Arquivos da categoria: Cultura

A ofensiva anti-trabalhista, a desigualdade e a hegemonia

Rennan Martins | Vila Velha, 21/05/2015

O que uma filósofa e um capitalista tem a nos dizer sobre o trabalho e o sistema financeiro? Hannah Arendt sabia que o poder econômico por si não conseguia manter a exploração do homem pelo homem, enquanto o industrial Henry Ford tinha consciência de que as regras do jogo eram feitas pra favorecer a oligarquia.

Em tempos de quase absoluta hegemonia do Capital, onde vemos os EUA erigir um verdadeiro Estado Policial de defesa da plutocracia, quando a União Europeia se põe a desmantelar direitos historicamente conquistados, ao mesmo tempo em que o Brasil abandona seu breve ciclo de inclusão social para novamente mergulhar na tese mercadista, discutindo até mesmo a “terceirização ampla, geral e irrestrita”, em que o mundo caminha para concentrar nas mãos do 1% mais de 50% de toda a riqueza, Hannah Arendt e sua obra As Origens do Totalitarismo tem muito a nos dizer.

Que leva os homens a tolerar tamanha desigualdade? O que torna possível o exacerbado aumento da concentração de riquezas, num patamar que ultrapassa qualquer nível de bom senso e demonstra ser patética a tese da meritocracia? Arendt nos esclarece o por que ainda existe o mínimo de ordem em meio a guerra declarada dos ricos contra os pobres.

O que faz com que os homens obedeçam ou tolerem o poder e, por outro lado, odeiem aqueles que dispõem da riqueza sem o poder é a ideia de que o poder tem uma determinada função e certa utilidade geral.

Ou seja, o que temos hoje é a lenda dos “criadores de emprego” da “confiança do investidor” e das vontades do Mercado, amplamente arraigada na população. Se os mais atentos já se deram conta de que o mercado financeiro e seus cartéis nada mais fazem que sugar o trabalho das massas, os que não tem tempo ou instrução suficiente creem piamente que a melhor maneira de ajudar quem está na base da pirâmide é não “importunando” os que em cima estão.

Mas quanto a própria classe dominante. Acreditam eles realmente que a economia, a produtividade e o trabalho depende da confiança com que levantam para investir, do rating atribuído pelas corruptíssimas agências de classificação de risco, ou da “flexibilidade” do mercado de trabalho de um país? O que a realidade nos mostra é que não, que estão bem conscientes de que as regras que lhes favorecem são artificiais. Vejamos o que dizia o industrial Henry Ford a respeito disso:

É bom que as pessoas da nação não entendam nosso sistema bancário e monetário, porque se souberem, acredito que uma revolução aconteceria amanhã mesmo.

Os detentores de privilégios cada dia mais representativos – e deixo bem claro que me refiro aqui a oligarquia, não aos empreendedores pequenos e médios, muito mais próximos dos trabalhadores em termos de recursos – sabem que a ordem socioeconômica é um contrato social que nada tem de inexorável, que é preciso que acreditemos que deles depende a criação de empregos e geração de riqueza.

Nesse ponto entra uma arma de crucial importância: a imprensa. A disseminação da ideologia, a disputa pela hegemonia, é ponto-chave quando falamos da luta de classes. Não é por acaso que o debate sobre a democratização dos meios de comunicação é interditado com violência pela mídia corporativa. Por meio desse jornalismo enviesado, que detém quase todos os espaços de comunicação, somos ensinados que a corrupção que importa é apenas a política, que os esquemas descobertos pela Operação Zelotes, com potencial desvio dez vezes maior que o da Lava Jato, não são dignos de nota. Dizem-nos que a sonegação, evasão e lavagem de dinheiro global do HSBC no caso Swissleaks não se trata de algo repugnante, chegando ao absurdo de alguns think thanks disseminarem a ideia de que esses crimes são “legítima defesa”.

Eis a razão e o motivo do Instituto Millenium estar aí a toda, do empresário Hélio Beltrão, do grupo Ultra, investir pesado no caricato Instituto Mises Brasil, ao mesmo tempo que adquire linhas de crédito no BNDES. A maioria desses figurões tem plena consciência que precisam convencer-nos que as injustiças perpetradas diuturnamente contra os trabalhadores são necessárias. Que, por exemplo, a irrisória economia feita do corte de direitos pelo “ajuste fiscal” trará o crescimento mais a frente. Ou que o rebaixamento de todo o mercado de trabalho a condição de terceirizado – onde a mão de obra é somente mais uma commoditie em negociação – na realidade nos beneficiará. A Fiesp investe absurdamente na campanha de terceirização por saber que a ideia precisa ter poder, de preferência sendo vista como inevitável.

Que fazer diante do fato do Rei estar nu e saber disso? A velha disputa política. Envolva-se num movimento, vá às ruas, converse com as pessoas, elas sentem que algo está errado, mas ainda não notaram o quê exatamente. Considere ainda, se dentro de suas possibilidades, apoiar financeiramente a imprensa alternativa e contra-hegemônica. Estamos num momento decisivo da história da humanidade, e o surgimento de uma sociedade relativamente mais igualitária e democrática só será viável por meio da construção coletiva e engajada de uma nova realidade.

Uma Frente popular pelo Brasil

Por Roberto Amaral | Via ramaral.org

Nossa crise exige das esquerdas brasileiras o patrocínio e a liderança de um imenso movimento de massa com o objetivo de enfrentar a ascensão conservadora.

Como se houvéssemos descoberto a pólvora, políticos, analistas, a academia – e as ruas – descobrem a existência, entre nós, de uma articulação conservadora de nítida atração pelo pensamento e pela ação de direita, em termos até então ignorados, ignorados desde os tristes idos de 1963/64. Como nada no mundo, esse fenômeno não é obra nem de Deus nem do diabo.

O avanço, igualmente orgânico e ideológico, da direita, decorre, fundamentalmente, da crise do pensamento e da ação de esquerda. Fenômeno comum à Europa ocidental, chega até nós com anos de atraso, desmentindo a ilusão de que a América Latina seria eternamente uma ilha (do ponto de vista político) progressista, contrastando com o avanço das forças conservadores no velho mundo. Lá, a crise da política em geral trouxe consigo a crise da socialdemocracia (que transitou para a direita) exatamente e estranhamente no momento em que o fracasso do neoliberalismo impõe a recessão econômica e seu filho dileto, o desemprego.

Já antes, ainda atingidos pelos escombros do Muro de Berlim (pesou a carga simbólica) ruíram os partidos comunistas, a começar pelo grande partido de massas que era o PCI de Gramsci e Togliatti. O fracasso dos comunistas e socialdemocratas abriu espaço para a emergência e avanço de figuras que transitam do burlesco ao trágico, como simbolizam Berlusconi, Sarkozy e Marie Le Pen, ao lado do conservadorismo de Cameron e Angela Merkel, cujas lideranças foram recentemente confirmadas nas urnas. Aqui o quadro é similar, com o Partido Comunista Brasileiro transformando-se em sua contrafação, o PPS, e o PSDB renunciando à socialdemocracia para transformar-se naquilo que o DEM não conseguira: ser o primeiro grande partido da direita brasileira. As eleições de 2014 já se realizaram sob esse signo.

A crise da esquerda brasileira, assim, não é nova, nem nasceu com a crise do PT de hoje, que apenas a agudizou. Após 40 anos de ascensão continuada e conquistas eleitorais (dentre as quais por quatro vezes seguidas conquistando a Presidência da República) o campo da esquerda (onde, evidentemente, nem todo mundo é de esquerda) se vê ameaçado de ceder posições. Depois de 1974, com a vitória eleitoral do MDB que começou a desestabilizar a ditadura, seguiram-se a luta pela Anistia, a campanha pelas Diretas-Já e, culminância, a derrota da ditadura no colégio eleitoral. Nesses momentos, forças progressistas, liderando setores liberais avançados, empurraram a direita para trás. Quando se inicia o quarto período de governo de centro-esquerda, a reversão desse processo é inquietante.

Antes, as esquerdas brasileiras, assim mesmo no plural, esquecidas do dever da reflexão, haviam seguido acriticamente o comando do PT, o partido hegemônico do campo, que, a partir de 2002, optara pelo pragmatismo eleitoral que levaria todos à vitória eleitoral. No governo, porém, essas forças, despreparadas do ponto de vista ideológico, cobrariam a abdicação de certos princípios programáticos, e as forças destinadas historicamente à renovação terminaram por adotar como suas as práticas conservadoras sempre rejeitadas pela esquerda. A crise de valores foi fatal e suas consequências são de domínio público.

A reflexão sem prática é inócua, dizem os ativistas (em férias), esquecidos de que a práxis sem reflexão leva ora à ‘doença infantil do esquerdismo’, ora ao voluntarismo, ora, como agora, à anomia. As esquerdas também erraram quando não se prepararam para exercer um governo de centro-esquerda em país capitalista, de formação autoritária, sabidamente conservador. E, por haver perdido o hábito da reflexão, não compreenderam a realidade na qual foram chamadas a atuar, braços dados com uma base parlamentar conservadora. E, desconhecendo a realidade, ficaram sem condições de estabelecer sua própria estratégia. Condenaram-se, assim, a ser governadas pelo adversário.

Despreparados estrategicamente, PT e seus aliados governaram segundo o modelo tradicional-conservador. Diante da emergência reacionária, os partidos estão hoje atônitos, sem resposta política, sem formulação, sem ação. Não falam e não agem, por não saberem o que dizer e o que fazer, após haverem, coletivamente, renunciado ao enfrentamento ideológico.

Cabe ao PT, após a autocrítica que ainda não fez, não só proceder à (auto)revisão (política, ideológica e orgânica), mas, fundamentalmente e de forma urgente, construir uma estratégia de ação, e construir um programa que fale ao Brasil de hoje. Mas esse ‘programa’ não pode ser um mero discurso: a sociedade aguarda atos e fatos. Trata-se de refundar-se, no que esta expressão encerra de mais radical. No caso das esquerdas, o imperativo é a revisão de nossos paradigmas, rever-se política e ideologicamente, rever-se do ponto de vista orgânico, rever a práxis. Voltar a pensar e formular. Precisamos voltar a falar com o povo, os trabalhadores e os estudantes. Ter discurso e atos audíveis e visíveis não apenas pelos nossos militantes. É preciso romper o casulo para o qual refluímos.

A análise da crise só se consolida se enseja uma alternativa

A forças populares, no Brasil e no mundo, têm a tradição dos movimentos de frente política, com fins eleitorais ou não. Foi uma frente popular, integrada por trabalhadores, estudantes, intelectuais e militares, que fez no Brasil a vitoriosa luta pelo ‘petróleo é nosso’. Foi uma frente democrática, unindo esquerda e liberais, que derrubou o ‘Estado Novo’. Foi a frente política de todos os adversários da ditadura que nos legou a redemocratização.

Nossa crise – da democracia representativa, do presidencialismo como tal e do presidencialismo de coalizão de forma específica, crise da democracia ameaçada, crise da institucionalidade em face das seguidas ameaças ao pronunciamento da soberania popular em 2014 – exige das esquerdas brasileiras o patrocínio e a liderança de um imenso movimento de massa com o objetivo de enfrentar a ascensão conservadora e promover reformas políticas profundas, que nossos governos não tiveram forças para sequer intentar, e por isso mesmo o Estado de hoje é o mesmo de 2002 e a coalizão de forças permanece adversa.

Essa grande mobilização exige a formação de uma Frente, não só de partidos, mas, nucleadas ou não por partidos, seja fundamentalmente um frente popular, nascida das organizações de massa da sociedade civil, e nacional porque uma vez mais se coloca como prioridade a defesa do país. Precisamos de uma frente nacional popular, na qual os partidos do campo da esquerda terão acolhimento, mas lado a lado do movimento social, dos sindicatos e dos trabalhadores e assalariados de um modo geral, do movimento estudantil, de políticos com ou sem vinculação partidária, de intelectuais e pensadores, de liberais e democratas progressistas, de todos aqueles que, enfim, entendam como chegada a hora de lutar: 1) pela democracia no seu significado mais amplo, nele entendida como peça destacada a democracia dos meios de comunicação; 2) pela defesa da soberania nacional como pilar de qualquer programa politico; 3) pelo fim de todas as desigualdades e discriminações; 4) pela defesa e aprofundamento dos direitos dos trabalhadores e assalariados de um modo geral; e, corolário, 4) lutar pela retomada do desenvolvimento com distribuição de renda.

Resta-nos a esperança de que se firmem reações, como o Podemos espanhol e o vitorioso Syriza grego, mas se impõe lutar firmemente para que seus influxos cheguem até nós.

***

Roberto Amaral é escritor, cientista politico, ex-ministro de Ciência e Tecnologia.

A virulência na rede digital

Por Luciano Martins Costa | Via Observatório da Imprensa

Se alguém é intolerante na vida social, tende a repetir esse comportamento quando acessa as redes digitais.

O cruzamento de algumas leituras do fim de semana e de segunda-feira (18/5) destaca algumas vozes que refletem certa preocupação com os níveis de hostilidade presentes nas relações sociais digitais.

O Estado de S. Paulo, citando a organização de defesa de direitos humanos Safernet, informa que em 2014 foram registradas 189,2 mil denúncias de crimes e abusos na rede, segundo levantamento feito com a participação do Ministério Público e da Polícia Federal. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o sociólogo Manuel Castells afirma que a internet está expressando um perfil naturalmente agressivo dos brasileiros.

Também pode-se colocar na mesma conta o episódio de que foi vítima o secretário municipal de Saúde de São Paulo e ex-ministro Alexandre Padilha, ocorrido na sexta-feira (15/5). Padilha almoçava com amigos de infância quando um cliente se levantou e, batendo com o garfo numa taça, pediu atenção aos presentes para avisar que ali estava o homem que havia criado o programa Mais Médicos cuja conta, segundo ele, cairia nas cabeças dos brasileiros. Padilha achou por bem não polemizar na ocasião, e depois usou as redes sociais para comentar o que chamou de “inaceitáveis instantes de intolerância”.

Pode-se encontrar algumas convergências e certa diversidade nas três citações da imprensa. A primeira, que se refere à preocupação de empresas e entidades civis com o aumento da agressividade nas redes sociais, aponta para um fenômeno mundial que tem sua versão brasileira associada a questões comuns como o preconceito de raça e de origem, o posicionamento político ou a preferência em termos futebolísticos. Especialistas citados na reportagem afirmam que tem havido uma redução da virulência, com outros sinais de amadurecimento do comportamento virtual.

Já Manuel Castells, que dos anos 2000 a 2006 esteve no topo das citações entre intelectuais que estudam a comunicação, com sua interpretação marxista da vida digital, faz uma projeção de teses que contrastam com a ideia equivocada do “brasileiro cordial”. A frase que a Folha escolheu para dar o título à sua entrevista reduz bastante o alcance de suas declarações: “A imagem mítica do brasileiro simpático existe só no samba”.

Mas a visão do sociólogo sobre o Brasil atual precisa ser discutida.

A fonte da intolerância

A rigor, o que Castells diz na entrevista é uma repetição de certa obviedade que vem afirmando em suas palestras: o fato de que as pessoas refletem na internet a educação que receberam ou desenvolveram. Se alguém é intolerante na vida social, tende a repetir esse comportamento quando acessa as redes digitais.

Ele acredita que a internet apenas amplifica os conflitos entre os brasileiros, que, na sua opinião, sempre foram agressivos: a internet funciona como um espelho, pondera. “A sociedade brasileira não é simpática – é uma sociedade que se mata”, afirmou, observando que a internet amplia os espaços para a expressão de sentimentos que já estão presentes na vida comum. Portanto, se nas relações virtuais “se articulam formas de violência, racismo, sexismo, é porque isso existe na sociedade”, acrescentou.

Mas Castells não acredita que a rivalidade política esteja mais intensa agora, no Brasil, do que foi antes. É nesse ponto que o sociólogo espanhol parece se distanciar da realidade brasileira: a observação diária autoriza a afirmar que o posicionamento partidário da mídia tradicional estimula radicalismos políticos no campo virtual, que se desdobram em outras formas de intolerância. O incidente que constrangeu o ex-ministro da Saúde é apenas uma das muitas manifestações diárias desse fenômeno, que mostra as classes médias urbanas expondo mais agressivamente seus preconceitos e sua visão de mundo reacionária.

Juntando-se aos dois textos o caso do ex-ministro, fica evidente que a sensação de liberdade do suposto anonimato – ou a possibilidade de uma ação incorpórea – nas redes digitais estimula a manifestação da intolerância que já existia nas camadas mais privilegiadas da sociedade brasileira. E, ao contrário do que diz Manuel Castells, essa rivalidade ideológica, estimulada e amplificada pela imprensa, oferece uma justificativa moral para o comportamento de pessoas como o cidadão que manifestou em voz alta, num restaurante, sua ignorância sobre o programa Mais Médicos.

Ao contrário da crença de Manuel Castells, o Brasil é um país conflagrado politicamente. Mas não se pode culpar a internet ou as redes sociais pela virulência que nasce nas redações.

Colunistas pitbulls e articulistas tendenciosos armam o palanque dos analfabetos políticos que esgrimem suas verdades por aí.

O ranking mundial da educação e a síndrome de vira-latas

O Brasil Econômico publicou ontem (14) uma matéria sobre o ranking mundial da educação da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O material informa que o Brasil ficou na posição 60 de 76 países avaliados, fazendo ainda comparações com os países mais bem avaliados.

Ocorre que a educação é outro tema em que o debate está obscurecido e muito do que se fez é ignorado, por isso, reproduzimos aqui o artigo em questão, seguido de uma análise crítica do economista e especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, Luis Felipe Giesteira, que nos traz algumas informações esclarecedoras.

***

O ranking mundial de educação e a síndrome de vira-latas

Por Luis Felipe Giesteira, especial para o Blog dos Desenvolvimentistas

O tema educação é o prato cheio para os mitólogos que alimentam a síndrome de vira-lata brasileira. A grande mídia, e seu áulico, a classe média narcisista, se refestela, porque o assunto cai como uma luva para exalar sua convicção de que o povo brasileiro não presta pra nada.

Infelizmente, contudo, uma parte da esquerda ecoa essa baboseira preconceituosa, amiúde imbuída de uma suposta causa progressista, que é pedir mais recursos para a educação (até porque a parte da classe média que não é bestificada vive nos arredores desse meio) – é o que conduz a declarações como “Por aqui, jamais se conferiu à Educação a prioridade que merece”. Basta lembrar que nos anos 80 nós gastávamos pouco mais da metade do que a OCDE gastava, e hoje nosso padrão – 6,7% do PIB – é altíssimo, bem acima da OCDE e quase o dobro da Coréia (que o pessoal que lê jornal gosta tanto de citar tsc, tsc). No mesmo período, nosso gasto com infraestrutura, por exemplo, é que caiu para níveis irrisórios.

Além disso, é sempre bom lembrar que:

- O exame base desse ranking é o PISA da OCDE, de forma que trata-se de uma amostra absolutamente enviesada dos países do mundo (o terço das nações do mundo mencionado), pois praticamente todos desenvolvidos estão presentes, mas apenas uns poucos não desenvolvidos (3/4 da humanidade). Ou seja, o Brasil está no final de um ranking com os que formam o topo. É mais ou menos como pegar um nadador amador joão braço rápido, botá-lo pra nadar com os que formaram a final da olimpíada passada e dizer que o joão é o pior nadador do mundo.

- Aliás, não é um detalhe observar que na verdade estamos á frente de outros que tem mais tradição educacional ou são mais ricos que nós como Argentina, Peru, Albânia, Arábia e África do Sul.

- Esse resultado seria melhor caso se comparasse alhos com alhos: os estudantes brasileiros ainda estão “fora do ano correto”. Vale dizer, muitos alunos de 15 anos estão ainda na 5a ou 6a série e foram cobrados por conteúdos correspondentes à 9a, pois o PISA faz exames por idade. Só isso alteraria a nota média em 15% (no PISA), a colocando apenas pouco abaixo da média geral.

- Outro fator que prejudica fundamentalmente nosso desempenho comparado é que o Brasil está em pleno processo de universalização, partindo de uma base social horrível. Alunos que fizeram PISA em 2012 (último ano) nasceram em um Brasil muito ruim para crianças, com mortalidade infantil altíssima, desnutrição boçal etc. Eles são uns 30% dos que fazem o exame.

- Isso na verdade resulta de uma grande virtude da “falta de prioridade à educação”: a elevação impressionante na escolaridade média – que saiu de 4,5 para 8,7 anos em apenas 23 anos! É a segunda taxa mais rápida do mundo (entre 167 países, aí sim, com todos subdesenvolvidos também), só atrás da Índia (que se recusa a fazer o PISA, por que será?). Repito: é a segunda que mais melhora do mundo, o mesmo salto levou quatro décadas em países hoje ricos.

- Com tudo isso, o desempenho brasileiro em pontos na nota geral é o terceiro que mais melhorou entre todos países avaliados pelo PISA e o primeiro em matemática. Essa é a avaliação isoladamente mais relevante a ser feita quando se trata de uma política pública: o indicador alvo melhorou? Na verdade, isso está dito no relatório de 2012. Mas parece que poucos jornalistas brasileiros se interessaram pela notícia, poucos leitores chegaram a ler essa parte e os que leram preferiram se ater no que bate com os mitos inferiorizantes que lhe martelaram na cabeça desde tenra idade.

***

Educação – Brasil está em 60º lugar no ranking de 76

Asiáticos lideram ranking global de educação da OCDE; os EUA aparecem apenas na 28ª posição entre 76 países, e o Brasil, bem mais abaixo, em 60º lugar.

Por Florência Costa

Países da Ásia estão no topo de um ranking global de educação em matemática e ciências divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com Cingapura em primeiro, Hong Kong (região administrativa da China) em segundo, Coreia do Sul em terceiro, e Japão e Taiwan empatados em quarto lugar. Em um dos mais completos rankings mundiais de qualidade de educação, a OCDE mostra a relação entre educação e crescimento econômico. A organização analisou 76 países ricos e pobres. Isso representa o total de um terço das nações do mundo. O Brasil figura em um distante 60º lugar, próximo das nações africanas. A última colocação coube à Gana, na África. Os asiáticos, que começaram a investir pesado em educação na década de 90, deixaram países industrializados ocidentais para trás, como o Reino Unido, que ficou na 20ª posição, a França (23º), a Itália (27º), e os EUA, maior economia do planeta, que amargou o 28º lugar, atrás de países mais pobres como o Vietnã, em uma impressionante 12ª colocação. O ranking foi estabelecido com base em resultados de testes de matemática e ciências aplicados nesses países.

Foram considerados os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), o TIMSS (dos EUA), e o TERCE, da América Latina. A China e a Índia não estão na lista porque se recusam a participar da aferição da OCDE. Entre os países dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) analisados, a Rússia está aparece melhor, em34ª posição. A África do Sul está pior do que o Brasil, em 76º lugar. Imediatamente à frente do Brasil estão a Geórgia (59º), o Líbano (58º) e Barein (57º). A OCDE calcula que o PIB do Brasil poderá crescer mais de sete vezes nas próximas décadas se o país oferecer educação básica universal de qualidade para todos os adolescentes de 15 anos, informou a BBC Brasil. “Políticas e práticas educativas deficientes deixam muitos países em um permanente estado de recessão econômica”, afirma o relatório da OCDE. Na América Latina, o país que se saiu melhor foi a Costa Rica, em 53º lugar, seguido do México, em54ª colocação, e do Uruguai, em 55ª posição. Mas a Argentina está atrás do Brasil, em 62º lugar. Outros países da região que estão na lanterninha do ranking são Colômbia (67º), Peru (71º) e Honduras (74º).

O primeiro país não asiático a aparecer na lista é a Finlândia, em sexto lugar, seguida da Estônia (7º), Suíça (8º), Holanda (9º), e Canadá (10º). O relatório da organização ressalta também o declínio da Suécia, em 35º lugar, imediatamente atrás da Rússia. A OCDE já havia advertido, em um relatório divulgado na semana passada, que o país nórdico sofre de uma série de problemas em seus sistema educacional. Segundo o diretor de educação da organização, Andreas Schleicher, a ideia é permitir aos países, ricos e pobres que comparem seu desempenho com as nações líderes em educação, “para descobrirem suas forças e fraquezas relativas, e para perceberam os ganhos econômicos de longo prazo que terão com a melhoria da educação”. O novo ranking é diferente do mais conhecido Pisa, também da OCDE, a referência internacional mais usada para avaliar a educação, e que até agora focava principalmente nos países industrializados mais ricos. “Esta é a primeira vez que temos verdadeiramente uma escala global sobre a qualidade da educação”, disse Schleicher. Se os cinco primeiro lugares estão na Ásia, os cinco piores resultados estão na África, América Latina e Oriente Médio.

O sucesso da Ásia na educação, diz Schleicher, se explica não somente pela prioridade dada pelos governos à educação, embora este seja o principal fator. Mas a cultura que valoriza o conhecimento e a obtenção do sucesso também tem forte influência. “Se você assistir uma aula em uma escola asiática, vai perceber que os professores esperam que cada um de seus alunos tenha sucesso. Há muito rigor, muito foco e coerência”, conta ele. Cingapura, a estrela do ranking, tinha altos índices de analfabetismo nos anos 60. A cidade – Estado, de 5,5 milhões de habitantes, já registrou altos níveis de analfabetismo na década de 60. Seu desempenho excelente é citado como um exemplo da evolução educacional em uma sociedade em um período de tempo relativamente curto. Ex-colônia britânica, o país asiático se tornou independente somente em 1965. Os resultados desta pesquisa serão formalmente apresentados no Fórum Mundial de Educação, que será realizado na Coreia do Sul, na próxima semana, quando as Nações Unidas vão encabeçar uma conferência sobre os alvos para a evolução da educação global até 2030.

Os leitores na fase do autismo informativo

Por Carlos Castilho | Via Observatório da Imprensa

O leitor está a cada dia mais distante do jornal e vice-versa. É uma relação que enfrenta a sua pior crise desde o surgimento da indústria dos jornais, há quase dois séculos. O sintoma mais evidente desta situação é o fato de que cada lado está se voltando cada vez mais para dentro de si próprio, dando origem a uma espécie de autismo informativo.

O distanciamento não é visível nas pesquisas de opinião porque elas são patrocinadas e organizadas por uma das partes envolvidas na relação. Mas se mostra claro nas conversas e atitudes das pessoas comuns, longe dos microfones e dos repórteres, quando fica nítida a diversidade de agendas e de preocupações.

Os leitores enfrentam dificuldades crescentes para entender o que está acontecendo porque não conseguem dar conta de toda a complexidade dos fatos e fenômenos que afetam o seu quotidiano. As pessoas leem uma coisa nos jornais e revistas ou assistem aos telejornais e, quando entram na internet, encontram informações bem diferentes. Sentem falta de alguém que explique tudo, e diante da ausência de curadores de informações acabam se refugiando no seu grupo de amigos, do trabalho ou do bairro.

Os jornais, revistas, telejornais ou noticiários radiofônicos por seu lado se transformaram em intermediários ou mensageiros entre os tomadores de decisões, como políticos, empresários, diplomatas e funcionários públicos. A cobertura da imprensa é cada vez mais uma conversa entre os diferentes grupos de pressão interessados no controle do governo e dos negócios com dinheiro publico.

Aqui também os fatos, eventos e processos são cada vez mais complexos pelo aumento da diversidade de percepções e dados sobre os temas da agenda dos tomadores de decisões. O resultado combinado do crescente divórcio entre público e imprensa é uma progressiva alienação de ambas as partes em relação à realidade. Os leitores deixam de se preocupar com o que ocorre em Brasília ou Washington porque não conseguem captar os significados de ações e decisões dos centros de poder. E a imprensa deixa de dar a devida atenção ao que ocorre no íntimo dos leitores, ouvintes e telespectadores porque está preocupada demais com a briga pelo poder.

A alienação da imprensa é perigosa porque ela começa a se enclausurar num mundo particular, achando que está cumprindo a sua missão de informar os cidadãos. O mundo dos círculos do poder em Brasília passa a orientar toda a agenda jornalística do país, onde a elite governante e as classes A e B perdem a noção do que ocorre fora da capital federal, especialmente nas cidades do interior. O resultado é a projeção de uma imagem incompleta e enviesada da realidade nacional.

A dinâmica industrial da produção jornalística nas empresas de comunicação cria as condições necessárias para este autismo profissional. As redações deixam de ver a realidade como ela é para representá-lo conforme os interesses corporativos e de acordo com a ideologia predominante nos círculos do poder. Isto aconteceu tanto na fase áurea do petismo, quando a imprensa olhou para o outro lado em relação aos erros dos governos entre 2002 e 2010, como agora, quando a ela passou a demonizar a administração Dilma Rousseff.

Inseguro e indeciso diante do bombardeio de versões contraditórias entre o que lê na imprensa ou assiste nos telejornais e o que sai nas redes sociais, o leitor tende a procurar os ambientes que lhe transmitem mais tranquilidade. É o germe da polarização política, quando as pessoas tendem cada vez mais a aceitar apenas o que está de acordo com suas percepções e opiniões, desqualificando todos os que procuram entender a complexidade e a diversidade nas abordagens da política nacional.

Dai à xenofobia e à radicalização é um passo, que muita gente acaba dando inconscientemente. Só mais tarde, como aconteceu com os alemães no pós-nazismo, é que as pessoas se darão conta do que aconteceu, quando já não dá mais para evitar as consequências humanas e materiais da polarização ideológica.

A função deste Observatório da Imprensa é complicada e polêmica justamente porque procuramos não nos deixar contaminar pela polarização, radicalização e xenofobia informativas. É certo que dificilmente lograremos uma unanimidade, e que o mais provável é sermos criticados por ambas as partes envolvidas na atual batalha ideológica em curso no país.

Professores no Brasil estão entre mais mal pagos em ranking internacional

Via BBC Brasil

Para consultoria, salário de professor no Brasil deveria ser quase três vezes maior (Foto: Tânia Rêgo/ABr)

O Brasil é o lanterninha em um ranking internacional que compara a eficiência dos sistemas educacionais de vários países, levando em conta parâmetros como os salários dos professores, as condições de trabalho na escola e o desempenho escolar dos alunos.

O ranking é de setembro do ano passado, mas volta à tona no momento em que o governo paranaense aprova uma redução nos benefícios previdenciários dos professores do Estado.

A votação da lei elevou as tensões e levou a um tumulto no qual pelo menos 170 pessoas ficaram feridas após a repressão policial de um protesto de professores em Curitiba. Os professores paranaenses estão em greve desde sábado (25 de abril).

Em São Paulo, professores da rede estadual estão em greve desde 13 de março, reivindicando reajuste salarial e melhores condições de trabalho.

O estudo internacional foi elaborado pela consultoria Gems Education Solutions usando dados dos mais de 30 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e alguns emergentes, como o Brasil.

Nele, o país aparece como um dos últimos em termos de salário pago aos professores, por exemplo.

O valor que os educadores brasileiros recebem (US$ 14,8 mil por ano, calculado por uma média de 15 anos e usando o critério de paridade de poder de compra) fica imediatamente abaixo do valor pago na Turquia e no Chile, e acima apenas de Hungria e Indonésia.

Os salários mais altos são na Suíça (US$ 68,8 mil) e na Holanda (US$ 57,8 mil).

Os professores brasileiros também são responsáveis por mais estudantes na sala de aula: 32 alunos, em média, para cada orientador, comparado com 27 no segundo lugar, o Chile, e menos de 8 em Portugal.

Combinando fatores como estes com o desempenho dos alunos – entre os piores entre os países pesquisados – a consultoria coloca o sistema educacional brasileiro como o mais ineficiente da lista.

“Nossas conclusões sugerem que o Brasil deveria cuidar do salário dos professores para alcançar o objetivo da eficiência educacional”, diz o relatório.

Para a consultoria, a meta seria um salário quase três vezes maior que o atual.

Deficiências no gasto

Os dados mais recentes da OCDE mostram as debilidades no gasto educacional brasileiro.

Segundo a organização, o gasto do governo brasileiro com educação cresceu rapidamente desde o ano 2000, atingindo 19% do seu orçamento em 2011 – a média da OCDE foi de 13%.

O gasto público com educação chegou a 6,1% do PIB brasileiro, acima da média da OCDE de 5,6%, e à frente da proporção de outros latino-americanos como Chile (4,5%) e México (5,2%).

Porém, o gasto do Brasil com a educação pública foi o segundo menor de todos os países da OCDE e parceiros – US 3.066, contra uma média de US$ 9.487. O país ficou em 34º no ranking de 35 países da organização.

Primeira edição de “Cem anos de solidão” some na Feira do Livro de Bogotá

Via Agência Efe

Um exemplar da primeira edição de “Cem anos de solidão”, com dedicatória do nobel Gabriel García Márquez, foi roubada do pavilhão de Macondo da Feira Internacional do Livro de Bogotá (++Filbo++), confirmaram os organizadores neste domingo.

O roubo do livro foi detectado na noite de sábado, disse à Agência Efe uma fonte próxima à Câmara Colombiana do Livro.

O escritor colombiano Gabriel García Márquez, autor de “Cem anos de solidão”, morreu no ano passado aos 87 anos. EFE/Mario Guzmán

O exemplar roubado pertence ao livreiro Álvaro Castillo, que o tinha emprestado para a feira.

“Infelizmente temos que confirmar o roubo. Esta tarde emitiremos um comunicado oficial sobre o sucedido”, disse a fonte.

O livro roubado estava exposto no pavilhão de Macondo, convidado de honra da XXVIII edição da feira, que termina amanhã.

“Cem anos de solidão” foi publicado pela primeira vez em 1967 pela editora Sul-Americana de Buenos Aires e desde então se transformou em um fenômeno da literatura mundial.