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Diálogos Desenvolvimentistas: Homossexualidade, drogas e sociedade

As drogas e a homossexualidade são temas que sempre geram grande polêmica. Nossa sociedade convive diuturnamente com o preconceito contra os homossexuais e também com a dificuldade de compreensão de que o problema das drogas é de saúde pública e que definitivamente a atual política é falida.

Os associados Tania Faillace e Roberto Oliveira travaram um interessantíssimo debate sobre o assunto que reflete bem a polaridade atual sobre o tema, por isso, reproduzimos no blog.

Tania Faillace – O que o pessoal resiste a entender é que as drogas fazem parte do esquema de dominação mundial.

Roberto Oliveira – Não tenho dúvidas disso. Basta olhar para o “Século da Humilhação” na historiografia chinesa ou para o atual Afeganistão e suas papoulas.

Tania Faillace – Com a disseminação das drogas, completa-se a lavagem cerebral já encetada pelos meios de comunicação social e a própria escola. Drogas destroem a inteligência e causam dependência psíquica e física.

Drogas são fundamentais para manter em ação os grupos mercenários e até as tropas regulares na repressão ao povo e na comissão de atos bárbaros. Soldados que não usam drogas muitas vezes se recusam a cumprir determinadas ordens.

Roberto Oliveira – Sim, o Timor Leste tem uma história particularmente nefasta sobre a mistura de exércitos e drogas. O exército Indonésio (daquele mesmo país que impõe pena de morte para narcotraficantes) obrigava seus soldados tomar uma anfetamina fortíssima chamada “Speed”. Sob o efeito desta droga, os soldados cometeram os mais horríveis abusos como estupros em massa e esquartejamentos.

Tania Faillace – Então as drogas têm um papel fundamental na conquista do planeta habitado por 8 bilhões de pessoas que 1% delas querem controlar totalmente, até proibi-las de se reproduzirem.

Roberto Oliveira – Realmente espero que tenha visto os vídeos que enviei antes de me responder. Pois, nestes dois vídeos que enviei a esta lista, temos duas especialistas no assunto que pontuam muito bem que a relação da Humanidade com as “drogas” é antiga e que a política de repressão policial sobretudo sobre o usuário é uma política absolutamente falida. Parece me que você não assistiu os vídeos.

Tania Faillace – As pessoas são vulneráveis às drogas, tanto como consumidores – são forma de iludir as frustrações pessoais e sociais alimentando sentimentos de poder e desafio – como repassadores e distribuidores, porque esse “trabalho” é remunerado.

Roberto Oliveira – Não é preciso de “drogas” para fugir da realidade. A cachaça barata e as igrejas pentecostais estão em todas as esquinas.

Ademais, o que é a música e as artes? É como disse a especialista em um dos vídeos que enviei: o ser humano é um animal com consciência e naturalmente ele vai explorá-la.

Tania Faillace – Ao invés de se fazer reforma agrária e fundiária e permitir que as pessoas produzam seu próprio alimento e ainda abasteçam as outras através do mercado direto produtor-consumidor, como fazem os assentamentos de agricultores orgânicos oriundos do MST, usa-se essa mão de obra ociosa e despreparada (por falta de educação, de treinamento, de opções de sustento) para viciar os outros, ou fazer de segurança aos barões do crime.

Roberto Oliveira – Verdade. Concordo. E justamente para quebrar o poder dos barões do tráfico, é preciso que o Estado LEGALIZE, ou seja, imponha seu poder de império e regulamente este mercado, hoje, ilegal. E principalmente eduque as pessoas para esta realidade.

Tania Faillace – O combate às drogas como vem sendo feito na América Latina é teatro em benefício das mídias e seus leitores.

Roberto Oliveira – Tá. E o que você sugere? Mais porrada e repressão? A manutenção desta relação paternal do Estado?

Tania Faillace – É por isso que não rende. Porque, atrás dos policiais que arriscam suas vidas nos enfrentamentos, há cúpulas da segurança e das agências que renegociam as drogas apreendidas. Isso acontece no Brasil e no mundo. Assim como as armas apreendidas voltam às quadrilhas direta ou indiretamente.

Roberto Oliveira – Não tenho dúvida disto. E tem mais, tráfico internacional de drogas não é as “mulas” que carregam gramas de cocaína introduzidas em seus corpos em vôos internacionais. Tráfico Internacional de drogas é container abarrotado de cocaína descendo de navio ao meio dia no porto de São Francisco ou Amsterdan. Ou ainda, aviões militares norte-americanos e da Nato abarrotados de heroína pousando em alguma base militar européia. Não se abastece um mercado como o europeu e o norte-americano no conta-gotas.

Tania Faillace – Preste atenção no que está lendo, não pule às conclusões pois acaba entendendo o contrário do que foi dito. As drogas são instrumentos importantíssimos no domínio do mundo que conhecemos.

Roberto Oliveira – Acho que você quem não presta atenção no que lhe enviado. Se ao menos tivesse visto os vídeos que enviei, certamente não choveria neste molhado novamente. Você não precisa concordar comigo, mas ao menos compreender meu ponto de vista ao invés de me cobrir com seus preconceitos.

Tania Faillace – Estamos há muito tempo em cima do assunto. E sabemos que as consignas de liberdade para as drogas, que passa como consigna de libertarismo, de liberdade individual, na verdade fazem parte da propaganda do tráfico.

Roberto Oliveira – Faz parte da propaganda de modo geral. De cosméticos à automóveis. Nada de novo.

Tania Faillace – Assim como as consignas para o aborto livre visam garantir a matéria prima que necessitam os laboratórios farmacêuticos que produzem cosméticos contra o envelhecimento. Fetos e anexos fornecem as células jovens e embrionárias que a moderna cosmetologia utiliza. Os donos do mundo pretendem descobrir o gene da morte para destruí-lo e se tornarem eternos – pelo menos é essa promessa que lhes fazem os “cientistas” que os parasitam, a obrar em causa própria em instituições riquíssimas.

Roberto Oliveira – Arram… e por conta disto, vamos deixar milhares de mulheres pobres e desesperadas correrem risco de vida? O aborto tem que ser visto como uma questão de saúde pública. Moralismo mata.

Tania Faillace – Ao mesmo tempo, banaliza-se assim a maternidade, porque outro ponto crucial nesse processo de desumanização das culturas humanas é a destruição do núcleo e da colaboração familiar, onde se assenta a colaboração comunitária – remanescente da velha solidariedade tribal, que as sociedades modernas liquidaram.

Roberto Oliveira – Mais ou menos. Compreendo seu ponto de vista e concordo parcialmente. Acontece que já não estamos em uma sociedade tribal. A sociedade é outra (pro bem e pro mal) e embora alguns tenham saudade do “bom selvagem” a sociedade tem outros apelos que julgo legítimos. Ora, o próprio conceito de família tem se modificado e um núcleo familiar não necessariamente tem que ser constituído por um homem e uma mulher. Sou filho de pais divorciados e vejo que ambos tem uma relação muito saudável entre eles e com seus filhos. E conheço casais gays muito felizes e que cuidam muito bem de seus filhos de relacionamentos anteriores. Ora, porque estas pessoas não poderiam adotar crianças? Ademais, existem sociedades tribais onde rolam verdadeiros bacanais e a homossexualidade não é vista como tabu. Inclusive isto ocorre em etnias nativas brasileiras.

Outro dia, conversando com minha avó, uma senhora de 75 anos que veio do campo (interior de SP), ela me disse que uma coisa muito comum era a mulher morrer no parto ou das consequências do parto. Ela mesmo perdeu sua mãe aos 8 anos desta maneira. A mãe dela teve 7 filhos dos quais apenas 3 chegaram a idade adulta. Obviamente, a vida “comunitária” no campo tem suas dificuldades. Negar à mulher métodos anticoncepcionais ou a possibilidade de interromper uma gravidez indesejada, para mim é um crime.

Tania Faillace – Do mesmo modo, o casamento gay não tem outro objetivo que não seja esse: desmontar o núcleo natural das populações humanas, e impedir a reprodução natural.

Roberto Oliveira – Desculpe. Não concordo. Na minha opinião, existe sim risco sério nos atuais desenvolvimentos genéticos que se não forem vistos com atenção, podemos ter problemas terríveis. Mas, atribuir ao “casamento gay” o objetivo de “desmontar o núcleo natural das populações humanas, e impedir a reprodução natural” é um absurdo que como já te disse me lembra posições de Bolsonaro et “caserna”.

Tania Faillace – Se todos forem homossexuais (a heterossexualidade começa a ser perseguida – veja aquele cidadão processado por ter relações com sua própria esposa, que estava numa clínica), não nascerão mais crianças ao natural – terão que ser produzidas artificialmente, ao gosto do patronato.

Roberto Oliveira – Com o microfone: Bolsonaro. Nestas horas, lembro da frase “os extremos se encontram”.

Tania Faillace – Tudo isso está antecipado, como ficção, em The Brave New World, de Aldous Huxley, que pertencia a uma família de cientistas, onde a discussão de tais temas devia ser comum. Apenas na época ainda não existia a biotecnologia que tornaria tudo isso possível. E hoje ela já existe.

Roberto Oliveira – Já estamos no The Brave New World.

Tania Faillace – Não há homofobia no Brasil.

Roberto Oliveira – Não?

Jovem filho de casal gay é espancado até morrer em São Paulo

“Está escrito bem legível que foi agressão. Agora esperamos o laudo do Instituto Médico Legal para deixar mais claro. Bateram muito nele e causaram perfuração no pulmão, além de furarem uma veia da cabeça. Foi muito feio. Há colegas que disseram que ele foi agredido em um dos corredores da escola”.

Tania Faillace – Alguns de nossos homens mais importantes em política e economia são homossexuais ou bissexuais, e absolutamente não são discriminados, nem têm suas carreiras interrompidas por isso. Muito pelo contrário, porque são grupos sociais muito corporativos.

Roberto Oliveira – Sim, isto explica o sucesso do tratamento da AIDS/SIDA no país. Era “doença de rico”.

Tania Faillace – E a homossexualidade é fundamental também para impedir a integração do binômio masculino/feminino na sociedade humana – e cortar de vez com o sexismo. Homens têm medo de mulheres, e mulheres têm medo de homens – coisa que o genial Freud intuiu, mas as pessoas ainda se resistem a reconhecer.

Roberto Oliveira – Eu não tenho medo, não.

Tania Faillace – Há repressão quanto à prostituição, por conta dos escândalos públicos promovidos por pessoas cuja maior paixão é o exibicionismo (e portanto necessitariam de atenção terapêutica). Temos também que considerar que os prostitutos de sexo masculino são violentos e agressivos contra as prostitutas de sexo feminino para expulsá-las do meio e controlar monopolicamente o mercado do sexo.

Quem já trabalhou em reportagem policial conhece muitíssimo bem como essas coisas acontecem. E que fazem parte da corrupção inerente ao sistema capitalista como um todo.

Roberto Oliveira – Certamente. Mas neste ponto Zizek tem uma questão para nós:

Tania Faillace – Um sistema que não tem saída, pulando de uma crise estrutural a outra, e que para obter uma sobrevida, precisa do controle totalitário do Ecúmeno. E da redução da humanidade, para reduzir proporcionalmente o mercado, recomeçando em outros patamares, e já com o controle da reprodução humana pela manipulação genética.

Isso já é tecnologicamente possível. Mas exige a unipolaridade.

Os trabalhadores autênticos e suas famílias não apreciam exotismos culturais, são ainda humanos, o que não acontece com essas mentes dominantes da classe média e seus filhos, deterioradas pelos vícios e as impunidades.

Roberto Oliveira – Homossexualidade é “exotismo cultural”? Cuidado, Hitler não poderia dizer algo melhor.

Enfim, Tania… Você toma uma cervejinha de vez enquanto? Faz “uso recreativo” de vinho? No sul do Brasil é muito comum a prática de ingestão desta substância fermentada que embora lícita promove alterações de humor e consciência. Talvez a tolerância ao vinho se dê na medida em que Jesus era um apreciador da substância, inclusive Ele a multiplicava juntamente com o pão. E o pão daquela época provavelmente tinha propriedades alucinógenas (estude a origem do LSD e o pão “mágico”). Mas, não me surpreendo… Para falar de amor, de dar a outra face em superação da política de “olho por olho”, Jesus (o Histórico) certamente “saiu da caixinha” algumas vezes… Há quem diga que quando ele sumiu das narrativas bíblicas, na sua juventude, ele na realidade estava passeando com a turma do Haxixe. Enfim, só algumas considerações sobre o quanto ancestral é nossa relação com tais substâncias. Agora, essa política de repressão absurda e desumana é o dado novo… Veja:

67,7% dos presos por tráfico de maconha tinham menos de 100 gramas da droga

“Os amigos resolveram dar uma volta de moto, “sentir o vento no rosto”. Subitamente, uma viatura da Rota, grupo de elite da Polícia Militar, cruzou o caminho dos jovens – parte da média de 1,5 milhão de brasileiros que diariamente consomem a droga. Os militares encontraram um tablete de 23 gramas da erva com a dupla e, em poucas horas, os estudantes viram suas tranquilas vidas se transformarem em um inferno de quase meio ano por acusação de tráfico de drogas e associação ao tráfico.”

Desculpe, mas não posso crer que concorde com estes absurdos.

Retrospectiva 50 anos tenta exorcizar fantasmas da TV Globo através do “tautismo”

Por Wilson Roberto Vieira Ferreira | Via Cinegnose

Competentes jornalistas como Caco Barcelos e Ernesto Paglia colocados frente a frente numa mistura de “Roda Viva” da TV Cultura com o “Galeria dos Famosos” do Domingão do Faustão. E todos confrontados com suas imagens do passado (mais novos, mais magros e com mais cabelos) na expectativa de que depois a câmera em close arranque algum tipo de emoção dos experientes profissionais. A retrospectiva “Jornal Nacional – 50 Anos de Jornalismo”, projeto idealizado pelo apresentador William Bonner (ansioso e sempre meneando a cabeça na tentativa de exorcizar os fantasmas da história da TV Globo), mostra de forma didática em seus cinco episódios o que foi o início e o que será o fim da hegemonia da emissora: o modelo melodramático de jornalismo que ajudou a encobrir informações no auge da ditadura e o tautismo (tautologia + autismo) atual como manobra desesperada para sobreviver aos novos tempos de queda de audiência.

Quando fazia a faculdade de jornalismo lá pelo início da década de 1980, minha geração via na TV Globo uma referência negativa para qualquer estudante que iniciava a carreira. Brincávamos com o tique melodramático dos repórteres que buscavam muito mais os sentimentos do entrevistado do que depoimentos objetivos da realidade. “O que você está sentindo?…”, era a pergunta clichê feita para a vítima de uma enchente no Sul do País naquele momento, com água até a cintura, dirigida por um repórter da Globo em uma canoa, protegido por uma capa de chuva e o rosto consternado.

Esse traquejo em destacar a emoção no lugar da objetividade certamente foi a resultante de uma emissora de TV que cresceu em meio e através da ditadura militar nos anos 1970: numa mídia visual que mantinha uma relação tão simbiótica com o regime militar (o Jornal Nacional cresceu na esteira da estatal Embratel com torres repetidoras espetadas por todo o País com dinheiro público para a transmissão de sinal privado), o viés sentimentalista e melodramático era a estratégia de ao mesmo tempo mostrar e sonegar informações.

Pois a série retrospectiva do Jornal Nacional, dentro das comemorações dos 50 anos da emissora, não perdeu esse traquejo ao expor brilhantes jornalistas como Caco Barcelos, Ernesto Paglia e Sandra Passarinho a um programa com o mesmo espírito do quadro “Galeria dos Famosos” do Domingão do Faustão: vemos em todos os episódios a insistente confrontação das imagens de época dos jornalistas (mais jovens, mais magros e com mais cabelos), para depois cortar e enquadrar em close o jornalista na atualidade, como que tentando arrancar algum olhar marejado de lágrimas ou uma expressão qualquer de emoção- para assistir à série retrospectiva do JN.

Constrangimento e tautismo

O mote do projeto de William Bonner é mostrar a “emoção” e o “lado humano” dos profissionais que trazem as notícias para os telespectadores todas as noites. Mas tudo que conseguiu foi confirmar esse traquejo sentimentalista cultivado desde os tempos da ditadura e o tautismo (tautologia + autismo) atual da emissora.

O resultado foram olhares constrangidos, cabisbaixos e sorrisos amarelos dos experiente jornalistas globais a cada close. A exceção foi Caco Barcelos que, confrontado com a sua imagem de início de carreira e a apresentação com falsa intimidade de William Bonner (“Temos aqui Caco Barcelos, maaagrooo!), rebateu contextualizando sua foto: “e lá atrás uma manifestação, a periferia como sempre…”, fazendo contraponto à rasgação de seda metalinguística reinante.

Esse traquejo sentimentalista que anima o projeto idealizado por Bonner entra em contradição direta com a tentativa da emissora nas suas comemorações de 50 anos de tentar descolar as suas origens da ditadura militar – afinal, a insistência em apresentar a emoção no lugar da informação foi a principal estratégia da TV Globo para censurar informações ao descontextualizar a própria notícia.

A insistência de Bonner em querer demonstrar que a TV Globo foi vítima da censura criou situações involuntariamente engraçadas, como no momento em que Glória Maria relatou que dentro das redações da emissora havia uma lista de temas proibidos de serem abordados. Ansioso (demonstrado pela insistência com que meneia a cabeça a cada fala), Bonner rapidamente interveio: “lista criada pelos censores…”, certamente temendo a ambiguidade do depoimento da jornalista, um verdadeiro ato falho que apenas revela a própria autocensura que Roberto Marinho impôs dentro do espírito de apoio à “revolução de 1964” – de resto, confirmado pelo editorial do próprio no Jornal O Globo na “comemoração” dos 20 anos da “revolução”: “Temos sido fiéis aos seus objetivos…”, escreveu Marinho.

Também é sintomático o breve depoimento gravado de Armando Nogueira (1927-2010). Responsável pela implantação do telejornalismo da emissora e diretor por 25 anos, Nogueira parece ter se queimado desde o depoimento dado no documentário inglês Brasil: Muito Além do Cidadão Kane nos anos 1990 onde detonou a manipulação no Jornal nacional na edição do debate entre Collor e Lula em 1989.

Na retrospectiva, Bonner qualificou esse episódio como “erro” de um telejornalismo que ainda aprendia a “viver na democracia”. Mas, pelo que demonstrou a série idealizada por ele, a emissora ainda não aprendeu sua lição: o “espírito de 1964” ainda assombra um ex-estudante egresso da ECA/USP e que fez a sua sorte nos corredores da TV Globo.

A “revolução epistemológica” de William Bonner

Mas a série retrospectiva do Jornal Nacional também demonstrou o desespero tautista de uma emissora que vislumbra o seu próprio abismo: a chegada do Instituto de pesquisas alemão GfK que confrontará os números de sempre do Ibope e o crescimento das tecnologias de convergência (Internet e dispositivos móveis), ameaças reais a sua hegemonia.

Por isso, a retrospectiva do JN não se dirigiu aos telespectadores que acompanharam o crescimento da emissora – esses já sabem de todos os seus pecados. Bonner se voltou aos jovens, numa tentativa de recriar uma história da emissora mais leve e sem culpas.

Nessa tentativa desesperada, Bonner criou uma verdadeira revolução epistemológica tautista: a Globo não foi testemunha ocular da História – ao contrário, a História só quis criar notícias para que a TV Globo as transmitisse! E tudo acompanhado pela música grandiloquente que abre e fecha os episódios da retrospectiva.

Por algum destino manifesto, a História supostamente sempre permitiu aos repórteres da Globo exclusividade e pioneirismo. As imagens exclusivas da Globo do Projeto Apollo da NASA, a deferência como o técnico da Itália Enzo Bearzot tratou em toda Copa de 1982 o repórter Ernesto Paglia, a amizade exclusiva de Galvão Bueno com Airton Senna, a forma como praticamente a emissora salvou a cidade do Rio de Janeiro nas enchentes de 1966, a emissora que virou notícia de si mesma com o sequestro de William Waack por forças de segurança de Saddam Hussein na Guerra do Golfo etc.

A História cria notícias para a Globo transmiti-las com exclusividade

O mais sintomático foi a crônica do impeachment do presidente Nixon em 1974 escrita por Jorge Pontual que demonstra esse auto-centrismo da TV que vê a realidade a partir de seus próprios termos: “Captamos as imagens de Nixon como um ator antes de novela, como um político que fez sua carreira dominando a televisão e, às vezes, sendo vencido por ela.”. Mais uma vez a História permitiu exclusividade à Globo com as oportunas imagens de bastidores de Nixon antes de anunciar ao vivo pela TV sua renúncia.

Repetição e metalinguagem

Esse destino manifesto parece acompanhar a Globo desde o início nos anos 1960, como revela a platitude dita por Fátima Bernardes sobre as imagens de Rogério Gomes (o “Papinha”) no centro de controle da NASA em 1969: “Está tudo lá o que fazemos até hoje – próximo ao fato e apontando para quem está em casa o que ele está vendo”.

Somando a outra máxima bombástica, dessa vez dita por Glória Maria, de que “devemos acreditar em tudo” e que, por isso, “no Jornalismo não existem dúvidas, existem confirmações” (sabe-se lá o que quis dizer com esse raciocínio sinuoso…), a série de retrospectivas do JN comprova a atual tendência tautista da TV Globo como estratégia desesperada pela manutenção do monopólio midiático e publicitário – o exercício repetitivo de metalinguagem de uma emissora que insiste em demonstrar que supostamente cumpre algum tipo de vocação ou destino histórico e a percepção autista de que a História só se manifesta onde estão os repórteres e as câmeras da TV Globo.

Por isso, assistir aos cinco episódios dessa retrospectiva do JN tornou-se obrigatório para qualquer estudante de mídia: estão ali de forma didática o início e o fim da hegemonia da TV Globo – o sentimentalismo que ajudou a encobrir as informações no auge da ditadura e o tautismo como manobra desesperada em adiar o fim do seu “destino manifesto”.

Marco Civil da Internet busca consenso para regulamentação

Via Correio do Brasil

Os debates sobre Marco Civil e proteção de dados pessoais foram prorrogados até 5 de julho

Com um ano completado nesta semana, o Marco Civil da Internet aguarda regulamentação para detalhar, de forma mais precisa, pontos importantes e polêmicos da lei que também é chamada de Constituição da Internet. Apesar de a regulamentação não ter sido finalizada, sob a justificativa de se buscar um texto o mais consensual possível, de forma a facilitar sua tramitação no Legislativo, governo e provedores têm comemorado os benefícios do Marco Civil para aqueles que usufruem da grande rede.

– O governo tem uma avaliação muito positiva sobre esse primeiro ano do Marco Civil. Ao longo desse período vimos que a dimensão que projetamos durante os debates foi consolidada. Mais do que uma lei, o Marco Civil brasileiro é referência para o debate mundial sobre a relação entre população e internet, deixando claros direitos e garantias das pessoas e dando segurança jurídica às empresas do setor – disse à Agência Brasil o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Gabriel Sampaio.

A fim de se chegar a um texto final mais consensual para regulamentar o Marco Civil, e dessa forma ter menos resistência durante sua tramitação no Congresso Nacional, o governo tem buscado contribuições por meio do site do Ministério da Justiça. Ainda não há data prevista para conclusão do texto, mas, segundo Sampaio, a expectativa é que ocorra no segundo semestre deste ano. “Até dia 30 de abril vamos manter uma plataforma [de consulta pública, disponível no site do Ministério da Justiça] para receber contribuições para alguns dos eixos da regulamentação do Marco Civil. Em especial, para os que tratam da neutralidade da rede; da guarda de registros de aplicação e conexão; e da privacidade”, disse o secretário. O quarto eixo é mais genérico, abrangendo os “demais temas”.

Os debates sobre Marco Civil e proteção de dados pessoais foram prorrogados até 5 de julho, na busca por mais interações. Após o encerramento da fase de coleta de sugestões, terá início a etapa de sistematização das propostas. “Possivelmente faremos uma nova rodada de debates a partir de um texto base e, só depois, o texto será encaminhado à Presidência da República. Nossa expectativa é que isso seja feito no segundo semestre deste ano. Mas, se for da vontade da presidenta (Dilma Rousseff), poderemos antecipar isso, porque o trabalho já está bem avançado. Não há pressa, porque o que buscamos é o consenso”, explicou Sampaio.

A regulamentação tratará, entre outras coisas, das exceções previstas para o Marco Civil. Algumas delas voltadas à priorização de serviços de emergência, de utilidade pública, saúde e outras relativas aos requisitos técnicos a serem adotados para a prestação de serviços de internet. “Tudo será analisado, até para tecnicamente sabermos se há algum tipo de degradação ou discriminação de dados que possam prejudicar o usuário da rede”, acrescentou.

Um dos pontos mais polêmicos é o que trata da neutralidade da rede, item segundo o qual pacotes de dados têm a obrigação de serem tratados de forma isonômica, em termos de qualidade e velocidade, sem distinção de conteúdo, origem, destino ou serviço.

Representante dos provedores regionais de internet,  em geral, empresas que apesar de menor porte estão espalhadas por todo o país, principalmente nas localidades que não despertaram tanto interesse para os grandes do setor, a Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint) sempre foi favorável à neutralidade da rede. “Sem ela, as empresas de menor porte seriam muito prejudicadas. Muitas quebrariam, o que resultaria em monopólio no setor. Em outras palavras, impediria a evolução da própria internet”, explicou o presidente da entidade, Basilio Rodriguez Perez.

Segundo ele, “a internet é um ambiente em constante evolução, que permite o surgimento quase instantâneo de empreendimentos como Facebook e Youtube, que são bastante recentes. Outros, que nem eles, aparecerão. Sem neutralidade, no entanto, qualquer novo serviço que afete as empresas que já estão operando poderá ser prejudicado, evitando que a evolução se perpetue”, acrescentou.

Segundo a Abrint, grandes operadoras têm sido “criativas”, no sentido de desobedecer as regras de neutralidade, mesmo após a sanção do Marco Civil da Internet. “Algumas ofertas disfarçadamente mexem na neutralidade ao não contabilizar como tráfego de dados os acessos a algumas redes sociais. Isso fere a neutralidade, porque para deixar esse acesso liberado, eles bloqueiam as demais redes equivalentes”, disse.

– O que eles têm feito é prejudicar o restante, tirando do usuário o poder de decisão sobre o que ele pode ver. A pessoa acha que está sendo beneficiada, por ter facilidades para um determinado acesso. Mas, na verdade, está sendo prejudicada para os demais acessos – completou o presidente da Abrint.

Papa Francisco denuncia o machismo

Via Agência Lusa

O papa Francisco criticou hoje (22) “os excessos do machismo”, que qualifica a mulher como “segunda classe” e denunciou “a instrumentalização e a comercialização do corpo feminino na atual cultura midiática”.

Durante a audiência geral na Praça de São Pedro, o papa denunciou as “variadas formas de sedução enganosa e prepotência humilhante” exercidas sobre as mulheres, como “os excessos do machismo, que considera a mulher de segunda classe”.

“Pensemos também na instrumentalização e comercialização do corpo feminino na atual cultura midiática”, acrescentou. O papa lembrou que de acordo com a Igreja Católica, quando Deus criou Adão, este estava sozinho mas “quando lhe apresentou uma mulher, o homem reconheceu aquela criatura como parte dele – osso dos meus ossos, carne da minha carne. Há um reflexo, uma reciprocidade”.

Francisco acrescentou que “a mulher não é uma réplica do homem, mas foi criada diretamente por Deus”. A ideia de que Eva foi criada a partir da costela de Adão “não significa inferioridade ou subordinação, mas que homem e mulher são a mesma substância e são complementares, também têm essa reciprocidade”, disse o papa.

Ele afirmou que “Deus deposita no homem e na mulher uma confiança plena mas o mal coloca nos seus corações a sombra da suspeita e da desconfiança que leva à desobediência a Deus e a destruição da harmonia entre eles”.

“A relação vê-se assediada por mil formas de sedução enganosa, humilhação e até de violência”, acrescentou o papa. Essas situações aumentaram a desconfiança entre o homem e a mulher “e a dificuldade de uma aliança plena, capaz de uma relação íntima de comunhão e de respeito das diferenças”, explicou.

“Ao mesmo tempo, desvalorizou-se socialmente a aliança estável e criadora entre ambos, o que constitui uma grande perda para todos. É importante que se volte a valorizar o casamento e a família”, destacou Francisco.

Delírio e fome de um pequeno burguês

Por Vitor Reis

agora tudo parado
de que serviu o
escapamento?
eficaz apenas
a saída de fumaça

Vendo tudo
enquadrado
pela janela
do carro

o acidente
previsto em curso
era programado
é quem financia-dor
que agoniza
e é preso
nas ferragens
que se confunde
às engrenagens
em sobrevida

o homem novo
foi/é atualizado
robô que é
roubado

seu miocárdio que pulsa
terceirizado e tolera
o intolerável

não sente mais
insiste, existe,
imita e afinca
4330 ao projeto
de lei faminta

em bulimia coerciva
regurgita as migalhas
como estratégia oferecida
a massa que produz
o bolo contida

***

Vitor Reis é discente do curso de História da UFF.

Galeano: A aventura humana

Por Eduardo Galeano | Via Le Monde Diplomatique

Eduardo Galeano em Cuba. Foto de Daniel Pessah

Em seu livro Espejos, Eduardo Galeano descreve alguns momentos fundadores da saga da humanidade. E nos adverte de que o faz “do ponto de vista dos que não saíram na foto”. Os excertos selecionados pelo próprio autor o confirmam.

Os espelhos estão cheios de gente.

Os invisíveis nos vêem.

Os esquecidos nos lembram.

Quando nos vemos, os vemos.

Quando nos vamos, eles se vão?

 

Este livro foi escrito para que não partam.

Nestas páginas unem-se o passado

e o presente.

Renascem os mortos,

os anônimos têm nome:

os homens que ergueram os palácios e os templos de seus amos;

as mulheres, ignoradas por aqueles que ignoram o que temem;

o sul e o oriente do mundo, desprezados por aqueles que desprezam o que ignoram;

os muitos mundos que o mundo contém e esconde;

os pensadores e os que sentem;

os curiosos, condenados por perguntar, e os rebeldes e os perdedores e os lindos loucos que foram e são o sal da terra

 

Fundação da poluição

Os pigmeus, que têm corpo pequeno e memória grande, recordam os tempos de antes do tempo, quando a terra estava acima do céu.

Da terra caía sobre o céu uma chuva incessante de pó e de lixo, que sujava a casa dos deuses e lhes envenenava a comida.

Os deuses estavam, havia uma eternidade, suportando essa descarga sebosa, quando sua paciência acabou.

Enviaram um raio, que partiu a terra em dois. E através da terra aberta lançaram para o alto o sol, a lua e as estrelas, e por esse caminho subiram eles também. E lá em cima, distante de nós, a salvo de nós, os deuses fundaram seu novo reino.

Desde então, estamos embaixo.

Fundação da beleza

Estão ali, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.

Estas figuras, bisões, alces, ursos, cavalos, águias, mulheres, homens, não têm idade. Nasceram há milhares e milhares de anos, mas nascem de novo a cada vez que alguém as olha.

Como eles conseguiram, nossos remotos avós, pintar de maneira tão delicada? Como eles conseguiram, esses brutos que de mão limpa lutavam contra as feras, criar figuras tão cheias de graça? Como eles conseguiram desenhar essas linhas voadoras que escapam da rocha e se vão para o ar? Como eles conseguiram …?

Ou seriam elas?

Fundação da arte de te desenhar

Em algum leito do golfo de Corinto, uma mulher contempla, à luz do fogo, o perfil de seu amante adormecido.

Na parede, reflete-se a sombra.

O amante, que jaz ao seu lado, partirá. Ao amanhecer partirá para a guerra, partirá para a morte. E também a sombra, sua companheira de viagem, partirá com ele e com ele morrerá.

Ainda é noite. A mulher recolhe um tição entre as brasas e desenha, na parede, o contorno da sombra.

Esses traços não partirão.

Não a abraçarão e ela sabe disso. Mas não partirão.

Fundação literária do cão

Argos foi o nome de um gigante de cem olhos de uma cidade grega há quatro mil anos.

Também se chamava Argos o único que reconheceu Odisseu, quando chegou, disfarçado, a Ítaca.

Homero nos contou que Odisseu regressou, ao final de muita guerra e muito mar, e se aproximou de sua casa fazendo-se passar por um mendigo enfermiço e andrajoso.

Ninguém se deu conta de que ele era ele.

Ninguém, salvo um amigo que não sabia mais latir, nem podia caminhar, nem sequer se mover. Argos jazia, às portas de um galpão, abandonado, crivado pelos carrapatos, esperando a morte.

Quando viu, ou talvez farejou, que aquele mendigo se aproximava, levantou a cabeça e abanou o rabo.

Fundação do machismo

De uma dor de cabeça pode nascer uma deusa. Atena brotou da dolorida cabeça de seu pai, Zeus, que se abriu para lhe dá-la à luz. Ela foi parida sem mãe.

Tempos depois, seu voto foi decisivo no tribunal dos deuses, quando o Olimpo teve que pronunciar uma sentença difícil.

Para vingar seu pai, Electra e seu irmão Orestes haviam decepado, de uma machadada, o pescoço de sua mãe.

As Fúrias acusavam. Exigiam que os assassinos fossem apedrejados até a morte, porque a vida de uma rainha é sagrada e quem mata a mãe não tem perdão.

Apolo assumiu a defesa. Sustentou que os acusados eram filhos de mãe indigna e que a maternidade não tinha a menor importância. Uma mãe, afirmou Apolo, não é mais que o sulco inerte onde o homem planta sua semente.

Dos treze deuses do júri, seis votaram pela condenação e seis pela absolvição.

Atena decidia o desempate. Ela votou contra a mãe que não teve e deu vida eterna ao poder masculino em Atenas.

Fundação dos contos de fadas

No início do século dezoito, Daniel Defoe, o criador de Robinson Crusoé, escreveu alguns ensaios sobre temas de economia e comércio. Em um de seus trabalhos mais difundidos, Defoe exaltou a função do protecionismo estatal no desenvolvimento da indústria têxtil britânica: se não fosse pelos reis que tanto ajudaram o florescimento fabril com suas barreiras aduaneiras e seus impostos, a Inglaterra continuaria sendo uma fornecedora de lã crua para a indústria estrangeira. A partir do crescimento industrial da Inglaterra, Defoe podia imaginar o mundo do futuro como uma imensa colônia submetida a seus produtos.

Depois, à medida que o sonho de Defoe ia tornando-se realidade, a potência imperial foi proibindo, por asfixia ou a tiros de canhão, que outros países seguissem seu caminho.

– Quando chegou ao topo, chutou a escada – disse o economista alemão Friedrich List.

Então, a Inglaterra inventou a liberdade de comércio: em nossos dias, os países ricos continuam contando esse conto aos países pobres, nas noites de insônia.

Fundação da linguagem

Em 1870, ao final de uma guerra de cinco anos, o Paraguai foi aniquilado em nome da liberdade de comércio.

Nas ruínas do Paraguai, sobreviveu o primeiro: entre tanta morte, sobreviveu o nascimento.

Sobreviveu a língua original, a língua guarani, e com ela a certeza de que a palavra é sagrada.

A mais antiga das tradições conta que nesta terra cantou a cigarra carmim e cantou o gafanhoto verde e cantou a perdiz e então cantou o cedro: da alma do cedro ressoou o canto que na língua guarani chamou os primeiros paraguaios.

Eles não existiam. Nasceram da palavra que os nomeou.

Fundação de Hollywood

Cavalgam os mascarados, túnicas brancas, brancas cruzes, tochas ao alto: os negros, famintos de brancas donzelas, tremem diante destes cavaleiros vingadores da virtude das damas e da honra dos cavalheiros.

Em pleno auge dos linchamentos, o filme de D. W. Griffith, O nascimento de uma nação, eleva seu hino de louvor à Ku Klux Klan.

Esta é a primeira superprodução de Hollywood e o maior êxito de bilheteria de todos os anos do cinema mudo. É, também, o primeiro filme que estréia na Casa Branca. O presidente, Woodrow Wilson, o aplaude de pé. O aplaude, se aplaude: este defensor da liberdade é o autor dos principais textos que acompanham as épicas imagens.

As palavras do presidente explicam que a emancipação dos escravos foi uma verdadeira derrocada da Civilização no Sul, o Sul branco sob os calcanhares do Sul negro.

A partir de então, reina o caos, porque os negros são homens que ignoram os usos da autoridade, exceto suas insolências.

Mas o presidente acende a luz da esperança: por fim foi dada à luz uma grande Ku Klux Klan.

E até Jesus em pessoa desce do céu, no final do filme, para dar sua bênção.

Fundação do Faroeste

Os cenários dos filmes do Oeste, onde cada revólver disparava mais balas que uma metralhadora, eram aldeias miseráveis, onde o único som eram os bocejos e os bocejos duravam muito mais que as badernas.

Os cowboys, esses taciturnos cavalheiros, cavaleiros empertigados que atravessavam o universo resgatando donzelas, eram peões mortos de fome, sem nenhuma companhia feminina além das vacas que fustigavam, através do deserto, arriscando a vida em troca de um salário de fome. E não se pareciam nem um pouquinho com Gary Cooper, nem com John Wayne, nem com Alan Ladd, porque eram negros ou mexicanos ou brancos desdentados que nunca haviam passado pelas mãos de uma maquiadora.

E os índios, condenados a trabalhar como extras no papel de maus, perversos, nada tinham a ver com esses débeis mentais, emplumados, mal pintados, que não sabiam falar e uivavam em volta da diligência crivada de flechadas.

A saga do Faroeste foi a invenção de um punhado de empresários vindos da Europa Oriental. Estes imigrantes tinham bom olho para o negócio, Laemmle, Fox, Warner, Mayer, Zukor, que nos estúdios de Hollywood fabricaram o mito universal de maior sucesso do século vinte.

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Eduardo Hughes Galeano, falecido ontem (14/04/2015), é um dos mais prestigiados escritores latino-americanos da atualidade, Nascido em Montevidéu, Uruguai, em 1940, tornou-se mundialmente conhecido graças a seu livro As veias abertas da América Latina, publicado em 1971.

Morre, aos 74 anos, o escritor Eduardo Galeano, autor de ‘As Veias Abertas da América Latina’

Via Opera Mundi

Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu, e viveu exilado em dois países; autor morreu em decorrência de câncer.

Morreu nesta segunda-feira (13/04), aos 74 anos, o escritor, jornalista e ensaísta uruguaio Eduardo Galeano, autor do livro “As Veias Abertas da América Latina”. Ele estava internado em um hospital de Montevidéu e, segundo o jornal El País, do Uruguai, encontrava-se em estado grave já há vários dias, em decorrência de um câncer.

Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 na capital uruguaia.

O escritor foi redator chefe do semanário “Marcha” (1961-1964), diretor do jornal “Época” (1964-1966) e diretor de publicações da Universidade do Uruguai (1964-1973). Em 1973, exilou-se em Buenos Aires, onde fundou a revista “Crise”. Em 1976, continuou seu exílio em Barcelona (Espanha). Seu retorno ao Uruguai aconteceu em 1985, uma vez restaurada a democracia.

Galeano foi perseguido por várias ditaduras do Cone Sul, em países nos quais teve obras que chegaram a ser censuradas.

Eduardo Galeano morreu nesta segunda-feira, em Montevidéu

Além de publicar obras de alcance mundial como “Memórias de Fogo”, “O livro dos abraços” e “História da Ressureição dos Papagaios” e recebeu os prêmios José Maria Arguedas, outorgado pela Casa das Américas de Cuba, e o Stig Dagerman, um reconhecimento sueco aos escritores que se destacam por suas obras literárias.

Galeano era conhecido por suas críticas aos Estados Unidos e, em entrevista ao jornal El País espanhol, em 2010, chegou a defender o então presidente venezuelano Hugo Chávez, que, inclusive, presenteou o presidente norte-americano, Barack Obama, com um exemplar de “As Veias Abertas”.

No ano passado, o autor criticou a obra mais famosa. “Eu não seria capaz de ler de novo. Cairia desmaiado”, afirmou, durante o Salão do Livro de Brasília.  Segundo Galeano, ele não estava “treinado e preparado” o suficiente para redigir o livro.