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Marchas da Família viram fiasco em todo o País

Do Brasil247

As principais notícias das chamadas ‘Marcha da Família com Deus Pela Liberdade’ foram alguns conflitos entre manifestantes pró e contra a intervenção militar no País neste sábado, 50 anos depois do movimento que antecedeu o golpe de 64; atos reuniram menos de dez pessoas em Belo Horizonte, Florianópolis, Natal e Recife; em São Paulo, a adesão foi maior (cerca de 700), mas protesto mais pareceu greve de PMs, tamanha a quantidade de policiais que trabalhavam no protesto; no Rio, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) marcou presença: “estou aqui como um patriota”; marchas ganham apelido de “Murcha da Família” nas redes.

A adesão às Marchas da Família com Deus Pela Liberdade, realizadas neste sábado (22) em algumas capitais, classifica o movimento em defesa de uma intervenção militar no País como um verdadeiro fiasco. Os atos acontecem 50 anos depois do movimento que antecedeu o golpe militar em 1964.

Belo Horizonte, em Minas, reuniu cinco manifestantes; Florianópolis, em Santa Catarina, três; Recife, em Pernambuco, seis; e Natal, no Rio Grande do Norte, nove. Em Belém (Pará), as vinte pessoas que posaram para registrar o protesto deixaram a bandeira do Brasil de cabeça para baixo (confira aqui).

Em São Paulo, a adesão foi maior: cerca de 700 pessoas, mesmo número de participantes de uma marcha contra o golpe. A presença de policiais que trabalharam no ato que defendeu os militares, no entanto, era tão grande que o evento mais se pareceu com uma reivindicação da categoria. No Rio, foram cerca de 150 pessoas, responsáveis pela principal notícia do dia sobre o tema: um confronto com militantes contra o regime.

No Twitter e no Facebook, onde usuários publicam dezenas de fotos das marchas em suas cidades, os movimentos já ganharam o apelido de “Murcha da Família” ou então uma definição que caracteriza muito bem o movimento minguado, feita pelo usuário @cellso89: “a Marcha da Família começou em marcha lenta e terminou em marcha ré”.

“Intervenção militar já!”, “o Brasil exige: Ordem e Progresso”, “Socorro, forças” e “eleição não, intervenção sim” foram alguns dos cartazes levantados sobre o golpe. O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) compareceu à marcha do Rio de Janeiro, mas não se posicionou a favor do pedido de intervenção militar, por entender que isso descaracteriza o movimento. “Estou aqui como um patriota”, disse o parlamentar.

Um dos organizadores da marcha no Rio, o cabo da reserva do Exército Emílio Alarcon, ponderou que, apesar dos pedidos de intervenção, a intenção deles não é a instauração de uma ditadura militar. Para ele, as Forças Armadas devem fechar o Congresso e derrubar o Executivo, para convocar novas eleições apenas com candidatos ficha limpa. “A intervenção é constitucional. A gente não está pedindo nada de anormal”, disse ele.

Para reivindicar a intervenção, os militantes desse grupo usaram o Artigo 142 da Constituição, que diz: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República, e destinam-se à defesa da pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

Na interpretação do grupo, tal obrigação de garantir os poderes justificaria a intervenção, já que há problemas institucionais graves que só podem ser resolvidos dessa forma: “seria umreset, formatar de novo o Brasil. Todos os partidos estão envolvidos em corrupção”, argumentou Alarcon.

No protesto de São Paulo, um discurso um tanto confuso. “Eu sou federalista, sou a favor da democracia. Só que a gente não tem certeza se a nossa democracia está sendo exercida. Então, sou a favor de que os militares intervenham, não o regime, apenas para convocar novas eleições com voto impresso, para o povo ter garantia de que o voto que ele está dando está indo para quem ele colocou lá. Não é regime militar”, disse Walace Silvestre.

Os manifestantes da capital paulista, que tinham expectativa de refazer o percurso da primeira edição do evento – da Praça da República até a Praça da Sé – gritaram, por vezes, “fora, Dilma”, e entoaram melodias pedindo a prisão da presidenta e a volta dos militares: “Um, dois, três, quatro, 5 mil, queremos os militares protegendo o Brasil”, e “um, dois, três, Dilma no xadrez”.

Com informações da Agência Brasil

” Não vamos embora”, avisa Valcke a manifestantes

Secretário-geral da Fifa diz que entidade é “alvo errado” dos manifestantes brasileiros, que protestam contra os custos das obras da Copa das Confederações e do Mundo; “A Fifa não vai embora. É fácil focar na Fifa e dizer Fifa, vá embora, mas esse não é o ponto correto”, afirma Jérôme Valcke; segundo ele, o plano agora é convencer as pessoas em todo o mundo a virem assistir aos jogos; dirigente diz esperar que o movimento não continue até o Mundial
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Por Brasil 247

 Protestar contra a Fifa não é o foco certo, acredita o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, sobre as recentes manifestações que ocorrem em cidades de todo o Brasil. Em relação a cartazes que dizem “Fifa, vá embora”, o dirigente francês afirma que não adianta fazer esse pedido e que os manifestantes devem desistir. “Não vamos embora. Não adiante brigar conosco”, disse Valcke, numa entrevista concedida aos jornalistas Jamil Chade e Leonardo Maia, d´O Estado de S.Paulo.

“Vimos nas manifestações cartazes que pedem ‘Fifa, vá embora’. Nós somos o alvo errado. A Fifa não vai embora. É fácil focar na Fifa e dizer Fifa, vá embora, mas esse não é o ponto correto. Aquilo em que temos que nos concentrar é que o Brasil avance, e usar a Copa como um catalisador. Nunca vou admitir que dizer para a Fifa ir embora é a batalha correta a ser lutada. Não adianta pedir isso. Não é a batalha certa”, disse Valcke, que admitiu “surpresa” diante dos protestos.

O secretário-geral da Fifa declarou ainda que em um ano, daqui para a Copa do Mundo de 2014, não haverá tempo hábil para que o Brasil passe por uma “revolução” em termos de infraestrutura. “Parece que teremos que garantir uma melhor forma de conectar as 12 cidades para a Copa do Mundo, alguma forma mais fácil de voar entre as cidades. Tivemos a mesma situação na África”, explicou, acrescentando que “no Brasil teremos que trabalhar com o governo para garantir que quem quiser voar entre as cidades-sede possa fazer sem problema”.

Questionado sobre o próximo plano da Fifa para superar a imagem negativa que ficou, Valcke diz contar com a ajuda da imprensa. “Teremos que trabalhar a mídia, a própria Fifa e o governo para que possamos explicar ao mundo que protestos podem ocorrer, que são parte da democracia e que não significa que as pessoas não devem participar junto com os 32 times e ir aos estádios. Eu espero que o movimento que estamos vendo nas ruas, e que chegou até Brasília, não continue até a Copa do Mundo”.

Na última terça-feira, o deputado federal Romário, que sempre critica a Copa do Mundo e a Fifa, apontou todas as suas armas contra Valcke, chamando-o de “cara-de-pau, chantagista e corrupto”. Segundo Romário, “chega a ser uma piada” ouvir do dirigente que a Fifa não veio ao Brasil apenas para encher os cofres e ir embora. O ex-jogador citou ainda que parte desde lucro “vai ser para pagar o aluguel de uma cobertura no Leblon no valor de R$ 150 mil mensais para Valcke e sua família”.

Leia a íntegra do texto, publicado em sua página no Facebook:

Tem coisas que não posso deixar passar. Ontem o cara-de-pau, chantagista e corrupto do Jerôme Valcke negou que a FIFA venha ao Brasil encher os cofres e ir embora. Chega a ser uma piada ouvir uma frase como essa.

Um cara que disse há alguns meses que o mais importante em uma Copa eram os estádios e que o resto era secundário, não tem credibilidade para responder pela FIFA. Aliás, ele está no lugar certo, a FIFA é exatamente a entidade onde ele tem que estar. Por seu histórico de falcatruas desde o período do Havelange até o atual do Blatter.

Uma parte deste lucro da FIFA vai ser para pagar o aluguel de uma cobertura no Leblon no valor de R$ 150 mil mensais para Valcke e sua família. Detalhe, o contrato contempla desde a Copa das Confederações até o final da Copa do Mundo, em 2014.

9 mortos na Maré (RJ): O Estado tem que ter equilíbrio

BOPE vem realizando ações desastrosas no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Repórter relata relata o terror dos moradores

Um post acaba de surgir na tela do meu Facebook: “A noite de terror continua na favela da Maré: dois mortos ontem, incluindo um policial, mais um rapaz morto hoje, dentro de sua casa; vários feridos. Observatório sem energia, sem telefone: Bope acertou o transformador e cortou os cabos de telefone. Qual o sentido disso? O Estado tem que ter equilíbrio; senão, quem terá?”. Quem assina é o doutor em Sociologia da Educação e fundador do Observatório de Favelas, Jaílson de Souza e Silva.

Logo cedo estive na entrada da favela Nova Holanda, uma das 17 comunidades que compõem o Complexo da Maré, na zona norte do Rio, onde a polícia continua em ação. Não consigo entrar. E ninguém consegue sair para me dizer o que está acontecendo de fato. Meu telefone toca sem parar. São amigos relatando casos de abusos da polícia. São amigos desesperados com uma situação de insanidade que começou na noite de ontem quando um grupo que realizava uma manifestação na Avenida Brasil correu para dentro da favela, fugindo da repressão da polícia, que neste lado da cidade não usa bala de borracha, usa bala de canhão.

Os jornais relatam que houve um arrastão durante a manifestação. Arrastão? Segundo os moradores, o que aconteceu foi: a cracolândia carioca ficava exatamente na entrada da Nova Holanda, em plena Avenida Brasil. A coisa foi crescendo, tornando-se assustadora e vergonhosa para o prefeito Eduardo Paes. O que ele fez? Mandou limpar o lugar e empurrou os viciados para dentro da favela. Os mesmos passaram a viver uma situação insólita. Não mais podiam circular na Brasil porque a guarda municipal estava lá para descer o sarrafo. Não podiam circular dentro da favela porque os traficantes não permitiam. Ou seja: confinamento a uma rua, a rua Sete de setembro, entre a avenida e a favela. Aproveitando o caos instaurado pelo embate entre polícia e manifestantes, os “ cracudos”, como são chamados por aqui, corrduaseram para saquear. Lei da sobrevivência.

Os helicópteros sobrevoam… E mais um post do Jaílson surge na minha tela: “Já são oito mortos, sendo um o policial morto ontem. Hoje, o sentido da ação não passa de vingança. Onde se chega? Obrigado pelas falas e ligações solidárias. Seria bom que todos vissem isso para entender como as manifestações são necessárias. Vamos lutar pela reforma política, com constituinte exclusiva”. Um minuto depois, Jailson posta de novo: “Por favor, divulguem esta exigência: Parem a operação Policial JÁ! Ela não tem sentido e só é alimentada pelo desejo de vingar a morte, lamentável, do policial”. Na verdade, Jailsom, mesmo estando lá dentro, está desatualizado. Já são 9 mortos  confirmados, segundo a própria polícia.

As ações desastrosas do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) no Complexo da Maré começaram há algumas semanas, com os “caveira” invadindo casas de pessoas de bem, espalhando terror e medo. Um dos fotógrafos do OBS teve a sua casa destruída e seu equipamento quebrado, jogado dentro do vaso sanitário. Assim age a polícia da dupla Cabral/Paes. Hoje, segundo as informações difusas, estão dentro da Maré BOPE, Batalhão de Ação com Cães (BAC) e Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque). A desculpa do governo é desarticular o tráfico para a implantação da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), que os moradores chamam de Unidade de Polícia Porrada. Ou seja: Cabral/Paes estão promovendo um tiroteio pela paz.

Bom… O que eu tenho a ver com tudo isso? Em janeiro eu comecei a trabalhar no Observatório de Favelas. Conheci de perto uma das organizações mais interessantes e ativas do Rio de Janeiro, um lugar de produção de pensamento e de formação de cidadãos, no sentido mais amplo da palavra. Em 15 anos de jornalismo, jamais me deparei com tamanha força, tamanho desejo de formar e informar. A Escola de Fotógrafos Populares e a Escola de Comunicação Crítica, ambos projetos do Observatório, despejam jovens politizados, intelectualizados e dispostos a criar um canal de comunicação direto com a população – e principalmente dispostos a produzir arte engajada. Eu me apaixonei pelo projeto… E pelas pessoas. E pela Favela da Maré.

 

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CartaCapital já pediu e está aguardando um posicionamento da Polícia Militar do do Rio de Janeiro.

Familiares de mortos e desaparecidos dão ultimato à Comissão da Verdade

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Além de reunião com Dilma, grupo pediu depoimentos públicos, reorganização metodológica e volta de Claúdio Fonteles

por Marsílea Gombata na Carta Capital

A Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos deu um ultimato à Comissão Nacional da Verdade. Em reunião de caráter urgente, parentes de vítimas da ditadura pediram mais transparência nos trabalhos do órgão, assim como uma reestruturação metodológica.

Segundo Maria Amélia Almeida Teles, que compõe a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, o grupo pediu ainda uma audiência pública com a presidenta Dilma Rousseff, na qual pretende debater a falta de participação dos parentes de vítimas nas investigações.

“Já estávamos preocupados com o fato de as audiências serem sigilosas. Entendemos que o princípio da transparência exige publicidade das sessões”, ressaltou Amelinha, que foi torturada no início dos anos 1970. “A construção da verdade é uma construção coletiva, e a sociedade deve participar dela para que esta se cumpra como metodologia pedagógica junto à opinião pública.”

Um ponto enfatizado para o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias e a advogada Rosa Cardoso, integrantes da comissão presentes da reunião desta segunda-feira 24, é o fato de a Comissão “não priorizar” o depoimento de familiares ligados aos mortos e desaparecidos políticos – segundo Amelinha, a “razão dessa comissão”.

Ivan Seixas, outro integrante da Comissão de Familiares presente à reunião, classificou de “inconcebível” a “discriminação” sobre os o grupo. “Os familiares de mortos e desaparecidos não são apenas familiares, mas pessoas que apuraram esses crimes e, portanto, conhecem a estrutura da repressão”, protestou. “Nós nem sequer fomos ouvidos até agora. Exigimos que isso seja modificado já, para salvar a comissão e garantir que funcione até o final de mandato [em 2014]”, disse. Ele afirmou, no entanto, que os familiares só se darão por satisfeitos quando conseguirem levar tais reivindicações para a prsidenta Dilma, com quem pretendem discutir também método das investigações, o procedimento das apurações e as conclusões que levarão à construção das recomendações da Comissão Nacional.

Segundo Suzana Lisboa, que integrou a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos do governo federal, a reunião entre a CNV e os familiares, que inicialmente era para ser mensal e depois bimestral, teve uma primeira edição no ano passado e uma segunda só agora, na segunda-feira 24. “Pedimos uma audiência com a presidenta da República para expor nossa insatisfação e temos a expectativa de que a comissão seja recomposta, pois tem de ser um coletivo e não um grupo de pessoas no qual cada um faz o que quer”, afirmou.

Segundo o ex-ministro e advogado José Carlos Dias, a CNV reconheceu alguns erros e “assumiu a humildade de várias falhas que eventualmente está cometendo”. “Assumi publicamente uma crítica sobre o depoimento do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, em uma audiência pública transmitida pela internet, na qual se ouviu apenas uma vítima [o vereador Gilberto Natalini] quando deveriam ter sido ouvidas mais”, ressaltou. “Tratamos de realinhar nosso trabalho para maior aproximação entre o grupo dos familiares e o trabalho que a gente vem desenvolvendo”.

Na saída da reunião, a atual coordenadora da CNV, Rosa Cardoso, evitou falar sobre o resultado do encontro. “Ainda não metabolizamos essa questão. Ouvimos e estamos levando uma proposta para a presidenta. Ainda não discutimos entre nós”, declarou.

A coordenadora, segundo interlocutores presentes à reunião, teria acatado as reivindicações. “Ela deixou muito claro na reunião que a comissão é das vítimas e tem de ouvi-las”, contou Maria Amélia. “Além de ter reconhecido a necessidade de uma reorganização metodológica, Rosa Cardoso disse que a comissão não pode se manter neutra.”

Divergências internas. Um dos pontos reclamados pelo grupo de parentes de mortos e desaparecidos foi em relação às divergências internas. José Carlos Dias se disse cansado física e psicologicamente diante dos desgastes decorrentes das diferenças posições na Comissão Nacional. “Não é para ter esse desgaste que estamos tendo. Isso é muito desagradável. Temos de nos unir e caminhar para frente”, afirmou. “Se marido e mulher às vezes se separam, imagina como é com sete cabeças diferentes”.

O órgão tem enfrentado conflitos internos entre as visões de seus membros. Um grupo liderado por Paulo Sérgio Pinheiro defende que a CNV apresente suas conclusões apenas no relatório final. Já Rosa Cardoso – e também Cláudio Fonteles, que deixou a comissão na semana passada – acredita que o grupo deve produzir uma discussão pública sobre a ditadura, trabalhar com depoimentos públicos e dar maior visibilidade a todos os passos dos grupos de trabalho da comissão.

A saída de Fonteles é interpretada como uma perda para a comissão de familiares, que, durante a reunião, fez um apelo por seu retorno.

Saturação e projeto

por Saul Leblon na Carta Maior

A rapidez e a abrangência dos acontecimentos em marcha turvam a compreensão mais geral do que se passa no país.

Sentenças frívolas e ligeirezas interessadas tentaram instrumentalizar o aluvião desregrado, comprimindo-o entre as margens de uma canaleta estreita.

Foram atropeladas.

A mídia conservadora encabeça a série dos revezes.

Movida inicialmente pelo indisfarçável objetivo de desgastar gestões progressistas – na esfera municipal e federal— os veículos conservadores foram rapidamente desalojados da carona desautorizada.

Da sofreguidão convocatória partiram para o linchamento dos ‘vândalos’.

Em seguida, foram atropelados pela truculência repressiva, acobertada, no caso de São Paulo, pelo governo estadual que apoiam.

Recuaram, entre estupefatos e perplexos.

O que se viu nas últimas horas espraiou essa mesma perplexidade nas diferentes dimensões da vida política e partidária.

Em 11 capitais, milhares foram às ruas.

Os 20 centavos que motivaram a mobilização original em São Paulo , no dia 6 de junho, tornaram-se ainda mais irrisórios diante da abrangência e da intensidade do que se vê, 12 dias depois.

O que está em jogo é muito mais do que caraminguás.

As ruas requisitam uma nova agenda política para o Brasil.

Não significa desqualificar conquistas e avanços preciosos dos últimos anos.

Mas a história apertou o passo. Talvez até porque a musculatura do percurso agora o permite.

A verdade é que as engrenagens e canais disponíveis não souberam interpretar o vapor acumulado nessa marcha batida.

Um viés economicista pretendeu resolver na macroeconomia – à frio – aquilo que pertence ao escrutínio permanente da democracia: as escolhas do futuro e os sacrifícios do presente.

Restritas, em grande parte, à negociação parlamentar, essas escolhas foram blindadas com o ferrugem dos interesses consolidados.

Com os desvios sabidos e as consequências conhecidas.

As ruas requisitam um aggiornamento da agenda política brasileira.

A inauguração de um novo ciclo histórico depende de programas e projetos que reflitam esse sentimento difuso que brota de norte a sul.

Saturação diante do caos urbano.

Angústia coletiva com o definhamento da dimensão pública da vida.

Opressão da existência individual, sobrecarregada de demandas coletivas ainda não contempladas.

Insensibilidade da representação política tradicional diante do grito entalado no fundo do peito de milhões que sacolejam diariamente nos ônibus e metrôs lotados.

Tudo isso e muito mais que isso.

No capitalismo globalizado não temos mais o ‘privilégio’ do sofrimento exclusivamente local.

A ordem neoliberal tornou-se uma usina de desordem urbi et orbi.

Líderes não lideram.

Mercados mandam. Governantes obedecem.

A soberania nacional tornou-se intrinsecamente subversiva e disfuncional. Ao mesmo tempo e com igual intensidade.

Os instrumentos convencionais de escrutínio coletivo não respondem aos estímulos.

As urnas decidem; o dinheiro desautoriza. A mídia abjura.

Os fundamentos do sistema perderam a aderência da sociedade.

Como um trem fora dos trilhos, o que seria o fim da História forma hoje um comboio desgovernado, que marcha ora na inércia, ora fora dos trilhos.

Mas não cai. E não cairá por si.

A liderança do processo brasileiro está em aberto.

Mais que isso.

A ausência de uma plataforma capaz de dar unidade e coerência a aspirações fragmentadas e avulsas pode asfixiar o que as ruas tentam dizer.

Vem da Espanha reluzente de protestos na Praça do Sol um alerta desconcertante.

Madri e Barcelona consagraram-se como o epicentro da indignação global.

Desde 15 de maio de 2011, quando o ‘Democracia Já’ convocou uma manifestação na Praça do Sol, até os protestos em 92 países, em 15 de outubro de 2011, passaram-se fulminantes cinco meses de ascensão linear das ruas.

A passeata original deu lugar a um acampamento formado por um mar de indignados.

A ocupação na Praça do Sol resistiria por 79 dias.

O termo ‘indignado’ globalizou-se.

Surgiu o ‘Ocupe Wall Street’, que mirou com argúcia o alvo da indignação: o dinheiro sem pátria e a pátria rentista sem fronteira, mas detentora de governos e Estados.

Em outubro de 2011, o sentimento nascido na Praça do Sol tornou-se o novo idioma político global, compartilhado por um milhar de cidades em todos os continentes.

Mas nem por isso imune às sombras.

No momento em que as praças rugiam a insatisfação de milhares de vozes, o voto popular consagrava nas urnas o Partido Popular, de Aznar.

A cepa herdeira do franquismo obteve uma vitória esmagadora nas eleições espanholas de 20 de novembro de 2011.

A votação recebida pelo conservadorismo, que hoje esfola e sangra o povo espanhol, estendendo o desemprego a 52% de sua juventude, garantiu-lhe, ainda, maioria folgada no Parlamento.

O paradoxo do ‘sol e da escuridão’ não pode ser esquecido, nem minimizado pelo frescor da indignação que ecoa agora de uma dezena de capitais do país.

Hoje, ninguém é de ninguém.

Em política, como dizem, com razão, suas ‘raposas’, não existe vácuo.

Na Espanha, a vitória eleitoral do ultra-conservadorismo, em 2011, só foi possível porque a abstenção, sobretudo jovem, atingiu proporções epidêmicas no berço mundial dos indignados.

A exemplo do que ocorreu na Espanha, nos EUA e, mais recentemente, na Itália , em algum momento os indignados brasileiros serão chamados a refletir – talvez precocemente – sobre as escolhas do poder.

O poder de Estado.

Os compromissos que a luta pelo poder impõe.

A impossibilidade de ignorá-la; e, sobretudo, a escolha da melhor estratégia para pautar o seu exercício, a cada movimento da história.

 

Internet favorece rearranjo de movimentos sociais

No Blog do Luis Nassif
Por Marco Antonio L. 

A Geração Facebook e a nova classe trabalhadora chegaram às ruas do Brasil! – por Marcos Doniseti!

No Guerrilheiro ao Entardecer

As redes sociais, em especial o Facebook, tornaram-se um importante instrumento de mobilização e de organização de grupos e segmentos da sociedade que não encontram espaço para atuar organizações de perfil mais tradicional, como partidos políticos, igrejas, sindicatos e outros tipos mais antigos de associação. 

O jornalista Leonardo Sakamoto escreveu, em seu blog, um ótimo texto a respeito dos atuais protestos e manifestações que estão se espalhando pelo Brasil e que começaram como uma luta, liderada pelo MPL (Movimento Passe Livre), pela redução do valor das tarifas do transporte coletivo em inúmeras cidades do país, mas que já se transformaram em muito mais do que isso.

Embora eu discorde de alguns pontos do texto do Sakamoto, principalmente quando ele diz que a chamada ‘Esquerda’ não soube transformar o país (na verdade, entendo que o aparecimento dessa Geração Facebook é fruto das mudanças promovidas no país principalmente pelo governo Lula e às quais o governo de Dilma deu continuidade e, em certos aspectos, aprofundou) o seu artigo levanta algumas questões que são, a meu ver, muito pertinentes.

Esta luta, agora, adquiriu um caráter de defesa da liberdade de expressão, principalmente em função da brutal e violentíssima repressão promovida pela Polícia Militar do governo do governo do estado de São Paulo, comandado pelo PSDB desde 1995., contra a manifestação que se realizou nesta quinta-feira na capital paulista.

Mas este movimento também se tornou algo mais, que é o desejo da população das grandes e médias cidades brasileiras de desfrutar de uma qualidade de vida melhor e não apenas no aspecto do transporte coletivo urbano (que é, inegavelmente, caro e de péssima qualidade em praticamente todo o país), mas também nas áreas da habitação, saneamento básico, saúde, educação, segurança pública (que se tornou um problema crônico na capital paulista e na Grande São Paulo), enchentes, poluição, lazer, esporte e cultura, principalmente nas periferias das cidades brasileiras, que são extremamente carentes de virtualmente tudo isso.

Assim, é mais do que evidente que há uma grande demanda reprimida por qualidade de vida, principalmente nas cidades brasileiras, onde vivem cerca de 85% dos habitantes do país. Isso é óbvio.

Neste aspecto, não há nenhuma novidade nisso que o Leonardo Sakamoto escreveu (ver link abaixo), pelo menos para mim e, creio eu, para milhões de outras pessoas.

Essa demanda por serviços públicos de qualidade existe há muitos anos, é claro.

Inclusive, escrevi nos meus blogs (neste e no Guerrilheiro do Entardecer), durante a campanha eleitoral de 2012, que os resultados das eleições municipais, pelo Brasil afora, mostravam, claramente, uma coisa:  Os novos prefeitos (ou aqueles que foram reeleitos) teriam que, prioritariamente, melhorar a qualidade do serviços públicos em geral (educação, saúde, transporte coletivo, saúde, saneamento básico, moradia, etc).

Sem isso, eles iriam fracassar.

A questão das redes sociais, principalmente o Facebook, que permite que novos atores sociais possam se mobilizar, se organizar e, daí, promover manifestações que atingem e reúnem milhares de pessoas, é que me parece ser a grande novidade desse movimento de protesto que se desenvolve atualmente e ao qual o Sakamoto dedicou boa parte do seu texto.

O presente movimento se organiza ‘por fora’ dos partidos políticos, sindicatos, igrejas e associações de perfil mais tradicional, embora haja pessoas das mais variadas tendências políticas, econômicas, sociais, partidárias, não partidárias, religiosas, não religiosas, étnicas, de gênero e comportamento individual participando do mesmo.

Aliás, entendo que não são esses fatores que os unem.

Penso que aquilo que mais aproxima e promove a sua união, de fato, é essa determinação em cobrar dos governantes, independente do partido a qual pertençam, uma sensível melhora dos serviços públicos, que devem se tornar acessíveis, de fato, a todos e, é claro, de boa qualidade.

Pelo menos é isso que alguns dos principais porta-vozes do movimento denominado MPL (Movimento Passe Livre), que se pretende não hierarquizado e que não possuiria líderes definidos que diriam aos outros o que fazer ou não fazer, dizem.

Geração Facebook se manifesta em Belo Horizonte.

Esta é a ‘Geração Facebook’ chegando às ruas do Brasil, se manifestando, apresentando as suas demandas, desejos, ambições, o que é algo muito saudável sob o aspecto da construção de uma sociedade mais justa, igualitária e democrática e na qual todos possam trabalhar, estudar, se divertir, se informar e viver dignamente.

Mas vejam que mesmo isso somente foi possível em função das inegáveis melhorias econômicas e sociais e da ampliação muito forte do acesso à Internet que tivemos nos últimos anos no Brasil e pelos quais os governos Lula e Dilma tem uma grande responsabilidade.

Inclusive porque foram os seus governos que baratearam o preço do computador, reduzindo os impostos cobrados sobre o mesmo (vide link abaixo), aumentaram o poder de compra dos salários (que aumentaram cerca de 30% em termos reais desde 2003), reduziram o custo do crédito (a oferta de crédito na economia passou de 22% do PIB, em 2002, para 53,9% do PIB em Março deste ano; eu comprei o meu atual notebook, e o anterior também, em 12 suaves prestações mensais que não pesaram no meu salário) e os juros para o consumidor também tiveram uma queda sensível. O número de trabalhadores com carteira assinada aumentou em 19 milhões entre 2003-2012, enquanto a taxa de desemprego atual é a menor da história. E o poder de compra do salário mínimo atingiu o seu maior nível desde 1979.

Entendo que sem a ascensão de 50 milhões de brasileiros em termos econômicos e sociais, durante o período 2003-2012 (governos Lula e Dilma), nada disso estaria acontecendo e esta Geração Facebook sequer existiria ou seria tão reduzida, uma  pequena elite, que a sua atuação teria pouco ou virtualmente nenhum impacto sobre a sociedade brasileira.

Não vejo como negar que essa Geração Facebook, que também incluir milhões de jovens das periferias das grandes e médias cidades brasileiras, em especial, seja criação das políticas de distribuição de renda e pró-crescimento econômico adotadas pelos governos Lula e Dilma.

Sakamoto faz isso em seu artigo, mas penso que, neste aspecto, ele está inteiramente equivocado.

Assim, não existiria uma ‘Geração Facebook’ no Brasil sem o acesso facilitado para a aquisição do computador, seja porque os preços dele diminuíram ou porque os salários tiveram um significativo aumento no seu poder de compra, o desemprego diminuiu fortemente desde 2004, os juros ao consumidor baixaram de maneira significativa (embora ainda sejam muitos elevados) e a oferta de crédito mais do que dobrou no país de 2003 até hoje.

E essa população (jovens, em grande parte) passou a ter maior poder de compra e a se informar melhor pela Internet (onde as fontes de informação são infinitamente mais diversificadas do que as oferecidas pela Grande Mídia tradicional), trocando idéias, informações e opiniões.

E isso levou a que tivessem a oportunidade de criar novas formas de mobilização e de organização, permitindo que se manifestassem de uma maneira não-tradicional, por fora das organizações tradicionais da sociedade civil (partidos políticos, igrejas, sindicatos, etc), pois estas, de certa maneira, já tem os seus donos, sejam líderes políticos tradicionais ou movimentos sociais organizados e estabelecidos já há muito tempo.

E agora essa ‘Geração Facebook’ está indo às ruas para cobrar o atendimentos a velhas e tradicionais demandas(educação, saúde, transporte coletivo de qualidade, entre outros) bem como a novas (respeito à diversidade de comportamento, liberdade e autonomia individual).

Exemplos disso foram declarações feitas por jovens participantes do protesto que aconteceu em Belo Horizonte, neste Sábado (dia 14/06/2013).

Entre outras, selecionei estas duas declarações:

1) Cansei de ficar em casa sem fazer nada. A questão do ônibus é um ponto, é apenas o lema. Os governantes precisam olhar e melhorar saúde e educação – afirma o estudante Luiz Gustavo, de 17 anos.

2) Luana Máximo, do Colégio Tiradentes, também se queixa do preço da passagem.

- Faço pré-vestibular, uso o ônibus todo o dia e valor da passagem é um absurdo se comparado a precariedade do serviço oferecido. A população precisa sair da inércia – disse.
E esses novos atores sociais não demonstram muito respeito pelas lideranças e organizações tradicionais, mesmo que estas tenham tido um papel importante na construção de uma realidade na qual os jovens atuais possam atuar e se manifestar.

Já vi, por exemplo, um membro simpatizante do MPL que está sendo beneficiado pelo programa ‘Ciência Sem Fronteiras’, criado pelo governo Dilma, ofender a presidenta em sua página no Facebook. É como se eles estivessem dizendo: ‘Vocês lutaram contra a Ditadura? Geraram milhões de novos empregos com carteira assinada? Aumentaram o poder de compra dos salários? Legal. Mas agora eu quero mais!’.

Em seu livro ‘A Política do Precariado’, o sociólogo Ruy Braga reconhece que tivemos avanços econômicos e sociais no Brasil nos últimos 10 anos, mas diz que os mesmos não acabaram com a situação de precarização de grande parte dos trabalhadores brasileiros e que 94% dos novos empregos criados entre 2002 e 2010 pagam até 1,5 salário mínimo, o que é muito baixo, sem dúvida alguma.

E é claro que isso gera uma frustração e levam estes trabalhadores (muitos deles jovens) a ter o desejo de acelerar o processo de melhoria das suas condições de trabalho e de vida. Afinal, ninguém quer ficar ganhando 1,5 salário mínimo durante a vida toda, né?

E daí para sair ás ruas e fazer reivindicações por mudanças neste sentido não demora muito, não. Ainda mais que mesmo no caso destes milhões de jovens trabalhadores e que recebem baixos salários, acessar a Internet e o Facebook a fim de se conectar com milhares de outros jovens em situação parecida com a sua é algo que já faz parte da sua vida há alguns anos.

Portanto, entendo que essas manifestações refletem uma inquietação social real na sociedade brasileira por parte deste segmento, os jovens trabalhadores pobres, em especial, que manifestam o desejo de desfrutar de uma qualidade de vida superior.

O emprego ele já tem, mesmo que precário, mas ele quer e deseja MAIS. E quem poderá lhe negar o direito de lutar por isso? Ninguém, a não ser os fascistas, é claro.

Logo, tais manifestações não são resultado, apenas e tão somente, como pensam alguns, das ações levadas adiante apenas por parte dos filhos de uma classe média mais tradicional, bem de vida no aspecto material e que estuda em caros colégios particulares durante o ensino fundamental e médio e que são os que cursam as melhores universidades públicas do país.

Longe disso.

No entanto, entendo que esse caráter de luta demonstrado pelos jovens da Geração Facebook enterram, de certa maneira, aquela tese do caráter ‘conservador’ do lulismo. Segundo os defensores dessa ideia, o lulismo teria meio que anestesiado a população brasileira, fazendo com que ela desistisse de lutar pela ampliação dos seus direitos e de suas conquistas.

Agora, estas manifestações da Geração Facebook que se espalham por grande parte do país, e que contam, sim, com uma participação significativa de jovens trabalhadores pobres das periferias das grandes e médias cidades brasileiras e que foram beneficiados pelas políticas de distribuição de renda e favorável ao crescimento econômico adotadas pelos governos Lula e Dilma, enterram com esta ideia.

Afinal, que raio de conservadorismo é esse que não impediu que essas manifestações acontecessem e se espalhassem por grande parte do Brasil?

Isso me lembra a velha história de que Getúlio Vargas tinha sido ‘Pai dos Pobres’ e que isso impediria os trabalhadores de se mobilizarem de forma autonôma. Até que, em 1953, tivemos o maior movimento grevista da história do Brasil até aquele momento, que foi a ‘Greve dos 300 mil’, e que aconteceu, portanto, em pleno governo democrático de Vargas.

Essas manifestações que se espalham pelo Brasil, atualmente, são a ‘Greve dos 300 mil’ de nossa época.

O livro de Marcio Pochmann demonstra como se formou uma Nova Classe Trabalhadora no Brasil dos governos Lula e Dilma.
Neste aspecto, estes jovens da Geração Facebook me fazem recordar os Punks que, quando apareceram no cenário do rock, lá por volta de 1975-1977, na Grã-Bretanha, que também não demonstravam nenhum respeito pelos grandes grupos e artistas consagrados de Rock do passado e tampouco pela Rainha (‘God Save the Queen’, lembram?).

Lembram-se de Paul Cook e Johnny Rotten, dos Sex Pistols, usando a camiseta onde se lia ‘I Hate Pink Floyd’? E Johnny Rotten vivia dizendo ‘Eu não sei o que eu quero, mas sei como conseguir. Eu quero destruir’.

Talvez a Geração Facebook seja parecida com isso, demonstrando desprezo pelos ‘Heróis do Passado’, como por aqueles que lutaram contra a Ditadura Civil-Militar (como é o caso da Presidenta Dilma) e, ao mesmo tempo, desejando mudanças e transformações rápidas para atender aos seus desejos de mudança e de transformação.

A questão é: esse movimento veio para ficar ou não? Eles conseguirão manter o mesmo pique e energia que demonstram atualmente ou tudo não terá passado de uma onda passageira? Surgirão líderes ou os movimentos manterão esse caráter anárquico?

O acesso à Internet e às redes sociais como o Facebook podem facilitar a vida desta geração, mas isso somente poderá transformar a realidade se o desejo de mudança e de transformação não esmorecer. Essa geração possui os instrumentos para continuar agindo e intervindo no cenário político e social do país, sem dúvida. Resta saber se continuará tendo a energia e a determinação necessárias para isso ou se acabará se esvaziando.

De uma coisa é certa: os governantes do país terão que se ver com as novas demandas, desejos e ambições da Geração Facebook e desta Nova Classe Trabalhadora, sim, mesmo que o movimento não mantenha o seu pique atual por muito tempo.

Esta vontade de transformação que se manifestou na sociedade brasileira, com estas manifestações, está diretamente conectada com os desejos de transformação de dezenas de milhões de brasileiros que compraram TV de LCD, computadores, celulares, notebooks, tablets, smartphones, iphones, carros, casa, geladeira, sim.

Mas, agora, eles desejam desfrutar de uma qualidade de vida muito melhor também fora de casa, com acesso à serviços públicos de qualidade e acessíveis em todas as áreas: transporte coletivo, educação, saúde, segurança pública, moradia, saneamento básico, cultura, esportes, lazer.

Agora, penso que essa vontade de transformação desta nova geração também está relacionada com outros aspectos, de princípios, valores e de comportamento, em especial.

Entendo que eles também querem ser donos de seu destino, sem que nenhum líder político ou religioso lhes diga o que fazer, como pensar ou ainda em como viver as suas vidas, sobre o que desejam beber, fumar ou como querem se divertir.

Desta maneira, penso que estes protestos são, também, uma demonstração de revolta e de indignação e uma manifestação de resistência de milhares de pessoas que reagiram a estes ‘Felicianos e Malafaias’ que apareceram no cenário social e político do país nos últimos anos e que se utilizam de um discurso brucutu, troglodita e reacionário, típico de uma teocracia medieval, principalmente no aspecto do comportamento individual.

Estatuto do Nascituro? Registrar o nome do estuprador como se fosse o pai da criança e por quem a mãe foi violentada brutalmente?

Vão se f…, diz a Geração Facebook.

E há também um certo repúdio às velhas práticas políticas, como a dos partidos fazerem coligações com todos os outros partidos. Daí, muitos destes jovens devem se perguntar: Mas se todos os partidos se aliam a todos os outros, então quais são as reais diferenças entre eles?

Até o PSOL, que anteriormente repudiava tais alianças, já começou a fazê-las até mesmo com lideranças e partidos conservadores, como Sarney, o PSDB, DEM e PTB (ver link abaixo), tal como ocorreu na eleição em Macapá, no ano passado.

É claro que tais diferenças existem, mas vá tentar explicar isso para eles…

Então, caso esses governantes não se preocupem ou não consigam atender aos desejos de mudança, e que são reais (tanto no aspecto material, social, econômico, bem como em questão de princípios, valores e de comportamento), e de continuidade de melhorias apresentadas pela Geração Facebook (e com grande parte desta sendo também integrante da nova classe trabalhadora criada pelos governos Lula e Dilma), então eles que se preparem para enfrentar a ‘fúria das ruas’, pois estas pessoas já descobriram que tem o poder de se mobilizar, de se organizar e de fazer com que as suas vozes sejam ouvidas.

Quem quiser ouvir a voz das ruas, que ouça.

E aqueles que não conseguirem descobrir para qual direção o vento está soprando correrá o sério risco de perder o trem-bala da história .

Geração Facebook manifesta desprezo pelas lideranças e organizações políticas e sociais tradicionais, tal como os Punks demonstravam pelas bandas de rock consagradas de antigamente, como o Pink Floyd.
Texto Complementar:

No texto abaixo (que escrevi e publiquei em Novembro de 2012) no qual contestei a tese defendida pelo Vladimir Safatle (na época da campanha) de que a eleição paulistana tinha manifestado uma tendência mais ‘conservadora’ e comentei os resultados das eleições municipais.

Neste artigo, já apontava para a emergência de novas demandas e desejos por parte da população e que os novos governantes do país (os prefeitos, naquela ocasião) precisariam atender às mesmas se quisessem se manter no poder.

Assim, irei reproduzir alguns trechos mais significativos do mesmo, pois entendo que ele já antecipava, de certa maneira, e mesmo que de forma parcial, esse movimento que está acontecendo neste momento e que tem, como uma das suas grandes bandeiras, a melhoria da qualidade dos serviços públicos, o transporte coletivo em especial, mas também o da educação, saúde, segurança pública, entre outros:

“Vitória e votação de Haddad no 2o. turno colocam em xeque tese sobre suposta ‘ascensão conservadora’ em São Paulo! – por Marcos Doniseti!
“Agora, essa população que ascendeu social e economicamente durante os governos Lula-Dilma tem nova ambições e desejos.

E penso que ela, agora, quer mais do que simplesmente comprar um aparelho novo de TV ou de celular. Isso ela, em grande parte, já possui. Agora, o que essa parcela da população mais deseja é ter acesso a serviços públicos de qualidade, como os de educação, saúde, transportes coletivos, segurança pública.

Alguns especialistas, como é caso do economista Marcelo Neri, se referem a essa camada como sendo uma ‘nova classe média’, enquanto que outros, como é o caso do também economista Marcio Pochmann, preferem denominá-la de ‘nova classe trabalhadora’.Independente disso, o fato é que esse segmento da população quer continuar melhorando de vida e deixou isso bem claro nestas eleições municipais.

Como disse a campanha de Fernando Haddad, a vida desta parcela mais pobre da população melhorou bastante da porta de casa para dentro. Agora ela deseja que a sua vida melhore da porta de casa para fora.

E é bom que fique bem claro uma coisa: Os governantes que não entenderem esse recado que a população deixou nas urnas  nestas eleições, podem começar a se preparar para desfrutar de uma longa aposentadoria, pois não vencerão mais eleição alguma. E isso vale, inclusive, para os prefeitos recentemente eleitos.

Quem viver, verá.”.

Haddad se elegeu apontando para uma melhoria da qualidade de vida dos paulistanos, principalmente os da periferia. Tal como outros dos mais de 5500 prefeitos eleitos em 2012, ele terá que cumprir com esse compromisso caso queira fazer um governo bem avaliado pela população da capital paulista.

Links:

Jovens vão às ruas e nos mostram que desaprendemos a sonhar – por Andre Borges Lopes:

 

http://www.sul21.com.br/jornal/2013/06/jovens-vao-as-ruas-e-nos-mostram-que-desaprendemos-a-sonhar-por-andre-borges-lopes/

 

 

Leonardo Sakamoto: O poder público não consegue entender as  manifestações de São Paulo

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/06/15/o-poder-publico-nao-consegue-entender-as-manifestacoes-de-sao-paulo/

Vitória e votação de Haddad no 2o. turno colocam em xeque tese sobre suposta ‘ascensão conservadora’ em São Paulo! – por Marcos Doniseti!

 

http://guerrilheirodoanoitecer.blogspot.com.br/2012/11/vitoria-e-votacao-de-haddad-no-2o-turno.html

Jovens protestam contra o Estatuto do Nascituro no RJ:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/15/protesto-contra-estatuto-do-nascituro-reune-jovens-em-copacabana.htm

Computadores de até R$ 4 mil tem redução de imposto:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u113916.shtml

Oferta de crédito atinge 53,9% do PIB em Março de 2013:

http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com.br/2013/04/oferta-de-credito-atinge-539-do-pib-em.html

Número de internautas cresceu 10 milhões entre 2009 e 2011 no Brasil:

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=194530&id_secao=6

Salário Mínimo tem o maior poder de compra desde 1979:

http://sindjuf-pa-ap.jusbrasil.com.br/noticias/100278422/dieese-relacao-entre-minimo-e-cesta-basica-e-a-maior-desde-1979

Cerca de 8 mil manifestantes fecham o trânsito e descumprem decisão judicial em BH:

http://oglobo.globo.com/pais/cerca-de-8-mil-manifestantes-fecham-transito-descumprem-decisao-judicial-em-bh-8700194

Ruy Braga: Condição de insegurança é a regra do mundo do trabalho hoje:

http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4920&secao=416

Em Macapá, o PSOL se alia a Sarney, o PSDB, DEM e PTB:

http://www.pstu.org.br/conteudo/em-macap%C3%A1-psol-vence-mas-com-apoio-do-dem-ptb-e-psdb

Conservadorismo – O filho bastardo do lulismo:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/64413-o-filho-bastardo.shtml

A ascensão conservadora – por Vladimir Safatle:

http://www.youtube.com/watch?v=ZjiQQlgkBVM

A Greve dos 300 mil de 1953:

http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NoGovernoGV/Trabalhadores_movimento_sindical_e_greves

Jovens vão às ruas e nos mostram que desaprendemos a sonhar

Por Andre Borges Lopes

AOS QUE AINDA SABEM SONHAR

O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está “disponível”. O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário.

O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira.

O fundamental é que sob o manto protetor do “crescimento com redução das desigualdades” fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.

O fundamental é que a modesta redução da nossa brutal desigualdade social ainda não veio acompanhada por uma esperada redução da violência e da criminalidade, muito pelo contrário. E não há projeto nacional de combate à violência que fuja do discurso meramente repressivo ou da elegia à truculência policial.

O fundamental é que a democratização do acesso ao ensino básico e à universidade por vezes deixam de ser um instrumento de iluminação e arejamento dos indivíduos e da própria sociedade, e são reduzidos a uma promessa de escada para a ascensão social via títulos e diplomas, ao som de sertanejo universitário.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos “libertários” e “de esquerda” hoje abriram mão de disputar ideologicamente os corações e mentes dos jovens e dos novos “incluídos sociais” e se contentam em garantir a fidelidade dos seus votos nas urnas, a cada dois anos.

O fundamental é que os políticos e grandes partidos antigamente ditos “sociais-democratas” já não tem nada a oferecer à juventude além de um neo-udenismo moralista que flerta desavergonhadamente com o autoritarismo e o fascismo mais desbragados.
O fundamental é que a promessa da militância verde e ecológica vai aos poucos rendendo-se aos balcões de negócio da velha política partidária ou ao marketing politicamente correto das grandes corporações.

O fundamental é que os sindicatos, movimentos populares e organizações estudantis estão entregues a um processo de burocratização, aparelhamento e defesa de interesses paroquiais que os torna refratários a uma participação dinâmica, entusiasmada e libertária.

O fundamental é que temos em São Paulo um governo estadual que é francamente conservador e repressivo, ao lado de um governo federal que é supostamente “progressista de coalizão”. Mas entre a causa da liberação da maconha e defesa da internação compulsória, ambos escolhem a internação. Entre as prostitutas e a hipocrisia, ambos ficam com a hipocrisia. Entre os índios e os agronegócio, ambos aliam-se aos ruralistas. Entre a velha imprensa embolorada e a efervescência libertária da Internet, ambos namoram com a velha mídia. Entre o estado laico e os votos da bancada evangélica, ambos contemporizam com o Malafaia. Entre Jean Willys e Feliciano, ambos ficam em cima do muro, calculando quem pode lhes render mais votos.

O fundamental é que o temor covarde em expor à luz os crimes e julgar os aqueles agentes de estado que torturaram e mataram durante da ditadura acabou conferindo legitimidade a auto-anistia imposta pelos militares, muitos dos quais hoje se orgulham publicamente dos seus crimes bárbaros – o que nos leva a crer que voltarão a cometê-los se lhes for dada nova oportunidade.

O fundamental é que vivemos numa sociedade que (para usar dois termos anacrônicos) vai ficando cada vez mais bunda-mole e careta. Assustadoramente careta na política, nos costumes e nas liberdades individuais se comparada com os sonhos libertários dos anos 1960, ou mesmo com as esperanças democráticas dos anos 1980. Vivemos uma grande ofensiva do coxismo: conservador nas ideias, conformado no dia-a-dia, revoltadinho no trânsito engarrafado e no teclado do Facebook.

O fundamental é que nenhum grupo político no poder ou fora dele tem hoje qualquer nível mínimo de interlocução com uma parte enorme da molecada – seja nas universidades ou nas periferias – que não se conforma com a falta de perspectivas minimamente interessantes dentro dessa sociedade cada vez mais bundona, careta e medíocre.

Os mesmos indignados que se esgoelam no mundo virtual clamando que a juventude e os estudantes “se levantem” contra o governo e a inação da sociedade, são os primeiros a pedir que a tropa de choque baixe a borracha nos “vagabundos” quando eles fecham a 23 de Maio e atrapalham o deslocamento dos seus SUVs rumo à happy-hour nos Jardins.

Acuados, os políticos “de esquerda” se horrorizam com as cenas de sacos de lixo pegando fogo no meio da rua e se apressam a condenar na TV os atos de “vandalismo”, pois morrem de medo que essas fogueiras causem pavor em uma classe média cada vez mais conservadora e isso possa lhes custar preciosos votos na próxima eleição.

Enquanto isso a molecada, no seu saudável inconformismo, vai para as ruas defender – FUNDAMENTALMENTE – o seu direito de sonhar com um mundo diferente. Um mundo onde o ensino, os trens e os ônibus sejam de qualidade e gratuitos para quem deles precisa. Onde os cidadãos tenham autonomia de decidir sobre o que devem e o que não devem fumar ou beber. Onde os índios possam nos mostrar que existem outros modos de vida possíveis nesse planeta, fora da lógica do agribusiness e das safras recordes. Onde crenças e religião sejam assunto de foro íntimo, e não políticas de Estado. Onde cada um possa decidir livremente com quem prefere trepar, casar e compartilhar (ou não) a criação dos filhos. Onde o conceito de Democracia não se resuma à obrigação de digitar meia dúzia de números nas urnas eletrônicas a cada dois anos.

Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet.

Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre.

Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual.

Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.