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Ariano Suassuna: Esquerda e direita

Por Ariano Suassuna, via Pragmatismo Político

Ariano Suassuna

Não concordo com a afirmação, hoje muito comum, de que não mais existem esquerda e direita. Acho até que quem diz isso normalmente é de direita.

Talvez eu pense assim porque mantenho, ainda hoje, uma visão religiosa do mundo e do homem, visão que, muito moço, alguns mestres me ajudaram a encontrar. Entre eles, talvez os mais importantes tenham sido Dostoiévski e aquela grande mulher que foi santa Teresa de Ávila.

Como consequência, também minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de esquerda e direita.

Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e são João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era da esquerda. Traiu e passou para o outro lado: o de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembléia geral” da história moderna, ganhou contra o Cristo uma eleição decisiva.

De esquerda eram também os apóstolos que estabeleceram a primeira comunidade cristã, em bases muito parecidas com as do pré-socialismo organizado em Canudos por Antônio Conselheiro. Para demonstrar isso, basta comparar o texto de são Lucas, nos “Atos dos Apóstolos”, com o de Euclydes da Cunha em “Os Sertões”. Escreve o primeiro: “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum. Não havia entre eles necessitado algum. Os que possuíam terras e casas, vendiam-nas, traziam os valores das vendas e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, segundo a sua necessidade”. Afirma o segundo, sobre o pré-socialismo dos seguidores de Antônio Conselheiro: “A propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia” (isto é, para a comunidade).

Concluo recordando que, no Brasil atual, outra maneira fácil de manter clara a distinção é a seguinte: quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita, é entreguista e capitalista. Quem, na sua visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Ariano Suassuna (1927 – 2014)

A fonte de poder do latifúndio da informação

Por Lalo Leal, via RBA

Para avançar em seu processo de mudanças, rumo a uma democracia madura, o país requer uma ‘reforma agrária’ no sistema de mídia. As empresas resistem, mas há profissionais dispostos

Em aula recente, na Escola de Governo de São Paulo, ilustrei o tema da padronização das informações oferecidas pela mídia com manchetes idênticas estampadas pelos três jornalões brasileiros (Globo, Estadão e Folha). O tema era a fala do ex-presidente Lula no Encontro Nacional de Blogueiros. De um discurso de mais de uma hora, com análises da conjuntura, aqueles e outros veículos, como Correio Braziliense, O Dia, Exame e o portal G1, resolveram destacar, de forma truncada, uma referência do ex-presidente à forma do torcedor chegar aos estádios de futebol.

Lembrei que o blogueiro Eduardo Guimarães se fez passar por um cidadão desinformado para constatar, com alguns repórteres, qual seria a linha adotada em conjunto para a cobertura do encontro. O dialogo foi rápido: “Lula é sempre notícia, né?”, comentou Eduardo com um repórter. A resposta: “Notícia cabeluda. Dá um trabalho danado”. “Por quê?”, quis saber o blogueiro. “A gente tem de achar a ‘pauta certa’”, informou o jornalista.

Presentes à aula, jornalistas não se contiveram e fizeram questão de deixar claro que não havia nenhuma novidade nisso. Combinar linhas de cobertura, com o cuidado para que os destaques sejam semelhantes, é mais comum do que se imagina. Trata-se da luta em defesa da sobrevivência profissional. Os alunos explicaram: ao dar ênfases iguais a um determinado aspecto­ do assunto que está sendo coberto, os jornalistas evitam possíveis cobranças ou mesmo punições das chefias. Livram-se de comparações, atendem ao esperado pelos patrões e seguram o emprego.

Lembrei também do coronelismo midiático, um dos mais perversos desdobramentos do coronelismo brasileiro, gestado com a criação da Guarda Nacional, no século 19, ainda na Regência, e presente até hoje em nossa sociedade. Victor Nunes Leal, no livro Coronelismo, Enxada e Voto, mostra como os coronéis do império souberam acompanhar a urbanização do pais, mantendo seus latifúndios agrários, mas enviando filhos e genros para se tornarem “doutores” nas cidades, estendendo nelas o poder conquistado na fazenda.

Não é por acaso que até hoje os herdeiros gostam de ser chamados de doutores, sem nunca terem defendido uma tese de doutorado. Parte deles controla os latifúndios midiáticos, fonte moderna de poder.

O que distingue um e outro latifúndio não está no seu controle, mas na mão de obra utilizada e no produto obtido. A mercadoria produzida no campo esgota-se no seu consumo e a margem de independência do trabalhador na sua realização beira o zero. No latifúndio midiático, o produto permanece vivo no consumidor mesmo depois do seu consumo. Por vezes pelo resto da vida, pois tratam-se de bens simbólicos inculcados em corações e mentes.

Essa característica do produto jornalístico sempre deu ao trabalhador da área uma margem de ação própria, inexistente para o trabalhador rural. Na década de 1980, dizia-se que eram brechas a serem ocupadas pelo jornalista comprometido com a verdade. Só que a concentração dos meios de comunicação, o controle ideológico das redações e o estabelecimento das pautas comuns estreitou ao máximo aquelas “brechas” equiparando, muitas vezes, as margens de liberdade do jornalista às do trabalhador rural.

Ampliou-se também o número e o poder dos capatazes no latifúndio moderno, profissionais bem pagos para não apenas controlar os trabalhadores, mas para dar voz às ideias e posições políticas dos seus patrões. Apesar desse quadro cada vez mas rígido, não notei nos alunos da Escola de Governo sinais de resignação. Ao contrário, mostraram-se conscientes da situação e defenderam a possibilidade de atuar nos resquícios das brechas ainda existentes.

Só o fato de procurarem um curso como aquele para a discussão de temas desprezados pela mídia mostra que, apesar de todo o cerco em torno da prática jornalística, a resistência existe e pode, no futuro, resultar na volta de modelos de informação menos comprometidos com os interesses dos latifundiários, antigos e modernos.

Cinco coisas que nunca agradecemos à União Soviética

Por Aanchal anand, via Mundo Alternativo e Outras Palavras

Embora fracassado, projeto socialista do século 20 alcançou êxitos parciais de grande relevância. Entre eles, reconhecimento dos direitos da mulher e vitória contra nazismo

1 – Direitos da Mulher: Enquanto algumas ilhas haviam concedido para as mulheres o direito ao voto já no século XIX, a primeira grande mudança ocorreu no começo do século XX. No ano de 1917, somente quatro países (Austrália, Finlândia, Noruega e Dinamarca) haviam adotado o sufrágio feminino. A Revolução Russa de 1917, que defendeu a igualdade de direitos para todos, difundiu o temor de que as feministas encontrassem no comunismo um sistema mais atrativo, e puderam conspirar junto com os bolcheviques para importar a ideologia nos países ocidentais. A melhor forma de cortar a raiz semelhante ameaça era conceder as mulheres o direito ao voto. A Grã Bretanha e a Alemanha legalizaram em 1918, e os EUA em 1920, outros logo tomariam o mesmo caminho. A França foi a única potência que não reconheceria esse direito até 1944.

2 – Legislação Trabalhista: Isso é bastante óbvio. Contamos com uma semana trabalhista de 5 dias, férias pagas de 2 a 4 semanas, licença maternidade, assistência de saúde, além de equipamentos de segurança para os operários, etc… Pela pressão que exerceu o comunismo sobre o capitalismo. Nunca conseguimos ver a face humana do comunismo, mas graças a URSS, foi possível ter tido a noção do lado mais humanitário frente ao capitalismo.

3 – A Segunda Guerra Mundial e a reconstrução depois da vitória: A URSS desempenhou um papel fundamental na derrota da Alemanha nazista. Stalingrado é o famoso campo de batalha que conseguiu dar trégua na guerra relâmpago (“Blitzkrieg”) e mudou o desenvolvimento da guerra. A URSS sofreu a perda de 23,4 milhões de pessoas (mais que na Alemanha e mais de 26 vezes o número de mortes que sofreram os Estados Unidos e o Reino Unido juntos). Uma vez concluída a guerra, foi desenhado o Plano Marshall devido que os países aliados do Ocidente não queriam que a Europa fosse sucumbida pelo socialismo, com a velha desculpa de que os habitantes de cada país seriam submetidos pela “doutrina da fome e da desolação”. Contudo, o Plano foi desenvolvido somente sob a condição de que os comunistas fossem excluídos dos parlamentos dos países que recebiam ajuda. Claro, um “exemplo de democracia”.

4 – O caminho anti-colonial: Enquanto o imperialismo alimentava a maquinaria industrial e capitalista, a URSS defendia a causa das colônias exploradas. Estendeu sua ajuda aos países que lutavam pela sua libertação e aos países que recentemente haviam conseguido sua independência. As inclinações soviéticas pela luta libertadora na Índia não são um segredo para ninguém, para um país pobre que lutava para se manter em pé, a ideologia socialista resultava naturalmente atrativa.

5 – Descobrimentos científicos: Os primeiros soviéticos lançaram o primeiro satélite, logo enviaram o primeiro cachorro, o primeiro homem e a primeira mulher ao espaço. Também desenvolveram diversos desenhos televisivos. Para resumir, não havia um Tata Sky (sistema de difusão direta pelo satélite) senão fosse pela magia soviética. Além do mais, os soviéticos também tiveram o êxito de terem criado órgãos artificiais, o primeiro helicóptero, a xerografia e também o mais famoso e célebre fuzil AK-47.

Aqui estão apenas cinco coisas a agradecer a URSS, mas poderiam selecionar outras muitas coisas como a alfabetização universal, a luta contra o fanatismo religioso e nacional, a elevação do nível de vida da classe trabalhadora, o advento da arte e da cultura e vários outros exemplos.

 

Juca Kfouri: o que fica pro futebol brasileiro

Por Juca Kfouri, via Blog da Boitempo

O que é pior, o vira-latismo ou o puxa-saquismo? Se o primeiro se confundir com espírito crítico certamente o segundo é pior, porque mera bajulação. Comecemos pelo começo: a imagem do Brasil depois da Copa é muito melhor do que, com carradas de motivos, se imaginava antes dela. Fez-se, em resumo, um bom anúncio do país. Porque houve a festa que se imaginava que haveria nos estádios e não houve a tensão prevista fora dele.

Por incrível que possa parecer, Joseph Blatter, o poderoso chefão da Fifa, tinha razão: a sedução do futebol falou mais alto, ainda mais porque, paradoxalmente, se a Copa não apresentou nenhuma seleção inesquecível, mostrou jogos formidáveis, como uma homenagem ao país que já foi o do jogo bonito. Repita-se para suavizar o que virá a seguir: o Brasil ganhou a 20a Copa do Mundo da Fifa e ainda por cima prendeu gente dela que há décadas atenta contra a economia popular, um legado inestimável, exemplar, digno de ser aplaudido de pé assim como a hospitalidade nacional.

Tamanhas vitórias não escondem as derrotas e aqui não se fará nenhuma menção, além desta, à goleada alemã. Por falar nisso, em alemães, nossa Copa foi muito melhor que a da África do Sul, mas não foi, como organização, melhor que a de 2006. Claro, da Alemanha se espera perfeição e a Alemanha esteve perto disso. Do Brasil esperava-se uma catástrofe e o Brasil ficou longe disso. Contudo, na Alemanha não foram construídos elefantes brancos como os de Manaus, Cuiabá, Natal e Brasília, cujas contas jamais serão pagas a não ser que ocorra mais um milagre brasileiro.

Lá não morreram tantos trabalhadores, nem caiu viaduto com duas mortes, nem se desalojou tantas famílias, nem nada custou tanto a ponto de a nossa Copa ter superado o custo dos três últimos torneios e nenhum estádio foi invadido por torcedores como o Maracanã pelos chilenos. Tampouco faltou luz no jogo de abertura. Esquecer tais fatos em nome da imagem externa é que é o verdadeiro vira-latismo, como se a aprovação estrangeira nos bastasse.

É verdade sim que o governo federal, um mês antes de a Copa começar, partiu em busca de empatar um jogo que perdia por 4 a 0 e que conseguiu vencer, digamos,por 6 a 5 — o que exige elogios ao ataque assim como críticas à defesa. Ocorre que há quem queira fazer apenas elogios e outros que só desejam criticar, todos movidos ou por cegueira partidária ou por outros interesses.

Não se trata de negar o sucesso da Copa, mas de dizer que poderia ser melhor. Tudo, aliás, sempre pode ser melhor, por melhor que tenha sido. Trata-se de não esquecer o quanto custou em vidas e dinheiro, em desalojamentos e atrasos, em remendos de última hora, uma porção de coisas para as quais os estrangeiros não estão nem aí, mas que devem preocupar os que estão aqui e que, enfim, pagarão a conta. Porque outro legado da Copa é a consciência de que megaeventos são muito bons para quem os promove e para as celebridades que gravitam em torno,mas não são necessariamente bons para quem os recebe, razão pela qual será excelente se os próximos forem submetidos à consulta popular.

O turista que veio não se hospedou nos melhores hotéis nem comeu nos melhores restaurantes, preferiu albergues ou sambódromos, lanchonetes ou churrasquinhos de gato. Até mesmo os aeroportos inconclusos (o de Brasília é simplesmente espetacular, registre-se) suportaram bem a carga,entre outras razões porque o movimento foi menor que o normal neste período.

Em resumo: o Brasil ganhou a Copa de virada e o resultado pode ser considerado excepcional, digno de comemoração para irritação dos vira-latistas. Mas não foi de goleada como bimbalham os puxa-sacos. Além do mais, se o jogo acabou para o mundo, segue correndo no nosso campo. A um custo que ainda será mais bem apurado.

Democratizar o futebol brasileiro

O resultado em campo e a eliminação do Brasil não alteram, em nada, a minha opinião sobre a crise existencial que arrasa o futebol brasileiro há mais de uma década. O buraco é muito mais embaixo. Os que dirigem o futebol nacional não deram as caras, se esconderam em ambas oportunidades. Como de costume, evitaram e evitarão ao máximo falar sobre as propostas para o futuro pois não entendem bulhufas do que deve ser feito. Entendem de política, de se manter no poder, de explorar o futebol, de mamar nas tetas da vaca. E como disse o senhor José Maria Marin na primeira reunião do Bom Senso na CBF: “Posso afirmar que não temos nada a aprender com ninguém de fora, principalmente no futebol. Sempre tivemos os melhores do mundo no Brasil. Já vencemos cinco vezes a Copa”.

Ninguém tem necessidade daquilo que desconhece. “Coitado”, ele e seus pares achavam que tudo ia muito bem e que o talento bruto resolveria a questão. Não fazem ideia de que a Seleção Brasileira é o menor, apenas a ponta do iceberg (incrível dizer isso depois de tomar de 7), dos problemas do nosso futebol. Devemos aceitar esta derrota como mais uma das muitas importantes lições que a Copa nos trouxe até aqui. Se a procura por um legado era apenas para justificar o excesso dos gastos públicos, agora passou a ser o último lampejo de dignidade. Então proponho uma solução ao caos, DEMOCRATIZEM A CBF e salvem o futebol brasileiro.

Campeões, Bicampeões, Tricampeões, Tetracampeões, Pentacampeões, vocês que construíram o futebol brasileiro dentro de campo, estão convocados. Precisamos de vocês, precisamos ainda mais dos que já provaram sua capacidade fora de campo, gerindo, planejando, vivenciando o que há de melhor no futebol contemporâneo mundial.

Leonardo, Raí, Cafu, Juninho Pernambucano, Kaká, Ricardo Gomes, Roque Junior, Edmilson, Juninho Paulista, Vagner Mancini, Tite, Paulo Autuori e tantos outros, venham, passou da hora de discutirmos um plano de desenvolvimento nacional do futebol, de criarmos regras e licenças para capacitar os novos treinadores, de formar melhor as nossas jovens promessas, de desenvolver ou resgatar o estilo de jogo brasileiro, de proteger as boas práticas de gestão, de punir os infratores, de trazer a família de volta aos estádios de futebol, etc…

Se a CBF não promove esse debate, montemos a nossa Seleção fora dos gramados para desbancar a paralisia da entidade e desatar os nós das amarras políticas que impedem o desenvolvimento, a transparência e a democracia do nosso futebol.

Não os queremos apenas para que deem a cara e tenham a imagem explorada como aconteceu com alguns de nossos companheiros nos últimos anos. Queremos sua experiência, sua paixão pelo esporte, sua alma vencedora e incansável para concretizar mudanças significativas a longo prazo. Acadêmicos, cientistas, estudiosos também são bem vindos, o conhecimento de vocês é fundamental na construção de um novo rumo.

À imprensa e ao torcedor, digo: Não esperem milagres, não acreditem em soluções mágicas como uma simples troca de comissão técnica ou o aparecimento de um novo Neymar. Se o planejamento e o trabalho forem executados por pessoas competentes, apaixonadas e com conhecimento técnico em cada uma das diversas dimensões do futebol, ainda assim, levaremos pelo menos 10 anos para chegar lá. Uma caminhada de mil milhas começa com um simples primeiro passo.

Dilma e Aécio

A presidenta Dilma Rousseff está convocando o Bom Senso FC para uma reunião na sexta-feira da semana que vem para dar prosseguimento à conversa iniciada no último dia 26 de maio, quando se manifestou solidária com o movimento e convencida de que o legado da Copa do Mundo para o futebol brasileiro deve ser a urgente reforma de seus métodos de gestão e a correspondente democratização de suas práticas.

“Agora que temos os estádios, como fazer para mantê-los lotados?”, pergunta a presidenta ao mesmo tempo em que responde: “A grande lição da Copa é a necessidade de reformar o futebol brasileiro”.

Aécio Neves é amigo de José Maria Marin e o homenageou, escondido, no Mineirão. Deu-se mal porque o que escondeu em sua página na internet, Marin mandou publicar na da CBF. Aécio também é velho amigo de baladas de Ricardo Teixeira e acaba de dizer que o país não precisa de uma “Futebras”, coisa que ninguém propôs e que passa ao largo, por exemplo, das propostas do Bom Senso FC.

Uma agência reguladora do Esporte seria bem-vinda e é uma das questões que devem surgir neste momento em que se impõe um amplo debate sobre o futuro de nosso humilhado, depauperado e corrompido futebol. Mas Aécio é amigo de quem o mantém do jeito que está. Não está nem aí para os que reduziram nosso futebol a pó.

*- Este artigo é uma compilação de textos extraídos do Blog do Juca Kfouri.

Diálogos Desenvolvimentistas: Alemães ou argentinos. Pra quem torcer na final?

Ligação Teen/Reprodução

Edição por Rennan Martins

E eis que a Copa comprada não tinha fundos em seu cheque. A Alemanha se mostrou melhor em produzir gols que a própria Volkswagen. Foram 7 a 1. O choro, notado desde o início e por vezes considerado exagero, ao menos ganhou razão de ser após esta vergonha histórica.

E então nos deparamos com a final. Os hermanos em campanha suada, dramática como o tango, de um lado. De outro, os alemães com sua inédita simpatia e a já conhecida frieza e aplicação.

Há a ala dos indiferentes, para os quais o campeonato só teria graça se fôssemos campeões. Mas não podemos deixar de discutir pra quem torcer, ou no mínimo, apoiar nessa final.

Então, os colaboradores, Laurez, ACQ e Gustavo Santos travaram esta discussão, ACQ ao lado dos alemães, e Gustavo, com os argentinos.

Pra craiar a polêmica, Laurez cita uma passagem de Umberto Eco sobre em sua obra O Cemitério de Praga. É claro, ironizando.

Confira:

“Os alemães eu conheci, e até trabalhei para eles: o mais baixo nível conceptível de humanidade. Um alemão produz em média o dobro das fezes de um francês. Hiperatividade da função intestinal em detrimento da cerebral, o que demonstra sua inferioridade fisiológica. No tempo das invasões bárbaras, as hordas germânicas constelavam o percurso com montes desarrazoados de matéria fecal. Por outro lado, mesmo nos séculos passados, um viajante francês logo compreendia se havia transposto a fronteira alsaciana pelo volume anormal dos excrementos abandonados ao longo das estradas. E Não somente: é típica do alemão a bromidrose, ou seja, o odor repugnante do suor, e está provado que a urina de um alemão contém 20 por cento de azoto, ao passo que a das outras raças, somente 15.

O alemão vive em um estado de perpétuo transtorno intestinal, resultante do excesso de cerveja e daquelas salsichas de porco com as quais se empanturra. Eu os vi certa noite, durante minha única viagem a Munique, naquelas espécies de catedrais desconsagradas, enfumaçadas como um porto inglês, fedorentas de sebo e de toucinho, até mesmo a dois, ele e ela, mãos apertadas em torno daquelas canecas de bebida que por si sós dessedentariam uma manada de paquidermes, nariz com nariz num bestial diálogo amoroso, como dois cães que se farejam, com suas risadas fragorosas e deselegantes, sua túrbida hilaridade gutural, translúcidos de uma gordura perene que lhes unge os rostos e os membros como óleo sobre a pele dos atletas de circo antigo.”

ACQ: Como sou da elite meio branca e meio loira, além de cidadão do mundo, alérgico a nacionalismos e patriotadas, já vou logo avisando que torcerei pela gloriosa Mannschaft no domingo!

Desta vez estarei com o Ratzinger, contra el Paco – Malo y Boludo! Huevón!

¡Pelé! ¡Pelé! ¡Pelé!

Maradona, ¡yo cago en la leche de tu puta madre!

Meu desejo, secreto, é ir à desforra em 2018, com a Rússia, para de novo tomar Berlim.

A história, já dizia um amigo meu prussiano (primo do Heinrich Band, inventor do bandoneón), sempre acontece duas vezes; primeiro, como tragédia, depois, como farra… (Isso mesmo, farra!)

Gustavo Santos: Umberto eco sabe das coisas: eles cagaram na nossa cabeça e foi realmente o dobro dos franceses na copa de 98 em saldo de gols. Incrível precisão.

Já torceria mesmo para Argentina. Porque estou adorando ver a alegria deles na televisão. É uma alegria como a nossa. Eles merecem esse título. Estão enfrentando com coragem o sistema financeiro internacional e está sofrido.

E também porque está nojenta a manipulação da globo para fazer a torcida torcer em peso contra a Argentina no estádio. Está tão explícito e mentiroso que dá vontade de vomitar.

Mas tudo indica que a copa está comprada para Alemanha ganhar e não é só a Globo que entrou nessa, a FIFA também, os jornais alemães estão com espírito de já ganhou.

Mas a maioria dos brasileiros deve torcer pela Alemanha e tem ótimos motivos. Apesar de tudo o que eu disse. Acho eles simpáticos e admiráveis. E estão realmente com um timaço! Merecem ganhar. São favoritos. Mas para eles é só um jogo de futebol. Vão colocar lá toda a dedicação e inteligência que possuem. A vitória seria resultado da competência.

Para os argentinos será uma guerra pela felicidade do seu povo. Vão dar a alma e o sangue. Sua vitória será resultado da paixão. Sou um brasileiro médio. Futebol pra mim é paixão. Vou com a Argentina pro maior templo do futebol para ver outro maracanazo sul-americano!

Alea jacta est!

ACQ: Cada uma que a gente escuta e lê!

O texto a que você se refere é de um personagem do Eco, o Simonino Simonini, um tremendo casca grossa, que concentra em si os mais numerosos e piores preconceitos que podem caber em um ser humano. No romance, ele narrará as teorias conspiratórias mais extravagantes dos últimos séculos, a mais célebre das quais sendo os Protocolos dos Sábios de Sião (livrinho de cabeceira do Adolfo), que, segundo Simonino, teria sido tramado justamente no cemitério de Praga.

O Laurez deixou de transcrever o parágrafo seguinte do libelo contra os alemães no romance do Eco:

(Os alemães) “Enchem a boca com seu Geist, que significa espírito, mas é o espírito da cerveja que os estupidifica desde jovens e explica por que para além do Reno jamais se produziu algo de interessante na arte, salvo alguns quadros com fuças repulsivas e poemas de um tédio mortal. Sem falar da sua música: não me refiro àquele Wagner barulhento e funerário que hoje abestalha até os franceses, mas, pelo pouco que escutei, as composições do seu Bach são totalmente desprovidas de harmonia, frias como uma noite de inverno, e as sinfonias do tal de Beethoven são uma orgia de estardalhaço.”

Quaquaquaquá! E quaquaquaquá! E quaquaquaquá!

Tá bom, torcer para a Argentina é bom também, mas precisa tascar com racismo os conterrâneos do Marx, Engels, Liebknecht, Bertot Brecht, Max Weber, Adorno, Thomas Mann?

E, depois, Gustavinho, misturar futebol com a crise financeira e o imperialismo, é demais também, né! Esse papo choramingoso deu no que deu porque segue o padrão Felipão!

Francamente! Frankfurtamente!

Gustavo Santos: Olha a frase do Eco que o Laurez sabiamente encontrou:

“Um alemão produz em média o dobro das fezes de um francês”.

E não é que cagaram em nossa cabeça o dobro dos franceses em 98?

Os alemães são melhores, mas prefiro ver a alegria da torcida argentina. Se os Argentinos ganharem será um épico dramático. Se a Alemanha ganhar será apenas uma vitória esportiva.

Entre o teatro e o esporte, fico com o primeiro. Cansa menos as pernas e mais o coração.

A Globo e as raízes do subdesenvolvimento do futebol brasileiro

Por Luis Nassif, em seu blog

Os bravos jornalistas da CBN foram rápidos no gatilho: os 7 x 1 da Alemanha comprovam que a presidente Dilma Rousseff é “pé frio”.

Pé frio é bobagem. Não é o que dizem de Galvão Bueno?

Como são analistas sofisticados, da política e da economia, poderiam afirmar que Dilma talvez seja culpada – assim como Lula, Fernando Henrique Cardoso e outros presidentes – por não ter entrado na batalha pela modernização do futebol brasileiro.

Poderiam ter avançado mais no diagnóstico. Explicado que a maior derrota do futebol brasileiro – e latino-americano em geral – estava no fato de que a maioria absoluta dos seus jogadores serem de times europeus, da combalida Espanha, da Alemanha, Inglaterra e França.

Ali estaria a prova maior do subdesenvolvimento do futebol brasileiro, um mero exportador de mão-de-obra para o produto acabado europeu, campeonatos riquíssimos mesmo em períodos de crise.

Mas a questão principal é quem colocou na copa da árvore o jabuti do subdesenvolvimento futebolístico brasileiro.

Se quisessem aprofundar mais, poderiam mostrar conhecimento e erudição esportiva reportando-se a uma tarde de julho de 1921, em Jersey City, quando surgiu o primeiro Galvão Bueno da história, o locutor J. Andrew White, pugilista amador, preparando-se para narrar a luta história de Jack Dempsey vs George Carpentier para a Radio Corporation of America (RCA). 61 cidades tinham montado seus “salões de rádio” para um público estimado em centenas de milhares de ouvintes.

O que era apenas um hobby de radio amadores, tornou-se, a partir de então, o evento mais prestigiado nas radio transmissões.

Se não fosse cansar demais os ouvintes da CBN, os brilhantes analistas poderiam historiar, um pouco, a importância das transmissões esportivas para o que se tornaria o mais influente personagem do século no mercado de opinião: os grupos de mídia.

Mostrariam como foram criadas as redes, desenvolvidas as grades de programação, planejados os grandes eventos, como âncoras centrais da audiência.

Depois, avançariam nos demais aspectos dos grupos de mídia.

Num assomo de modéstia, reconheceriam que, em um grupo de mídia, a relevância do jornalismo é diretamente proporcional à audiência total; e a audiência depende fundamentalmente desses eventos âncora. Por isso mesmo, foi o futebol que garantiu o prestígio e a influência do jornalismo.

Não se vá exigir que descrevam a estratégia da Globo para tornar-se o maior grupo de mídia do Brasil e da América Latina. Mas se avançassem lembrariam que os eventos consolidadores foram o carnaval carioca e o futebol, pavimentando o caminho das novelas e do Jornal Nacional.

Algum entrevistado imprevisto, especialista em segurança, ou na sociologia do crime, poderia lembrar que, para conseguir o monopólio de ambos os eventos, a grande Globo precisou negociar, numa ponta, com os bicheiros que dominavam a Associação das Escolas de Samba do Rio; na outra, com os cartolas que desde sempre dominavam a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), desde os tempos em que era CDB (Confederação Brasileira dos Desportos).

Para não pegar mal para a Globo, diria que a grande emissora foi vítima do anacronismo da sociedade brasileira, que a obriga a entrar no pântano sem se sujar.

Aos ouvintes ficariam as conclusões mais pesadas.

Graças ao submundo dos bicheiros e cartolas, a Globo venceu a competição na radiodifusão. E graças à Globo, bicheiros e cartolas conquistaram um enorme poder junto à superestrutura do Estado brasileiro, um extraordinário jogo de ganha-ganha em que o sistema bicheiros-Globo e cartolas-Globo ganharam uma expressão política inédita e uma blindagem excepcional. Ainda mais se se considerar que o primeiro setor vive da contravenção e o segundo está mergulhado até a raiz do cabelo nos esquemas internacionais de lavagem de dinheiro, através do comércio de jogadores.

Aí a matriz de responsabilidades começa a ficar um pouco mais clara.

Um especialista em direito econômico poderia analisar o abuso de poder econômico na compra de campeonatos e os prejuízos ao consumidor, com a Globo adquirindo a totalidade dos campeonatos e transmitindo apenas parte dos jogos.

Para tornar mais ilustrativo o episódio, poderia se reconstituir a tentativa da Record de entrar no leilão e a maneira como a Globo cooptou diversos clubes, adiantando direitos de transmissão para impedir o avanço da concorrente. Ou, então, as tentativas de dirigentes mais modernos de se livrar do jugo da CBF. E como todos foram esmagados pelo poder financeiro da aliança CBF-Globo.

De degrau em degrau, de episódio em episódio, se chegaria ao busílis da questão, o bolor fétido que emana da CBF e que até hoje impediu que, no país do maior público consumidor, aquele em que o futebol é a maior paixão popular, o evento que mais vende produtos, mais galvaniza a atenção, não se consiga desenvolver uma economia esportiva moderna.

Completado o raciocínio, o distinto público da CBN entenderia os motivos do Brasil ser um mero exportador de jogadores, os clubes brasileiros serem arremedos de clube social, o fato de grandes investidores jamais terem ousado investir no evento esportivo de maior penetração no mundo, de jamais termos desenvolvidos técnicas em campo à altura do talento dos jogadores brasileiros.

A partir dai, ficaria claro as razões do subdesenvolvimento brasileiro e, forçando um pouco a barra, até a derrota de 7 x 1 para a Alemanha.

A velha mídia, a internet e o papel dos leitores

Por Rennan Martins

A comunicação enfrenta crise e rearranjo sempre que uma nova tecnologia de mídia é incorporada ao cotidiano da sociedade. Essa por sua vez também tem suas diversas relações reformuladas, por conta da expansão do alcance de informações antes restritas. O maior acesso a informações por parte da sociedade civil normalmente gera um grande abalo nos poderes vigentes.

Este ensaio pretende lançar luz a atual transição que incorpora a internet como meio de comunicação, as mudanças por ela trazidas na prática jornalística e a inserção do leitor na configuração destes meios.

Antes da internet, tínhamos o rádio, o jornal e a televisão como principais formas de comunicação em massa. Todos essas plataformas mantinham uma relação vertical com aqueles que consumiam seu produto, a informação. Ou seja, o leitor-cidadão lia, ouvia ou assistia aquilo que as editorias decidiam, da forma como o veículo escolhia. A possibilidade de interação era mínima, de maneira que tornar pública uma contestação a uma notícia constituía tarefa hercúlea. O público era passivo em relação ao que lhe forneciam.

Este arranjo favoreceu a consolidação de grandes grupos de comunicação. No Brasil, a maioria das iniciativas nasceu e cresceu na ditadura, sob a tutela do regime, servindo de propaganda dos militares por um lado, para do outro, receber gordas verbas publicitárias.

Tal situação pôs esses veículos em um nível considerável de conforto. A interpretação dos acontecimentos se dando de forma conveniente a seus donos homogeneizava as opiniões do público, lhes concedendo grande poder político.

A Copa do Mundo e a barriga do experiente jornalista Mario Sérgio Conti, que entrevistou Wladimir de Castro Palomo, sósia de Felipão, numa ponte aérea Rio-São Paulo é um dos vários exemplos de como a velha mídia é soberba e distante da realidade. O material passou pela editoria da Folha de São Paulo e do jornal O Globo, e mesmo assim foi publicado.

E eis que o século XXI trouxe consigo a massificação da banda larga e de dispositivos com acesso à rede. Atualmente, qualquer pessoa com um destes aparelhos pode criar conteúdo, escrever versões e comentar acontecimentos e a emissão destes tem o potencial de correr todo o planeta.

A internet como mais um meio de comunicação alterou todo o panorama do jornalismo. A grande mídia passa por problemas de financiamento e ainda por cima se vê em posição de perigo frente as outras iniciativas que a desmentem, contestam e criam uma alternativa de compromisso real com a democracia.

E é nessa transição que entra o leitor, o público que acompanha estas notícias. Minha tese é a de que não só a mídia, mas também o próprio cidadão passa por um processo de crise, transição e reformulação do seu papel.

O indivíduo que possui a postura analógica diante da internet, ou seja, se depara com uma informação mas permanece passivo perante ela, é o que é propício a ser manipulado e até a contribuir com a desinformação. A partir do momento que não a contesta, há somente a possibilidade de nela acreditar e reagir da forma como querem que ele o faça.

O atual quadro caracteriza-se pelos grandes meios em posição ainda confortável, mas perdendo influência, com uma abordagem enviesada pelo poder econômico, e a internet, onde, como define Ignacio Ramonet, há uma massa de mídias fornecendo uma infinidade de informações e versões.

Ocorre que essa massa de mídias é guiada também por seus interesses e muitas vezes os produtores difundem mentiras deliberadamente no intuito de atingir objetivos escusos.

Então, o papel do leitor-cidadão nessa nova configuração deve ser mais pró-ativo. Considerando a alta interatividade disponível e a possibilidade de ser um difusor, é necessário receber e checar a informação, e só após isso emitir opinião ou até mesmo complementar e contextualizar o fato.

Nas palavras do já citado, Ramonet:

Hoje as redes sociais procuram novas ferramentas, que não nos deixam a sós diante dos meios de comunicação hegemônicos. Antes eu estava a sós ao me deparar com eles. Quando me passavam uma informação, eu não sabia se era verdadeira ou falsa, devia confiar neles. Agora não. Posso ir a internet e ver o que fulano disse. E talvez eles também se equivoquem, mas eu posso construir minha ideia. Em suma, informar-se é uma atividade.

Isto quer dizer que ninguém pode se informar passivamente. A pessoa não pode se sentar em frente ao televisor e esperar que lhe digam a verdade. Hoje isso já não pode ser, porque temos ferramentas, dispositivos, que estão permitindo que nos armemos. Por conseguinte, se dizemos que somos manipulados, isso não pode ser uma desculpa. É normal que queiram nos manipular. Mas hoje em dia dispomos de ferramentas que nos permitem que nos defendamos contra essa manipulação. E nós devemos ter um papel ativos em nossa própria informação.

Trata-se de assumir uma postura digital, independente e ativa perante o que é dito.

A internet trouxe consigo a interatividade e a dita massa de mídias, com essas, é possível aprofundar a cidadania e a democracia, resta agora a sociedade como um todo adaptar-se as novas possibilidades de forma a aproveitar todo este potencial.