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Quem banca a mídia?

Por Thiago Cassis | Via UJS

É no mínimo estranho assistirmos ao Jornal Nacional ou folhearmos a Veja, por exemplo, e acompanharmos as constantes tentativas de distorcer e ocultar as ações positivas do governo federal (quem não se lembra das 21 interrupções em 15 minutos de William Bonner durante a entrevista que Dilma Rousseff concedeu ao seu telejornal?) e nos depararmos nesses mesmos veículos com uma enorme quantidade de publicidades do próprio governo.

Já passou da hora de parar de sustentar esses veículos que nada mais são do que resquícios da ditadura.

45% da verba que vai para TV’s abertas, por exemplo, vai para a própria Rede Globo… O critério utilizado para distribuir o dinheiro da publicidade é a audiência. Dessa forma as empresas que já estão consolidadas sempre receberão mais.

Esse é o Estado seguindo uma lógica de empresa privada.

Essa forma de distribuição apenas contribui para a criação de monopólios nas comunicações… e está escrito na Constituição do Brasil:

Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.

Acontece que os artigos que regem a comunicação não são regulados no país. E parece que vai continuar assim: somadas as posses dos candidatos das eleições deste ano contabilizamos 32 empresas de televisão, 141 rádios e 16 jornais impressos.

Essa é uma batalha que o governo terá que travar no próximo período… ou então o circo da mídia continuará se repetindo e de nada vai adiantar alguns poucos ficarem gritando contra isso.

Democracia fugidia e frágil

Por Paulo Timm | Via Sul 21

Vi, neste fim de semana, dois documentários, ambos recentemente lançados:

Na Globonews – Pasmem! –, o relato pungente de alguns dos “70″, título do documentário dirigido por Emília Silveira, trocados, no ano de 1970, pelo embaixador Giovanni Enrico Buchner, sequestrado por um comando da resistência armada à ditadura, depois da edição do famigerado AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Uma revisita fundamental aos Anos de Chumbo do regime militar – 1969-1973 – para que as novas gerações saibam, não só as razões dos combatentes, mas a brutalidade da reação que sobre eles se abateu. Um registro: os depoentes manifestam seu orgulho pelos seus feitos, mas reiteram o impulso voluntarista no processo, sublinhado pelo pouco preparo para as ações a que se propuseram. Também atribuem às ações armadas a desmoralização do regime militar, algo contestável à luz da já baixa popularidade dos militares antes desta resistência e que até viria a melhorar com o proclamado “Milagre Econômico” 69-73. Este filme lembra outro – “Hércules” – que também reconstituiu o episódio do sequestro do Embaixador Americano, Charles Elbrick, em setembro de 1969, e a libertação de 15 presos políticos, dentre eles Luiz Travassos, José Dirceu e Zé Ibrahim, este o grande líder operário das primeiras greves do ABC depois do golpe e recentemente falecido.

Mais de quarenta anos depois, Emília, (no filme “70”) reencontra estes personagens para resgatar parte desta história. Quem são estas pessoas? O que pensam? Como conduziram suas vidas? O que restou dos ideais e dos sonhos da juventude? Quem eles eram e o que pensavam aos 20 anos? O que esperavam do futuro? Estas são algumas questões respondidas por Wilson Barbosa, Nancy Mangabeira Unger, Vera Rocha Dauster, Ismael J. de Souza, Marco Maranhão, Jaime Cardoso, Mara Curtiss Alvarenga, Affonso Alvarenga, René de Carvalho, Bruno Dauster, Elinor Brito, Chico Mendes, Jean Marc von der Weid, Reinaldo Guarany e Luiz Sanz.

Como eles mesmos se definem, estes “sobreviventes” são protagonistas de uma história não oficial. Com tantas marcas deixadas pelas torturas que sofreram, pelas perseguições e pelo exílio, suas lembranças resgatam parte de um período tenebroso da história do Brasil. São impressões e reflexões (nem sempre homogêneas) sobre táticas, ideais e ações que tiveram consequências profundas na vida de muitos jovens da época.

“Documentário reencontra militantes trocados pelo embaixador suíço durante ditadura “ – Rede Brasil Atual

À noite vi também “OS MILITARES QUE DISSERAM NÃO” , de Sílvio Tendler, com depoimentos de militares depostos de suas funções em 64 e outros perseguidos e mortos pelo regime, inclusive o Cel. Alfeu, comandante da Zona Aérea do RS, assassinado covardemente pelas costas no ato em que ia passar o comando. Trata-se de um importante documento que resgata o caráter cívico das Forças Armadas brasileiras, mostrando que foram golpistas no seu interior e não o conjunto de suas instituições, que deram o golpe de 1964.

O novo filme do cineasta Sílvio Tendler estreia no próximo dia 1º de Abril, dia dos 50 anos do golpe que levou a 20 anos de ditadura militar e manchou nossa história de gritos e sangue.

No documentário, Tendler mostra um lado desconhecido do Golpe de 64: os militares que se mantiveram fiéis à constituição (e ao Brasil) e colocaram-se contrários às ordens dos generais rebelados.

São vários relatos de militares e familiares que demonstram que, mesmo que poucos, alguns militares trabalharam contra o golpe e a ditadura e merecem nosso reconhecimento e respeito pelo dever cumprido.

Dia 1º de Abril estréia “Militares Da Democracia: Os Militares Que Disseram Não” – A Verdade

Contrito, sobretudo diante de atitudes recentes de confronto de militares acusados como torturadores com a Comissão da Verdade, me ponho a refletir sobre a relação entre estes filmes e a conjuntura nacional e concluo: Vivemos numa democracia além de fugidia, nos termos em que a coloca Fred Dallmayr em seu artigo “Para além da democracia fugidia – algumas reflexões modernas e pós-modernas”, como tensão entre o conceito de soberania de Locke e Rousseau, muito frágil. Uma casca de ovo… Com tudo o que já se tornou público e apesar de quase 30 anos da redemocratização, sendo 25 da nova Constituição, vivemos num sólido quadro institucional, mas em suspenso, numa atmosfera política corrosiva, contaminada pelo autoritarismo. Jamais houve, por exemplo, retratação dos militares golpistas, muito menos pedido de perdão por crimes cometidos, muitos deles travados à socapa contra seus próprios colegas de farda. Nem aposentadoria compulsória aos colaboradores políticos do regime militar. Continuam todos aí… Alguns com nomes de praças e ruas, até cidades…

Neste sentido, os dois filmes me lembram o grande esforço dos cineastas alemães da década de 70, Wim Wenders e Fassbinder dentre outros, quando, diante da prisão e morte dos militantes do Grupo Baader Meinhof produziram o documentário “Alemanha em Outubro”, um repto não só ao Estado alemão daquele momento, mas à sociedade alemã que fechava seus olhos ao passado nazista.

Isso, aliás, me reporta ao final da década de 70.

Naquela época estava eu em Brasília, arregimentando gente para a reorganização do trabalhismo sob a liderança de Leonel Brizola, o que, afinal, se consagraria no famoso Encontro dos Trabalhistas, em Lisboa, em 1979. Na verdade eu era de uma geração mais nova que nada tinha a ver com a tradição brizolista, mas capitulei aos encantos do Velho Caudilho quando com ele me encontrei, em 1978, em Paris, sob os auspícios de Trajano Ribeiro, companheiro do movimento estudantil em Porto Alegre na década anterior. Voltei ao Brasil cheio de tarefas e ia conversando com alguns deputados autênticos, intelectuais, líderes da velha guarda, apresentando-lhes nossa visão da conjuntura e nosso imperativo de formar o então PTB. Instalei-me, enfim, no 13º andar do Edifício Marcia, no Setor Comercial Sul de Brasília, onde ao fundo funcionava a sucursal do Jornal Movimento, no qual pontificava o jornalista Teodomiro Braga, depois sucedido por Antonio Carlos Queiroz. Fizemos sólida amizade. E eu até acabei subscrevendo um número considerável de assinaturas daquele alternativo, visto que muitos dos interessados, funcionários públicos, com vida absolutamente acima de qualquer suspeita, temiam ter o nome indexado pelo SNI. Corriam o risco de serem despedidos, pois o regime reinante era o celetista. Cada vez que chegava o Jornal, Teodomiro me pedia para entregá-los em algum Ministério, no que eu aproveitava para destilar, sem êxito, meu proselitismo, fato que Raimundo Pereira registra no livro em que conta a história de O Movimento. E disso dei conta ao Brizola em Lisboa, em junho de 1979, sob o inoportuno argumento de que “a esquerda no Brasil não estava nos apoiando”, ao que o Comandante, aborrecido, respondeu, dando-me as costas: – “Timm, a esquerda somos nós…!”. Engoli em seco.

Mas numa daquelas entrevistas, em Brasília, no curso de 1979, recebi certa noite a visita do Aldo Arantes, conhecido e respeitável quadro do PCdoB, recém-saído da prisão. Ele queria trocar ideias e saber o que Brizola, quem ele muito admirava desde a Legalidade, em 1961, pensava. Expliquei-lhe nossa visão:

O regime estava recuando, em grande parte pressionado pela liderança liberal do MDB e pela grande frente cultural que isolara os militares e era hora de criar mecanismos populares que levassem a transição mais além do que estes liberais o desejavam. Hora, portanto, de aproveitar a brecha da reorganização partidária, que se anunciara, e criar novos Partidos.

Aldo ouviu atentamente mas, quando eu terminei, discordou veemente dizendo que isso – criar Partido novo – era um grande erro, eis que havia necessidade de dar o golpe final na ditadura através de uma grande frente para só depois se iniciar a reorganização partidária. Era a ideia firmemente enraizada na dita Oposição de que se fazia necessária uma batalha, ainda que eleitoral, campal, contra os militares para a pavimentação da democracia. Com efeito, tanto o PCB, quanto o PCdoB e muitos respeitáveis líderes à época, como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Miguel Arraes e outros, defendiam ardentemente a tese da “Unidade das Oposições”, sob a tutela do MDB, posição que iria manter os comunistas ali abrigados até as vésperas da Constituinte. Estes só iriam, rigorosamente, se assumir com as próprias bandeiras partidárias no ano de 1985, embora nunca tenham reconhecido ou identificado, neste ato, o definitivo enterro da ditadura militar. Lembre-se que a emenda das “Diretas Já” havia sido fragorosamente derrotada pelo regime autoritário, no Congresso Nacional, ainda em abril de 1984. Prova que o regime subsistia mesmo depois de dez longos anos de uma lenta, segura e gradual distensão. A prometida derrota ficaria, então, tacitamente prometida para depois da Constituinte, na esperança de que um candidato comprometido com o aprofundamento da democracia, saísse vitorioso nas eleições presidenciais. Quando elas chegaram, em 1989, Fernando Collor surpreendeu todo mundo. Instalou-se no poder, deu uma guinada à direita na Política Econômica, que seria aprofundada por Fernando Henrique na década de 90 e nunca mais se falou em consolidação da democracia.

Conto isso por uma razão: estávamos, eu e Aldo Arantes, ambos errados. Nós, trabalhistas, excessivamente confiantes no Projeto de Abertura do General Geisel como “Une promesse de bonheur”. Aldo, os comunistas em geral, por terem nos condenado pela pressa, tanto quanto Lula, com seu PT. Contudo, ficaram nos devendo até hoje um plano para a consolidação da democracia-entre-nós. Dou-me conta, por certo, que muitas coisas mudaram, é verdade, mas os militares, que constituem no suporte armado do Estado, continuam pensando da mesma maneira que pensavam na era militar. Não houve qualquer projeto da sociedade brasileira no sentido de reformar o ensino militar de forma a fomentar uma formação compatível com o processo de redemocratização. E assim, de eleição em eleição, vamos alimentando ilusões e sempre transferindo essa tarefa para um futuro próximo, da mesma forma que vamos flexibilizando o cumprimento de certas leis sem ter o cuidado de reescrevê-las. Um dia, dar-nos-emos conta do erro e tardiamente compreenderemos que tão ou mais importante do que ganhar uma ou outra eleição teria sido democratizar as instituições estatais, sobretudo as militares, ainda hoje alimentadas pela retrógrada e estúpida doutrina de segurança da Guerra Fria. Tenho, aqui também, meu testemunho pessoal: fui cadete do exército, EPPA, em Porto Alegre, entre 1960 e 1961. Naquela época, havia oficiais de todos os matizes ideológicos, inclusive alguns que haviam feito a II Guerra pela FEB, extremamente liberais. Muitos, ferreamente nacionalistas. Alguns deles, conta-me um velho amigo, cadete junto comigo naquela época, Felix Silveira Rosa Neto, responsável pelo sequestro do cônsul americano em Porto Alegre, em 1970, o acompanharam solidariamente no processo a que respondeu por este feito e que lhe custou 10 anos de prisão. Era outro Exército… Hoje, apesar do fim da ameaça comunista da URSS, da redemocratização e da emergência política da esquerda, há 12 anos no Poder, a visão dos militares ainda é unitariamente fascista…

A origem do erro?

A meu ver, muito simples. Os liberais do MDB, com raras exceções regionais, foram ultrapassados, quer pela direita neoliberal, quer pela esquerda petista. Esgotaram o seu papel na promulgação da Constituição de 8 outubro de 1988.

O PMDB que lhes sucedeu não é propriamente um partido, mas um aglomerado disforme de interesses pessoais, ao velho estilo coronelista descrito por Vitor Nunes Leal no clássico “Coronelismo, enxada e voto”: oligarcas que se utilizam do Estado para enriquecer e se perpetuar politicamente.

O PT, que digeriu a esquerda brasileira e subiu ao Poder em 2002 e que poderia retomar a ideia do aprofundamento da democracia o fez, apenas, como conquista material da classe trabalhadora, no que seguiu a tradição. Um artigo do Renato Janine Ribeiro – “A democracia direta” –, a propósito, aponta como as questões republicanas foram pouco sensíveis ao PT. Isso se explica: este partido, apesar de seu apelo de novidade, nasceu velho, numa concepção de Partido de Classe, ancorado no meio sindical, quando a ideia de Partido de Massas já era dominante na esquerda europeia. Além disso, por não estar enquadrado na ortodoxia marxista, era ideologicamente difuso, sem qualquer consistência programática quanto às tarefas táticas e estratégicas a serem cumpridas, sobretudo quanto à questão democrática. Alimentou-se, pelo seu próprio caráter economicista e sua clivagem sindical, das lutas pela recomposição das perdas salariais, numa conjuntura altamente inflacionária, para se capitalizar eleitoralmente – em sucessivos pleitos. Lembro-me, na década de 80, nós, brizolistas, falando em soberania nacional e revolução educacional com os Palácios de Ensino Integral, isolados, enquanto as fileiras do PT engrossavam atrás dos potentes carros de som dos sindicatos. Com isso, este partido conseguiu um feito inédito: foi o primeiro partido popular a se organizar nacionalmente, superando, neste sentido, o velho PTB anterior à 64 e o próprio Partidão, que nunca ultrapassaram as grandes capitais, e , mesmo assim, com epicentro no Centro-Sul. E isto é um imenso capital do PT que não desabará, mesmo diante de derrota circunstancial. E soube, o PT, neste sentido, economicista, vender sua imagem de compromisso com os trabalhadores num eleitorado recém-incorporado à cidadania – e que somou quase 100 milhões nas eleições de 2002 -, à proposta de renovação política. Um sucesso! Mas sempre confundindo, numa clara atitude vanguardista, nutrida por uma comissão de frente formada por velhos camaradas bem intencionados, o aprofundamento da democracia no país, com sua própria elevação ao comando da nação, uma variante à outrance de absolutismo popular. Parece que de nada adiantou a entronização no Brasil, desde os anos 70, dos escritos de Gramsci que já apontavam para a necessidade de uma nova atitude dos comunistas italianos diante das democracias ocidentais, tais como a construção de um projeto hegemônico que em nada se confundia, nem com assalto ao poder, nem com governabilidade. Não se trata, apenas, de baixar as armas, abandonar os embates das ruas e fábricas e disputar eleições com os partidos tradicionais. Mas de mudar a forma de pensar a construção do socialismo.

Gramsci era marxista e comunista, mas com o tempo foi-se distanciando do leninismo. Não se tratava, para ele, de uma vontade coletiva encarnada em um partido-guia ou conduzida por algum herói. A “vontade coletiva nacional-popular” derivaria da irrupção simultânea dos diversos componentes da sociedade, urbana e camponesa, na vida política: seria um tornar-se Estado processado política e culturalmente, de modo a incluir regiões, classes, gêneros, etnias e gerações. Um processo mediante o qual e no qual as sociedades respirariam, indo além do jogo político restrito, institucionalizado.

O PT insiste, sobretudo agora, ameaçado eleitoralmente, nos indicadores de sua gestão a favor dos menos favorecidos – e nisso está cheio de razão: cotas, salário-família, salário-minimo acima da inflação, apoio à agricultura familiar, FIES, matrículas em escolas técnicas etc –, e até tem boa receptividade a esta mensagem, o que vai, certamente, consubstanciar a preferência por Dilma, até as eleições. Mas não são resultados que cimentam um projeto hegemônico, mas principalmente, o que lhe inspira moralmente e lhe supõe. “Nenhuma ação de massa é possível se a própria massa não está convencida dos fins que quer alcançar e dos métodos a serem aplicados”, escreveu Gramsci em Alguns temas da questão meridional, como lembra oportunamente o cientista político Marco Aurélio Nogueira. A ideia de resultados é tão utilitarista quanto o utilitarismo dos conservadores. Aliás, a luta por uma sociedade igualitária, de forte apelo discursivo e que passa pela condenação ao capitalismo selvagem, acabou, na esquerda brasileira, se transformando, apenas, numa luta contra a política neoliberal. Como conclui o citado Marco Aurélio Nogueira – Facebook – em seu “Lendo Gramsci”:

Seu “moderno Príncipe” não era uma máquina simplesmente, mas um movimento político amplo, no qual partidos teriam lugar mas não seriam os únicos (nem talvez os principais) protagonistas. Este seu Príncipe “não pode deixar de ser o anunciador e o organizador de uma reforma intelectual e moral, o que significa, de resto, criar o terreno para um novo desenvolvimento da vontade coletiva nacional-popular no sentido da realização de uma forma superior e total de civilização moderna” (CC, 3, 18).

Educação, cultura, escolas, debate público, imprensa, ciência, arte e literatura são os recursos de que um povo-nação dispõem para se afirmar como vontade coletiva. Os intelectuais desempenham papel central nisso, como é evidente. Quanto mais estiverem eles “organicamente” articulados com as amplas massas de uma população, com os “subalternos”, os “humildes” (são termos de Gramsci) mais alta e relevante será sua função. Menos paternalistas serão e mais atuarão como elos de ligação e formadores de uma vontade coletiva que se faça Estado.

Isto, enfim, poderá não mudar a mentalidade militar, fortemente enraizada na Guerra Fria e cimentada no período da ditadura, mas abrirá os olhos para a necessidade de se criar um debate, sob a hegemonia de um partido verdadeiramente popular, de pensar não só as Políticas de Estado, mas também as tarefas republicanas mais gerais de um projeto para o aprofundamento da democracia e transformação da sociedade.

*Economista, Pós Graduado ESCOLATINA , Universidade do Chile e CEPAL/BNDES, Ex Presidente do Conselho de Economia DF – Professor UnB

Requião domina as redes sociais

Via Blog Wilson Vieira

Faz meses que acompanhamos o comportamento dos candidatos ao governo do Paraná nas redes sociais. O monitoramento de comentários no ambiente virtual — blogs, sites, compartilhamentos no Facebook e Twitter, etc. — não é induzido nem considera a ação de trolls.

De 103 mil comentários coletados no mês de agosto, o senador Roberto Requião (PMDB) foi mencionado positivamente por 52,23%, o governador Beto Richa (PSDB) teve 29,11% de menções positivas e a senadora Gleisi Hoffmann (PT) foi citada positivamente 18,66%.

Em julho, diante de 76 mil comentários coletados, as menções positivas eram 55,45% para Requião, 26,73% para Richa e 17,82% para Gleisi.

Ainda no mês de julho, Richa foi mencionado negativamente por 75,66%, Requião por 12,96% e Gleisi por 11,38%.

Em agosto, as menções negativas aos candidatos foram as seguintes: Richa 71,94%, Requião 24,15% e 03,91%.

O estudo não é pesquisa de opinião e nem reflete o índice de intenção de votos para o Palácio Iguaçu. A compilação de comentários nas redes sociais contou com sofisticado software israelense, o que permitiu a eliminação de IP’s repetidos e menções originadas em robôs.

Em resumo, ao contrário de Gleisi e “titanic” kinder ovo Richa, Requião domina as redes sociais de verdade!

Com conteúdo do Blog do Esmael

Banco Mundial diz que Cuba tem o melhor sistema educativo da América Latina e do Caribe

Por Salim Lamrani | Via Opera Mundi

De acordo com a organização internacional, Cuba é o único país da região que dispõe de um sistema educativo de alta qualidade

O Banco Mundial acaba de publicar um relatório revelador sobre a problemática da educação na América Latina e no Caribe. Intitulado Professores excelentes. Como melhorar a aprendizagem na América Latina e no Caribe, o estudo analisa os sistemas educativos públicos dos países do continente e os principais desafios que enfrentam. 1

Segundo o Banco Mundial, “nenhum sistema escolar latino-americano, com a possível exceção de Cuba”, alcança parâmetros mundiais. Agência Efe/Reprodução

Na América Latina, os professores de educação básica (pré-escolar, primária e secundária) constituem um capital humano de 7 milhões de pessoas, ou seja, 4% da população ativa da região, e mais de 20% dos trabalhadores técnicos e profissionais. Seus salários absorvem 4% do PIB do continente e suas condições de trabalho variam de uma região para outra, inclusive dentro das fronteiras nacionais. Os professores, mal remunerados, são, em sua maioria, mulheres — uma média de 75% — e pertencem às classes sociais modestas. Além disso, o corpo docente supera os 40 anos de idade e considera-se que esteja “envelhecido”. 2

O Banco Mundial lembra que todos os governos do planeta escrutinam com atenção “a qualidade e o desempenho dos professores” no momento em que os objetivos dos sistemas educativos se adaptam às novas realidades. Agora, o foco está na aquisição de competências e não apenas no simples acúmulo de conhecimentos.

As conclusões do relatório são implacáveis. O Banco Mundial enfatiza “a baixa qualidade média dos professores da América Latina e do Caribe”, o que constitui o principal obstáculo para o avanço da educação no continente. Os conteúdos acadêmicos são inadequados e as práticas ineficientes. Pouco e mal formados, os professores consagram apenas 65% do tempo de aula à instrução, “o que equivale a perder um dia completo de instrução por semana”. Por outro lado, o material didático disponível continua sendo pouco utilizado, particularmente as novas tecnologias de informação e comunicação. Além disso, os professores não conseguem impor sua autoridade, manter a atenção dos alunos e estimular a participação. 3

De acordo com a instituição financeira internacional, “nenhum corpo docente da região pode ser considerado de alta qualidade em comparação aos parâmetros mundiais”, com a notável exceção de Cuba. O Banco Mundial aponta que “na atualidade, nenhum sistema escolar latino-americano, com a possível exceção de Cuba, está perto de mostrar os parâmetros elevados, o forte talento académico, as remunerações altas ou, ao menos, adequadas e a elevada autonomia profissional que caracteriza os sistemas educativos mais eficazes do mundo, como os da Finlândia, Singapura, Xangai (China), da República da Coreia, dos Países Baixos e do Canadá”. 4

De fato, apenas Cuba, onde a educação tem sido a principal prioridade desde 1959, dispõe de um sistema educativo eficiente e com professores de alto nível. O país antilhano não tem nada para invejar das nações mais desenvolvidas. A ilha do Caribe é, além disso, a nação do mundo que dedica a parte mais elevada do orçamento nacional (13%) para a educação. 5

Não é a primeira vez que o Banco Mundial elogia o sistema educacional de Cuba. Em um relatório anterior, a organização lembrava a excelência do sistema social da ilha:

“Cuba é internacionalmente reconhecida por seus êxitos nos campos da educação e da saúde, com um serviço social que supera o da maior parte dos países em vias de desenvolvimento e em certos setores se compara ao dos países desenvolvidos. Desde a Revolução Cubana, em 1959, e do subsequente estabelecimento de um governo comunista com partido único, o país criou um sistema de serviços sociais que garante o acesso universal à educação e à saúde, proporcionado pelo Estado. Esse modelo permitiu a Cuba alcançar a alfabetização universal, erradicar certas doenças, [prover] acesso geral à água potável e salubridade pública de base, [atingir] as taxas mais baixas da região de mortalidade infantil e uma das maiores expectativas de vida. Uma revisão dos indicadores sociais de Cuba revela uma melhora quase contínua de 1960 até 1980. Vários indicadores principais, como a expectativa de vida e a taxa de mortalidade infantil continuaram melhorando durante a crise econômica do país nos anos 90 [...]. Atualmente, os serviços sociais de Cuba são parte dos melhores do mundo em desenvolvimento, como documentam numerosas fontes internacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, além de outras agências da ONU e o Banco Mundial […]. Cuba supera amplamente a América Latina, o Caribe e outros países de renda média nos indicadores principais: educação, saúde e salubridade pública”. 6

O Banco Mundial lembra que a elaboração de bons sistemas educacionais é vital para o futuro da América Latina e do Caribe. Reforça, também, o exemplo de Cuba, que alcançou a excelência nesse setor e é o único país do continente que dispõe de um corpo docente de alta qualidade. Esses resultados são explicados pela vontade política do governo do país caribenho de colocar a juventude no centro do projeto de sociedade, dedicando os recursos necessários para a aquisição de saberes e competências. Apesar dos recursos limitados de uma nação do Terceiro Mundo e do estado de sítio econômico imposto pelos Estados Unidos há mais de meio século, Cuba, baseando-se no adágio de José Martí, seu apóstolo e herói nacional, “ser culto para ser livre”, demonstra que uma educação de qualidade está ao alcance de todas as nações.

Referências:

1. Barbara Bruns & Javier Luque, Profesores excelentes. Cómo mejorar el aprendizaje en América Latina y el Caribe, Washington, Banco Mundial, 2014. (site consultado no dia 30 de agosto de 2014).

2. Ibid.

3. Ibid.

4. Ibid.

5. Salim Lamrani, Cuba : les médias face au défi de l’impartialité, Paris, Estrella, 2013, p. 40.

6. Ibid., p. 87-88.

* Doctor en Estudios Ibéricos y Latinoamericanos de la Universidad Paris Sorbonne-Paris IV, Salim Lamrani es profesor titular de la Universidad de La Reunión y periodista, especialista de las relaciones entre Cuba y Estados Unidos. Su último libro se titula The Economic War Against Cuba. A Historical and Legal Perspective on the U.S. Blockade, New York, Monthly Review Press, 2013, con un prólogo de Wayne S. Smith y un prefacio de Paul Estrade.

Contacto: lamranisalim@yahoo.fr ; Salim.Lamrani@univ-reunion.fr

Página Facebook: https://www.facebook.com/SalimLamraniOfficiel

 

Eleições: Metade da internet não quer entender o que lê. E a outra…

Por Leonardo Sakamoto | Via Blog do Sakamoto

Charge de Vitor Teixeira

É fácil escrever o que o senso comum deglute com facilidade e que está guardado nos instintos mais animais que não abandonamos nem com milhares de anos de convivência.

Coisas do tipo: “Mata a vadia, mata!”

Difícil mesmo é redigir algo com a certeza absoluta de que apenas uma minoria vai ler até o final, embutindo uma provocação que gere uma reflexão ao final.

Em um assunto considerado polêmico, boa parte das pessoas passa o olho de forma transversal em um texto, capta algumas palavras como “direitos humanos”/ “traficantes”/ “Estado” / “maioridade penal” / “aborto” / “evangélico” / “casamento gay” / “Palmeiras” e sem nenhuma intenção de expor ideias ou debater, pinça um capítulo de sua Cartilha Pessoal de Asneiras e posta como comentário.

É a vitória da limitada experiência individual sobre a necessidade coletiva, da emoção do momento sobre a racionalização necessária para que não nos devoremos a cada instante.

Não existe observador independente e imparcial. Isso até pode e deve ser almejado, mas não será obtido. Quem te falar o contrário, tá de zoeira.

Você vai influenciar uma realidade e ser influenciado por ela. E vai tomar partido, consciente ou inconscientemente. Se for honesto e/ou corajoso, deixará isso claro ao leitor.

Pois mais vale a transparência de dizer quem você é e o que pensa do que a arrogância de se afirmar acima de qualquer suspeita.

Sei que há colegas de profissão que discordam, que dizem que é necessário garantir a pretensa imparcialidade. É necessário, sim, ouvir todos os lados com honestidade para entender e explicar o assunto, mas a sua tradução já sofrerá influência de quem você é e onde você está – socialmente, profissionalmente, politicamente, culturalmente.

Zerar essa influência só seria possível se nos despíssemos de toda a humanidade. Há quem tente ferozmente e ache bonito. Sinceramente, o resultado fica muito ruim.

Tomar posição se reflete na escolha da pauta que você vai fazer, sob a ótica de quem.

Concordo com Robert Fisk, o lendário correspondente para o Oriente Médio do jornal inglês Independent, que diz que em situações de confronto, de limite, deve-se tomar opção pelos empobrecidos e marginalizados, no que se refere à realidade política, econômica, social, cultural e ambiental.

Tomar partido não significa distorcer os fatos, pelo contrário, é trazer o que historicamente é jogado para baixo do tapete, agindo conscientemente no sentido de contrabalançar, junto à opinião pública, o peso dos lados envolvidos na questão.

Distorcer é má fé, preguiça ou incompetência – coisa que muito jornalista que se diz imparcial faz aos montes, aplaudido por quem manda. Aqui ou lá fora.

Toda a informação é grávida. E informação, ela mesma, é canal de alienação, sim. Depende como é selecionada, empacotada e entregue. Mesmo sob o rótulo de “produto 100% imparcial”.

Mais importante: tomar partido não significa apoiar partido. Mas pedir para alguns leitores entenderem isso é tarefa ingrata e hercúlea em meio às matrizes de interpretação da realidade do tipo “vovó viu a uva” que seguem por aí.

Tem muito jornalista à venda. Mas sabe o que assusta muitos leitores (principalmente os comentaristas de blog na internet)? É que existam aqueles que não estão. Neste mundo louco é difícil explicar que ainda há alguns nortes que valem a pena ser seguidos. Não grandes discursos de Verdade, pois isso não existe. Mas noções éticas básicas que, construídas e compartilhadas, melhoram a nossa existência.

Para quem acredita que a vida não é um grande “cada um por si e Deus por todos”, esse chega-pra-lá no cinismo é quase que condição mínima necessária para levantar da cama de manhã.

Chico Mendes, Marina Silva e a rede de ONGs

Por Patricia Faermann | Via Jornal GGN

Jornal GGN – Em entrevista ao Jornal Nacional, nesta quarta-feira (27), a candidata à presidência Marina Silva (PSB) ressuscitou a “turma de Chico Mendes”, base que usou para construir suas principais relações políticas e das causas ao meio ambiente.

“Eu venho de uma trajetória política que, desde os meus 17 anos, eu tive que confrontar muitos interesses no meu estado do Acre ao lado de Chico Mendes, ao lado de pessoas que se posicionaram ao lado da Justiça, da defesa dos índios, dos seringueiros, da ética na política”, disse Marina.

Mas esse lado leva a um histórico de relações de Marina que vai além da luta pelos seringueiros ou dos índios. O emaranhado de relações de Marina Silva com ONGs remete à uma complexidade que se confunde com a própria história de relações políticas, que a trazem hoje ao palanque da candidatura.

Chico Mendes era ícone da luta dos seringueiros – principal fator que estreitou a relação com Marina Silva, então professora de história e sindicalista, ligada às Comunidades Eclesiais de Base, importantes para a resistência dos seringueiros. Participaram, juntos, da criação da CUT e do PT no Acre.

A partir de então, a rede com lideranças ativistas do meio ambiente e ONGs se propagou. Chico Mendes lhe apresentou a antropóloga Mary Allegretti, que posteriormente ajudou na criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, e Steve Schwartzman, antropólogo norte-americano, ligado à ONG Environmental Defense Fund (EDF).

Os objetivos de mudanças políticas que guiaram a trajetória de Chico Mendes foram, aos poucos, se alterando, com ápice na sua morte. Esses atores políticos dissociaram o seu nome das lutas sindical e pela reforma agrária, e demais reivindicações com forte cunho na teoria marxista.

Por sua vez, Mary Allegretti estabeleceu relações e construiu carreira como consultora de projetos para a Amazônia financiados por instituições e agências internacionais. Interlocutora nas negociações para implantação do PPG7 (Programa Piloto do G7, com foco na proteção das florestas tropicais do Brasil, gerido pelo Banco Mundial e orientou várias políticas do Ministério do Meio Ambiente) e ajudou a articular o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), um grupo de ONGs que acompanharia os projetos do PPG7.

O Grupo de Trabalho Amazônico foi criado em 1993 e teve, três anos depois, como secretário-executivo Fábio Vaz de Lima, marido de Marina Silva, até 1999.

Assim que Chico Mendes foi assassinado, grupos de esquerda do Acre fizeram alianças e tornaram a principal liderança do PT Jorge Viana, de família de tradição aliada à ditadura militar e filho de Wildy Vianna – deputado estadual pela ARENA, entre 1967 e 1979, e deputado federal de 1979 a 1987. Foi Jorge Viana que conseguiu ajudar a eleger Marina Silva ao Senado em 1994. Viana foi prefeito de Rio Branco em 1992.

Em 1998, Marina comemorou a chegada da Frente Popular, uma aliança de 12 partidos, incluindo o PSDB, ao governo do Acre, com a eleição de Viana. O marido de Marina assessorava os irmãos, Jorge e Tião, e ocupou cargos de confiança na gestão dos governadores.

“Foi-se o tempo em que a ‘turma do Chico Mendes’ e empresários – principalmente madeireiros – eram como água e óleo. As coisas amadureceram nos últimos 15 anos, o mundo girou, o Acre está mudando, a ‘turma do Chico’ chegou ao poder e pôde concretizar suas ideias. Aplacaram-se radicalismos. Viu-se que é possível negociar diferentes interesses com ética e conhecimento técnico. (…) Por incrível que pareça, há madeireiros, pecuaristas e petistas sentados à mesma mesa”, disse um dos materiais de divulgação do gabinete da senadora, em 2001.

Marina Silva comemorava o governo de Jorge Viana.

Assumiu o Ministério do Meio Ambiente em 2003, durante o governo Lula. O espaço não era novo. Mary Allegretti já ocupava a Secretaria de Coordenação da Amazônia na pasta durante o governo FHC.

Nesse período, três figuras fortes apareceram na rede de Marina: Carlos Antônio Vicente, Tasso Azevedo e João Paulo Capobianco.

Vicente foi Secretário de Florestas e Extrativismo do estado do Acre, no governo de Jorge Viana, e trabalhou para a promoção do manejo madeireiro nas florestas acrianas. Virou assessor direto de Marina e acompanhou-a na sua volta ao Senado, e na campanha eleitoral pelo PV, em 2010. Tem ligação com a ONG IMAZON (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), promotora do manejo madeireiro na Amazônia.

Azevedo foi diretor executivo do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (IMAFLORA) e ajudou a pressionar o Congresso para aprovar a polêmica Lei de Gestão de Florestas Públicas, que autoriza a concessão para exploração pelo setor privado e cria o Serviço Florestal Brasileiro, do qual foi diretor geral. Também tem relação com a ONG IMAZON.

Capobianco foi Secretário de Biodiversidade e Florestas e, depois, Secretário Executivo do Ministério. João Paulo Capobianco é uma das cabeças da separação do IBAMA, com a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO). Alguns servidores do IBAMA chegaram a acusar Marina e Capobianco de sucatearem a fiscalização ambiental no Brasil.

Ele também presidiu a ONG Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), da qual Marina também faz parte; do conselho consultivo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e do conselho de administração da Bovespa Social; pesquisador associado do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que defende o sistema de vendas de serviços ambientais na Amazônia, como o mercado de créditos de carbono.

Marina também fez parte do Conselho Consultivo do IPAM, ao lado de Steve Schwartzman, vice-presidente do conselho deliberativo.

Com informações do Centro de Memória das Lutas e Movimentos Sociais da Amazônia.

Como pensa a elite brasileira

Por Antonio Lassance, em seu blog

A elite brasileira comprou o livro de Piketty, O Capital no Século 21. Não gostou. Achou que era sobre dinheiro, mas o principal assunto é a desigualdade.

A elite brasileira é engraçada. Gosta de ser elite, de mostrar que é elite, de viver como elite, mas detesta ser chamada de elite, principalmente quando associada a alguma mazela social. Afinal, mazela social, para a elite, é coisa de pobre.

A elite gosta de criticar e xingar tudo e todos. Chama isso de liberdade de expressão. Mas não gosta de ser criticada. Aí vira perseguição.

Quando a elite esculhamba o país, é porque ela é moderna e quer o melhor para todos nós. Quando alguém esculhamba a elite, é porque quer nos transformar em uma Cuba, ou numa Venezuela, dois países que a elite conhece muito bem, embora não saiba exatamente onde ficam.

Ideia de elite é chamada de opinião. Ideia contra a elite é chamada de ideologia.

A elite usa roupas, carros e relógios caros. Tem jatinho e helicóptero. Tem aeroporto particular, às vezes, pago com dinheiro público – para economizar um pouquinho, pois a vida não anda fácil para ninguém.

A elite gosta de mostrar que tem classe e que os outros são sem classe.

Mas, quando alguém reclama da elite por ser esnobe, preconceituosa e excludente, é acusado de incitar a luta de classes.

Elite mora em bairro chique, limpinho e cheiroso, mas gosta de acusar os outros de quererem dividir o país entre ricos e pobres.

O negócio da elite não é dividir, é multiplicar.

A elite é magnânima. Até dá aulas de como ter classe. Diz que, para ser da elite, tem que pensar como elite.

Tem gente que acredita. Não sabe que o principal atributo da elite é o dinheiro. O resto é detalhe.

A elite reclama dos impostos, mesmo dos que ela não paga. Seu jatinho, seu helicóptero, seu iate e seu jet ski não pagam IPVA, mesmo sendo veículos automotores.

Mas a elite, em homenagem aos mais pobres e à classe média, que pagam muito mais imposto do que ela, mantém um grande painel luminoso, o impostômetro, em várias cidades do país.

A elite diz que é contra a corrupção, mas é ela quem financia a campanha do corrupto.

Quando dá problema, finge que não tem nada a ver com a coisa e reclama que “ninguém” vai para a cadeia. “Ninguém” é o apelido que a elite usa para designar o pessoal que lota as cadeias.

A elite não gosta do Bolsa Família, pois não é feita pela Louis Vuitton.

A elite diz que conceder benefícios aos mais pobres não é direito, é esmola, uma coisa que deixa as pessoas preguiçosas, vagabundas.

Como num passe de mágica, quando a elite recebe recursos governamentais ou isenções fiscais, a esmola se transforma em incentivo produtivo para o Brasil crescer.

A elite gosta de levar vantagem em tudo. Chama isso de visão. Quando não é da elite, levar vantagem é Lei de Gérson ou jeitinho.

Pagar salário de servidor público e os custos da escola e do hospital é gasto público. Pagar muito mais em juros altos ao sistema financeiro é “responsabilidade fiscal”.

Quando um governo mexe no cálculo do dinheiro que é reservado a pagar juros, é acusado de ser leniente com as contas públicas e de fazer “contabilidade criativa”.

Quando o governo da elite, décadas atrás, decidiu fazer contabilidade criativa, gastando menos com educação e saúde do que a Constituição determinava, deram a isso o pomposo nome de “Desvinculação das Receitas da União” – inventaram até uma sigla (DRU), para ficar mais nebuloso e mais chique.

A elite bebe água mineral Perrier. Os sem classe se viram bebendo água do volume morto do Cantareira.

A elite gosta de passear e do direito de ir e vir, mas acha que rolezinho no seu shopping particular é problema grave de segurança pública.

A elite comprou o livro de um francês, um tal Piketty, intitulado “O Capital no Século 21″. Não gostou. Achou que era só sobre dinheiro, até descobrir que o principal assunto era a desigualdade.

A pior parte do livro é aquela que mostra que as 85 pessoas mais ricas do mundo controlam uma riqueza equivalente à da metade da população mundial. Ou seja, 85 bacanas têm o dinheiro que 3,5 bilhões de pessoas precisariam desembolsar para conseguir juntar.

A elite não gostou da brincadeira de que essas 85 pessoas mais ricas do mundo caberiam em um daqueles ônibus londrinos de dois andares.

Discordou peremptoriamente e por uma razão muito simples: elite não anda de ônibus, nem se for no andar de cima.