Arquivos da categoria: Cultura

Tem início o fim do capitalismo (II)

Por Paul Mason | Via The Guardian

Sem alarde, estamos adentrando a era pós-capitalista. No coração das mudanças estão as tecnologias de informação, as novas formas de trabalho e a economia compartilhada. As velhas formas ainda levarão um longo tempo para desaparecer, mas a hora é de abrir espaço a utopia. Acesse aqui a parte I.

Idealização de uma sociedade de economia compartilhada. Ilustração de Phil Wrigglesworth

A quebradeira de 2008 derrubou em 13% a produção global e em 20% o comércio internacional. O crescimento global tornou-se negativo – numa escala em que qualquer digito abaixo dos +3% é interpretado como recessão. No ocidente, desencadeou-se uma depressão mais duradoura que a vista em 1929-33, e mesmo agora, com uma tímida recuperação, deixou vários economistas ortodoxos aterrorizados com a perspectiva de estagnação de longo prazo. A Europa começa a desintegrar com os efeitos pós-crise.

A “solução” foi austeridade conjugada a expansão monetária, que não está funcionando. Nos países mais atingidos a previdência social foi destruída e a idade de aposentadoria chega aos 70, enquanto a educação está sendo privatizada e os graduandos sendo submetidos a uma alta dívida que carregarão por toda a vida. Os serviços públicos são desmantelados e os projetos de infraestrutura suspensos.

Até agora grande parte da população não entendeu o real significado da palavra “austeridade”. Austeridade não são oito anos de cortes de gastos, como no Reino Unido, ou a catástrofe social infligida na Grécia. Significa baixar os salários, auxílios e padrão de vida ocidental por décadas até que estes se encontrem com os da classe média chinesa e indiana ascendentes.

Enquanto um modelo alternativo não surge, as condições para outra crise surgem. Os salários reais caíram ou estagnaram no Japão, no sul da Eurozona, nos EUA e Reino Unido. O shadowbanking se reergueu e agora está ainda maior do que em 2008. As regras de restrição que demandavam mais reservas aos bancos foram enfraquecidas ou adiadas. Paralelamente, o 1% tornou-se ainda mais rico com as injeções monetárias.

O neoliberalismo degenerou num sistema programado para falhar e infligir catástrofes de forma sistemática. Pior que isso, fez quebrar o capitalismo industrial, que vinha numa trajetória de 200 anos em que cada crise econômica encontrava saída nas inovações tecnológicas com efeitos de inclusão.

Isto se dá por conta do neoliberalismo ser o primeiro modelo em 200 anos a se basear na premissa de que é necessário suprimir os salários, o poder e a organização da classe trabalhadora. Se revirmos os períodos anteriores estudados pelos teóricos de longo prazo – a segunda metade do século XIX na Europa e o século XX até seu segundo terço no mundo – temos que eles se baseiam no trabalho organizado que forçou as corporações e empreendedores a inovar, no lugar de aumentar seus lucros por meio dos cortes salariais.

A cada inovação encontrávamos uma síntese de automação, salários crescentes e maior consumo. Atualmente não há mais pressão trabalhista e a tecnologia no centro das ondas de inovação não demanda a criação de maiores gastos com consumo ou o remanejamento da força de trabalho em novos empregos. A informação é uma máquina que deprime os preços e reduz o tempo necessário de trabalho para garantir a subsistência.

Como resultado, os homens de negócios se acomodaram. Quando confrontados com a possibilidade de investir em sequenciamento genético, preferem abrir novos cafés, bares e contratar empresas de limpeza: o sistema financeiro, o planejamento estatal e a cultura neoliberal contemporânea valorizam, acima de tudo, atividades de baixo valor agregado e empregos de longa carga horária.

A inovação tem acontecido, mas até agora não desencadeou a quinta ascensão capitalista que a teoria de longo ciclo esperava. As razões para isso estão na natureza da tecnologia da informação.

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Esse texto é parte do artigo original em inglês, “The end of capitalism has begun”, que o Blog dos Desenvolvimentistas traduzirá por inteiro, publicando em 6 partes.

A Alemanha como problema

Por Boaventura de Sousa Santos

Devemos aos gregos o trágico mérito de mostrar aos povos europeus que a Alemanha não é capaz de se autoconter.

Wolfgang Schauble

O maior problema da Europa não é Grécia. É a Alemanha. Há pouco mais de dois anos (5 de Maio de 2013) publiquei um texto neste jornal intitulado O Diktat Alemão no qual descrevia as justificações dadas pela Alemanha no início da Primeira Guerra Mundial para as atrocidades que cometeu contra um pequeno país, a Bélgica, que se recusara a colaborar com os seus desígnios bélicos.

O modo destemperadamente cruel como a Alemanha se está a vingar de um acto de desobediência de um outro pequeno país, a Grécia, obriga-nos a rever a história recente da Europa e, a partir dela, a pensar o nosso futuro comum. Não se trata de ressuscitar fantasmas há muito enterrados e muito menos de supostos sentimentos anti-germanistas que só poderiam accionar, por oposição, sentimentos filogermanistas. Isso aconteceu há setenta anos e as discussões havidas de pouco valeram aos povos europeus (e não europeus) massacrados por uma guerra cruenta. Trata-se apenas de rever as soluções que foram dadas ao problema alemão depois da Segunda Guerra Mundial, de analisar os seus limites e imaginar outras possíveis soluções.

O problema alemão sempre foi o de ser grande de mais para a Europa e pequeno de mais para o mundo. De um lado, o expansionismo dos impérios alemão e austro-húngaro, do outro, uma das mais pequenas potências coloniais europeias, com um curto período colonialista (1884-1919), e sem sequer deixar a língua alemã entre os colonizados, ao contrário do que aconteceu com as outras potências europeias. Para não falar da guerra franco-prussiana (1870-1871), dominada pelo desejo de Bismarck de unificar a Alemanha sob a égide da Prússia e pelo temor da França de que daí adviesse um excessivo domínio alemão sobre a Europa, a arrogância bélica da Alemanha nas duas guerras mundiais do século XX causou uma devastação sem precedentes. Só na Segunda Grande Guerra morreram 60 milhões de pessoas, 3% da então população mundial. Em 1945, a solução encontrada para conter o problema alemão foi a divisão da Alemanha, uma parte sob controle soviético e outra, sob controle ocidental. Esta solução foi eficaz enquanto durou a guerra fria. Com a queda do Muro de Berlim (1989) e a subsequente reunificação da Alemanha houve que encontrar outra solução.

Deve notar-se que a reunificação da Alemanha não foi desenhada como um novo Estado (como muitos democratas da Alemanha Oriental queriam) mas sim como uma ampliação da Alemanha Ocidental. Isso levou a pensar que a solução estava afinal encontrada desde que em 1957 se criara a Comunidade Económica Europeia (mais tarde União Europeia), com a participação da Alemanha Ocidental e com o objectivo, entre outros, de conter o extremo nacionalismo alemão. A verdade é que esta solução funcionava “automaticamente” enquanto a Alemanha estivesse dividida. Depois da reunificação, ela dependeria da autocontenção da Alemanha. Esta autocontenção foi durante os últimos vinte e cinco anos o terceiro pilar da construção europeia, sendo os outros dois o consenso nas decisões e a progressiva convergência entre os países europeus. O modo como foi sendo “aprofundada” a UE foi revelando que os dois primeiros pilares estavam a ceder e a criação do euro deu um golpe final no pilar da convergência. A importância transcendente da crise grega é a de revelar que o terceiro pilar também ruiu. Devemos aos gregos o trágico mérito de mostrar aos povos europeus que a Alemanha não é capaz de se autoconter. A nova oportunidade dada à Alemanha em 1957 acaba de ser desperdiçada. O problema alemão está de volta e não augura nada de bom. E se a Alemanha não é capaz de se autoconter, os países europeus têm rapidamente de a conter. O antigo chanceler alemão, Helmut Schmitt, viu este perigo com ímpar lucidez ao afirmar há muitos anos que, para seu próprio bem e o bem da Europa, a Alemanha não devia sequer tentar ser o primeiro entre iguais. Mal podia ele imaginar que a Alemanha se converteria em poucos anos no primeiro entre desiguais. E não nos sossega pensar que a Alemanha de hoje é uma democracia, se essa democracia for über alles. Não nos esqueçamos de que a terapia da imposição violenta exercida contra a Grécia foi praticada antes contra uma região derrotada da Alemanha, a Alemanha Oriental, durante o processo de reunificação e, de facto, praticada pela mesma personagem, Wolfgang Schäuble, então ministro do Chanceler Helmut Kohl. A diferença crucial foi que, nesse caso, a fúria financeira de Schäuble teve de ser politicamente contida por se tratar do mesmo povo alemão. Os gregos e, daqui em diante, todos os europeus pagarão caro por não serem alemães. Isto, a menos que a Alemanha seja democraticamente contida pelos países europeus. Não vejo muitas vantagens em reagir defensivamente com o regresso ao soberanismo. Em verdade, o soberanismo está já instalado na Europa, só que sob duas formas: o soberanismo ofensivo dos fortes (encabeçado pela Alemanha) e o soberanismo defensivo dos fracos (tentado pelos países do sul, a que se junta, ainda meio atordoada, a própria França). No contexto europeu, o soberanismo ou o nacionalismo entre desiguais é um convite à guerra. Daí que, por mais ténue que seja a possibilidade de êxito, há que tentar reconstruir a União Europeia sobre bases democráticas, uma Europa dos povos onde deixem de dominar burocratas cinzentos e não eleitos ao serviço dos clientes mais fortes ante a distração fácil de representantes democraticamente eleitos mas politicamente desarmados.

Estas soluções não resolverão tudo pois o problema alemão tem outras dimensões, nomeadamente culturais e identitárias, que se revelam com particular virulência em relação aos países europeus do sul. Em carta dirigida ao seu amigo Franz Overbeck, em 14 de Setembro de 1884, Friedrich Nietzsche zurzia “o medíocre espírito burguês alemão” pelo seu preconceito contra os países do sul da Europa: “frente a tudo o que vem dos países meridionais assume uma atitude entre a suspeita e a irritação e só vê frivolidade… É a mesma resistência que experimenta em relação à minha filosofia… O que detesta em mim é o céu claro”. E concluía: “um italiano disse-me há pouco: ‘em comparação com o que nós chamamos céu, o céu alemão é uma caricatura’”. Traduzido para os tempos de hoje, é crucial que os europeus do sul convençam os alemães de que o céu claro do sul não está apenas nas praias e no turismo. Está também na aspiração do respeito pela diversidade como condição da paz, da dignidade e da convivência democrática.

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Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Tem início o fim do capitalismo (I)

Por Paul Mason | Via The Guardian

Sem alarde, estamos adentrando a era pós-capitalista. No coração das mudanças estão as tecnologias de informação, as novas formas de trabalho e a economia compartilhada. As velhas formas ainda levarão um longo tempo para desaparecer, mas a hora é de abrir espaço a utopia.

Idealização de uma sociedade de economia compartilhada. Ilustração de Phil Wrigglesworth

As bandeiras vermelhas e marchas do Syriza, acrescidas da expectativa de nacionalização dos bancos, reviveu o sonho do século 20: a de destruição intencional do mercado. Durante grande parte desse século esta foi a forma que a esquerda concebeu o primeiro estágio de economia além do capitalismo. A força seria aplicada pela classe trabalhadora, nas urnas ou nas barricadas. O Estado seria a alavanca. A oportunidade seria os frequentes episódios de colapso econômico.

No entanto, o que colapsou nos últimos 25 anos foi o projeto da esquerda. O mercado se sobrepôs; o individualismo suplantou o coletivismo e a solidariedade; a enorme força de trabalho mundial ainda parece o “proletariado”, mas já não pensa ou age como antes.

Se você viveu todo o processo e não gosta do capitalismo, foi traumático. Porém, nesse processo a tecnologia criou uma nova rota, a qual os remanescentes da velha esquerda – e todas as outras forças por ela influenciada – precisa assimilar, ou perecer. O capitalismo não será abolido por técnicas de força. O será criando algo mais dinâmico que o existente, que a princípio não será notado pelo velho sistema, o que desencadeará fissuras que remodelarão a economia em torno de novos valores e comportamentos. Chamo isso de pós-capitalismo.

Assim como na queda do feudalismo há 500 anos, o pós-capitalismo ascenderá por meio de choques externos e será modelado pelo surgimento de um novo tipo de ser humano. O processo já teve início.

O pós-capitalismo é possível por conta de três grandes mudanças que a tecnologia da informação nos proporcionou nos últimos 25 anos. Primeiramente, ocorreu a redução da necessidade de trabalho, o que afrouxou as relações entre trabalho e tempo livre, desconectando então o trabalho dos salários. A próxima onda de automação – que se encontra num impasse por conta da incapacidade da infraestrutura social absorver suas consequências – diminuirá decisivamente a quantidade de trabalho necessária não só para subsistência como para prover uma vida decente a todos.

Segundo, a informação está corroendo a habilidade dos mercados de formar preços corretamente. Isto porque os mercados se baseiam na escassez enquanto a informação é abundante. A defesa do sistema para essa contradição é formar monopólios – as gigantes corporações de tecnologia – numa escala não vista nos últimos 200 anos, sem os quais não conseguem se sustentar. Ao construir modelos e distribuir valores por meio da captura e privatização de toda a informação socialmente produzida, estas empresas constroem um frágil edifício corporativo que contradiz a mais básica necessidade humana, que é o uso livre das ideias.

Terceiro, assistimos o surgimento espontâneo da produção colaborativa: bens, serviços e organizações são fornecidos sem reconhecer as normas de mercado e de hierarquia gerencial. O maior produto informativo do mundo – Wikipédia – é feito voluntariamente e sem custos, o que aboliu o negócio das enciclopédias, tirando da indústria de anúncios rendimentos estimados em 3 bilhões de dólares anuais.

Quase não noticiado nos nichos e círculos do sistema de mercado, setores inteiros da vida econômica se movem num ritmo diferente. Moedas paralelas, bancos de horas, cooperativas e espaços autogeridos se proliferaram, sem serem notados pelos mercados, e muito em resposta a crise de 2008, que abalou seriamente as estruturas então vigentes.

Você somente achará esta nova economia caso procure vigorosamente. Na Grécia, onde uma ONG local mapeou as cooperativas de alimentos, produção alternativa, moedas paralelas e sistemas de troca locais, encontraram mais de 70 projetos de peso e centenas de pequenas iniciativas que vão da carona solidária a jardins de infância gratuitos. Os economistas ortodoxos nem ao menos os reconhecem como atividades econômicas – e este é o ponto. Tais projetos existem porque há trocas, ainda que exitantes e ineficientes, por meio de trocas do pós-capitalismo: tempo livre, atividades em rede e gratuidade. Pode até parecer rudimentar e perigoso pretender construir uma alternativa de substituição ao sistema global, mas isso foi exatamente o que fez o dinheiro e o crédito na época de Edward III.

Compartilhando os frutos do nosso trabalho. Ilustração de Joe Magee

Novas formas de propriedade, novos modelos de empréstimos, novos contratos: toda uma subcultura emergiu nos últimos 10 anos, a qual a grande imprensa chamou de “economia compartilhada”. Neologismos como “produção colaborativa”, “commons” estão por aí, mas poucos se perguntaram que efeitos esse novo modelo infligirá sobre o capitalismo em si.

Acredito que este caminho nos oferece uma rota de escape – mas somente se estes microprojetos forem nutridos, promovidos e protegidos por uma mudança fundamental no comportamento dos governos. Mudança essa que deve ser dirigida por uma nova maneira de pensar a tecnologia, a propriedade e o trabalho. Então, quando criamos os elementos de um novo sistema, poderemos dizer a si e aos outros: “Este não é somente o meu mecanismo de sobrevivência e escape do mundo neoliberal; esta é uma nova forma de viver em pleno processo de formação.

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Esse texto é parte do artigo original em inglês, “The end of capitalism has begun”, que o Blog dos Desenvolvimentistas traduzirá por inteiro, publicando em 6 partes.

O lobby gosta de Trotsky, mas preferiu esconder Padura

Por Alberto Dines | Via Observatório da Imprensa

A classe média adulta, letrada e politizada está entusiasmada com o romance “O homem que amava os cachorros”, graças sobretudo ao boca-a-boca, muito mais eficaz e persistente do que as resenhas apertadinhas, burocráticas, rasteiras, publicadas em nossa mídia impressa.

Mas o lobby midiático que atende a este seleto público resolveu dar um gelo no autor, Leonardo Padura. E não por que seja chato, escreva mal ou por que tenha horror a Leon Trotsky, o revolucionário que adorava galgos, assassinado a mando de Stalin e desde 1940 enfiado por ele na lata de lixo da história de onde Padura o resgatou magistralmente.

Explica-se: além de primoroso narrador e um dos melhores e mais criativos escritores da atualidade, Padura é essencialmente cubano, não é “dissidente”, é rigorosamente independente. Critica o que tem de criticar, não se obriga a ser porta-voz de coisa alguma. Quer ser visto e discutido como escritor. Se a qualificação de cubano for indispensável que o qualifiquem assim, afinal Cuba é a sua terra, só sabe escrever quando está em Cuba e sem perdê-la de vista.

Nascido três anos antes de revolução cubana, Padura é principalmente uma amostra dos valores humanos que lá foram mantidos e lá estão sendo estimulados há mais de meio século. Embora o pais esteja ainda distante do que costumamos classificar de “normal” e democrático, Padura não é diferente do americano Paul Auster sobre quem escreveu um brilhante ensaio (Yo quisera ser Paul Auster).

Embora a imprensa do seu país seja prisioneira do regime político, Padura foi repórter investigativo e não perdeu o senso crítico para detectar os vícios que hoje deformam a imprensa internacional.

Para o lobby midiático não convém glorificar Padura, ele representa uma “normalidade” que não deve ser enfatizada. Os princípios e valores que ele encarna (pelo menos nas obras lidas por este observador, “O homem que amava cachorros” e “Hereje” – a ser lançada em Setembro) são inconvenientes porque um escritor cubano não pode ser um humanista, cosmopolita, refinado intelectual – só tem o direito de encarnar o rebelde anti-castrista ou, ao contrário, o burocrata a serviço de uma tirania.

Este Padura ocidental, legítimo herdeiro de Balzac e Tolstoi, derruba os mitos e estereótipos caricaturados ao longo de quase seis décadas pelos propagandistas da Guerra Fria.

Quantas emissoras de TV o entrevistaram? Quantos suplementos culturais e revistas fizeram seu perfil além da abençoada exceção de “Época”? Padura é, sim, um fenômeno literário. Com meia dúzia de escritores deste porte e vigor nossas livrarias voltarão a encher-se sem recorrer a truques de marketing e modismos anti-literários como os tais livros para colorir.

Este quase desconhecido Leonardo Padura foi entrevistado nesta terça feira (14/7) no programa de TV “Observatório da Imprensa”. Você pode assistir à entrevista no canal de vídeo aqui neste portal. Confira.

Contratos de clubes com a TV estarão em análise na CPI do Futebol, diz Jucá

Por Mariana Tokarnia | Via Agência Brasil

O direito de transmissão do futebol pelos veículos de comunicação será uma das questões a serem tratadas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Futebol, do Senado Federal, segundo o relator da CPI, Romero Jucá (PMDB-RR). “Isso é uma relação comercial entre o clube e uma ou duas redes de televisão. [Vamos discutir] como democratizar isso, como discutir isso para que efetivamente tenhamos um posicionamento que seja transparente e ao mesmo tempo construtivo”, disse hoje (21) durante entrevista no programa Espaço Público da TV Brasil.

O senador Romero Jucá particpou do programa Espaço Público da TV Brasil desta terça-feira (21)Foto: Agência Brasil

Perguntado se o Legislativo pretende atuar na questão que envolve os contratos dos clubes com as empresas de comunicação que transmitem as competições pela TV, por exemplo, o Campeonato Brasileiro da Série A, Jucá disse: “Esse é um dos pontos que vamos avaliar, a relação comercial da rede de televisão, do time de futebol, da Confederação Brasileira de Futebol [CBF]. Essa relação não está muito clara para a população”.

A CPI foi criada, em maio deste ano, para investigar denúncias de irregularidades em contratos da CBF referentes a competições organizadas pela entidade, após as prisões dos dirigentes da Federação Internacional do Futebol (Fifa) decorrentes da investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre fraude na escolha dos países-sede das duas próximas Copas do Mundo (Rússia, em 2018, e Catar, em 2022). A CPI é presidida pelo senador Romário (PSB-RJ).

As reuniões do colegiado começarão no dia 4 de agosto, após o recesso parlamentar. “Vamos solicitar as informações do FBI [Agência Federal de Investigação dos Estados Unidos], vamos começar a ouvir setores. Veja bem, na CPI, o objetivo não é só processar alguém, mandar prender, porque o Marin [ex-presidente da CBF, José Maria Marin] já está preso [na Suíça] e o Ministério Público já está investigando. Alguém tem dúvida que o FBI passou as informações e o MP está investigando?”, disse. “A CPI não pode se esgotar no processo investigativo, tem o processo propositivo. O que vai mudar no futebol depois da CPI?”

OPERAÇÃO LAVA JATO

Alvo das apurações da Operação Lava Jato, Jucá criticou durante o programa o vazamento de depoimentos de delação premiada. “Uma denúncia feita por alguém, que não está comprovada, em um país sério, não vazaria”, disse.

Segundo ele, os vazamentos contribuem para acirrar o momento de crise vivido pelo país. “Defendo um grande pacto entre o Executivo, Legislativo e Judiciário para que a gente reordene o país”, ressaltou. “Acho que não adianta jogar mais fogo, há um processo claro de combustão”, completou.

O senador disse ainda que contribuiu com as investigações e aguarda a decisão. “Investigar é legítimo. Quem está na vida pública está sujeito a isso. O demérito não é ser investigado, mas ser condenado”.

 

Telesur: 10 anos de jornalismo pela integração

Por Beto Almeida | Brasília, 20/07/2015

A Telesur – tv latino-americana, fruto da visão estratégica de Hugo Chávez, com o apoio de outros países – completa 10 anos de jornalismo transformador e de integração dos povos no dia 24 de julho, simbólica data do natalício de Simon Bolivar! Estruturar, manter no ar, qualificar e expandir a programação e o alcance, são vitórias da Revolução Bolivariana e do processo de integração da América Latina, levando ao mundo uma mensagem de que sim é possível fazer um jornalismo que não seja prisioneiro da ditadura de mercado, do consumismo ou da ideologia guerreira que o imperialismo impõe aos meios de comunicação no mundo.

Telesur segue colocando em prática a recomendação de Chávez de ser uma ferramenta de “enamoramento dos povos’, pelo tratamento noticioso solidário, democrático, revolucionário na forma e no conteúdo. Foi a única emissora a cobrir com independência e denunciar, a sanguinária agressão imperialista contra a Líbia, por exemplo, país que tinha os melhores indicadores sociais da África e que agora vive uma degradante tragédia social. Nestes 10 anos, foi a Telesur que ofereceu informação veraz sobre a Causa Palestina, sobre o golpe imperial na Ucrânia, sobre os processos de lutas dos excluídos em todos os lados, sobre as eleições e as conquistas de governo populares na Celac, fenômenos sistematicamente distorcidos pela mídia do capital.

Agora que o Mercosul se amplia e se fortalece com o ingresso da Bolívia, e que a integração econômica, produtiva, social, educacional, sanitária expande-se por vários países da região, e que a Telesur expande seu alcance, já transmitindo também em inglês, é muito importante que as forças progressistas priorizem a recomendação aprovada na Reunião do Mercosul Social para que todos os países do bloco transmitam a emissora bolivariana. Ou seja, um recado direto para o Brasil, onde um Convênio entre Telesur e TV Brasil, já existente, continua engavetado há anos, ficando os brasileiros privados de terem uma informação diversificada, humanizadora e profissional sobre o mundo, ao mesmo tempo em que fica descumprida diretriz constitucional que prega ser a integração latino-americana um objetivo da República do Brasil.

Nove de Julho, quando os paulistas comemoram uma derrota

Por Sérgio Caldieri | Niterói 09/07/2015

A Revolução Constitucionalista de 1932 marcou a insurgência do povo paulista contra o resto do país, que buscava a derrubada do governo provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova Constituição.

Os paulistas nunca engoliram Getúlio Vargas na destruição da política do café paulista com o leite mineiro, em 1930. E com isto, o nome de Getúlio Vargas foi banido das ruas, praças, avenidas, escolas, faculdades, universidades, hospitais, prédios, etc…etc…

O ex-governador Armando Salles de Oliveira convocou os escritores das academias e do instituto histórico de São Paulo, Afonso d´Escragnolle Taunay, Bernardo Élis e outros, para iniciar uma lavagem cerebral com o objetivo de destruir o Getúlio Vargas do mapa, e endeusar os bandeirantes assassinos de índios durante mais de 100 anos. Além de roubarem as pedras preciosas e ouros das nossas Minas Gerais, Goiás e outros estados.

As toneladas do metal dourado serviram para reconstruir as cidades e as igrejas ornamentadas de ouro depois do terremoto de Lisboa, em 1755. E ainda sobrou tanto ouro que mandaram para a pobrezinha Inglaterra, que deveria ser para fabricação de dentadura de ouro para a realeza.

Os escritores amestrados globalizaram os bandeirantes em materiais escolares, hinos, matérias em jornais, revistas e tudo quanto é propaganda, além nas rodovias paulistas com os nomes de Anhanguera, Raposo Tavares, Fernão Dias, Pedro Taques, Bandeirantes e os Monumento às Bandeiras do Victor Brecheret e o horroroso Borba Gato.

Getúlio descendente de um bandeirante

O filho de Getúlio Dorneles Vargas, Lutero Sarmanho Vargas escreveu o livro A revolução inacabada, onde contou que em relação ao nome Vargas “cabe registrar que meu pai, se não fosse uma paixão de seu bisavô paterno, poderia ter se chamado Bueno, pois esse bisavô chamava-se Francisco de Paula Bueno. Segundo Aurélio Porto, os Buenos são de ascendência conhecida. Originam-se de Bartolomeu Bueno de Ribeira, natural de Sevilha que foi para São Paulo em 1571. Entre os descendentes de Bartolomeu sobressai Amador Bueno, o homem que não quis ser aclamado rei.

“Meu tio Benjamim contou-me que esse bisavô Bueno, apaixonando-se por uma professora, largou a mulher e filhos e foi-se com seu novo amor, montados a cavalo. Quando os filhos chegaram em casa, sua mãe, Ana Joaquina de Vargas, informou-lhes do sucedido e eles, em número de cinco, saem em busca do pai. Encontrando-o, este os recebe de maus modos e perguntou-lhes o que desejavam. Os filhos responderam-lhe que não desejavam brigar e sim apenas levá-lo de volta para casa. Respondeu-lhes: Já estão taludos para necessitarem de um pai, voltem para casa. Eu não vou com vocês, vou fazer uma nova vida com esta que me acompanha. Os filhos voltaram e riscaram definitivamente o nome Bueno”.

Lutero lembrou que o exército paraguaio invadiu São Borja em 10 de junho de 1865. Um dos Voluntários da Pátria, estava o jovem Manoel do Nascimento Vargas. Em Itaqui, cidade vizinha de São Borja, chegou o 1º. Tenente Francisco de Paula Sarmanho, vindo do Pará, para servir a Marinha de Guerra do Brasil. Esse tenente casou com Virgínia Ferreira que foi o avô paterno de sua mãe Darcy Vargas.

Manoel do Nascimento Vargas, como sabia ler e escrever, foi promovido a cabo. Quando ele passou pela fazenda de Santos Reis, de propriedade do Major Serafim Dornelles, conheceu Cândida Francisca Dornelles. Depois que deu baixa no exército o jovem capitão foi trabalhar no comércio de couros e erva-mate e, em uma de suas passagens pela fazenda de Santos Reis, pede Cândida Dornelles em casamento, que foi celebrado em 16 de janeiro de 1872.

As três filhas do austero Major Serafim Vargas casaram com maridos de grandes posses. A mais velha Leocádia, casou com Antônio Garcia, um abastado fazendeiro e futuro padrinho de Getúlio Vargas, que não tinha herdeiros deixou com herança para o afilhado a fazenda Figueira. A filha Luiza casou com Aparício Mariense da Silva, rico fazendeiro e político famoso. A filha caçula Zulmira casou com Periandro Malveiro da Motta, da casa fidalga dos Malveiro de Portugal.

No primeiro governo de Leonel Brizola, em 1983 tivemos o Periandro Motta, coronel do exército, que foi tesoureiro do PDT, trabalhou como diretor da Loterj e diretor do Detran na gestão de José Colagrossi quando foi Secretário Estadual de Transportes.

E para refrescar a memória, é bom lembrar que uma das grandes vitórias de Getúlio Vargas foi conquistada nas eleições de 1945. Sem sair da sua fazenda, Getúlio recebeu nada menos que 1 milhão e 300 mil votos, sendo eleito senador por dois estados, Rio Grande do Sul e São Paulo, e deputado federal pelo Distrito Federal e mais seis unidades da federação.

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Sergio Caldieri é jornalista e escritor.