
A escalada de tensão foi mais uma vez retomada entre os EUA e a Rússia. Consultando, a história, facilmente captamos que as relações entre Washington e Moscou sempre fora conturbada, repleta de desconfiança e rivalidade.
Durante a II Guerra Mundial, a Inglaterra, sob a batuta de Churchill, se via atormentada pela possibilidade de aumento da esfera de influência soviética no continente europeu e planejou a jamais realizada Operação Impensável, que previa guerra aberta de alto espectro contra a Rússia, plano que fora rejeitado pelos parceiros norte-americanos por ser impraticável e suicida. Os detalhes deste episódio histórico podem ser conhecidos no artigo “Operação Impensável”: Em 1945 os ‘aliados’ já tinham planos secretos contra a Rússia soviética
, cujo autor é Yuriy Rubtsov.
A Segunda Guerra, por sua vez, é intrincada com a Primeira e diversos eventos ocorridos nela influenciaram os caminhos da História. Que relação existe entre a Campanha de Galípoli, o massacre dos armênios e o holocausto? Que ligações estes episódios têm com a História do poder mundial? O massacre dos armênios foi usado por Hitler como justificativa e incentivo ao genocídio perpetrado contra os judeus e a fracassada Campanha de Galípoli teve profundos efeitos sobre a Rússia czarista e sobre um dos grandes líderes do século XX, Winston Churchill. O artigo Galipoli, genocídio dos armênios e Churchill , escrito por Paulo Timm (que também participa do diálogo), trata da relação aqui exposta.
O diálogo reproduzido abaixo trata dessas questões. Enquanto os dois artigos são reproduzidos em seguida.
Paulo Timm – Isso tudo é verdade, mas a História toda é mais longa. Começa no episódio de Galípoli, no início da I Guerra.
Foi marcante o episódio de Galípoli, também, porque afetou a trajetória de um dos grandes líderes do século passado, Winston Churchill, que fora responsabilizado pelo fracasso em Galípoli na primeira fase da I Guerra, eis que já à testa do Almirantado britânico. Churchill, nesta estratégica posição, havia imaginado ocupar a Turquia através do Estreito de Dardanelos, uma abertura em torno de uma milha que liga o Mediterrâneo ao Mar de Mármara, para, daí, acudir a Rússia em apuros. Deu tudo errado. A Rússia ficou desamparada e emergiu do conflito aos escombros que conduziram à Revolução Bolchevique de 1917. Talvez sentindo-se culpado por tudo isto, Churchill, quase trinta anos depois, tentaria sufocar a URSS levando até lá a vitória Aliada. No rescaldo de Galípoli, enfim, à conta de Churchill, morreram 90 mil turcos e 60 mil aliados, enquanto documentos oficiais ingleses falam, hoje, em 500 mil mortos.
Gustavo Santos – Interessante a relação quite você fez com a psicologia de culpa do Churchil, mas eu não creio que ele tivesse culpa por isso, o isolamento logístico fã Rússia era algo praticamente intransponível, aliás construído pelos próprios ingleses no século anterior. Também é interessante o grau de ousadia, maquiavelismo e até megalomania dele ao propor estratégias que para qualquer outro seriam impensáveis.
Não sei se você sabe, mas a proposta do Churchill de desembarque para o dia D sempre foi na Iugoslávia para impedir que tropas soviéticas ocupassem o Leste europeu. Mas os americanos, menos dispostos a grandes esforços de guerra, preferiram não assumir a liderança contra os alemães na principal frente de batalha que era no Leste, e em condições logísticas e de terreno muito piores só para impedir uma possível conquista daquelas regiões marginais para o comunismo soviético.
André Luís – A Operação Galípoli visava romper a frente turca para passar alimentos e munições para a Rússia czarista, que já se encontrava sufocada pela guerra, a falha da operação levou ao estrangulamento da Rússia, que desencadeou a queda do czar e posteriormente a revolução de 1917;
Churchill, depois deste fracasso, foi defenestrado da marinha, o que levou algum tempo para retomar sua carreira política e militar, isso levou a um atraso da guerra em alguns anos por causa do governo inglês de Chamberlain;
O massacre armênio foi adotado como desculpa por Hitler para o holocausto;
Galípoli levou a uma aula para Churchill em relação a guerra;
O fim do Império Otomano depois da 1ª guerra mundial é a raiz de todas as questões do Oriente Médio atual;
O fim do Império Otomano levou a um acirramento da disputa de influência tanto no Oriente Médio como na região dos balcãs, entre as potências coloniais da Europa, lembre-se que uma das regiões onde a 2ª guerra foi mais acirrada foi na região balcânica europeia. Etc.
A história tem esta questão de um novelo puxado leva a um rolo muito grande.
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Galípoli, genocídio dos armênios e Churchill
Por Paulo Timm
No último 24 de abril, como em anos passados, o noticiário internacional fartou-se na divulgação de dois acontecimentos concorrentes:
De um lado, líderes de várias partes do mundo, compungidos, à frente de
grande multidão, na capital da Armênia, lembraram o centenário do genocídio
de mais de um milhão de armênios. Estava começando a I Grande Guerra. Os armênios, cujas máximas expressões intelectuais foram presos no dia 24 de abril de 1915, acabariam expulsos em massa da vizinha Turquia, sob a alegação de traição. Foram constrangidos a atravessar, a pé, um deserto imenso, em direção à sua terra original, atrás do monte Ararat. Nunca alcançaram. Na verdade, instaurou-se, aí, uma diáspora armênia por todos os cantos do mundo, vindos muitos, inclusive, para o Brasil. Inúmeros filmes, dentre eles “América, América” de Elia Kazan, romances e canções, falam desta tragédia.
De outro lado, os turcos, antecipando um dia o centenário de sua vitória na Batalha de Galipolli, no dia 25 de abril de 1915, sobre as Forças da Tríplice Entente , que reunia Inglaterra, França e Russia contra Alemanha, Império Austro Húngaro e Império Otomano, aproveitam para rejeitar a acusação de que teriam praticado genocídio contra o povo armênio. Alegam que jamais pretenderam liquidar os armênios, apenas tomaram medidas consideradas indispensáveis à segurança do país numa época de guerra, quando estes se mostravam mais leais ao inimigo russo, com os quais tinham afinidades culturais e religiosas, do que à Turquia muçulmana.
Aparentemente, o massacre sobre os armênios, ao qual se seguiram perseguições a gregos e russos residentes no Império Otomano, e a Batalha de Galípoli parecem dois fatos isolados – e distantes. Na verdade, estão interligados, pois ocorreram no mesmo momento, como uma represália dos turcos sobre os armênios, inclinados não só à própria independência, como pelos russos, aliados dos ingleses e franceses que tentavam quebrar a Turquia com a ocupação de Galípoli no inicio da I Grande Guerra.
Passado o vexame e duas décadas, às vésperas de II Guerra, as advertências de Churchill sobre o caráter belicoso de Hitler custaram a ser ouvidas. Diante do inevitável, a invasão alemã da Polônia, em 1939, foi, afinal redimido e virou primeiro-ministro. Conduziu os ingleses na vitória aliada. Mas nunca deixou de, ser visto como arrogante e ousado demais nas questões internacionais. E, depois da vitória na II Guerra, sendo um dos vitoriosos, ao lado de Truman, Presidente dos Estados Unidos, que sucedeu Rossevelt ,e Stalin, homem forte da União Soviética, seu açodamento na tentativa de levar a guerra contra os soviéticos, foi congelada:
Após a derrota da Alemanha, a Europa estava dividida entre os Aliados no oeste e os soviéticos no leste. Winston Churchill não confiava que Stalin fosse libertar os países ocupados pelo Exército Vermelho, sendo assim, ele e seus estrategistas militares prepararam a Operação Impensável, um plano que colocaria as forças aliadas contra as tropas soviéticas na Europa. As hostilidades começariam em 1 de julho de 1945 e envolveriam no rearmamento de 100.000 soldados alemães para que se juntassem aos Aliados. Churchill também queria que os Estados Unidos usassem a bomba atômica, caso os soviéticos se recusassem a se render. Os planos de Churchill nunca saíram do papel porque os norte-americanos estavam muito cansados para outra guerra. Em um telegrama enviado da Casa Branca, Harry Truman, o presidente americano, deixou claro que os Estados Unidos não ajudariam os ingleses na guerra para expulsar os russos da Europa Oriental (trecho do artigo 10 planos alternativos da II Guerra Mundial que teriam mudado a história).
Foi ele, Churchill, a propósito, quem reverberou Goebbels e consagrou o conceito de “Cortina de Ferro”, como se pode ver no discurso que fez no Westminster College, em Fulton, no Missouri, Estados Unidos, em 5 de março de 1946, citando a expressão “iron curtain” ou, seja, “cortina de ferro”:
“De Estetino, no [mar] Báltico, até Trieste, no [mar] Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha estão todas as capitais dos antigos Estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucarest e e Sófia; todas essas cidades famosas e as populações em torno delas estão no que devo chamar de esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não somente à influência soviética mas também a fortes, e em certos casos crescentes, medidas de controle emitidas de Moscovo.” (retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Cortina_de_Ferro)
Então Churchill voltou a cair. Por toda a vida carregaria a fama de impetuoso em excesso. Mas não fosse Galipoli, uma espécie de Dia D que deu errado, a História do Século XX poderia ter sido diferente.
A Campanha de Galípoli, também conhecida como Batalha dos Dardanelos, teve como palco a península de Galípoli (em turco: Gelibolu) na Turquia, de 25 de abril de 1915 a 9 de janeiro de 1916, durante a I Guerra Mundial. Foi uma das campanhas mais custosas e trágicas da guerra. Forças britânicas, francesas, australianas e neozelandesas desembarcaram em Galípoli, numa tentativa de invasão da Turquia e captura do estreito de Dardanelos. A tentativa falhou, com pesadas perdas para ambos os lados. Os aliados se retiraram do local durante os meses de dezembro de 1915 e janeiro de 1916.
As divisões ANZAC (Australian and New Zealand Army Corps) se viram especialmente danificadas, e esta campanha passou a significar certa dissensão por parte do aliados oriundos da Nova Zelândia e da Austrália, que acusaram as tropas britânicas de arrogância, crueldade e inaptidão, bem como principais responsáveis pelo fracasso das operações. O Anzac Day (25 de abril) continua a ser a comemoração mais significativa dos veteranos na Austrália e na Nova Zelândia, superando o Dia do Armistício / Dia da Lembrança.
A Campanha de Galípoli repercutiu profundamente em todas as nações envolvidas. Na Turquia, a batalha é percebida como um momento definitivo na história da nação — a defesa final da terra-mãe após séculos de desintegração do Império Otomano. A luta estabeleceu as bases para a Guerra de Independência Turca e a fundação da República Turca oito anos mais tarde, sob Atatürk, ele próprio um comandante em Galípoli.
É difícil o exercício de cenários do “se”, isto é, se tivesse acontecido isso ou
aqui, como seria o mundo?
Se o Plano de Churchill tivesse dado certo e a Turquia tivesse caído, levando os aliados ao apoio do Tzar Russo, isto poderia ter evitado sua derrocada. Isso posto, dificilmente emergeria a situação revolucionária que tanto beneficiou o assalto ao Palácio de Inverno pelos bolcheviques. Com isso, Churchill poderia ter sido ouvido a tempo na Inglaterra, evitando o fato consumado por Hitler ao final da década de 30. Ele teria, senão evitado a II Guerra, pelo menos impedido que fosse conduzida por Hitler..
E se Hitler e não os Aliados tivesse vencido a Guerra? Como seria o mundo? Teríamos, certamente, uma reedição do Congresso de Viena, de 1815, com o retardamento dos processos de descolonização da África e Ásia. Internamente à Europa, o pacto social-democrata jamais tivesse se concertado. Distante do teatro de operações, os Estados Unidos, que jamais quiseram a guerra, talvez tivessem chegado a um Acordo de Paz com o “Triunfo do III Reich”.
Imagine-se, de outra parte, se em 1945, derrotado Hitler, os Aliados – e lá estava o Brasil…, com Estados Unidos à frente, tivessem feito a guerra contra a URSS de forma a ter evitado a Guerra Fria que se instalou depois do conflito.
Não seria um enfrentamento fácil. O Exército Vermelho estava em pleno vigor, estabelecido em Berlim, exaltado por ter infligido um duro golpe nos alemães. Mas não dispunha, naquele momento, do acesso à tecnologia nuclear, a qual, em marcha forçada levaria os americanos a detonarem a primeira bomba atômica em Hiroshima, no início de agosto daquele ano. Isto significa que, ouvido Churchill, a União Soviética poderia ter sido exterminada, também, no mesmo processo, dando outra face ao século XX. A descolonização no Terceiro Mundo e o avanço social-democrático na Europa talvez não ficassem completamente comprometidos, mas seriam, certamente, bem mais conservadores do que foram.
Quanto à América Latina não creio que as mudanças derivadas da vitória alemã ou mesmo de uma eventual liquidação da URSS tivessem mudado substancialmente o desenrolar dos acontecimentos. Hitler e o nazi-fascismo também não durariam para sempre. Como a hegemonia americana, com ou sem a URSS, tampouco o será. O continente tem sua lógica política própria, avessa, aliás, tanto aos imperativos liberais proclamados desde Bretton Woods até o Consenso de Washington, como às proclamações que lhes correspondem em doutrina política, sempre avessa ao papel do Estado como promotor de cidadania e do desenvolvimento que tanto apreciamos.
Enfim, dois acontecimentos como Galipoli e Genocídio armênio, embora estranhos ao nosso cotidiano, são, não obstante, um convite à reflexão sobre os caminhos e descaminhos da História.
A Turquia, entretanto, mesmo derrotada na I Guerra e reduzida em sua geografia e influência no mundo, saiu de Galipoli erguida para as mudanças que se sucederam sob o comando de Kemal Ataturk.
Turquia é hoje um estado laico e moderno, pronto para se incorporar, talvez, mais à Agenda dos BRICS do que à da UNIÃO EUROPEIA. O genocídio armênio lhe é, por certo, indigesto, mas cedo ou tarde terá que se enfrentar com este passado. Por isso mesmo o Brasil deveria reconhecer logo este crime contra a humanidade, até como um sinal aos turcos de que a Doutrina dos Direitos Humanos não é uma amenidade, mas uma verdadeira estratégia de sobrevivência da humanidade no século XXI. Já os países europeus, sedes de Impérios Coloniais que se redesenharam no final da I Guerra com o objetivo de colocar os resíduos do Império Otomano sob seu “protetorado”, antes de exigir da Turquia a retratação do crime contra os armênios, deviam se desculpar com os povos colonizados pelas barbáries cometidas contra eles. Só para o Brasil, mais de 2 milhões de africanos foram trazidos cativos por Portugal para impulsionar a economia do Fazendão Tropical. Outro tanto morreu nas viagens… Isto não foi genocídio?
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“Operação Impensável”: Em 1945 os ‘aliados’ já tinham planos secretos contra a Rússia soviética
Por Yuriy Rubtsov | Via Pravda
No final de maio de 1945 Josef Stálin ordenou que o Marechal Georgy Zhukov deixasse a Alemanha e viesse a Moscou. Stálin estava preocupado com as ações dos aliados britânicos. Stálin observara que as forças soviéticas desarmavam os alemães e os enviavam a campos de prisioneiros; mas os britânicos, não. Em vez de desarmar e prender os alemães, os britânicos estavam cooperando com eles e lhes permitiam manter a capacidade de combate. Para Stálin, a única explicação para esse comportamento era que os britânicos planejassem usar depois aqueles soldados alemães. Stálin sabia que a atitude dos britânicos era flagrante violação do acordo entre governos, segundo os quais tropas que se rendessem tinham de ser desarmadas e imediatamente desmontadas.
A inteligência soviética pôs as mãos (e os olhos) no telegrama secreto que Winston Churchill enviara ao marechal-de-campo Bernard Montgomery, comandante das forças britânicas. O telegrama ordenava que Montgomery recolhesse as armas e as conservasse disponíveis para serem devolvidas aos alemães, caso a ofensiva soviética continuasse.
Seguindo instruções de Stálin, Zhukov condenou duramente as atividades dos britânico no Conselho de Comando dos Aliados (União Soviética, EUA, Reino Unido e França). Disse que a história registrava poucos exemplos de tamanha traição e descaso com compromissos assumidos entre nações que tinham, ou se haviam comprometido a ter, status de aliadas. Montgomery rejeitou a acusação. Poucos anos depois admitiu que recebera ordens para fazer exatamente o que Zhukov acusara os ingleses de terem feito e que as executara. Como soldado, não tivera alternativa.
Disputava-se batalha feroz nos arredores de Berlim. Dessa vez, Winston Churchill disse que a Rússia Soviética convertera-se em ameaça mortal para o mundo livre. O primeiro-ministro britânico queria que se criasse um novo front no leste, imediatamente, para conter a ofensiva soviética. Churchill vivia obcecado pela ideia de que, depois de derrotado o exército nazista alemão, a União Soviética já surgia como nova ameaça.
Essa é a razão pela qual Londes quis que Berlim fosse tomada por forças anglo-norte-americanas. Churchill quis também que os norte-americanos libertassem a Checoslováquia e Praga com a Áustria controlada pelos aliados, todos sob as mesmas condições.
Já em abril de 1945, Churchill dera instruções para que o Grupo de Planejamento Conjunto das Forças Armadas Britânicas planejasse a Operação Impensável [orig. Operation Unthinkable], nome de código de dois planos relacionados de um conflito entre os aliados ocidentais e a União Soviética. Os generais receberam ordens para traçar meios para “impor à Rússia a vontade dos EUA e do Império Britânico”. A data hipotética marcada para o início da invasão, pelos aliados, da Europa hipoteticamente tomada pelos soviéticos, seria 1º de julho de 1945. Nos últimos dias da guerra contra a Alemanha de Hitler, Londres deu início a preparativos para apunhalar a União Soviética pelas costas.
O plano previa guerra total para ocupar as partes da União Soviética que tiveram significado crucial para o esforço de guerra, e assestar assim golpe decisivo, que tiraria das forças armadas soviéticas a capacidade para defender-se.
O plano incluiu a possibilidade de as forças soviéticas recuarem com profundidade para dentro do próprio território, tática que já havia sido usada em guerras anteriores.
O Alto Comando Britânico considerou esse plano militarmente irrealizável, porque as forças soviéticas superavam as forças aliadas na proporção de três para um – na Europa e no Oriente Médio, onde o plano previa que se travassem os combates. As unidades alemãs entravam nessa conta como tentativa de equilibrar a correlação de forças: por isso Churchill tanto precisava de que os prisioneiros alemães continuassem em prontidão para combater.
O Gabinete de Guerra concluiu:
“O Exército Russo desenvolveu um Alto Comando capaz e muito experiente. O exército é incomensuravelmente mais forte, vive e se movimenta em escala muito mais leve de manutenção que qualquer exército ocidental, e usa táticas firmes, baseadas sobretudo na pouca importância atribuída às baixas, para alcançar o objetivo. O equipamento foi rapidamente aprimorado durante a guerra e hoje é bom. Sabe-se o suficiente sobre esse desenvolvimento, para dizer que com certeza absoluta o exército soviético não é inferior aos das grandes potências. A facilidade que os russos mostraram para desenvolver e aprimorar equipamento e armas existentes, e para produzi-los em massa foi realmente muito impressionante. Já se sabe até que houve casos de os alemães terem copiado traços básicos de armamento russo.”
Os planejadores britânicos chegaram a conclusões pessimistas. Disseram que qualquer ataque seria “imprevisível” e que a campanha seja “longa e cara”. Na verdade, o relatório dizia “Se vamos iniciar guerra contra a Rússia, temos de estar preparados para guerra total, que seria longa e cara”. A superioridade numérica das forças do campo soviético deixavam poucas possibilidades de sucesso.
A avaliação, assinada pelo Comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas, dia 9/6/1945 – na próxima 4ª-feira serão 70 anos! – concluía:
“Estaria além de nossas capacidades alcançar sucesso rápido, mas sempre limitado, e estaríamos comprometidos em guerra longa, contra todas as probabilidades de sucesso. E essas probabilidades convertem-se em pura fantasia, se os americanos cansarem, ficarem indiferentes e deixarem-se arrastar pelo ímã da guerra no Pacífico.”
O primeiro-ministro recebeu rascunho do plano dia 8 de junho. Por mais que o enfurecesse, Churchill teve de se conformar, ante a evidente superioridade do Exército Vermelho. Mesmo com a bomba atômica já incluída no inventário militar dos EUA, o novo presidente dos EUA Harry Truman também teve de aceitar o argumento e a conclusão.
Na sequência, em reunião com o ministro de Relações Exteriores da URSS Vyacheslav Molotov, Truman pegou o touro pelos chifres. Fez ameaça mal disfarçada de que se poderiam aplicar sanções econômicas contra a União Soviética. Dia 8 de maio, o presidente dos EUA ordenou que se reduzissem significativamente, sem qualquer notificação prévia, a venda e a entrega de suprimentos. Chegou a ponto de fazer retornar às bases nos EUA, todos os navios norte-americanos que já estavam a caminho da URSS.
Algum tempo passou, e a ordem foi cancelada, ou a URSS não entraria na guerra contra o Japão, algo de que os EUA muito precisavam. Mas as relações bilaterais haviam sido feridas para sempre.
O memorando assinado pelo secretário de Estado em exercício Joseph Grew dia 19 de maio de 1945, dizia que a guerra contra a URSS era inevitável. Ordenava ‘endurecer posições’ nos contatos com a URSS. Segundo Grew, recomendava-se iniciar imediatamente os combates, antes que a URSS conseguisse recuperar-se da guerra e restaurar seu vastíssimo potencial militar, econômico e territorial.
Os militares receberam impulso dos políticos. Em agosto de 1945 (a guerra contra o Japão ainda não terminara), o mapa dos alvos estratégicos dentro da URSS e Manchúria foi apresentado ao general L. Groves, chefe do programa nuclear dos EUA. O plano indicava 15 das maiores cidades da URSS: Moscou, Baku, Novosibirsk, Gorky, Sverdlovsk, Chelyabinsk, Omsk, Kuibyshev, Kazan, Saratov, Molotov (Perm), Magnitogorsk, Grozny, Stalinsk (provavelmente, Stalino – a atual Donetsk) e Nizhny Tagil. Cada alvo vinha acompanhado de descrições: geografia, potencial industrial e alvos a atingir primeiro. Washington abriu novo front: dessa vez, contra seu aliado.
Londres e Washington imediatamente esqueceram que haviam combatido lado a lado, ombro a ombro, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Esqueceram também todos os compromissos que haviam assumido nas conferências de Yalta, Potsdam e São Francisco.
“Operação Impensável” é o nome de um plano inicial de guerra feito pelo governo britânico em 1945. Tal operação consistia na invasão da então União Soviética por forças militares britânicas, poloneses exilados, americanos, e até alemães recém rendidos. Dada a superioridade do poder militar da União Soviética, os demais ‘aliados’ optaram por não executar tal operação”.






A convergência entre diversas formas de oposição sempre terá importância fundamental, conforme vimos em Istambul, com o parque Gezi, e no Brasil. O ativismo político é de importância fundamental e, novamente, creio que o problema esteja na incapacidade da esquerda em canalizá-lo. Há diversas razões para isto, mas penso que o motivo principal seja o fracasso da esquerda em abandonar a sua ênfase tradicional na produção em favor de uma política da vida cotidiana. Ao meu ver, a política do cotidiano é o ponto crítico a partir do qual podem se desenvolver as energias revolucionárias, e onde já ocorrem atividades orientadas para a definição de uma vida não-alienada. Tais atividades estão antes relacionadas ao espaço de vida do que ao espaço de trabalho. Syriza e Podemos nos oferecem um primeiro vislumbre deste projeto político – não são revolucionários puros, mas despertaram grande interesse.
