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Desnorteada com o discurso do Papa na Bolívia, mídia foca em crucifixo

Via Opera Mundi

As fotos escolhidas pelos editores para ilustrar a entrega do crucifixo, ao contrário da que aparece acima, buscam mostrar o papa Francisco supostamente contrariado.

O Papa Francisco fez um discurso anticapitalista ontem na Bolívia, referindo-se ao sistema econômico como “ditadura sutil”.

Foi no Segundo Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra.

“A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral”, afirmou.

Também disse que a concentração da mídia é instrumento de “colonialismo ideológico”, pois “a concentração monopólica dos meios de comunicação social pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural”.

O papa pregou “mudança de estruturas” e disse que mesmo entre a elite econômica que se beneficia do sistema “muitos esperam uma mudança que os libere dessa tristeza individualista que os escraviza”.

Para João Pedro Stélide, líder do Movimento dos Sem Terra, que estava presente, o discurso do papa foi “irretocável”, ao atacar a busca do lucro sem considerações sociais e ecológicas como um dos grandes problemas da atualidade.

O colunismo brasileiro preferiu focar no presente inusitado que o presidente da Bolívia, Evo Morales, deu a Francisco: um Cristo crucificado em foice e martelo.

Na Folha, Igor Gielow chamou de “aberração” sem explicar a origem do presente.

É a reprodução de uma escultura do sacerdote espanhol Luis Espinal, que tinha ligação com movimentos sociais bolivianos e foi assassinado por paramilitares em 1980.

Fez parte da programação do papa em solo boliviano uma homenagem a Espinal, que era jesuíta como o atual pontífice.

O governo boliviano desmentiu oficialmente boatos disseminados pelas redes sociais segundo os quais o Papa teria manifestado desconforto ao receber o presente.

Francisco, segundo difundido por parte da mídia boliviana, teria dito “não se faz isso” ao receber o presente, quando o áudio deixa claro que ele afirma “não sabia disso” ao ouvir a explicação de Evo Morales sobre a escultura.

Em outras palavras, a direita midiática boliviana pirou com o progressismo de Francisco e, por extensão, a brasileira.

Lobato, Vargas e o Senado na hora decisiva do PRÉ-SAL

Por César Fonseca | Via Viomundo

Contexto

No ambiente brumoso e desconhecido da eternidade espiritual, para o qual se transferem as almas penadas pelo duro embate na Terra, a fim de continuarem sua evolução eterna, Getúlio Vargas e Monteiro Lobato, debruçam-se, nessa terça feira, 30 de junho de 2015, sobre a realidade nacional.

Estão ambos de olhos postos no Senado brasileiro, onde será votado o projeto de lei nº 131/2015, antinacionalista, de autoria do senador tucano paulista José Serra, que retira o direito da Petrobras de participar, obrigatoriamente, da exploração e produção dos poços de petróleo na bacia do pré-sal, com o percentual mínimo de 30%. O objetivo é entregar o petróleo às mesmas empresas multinacionais que foram incapazes de investir e de superar o desafio de encontrar o ouro negro no mar tão profundo.

Agora, querem abocanhar, quando os investimentos mais pesados, mais onerosos já foram feitos, quando o desafio já foi superado.

Getúlio, tomando chimarrão, e Lobato, café, esticam conversas sobre o que farão nossos senadores.

Diálogo

— Lobato, você que escreve muito bem, mande uma carta aos nossos senadores, lá no Brasil, para alertá-los que estarão votando contra os brasileiros e a educação de suas crianças, se aprovarem, em regime de urgência, esse projeto do Serra.

— Lembra, Getúlio, quando eu mandei as cartas a você, em 1935 e em 1940, alertando contra esse perigo? Eu dizia, insistentemente, que havia petróleo, no nosso país, e os seus burocratas, manipulados, por aliados dos americanos, vendilhões da pátria, pregavam o contrário.

Tentavam, de todas as maneiras, desconstruir e desacreditar a minha campanha que visava provar que havia petróleo no Brasil e que devíamos copiar os americanos, investindo na sua exploração, siderurgia, produção de automóveis e estradas! Petróleo, a maior riqueza do mundo, poderia promover a libertação da nossa Pátria do jugo e da dependência econômica de outras potências.

—  Seu ídolo era o Ford, né?

— Justamente, grande homem. O Lênin, também, gostava muito dele, pelo trabalho de disciplina dos operários, educação pelo trabalho disciplinado, organização operária, desenvolvida na fábrica dele, inovação tecnológica, coisa que a União Soviética não tinha…

— Verdade, Lobato, eu errei, cheguei a mandá-lo à prisão, proibir seu livro sobre as denúncias que fazia, para alertar nossa população contra os sanguessugas yankees, interessados em levar a nossa maior riqueza para eles, enquanto diziam que por aqui não havia petróleo! Diziam que você defendia, que você era doido. Doido… Hoje comemoramos com gosto sua vitória agora que encontraram o Pré-Sal com prováveis 300 bilhões de barris! Você também alertou, que o funcionário da Standart Oil lhe havia dito: “Todo o petróleo tem que ser nosso!” Mas eles não descansam! O fato é que, agora, o problema é de urgência, urgentíssima, para barrar o projeto desse Senador, que tramita em caráter de urgência urgentíssima. Todos sabemos o porquê dessa pressa toda…

— Como, presidente, começamos a falar aos nossos senadores, o que precisa ser destacado, com mais ênfase, do seu ponto de vista?

— Seguinte, Lobato: os senadores, se votarem a favor do projeto do Serra, estarão traindo, não apenas, o Brasil, alienando nossa maior riqueza, mas, principalmente, passarão a ser traidores de sua própria base eleitoral, os Estados. Eles não são, de acordo com a Constituição, representantes dos Estados e dos Municípios, da nossa Federação?

— Sim, perfeitamente…

– Mas, em princípio, não, presidente. Se as multinacionais saírem vencedoras, nessa batalha contra o Brasil, capitaneada por esse senador paulista, elas terão que pagar os royalties do mesmo jeito. Os prejuízos mais intensos se darão em diversos outros pontos mais importantes. Os ganhos dos Estados e Municípios estarão garanti…

- Peraí, Lobato, não seja ingênuo. O que está em jogo é o controle da exploração e da produção. Quem vai fazer essa contabilidade do óleo que é extraído? A Petrobras ou as multinacionais? Se os gringos conquistarem o direito alienígena de explorar um poço que produz 100 mil barris/dia, quem garante que irão contabilizar essa quantia?Contabilizarão o que quiserem, para pagar menos royalties, é claro. Não esqueça, Lobato, o princípio da soberania está no controle, na contabilidade da riqueza que é extraída. Se é o inimigo que explora e produz, contabiliza a favor dele. E mesmo se forem honestos, eles pagarão menos impostos. Os custos de produção da Petrobrás são muito menores, nossa grande empresa detém muito mais tecnologia, e eles possuem controle sobre toda uma imensa infraestrutura de exploração, transporte e processamento. Isso deixa seus custos muito menores do que o de qualquer companhia estrangeira. A grande maioria dos impostos sobre a produção de petróleo incorre uma vez, descontado os custos de produção. Como os custos deles são muito maiores, pagarão muito menos impostos, mesmos se forem honestos… União, estados e municípios terão assim grande prejuízo.

— Teríamos, então, um Senado negando a sua própria representatividade, tirando receita dos governos estaduais e municipais, para dar os gringos?!

— É isso, Lobato, simples. Você lutou, bravamente, por duas obsessões: achar petróleo no Brasil, criando o slogan de que “O petróleo é nosso”, e despertar, ludicamente, a consciência cidadã das crianças brasileiras, para elas serem conscientes das nossas riquezas e do seu próprio valor como seres humanos livres para decidirem sobre seu futuro. O Pré-Sal é a solução de ambos seus sonhos: o grande riqueza do Petróleo para os brasileiros e financiamento para educação de qualidade para todas nossa crianças! Se esse projeto passar, você poderá ver, daqui de cima, esse sonho desmanchar, completamente. Se o Senado aprovar essa lei, será a grande traição.

— Os senadores, presidente, estarão, portanto, empobrecendo o presente dos brasileiros e o futuro de seus netos? Aos olhos de todo o Brasil? Não acredito!

— Porém, há outra manobra que você não está percebendo, meu caro Lobato.

— Qual, Getúlio?

– Como manobra diversionista, também contra nossas crianças! No momento em que os senadores debaterão e estarão votando o projeto de alienação do Pré-Sal, entregando patrimônio nacional, lá, na Câmara, os deputados estarão discutindo e votando o projeto que reduz a maioridade penal, motivo de grande estardalhaço por essa nossa mídia entreguista…

— Grande despiste, heim, presidente?

— Perfeitamente. Farão um auê tremendo em torno da redução da maioridade penal, para que não deixe transbordar, como escândalo, o que é mais importante para o futuro do Brasil, a entrega da nossa maior riqueza. O futuro da educação de nossas crianças!

— 300 bilhões de barris, só no pré sal, Vargas. Nossas reservas são maiores do que as da Arábia Saudita. Perdemos, apenas, e olhe lá, para a Venezuela.

– A 100 dólares o barril, são 30 trilhões de dólares de riqueza. Quase metade do PIB mundial, meu caro! É redenção da nossa Pátria! Tudo o que lutamos por todas nossas vidas! Tudo isso está nas mãos de nossos senadores. Se vencermos hoje, se mantivermos aceso o espírito nacionalista, espantando o antinacionalismo de certas facções de nossa política; eliminaremos nosso histórico atraso, nossa histórica dependência, nosso patético subdesenvolvimento imposto de fora. Não seremos apenas potencialmente ricos. Não seremos mais bobos, dominados por essa mídia antinacional. Ficaremos realmente de pé, desenvolvidos e dignos do destino que Deus nos honrou!

— E se os senadores brasileiros caírem na conversa mole do Serra de que a Petrobras está falida, que não tem recursos para investir…

-- Imagine, Lobato, em 1935, quando você lançou as ações da companhia que criou sozinho, contra tudo e contra todos, a Cia Petróleo do Brasil, sem o País, ainda, dispor de uma gota de petróleo, os acionistas compraram tudo em, apenas, 4 dias. Imagina hoje! Hoje temos o BNDES que eu também criei e que os gringos também querem destruir! Não temos problema de dinheiro com a riqueza do pré sal! Quem não quer financiar a Petrobrás tendo o Pré-Sal como garantia? Você é o exemplo vivo disso, quer dizer, estamos vivos, mesmo?

— E eu não tinha o seu apoio explícito, no Palácio do Catete,  quando lutava bravamente contra os incrédulos, ou melhor, os traidores, que, ainda, estão aí, vivíssimos e atuantes.

— Não me lembre, mais uma vez, esse meu equívoco, Lobato, por favor. Tinha o problema político. Você apoiava o Júlio Prestes, na sucessão do Washington Luís. A luta política nos leva a muitos erros. A república velha tinha que ser superada, era o atraso, não podia…

— O Júlio Prestes tinha projeto de investir no petróleo, na siderúrgica, nos transportes, conversei com ele, hipotequei meu apoio…

— Lobato, vamos encerrar por aqui. Não terminaríamos essa discussão nunca. Temos discutido isso aqui, no plano espiritual, onde nossos nervos estão mais serenados. Perdemos tempo em não nos aliarmos desde o momento em que você me mandou aquela carta, denunciando que os gringos estavam infiltrados no meu governo, sabotando, no Ministério da Agricultura. Estou muito bem lembrado da sua angústia. A Shell chegou a dizer que nossa luta prejudicava o Brasil. Investir em petróleo era desperdiçar dinheiro etc. Ora vejam, o mesmo que diz esse senador hoje… A Revolução de 30, porém, era avanço histórico, cê sabe disso. O PETRÓLEO É NOSSO dificilmente emplacaria na república velha. Vamos centrar, agora, nossas preocupações no Senado Federal brasileiro, onde, de novo, os gringos, por meio do senador Serra, voltam à carga, para tomar nosso petróleo. Alerta aí, por meio da sua pena brilhante, que os senadores estarão comprometendo o nosso presente e o futuro dos netos deles. Talvez caiam na real. O PETRÓLEO É NOSSO!

– Vamo nessa! O PETRÓLEO É NOSSO! Uhuuul  !!

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Cesar Fonseca é editor do blog independenciasulamericana.com.br

Gênero: eis a questão

Por Geniberto Paiva Campos | Brasília, junho de 2015

“… e criou-os macho e fêmea” – (Gênesis, 1,27)

1. Os intimoratos construtores da nova pauta conservadora brasileira se mostram incansáveis e decididos a fazer o serviço completo: colocar o país em marcha batida para o século 19.

E não basta entregar o Brasil e suas riquezas mais valiosas e cobiçadas ao próximo: a Petrobrás e o Pré Sal; uma Economia aberta e sem nenhum controle do Estado;  um próspero Mercado Consumidor; a Amazônia, com sua fauna e flora, as suas águas e os seus minérios. E o que mais apetecer à nossa Nova Metrópole. Por exemplo, a desistência, definitiva, de fazer parte dos BRICS. E a garantia de alinhamento automático com os interesses geopolíticos da Metrópole.

Comportando-se, enfim, como uma Colônia sensata e obediente aos cânones neoliberais.

É preciso mais, no entanto. E assim como uma espécie de cereja do bolo, entregar um país limpo, isento de alguns devaneios civilizatórios: reduzir ao mínimo a participação das mulheres na vida política e social do país; colocar os adolescentes na cadeia, e  acabar de vez com essa história de GÊNERO. Onde já se viu?!

Seremos uma pátria neoliberal, sim! mas  de machos e fêmeas, cada um em sua função específica.

2. Antes que decidam fazer o lançamento da “Operação Oscar Wilde”, de caça  ao gays; antes do desembarque de mais uma nobre missão do Senado, desta vez na Irlanda, para convencer a sua população das imensas vantagens da democracia hétero:  - “please, ladies and gentlemens, vamos parar com esse papo de casamento gay”, quem sabe, valeria a pena um  - penúltimo – esforço para situar a questão de GÊNERO em seu lugar devido: do ponto de vista da seriedade e da complexidade da questão e da sua exata hierarquia na pauta política atual.

3. Na vigência da segunda década do século 21, causa espanto a forma rasa, rasteira, com a qual se pretende abordar problemas complexos. A questão de GÊNERO  é uma delas. E não é suficiente alegar, ao fazer um indecente reducionismo, que se se faz a “defesa da família brasileira” ao tratar, de forma leviana, com argumentos medievais, a sexualidade humana.

Não é preciso ser tomado da mesma  ira santa do jornalista Ricardo Boechat para demonstrar toda indignação, impossível de disfarçar, diante do farisaísmo hipócrita de alguns defensores da “família brasileira”. Não é disso que se trata.

4. Para chegar ao conceito de Gênero, começaremos com duas assertivas do escritor Colin  Spencer no seu livro  “Homossexualidade: uma história” – ed. Record , 1999):

a) “A Homossexualidade é mais velha que a Humanidade, tendo florescido entre nossos ancestrais homídeos. Pesquisas antropológicas em sociedades pré-históricas estabeleceram que relações entre indivíduos do mesmo sexo eram permissíveis e ainda desempenhavam papel crucial no ritual de passagem masculino”.

b) “ (…) a Homossexualidade não deveria ser explicada, ela apenas existe. O que precisa ser investigado é a opinião que as várias sociedades sempre tiveram sobre ela”.

A Idade Média pode ser assumida como padrão, na qual o comportamento sexual humano passou a ser objeto de uma maior atenção e controle, aí incluídos aspectos morais da sexualidade, ações coercitivas exercidas pelo Estado e pela Religião.

A partir do início do século 18, começou a ser delineada a Homofobia, quando se passou a considerar homens que mantinham relações com pessoas do mesmo sexo como efeminados e criminosos.

Com a extinção do Feudalismo e o início da era do capital e do processo de industrialização, as relações heterossexuais, isto é, o sexo reprodutivo, passaram a ser valorizadas, pela necessidade da sociedade dispor de mão de obra urbana, para a produção industrial.

É perceptível, portanto, a inserção da sexualidade no contexto sócio cultural e econômico das sociedades humanas. Sociedades mais ou menos tolerantes, até Homofóbicas, variam de acordo com as circunstâncias históricas. Mas é cada vez mais evidente que a Homofobia está, quase sempre, associada aos regimes ditatoriais e autoritários.  Sendo o caso mais emblemático a Alemanha hitlerista.

O  conceito de Homossexualidade foi evoluindo ao longo do tempo. Na segunda metade do século passado, a Associação Norte Americana de Psiquiatria retirou a Homossexualidade da lista de  distúrbios mentais. Em seguida, a Organização Mundial de Saúde/OMS retirou esta condição do Código Internacional de Doenças/CID. E o termo “homossexualismo” foi substituído por Homossexualidade. Esta não é, portanto, doença, nem distúrbio, nem perversão. E, finalmente, no Brasil,  o Conselho Federal de Psicologia, no ano de 1999, através de Resolução Normativa  sobre orientação sexual,  determinou que  os psicólogos não devem  exercer qualquer ação que favoreça o reconhecimento  de práticas homoeróticas como doença e/ou patologia. E nem devem colaborar com eventos ou serviços que proponham “tratamento” ou “cura” da Homossexualidade. (Documento “Gênero e Diversidade na Escola”, Governo Federal, 2009).

5. De acordo com o documento anteriormente citado,  “o termo “Gênero” refere-se à maneira como alguém se sente, se identifica, se apresenta para si e para os demais e como é percebido/a como “masculino” ou “feminino”, ou ainda uma mescla de ambos, independente tanto do sexo biológico quando da orientação sexual.”

Percebe-se que o grau de compreensão e abertura para a Homossexualidade ganhou intensidade, no sentido de entender uma condição para a qual não se tem opção ou controle. “Enquanto a cultura ocidental moderna privilegia a diferença sexual como suporte primordial e imutável  da identidade de Gênero. (…) as distinções anatômicas expressariam uma grande linha divisória que separaria homens e mulheres (…) destinados a abrigarem e a desenvolverem emoções, atitudes, condutas e vocações distintas. Isto explicaria que a decisão de alguém de romper com essa suposta determinação do sexo biológico, empreendendo uma transição do masculino ao feminino ou vice-versa, cause escândalo e gere violência e perseguição.”

6.  A descriminalização da Homossexualidade é, portanto, um dos avanços mais marcantes na área de Direitos Humanos e do Processo Civilizatório, nas últimas décadas.

A Homofobia, em contrapartida, vai assumindo o seu lugar, colocada nos desvãos da intolerância e do preconceito, mostrando-se incompatível com os valores da Democracia e da Modernidade.

Por todos os motivos, não se pode conceber de que forma a questão de Gênero afeta a integridade das Famílias Brasileiras. Trata-se de um argumento falacioso, de cunho político ideológico, destinado a camuflar seus verdadeiros objetivos geopolíticos. Não se trata, pois, da defesa da Família. Trata-se de reforçar os interesses de dominação da Metrópole, direcionados a um País continental, cujo maior defeito é a sua grandeza territorial, suas riquezas, seu potencial de desenvolvimento e sua posição estratégica no Continente Americano.

O Contra-senso Comum

Por Boaventura de Sousa Santos | Via Carta Maior

Vejamos 10 convicções que se vão tornando senso comum e que, por serem ilusórias e absurdas, constituem o novo contra-senso comum.

Em 1926, o poeta irlandês W.B. Yeats lamentava: “Falta convicção aos melhores enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade”. Esta afirmação é mais verdadeira hoje que então. Admitamos por hipótese que os melhores no plano pessoal, moral, social e político são a maioria da população e que os piores são uma minoria. Como vivemos em democracia, não nos devia preocupar o fato de os piores estarem cheios de convicções que, precisamente por serem adotadas pelos piores, tenderão a ser perigosas ou prejudiciais para o bem-estar da sociedade. Afinal, em democracia são as maiorias que governam. A verdade é que hoje se vai generalizando a ideia de que as convicções que dominam na sociedade são as apaixonadamente subscritas pelos piores, e que isso é a causa ou a consequência de serem os piores que governam. A conclusão de que a democracia está sequestrada por minorias poderosas parece inescapável. Mas se aos melhores falta convicção, provavelmente também eles não estão convictos de que esta conclusão seja verdadeira, e por isso ser-lhes-á difícil mobilizarem-se contra tal sequestro da democracia. Torna-se, pois, urgente averiguar donde vem no nosso tempo a falta de convicção dos melhores.

A falta de convicção é a manifestação superficial de um mal-estar difuso e profundo. Decorre da suspeita de que o que se difunde como verdadeiro, evidente, e sem alternativa, de facto, não o é. Dada a intensidade da difusão, torna-se quase impossível ao cidadão comum confirmar a suspeita e, na ausência de confirmação, os melhores ficam paralisados na dúvida honesta. A força desta dúvida manifesta-se como aparente falta de convicção. Para confirmar a suspeita teria o cidadão comum de recorrer a conhecimentos a que não tem acesso e que não vê divulgados na opinião publicada, porque também esta está ao serviço dos piores. Vejamos algumas das convicções que se vão tornando senso comum e que, por serem ilusórias e absurdas, constituem o novo contra-senso comum:

A desigualdade social é o outro lado da autonomia individual. Pelo contrário, para além de certos limites a desigualdade social permite aos que estão nos escalões mais altos alterar as regras de jogo de modo a controlar as opções de vida dos que estão nos escalões mais baixos. Só é autónomo quem tem condições para o ser. Para o desempregado sem subsídio de desemprego, o pensionista empobrecido, o trabalhador precário, o jovem obrigado a emigrar, a autonomia é um insulto cruel.

O Estado é por natureza mau administrador. Muitos Estados (europeus, por exemplo) dos últimos cinquenta anos provam o contrário. Se o Estado fosse por natureza mau administrador não seria tantas vezes chamado a resolver as crises económicas e financeiras provocadas pela má gestão privada da economia e da sociedade. O Estado é considerado mau administrador sempre que pretende administrar sectores da vida social onde o capital vê oportunidades de lucro. O Estado só é verdadeiramente mau administrador quando os que o controlam conseguem impunemente pô-lo ao serviço dos seus interesses particulares por via do fanatismo ideológico, da corrupção e do abuso de poder.

As privatizações permitem eficiência que se traduz em vantagens para os consumidores. As privatizações podem ou não gerar eficiência, sendo sempre de questionar o que se entende por eficiência, que relação deve ter com outros valores e a quem serve. As privatizações dos serviços 3 públicos quase sempre se traduzem em aumentos de tarifas, seja dos transportes, da água ou da eletricidade. As privatizações de serviços essenciais (saúde, educação, previdência social) traduzem-se na exclusão social dos cidadãos que não podem pagar os serviços. Se o privado fosse mais eficiente, as parcerias público-privadas ter-se-iam traduzido em ganhos para o interesse público, o contrário do que tem acontecido. O ludíbrio da proclamada excelência do sector privado em comparação com o sector público atinge o paroxismo quando uma empresa do sector público de um dado Estado é vendida a uma entidade pública de um outro Estado, como aconteceu recentemente em Portugal no sector da eletricidade, vendido a uma empresa pública chinesa, ou quando a aquisição de um bem público estratégico por um investidor de um país estrangeiro pode ser financiada por um banco estatal desse país, como acontece no caso da venda em curso da companhia aérea, TAP, com o possível financiamento da compra do investidor brasileiro por parte do banco estatal brasileiro BNDES.

A liberalização do comércio permite criar riqueza, aumentar o emprego e beneficiar os consumidores. Tal como tem vindo a ser negociada, a liberalização do comércio concentra a riqueza que cria (quando cria) numa pequeníssima minoria enquanto os trabalhadores perdem emprego, sobretudo o emprego decentemente remunerado e com direitos sociais. Nas grandes empresas norte-americanas que promovem a liberalização os diretores executivos, CEOs, ganham 300 vezes o salário medio dos trabalhadores da empresa. Por outro lado, as leis nacionais que protegem consumidores, saúde pública e meio ambiente serão consideradas obstáculos ao comércio e, nessa base, postas em causa e provavelmente eliminadas. Estão em curso três grandes tratados de livre comércio: a Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), Acordo de Comércio de Serviços (TiSA), Pareceria Trans-Atlântica de Comércio e Investimento 4 (TTIP). Pelas razões acima, cresce nos EUA (e na Europa, no caso do TTIP) a oposição a estes tratados.

A distinção entre esquerda e direita já não faz sentido porque os imperativos globais da governação são incontornáveis e porque a alternativa a eles é o caos social. Enquanto houver desigualdade injusta e discriminação social (e uma e outra têm vindo a aumentar nas últimas décadas), a distinção faz todo o sentido. Quando se diz que a distinção não faz sentido só a existência da esquerda é posta em causa, nunca a da direita. Sectores importantes da esquerda (partidos socialistas) caíram na armadilha deste contra-senso comum, e é urgente que se libertem dela. Os “imperativos globais” só não permitem alternativas até serem obrigados a isso pela resistência organizada dos cidadãos.

A política de austeridade visa sanear a economia, diminuir a dívida e pôr o país a crescer. Nos últimos trinta anos, nenhum país sujeito ao ajustamento estrutural conseguiu tais objetivos. Os resgates têm sido feitos no exclusivo interesse dos credores, muitos deles especuladores sem escrúpulos. É por isso que os ministros que aplicam “com êxito” as políticas de austeridade são frequentemente contratados pelos grandes agentes financeiros e pelas instituições ao seu serviço (FMI e Banco Mundial) quando abandonam as funções de governo.

Portugal é um caso de sucesso; não é a Grécia. Este é o maior insulto aos melhores (a grande maioria dos portugueses). Basta ler os relatórios do FMI para saber o que está reservado a Portugal depois de a Grécia ser saqueada. Mais cortes nas pensões, mais redução de salários e mais precarização do emprego serão exigidos e nunca serão suficientes. Os “cofres cheios” apregoados pelo atual governo conservador português são para esvaziar ao primeiro espirro especulativo. 5

Portugal é um país desenvolvido. Não é verdade. Portugal é um país de desenvolvimento intermédio no sistema mundial, uma condição que dura há séculos. Foi essa condição que fez com que Portugal fosse simultaneamente o centro de um vasto império e uma colónia informal da Inglaterra. Devido à mesma condição, as colónias e ex-colónias têm por vezes desempenhado um papel decisivo no resgate da metrópole. Tal como o Brasil resgatou a independência portuguesa no tempo das invasões napoleónicas, o investimento de uma ex-colónia (Angola) vai hoje tomando conta de sectores estratégicos da economia da ex-metrópole. Nos últimos trinta anos, a integração na UE criou a ilusão de que Portugal (e a Espanha e a Grécia) podia ultrapassar essa condição semi-periférica. O modo como a atual crise financeira e económica está a ser “resolvida” mostra que a ilusão se desfez. Portugal está ser tratado como um país que se deve resignar à sua condição subalterna. Os portugueses devem contribuir para o bem-estar dos turistas do Norte, mas devem contentar-se com o mal-estar do trabalho sem direitos, da crescente desigualdade social, das pensões públicas desvalorizadas e sujeitas a constante incerteza, e da educação e saúde públicas reduzidas à condição de programas pobres para pobres. O objetivo principal da intervenção da troika foi o de baixar o patamar de proteção social para criar as condições para um novo ciclo de acumulação de capital mais rentável, ou seja, um ciclo em que os trabalhadores ganharão menos que antes e os grandes empresários (não os pequenos) ganharão mais que antes.

A democracia é o governo das maiorias. Esse é o ideal mas na prática quase nunca foi assim. Primeiro, impediu-se que a maioria tivesse direito de voto (restrições ao sufrágio). Depois, procurou-se por vários mecanismos que a maioria não votasse (restrições fácticas ao exercício do voto: voto em dia de trabalho, intimidação para não votar, custos dos transportes para exercer direito de voto, etc.) ou votasse contra os seus 6 interesses (propaganda enganosa, manipulação mediática, indução de medo face às consequências do voto, sondagens enviesadas, compra de votos, interferência externa). Nos últimos trinta anos, o poder do dinheiro passou a condicionar decisivamente o processo democrático, nomeadamente através do financiamento dos partidos e da corrupção endémica. Nalguns países a democracia tem vindo a ser sequestrada por plutocratas e cleptocratas. O caso paradigmático são os EUA. E alguém pode afirmar de boa fé que o atual congresso brasileiro representa os interesses da maioria dos brasileiros?

A Europa é o continente da paz, da democracia e da solidariedade. Nos últimos cento e cinquenta anos, a Europa foi o continente mais violento e aquele em que os conflitos causaram mais mortes: duas guerras mundiais, ambas causadas pela prepotência alemã, o holocausto, e os genocídios e massacres cometidos nas colónias de África e da Ásia. O preconceito colonial com que a Europa continua a olhar o mundo não europeu (incluindo as outras Europas dentro da Europa) torna impossíveis os diálogos verdadeiramente interculturais, esses sim, geradores de paz, democracia e solidariedade. Os valores europeus do cristianismo, da democracia e da solidariedade são em teoria generosos (mesmo se etnocêntricos), mas têm sido frequentemente usados para justificar agressões imperialistas, xenofobia, racismo e islamofobia. O modo como a crise financeira da Europa do Sul tem sido “resolvida”, o vasto cemitério líquido em que se transformou o Mediterrâneo, o crescimento da extrema-direita em vários países da Europa são o desmentido dos valores europeus. Na Europa, como no mundo em geral, a paz, a democracia e a solidariedade, quando são apenas um discurso de valores, visam ocultar as realidades que os contradizem. Para serem vivências e formas de sociabilidade e de política concretas têm de ser 7 conquistadas por via de lutas sociais contra os inimigos da paz, da democracia e da solidariedade.

Centenas de pessoas se reúnem em protesto contra intolerância religiosa no Rio

Via Correio do Brasil

A secretária defende uma ampla agenda de direitos humanos

Centenas de pessoas e representantes de religiões se reuniram neste domingo, na Vila da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, em um ato contra a intolerância religiosa e em apoio à menina Kayllane Campos, 11 anos, vítima de agressão no dia 14 deste mês. Com cartazes que sugeriam “Compartilhar o Amor”, “Mais amor, por favor”, “Deus ama você, sou cristão da paz”, “Basta! Não à intolerância! Respeito. É bom, eu quero!”, os manifestantes defendiam a liberdade religiosa.

O babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), não quis responsabilizar instituições pelo ato, mas condenou a atitude de líderes religiosos que incitam a intolerância. Para ele, a caminhada de hoje reafirmou “o Estado Democrático de Direito e o respeito a todos, que é o que todos nós queremos”.

A secretária de Assistência Social e Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro, Teresa Cosentino, disse que a família de Kayllane recebeu apoio do Poder Público. “Nós damos o apoio psicológico que a família precisa, o apoio jurídico, e nós trabalhamos continuamente contra todo tipo de intolerância e preconceito”. Segundo Teresa, é inadmissível que a sociedade não seja fraterna e  “não respeite o direito do outro”.

A secretária defende uma ampla agenda de direitos humanos.  “A gente vai trazendo outros segmentos que não são religiosos, mas sofrem tanto preconceito, tanta intolerância como os segmentos religiosos. Na verdade, acho que a gente tem que unir todas as pessoas que sofrem algum tipo de discriminação, de preconceito, de apartheid. Porque eu posso ter uma pessoa da umbanda, que é gay; uma mulher que é muçulmana e não pode trabalhar porque usa o véu. Tem uma questão sexista e de religião.”

O chefe de gabinete do Comando-Geral da Polícia Militar do Rio, coronel Íbis Silva Pereira, classificou como “abominável” o episódio ocorrido com Kayllane. “Isso é inaceitável. Qualquer pessoa que tem o sentido do que é viver em uma democracia, tem que estar desse lado, contra todo tipo de opressão e de intolerância”, destacou.

O superintendente de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro, Cláudio Nascimento, anunciou que, em agosto, a secretaria vai iniciar um trabalho de formação com a Polícia Militar.

O intuito é formar 6 mil policiais, em todas as regiões do Estado, contra a intolerância e pela liberdade religiosa. Nascimento disse que iniciativa semelhante foi feita com a Polícia Civil, nos anos 2013 e 2014, com a instrução a quase 4 mil policiais sobre como lidar com as demandas das diversas comunidades religiosas.

– A gente percebeu que é fundamental avançar também para a Polícia Militar, para preparar quem faz o policiamento ostensivo de que o papel da polícia é, inclusive, o de proteger o legado, a história e a liberdade de expressão de todos os segmentos religiosos. O serviço de atendimento do governo fluminense a vítimas de intolerância religiosa é feito por meio do telefone (21) 2334-9550.

O pastor da Igreja Batista da Vila da Penha, João Melo, esteve no evento para manifestar a posição de repúdio à agressão.

O padre José Rosa Afonso, da paróquia Jesus Ressuscitado, da Penha, também esteve presente. “Deus ama a todos, quis salvar a todos e a fé não se impõe a ninguém; se propõe. Cada um tem a liberdade de escolha”, disse o pároco. Ele avaliou que a agressão à menina foi fruto de um fanatismo religioso que gera intolerância na sociedade.

O padre destacou que a Igreja Católica é aberta ao diálogo ecumênico e interreligioso com cristãos e não cristãos. ”Não está certo matar em nome de Deus e praticar violência em nome de Deus, em nome da religião. A religião deve religar os homens a Deus, não dividir as pessoas.”

O dia em que o homem mais rico do Brasil pegou um elevador comum

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Lemann foi constrangido, segundo Fernando Rodrigues

Um texto da grande mídia me chamou particularmente a atenção na semana passada.

O motivo é que ele era extraordinariamente revelador da mentalidade que domina as corporações jornalísticas.

O autor do texto é o jornalista Fernando Rodrigues, do UOL.

Ele escreveu sobre o “constrangimento” imposto ao “homem mais rico do país”, Jorge Paulo Lemann, por este ser obrigado a usar o elevador comum numa visita a Dilma no Palácio do Planalto.

Usar elevador comum é fonte de constrangimento: este é o ponto de Fernando Rodrigues.

Um fotógrafo reconheceu Lemann e registrou a cena. Rodrigues classificou-a, triunfante, como um “furo”.

Pobre sociedade brasileira.

Na Escandinávia, como Claudia Wallin mostrou em seus textos, juízes da Suprema Corte se locomovem de bicicleta de casa rumo ao trabalho. Dirigem seus próprios carros, pagam suas contas, lavam suas roupas.

E dividem os elevadores com as pessoas que querem subir ou descer.

Primeiros ministros também.

É uma cultura igualitária – e é aquela pela qual se bate o DCM.

No Brasil, pelo menos no Brasil das empresas de jornalismo, é o oposto. Um empresário pegar o elevador comum é um embaraço.

É uma coisa que reflete o que os jornalistas vêem em seu ambiente de trabalho. Quase sempre, quando os patrões chegam, os elevadores são imperialmente bloqueados aos demais funcionários.

Sua Majestade chegou.

Essa mentalidade está na raiz dos privilégios dados ao chamado 1%. Entende-se que eles não pertencem ao mesmo mundo de todos os outros, mas a uma esfera superior, digna do tratamento dispensado aos Luíses da França pré-Revolução.

Pegar seu próprio café passa a ser um insulto. Lavar sua própria sujeira, pior ainda. Dirigir seu próprio carro, nem pensar.

Aliás: quem falou em carro próprio?

Veja os juízes do STF. Não apenas andam de carros pagos pelos contribuintes como têm motoristas para levá-los a almoços e jantares que não pagarão com o seu dinheiro.

É isso também que leva um senador como Aécio a achar normal requisitar um avião da FAB, sustentado pelos contribuintes, para uma missão patética na Venezuela.

Na classe média, essa mentalidade é uma tragédia. Não lavamos nossos pratos, não fazemos nossa cama. E se quem faz isso por nós ascende socialmente, como aconteceu nos últimos anos, ficamos revoltados e vamos bater panelas.

Na Escandinávia, vigora a Janteloven, um código de conduta derivado do que vigorava nos romances de um escritor antigo local.

O primeiro mandamento é: “Não sou melhor que você e nem pior.” O lixeiro não é pior que o primeiro ministro, o milionário não é melhor que a faxineira.

No Brasil das companhias jornalísticas, um empresário sofre um constrangimento se pegar um elevador ao lado de gente comum.

O dia em que esse tipo de mentalidade desaparecer – e o DCM contribuirá para tanto, na medida de nossas modestas possibilidades – seremos uma sociedade enfim desenvolvida.

O começo do fim da era da primeira página

Por Carlos Castilho | Via Observatório da Imprensa

Facebook e Google mudam os hábitos de leitura do público, forçam recuo da imprensa e criam uma mega banca de jornais, onde são acessados artigos e reportagens em vez de exemplares.

O primeiro sintoma da nova tendência surgiu com o acordo entre a rede social Facebook e sete grandes jornais, revistas e telejornais da Europa e Estados Unidos. Agora ganham força os rumores de que a empresa Google está desenvolvendo um projeto batizado como “notícias em contêineres” (containerized embeddable article) que, se for posto em pratica, marcará a agonia das primeiras páginas como porta de entrada para a leitura de notícias.

Além disso, consagrará a transformação dos jornais, revistas e telejornais em produtores de conteúdo disputando audiências com milhares de blogueiros e produtores autônomos de páginas noticiosas na web. As milionárias empresas que imprimem e distribuem publicações impressas, bem como os canais abertos que transmitem telenoticiários, perdem o que já foi um poderoso filão de negócios e terão que buscar a sua sobrevivência noutros ramos da atividade editorial.

projeto Instant Articles, lançado há semanas pelo Facebook, permite aos usuários da rede ingressar pela porta do lado nos conteúdos editoriais do The New York TimesThe Guardian,Bild, das revistas The AtlanticSpiegel Online,National Geographic e dos telejornais da BBC News. Cria-se assim um quiosque virtual onde as pessoas acessam artigos e não as publicações.

Foi a primeira grande derrota dos grandes jornais do planeta no esforço contra a transformação irresistível das empresas digitais em coprodutoras de conteúdo. A grande reclamação da imprensa era de que as redes sociais canibalizavam os jornais, revistas e telejornais sem pagar nada. Na Europa houve até ações judiciais contra a empresa Google, responsável pelo projeto Google News, que publicava notícias selecionadas entre mais de quatro mil jornais do mundo em mais de 10 idiomas diferentes.

Os “contêineres” noticiosos poderão circular livremente pela web como pacotes fechados, incluindo publicidade, sem pagamento de direitos autorais. A empresa Google dará um passo adiante do Facebook na construção de uma nova mega aliança na mídia internacional, reunindo de um lado a nova geração de milionários online surgida no Sillicon Valley e as empresas tradicionalíssimas no jornalismo mundial.

Tudo em nome do dinheiro, já que as redes sociais se transformaram no principal palco da visibilidade pública e os jornais preferem perder os anéis para manter os dedos em matéria de receitas publicitárias. Outra mudança importante sinalizada pelos novos movimentos no xadrez da mídia mundial é a perda de relevância dos direitos de autor, antes zelosamente preservados pelas empresas.

São todas mudanças que poderiam ser consideradas naturais e inevitáveis num mundo que está em rápida transformação no que se refere à produção e distribuição de dados e informações. É a transição de um modelo de comunicação para outro. Os jornais e telejornais perderam a exclusividade da notícia de atualidade e estão sendo obrigados agora a apostar na informação contextualizada, na reportagem investigativa e no uso de bases de dados para sobreviver.

Mas mesmo nessas áreas o futuro é incerto porque se multiplicam as páginas web de especialistas independentes nos mais diversos ramos do conhecimento humano, bem como cooperativas de jornalistas investigativos e analistas de dados capturados na chamada internet das coisas. A publicidade é outro segmento que já está quebrando paradigmas, pois o controle do fluxo de visitantes torna-se mais relevante para a monetização dos anúncios do que o total de visualizações.

Em meio a tantas incertezas, uma coisa parece, no entanto, quase certa: os usuários de páginas noticiosas na web terão mais poder para mudar as regras do jogo do que os leitores de jornais ou revistas impressos, por exemplo.