-lo ao preço que decidisse. O único poder que a Arábia Saudita tinha era o de estender as mãos para receber o dinheiro que a Aramco lhe dava. Essa era a relação que existia“.

4) Iraque

No início do século passado, as empresas petrolíferas, incluindo as dos EUA, chegaram a um acordo com relação à exploração do petróleo do Iraque. Este foi o primeiro acordo que incluiu suas empresas, mostrando o início da cooperação entre elas. Assim, a Iraq Petroleum Company (IPC) foi fundada, pelas petrolíferas BP, Shell, Exxon e Total, com iguais participações. A IPC foi transformada, anos depois, no período das nacionalizações, em empresa do Estado iraquiano, por Saddam Hussein.

A guerra entre Irã e Iraque, motivada principalmente pela posse do petróleo e por diferenças religiosas, durou dez anos. Nela, morreram um milhão de pessoas e muitas instalações petrolíferas foram destruídas. No entanto, apesar de terem existido interesses do cartel e questões religiosas envolvidos, existiram também fortes causas geopolíticas e estratégicas.

Para entender o passo seguinte da história do Iraque, é preciso migrar para a história do Kuwait, um emirado “sob a proteção” do Império Britânico. Em 1938, o petróleo fluiu no deserto deste emirado, vindo a transformá-lo em país rico em petróleo. Empresas norte-americanas e britânicas passaram a explorá-lo e tiveram muito lucro, ficando com a maior parte para elas e distribuindo, como de costume, uma parcela menor para o emir e seu séquito.

Após a guerra Irã e Iraque, este último, além de humilhado com a derrota, estava com dívidas de guerra a saldar. Neste momento, o Kuwait não obedeceu a sua cota de produção, a excedendo em 20%. De imediato, o preço do barril caiu, o que representava perdas cruciais para o Iraque. O Kuwait se manteve intransigente, não se importando com as dificuldades do seu vizinho, o que foi suficiente para o Iraque invadir o Kuwait.

Os EUA gostaram desta invasão, pois intervieram no conflito do lado do Kuwait e das petrolíferas estrangeiras na região e, em poucos dias, as forças iraquianas foram esmagadas. Mas, esta só foi a primeira derrota do Iraque para os norte-americanos.

Após o 11 de setembro, o Iraque foi declarado por George W. Bush como possuidor de armas de destruição em massa e integrante do “eixo do mal”. Este foi o pretexto para o segundo confronto entre os Estados Unidos e o Iraque. O motivo real para a invasão do Iraque era permitir o acesso das empresas norte-americanas ao petróleo iraquiano. Tanto que, logo depois do assassinato de Saddam Hussein e da aniquilação de qualquer resistência iraquiana, quando toda a infraestrutura petrolífera foi preservada, foram assinados, de imediato, contratos para os campos de West Qurna, Majnoon e Rumailah pelo governo local tutelado pelos EUA, com as empresas Exxon, Shell e BP. Assim, a segunda maior reserva petrolífera do mundo foi entregue para as Sete Irmãs.

5) Líbia

Finda a segunda guerra mundial, a Grã Bretanha e os Estados Unidos, por pressão de suas empresas petrolíferas, impuseram Idris Al-Senussi no trono da Líbia. Em 1955, jorrou petróleo das dunas da Líbia.

Segundo Choukri Ghanem, ex-ministro do Petróleo da Líbia: “Toda a indústria petrolífera líbia era uma indústria estadunidense. Foi a Exxon que descobriu o primeiro poço de petróleo aqui, a primeira empresa a produzi-lo e a exportá-lo. Em menos de três anos, a Líbia produziu mais de um milhão de barris por dia. Em menos de sete anos, a Líbia atingiu 3,5 milhões. Era um fenômeno“.

A Líbia recebia somente 12 centésimos de dólar por barril. Segundo o presidente Nixon, em 1968: “O regime do rei Idris é estável e seguro porque é corrupto. Verdadeiramente corrupto“. Os petroleiros carregados com petróleo da melhor qualidade podiam zarpar sem problemas em direção à costa norte-americana.

Em 1969, o coronel Muammar Kadafi, liderando um grupo de oficiais, através de um golpe militar, depõe o rei Idris e proclama a República Árabe Líbia. Em 1970, ele nacionaliza o petróleo líbio. Com a suspeita de estar financiando atos terroristas, a Líbia sofre um embargo comercial imposto pelos Estados Unidos, a partir de 1982.

Contudo, o mesmo Kadafi, em 2003, reconhece a participação de oficiais líbios em ações terroristas, paga dois bilhões de dólares como indenização às famílias das vítimas e, através de negociações, que incluem o retorno das petrolíferas estrangeiras à Líbia, consegue ter o embargo suspenso, em 2004.

No entanto, a abertura para as empresas estrangeiras não deve ter sido suficiente, pois é sabido que Kadafi foi deposto e assassinado. Hoje, vigora na Líbia a “paz americana”, que permite muito petróleo ser levado pelas Sete Irmãs.

6) Argélia

A França mandou duas das suas empresas, as antecessoras da Total e da Elf, procurarem petróleo no Saara argelino, pois, para a França, era importante conseguir descobertas onde o petróleo poderia ser pago em francos. Por fim, o petróleo foi descoberto na região, em uma Argélia ainda colônia francesa, em 1956. Mesmo após a independência das colônias francesas na África, elas continuaram na zona do franco, o que beneficiava as compras de petróleo.

Esta descoberta dificultou em parte a libertação da Argélia, pois a França não queria abrir mão do suprimento do “seu” petróleo. Em 1962, a Argélia conseguiu sua independência com soberania total sobre o Saara, mas teve que garantir o suprimento de petróleo para a França. Além disso, as firmas francesas continuavam no Saara argelino, ou seja, eram um enclave francês em pleno deserto. Como sempre, os lucros eram imensos, mas pouco ia para o governo local.

Em 1971, o presidente argelino Boumédienne nacionalizou o petróleo da Argélia, em total desacordo com o que desejava o governo francês. Este ato foi também um baque para as empresas Total e Elf, pois a Argélia era, para elas, a grande fonte de petróleo. A Total ainda aceitou a proposta argelina de continuar no país, produzindo petróleo com menor participação no lucro, enquanto a Elf o abandonou.

7) Gabão

Inicialmente, foi a Elf que atuou no Gabão, um protetorado da República Francesa. O petróleo foi descoberto nas regiões de Ozouri e Pointe Clairette, em 1956. A Elf influenciou fortemente a política local, tendo colocado o ditador Omar Bongo no poder.

Mas, em certo momento, a produção de petróleo do Gabão diminuiu e ocorreu um rumoroso julgamento de três executivos da Elf, que acabaram condenados à prisão. No caso, eles não só ajudaram a riqueza do país ser levada sem grande compensação para a sua população, a França, beneficiária de petróleo garantido e acessível, como também enriqueceram com parcela do roubo.

Com o escândalo, a Elf é incorporada pela Total, que continuou influenciando o governo. Bongo permaneceu no poder durante 40 anos, período em que a Elf e a Total dominaram o setor do petróleo, com prejuízo visível para o povo gabonês, que vivia com dificuldades. Não satisfeito, Bongo passou o poder para o seu filho, Bongo Filho, e a Total continuou com os acordos com o novo ditador, que a permitem dominar o setor do petróleo.

A Elf financiou diversos regimes e movimentos de guerrilha na África de influência francesa. Tratava-se de uma diplomacia pragmática, que consistia em garantir petróleo para o mercado francês e em trazer fortuna para alguns líderes locais com os subornos e para os executivos com seus desfalques. Pode-se dizer que a prática de uma petrolífera estrangeira na África e no Oriente Médio se resumia em um genocídio econômico das populações, perpetrado por elas e os líderes locais impostos por elas.

Nos dias atuais, apesar da posição consolidada da Total, os governantes locais sofrem o assédio das empresas chinesas, ávidas por petróleo.

É incrível o fato de que, quando os funcionários da Total entraram em greve, quem garantiu a segurança das instalações e a ordem foram unidades da Marinha francesa. Ou seja, uma força militar da França se movimenta, intimida, persuade e reprime manifestações dentro do Gabão, só porque a unidade industrial em questão, neste país, é francesa.

8) Nigéria

O que aconteceu na Nigéria foge à compreensão de qualquer ser provido de alguma humanidade. Dito de forma simplificada, em 1956, a Shell descobriu petróleo na Nigéria, quando este país ainda era um protetorado da coroa britânica. As reservas do país se mostraram grandiosas, tanto que, hoje, é o maior produtor da África subsaariana. Como ocorria em toda África, a população local pouco se beneficiava com a produção de petróleo do país. O maior beneficiário local era o ditador general Abacha.

O norte do país era povoado por mulçumanos, que dominavam o governo central, e as regiões leste, sudeste e sul pela etnia ibos, que são cristãos e animistas. Contudo, dois terços das reservas de petróleo encontram-se nas terras dos ibos, na região de Biafra. A Shell e a BP sempre estiveram ao lado dos mulçumanos e, no ano de 1967, a Elf, com apoio do governo francês, armou os ibos e buscou conseguir a independência de Biafra, com o intuito de o novo país assinar contratos de petróleo com ela.

Assim, ocorreu uma sangrenta guerra civil, na qual morreram mais de um milhão de pessoas. Além de tudo, com a guerra, escasseou a comida na região, acarretando mortandade também. Esta guerra pode ser resumida como o confronto de populações locais pelo direito de empresas estrangeiras explorarem o petróleo nigeriano, sem deixar quase nenhum usufruto para estas populações. Não é por outra razão que mais da metade da população da Nigéria busca sobreviver com menos de um dólar por dia.

Outro caso triste ocorrido na Nigéria é a história de Ken Saro-Wiwa, um ogoni, grupo étnico minoritário da Nigéria, formado de agricultores e pescadores que vivem no delta do Níger. Saro-Wiwa era escritor, poeta, ativista ambiental, liderava o Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni, uma campanha não violenta contra a degradação ambiental desta região provocado pelas petrolíferas, basicamente a Shell.

Ele acusou estas empresas de poluírem o meio ambiente e não repartirem seus fabulosos ganhos com as populações locais e denunciou o conluio entre a Shell e o governo corrupto do ditador. Assim, conseguiu mobilizar milhares de pessoas, obrigando a Shell, em determinado momento, a parar a produção. Contudo, acabou preso em 1994 a mando do regime militar. Em um processo judicial fraudulento, Saro-Wiwa foi condenado à morte e enforcado em 1995, junto com oito companheiros seus.

Em 2009, a empresa Shell, reconhecendo a sua implicação na morte do ativista e dos seus companheiros, pagou 15,5 milhões de dólares às famílias das vítimas, buscando minimizar os efeitos negativos deste caso para a sua imagem. Tratou-se de uma confissão de culpa.

9) Sudão

Quando o Sudão se tornou independente, em 1956, a elite árabe, que habitava a região norte, estabeleceu o poder em Cartum, nesta região, e a região sul, onde a maioria era composta de negros, que eram cristãos e animistas, foi politicamente menosprezada.

O petróleo do Sudão foi descoberto pela empresa Chevron no final dos anos 70. Depois, se constatou que 85% dos campos petrolíferos do Sudão localizavam-se na região sul, enquanto, na região norte, estava o único porto com possibilidade de escoá-lo. Com a perspectiva de posse dos benefícios que este petróleo traz, foi iniciada a segunda guerra civil do país, que durou 19 anos, consumiu 1,5 milhão de vidas e tem nas célebres Irmãs possíveis instigadoras.

O que aconteceu de diferente no caso do Sudão, além do confronto de duas etnias bem diferentes, foi o aparecimento de petrolíferas chinesas na competição. Estas petrolíferas atuaram de forma idêntica às petrolíferas privadas ocidentais, pois colocaram o Estado chinês para pressionar o governo de então do Sudão, comandado por Al Bashir.

Desta forma, o presidente da China, Hu Jintao, foi a Cartum em 2007 e negociou com Al Bashir a construção de uma barragem no Nilo, estradas e estádios, além do oleoduto de Heglig até Porto Sudão, em troca do fornecimento de 500.000 barris diários de petróleo para a China. Desta feita, as Sete Irmãs saíram perdendo.

Enquanto isto tudo ocorre, o Sudão do Sul vê seu petróleo sendo levado para a China com pouco usufruto para a região, fato que insuflou o nacionalismo da região, resultando, em 2010, no aparecimento do país Sudão do Sul, desmembrado do antigo Sudão. E a área remanescente continuou sendo chamada de Sudão (não existe o Sudão do Norte). Os dois países não estão inteiramente pacificados. Esta é uma excelente oportunidade para as Sete Irmãs buscarem reverter o que perderam na região.

10) Venezuela

O suprimento de petróleo venezuelano para os Estados Unidos data da década de 1920, época em que o ditador Juan Vicente Gómez deu acesso a este petróleo às petrolíferas norte-americanas. E, apesar de parecer incrível, durante um enorme período tal suprimento foi feito sem nenhum tributo à Venezuela, significando que não existiu, no período, um só benefício para a sociedade venezuelana por esta exportação. Em compensação, o ditador e seu clã recebiam generosos subornos. Tratava-se da inconcebível pilhagem de um país pelas Sete Irmãs.

Assim, a Venezuela tornou-se o segundo produtor mundial de petróleo, atrás somente dos Estados Unidos. Na década de 1970, começou o movimento que buscava nacionalizar o petróleo venezuelano. Em 1976, foi criada a estatal PDVSA para se contrapor às empresas estrangeiras.

Entretanto, esta situação só veio a reverter-se totalmente com a subida de Hugo Chávez ao poder, em 1999. Por isso, as Sete Irmãs e a CIA tudo fizeram para retirá-lo do poder ou dificultar a sua administração, inclusive com ações como greves e sabotagens na PDVSA.

Hugo Chávez colocou o petróleo venezuelano para trazer benefícios para a sociedade do país e este fato deve ter influenciado para ele se eleger presidente por três vezes.

Conclusão

Estas são as empresas que, se o projeto do senador José Serra for aprovado, irão operar as novas áreas arrematadas do Pré-Sal, com as incumbências, dadas por lei e contratos, de declarar, após medição própria, o volume de petróleo produzido, o valor da sua exportação para a própria matriz, os custos envolvidos e, consequentemente, os tributos a serem pagos ao Estado brasileiro. Pergunte a si mesmo: “se esta decisão fosse relacionada com meu patrimônio pessoal, eu confiaria nestas empresas?” Elas que ainda nem pediram desculpas aos povos do Oriente Médio, da África e da Venezuela.

Ainda resta a pergunta: “Não obstante toda esta argumentação, estes dados são do passado. O mundo mudou e não existem, pelo menos com a mesma intensidade, golpes de Estado, rebeliões, assassinatos de políticos para tomada do poder, ditadores etc. Então, como as Sete Irmãs podem agir, hoje?

Além de poderem trabalhar para que ocorra a ocupação militar de um país, elas podem:

1) comprar uma bancada de políticos para aprovar uma legislação que dissimula o roubo e o torna legal;

2) divulgar através da sua mídia corrupta informações mentirosas ou meias verdades;

3) acumpliciar lideranças da sociedade para complicarem o assunto e, assim, dificultarem o entendimento pelo cidadão comum;

4) trabalhar para aprovar a galope propostas prejudiciais à sociedade e ótimas para elas, para não dar tempo para a sociedade compreender e reagir.

Quem teve o mau caráter para agir como descrito, no passado, tem o exato caráter para agir, hoje, através deste novo modelo. Ou seja, o “modus operandi” para as Sete Irmãs continuarem obtendo grandes vantagens mudou, mas, tendo elas o mesmo caráter, que as consagrou, facilmente elas se adaptarão aos novos tempos. E as sociedades, como no passado, continuarão sendo as grandes prejudicadas.

Fonte: A maioria das informações e dados citados foi obtida da série de vídeos intitulados “O Segredo das Sete Irmãs: A Vergonhosa História do Petróleo”, produzido por Frédéric Tonolli e Arnaud Hamelin e que pode ser encontrada facilmente na internet.

Projeto de lei de Serra pode tirar até R$ 360 bilhões da educação

Por Caio Zinet | Via Centro de Referências em Educação Integral

A educação pode perder até R$ 360 bilhões nos próximos 15 anos, ou R$ 24 bilhões por ano, caso seja aprovado o projeto de lei do senador José Serra (PSDB-SP) que altera o regime de exploração dos recursos naturais do pré-sal. A estimativa é do assessor legislativo da Câmara dos Deputados, Paulo César Ribeiro de Lima.

A divisão dos recursos advindos da exploração do pré-sal funciona da seguinte forma: do total dos recursos arrecadados pelo consórcio operador, uma parte é destinada a cobrir o custo de operação; outros 15% são destinados para o pagamento de royalties.

O recurso que sobra, conhecido como excedente em óleo, é dividido entre as empresas do consórcio e a União, que é obrigada a destinar sua parte diretamente para o Fundo Social de onde os recursos serão destinados para áreas de saúde e educação.

A proposta do senador José Serra não altera a destinação e nem os valores dos royalties, mas deve diminuir os recursos destinados ao Fundo Social. Isso porque seu projeto retira a obrigatoriedade da Petrobras ser a operadora em todos os campos do pré-sal. Qualquer outra empresa pode assumir essa função.

A questão é que a Petrobras é a companhia que possui a tecnologia mais avançada do mundo para explorar os recursos naturais do pré-sal, o que faz com que a empresa tenha um custo de produção muito menor que suas concorrentes.

Segundo o consultor legislativo da Câmara dos Deputados, Paulo César Ribeiro, como a Petrobras possui um custo de exploração muito menor que suas concorrentes, quando ela é a operadora do campo os recursos que sobram para a União são expressivamente maiores do que se o operador fosse uma empresa estrangeira.

Dessa forma, com a estatal brasileira operando os campos, o volume de recursos destinados para educação e saúde são bem maiores do que se outra empresa comandasse a exploração da camada.

“Estimo que o custo da Petrobras, em razão da infraestrutura e do conhecimento tecnológico do pré-sal, seja, no mínimo, R$ 20 por barril, [preço] mais baixo que o de qualquer outra operadora. Essa diferença de custo reduz o excedente em óleo da União, que é a principal fonte futura de recursos para o Fundo Social. Como 50% dos recursos desse fundo são destinados às áreas de educação e saúde, grande será a perda de recursos para essas áreas, caso a Petrobras não seja a operadora”.

“É difícil calcular o valor exato de quanto a educação pode perder porque depende do preço do petróleo, do dólar e do ritmo de produção. Mas mantidas as projeções iniciais, o Fundo Social pode perder até R$ 480 bilhões (R$ 360 bilhões para educação e R$ 120 bilhões para saúde) caso a Petrobras deixe de ser operar nos campos do pré-sal”, conclui o assessor legislativo.

Para se ter uma noção da magnitude da perda, o orçamento para 2015 (sem os cortes previstos no ajuste fiscal) do Ministério da Educação (MEC) é de R$ 103 bilhões. Ou seja, a perda de R$ 24 bilhões por ano representaria, hoje, 23,3% do total do orçamento da educação brasileira.

O único campo do pré-sal leiloado até o momento pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) foi o de Libra. Paulo César estima que se esse leilão fosse feito sobre as regras estipuladas pelo senador José Serra, as perdas do Fundo Social poderiam ser da ordem de R$ 100 bilhões, somente para esse campo.

“Se a empresa (Petrobras) não fosse operadora na área de Libra, a perda do Fundo Social seria da ordem de R$ 100 bilhões”, afirmou Paulo César.

O coordenador-geral da Campanha Nacional Pelo Direito à EducaçãoDaniel Cara, questiona o momento em que a lei foi apresentada. Para ele, a lei vigente foi aprovada há pouco tempo e não existe sentido em alterar uma legislação tão jovem e cujos reflexos ainda não foram sentidos.

“Acabamos de construir um marco legal de divisão dos recursos do pré-sal e não entendo porque mexer nisso agora. Ainda nem se estabeleceu direito e alguns legisladores já querem alterar o que foi aprovado em 2013.”, afirmou Daniel.

Educação básica

Para especialistas, caso o projeto de lei seja aprovado e os recursos deixem de ir para a educação, as metas do Plano Nacional de Educação (PNE) estão seriamente comprometidas, especialmente as que se referem à educação básica.

O professor em Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC)Salomão Ximenes, explica que os recursos destinados para essas áreas não têm vinculação obrigatória. Dessa forma, o MEC pode cortar esses investimentos.

“O que pode ser cortado são as despesas voluntárias, que representam 40% do orçamento total do MEC. O restante são despesas obrigatórias e os gastos são vinculados por força de lei”, explica.

Ele cita que despesas com a massa salarial de servidores e professores de instituições federais, por exemplo, são obrigatórias. Enquanto outras despesas como a destinação de recursos para construção de creches e escolas e o financiamento para compra de veículos para transporte escolar podem ser cortadas.

“As despesas não vinculadas são as mais importantes para efeito de ampliar e melhorar a educação básica no país. A minha preocupação é que os investimentos direcionados para essas áreas sejam cortados”, afirmou.

CAQi

Uma das previsões do PNE para ser implementada a partir de 2016 é o chamado Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi) que estima o investimento mínimo necessário por aluno para garantir a ampliação do número de vagas e para a melhoria da qualidade da educação básica no país.

A partir dessa estimativa de custo, o governo federal complementaria o orçamento de estados e municípios para garantir que as metas do PNE sejam cumpridas. Segundo Daniel Cara serão necessários R$ 37 bilhões por ano a mais para melhorar a qualidade da educação daqueles que já estão inseridos nas escolas e outros R$ 13 bilhões para os que ainda vão entrar no sistema escolar.

“Um possível corte nos recursos do Fundo Social reduz pela metade as chances do petróleo colaborar com a educação num sentido de garantir um padrão mínimo de qualidade para se ter uma educação digna”, afirmou.

Ajuste fiscal

Para Daniel Cara, o próprio ajuste fiscal que está sendo implementado pelo governo federal já dificulta a implementação de diversas metas do PNE. Ele cita como exemplo a meta 1 de universalizar o ensino infantil no país até 2016.

“Os cortes já estão inviabilizando a execução do PNE. A meta 1, de garantir a matrícula de todas as crianças de 4 a 5 anos na pré-escola, por exemplo está seriamente ameaçada”, afirmou.

Do total do orçamento de R$ 103 bilhões, aproximadamente R$ 9,2 bilhões foram cortados do ministério. Desse valor, R$ 3,4 bilhões seriam destinados para a construção de creches e quadras esportivas, segundo matéria do jornal Folha de S. Paulo.

O professor da UFABC também mostra preocupação com relação ao valor que será estabelecido para o CAQi num contexto de crise econômica e ajuste fiscal.

“Um ponto que está ameaçado é o Custo Aluno Qualidade (CAQi). O governo deveria repassar para os estados e o municípios um valor mínimo para garantir a expansão e qualidade do ensino. O CAQi deve ser definido até 2016, mas nesse contexto de cortes, existe uma tendência de subdimensionar seu valor”, afirmou Salomão.

“Definir num contexto de crise deve puxar para baixo. Além do risco imediato, existe essa perspectiva que afeta o planejamento de longo prazo. Nesse sentido é muito negativo a postura do governo que priorizou os cortes”, completa o docente.

A instável política brasileira: Qual é o jogo? Quem são os adversários?

Por Geniberto Paiva Campos | Brasília, agosto de 2015

1. Para quem acompanha pela chamada Grande Imprensa o desenrolar do jogo político brasileiro atual, independente da sua filiação ideológica, tem sérias dificuldades para compreender o que se passa.

Há uma sensação de um golpe político em marcha, provavelmente no novo modelo para a América Latina, recomendado pelo Departamento de Estado americano: pelas vias jurídica e legislativa, recentemente aplicado com êxito em Honduras e no Paraguai. Claro, com a cumplicidade explícita das forças políticas locais. E a indispensável participação da Mídia.

O modelo típico da Guerra Fria, com o emprego de violência extrema, com tropas armadas, prisões, exílio, tortura e assassinatos, estaria em desuso (temporário?) nos dias atuais. Os laboratórios do Hemisfério Norte voltados para o estudo das nuances do poder e da manutenção do status quo – definição de uso corrente na segunda metade do século 20, significando “deixar tudo como está” –  recomendam vias mais sutis de enfrentamento das forças democráticas da AL. Forças estas que teimam em fazer reformas sociais, buscam melhor distribuição de renda, mais igualdade econômica, garantia de direitos civis e trabalhistas, amplo acesso à educação, respeito às normas constitucionais. Enfim, o que os intelectuais progressistas denominam de Processo Civilizatório: menos intolerância; mais respeito à diversidade; defesa do meio ambiente; manutenção da segurança pública sem o apelo permanente à violência e afronta aos direitos humanos.

Seria este o pano de fundo da crise atual. Uma crise de origem política, com a decisiva atuação de políticos brasileiros. Carregando em seu contexto mais amplo, além de problemas socioeconômicos, questões geopolíticas impossíveis de serem escamoteadas por seus aparentemente ingênuos atores.

2. É possível a aplicação do novo modelo de intervenção em um país como o Brasil? Considerando a sua dimensão territorial, a sua população, o estágio de desenvolvimento alcançado e o peso da sua economia, seguramente entre as 10 maiores do mundo?

Na década de 70, uma correspondência oficial de Henry Kissinger para o presidente Nixon, relatando a possibilidade do Brasil retomar uma orientação governamental de “esquerda”, alertava que tal tendência não criaria uma nova Cuba na América, mas uma “NOVA CHINA”.

Tal avaliação, feita há cerca de meio século, dá uma ideia do peso e da importância do Brasil, não só em relação à AL. Também no contexto mundial.

Os intensos ataques desferidos contra a Petrobrás e, mais recentemente, contra a Eletronuclear – empresas fundamentais na elaboração e execução da política energética brasileira – evidenciam a importância estratégica dessas instituições. E o indisfarçado propósito de alienar a soberania nacional na área da Energia.

Estas ações se articulam a partir de um tripé formado pela Grande Imprensa, setores do Judiciário e do Congresso Nacional. E têm como justificativa a chamada “moralização” do Estado brasileiro, apontado como vítima inerte de interesses financeiros escusos.

CPIs no âmbito legislativo; prisões espetaculares de dirigentes empresariais, funcionários públicos graduados e de figuras políticas, costuradas por uma bem urdida repercussão midiática, criam no inconsciente coletivo do país, facilmente manipulável, a sensação de que “há algo de podre no Reino”. E de que é preciso ações duras, incontestáveis, não importa se ilegais e com total inobservância aos cânones constitucionais. Passam a ser assumidas como essenciais. Inevitáveis.

Um novo, monstruoso e distorcido, aparato legal vai sendo sutilmente construído. E este seria o preço a ser pago para salvar o país das garras da corrupção.

3. O que estaria acontecendo com a consciência democrática dos brasileiros?

Frente a uma canhestra articulação golpista, autoritária, que está dando início à implantação de uma Nova Ditadura, da qual só podemos ver o esboço inicial, mas que aponta para desdobramentos imprevisíveis, qual a resistência possível, no sentido de assegurar a continuidade da Democracia, da Legalidade, das Liberdades Individuais e da Independência da Nação brasileira?

Este é o desafio que se coloca para TODOS os brasileiros: pessoas, instituições, organizações e movimentos sociais, partidos políticos. Enfim, aquilo que era conhecido em outros duros tempos vividos pelo país, como “forças vivas da nação”.

Pelo desenrolar dos acontecimentos, sabemos agora qual o jogo e quem são os adversários. Temos o diagnóstico.

A ingenuidade diante dos fatos inquietantes da política e o silêncio cúmplice frente ao arbítrio não serão mais aceitos ou permitidos. O preço a pagar seria muito alto.

Um novo período de trevas colocaria o Brasil nos caminhos imprevisíveis do atraso e da barbárie. Cada vez mais distante do que hoje reconhecemos como Civilização.

4. O campo de luta é a Política. Eis a tarefa, para a qual estamos todos convocados: implantar os alicerces da Resistência Democrática. Um edifício em permanente construção.

A prisão de um herói nacional

Por Carlos Feu Alvim

O Vice Almirante e Engenheiro Othon Luis Pinheiro da Silva é o responsável pelas maiores conquistas históricas na área da tecnológica nuclear no Brasil. Deve-se a ele a concepção do programa do submarino nuclear brasileiro e a conquista da independência na tecnologia do ciclo de combustível que colocou o País em posição de vanguarda na área. Para realizar esta façanha em um espaço de uma década ele foi capaz de reunir o que melhor havia da inteligência, capacidade laboratorial e industrial no País.

Em uma época de transição entre o Regime Militar e a Democracia (Governos Figueiredo e Sarney principalmente) o Programa da Marinha, com a principal cooperação do IPEN e USP conseguiu transformar em realidade projetos do ciclo de combustível que de outra forma estariam restritos à fase laboratorial. Na parte mais crítica do ciclo, o enriquecimento, o programa partiu do zero e em poucos anos já podia apresentar resultados concretos.

Na área de reatores, foi construído o primeiro reator inteiramente concebido e construído no País. Esta montagem, de potência próxima a zero, serviu para testar conceitos e códigos para o projeto de um reator naval que foi concebido justamente com todos os equipamentos auxiliares cuja construção e teste foi colocada em marcha.

O programa, nascido no que se convencionou chamar de programa paralelo, tinha fins lícitos dentro dos compromissos internacionais firmados pelo Brasil e que se mantiverem lícitos dentro de todos os acordos posteriormente assinados pelo País.

O Programa passou pelo crivo de inúmeras avaliações no nível do Congresso Nacional, no do Executivo, e de uma Comissão Independente liderada pelo Prof. Israel Vargas. Todas atestaram a excelência técnica e a conveniência política do esforço realizado. Em duas delas participei diretamente da avaliação técnica e sou testemunha do respeito e admiração que o trabalho realizado mereceu.

O programa, como é natural, provocou inquietações externas da chamada “Comunidade Internacional” e, por acordo entre os Governos do Brasil e Argentina, todas atividades envolvendo materiais nucleares passaram a ser controladas para que suas finalidades fossem apenas pacíficas. Foi criada uma agência binacional, a ABACC da qual fui o primeiro secretário brasileiro. Logo em seguida, foi estabelecido um acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica da ONU que também passou a fiscalizar as atividades no Brasil e Argentina, inclusive o projeto da Marinha.

Mesmo assegurados os fins pacíficos do projeto, ele continuou a contar com objeções dos que querem limitar o acesso de outros países ao conhecimento nuclear. O novo Ministro da Marinha da época afastou o Vice Alte. Othon e abriu um ciclo de perseguições que incluiu averiguações contra o Alte. Othon sobre o uso das verbas secretas. Tudo foi rigorosamente revirado e, apesar do visível interesse do Comando, nada foi provado contra a direção do projeto. Paralelamente, foi posto em marcha um processo de redução do esforço no programa de submarino e de dispersão da equipe e das parcerias construídas com as instituições de pesquisa civis.

Afastado de suas atividades na Marinha, o engenheiro Othon tratou de aplicar os conhecimentos técnicos que ele reunira em novos projetos como o de uma revolucionária mini hidrelétrica e alguns de instrumentação e controle desenvolvidos em parceria com empresas estrangeiras e nacionais e com a participação de alguns dos brilhantes técnicos evadidos do programa da Marinha.

Agentes do Governo Americano sabiam do valor de seus conhecimentos e o interesse que eles despertavam em países onde temiam que houvesse proliferação nuclear. Fizeram chegar esta preocupação a autoridades brasileiras que trataram de eliminar restrições a sua participação em projetos governamentais. A preocupação era inútil como sabem o que conhecem o patriotismo de Alte Othon, mas acabou lhe rendendo alguns projetos interessantes.

Vencidas todas as objeções, absolutamente isento de culpa, o Engenheiro Othon acabou sendo indicado para fazer renascer o projeto de Angra 3 e nomeado Diretor Presidente da Eletronuclear. Paralelamente, teve importante participação na formulação da Estratégia e Política de Defesa, como assessor não remunerado do Ministério da Defesa. O submarino nuclear passou a ser oficialmente prioridade da Política Nacional e a Marinha encarregada de coordenar as atividades de defesa na área estratégica nuclear. O Protocolo Adicional ao acordo coma a AIEA, que estende os poderes de fiscalização da AIEA, ficou condicionado a uma efetiva demonstração, por parte das nações nuclearmente armadas, de cumprimento de sua parte no Tratado de Não Proliferação Nuclear – TNP.

A implantação de um programa nuclear independente no País é um feito técnico-científico heróico que encerra riscos pessoais consideráveis. Independentemente dos resultados das investigações, o que o Alte. Othon já fez pelo País merecia das autoridades judiciais e policiais um pouco mais de respeito e a preocupação de que ele possa estar sendo vítima de nova manobra cujo alvo principal seja o programa nuclear brasileiro.

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Carlos Feu Alvim é doutor em Física e primeiro Secretário brasileiro da ABACC – Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares.