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Giorgio Agamben: Benjamin e o capitalismo ou a profissão de fé do mercado

Por Giorgio Agamben, via IHU

Há sinais dos tempos (Mt.16,2-4) que, mesmo evidentes, os homens, que perscrutam os sinais nos céus, não conseguem captar. Eles cristalizam-se em eventos que anunciam e definem a época que vem, eventos que podem passar despercebidos e não alterar em nada ou quase nada a realidade a que se juntam e que, no entanto, precisamente por isso valem como sinais, como indicadores históricos, semeia ton kairon. Um destes eventos ocorreu em 15 de agosto de 1971, quando o governo norte-americano, sob a presidência de Richard Nixon, declarou que a convertibilidade do dólar em ouro estava suspensa. Embora tal declaração marcasse de fato o fim de um sistema que havia vinculado por longo tempo o valor da moeda a uma base em ouro, a notícia, comunicada no coração das férias estivas, suscitou menos discussões do que legitimamente se poderia ter esperado. Mesmo assim, a partir daquele momento, a inscrição, que ainda se lê em muitas cédulas (por exemplo, sobre a libra esterlina e sobre a rúpia, mas não sobre o euro), “prometo pagar ao portador a soma de…”, assinada pelo presidente do Banco Central, havia perdido definitivamente o seu sentido. Esta frase significava agora que, em troca daquela cédula, o banco central ofereceria a quem o pedisse (admitindo que alguém fosse tão tolo para o pedir) não uma certa quantidade de ouro (por um dólar, trinta e cinco avos de uma onça), mas sim uma cédula exatamente igual. O dinheiro esvaziou-se de qualquer valor que não fosse o puramente autorreferencial. Deixa-nos ainda mais estupefatos a facilidade com que foi aceito o gesto do soberano norte-americano, que equivalia a anular o patrimônio em ouro dos possuidores de dinheiro. E se, conforme foi sugerido, o exercício da soberania monetária por parte de um Estado consiste na sua capacidade de induzir os atores do mercado a empregarem os seus débitos como moeda, agora também o débito tinha perdido toda referência real, tornando-se puramente de papel.

Desmaterialização da moeda

O processo de desmaterialização da moeda começou muitos séculos antes, quando as exigências do mercado levaram a vincular à moeda metálica, necessariamente escassa e um estorvo, letras de câmbio, cédulas, juros, goldschmith’s notes, etc. Todas estas moedas de papel, na realidade, são títulos de crédito e, por isso, são chamadas de moedas fiduciárias. A moeda metálica, por sua vez, valia – ou deveria valer – pelo seu conteúdo de metal precioso (aliás, como se sabe, inseguro: o caso limite é o das moedas de prata cunhadas por Frederico II, que logo depois de ser usada deixava aparecer o vermelho do cobre). Contudo, Schumpeter (que vivia, sim, numa época em que a moeda de papel já havia superado a moeda metálica) pôde afirmar, e com razão, que, em última análise, todo o dinheiro é apenas crédito. Depois de 15 de agosto de 1971, deveríamos acrescentar que o dinheiro é um crédito que se funda unicamente em si mesmo e que não corresponde se não a si mesmo.

Benjamin e o capitalismo como religião

O capitalismo como religião é o título de um dos mais penetrantes fragmentos póstumos de Benjamin. Já foi observado mais vezes que o socialismo era algo como uma religião (entre outros autores, para Schmitt, “o socialismo pretende dar vida a uma nova religião que, para os homens dos séculos XIX e XX, teve o mesmo significado que o cristianismo para os homens de dois mil anos atrás”). Segundo Benjamin, o capitalismo não representa apenas, como acontece em Weber, uma secularização da fé protestante, mas é ele próprio em fenômeno religioso, que se desenvolve de modo parasitário a partir do cristianismo. Como tal, como religião da modernidade, ele é definido por três características:

1.- É uma religião cultual, talvez a mais extrema e absoluta que jamais tenha existido. Nela tudo só tem significado se for referido ao cumprimento de um culto, e não a um dogma ou a uma ideia.

2.- Este culto é permanente, é “a celebração de um culto sans trêve et sans merci”. Não é possível, aqui, distinguir entre dias de festa e dias de trabalho, mas há um único e ininterrupto dia de festa-trabalho, no qual o trabalho coincide com a celebração do culto.

3.- O culto capitalista não está destinado a trazer redenção ou a expiação de uma culpa, mas destinado à própria culpa. “O capitalismo é talvez o único caso de culpa não expiante, mas culpabilizante. Uma monstruosa consciência culpada que não conhece redenção transforma-se em culto, não para expiar nisso a sua culpa, mas para a tornar universal… e para, no final, capturar o próprio Deus na culpa… Deus não morreu, mas foi incorporado no destino do homem”.

Precisamente porque tende com todas as suas forças não à redenção, mas à culpa, não à esperança, mas ao desespero, o capitalismo como religião não tem em vista a transformação do mundo, mas a sua destruição. E o seu domínio é, em nosso tempo, tão total que até os três grandes profetas da modernidade (Nietzsche, Marx e Freud) conspiram, segundo Benjamin, com ele, são solidários, de algum modo, com a religião do desespero. “Esta passagem do planeta homem pela casa do desespero na absoluta solidão do seu percurso é o ethos que define Nietzsche. Este homem é o Sobre-homem, ou seja, o primeiro homem que começa conscientemente a realizar a religião capitalista”. Mas também a teoria freudiana pertence ao sacerdócio do culto capitalista: “o que foi removido, a representação pecaminosa… é o capital, sobre o qual o inferno do inconsciente paga os juros”. E, em Marx, o capitalismo, com os juros simples e compostos, que são função da culpa… transforma-se imediatamente em socialismo”.

Em que crê o capitalismo?

Tentemos tomar a sério e a desenvolver a hipótese de Benjamin. Se o capitalismo é uma religião, como podemos defini-lo em termos de fé? Em que crê o capitalismo? E o que implica, com respeito à fé, a decisão de Nixon? David Flüsser, grande estudioso de ciência das religiões – existe também uma disciplina com este estranho nome – estava trabalhando sobre a palavra pistis, que é o termo grego que Jesus e os apóstolos usavam como “fé”. Naquele dia achava-se por acaso numa praça de Atenas e a uma certa altura, erguendo os olhos, viu escrito em caracteres cubitais diante de si Trapeza tes pisteos. Estupefato pela coincidência, olhou melhor e após alguns segundos se deu conta de se encontrar simplesmente na frente de um banco: trapeza tes pisteos significa em grego “banco de crédito”. Eis o sentido da palavra pistis – fé – é simplesmente o crédito de que gozamos junto a Deus e de que a palavra de Deus goza junto de nós, a partir do momento em que cremos nela. Por isso Paulo pode afirmar, em famosa definição, que a “fé é substância de coisas esperadas” (1): ela é aquilo que dá crédito e realidade àquilo que ainda não existe, mas em que cremos e temos confiança, em que colocamos em jogo o nosso crédito e a nossa palavra. Creditum é o particípio passado do verbo latino credere: e aquilo em que cremos, em que colocamos a nossa fé, quando estabelecemos uma relação fiduciária com alguém tomando-o sob a nossa proteção ou emprestando-lhe dinheiro, confiando-nos à sua proteção ou tomando de empréstimo dele algum dinheiro. Na pistis paulina volta a viver a antiquíssima instituição indo-europeia que Benveniste reconstruiu, a “fidelidade pessoal”: “Aquele que detém a fides posta nele por um homem mantém tal homem em seu poder… Na sua forma primitiva, esta relação implica uma reciprocidade: por a própria fides em alguém proporcionava, em troca, a sua garantia e a sua ajuda”.

Capitalismo: religião fundada sobre a fé

Se isso for verdadeiro, então a hipótese de Benjamin de que há uma estreita relação entre capitalismo e religião acaba recebendo uma nova confirmação: o capitalismo é uma religião inteiramente fundada sobre a fé, é uma religião cujos adeptos vivem sola fide (unicamente da fé). E se, segundo Benjamin, o capitalismo é uma religião na qual o culto se emancipou de todo objeto e a culpa se emancipou de todo pecado, e, portanto, de toda possível redenção. Então, do ponto de vista da fé, o capitalismo não tem nenhum objeto: crê no puro fato de crer, no puro crédito (believes on the pure belief), ou seja, no dinheiro. O capitalismo é, pois, uma religião em que a fé – o crédito – ocupa o lugar de Deus; dito de outra maneira, pelo fato de o dinheiro ser a forma pura do crédito, é uma religião em que Deus é o dinheiro.

Isso significa que o banco, que nada mais é do que uma máquina para fabricar e gerir crédito (Braudel, p. 368), tomou o lugar da Igreja e, ao governar o crédito, manipula e gere a fé – a escassa e incerta confiança – que o nosso tempo ainda conserva em si mesmo.

Crédito: ser imaterial

O que significou, para esta religião, a decisão de suspender a convertibilidade em ouro? Certamente constituiu uma espécie de elucidação do próprio conteúdo comparável à destruição mosaica do bezerro de ouro ou à fixação de um dogma conciliar – em todo caso, trata-se de uma passagem decisiva para a purificação e a cristalização da própria fé. Esta – na forma do dinheiro e do crédito – emancipa-se agora frente a toda referência externa, cancela o seu nexo idolátrico com o ouro e se afirma na sua absolutidade. O crédito é um ser puramente imaterial, a mais perfeita paródia da pistis, que nada mais é do que “substância das coisas esperadas”. A fé – assim dizia a célebre definição da Carta aos Hebreus – é substância – ousia, termo técnico por excelência da ontologia grega – das coisas esperadas. O que Paulo quer dizer é que aquele que tem fé, que pôs a sua pistis em Cristo, toma a palavra de Cristo como se fosse a coisa, o ser, a substância. Mas é precisamente este “como se” que a paródia da religião capitalista cancela. O dinheiro, a nova pistis, é, agora imediatamente e sem resíduos, substância. O caráter destrutivo da religião capitalista, de que falava Benjamin, aparece aqui na sua plena evidência. A “coisa esperada” não existe mais, e foi aniquilada e deve sê-lo, pois o dinheiro é a essência última da coisa, a sua ousia no sentido técnico. E dessa maneira elimina-se o último obstáculo para a criação de um mercado da moeda, para a transformação integral do dinheiro em mercadoria.

A sociedade condenada a viver de crédito

Uma sociedade cuja religião é o crédito, que crê apenas no crédito, está condenada a viver de crédito. Robert Kurz ilustrou a transformação do capitalismo do século XIX, ainda fundamentado na solvência e na desconfiança com relação ao crédito, no capitalismo financeiro contemporâneo. “Para o capital privado do século XIX, com os seus proprietários pessoais e com os relativos clãs familiares, valiam ainda os princípios da respeitabilidade e da solvência, à luz dos quais o recurso cada vez maior ao crédito aparecia quase como algo obsceno, como o início do fim. A literatura popular da época está cheia de histórias em que grandes estirpes caem em ruína por causa da sua dependência do crédito: em algumas passagens dos Buddenbrook, Thomas Mann fez disso até mesmo um tema que mereceu um Prêmio Nobel. O capital produtivo de juros era naturalmente, desde o início, indispensável para o sistema que se estava formando, mas ainda não tinha importância decisiva na reprodução capitalista no seu conjunto. Os negócios do capital “fictício” eram considerados típicos de um ambiente de trapaceiros e de pessoas desonestas, à margem do capitalismo propriamente dito… Além disso, Henry Ford rejeitou por muito tempo o recurso ao crédito bancário, obstinando-se em querer financiar os seus investimentos unicamente com o próprio capital” (R. Kurz, La fine della politica e l’apoteosi del denaro, Roma, 1997, p. 76-77; Die Himmelfahrt des Geldes, em “Krisis”, 16, 17, 1995).

A hipoteca antecipada do trabalho

No decurso do século XIX, esta concepção patriarcal dissolveu-se completamente, e o capital das empresas hoje recorre em medida crescente ao capital monetário, tomado de empréstimo junto ao sistema bancário. Isso significa que as empresas, para poderem continuar a produzir, devem por assim dizer hipotecar antecipadamente quantidades cada vez maiores do trabalho e da produção futura. O capital produtor de mercadorias alimenta-se ficticiamente do próprio futuro. A religião capitalista, em coerência com a tese de Benjamin, vive de um contínuo endividamento que não pode nem deve ser extinto. Mas não são apenas as empresas que vivem, neste sentido, sola fide, a crédito (ou a débito). Também os indivíduos e as famílias, que recorrem a isso de modo crescente, estão da mesma forma religiosamente envolvidos neste contínuo e generalizado ato de fé sobre o futuro. E o Banco é o sumo sacerdote que ministra aos fiéis o único sacramento da religião capitalista: o crédito-débito.

A polícia nunca garantiu a ordem

Uol/Reprodução

Por Erick Vasconcelos, via Sul 21

Acabou. No começo da noite de quinta-feira, a Polícia Militar de Pernambuco decidiu terminar com a greve que durava o dia inteiro. Houve saques, depredações, desordem, assassinatos. O comércio fechou, as pessoas voltaram para casa. Arrastões aconteceram, carros foram queimados em outros lugares, talvez para verificar se os bombeiros também haviam entrado em greve.

Ao sair de casa aqui no Recife então, porém, uma sensação prevalecia: nada havia mudado. Pernambuco é um dos estados mais violentos do Brasil, e Recife é a 39ª cidade mais perigosa do planeta, com 36,82 homicídios a cada 100 mil habitantes. Com o funcionamento normal da polícia, nós estamos em constante perigo. Sem ela, o perigo havia multiplicado ou nada havia mudado?

Mudou a percepção das pessoas, pensando que não haveria punição a seus crimes. Todos saíram de casa e tomaram as ruas, roubaram. Grandes lojas moveram seus estoques e foram capazes de se proteger, muitos pequenos comerciantes perderam tudo. A situação parecia ter saído do controle, mas o governo decidiu exercer seu monopólio da violência de modo radical e colocou tanques de guerra nas ruas. Imagino que esperassem explodir alguns que tenham roubado uns aparelhos de TV — a Copa está chegando, TVs são aparelhos cobiçados.

Mas a percepção de que não havia polícia era muito mais forte do que a realidade: a verdade é que Pernambuco nunca tem polícia. Se tem, é vista como ameaça, não como proteção, por mais de 80% da população. Em nossas vidas normais, dificilmente temos a sensação de que a polícia nos protegerá, e na quinta-feira nada tinha mudado nesse aspecto. Se, num dia qualquer, as pessoas decidissem fazer o mesmo que fizeram na quinta, elas seriam capazes e sairiam impunes. Elas só não notaram sua própria força ainda, mas a polícia é apenas um pequeno número de pessoas, incapazes de lidar com uma quantidade infindavelmente maior de pessoas que não querem obedecer suas ordens.

O fato de a polícia ter parado de trabalhar e estimulado a desordem parecia apontar para a essencialidade da polícia, mas nos disse justamente o contrário. No Recife, morreram 1416 pessoas em 2013 — quase 4 pessoas por dia. No dia 15, de completa anomia e anormalidade, foram registradas 7 mortes. A greve deveria nos fazer parar para pensar que, no fim das contas, a PM é um exercício de futilidade, uma instituição que sobrevive mais pelo nome que por seus resultados.

Porque a ordem só subsiste quando as pessoas acreditam que ela subsistirá; se as pessoas acreditam que é o governo, ou seu braço policial, que mantém a ordem, essa ordem só continuará de pé enquanto o governo estiver de pé. A ordem não se mantém pela força, mas pela cultura — assim como os governantes. Se as pessoas, coletivamente, deixarem de acreditar que a polícia é necessária, haverá ordem e haverá liberdade, sem saques, depredações e mortes. O poder, portanto, é simplesmente uma ficção pública, algo que existe mas pode desaparecer com uma simples mudança na opinião geral.

Ayn Rand diria que o poder só subsiste com a sanção da vítima. La Boétie, por sua vez, pergunta que poder o governante tem que não aquele que damos a ele. David Hume conclui que o poder é sustentado por pouco mais que a opinião pública, enquanto Gramsci sabe que a ordem existente é legitimada pela cultura. E Varys, em A Fúria dos Reis (com o roteiro um pouco alterado para a série Game of Thrones), coloca a questão da seguinte forma, ao conversar com Tyrion:

— O rei, o sacerdote, o rico… Quem sobrevive e quem morre? A quem obedecerá o mercenário? É um enigma sem resposta, ou melhor, com muitas respostas. Tudo depende do homem que tem a espada.

— E, no entanto, ele não é ninguém — Varys concluiu. — Não tem uma coroa, nem ouro, nem o favor dos deuses, mas apenas um pedaço de aço afiado.

— Esse pedaço de aço é o poder da vida e da morte.

— Precisamente… E, no entanto, se são realmente os homens de armas que nos governam, por que fingimos que nossos reis têm o poder? Por que um homem forte com uma espada obedeceria a um rei criança como Joffrey, ou a um idiota encharcado em vinho como o pai?

— Porque esses reis crianças e idiotas bêbados podem chamar outros homens fortes, com outras espadas.

— Então são esses outros homens de armas que têm o verdadeiro poder. Ou será que não? De onde vieram as suas espadas? Por que é que eles obedecem? — Varys sorriu.

(…)

— Pretende responder ao seu maldito enigma, ou quer apenas fazer com que a minha dor de cabeça piore?

Varys sorriu.

— Eis, então. O poder reside onde os homens acreditam que reside. Nem mais, nem menos.

Na quinta, as pessoas usaram o poder que sempre tiveram e o usaram para o mal. E, ao final do dia, decidiram entregá-lo de volta para a polícia, que anunciou o fim de sua greve — mas se o povo não quisesse devolver o poder, o que a polícia faria? Na próxima greve, talvez as pessoas passem a acreditar que podem viver normalmente sem ela. Porque a ordem existe onde os homens acreditam que ela existe.

Diálogos Desenvolvimentistas: Getúlio, o filme, em debate

Getúlio Vargas, na interpretação de Tony Ramos (Extra/Reprodução)

Por Rennan Martins

E eis que, finalmente, a sétima arte brasileira é contemplada com o retrato de uma época fundamental da história do país. Getúlio, dirigido por João Jardim, estreou nas telonas no último dia 1.

Nele assistimos os últimos momentos de Getúlio Vargas, presidente do Estado Novo brasileiro de 1930 à 1945, eleito democraticamente em 1951. É impossível falar de política nacional sem falar deste gaúcho.

A ele devemos a criação do salário-mínimo, das férias remuneradas, das leis trabalhistas e da própria Petrobras, que permanece forte frente a todos os ataques de escusos interesses que temos presenciado.

Os acontecimentos retratados remontam a 1954, quando Carlos Lacerda, jornalista e político, usava da televisão para realizar ataques incessantes ao chefe do executivo. É quando ocorre o famigerado Crime da Rua Tonelero, no qual Lacerda é atingido por um tiro no pé.

Este foi o pretexto de intensificar ainda mais as investidas que culminaram em Getúlio sozinho, traído e abandonado pelos antigos aliados, o que o fez entregar-se morto a seus detratores, saindo da vida e entrando para a história, como disse o próprio.

Sabemos hoje que este gesto foi o responsável por adiar em 10 anos a investida golpista dos militares, que em 64, apoiado por estrangeiros, implantaram uma ditadura oligárquica no Brasil.

Esta obra moveu nossos colaboradores Adriano Benayon, ex-diplomata e doutor em economia, e Ceci Juruá, membro do Conselho Consultivo da Confederação Nacional dos Trabalhadores Universitários e doutora em políticas públicas a analisarem o próprio filme em contato com a visão histórica de cada um.

Confira as pertinentes colocações:

Adriano Benayon – Getúlio Vargas, como demonstrei em artigos que escrevi há alguns anos e vou enviar ao grupo após esta mensagem, cavou sua queda por confiar em que sua inegável e extraordinária popularidade o dispensaria de tomar medidas firmes para debelar a conspiração que o levou, inclusive, à morte, fossem elas dentro das regras constitucionais de 1946, fosse recorrendo à força e lixando-se para a Constituição, como possibilitava o apoio de que dispunha na Vila Militar, mesmo sem falar nos tristes episódios, como o de 1952, em que preferiu contemporizar com os golpistas internos Goes Monteiro e João Neves da Fontoura a sustentar seu ministro do Exército, general Estillac Leal, decidido nacionalista, quando aqueles dois traidores entabularam o Acordo Militar com os EUA, nas costas do ministro.

Assisti ao filme Getúlio, recomendado por Ceci e outros, e não gostei. Não aparece ali sequer uma mísera referência à ação dos serviços secretos dos EUA na conspiração encetada desde a posse do presidente em 1950. Na medida em que haja, mesmo que parcial, verdade na versão do filme – além de denotar seu desencanto e mesmo cansado com a vida, algo compreensível para quem viveu, mesmo quando supostamente ditador, acuado pelo inimigo externo e pela matilha de milhares de entreguistas locais, até dos meios empresariais que lhe deviam tanto – Vargas demonstra falta de percepção e mesmo de inteligência, incompatível com o que conhecemos dele.

Faz (no filme), por completo, o jogo do inimigo, com aquela conversa fiada de que fazia questão de respeitar as “regras democráticas” e que não era o ditador que os adversários incessantemente assim qualificavam.

O pior de tudo é que, além de apoio militar, Vargas tinha incrível apoio popular, o que foi demonstrado após sua morte e não só com o desfile de milhões para dar-lhe o último adeus. Em Porto Alegre, o povo chegou a invadir o Consultado dos EUA, situado num andar alto de um prédio, e atirar pela janela arquivos, móveis e até um piano.

Conclusão, nem Vargas foi o líder revolucionário de que o Brasil precisava naquele momento, nem apareceram lideranças capazes de empolgar o povo e os setores militares nacionalistas para surfar na gigantesca onda da revolta popular que se sucedeu à morte trágica do presidente.

Pior, ainda. Muitos brasileiros, até dos mais doutos, iludem-se com a estória, tão repetida – inclusive a propósito da reedição da obra de José Augusto Ribeiro frustrou os objetivos dos autores do golpe, impedindo que a política adotada pelo governo militar-udenista, sob a presidência nominal do reles e traíra fantoche Café Filho.

Pode, no máximo, ter adiado alguns desses objetivos, como o de minar a Petrobras mais cedo do que acabou sendo. Mas, no essencial, o império angloamericano e seus poodles locais fez infletir a política do País para a submissão, desnacionalizando a indústria nacional que havia florescia desde o início do Século XX.

Como reitero, nos artigos que escrevo a cada 15 ou 20 dias, a entrega do mercado brasileiro e ainda escandalosamente subsidiada pelo governo brasileiro, foi perpetrada já em janeiro de 1955, com várias instruções da SUMOC que inviabilizaram o desenvolvimento econômico e tecnológico do País.

Tudo isso aplicado e aumentado por JK, outro inominável traíra, que, eleito com os votos de Vargas (tal como Dutra), fazendo consolidar a dominação econômica das transnacionais. E, por via de consequência, as dívidas e tudo mais que até hoje leva o País a condições econômicas e sociais lastimáveis.

Ceci Juruá – Percebo que existe entre nós, caro Benayon, diferenças doutrinárias. Mas também de metodologias de análise social. E até de valorização de obra de terceiros. Gostei muito do filme Getúlio, certamente não foi o filme que eu faria. Mas eu não sou capaz e João Jardim demonstrou-se competente. Fez um belíssimo filme, mais introspectivo, mas colocando o contexto. E, no meu entendimento, o filme deu todas as dicas sobre quem perpetrou o golpe e o suposto suicídio. Mas o filme mostra muitas coisas facetas da época. Linda a relação entre Getúlio e Alzira, por exemplo. Quase sem palavras, apenas gestos e olhares. E a influência que exerceu sobre a decisão de Getúlio, o temor quanto à prisão – e sabe-se lá o quê – de seu filho. Viriam buscá-lo no dia seguinte. Tudo isto nos faz relembrar a famosa frase do Che “hay que ser duro, pero sin perder la ternura”. Revolucionários, mas, humanos.

Sobre resistência e guerra civil, hei de lembrar sempre o comentário de Maria Conceição Tavares certo dia em que descíamos, por elevador, após um daqueles debates ardentes. Disse ela: “Só gosta de guerra civil quem nunca a viveu. Eu que assisti à da Espanha, e vivi em Portugal, não gosto.”

Mas prefiro a história real à contrafactual. Se o fim de Getúlio foi aquele que o filme mostrou, ele mais uma vez comportou-se como o líder amado pelo povo brasileiro. Capaz de um gesto de grandeza que preservou por alguns anos as conquistas que obtivemos sob sua liderança. A década de 1950 foi o tempo em que vivemos a grande contradição capitalista entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais de produção. Como também o foi a década de 1990. Nos dois momentos ganhamos e perdemos. Mas continuamos inseridos na história das civilizações e construindo nosso caminho. Não é o caminho sonhado por alguns, é verdade. Mas é o nosso caminho, da sociedade brasileira, iluminado pelas aspirações históricas do povo brasileiro – desenvolvimento/progresso, paz e liberdade. É assim que gostamos de ser, nós os brasileiros de cinco séculos.

Como Marx, não acredito que os homens escrevam a história conforme sua vontade pessoal. Eles a fazem, sim, mas nos limites concedidos pela dinâmica social e histórica, nos limites determinados pelo posicionamento das classes e pela e luta de classes. Jamais tivemos, no Brasil, relação de forças capaz de enfrentar o imperialismo, e a década de 1990 comprovou isto, sem deixar margem a dúvidas. A ideologia não vem dos céus nem de espíritos eternos, ela se forja nas condições concretas da existência. E nós os brasileiros somos pragmáticos.

A Declaração da Reunião de Mulheres da América Latina e Caribe pela Soberania Alimentar

Reprodução/MPA Brasil

Por Rennan Martins

Nos últimos dias 2 e 3 de maio ocorreu a IV Conferência Especial para a Soberania Alimentar, convocada pela Aliança pela Soberania Alimentar dos Povos da América Latina e do Caribe, em Santiago do Chile. Esta conferência tem por fundamentos a defesa das sementes e espécies nativas, territórios, rios e mares, reivindica também uma reforma agrária integral e a dignificação dos trabalhadores e trabalhadoras do campo visando garantir o direito humano a alimentação.

Neste evento ocorreu o encontro de 70 delegadas denominado Reunião das Mulheres da América Latina e Caribe.

Reproduzo a tradução da Declaração da Reunião das Mulheres da América Latina e Caribe, por sua relevância em termos de elaboração de políticas públicas que visam a manutenção da segurança alimentar, a sustentabilidade e o respeito aos trabalhadores, camponeses e indígenas, e por último mas não menos importante, as mulheres.

Declaração da Reunião das Mulheres da América Latina e Caribe na IV Conferência Especial da Aliança pela Soberania Alimentar dos Povos da América Latina e Caribe

Em Santiago do Chile, no dia 2 de maio, reunidas as mulheres campesinas, rurais, pescadoras, pastoras, assalariadas agrícolas e indígenas na Conferência Especial da Soberania Alimentar da América Latina e Caribe declaramos que:

Ratificamos os esforços políticos pela soberania alimentar como um princípio. Valorizamos e reconhecemos os esforços anteriores realizados nesta Conferência, cujo processo se dá desde a realização da Conferência Mundial sobre alimentação realizada em Mali sob o nome da mulher Nyeleni, de onde nossas propostas incidem no reconhecimento dos direitos para construir e socializar com um enfoque de gênero.

Da mesma forma, consideramos os avanços nestes processos de mais de 20 anos de construção da agenda para a defesa da soberania alimentar dos povos, a constituição desta aliança e seu documento fundador devem seguir avançando para que este e outros documentos se transformem em políticas públicas.

Destacamos o trabalho das mulheres do campo e da pesca artesanal e da aquicultura, maricultura em todos os âmbitos: produtivo, reprodutivo, do cuidado pelas pessoal, pelos bens comuns e pela natureza. As mulheres são historicamente transmissoras da cultura, através dos valores, as resistências culturais, a defesa do idioma, línguas, vestuário, costumes ancestrais e comunitários.

Ratificamos a importância da mobilização social como ferramenta da ação e posicionamento político das incidências e resistências, porque os povos possuem o direito de decidir livremente sobre os modos de vida, produção, comercialização e intercâmbio que queremos em oposição ao modelo agroindustrial, extrativista e de concentração que afeta principalmente as mulheres em suas condições de trabalho, de vida e tem impacto nas funções produtivas, reprodutivas e nas condições do cuidado pela vida e natureza. O trabalho flexível e precário impacta com maior intensidade as mulheres.

Denunciamos que mesmo havendo convenções internacionais que proíbem o trabalho das crianças, segue-se violando este direito dos meninos e meninas na agroindústria, privando-os de viver uma infância plena e feliz com educação e saúde garantidas pelos Estados.

Exigimos dos governos da América Latina e do Caribe e a FAO: que adotem o enfoque dos bens coletivos para se referir aos nossos territórios, terra, água, ecossistemas e biodiversidade.

Os governos devem assegurar a todos os povos o acessos aos bens coletivos e garantir sua proteção. Respeitar as normas definidas pelos instrumentos e convenções internacionais, como a CEDAW (Convenção Internacional contra todo tipo de descriminação contra as mulheres). Neste sentido declaramos campanha permanente contra a violência que atinge as mulheres, em todas as suas formas (sexual, psicológica, econômica, intrafamiliar e institucional).

Exigimos dos Estados e órgãos internacionais que garantam o cumprimento dos direitos legítimos das mulheres.

Exigimos o cumprimento efetivo do Convênio de 169 da OIT e a Declaração das Nações Unidas sobre o direito dos povos indígenas e o respeito aos direitos consuetudinários. Fazer efetivo o mecanismo da consulta prévia e livre e informada sobre tudo o que afeta aos nossos territórios. Fomentar a certeza jurídica da defesa da terra, para que as mulheres defendam este direito inalienável e não embargável.

O reconhecimento da cosmovisão dos povos indígenas, a solidariedade, reciprocidade e complementaridade.

A valorização, reconhecimento e respeito aos saberes das mulheres e homens produtores que garantem a soberania alimentar dos povos, através da Reforma Agrária Integral.

A incorporação nas políticas públicas da economia solidária, que fomenta a associatividade, fortalecendo o abastecimento e comercialização regidas por outras formas de intercâmbio próprias dos territórios.

A não permissão da privatização dos bens comuns, nem o patenteamento de toda forma de vida. Nos opomos a lei de obtentores vegetais, a propriedade intelectual de sementes, das ervas medicinais e a intervenção genética que rompe com o ciclo ecológico da natureza.

O fortalecimento do papel fiscalizador dos parlamentos para fazer avançar as políticas de soberania alimentar.

O reconhecimento da Aliança pela Soberania Alimentar como contraparte nas discussões e decisões perante os países e a FAO.

Nós, mulheres representantes insistimos as nossas organizações no comprometimento com:

A valorização do papel das mulheres na preservação, conservação e desenvolvimento de nossas culturas.

O fortalecimento da formação política das mulheres para a soberania alimentar e avanço na criação de um programa regional de formação.

A socialização da informação acerca do ano da Agricultura Familiar Campesina e Indígena e sua importância para alimentar o mundo e cuidar do planeta.

O fortalecimento e ampliação de nossas organizações, nos articulando em ações comuns.

A realização, continuação e avalização dos governos da América Latina do Caribe e da FAO, para a implementação dos acordos compromissos alcançados. Estaremos atentas aos diversos processos políticos e trabalharemos juntas para que os movimentos sociais avancem nos objetivos.

Não permitiremos a manipulação e instrumentalização da soberania alimentar.

Seguiremos construindo alianças com as mulheres das cidades, suas organizações e outros setores para manutenção de relações equilibradas entre a produção e comercialização dos alimentos.

“Resistência e rebeldia, as sementes pela vida”

 

 

O racismo no futebol tem uma chance de acabar se Pelé ficar calado

Por Marcos Sacramento, via DCM

Lembrei de Pelé ao ler uma citação do escritor Albert Camus. Está no livro “O Mito de Sísifo” e diz que “um homem é mais homem pelas coisas que silencia do que pelas que diz”. Pelé mais uma vez silenciou sobre um caso de agressão racista no futebol – desta vez foi a já emblemática ofensa sofrida por Daniel Alves, do Barcelona.

Quer dizer, o silêncio não foi literal. Ao ser perguntado sobre a provocação, deu um passe de canela. “Racismo não é no futebol, tem em todos os setores da sociedade há muito tempo. O que não podemos deixar é uma coisa tão banal, de um carinha que jogou uma banana, e fazer do limão uma limonada”, disse o Rei do Futebol.

Mas relevar uma agressão racista chamando-a de “banal” e a repercussão do fato de “tempestade em copo d’água” é o mesmo que calar-se e desviar o olhar de um problema que só tem crescido no futebol profissional. Vindo de umas das personalidades negras mais conhecidas do mundo, é nocivo, deletério para o combate ao preconceito racial.

Pelé disse que em seu tempo “jogavam jaca, manga”. Simbolismos à parte, levar uma manga na cabeça deve doer mais que uma bananada. Jaca, então, melhor nem imaginar. Comparando essas frutas à que arremessaram em Daniel Alves, Pelé minimiza o insulto ocorrido no estádio do Villarreal e outros tantos, como os sofridos pelo lateral Roberto Carlos, anos atrás, e Yaya Touré, do Manchester City.

Embora não tenha recebido mangas ou jacas na cabeça, Touré seguiu o caminho oposto ao de Pelé e ameaça liderar um boicote de jogadores negros na Copa de 2018. A Rússia, país sede, é um dos principais palcos de episódios racistas no futebol.

Na luta pelo fim do racismo, o meio-campista nascido na Costa do Marfim tabela com um dos carrascos do Brasil na Copa da França, em 1998. Ex-zagueiro, o francês Lilian Thuram criou uma fundação cujo objetivo é erradicar o racismo por meio da educação.

Se fosse possível somar os talentos futebolísticos de Touré e Thuram não teríamos um terço da habilidade que Pelé teve dentro do campo. Fora das quatro linhas, com a militância dos dois, o jogo muda. Pelé vira um perna de pau clássico, dos que só entram para completar a pelada na várzea.

Sobre fundamentalismo midiático e zumbis amestrados

Por Washington Araújo, em Cidadão do Mundo

 

Existe um novo tipo de fundamentalismo. E é tão letal quanto o religioso e perigoso quanto o ideológico. É o fundamentalismo midiático.

Esse fundamentalismo padece das vãs fantasias, como de costume, levadas ao extremo: julga-se autosuficiente, tem certeza de sua superioridade intelectual, aferra-se à ideia maniqueísta do “somos moralmente imbatíveis e os demais destituídos de qualquer predicado moral”.

É assim que o jornalismo praticado por Veja, Folha de S.Paulo, O Estado de São Paulo e Organizações Globo (TV Globo, Globo News, O Globo, Época e CBN) passa a ser referido como jornalismo-verdade, jornalismo-sério, jornalismo-tradição, jornalismo-isento.

Os demais meios de comunicação – notadamente na Web – simbolizam seus contrários, jornalismo-mentira, pândego, experimental e cooptado pelo governo de plantão nas esferas federal, estadual e municipal. Para esse jornalismo de segunda linha os “fundamentalistas” cunharam as expressões “jornalismo de esgoto/esgotofera”, “blogues sujos e mal-cheirosos”, “revistas QuantoÉ”.

O fundamentalismo midiático se apropria da ingenuidade das pessoas para transformá-las em meros autômatos, em zumbis amestrados, roubando-lhes o que têm de mais precioso – a capacidade de pensar por si mesmos.

Como guardiães de verdades inquestionáveis, esses fundamentalistas são gem conscientes de seu poder de fogo: enfraquecem os governos com suas chamadas alarmantes e suas pesquisas feitas no calor da hora em que qualquer governo se sinta acuado ou fragilizado (vejam as manifestações populares de junho de 2013 e a imediata pesquisa Datafolha feita a toque de caixa); tratam os opositores de governo que se recuse a ser subjugado por sua influência com extrema complacência (observem como a corrupção sobre os trilhos de São Paulo continuam sendo referidos como “suposto cartel”, não obstante a multiplicidade de provas, evidências, documentos, testemunhos e condenações judiciais dessas mesmas empresas corruptoras em Cortes da Suíça, Estados Unidos, França).

Os fundamentalistas brandem seu corporativismo tantas vezes quantas sejam necessárias. Como cartel bem estruturado administrativa e financeiramente, mexeu com um mexeu com todos. Seguem o lema de ‘Os Três Mosqueteiros’ – um todos, todos por um.

E é assim que o escândalo regular forjado por Veja com repórteres acionados por controle remoto na semana anterior ganha capa na edição do sábado seguinte, recebe espaço generoso na edição do Jornal Nacional do mesmo dia, assegurando-se tratamento diferenciado com ‘testemunha-chave’ na revista dominical Fantástico e ao longo da semana será escândalo de uma nota só – editoriais e colunistas esbravejando nos jornais tradicionais do eixo Rio-São Paulo. Essa a receita do fundamentalismo sempre que se percebe ameaçado em seu monopólio de gerir o lucrativo negócio da comunicação.

Que ninguém se iluda, aos fundamentalistas só interessa atuar como força política capaz de proteger e alavancar seus interesses econômico-financeiros. Para ocultar essa sórdida agenda são trazidos à cena biombos com as surradas expressões “Liberdade de Imprensa”, “Pluralismo de Ideias”.

Só que, para ser verdade, far-se-ia necessária a inclusão do pronome possessivo “nossa”. Esses fundamentalistas midiáticos querem mesmo é ”Liberdade de Nossa Imprensa” e “Pluralismo de Nossas Ideias”. Por paradoxal que pareçam.

Neruda e García Márquez: Frente a frente

Por Rennan Martins

Passados 12 dias da despedida de Gabriel García Márquez, o mundo se agita em torno de sua obra, sua vida, seu legado. E eis que, numa dessas pesquisas encontro este registro histórico, de importância ímpar para a humanidade. Trata-se do próprio Gabriel entrevistando Pablo Neruda, nobel de literatura.

Esta entrevista, denominada Neruda y García Márquez: Frente a frente, foi idealizada pelo jornalista Augusto Olivares e produzida pela Televisión Nacional, estatal de TV chilena. O ano era 1971 e Neruda havia sido agraciado com o nobel há 48 horas. Gabo então voou de Barcelona ao encontro do poeta, em Paris.

A intimidade dos dois transparece por toda a gravação, que mais parece uma conversa. Nela, os dois discutem a literatura, os papéis do romancista e do poeta em relação a ela, e a possibilidade de entendimento entre estas correntes.

Gabo estava dedicado a escrever O Outono do Patriarca, e considerou que seu trabalho, quando mais voltado a literatura, o afasta da realidade que o jornalismo o expunha de forma constante, e instiga Neruda a expor a perspectiva do poeta sobre esta questão. Este então pondera a poesia como algo mais intimista, uma visão muito particular do autor sobre o mundo.

García Márquez, 11 anos antes de ganhar o nobel por Cem Anos de Solidão, já o previa e pediu a seu amigo que o felicitasse quando isto ocorresse. Neruda não teve a oportunidade. Em 1973, 12 dias após o golpe militar que derrubou Allende e a frente socialista do governo chileno, veio a falecer.

Fiquem agora com os próprios:

Abaixo, a opção do youtube, o qual se pode habilitar as legendas em espanhol: