
György Lukács. Boitempo Editorial/Reprodução
Edição por Rennan Martins
Na última terça, há dois dias, publicamos um trecho do ótimo Diálogo Desenvolvimentista travado por Paulo Timm e Flavio Lyra, de nome A democracia, o marxismo e o desafio da esquerda na atualidade. Aos que não leram a primeira parte, recomendo o clique e a volta posterior.
Fiquem com a continuação:
Flavio Lyra – Temos muitas convergências, mas também muitas divergências, pelo que a seguir exponho:
1. Continuo acreditando firmemente que há dois aspectos da realidade que nunca foram negados de forma convincente nem pela ciência, nem pelas filosofias ortodoxas: a) as relações capitalistas de produção, que colocam de um lado os proprietários do capital e de outro os trabalhadores, numa relação de subordinação dos segundos em relação aos primeiros, representam a forma básica em que as sociedades capitalistas atuais realizam sua atividade de produção e reprodução das condições de vida da população. A acumulação de capital, na forma de propriedade dos meios de produção, continua sendo o fim último perseguido pelos proprietários dos meios de produção. Tampouco, tenho dúvidas de que essa relação é imanentemente contraditória no plano das unidades produtivas e impossível de ser controlada no plano coletivo; b) A história da humanidade mostra que as formas em que os homens têm se relacionado ao longo do tempo para realizar a produção e a reprodução de suas condições materiais de existência não são permanentes. Portanto, as relações capitalistas de produção não têm por que ser definitivas. Qual será a alternativa é uma questão em aberto. Luto para seja uma alternativa menos perniciosa do que a atual, que a meu ver só será possível se os interesses coletivos puderem ser priorizados em relação aos interesses individuais e as relações entre os homens no processo produtivo deixarem de ser contraditórias (relações de exploração). Por conseguinte, enquanto existir o capitalismo (relações capitalistas de produção) o marxismo vai ser válido, não obstante as adaptações e mudanças em seus aspectos teóricos e suas práticas exigidos pelo desenvolvimentos do processo histórico.
2. A experiência do chamado socialismo real foi terrível para o pensamento marxista. O dogmatismo stalinista no plano teórico (fortemente influenciado pelo positivismo) e a frustrante experiência no plano prático, contribuíram certamente para o descrédito do marxismo, mas seu renascimento é uma realidade indiscutível. As contribuições de Lukács e Mészáros (Ontologia do ser Social e Para Além do Capital, entre outros) não só retomam as bases originais do marxismo, mas o renovam e firmam sua validade para o entendimento da fase atual do desenvolvimento do capitalismo.
3. Tenho profundas dúvidas de que a visão de Kant tenha maiores semelhanças com o pensamento marxista. A epistemologia kantiana é essencialmente idealista, pois pretende explicar a realidade a partir do pensamento, enquanto que o marxismo parte da realidade concreta para explicar sua dinâmica, independentemente da consciência humana. O pensamento marxista é ontológico (não no sentido da metafísica transcendental kantiana, mas no sentido do conhecimento do ser em sua concretude). Para Lukács, a filosofia kantiana é uma tentativa de conciliar o conhecimento do mundo com a religião, daí suas categorias de análise serem fruto do pensamento e partirem da impossibilidade do conhecimento da realidade, “a coisa em si”, e se concentrarem nos fenômenos, ou seja, na aparência das coisas e não em sua essência. O próprio Hegel, com a adoção do método dialético, que procura conhecer as mudanças da realidade através de suas contradições, já representou um forte opositor as ideias kantianas, ainda que compartilhasse com ele uma visão idealista da realidade e não materialista.
4. Sempre vi o desenvolvimentismo como uma doutrina que visa expandir o capitalismo nos países que se atrasaram na criação de uma base econômica capitalista, inclusive por conta da exploração a que foram submetidos na época colonial e continuam sofrendo depois de sua independência política por conta do imperialismo dos países centrais. Alguns desses países possuem potencialidades que lhes permitem sonhar com o avanço da acumulação de capital dentro de suas fronteiras nacionais. A China é um exemplo notório disto. A globalização, porém vem crescentemente tornando cada vez mais improvável que os países mais atrasados possam explorar suas potencialidades com um mínimo de autonomia nacional em relação ao capitalismo internacional, controlado pelas grandes corporações privadas. Imaginar que o desenvolvimentismo em qualquer de suas versões representa uma saída das contradições do capitalismo é uma grande ilusão, por conseguinte. É preciso pensar mais longe e preparar a sociedade para uma nova etapa do desenvolvimento da história da humanidade que permita um maior controle da sociedade sobre as condições de produção e reprodução de sua vida material. O único que podemos saber antecipadamente é que essa nova etapa precisaria estabelecer relações de produção entre os homens mais igualitárias. Não importa o nome que venha ter.
5. Defendo as reformas de moldura social-democráticas, mas sou realista. Vejo que capitalismo atual caminha na direção de reduzir o espaço de possibilidades para o avanço da social-democracia. No Brasil, o PT é ainda a organização política mais próxima das forças populares, não obstante seus desvios. Não acredito que seja viável um aprofundamento da democracia no Brasil, sem a participação do PT. Esse aprofundamento passa pelo fortalecimento dos movimentos sociais e pelo crescimento de formas diretas de participação. Vejo a democracia atual, como uma forma capitalista de organização política. Não estou certo de sua transformação será viável por reformas ou, alternativamente, por revolução. Por enquanto, sigo lutando pela via reformista, mas sempre de olho num futuro que muito provavelmente não verei: a de substituição do capitalismo por uma ordem econômica e política mais apropriada para a sociedade, mais igualitária, porquanto livre da submissão do trabalho ao capital.
6. Considero que o grande obstáculo ao desenvolvimento do Brasil no regime capitalista é o imperialismo globalizante liderado pelas grandes corporações internacionais. Este, tende a favorecer no Brasil um sistema de governamentalidade voltado para o estímulo às relações de mercado e a concorrência, de tipo neoliberal, portanto deixando a questão social como uma consequência do crescimento econômico. A elite empresarial e política do país é, no mínimo, de centro-direita e aliada natural grandes corporações internacionais. Não dá para alimentar esperanças de que essa elite comandará um processo de desenvolvimento que não seja muito dependente do Exterior. Somente as forças políticas de centro-esquerda têm condições reais de liderar um processo de desenvolvimento com maior autonomia das grandes corporações internacionais. Portanto, imaginar que a direita e a esquerda no Brasil podem se aliar em função de um projeto nacional de desenvolvimento é uma grande ilusão. Nossa direita está condenada a ser associada e dependente do grande capital internacional, diferentemente das experiências chinesa e coreana, onde se formou uma burguesia nacional que lidera o desenvolvimento econômico.
Mais uma vez, insisto em que só o PT pode vir a reunir condições de liderar um processo de desenvolvimento com maior autonomia frente ao capitalismo internacional.
7. Considero muito possível que já não haja condições do país conseguir enveredar por uma linha desenvolvimentista com autonomia relativa das grandes corporações internacionais, e que, ,portanto, os sonhos de avançar na direção de uma social-democracia já não possam se materializar. Se for assim, nossos intelectuais que desejam mudanças, mas que não tem coragem de combater o capitalismo vão ter que sair do armário. Muitos deles estão escondidos, há muito tempo, sob o rótulo de desenvolvimentistas, o que é muito cômodo pois não requer colocar em questão o caráter perverso do sistema capitalista. Vivem na doce e cômoda ilusão de que dá para fazer omelete sem quebrar os ovos. Nada tenho contra ser desenvolvimentista, mas sou consciente de que o desenvolvimentismo não representa a solução para as mazelas do capitalismo. O desenvolvimento pode ser uma etapa, mas nunca o objetivo a ser alcançado num prazo mais longo.
Paulo Timm – Quem está querendo fazer omelete sem quebrar os ovos é o PT. Aliás, numa insólita aliança de uma esquerda corporativa e desmobilizadora com o alto capital. Proponho quebrar os ovos, mas não os ovos da burguesia em geral num confronto Capital x Trabalho, no rumo de um retórico socialismo que se volta contra a classe média.
Sou favorável a que se quebrem os ovos não da burguesia em geral, nem da pequena burguesia proprietária e empreendedora, mas de um confronto da nação contra o pequeno grupo que a controla em articulação com interesses internacionais. Isso é difícil e está fora da Agenda Eleitoral? Sim. É uma pena. As forças de esquerda mais agressivas são ainda mais ortodoxas que os teóricos do PT. Acertam nas intenções, mas erram na análise. Continuam doutrinários. Sem visão do processo de emancipação nacional que até hoje não se completou no nosso país.
Mas, acredite, sei que o movem os mais elevados sentimentos para a construção de uma sociedade menos desigual. Nisso, aliás, somos aliados.
Não só Lukács, um filósofo que me foi extremamente útil quando comecei a militar no partidão, em 1965, mas ortodoxo Igual o Mészáros, mas inúmeros bons autores reafirmam permanentemente a ortodoxia marxista até hoje. Ao tempo de Lukács, entretanto, não havia um grande debate no seio do marxismo, salvo a dissidência social-democrata forte na Alemanha,
e o trotskismo, estigmatizado pelo Movimento Comunista Internacional.
O marxismo tem essa característica: É um bólido. Tem um poder fantástico de aglutinação ideológica. Tanto que dominou o pensamento crítico por cem anos. Aliás, exatamente porque se nutriu dos pressupostos do iluminismo, do qual foi uma espécie de filho que matou o Pai, vale dizer Kant. Como, aliás, Freud, no século seguinte. Hipotecaram tudo na hipostasia da razão e na possibilidade de fazer das Ciências Humanas um equivalente racional das Naturais em expansão. Daí que, como dizes, o stalinismo caiu no positivismo. Não só o estalinismo. Mas o Marxismo em Geral, muito bem explicado num livro de Marcuse, O Marxismo Soviético. Isso se refletiu irremediavelmente nos desdobramento do marxismo, convertido em doutrina dogmática em oposição ao seu valor moral, muito mais importante. Marx e Freud, foram, ambos foram vitais para o desvendamento da razão cativa do sujeito. E para as teorias subsequentes que revelaram a capitulação do sujeito iluminista clássico, kanntiano, hegeliano e marxista.
Mas desde então, deles mesmos, tudo mudou. Inclusive e principalmente o debate no seio do pensamento crítico. Veio Gramsci que desembocou no grande debate entre os socialistas europeus nos anos 70, visando a valorização da Política como instrumento da luta de classes. Veio a Escola de Frankfurt, vieram os debates sobre o socialismo com face humana na Tchecoslováquia e Polônia na década de 60, a dissidência chinesa, emergiu o movimento nacional popular no Terceiro Mundo, as teses de grande marxistas como Castoriadis, Hobsbawm, etc. E os debates em diversas Revistas europeias que reviraram os fundamentos mesmos da Filosofia do Sec. 18-19. Enfim, uma enxurrada de reflexões contemporâneas.
Não creio, que nos falte, honestamente, leitura deste ou daquele autor.
O que nos distingue é a sensibilidade ao método que nos ilumina.




