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Charlie Hebdo e a moral dupla do Ocidente

Por Rennan Martins | Vila Velha, 09/01/2015

A França e o mundo assistiram em choque o ataque de extremistas à redação do semanário satírico Charlie Hebdo. Armados de fuzis AK-47, dois homens que o governo francês alega serem franco argelinos invadiram a sede da publicação por volta das 11:30 locais e assassinaram oito jornalistas, dois policiais, um visitante e um transeunte que se encontrava nas imediações do prédio.

No momento que traço estas linhas a imprensa corporativa dá ampla cobertura ao cerco que a polícia francesa fez a fábrica onde dizem estar os suspeitos com reféns. A ostensiva busca realizada nas horas subsequentes mobilizou 88.000 homens das forças de segurança.

Conhecida por um humor corrosivo e politicamente incorreto, Charlie Hebdo possui cerca de três décadas de história na qual publicou charges que atingem e por vezes ofendem a diversos setores da sociedade. Apesar de ligada à extrema-esquerda, a revista muitas vezes se alinhou a pura intolerância em desenhos islamofóbicos e anti-minorias.

Independente do quão desrespeitosos e ofensivos eram os cartoons, é fundamental deixar claro que este atentado é injustificável, monstruoso e que só alimenta ainda mais a violência. Essencial também é lembrar que o terrorismo islâmico mata sobretudo os próprios muçulmanos. Em entrevista à Revista Fórum, o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, explana:

“No ano passado, foram 18 mil pessoas mortas no mundo por atentados terroristas – são dados oficiais. Quantas pessoas morreram na Europa? Nenhuma. Quantos atos terroristas foram praticados por islâmicos na Europa? Nenhum. Houve vários atentados terroristas na Europa, classificados oficialmente como terrorismo, a grande maioria atribuída a grupos separatistas, e nenhum islâmico. Há um exagero da ameaça islâmica. Há muito preconceito e pouca informação.”

Preocupante, no entanto, é a postura das lideranças ocidentais e a narrativa promovida pela imprensa hegemônica. A abordagem das autoridades e dos veículos evidencia o quão hipócrita e circunstancial é a moral em voga.

Todo o teatro teve reinício e mais uma vez se fala nos EUA e aliados como baluartes da democracia e justiça, restando ao “mundo islâmico” o papel de povo que inveja nossas “liberdades”. A Globo News gasta longos minutos falando de controle de fronteiras, fazendo o jogo fácil de colar na testa do estrangeiro a alcunha de mal. Ora, os suspeitos Chérif e Said Kouachi nasceram na França, são apenas descendentes de árabes. No que o recrudescimento da fiscalização auxiliaria?

É preciso evidenciar os dois pesos e medidas com que a OTAN trata o terrorismo, o uso político que fazem do fenômeno. A população tem o direito de saber que o ocidente tem parte e alimenta o terror quando este convém a seus objetivos geopolíticos.

A Al Qaeda era insignificante até serem financiados e treinados, ainda nos anos 80, pela inteligência norte-americana. Enquanto as ações do talibã serviam aos interesses de desestabilizar o arquirrival, à época a URSS, Bin Laden era retratado como guerreiro da liberdade.

A grande mídia não é exemplo de independência, pratica autocensura e até mesmo espalha mentiras quando estas servem ao Poder. Não nos esqueçamos que a Guerra no Iraque foi legitimada por diversos boatos sobre inexistentes armas de destruição em massa amplamente veiculados por nossos “jornalistas”. Esta intervenção vitimou mais de 110.000 civis.

O Estado Islâmico ganhou poderio e atualmente se consolida, mas somente teve condições para isso após os EUA e as monarquias sunitas locais os financiarem largamente no intuito de que a desestabilização promovida gerasse dividendos geopolíticos e econômicos. O EI só foi alçado a condição de “ameaça a civilização” após passarem a atuar em regiões inconvenientes.

No mesmo dia do ataque à Charlie Hebdo, a Agência Efe informa que os jihadistas do Boko Haram mataram centenas de pessoas na cidade de Baga, nordeste da Nigéria. Onde estão o repúdio e horror das autoridades? As vítimas nigerianas são de menor valor?

A sociedade civil precisa abrir os olhos e se mobilizar para impedir que esse atentado seja instrumentalizado pela extrema-direita, que já se movimenta para avançar na agenda bélica e xenófoba. Como diz o brilhante professor Chomsky, a melhor forma do ocidente combater o terrorismo é deixando de promovê-lo.

Ataque contra ‘Charlie Hebdo’: O maior perigo é a islamofobia

Por Santiago Alba Rico | Via Esquerda.net

O atentado fascista em Paris contra a redação do semanário ‘Charlie Hebdo’, que tirou a vida a 12 pessoas, deixa uma dupla ou tripla sensação de horror. O horror da própria matança, o horror pelo facto de as vítimas se dedicarem a escrever e desenhar, mas há um terceiro elemento de horror: a islamofobia.

O atentado fascista em Paris contra a redação do semanário Charlie Hebdo, que tirou a vida a 12 pessoas, entre elas aos quatro desenhadores Charb, Cabu, Wolinsky e Tignous, deixa uma dupla ou tripla sensação de horror, pois é agravada por uma espécie de eco amargo e sujo e por uma sombra de ameaça iminente e geral. O horror está sem dúvida na própria matança por parte de assassinos que, independentemente dos seus motivos ideológicos, se colocaram a si próprios à margem de qualquer ética comum e por isso mesmo fora de qualquer quadro religioso, no seu sentido mais estrito e preciso.

O horror está também no facto de as suas vítimas se dedicarem a escrever e a desenhar. Não é que alguém não possa fazer dano escrevendo e desenhando – em seguida falaremos disto -; é que escrever e desenhar são tarefas que uma longa tradição histórica partilhada situa no extremo oposto da violência; trata-se além do mais da sátira e do humor, ninguém parece mais protegido que aquele que nos faz rir. Em termos humanos, é sempre mais grave matar um bobo que um rei porque o bobo diz o que todos queremos ouvir – mesmo que seja irrelevante ou até hiperbólico – enquanto os reis só falam de si próprios e do seu poder. Aquele que mata um humorista, a quem encomendámos falar livre e abertamente, mata a própria humanidade. Também por isso os assassinos de Paris são fascistas. Só os fascistas matam humoristas. Só os fascistas acham que há objetos não hilariantes ou não ridicularizáveis. Só os fascistas matam para impor a seriedade.

Mas há um terceiro elemento de horror que tem que ver menos com o ato do que com as suas consequências. Confesso que, agora, é o que me dá mais medo. E é urgente advertir sobre o que está em jogo. Urgente não é impedir um crime que já não podemos impedir; nem tão pouco condenar os assassinos. Isso é normal e decente, mas não urgente. Também não é, certamente, espumar contra o islão, pelo contrário. Verdadeiramente urgente é alertar contra a islamofobia, precisamente para evitar o que os assassinos querem – e estão já a conseguir – provocar: a identificação ontológica entre o islão e o fascismo criminoso. A grande eficácia da violência extrema tem a ver com o facto de que apaga o passado, o qual não pode ser evocado sem justificar de alguma maneira o crime; tem que ver com o facto de que a violência é atualidade pura, e a atualidade pura está sempre grávida do pior futuro que se possa imaginar. Os assassinos de Paris sabiam muito bem em que contexto estavam a perpetrar a sua infâmia e que efeitos iam provocar.

O problema do fascismo e da sua violência atualizadora é que se trata sempre de uma resposta. O fascismo está sempre a responder; todo o fascismo se alimenta da sua legitimação reativa num quadro social e ideológico em que tudo é resposta e tudo é, por tanto, fascismo. O contexto europeu (pensemos na Alemanha anti-islâmica destes dias) é o de um fascismo crescente. Em França concretamente este fascismo branco e laico tem alguns defensores intelectuais de muito prestígio que, à sombra da Frente Nacional de Le Pen, vão aquecendo o ambiente a partir de púlpitos privilegiados com base no pressuposto, enunciado com falso empirismo e autoridade mediática, de que o próprio islão é um perigo para a França.

Pensemos, por exemplo, na última novela do grande escritor Houellebecq, Submissão (tradução literal do termo árabe “islão”), em que um partido islamista ganha à Frente Nacional as eleições de 2021 e impõe a “charia” na pátria das Luzes. Ou pensemos no grande sucesso das obras do ultradireitista Renaud Camus e do jornalista político do diário Le Figaro Eric Zemour. O primeiro é autor de “Le grand remplacement” (“A grande substituição”), onde se sustenta a tese de que o povo francês está a ser “substituído” por outro, neste caso – obviamente – composto de muçulmanos estranhos à história de França. O segundo, por sua vez, escreveu “O suicídio francês”, um grande sucesso de vendas que reabilita o general Pétain e descreve a decadência do Estado-Nação, ameaçado pela traição das elites e pela imigração. Há uns dias no Le Monde, o escritor Edwy Plenel referia-se a estas obras como depositárias de uma “ideologia assassina” que “está a preparar a França e a Europa para uma guerra”: uma guerra civil, disse ele, “da França e da Europa contra elas próprias, contra uma parte dos seus povos, contra esses homens, essas mulheres, essas crianças que vivem e trabalham aqui e que, através das armas do preconceito e da ignorância, foram previamente construídos como estrangeiros devido ao seu nascimento, à sua aparência ou às suas crenças”.

Este é o fascismo que já estava presente em França e que agora “reage” – puro presente – face à “reação” – pura atualidade assassina – dos islamistas fascistas de Paris. Dá muito medo pensar que às sete da tarde, enquanto escrevo estas linhas, o trending topic mundial no twitter, depois do tranquilizador e emocionante “eu sou Charlie”, é o terrível “matar todos os muçulmanos”. A islamofobia tem tanto fundamento empírico – nem mais nem menos – que o islamismo jihadista; os dois, efetivamente, são fascismos reativos que se ativam reciprocamente, incapazes de fazer essas distinções que caracterizam a ética, a civilização e o direito: entre crianças e adultos, entre civis e militares, entre bobos e reis, entre indivíduos e comunidades. “Matem todos os infiéis” é contestado e precedido por “matem todos os muçulmanos”.

Mas há uma diferença. Enquanto se exige a todos os muçulmanos do mundo que condenem a atrocidade de Paris e todos os dirigentes políticos e religiosos do mundo muçulmano condenam sem exceção o ocorrido, o “matem todos os muçulmanos” é justificado de algum modo por intelectuais e políticos que legitimam com a sua autoridade institucional e mediática a criminalização de cinco milhões de franceses muçulmanos (e de milhões mais em toda a Europa). Essa é a diferença – sabemo-lo historicamente – entre o totalitarismo e o delírio marginal: que o totalitarismo é delírio naturalizado, institucionalizado, partilhado ao mesmo tempo pela sociedade e pelo poder. Se recordarmos além disso que a maior parte das vítimas do fascismo jihadista no mundo são também muçulmanas – e não ocidentais -, deveríamos talvez medir melhor o nosso sentido da responsabilidade e da solidariedade. Entalados entre dois fascismos reativos, os perdedores serão os de sempre: os imigrantes, os esquerdistas, os humoristas, as populações dos países colonizados. Uma das vítimas dos islamistas, aliás, era polícia, chamava-se Ahmed Mrabet e era muçulmano.

Do jihadismo fascista não espero senão fanatismo, violência e morte. Repugna-me, mas dá-me menos medo que a reação que precede – valha o paradoxo einsteiniano – os seus crimes. O “matem todos os muçulmanos” está de algum modo justificado pelos intelectuais que “preparam a guerra civil europeia” e pelos próprios políticos que respondem aos crimes com discursos populistas religiosos laicos. Quando Hollande e Sarkozy falam de “um atentado aos valores sagrados da França” para se referirem à liberdade de expressão, estão a raciocinar do mesmo modo que os assassinos dos redatores do Charlie Hebdo. Não aceito que um francês me diga que defender os valores da França implica necessariamente defender a liberdade de expressão. Por muito laica que se pretenda, essa lógica é sempre religiosa. Não há que defender a França; há que defender a liberdade de expressão. Porque defender os valores da França é talvez defender a revolução francesa, mas também o Termidor; é defender a Comuna, mas também os fuzilamentos de Thiers; é defender Zola, mas também o tribunal que condenou Dreyfus; é defender Simone Weil e René Char, mas também o colaboracionismo de Vichy; é defender Sartre, mas também as torturas da OAS e o genocídio colonial; é defender o maio de 68, mas também os bombardeamentos de Argel, Damasco, Indochina e mais recentemente Líbia e Mali. É defender agora, face ao fascismo islamista, a igualdade perante a lei, a democracia, a liberdade de expressão, a tolerância e a ética, mas também defender a destruição de tudo isso em nome dos valores da França.

Dá muito medo ouvir falar de “os valores da França”, “da grandeza de França”, de “a defesa da França”. Ou defendemos a liberdade de expressão ou defendemos os valores da França. Defender a liberdade de expressão – e a igualdade, a fraternidade e a liberdade – é defender a humanidade inteira, viva onde viver e acredite no deus que acreditar. A frase “os valores da França” pronunciada por Le Pen, Hollande, Sarkozy ou Renaud Camus não se distingue em nada da frase “os valores do islão” pronunciada por Abu Bakr Al-Baghdadi. É na realidade o mesmo discurso frente a frente, legitimado pela sua própria reação assassina, que bombardeia inocentes num lado e metralha inocentes no outro. Perdem os de sempre, os que perdem quando dois fascismos não deixam no meio o mais pequeno resquício para o direito, a ética e a democracia: os de baixo, os do lado, os pequenos, os sensatos. Disso sabemos muito na Europa, cujos grandes “valores” produziram o colonialismo, o nazismo, o estalinismo, o sionismo e o bombardeamento humanitário.

2015 começa mal. Em 1953, “refugiado” em França, o grande escritor negro Richard Wright escrevia contra o fascismo, dizendo que “temia que as instituições democráticas e abertas não fossem mais que um intervalo sentimental que precedesse o estabelecimento de regimes inclusive mais bárbaros, absolutistas e pospolíticos”. Proteger-nos do fascismo islamista é proteger as nossas instituições abertas e democráticas – ou o que ficar delas – do fascismo europeu. A islamofobia fascista, na Europa e nas “colónias”, é a grande fábrica de islamistas fascistas, tanto uma como o outro são incompatíveis com o direito e a democracia, os únicos princípios – que não “valores” – que poderão ainda salvar-nos. Boa parte das nossas elites políticas e intelectuais estão muito mais interessadas no contrário.

Descansem em paz os nossos alegres e valentes companheiros humoristas do Charlie Hebdo. E que ninguém em seu nome levante a mão contra um muçulmano nem contra o direito e a ética comuns. Essa sim seria a verdadeira vitória dos fascismos dos dois lados.

Artigo de Santiago Alba Rico, publicado em diagonalperiódico.net em 8 de janeiro de 2015. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net.

A agonia da editora Abril

Por Paulo Nogueira | Via DCM

A família Civita e o busto do fundador, antes do declínio

A retirada do busto de Victor Civita do saguão da sede da editora Abril neste começo de janeiro é um capítulo dramático do declínio acelerado daquela que foi uma das maiores empresas de jornalismo.

A Abril está morrendo.

Victor Civita foi abatido porque a Abril já não tinha mais como bancar o aluguel do megalomaníaco prédio da Marginal de Pinheiros.

Ao devolver uma das duas torres, perdeu o direito de exibir o fundador da empresa. Para os futuros inquilinos, o busto de VC, como era chamado, não faria sentido nenhum.

A morte de uma empresa de jornalismo é um processo lento. Não é fácil identificar o momento em que as coisas começam a dar errado.

Depois tudo se aclara, e o fim é evidente. As últimas etapas são agônicas, e é isto o que a Abril está vivendo.

A torre remanescente dificilmente sobreviverá por muito tempo, bem como uma série de revistas e, lamentavelmente, centenas de empregos.

Como todas as empresas que gozam de reserva de mercado e são objeto de mamatas do Estado – anúncios copiosos, financiamentos a juros maternais em bancos públicos – a Abril nunca foi exatamente um modelo de administração.

É o preço que se paga por privilégios. Você não tem que ser o melhor da classe para receber prêmios.

Isto vale para a Abril e todas as grandes empresas jornalísticas brasileiras, a começar pela Globo.

Nunca foram expostas à competição estrangeira e sempre foram mimadas por sucessivos governos: não há receita mais eficaz para a ineficiência gerencial.

Dito isso, a agonia da Abril se deve muito mais a uma mudança de mercado do que a uma gestão trôpega em vários momentos.

Produzir revistas nestes tempos é como fabricar carruagens no final do século 19, quando os carros começavam a ganhar as ruas.

Nem o mais fabuloso fabricante de carruagens sobreviveu com o correr dos dias.

A Abril antecipa o que deve acontecer, no futuro, com outra potência da mídia brasileira: a Globo.

Anos atrás, ninguém imaginava um mundo sem revistas. Mas hoje é fácil imaginar.

Até há pouco também, igualmente, ninguém imaginava um mundo sem tevê como a conhecemos. Mas hoje já não é tão difícil imaginar.

Uma pesquisa recente americana traduziu isso em números. A pergunta que foi feita era a seguinte: você acha que seria duro viver sem o quê?

As alternativas eram internet, celular e televisão. A televisão ficou em último lugar. Alguns anos atrás, na mesma pesquisa, ficara em primeiro: a maior parte dos entrevistados não considerava a hipótese de ficar sem tevê.

Tanto a Abril como a Globo se empenham em ter relevância na internet. Mas jamais se replicará, no universo digital, a relevância que elas tiveram em mídias que vão se tornando obsoletas.

Aproxima-se velozmente do fim o tempo em que a Globo consegue cobrar uma fortuna por comerciais de uma programação em constante declínio.

E está muito distante a era em que a publicidade na internet terá preços remotamente praticados pela Globo na tevê.

Entre uma coisa e outra, a Globo entrará no que se poderia definir como “Vale do Desespero”, para usar uma expressão em voga entre os economistas.

Na destruição de um velho mundo na imprensa e na construção de um novo, a remoção do busto de Victor Civita é um marco histórico.

Conheça Charlie Hebdo, a revista atacada na França

Via BBC

Charlie Hebdo usa escárnio e charges ácidas para expressar seu ponto de vista

O atentado desta quarta-feira foi o mais violento, mas não é o primeiro ataque contra a sede da revista satírica francesa Charlie Hebdo, em Paris.

Com cerca de três décadas de história, a Charlie Hebdo sempre incomodou alguns grupos ao desafiar tabus e usar o escárnio e a sátira escrachada para expressar seu ponto de vista.

Em 2011, a sede da revista foi atacada com uma bomba incendiária depois de ter publicado na capa uma charge de Maomé com a manchete “Charia Hebdo” – em referência à lei islâmica.

Em 2006, muitos muçulmanos se irritaram com o fato de a publicação ter reimpresso as charges do profeta originalmente publicadas no jornal dinamarquês Jyllands-Posten. Na época, a polícia teve de ser mobilizada para proteger a redação.

O editor-chefe da publicação, Stephane Charbonnier, morto no ataque, já havia recebido ameaças de morte e andava com guarda-costas há três anos.

Revolução Francesa

Segundo o correspondente da BBC em Paris, Hugh Schofield, a Charlie Hebdo é parte de uma longa tradição do jornalismo francês que remonta às publicações que satirizavam Maria Antonieta no período que precedeu a Revolução Francesa.

Essa tradição combinaria um radicalismo de esquerda com um tom provocativo, com sátiras que muitas vezes beiram o obsceno.

No século 18, essas sátiras tinham com alvo a família real.

Algumas publicações da época traziam relatos – muitas vezes ilustrados – de supostas extravagâncias sexuais e atos de corrupção dos integrantes da corte de Versalhes.

Hoje, os alvos são muitos: políticos, a polícia, os banqueiros e a religião.

Mas a imprensa satírica francesa ainda é marcada pelo mesmo espírito de insolência que no passado foi usado para colocar em xeque as estruturas do antigo regime.

Para Schofield, a decisão da Charlie Hebdo de zombar do profeta Maomé é coerente com a sua história e razão de ser.

Criada em 1969 com o nome Hara-Kiri Hebdo, a revista provocou a fúria do governo um ano depois ao ironizar a morte do ex-presidente e herói de guerra francês Charles de Gaulle, na cidade de Colombey, fazendo menção a um trágico incêndio em uma discoteca, que havia matado mais de 100 pessoas dias antes.

“Balada trágica em Colombey – um morto”, anunciou.

Depois disso, a Hara-Kiri foi banida pelas autoridades francesas. Mas seus integrantes a relançaram com o novo nome.

Em 1981, a publicação da revista foi suspensa por falta de recursos e só seria retomada em 1992.

Visibilidade

A Charlie Hebdo nunca teve uma grande tiragem.

O que faz com que seja tão incômoda é a visibilidade: com grandes charges coloridas e manchetes incendiárias, a revista chama a atenção em bancas de jornal e livrarias.

As charges provocativas são a marca registrada.

Entre as publicadas pela revista nos últimos anos há desde policiais segurando cabeças decepadas de imigrantes até freiras se masturbando e papas usando preservativos.

A Charlie Hebdo é constantemente comparada com sua rival, mais popular, a Le Canard Enchaine.

As duas publicações procuram desafiar o status quo.

Mas enquanto a Le Canard Enchaine aposta nos furos de reportagem e na revelação de segredos guardados a sete chaves, a Charlie Hebdo lança mão do escárnio e de um humor muitas vezes polêmico.

Em algumas ocasiões as polêmicas também dividiram a equipe de jornalistas da revista.

Em um caso que teve alguma repercussão, um editor de longa data chegou a se demitir depois de uma divergência com outros editores sobre anti-semitismo.

O racismo no Brasil é uma ficção, menos para quem o sente na pele

Por Vinicius Wu | Via Sul 21

O Brasil conseguiu desenvolver a fantástica capacidade de produzir, diariamente, casos de racismo numa sociedade na qual ninguém é racista. A torcedora que chama o goleiro de macaco não é racista; o colunista que escreve artigo racista no jornal não é racista. O racismo, portanto, só pode mesmo ser uma ficção criada pelos negros.

E agora, em nome de uma suposta “liberdade de opinião”, vai se cristalizando no Brasil um perigoso convívio com a intolerância e o fascismo em alguns dos principais veículos de comunicação do país. Estamos naturalizando insultos, agressões verbais e preconceitos em programas de tv, rádio, na internet e em artigos de jornal.

E não se trata apenas de racismo. O fenômeno é o mesmo que autoriza um sujeito a retratar o verão no jornal, exclusivamente, através de fotos de mulheres de biquini sem ser sexista ou um engraçadinho a fazer piada homofóbica na TV sem ser homofóbico.

O último episódio ocorreu no Rio Grande do Sul, onde um colunista de um dos principais jornais do estado achou normal elogiar Punta Del Este (no Uruguai) pelo fato de lá não existirem negros. No artigo há outros absurdos.

Alguns de seus colegas defenderam o veículo que os emprega elogiando a postura do jornal em acolher “diferentes opiniões”. Um outro, através dos argumentos mais simplórios, acusou aqueles que criticaram o artigo de promoverem… o ódio.

Mas, e se um chargista enviar o desenho de uma suástica para publicação no mesmo jornal? E se outro colunista resolve elogiar os campos de concentração nazistas? Deve ser publicado em nome da “liberdade de opinião”?

Alguém precisa explicar à turminha que, numa República democrática, incitação ao ódio e à intolerância não são considerados “opinião”.

O cinismo está se tornando uma espécie de religião para uma parcela expressiva de nossos “formadores de opinião”. Ética e responsabilidade não valem nada. Basta escrever depois uma notinha pedindo desculpas pelo “mal-entendido”.

Racismo, sexismo, homofobia, é claro, são praticados por pessoas “mal compreendidas” (Perdoem nossa falha!). E assim vamos reproduzindo-os impunemente.

O racismo é uma ficção no Brasil, menos para quem o sente na pele.

Até quando o governo vai bancar um comediante que insulta até a parteira de Dilma?

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Em que planeta Danilo Gentili vive?

Considere esta frase que ele colocou no Twitter: “Desde quando eu era financeiramente um pé rapado, em todos os passos que tentei dar o governo esteve lá para atrapalhar, bloquear, extorquir.”

Quer dizer: ele não parece fazer a mais remota ideia de que é sustentado pelo dinheiro público.

O SBT, onde ele trabalha, simplesmente falece sem a publicidade do governo federal.

São cerca de 150 milhões de reais por ano para alimentar pessoas como Danilo Gentili, que se dedica o tempo todo a tentar destruir o governo que, afinal, garante seu emprego.

Gentili estende seu combate sem tréguas ao PT a todas as mídias. Pelo Twitter, ele escreveu nestes dias o seguinte sobre o Natal em casa de José Genoino.

“Genoino é ateu e trabalha pra uma agenda que combate a família tradicional mas quis indulto para celebrar o Natal com a família.”

É a chamada burrice desumana. Desde quando Genoino combate a “família tradicional”? Algumas das mais pungentes cenas ligadas a Genoino depois de ser preso foram protagonizadas por sua filha Miruna.

Por sua “família tradicional”, portanto.

Gentili é o clássico analfabeto político que foi intoxicado pelas ideias simplistas e arquiconservadoras de Olavo de Carvalho, o maior fabricante de imbecis do Brasil moderno.

No SBT, Gentili usa seu programa para promover causas extremamente reacionárias e, claro, atacar o PT.

Para tanto, ele vive convidando seus iguais para ampliar a propaganda direitista. Há poucas semanas, lá estava Reinaldo Azevedo.

Num tuíte no Natal, ele convidou Diogo Mainardi para vir ao Brasil para participar do The Noite. Você pode imaginar o conteúdo dessa futura conversa.

Em outro tuíte, ele diz que foi assassinado jornalista que denunciava irregularidades da prefeitura do PT.

O PT não é apenas corrupto para ele, portanto. É também assassino.

Sobre Dilma, especialmente, ele se esmera em trolagens. Num tuíte da conta de Dilma em que ela dizia que é preciso “apurar com rigor tudo de errado que foi feito”, ele acrescentou: “Comece por sua parteira.”

O estranho nisso, a rigor, não é a pregação incessante de Gentili, a campanha que ele faz em regime de 24 por 7.

O que realmente chama a atenção é que tudo isso é financiado pelo objeto do ódio de Gentili.

Gentili pode dizer o que quer, dentro dos limites da lei, é certo. E Sílvio Santos, no SBT, pode também contratar quem quiser.

Mas há um complemento: o governo não é obrigado a patrocinar alguém que diz que a parteira errou ao trazer à luz Dilma, e nem, muito menos, o dono de uma emissora que povoou seu jornalismo e até entretenimento de pessoas que visceralmente odeiam a pessoa que recebeu 54 milhões de votos há pouco tempo.

O SBT estaria fora do ar, apenas para lembrar, se o banco de Sílvio Santos não tivesse sido socorrido por este mesmo governo.

Sílvio Santos, pelas contratações que faz, deixou claro há muito tempo o que gostaria que acontecesse com o governo nestes últimos doze anos.

O que não entendo, racionalmente, é que este mesmo governo financie a ele e seus capangas como Gentili.

Brasileiro passa mais tempo na internet do que vendo TV

Por Luana Lourenço | Via Agência Brasil

A televisão ainda é o principal meio de comunicação no Brasil, mas os brasileiros já passam mais tempo navegando na internet do que na frente da TV. A informação está na Pesquisa de Mídia Brasileira 2015, divulgada hoje (19) pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

De acordo com a pesquisa, os brasileiros passam, em média, quatro horas e 59 minutos por dia usando a internet durante a semana e quatro horas e 24 minutos/dia nos fins de semana. Já a média de tempo assistindo à TV fica em quatro horas e 31 minutos/dia nos dias de semana e quatro horas e 14 minutos aos sábados e domingos.

“A diferença ainda é pequena, mas mostra uma tendência importante e que deve ser analisada. O tempo [de uso das redes] dá um parâmetro de como o brasileiro está migrando de forma consolidada para os meios de comunicação digitais”, avaliou o ministro da Secom, Thomas Traumann.

De acordo com a pesquisa, a internet é o terceiro meio de comunicação mais usado pelos brasileiros, atrás da TV e do rádio e à frente dos jornais e revistas. O levantamento, que ouviu 18 mil pessoas e traçou um perfil do consumo de informações nas diferentes mídias, apontou que 43% dos brasileiros usam a rede como meio de comunicação.

Entre os usuários da internet no Brasil, 76% acessam a rede todos os dias. O pico de uso é às 20h, tanto nos dias úteis quanto nos fins de semana. De acordo com a pesquisa, 67% acessam a rede em busca de informações ou notícias, mesmo percentual dos que dizem entrar na internet para buscar entretenimento (pergunta de múltiplas respostas).

Em relação ao grau de confiança no meio, 27% dizem confiar “sempre ou muitas vezes” nas notícias da internet, 58%, nos jornais e 54%, na televisão.

A pesquisa da Secom revela que uso da internet é mais influenciado pelas características sociodemográficas que os outros meios de comunicação. “Renda e escolaridade criam um hiato digital entre quem é um cidadão conectado e quem não é. Já os elementos geracionais ou etários mostram que os jovens são usuários mais intensos das novas mídias”, disse Traumann.

Entre os jovens com até 25 anos, 63% acessam a internet todos os dias. O percentual cai para 4% na faixa etária de 65 anos ou mais. No recorte por renda, a pesquisa constatou que entre os que têm renda familiar superior a cinco salários-mínimos, 76% acessam a internet pelo menos uma vez por semana. Por outro lado, entre os que têm renda familiar até um salário-mínimo por mês, 20% acessam a internet com a mesma frequência.

O grau de escolaridade também influencia a frequência de acesso à rede: apenas 8% dos entrevistados que estudaram até a 4ª série acessam a internet pelo menos uma vez por semana, percentual que aumenta para 87% entre os que têm ensino superior.

A Secom identificou baixo nível de participação dos internautas em consultas públicas, fóruns, enquetes e outros canais de participação promovidos pelo governo em plataformas online. “É baixo o contato direto entre o cidadão e governos ou instituições públicas. Apenas 25% dos usuários entraram em contato por e-mail, formulários eletrônicos, chats, redes sociais, fóruns de discussão ou de consultas públicas nos últimos 12 meses”, de acordo com o levantamento.

A pesquisa também constatou baixos percentuais de grau de conhecimento dos usuários da internet sobre as formas oficiais de comunicação do governo federal na web: o Portal Brasil, o site do Palácio do Planalto e o Blog do Planalto). Na pergunta estimulada, 77% dos entrevistados responderam que não conhecem o Portal Brasil “mesmo que só de ouvir falar” e 81% não conhecem o site do Palácio do Planalto. O Blog do Planalto é ainda mais desconhecido, com 85% de respostas negativas.

Segundo Traumann, o levantamento é a maior pesquisa de mercado sobre o tema e é importante para que o governo defina estratégias de comunicação e publicidade. “Temos obrigação legal e formal de usar os recursos da melhor forma, da forma mais eficiente, isso é fundamental para a nossa estratégia de comunicação”, ponderou.