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O veto de Dilma e a hora dos cartolas assumirem responsabilidades

Por Glauco Faria | Via Revista Fórum

A queda da proposta generosa de refinanciamento das dívidas dos clubes traz a oportunidade de se fazer uma discussão mais ampla sobre o fortalecimento do futebol brasileiro. É hora dos dirigentes serem cobrados não somente pelo que fazem pelos times que dirigem, mas pelo que podem fazer pelo esporte.

O veto da presidenta Dilma Rousseff à emenda incluída pelo deputado Jovair Arantes (PTB-GO) à Medida Provisória 256, que garantia aos clubes de futebol a possibilidade de pagar suas dívidas com a União em um prazo de 20 anos, sem contrapartidas, é um caso emblemático que diz muito a respeito de como se dão as relações do futebol com a política no Brasil. E também sobre como os cartolas dos times daqui lutam para fugir de suas responsabilidades.

Em 2014, muito em função das críticas em relação à realização da Copa do Mundo no país, Dilma buscou um movimento de aproximação e diálogo que acabou deixando à margem a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Realizou encontro com editores e jornalistas esportivos e também se reuniu com o Bom Senso FC, associação que congrega jogadores de futebol que buscam mudanças na modalidade. O governo também participou das discussões sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que pretende estabelecer uma solução financeira para a crise econômica vivida pelos clubes, contanto que eles se adaptem a determinadas normas de gestão financeira e de responsabilidade fiscal.

Como se trata de uma discussão difícil, que pode resultar em punições como o rebaixamento para clubes que não honram compromissos como o pagamento de atletas e funcionários, por exemplo, a chamada bancada da bola resolveu tentar dar um chapéu no processo de diálogo, empurrando goela abaixo um refinanciamento generoso, sem sanções. Para isso, o deputado Arantes, ex-presidente do Atlético-GO, incluiu a proposta em uma MP que, no Legislativo, se tornou um festival de isenções e benefícios tributários a diversos setores, graças a emendas parlamentares de todo tipo.

O veto é um alento para quem torce por um futebol mais forte no país, que ainda vive sob a sombra dos 7 a 1 da Copa, resultado que deixou à mostra as chagas da desorganização do esporte nacional. Também é positivo o fato de se formar um grupo interministerial que envolve as pastas do Esporte, da Fazenda, da Justiça, da Previdência Social e Casa Civil da Presidência da República, além de se ouvir representantes do Bom Senso Futebol Clube, dando à associação legitimidade para discutir o tema. Trata-se de uma diferença importante em relação ao que já foi feito na área.

Em 2007, o presidente Lula instituiu a Timemania, uma nova loteria que tinha como objetivo auxiliar os clubes no pagamento de suas dívidas com a União. Em troca do uso de sua imagem, os times passaram a receber 22% do valor das apostas para honrar pendências previdenciárias e tributárias. No entanto, com a arrecadação mais baixa do que o esperado e sem exigir contrapartidas mais efetivas em relação à governança, a Timemania teve pouco efeito prático. No início do ano passado, dos 55 clubes que haviam aderido à loteria, 20 estavam excluídos por inadimplência e atraso.

Um primeiro passo de muitos

Os 12 maiores clubes brasileiros de futebol devem, juntos, R$ 1,59 bilhão à União, o que não incluiu débitos de outra ordem com o poder público, como tributos estaduais e municipais. De acordo com estimativas do governo federal, o total devido por todos os clubes pode chegar a R$ 3,7 bilhões.

Mas, obviamente, não é a União a única credora dos times. Segundo dados da consultora BDO referentes ao ano de 2013, o total devido pelos 24 maiores clubes era de R$ 5,682 bilhões de reais. E se boa parte desse endividamento foi feito no passado, em função de gestões temerárias de dirigentes, outro número mostra que os atuais cartolas não são exemplo de bons gastos. De 2009 a 2013, os clubes aumentaram suas dívidas em R$ 2,8 bilhões, quase metade do montante apurado.

Ou seja, um refinanciamento sem qualquer tipo de compromisso por parte dos clubes não tende a melhorar a situação deles e do futebol de uma forma geral.

Sob o comando da CBF, o futebol brasileiro continua com competições quase sem visibilidade no exterior, com público abaixo de campeonatos nacionais como o dos EUA e de outros países com pouca tradição na modalidade. Também nesse cenário, os dirigentes de clubes têm responsabilidade direta.

Ainda que tenha havido aumento de receitas vindas de outras fontes, como licenciamento de produtos, utilização de estádios para outros fins que não o esportivo e programas de sócios e sócios-torcedores, à medida que as receitas têm aumentado, também crescem em maior grau as despesas. Práticas de gestão destinadas ao fracasso também persistem, como dirigentes emprestando dinheiro para seus próprios clubes, o que se torna um problema quando se troca o grupo que está no comando.

Os direitos de transmissão de televisão também aumentaram em valor nos últimos anos, mas menos do que poderiam. Com a dissolução do Clube dos Treze, movida pela ganância de alguns cartolas e também pela subserviência à Globo e à CBF, os times se enfraqueceram como coletivo, e a ideia de formação de uma liga, que poderia fortalecer o conjunto das equipes, não é algo que se vê no horizonte.

O que a visão limitada dos dirigentes não alcança é que o fortalecimento do futebol passa pelo empoderamento dos principais clubes, mas também dos médios, que hoje se distanciaram ainda mais dos grandes por conta da assimetria que se agravou com as negociações individuais. Sem que se leve em conta o mérito desportivo, no caso, a classificação de um time em uma competição como fator de aumento do recebimento dos direitos de TV, ainda que sejam bem sucedidos em competições, equipes de menor expressão estão fadadas a não repetir o desempenho, já que não haverá recursos para “segurar” seus principais atletas.

Ao mesmo tempo em que a fórmula fortalece as principais camisas do futebol brasileiro em relação às demais, ela não os favorece diante dos grandes ou mesmo médios da Europa. A associação com empresários e grupos econômicos que se tornam “parceiros” de clubes na aquisição de direitos federativos de atletas faz com que o lucro nas negociações de jogadores para o exterior diminua. E que não se culpe a Lei Pelé, resultado da adequação obrigatória da legislação brasileira ao fim da Lei do Passe, em função do caso Bosman. Como disse aqui o consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi, “a lei foi publicada em 1998 e entrou em vigor em março de 2001, ou seja, houve tempo para os clubes se prepararem, mas eles não o fizeram”.

É hora de os dirigentes de clubes assumirem suas responsabilidades. E de serem cobrados não somente pelo que fazem pelos times que dirigem, mas pelo que fazem – ou deixam de fazer – pelo futebol.

Ferréz: Cultura e bolsa miséria

Por Ferréz, em seu blog

Cultura para todos, significaria menos sofrimento, melhor escolhas, em todos os níveis.

Os papagaios repetem que o bolso miséria não é solução.

Alguns do próprio povo estão dizendo isso, repetindo o falho discurso de uma elite hipócrita e também sem cultura.

O falso conceito do “dar a vara e ensinar a pescar e não o peixe”.

Fácil dizer isso, mas na prática, os ricos usaram tudo que podiam para adquirir e manter seus bens, e dentro desse processo, pregam exatamente o contrário, para que outros não cheguem jamais na sua condição.

Um exemplo dos Estados Unidos, perante os países de terceiro mundo, que exigem exatamente medidas para que eles continuem pobres, se os EUA protegeram seu mercado com medidas feitas somente para isso, eles exigem que nós não tenhamos barreiras econômicas.

Tudo que fizeram para ficarem ricos, hoje é proibido para outros países.

Vamos copiar deles então a mudança social e talvez cultural, já que tudo que é do outro é melhor.

Quando o mestre da literatura de terror Stephen King, um dos autores mais vendidos no mundo, ainda era pobre. Conheceu o projeto de um carro móvel que trazia livros. Foi com esses livros que ele se educou. Quantos escritores matamos sem ter carros desses pelas áreas urbanas?

O Direito a envelhecer com dignidade. Direito a ter remédios para sua doença. Ou melhor o direito de ter o conhecimento para não ter tantas doenças, pois saberia o mal que o açúcar faz, o mal que o sal faz. Mas para isso a informação teria que ser compartilhada.

A vara para pescar é a informação, eles nunca quiseram dividir, então a emergência é o peixe.

Todos são culpados, pois até doutorando não conversa com o próximo, se o universitário passasse essa informação, se o recém diplomado fosse generoso e conversasse sobre os cursos gratuitos, sobre o direito as bolsas, muitos teriam mais chances.

Caixão não vem acoplado com HD pra levar informação além túmulo.

O que aconteceu nesses últimos dias nas eleições, reforça a falta de cultura tanto da elite, da classe média como do povo, que acaba repetindo o discurso do dominante.

Sinceramente eu entendo o voto ao Aécio, de um dono de empresa que perdeu grande parte dos seus funcionários, pois não dava condições de trabalho, e hoje o funcionário pega sua vara e vai procurar outro peixe.

Agora o que não entendo, é um cara que vive todas as dificuldades do dia-a-dia se negar a dar o crédito pelo acesso que hoje temos.

O cara tem um carro que comprou pelo desconto do IPI e pela facilidade do crédito, seu filho está estudando pelo Fies (Financiamento Estudantil), e diz que não votaria no governo novamente porque num gosta da Dilma.

Generosidade é uma palavra esquecida, tanto lá como aqui na periferia, onde todo dia um novo sonho não se concretiza.

A cultura é a salvação, ou que fazer com tantos que chegam, o que dizer para todos que vão, o que ler para quem nunca gostou da palavra, que tem ódio da sala de aula, que nunca soube como a cultura pode mudar a gente para melhor?

A cultura é tão importante, que até a educação vem depois, ela é procurada em forma de curso, de estudo, de tratar o outro melhor.

Voltando a copiar os EUA, vamos copiar então os grandes programas, como o programa federal de estimulo ao trabalho, que tinha como intuito tirar as pessoas desempregadas das ruas, Stan Lee conseguiu se encaixar na turma de um teatro federal, depois desse peixe, ele viria a criar os maiores super heróis americanos, Hulk, Homem-aranha, quarteto-fantástico.

Mas ele tinha o peixe na barriga, com o peixe ele pode um dia pegar na vara e pescar, pescou a Marvel Comics uma das maiores empresas de entretenimento do mundo.

Com cultura e informação entenderíamos melhor a história de grupos como a Globo e a Veja.

No caso o acordo fechado com o Time-Life para montar a Rede Globo, que seria inaugurada em abril de 1965. É só pesquisar que você vai entender o processo de criação dessas grandes máquinas de dominação, e não estou entrando aqui no mérito de ir no canal, de passar num programa.

Estou entrando na questão de ter um canal, de fazer seu programa, de começar a inverter a ordem. Coisa que eles são obrigados agora a deixar fazer, pois a internet vem como grande vilão devorador de audiência, tanto que qualquer menino na rua lhe mostra um vídeo hoje via facebook ou youtube enquanto os programas de TV estão cada vez mais desassistidos.

Com o acesso a cultura, que pode ser a grande ‘vara’ de pescar de todos, teremos senso crítico para discernir o que é bom ou ruim, e dali veremos casos como o depoimento a “Gazeta Mercantil”.

Civita deu uma outra pista que sua fonte de recursos emergenciais estava em Nova York. Nesse momento em que “Veja” naufragava, ele recorreu a empréstimos americanos que totalizaram quatro milhões e meio de dólares. Os recursos teriam vindo de gerentes de bancos americanos que Civita conhecia e que confiaram em lhe mandar dinheiro diretamente dos Estados Unidos em vários momentos críticos da Abril.

Com cultura, ficaremos tentados a desobedecer a ordem civil, reviramos leis, debatemos com autoridades, questionaremos, o porque pagar a Zona Azul para deixar seu carro na rua, e o flanelinha tem que ser preso, porque da propaganda no trânsito “de preferencia ao transporte público” se andar de ônibus em São Paulo é humilhante.

Com Cultura, veremos casos, teremos conhecimento que com a ajuda de câmeras ocultas, o repórter mostrou que crianças na Indonésia e na China estavam trabalhando praticamente em regime de escravidão, “para que as crianças americanas possam colocar roupas cheias de babadinhos na boneca favorita da América”.

Com cultura, teremos certeza, que a classe dominante é a verdadeira culpada, que criou as leis e tem que conviver sem segui-las.

Somos educados e os educadores são apenas seus mandatários. É ainda a classe dominante que designa a educação o seu fim autêntico, de cujo ‘fins’ aquilo que os educadores estabelecem não passa de formulações enganosas.

É por isso, que temos uma grande massa de prestadores de serviços quase gratuitos, que ainda se fala muito mal dos 70 reais do bolsa família, enquanto financiamentos a 20 anos são dados todos os dias para os ricos continuarem seus impérios, sua máquina de opressão, seu jeito bonito de nos vender a ração.

Tudo que eles fizeram para serem ricos, hoje é proibido e vetado.

Quando batemos no peito que somos revolucionários, isso porque compreendendo-se revolução no sentido do processo de transformação conjunta da sociedade capitalista através da luta das classes populares no intuito de suprimir a todos os níveis as relações de dominação e fazer do povo o sujeito de sua história.

Somos o sujeito da história, e estamos nesse momento em formação para transformar o país de fato numa nação autêntica, culturalmente real.

Quer um exemplo?

O setor literário se beneficiou de uma brilhante inovação, em 1941, bem no meio da segunda guerra mundial, a revista folket i bild lançou a série Fib Folkbcker (livros populares). A maioria deles eram romances narrados de modo realista por escritores conhecidos, muitas vezes ligados ao movimento trabalhista, vendidos a preço baixo por um exército de milhares de vendedores nos locais de trabalho e no sistema porta a porta em áreas residenciais. Contra todas as previsões, os livros FiB fizeram um sucesso absoluto. Foram impressos 3 milhões de exemplares dos primeiros 44 títulos, sua popularidade era tão evidente que a principal editora de Bonniers imitou o projeto rigorosamente, até quanto ao número de vendedores, fundando a Bonniers folkbiblioteck (Biblioteca Popular Bonniers), que, como imenso catálogo da editora, se tornou uma forte concorrente dos livros da FiB.

Voltando ao Brasil, porque somos reféns de escolhas editoriais, eles escolhem, eles dizem ou que é bom ou não, e deixam a margem milhares de escritores e consequentemente leitores, que não enxergam na literatura brasileira nada de bom nem cativante, pois ela é escolhida por uma minoria que não vive nem sabe realmente o que o povo tem vontade de consumir em termos de leitura.

Prêmios pré determinados, ou você se encaixa na fórmula ou não é sequer carimbado como “literatura”, quando na verdade o afastamento das massas e de assuntos viscerais e emergenciais para o povo são a primeira regra.

Eles que vivem na Miami Paulista, grande reduto da tucanada, tem que engolir esse ódio de quem entra no avião pela primeira vez, do celular da empregada ser igual da patroa, do filho do motorista não dar continuidade na profissão do pai, pois está fazendo faculdade e pra pagar daqui a 5 anos.

Engolir esse ódio de sentir o cheiro do mesmo perfume vindo do elevador de serviço, ódio das feiras literárias estarem virando rolezinho do conhecimento.

Engolir gente que não é do mesmo ciclo de amizades, que não estudou no Dante, que não tinha cartão “Diamonds”, “Plus” nem conta no “Personnalité”, engolir que não é mais “exclusivo” seu “clube”, não é mais “limitado” seus ingressos.

Engolir o ódio de ter que sair da zona de conforto, de não ter reproduzido seus privilégios desde o colégio, de ter que ralar agora pois a concorrência vem do gueto, com outro olhar, com outra vivência, e com a maior escola que se pode ter. O sofrimento.

Outro jeito é mudar, como algumas madames gritam na internet, estão indo pra gringa, podem sair. Abandonem o barco, ele não está a deriva, a deriva são suas metas, gente ingrata, que nunca comprou tanto, nunca teve tanto e está agora se passando por vítima, crescer para todos num pode né? Vão embora, por favor! Mas saibam que quando eles perceberem seu sotaque, ai é outro tratamento.

A verdadeira bolsa miséria é da Louis Vuitton, que tem tudo dentro, menos bondade e satisfação de ver o outro se dar bem também.

O saldo devedor das democracias liberais

Por Rennan Martins | Vila Velha, 19/01/2015

O professor Zizek brindou-nos com seu elucidativo artigo “Pensar o atentado ao Charlie Hebdo”, onde traz diversas reflexões pertinentes a sociedade ocidental e seu relacionamento com o islamismo e o povo muçulmano. No último parágrafo lemos uma intrigante conclusão, que diz:

“O que Max Horkheimer havia dito sobre o fascismo e o capitalismo já nos anos 1930 – que aqueles que não estiverem dispostos a falar criticamente sobre o capitalismo devem se calar sobre o fascismo – deve ser aplicada também ao fundamentalismo de hoje: quem não estiver disposto a falar criticamente sobre a democracia liberal deve também se calar sobre o fundamentalismo religioso.”

De fato, a democracia liberal está num processo de desgaste e perda de legitimidade frente aos cidadãos, tanto que muito se discute a dita “crise de representatividade”, ou seja, a incapacidade deste arranjo institucional de responder aos anseios da população.

É possível notar que, historicamente, as elites detentoras do poder político e econômico tentaram por diversos meios tutelar os processos de abertura e aprofundamento democrático, impondo mecanismos que afunilam e até mesmo bloqueiam as reivindicações das massas.

No caso das democracias liberais dos países desenvolvidos, que tiveram muitas de suas instituições copiadas pelas nações do Sul Global, a degeneração se deu tanto internamente quanto no âmbito externo, onde a agressividade dos EUA e União Europeia recrudesce, visando garantir interesses econômicos e geopolíticos num momento em que se vive a segunda maior crise do capitalismo.

Internamente temos as configurações que permitiram influência demasiada do poder econômico nos processos decisórios e eleições no intuito de compensar o perigoso sufrágio universal. Este poder por sua vez corrompe tanto os políticos quanto o próprio sistema, garantindo que as “decisões democráticas” sempre favoreçam os interesses da oligarquia patrocinante das campanhas eleitorais e do lobby.

Soma-se a isso a imprensa corporativa, que é uma verdadeira agência de publicidade, promovendo com eficácia e fervor os interesses de seus patrões, reproduzindo um pensamento único que retrata o mundo sempre do prisma neoliberal em termos econômicos, e conservador no âmbito social.

Exemplo ilustrador desse quadro é a pesquisa dos professores Martin Gilens, de Princeton, e Benjamin I. Page, da Northwestern Universisty, que focou na “maior democracia do mundo”, a norte-americana. Nela fizeram um levantamento exaustivo de 1.779 questionários sobre políticas públicas, entre 1981 e 2002. O que constataram foi um poder de influência que varia diretamente com o tamanho da conta bancária, ou seja, uma oligarquia. Diante disso, assim discorreram:

“… acreditamos que se os processos decisórios são dominados por poderosas organizações empresariais e um pequeno número de americanos influentes, temos que as pretensões democráticas americanas estão seriamente ameaçadas.”

Na frente internacional, esta ainda mais importante pra pensarmos os últimos acontecimentos, temos ainda menos distribuição de poder. As democracias liberais portam-se tiranicamente em relação aos Estados em desenvolvimento, fazendo de tudo para esmagar qualquer indício de nacionalismo e anseio por um desenvolvimento autônomo, de propostas que divergem das oferecidas pelo globalismo do FMI e Banco Mundial. Em suma, o respeito a autodeterminação dos povos inexiste.

O atentado a Charlie Hebdo é exposto como fruto de um pretenso “choque de civilizações” onde caberia ao ocidente desenvolvido impor belicamente toda sua “civilidade”, ganhando, neste ínterim, o controle de preciosos recursos, principalmente energéticos. Mas isso é só um detalhe.

A Al-Qaeda do Iêmen é a mais nova cabeça da Hidra a ser cortada, porém, a narrativa hegemônica “esquece” que o extremismo era minoritário e desprovido de recursos, até que foi treinado e financiado pelas potências ocidentais e monarquias sunitas locais a fim de que a desestabilização por eles promovida catalisa-se a promoção de seus interesses. O fato do Estado Islâmico ter recebido rios de dinheiro europeu e norte-americano é pouquíssimo mencionado, e assim mais uma intervenção militar genocida se avizinha.

Como diz a frase a atribuída a Einstein, loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual. Há um quinhão de responsabilidade a ser cobrado das democracias liberais, e a liquidação da fatura é urgente.

Quando as ideologias (religiões) perdem o senso do humano

Por Roberto Malvezzi | Via Correio da Cidadania

Gramsci, um dos maiores estudiosos das ideologias, nos dizia que o “senso comum, as religiões e as filosofias são tipos de ideologias”. Dizia ainda que o senso comum é a mais precária delas, as religiões são um pouco mais elaboradas e a filosofia era a ideologia melhor acabada.

A identificação da religião como uma ideologia nunca foi aceita, por exemplo, pelo magistério católico. Todos os documentos originados no Vaticano vão fazer distinção entre religião e ideologia.

Mas Gramsci deu à ideologia um sentido positivo, como um conjunto de ideias organizadas que orientam a vida particular e de grupos na vida e na disputa pelo poder. Nesse sentido, para ele as religiões também são ideologias. Afinal, quem se orienta pela opção pelos pobres, pela justiça, pela paz etc., tem um conjunto de ideias articuladas (princípios) que as orientam na vida e luta social.

O assassinato de doze pessoas na França em nome da religião ressuscita essa questão. Afinal, os matadores se pronunciaram em nome de Alá. Porém, logo foram contestados pelo próprio mundo islâmico, que distingue entre os ensinamentos de seu profeta Maomé e a leitura que grupos sectários fazem desse mesmo princípio. Sem dúvida, a chacina torna muito mais difícil a vida dos islâmicos em território europeu.

O fato também serviu para que muitos utilizassem o fato para dizer as vantagens da razão iluminada diante dos obscurantismos das religiões. De fato, em nome da fé a Igreja Católica organizou Cruzadas – inclusive de crianças –, criou a Inquisição e promoveu outros horrores ao longo da história, como a própria conquista das Américas em nome da espada e da cruz. As Cruzadas eram guerras exatamente contra os islâmicos.

Mas, se observarmos bem os fatos, veremos que o problema está nas ideologias, todas elas, inclusive as laicas, quando perdem o senso do humano. As conquistas da razão iluminada são indiscutíveis para o progresso da técnica e da ciência, mas os efeitos dramáticos da racionalidade pura se abatem hoje sobre a humanidade e o planeta.

A Primeira Guerra Mundial, a Segunda, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e Afeganistão, a colonização europeia em outros continentes, nenhuma dessas atrocidades foi feita em nome das religiões, mas de interesses e prepotência de nações e seus capitais diante dos mais fracos. A racionalidade moderna gerou milhões de mortes e ainda lançou a bomba atômica sobre o Japão. Pior, está gerando a mudança no clima do planeta, sem que os próprios cientistas saibam exatamente o que pode acontecer a todas as formas de vida, principalmente a humana.

Nem as esquerdas escaparam. Em nome do socialismo, Stalin promoveu o expurgo de todos os seus adversários. As esquerdas revolucionárias das Américas e África nunca conseguiram entender os indígenas – portanto, respeitar -, lideranças tradicionais e costumes diferentes da racionalidade ocidental.

Aliás, é sempre bom lembrar que capitalismo e socialismo são apenas as duas faces da mesma racionalidade iluminada do ocidente. A Bolívia ensaia um modelo que inclua o melhor do mundo contemporâneo com o melhor das tradições indígenas, inclusive o que os nativos assimilaram de melhor do cristianismo.

Portanto, as ideologias são inevitáveis, mas cuidado com todas elas, religiosas ou não. Quando em nome de “seu deus” perdem o respeito pela pessoa humana e pela natureza, elas cometem atrocidades.

***

Roberto Malvezzi (Gogó) possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.

Guerra ao terror

Por Wladimir Safatle | Via Blog da Boitempo

Capa da edição de hoje, 14/01/2015, do semanário Charlie Hebdo, primeira após o atentado

Depois da semana passada, vemos a afirmação em coro de que o extremismo muçulmano é um dos maiores problemas da atualidade. Mas nem sempre o coro se dispõe a dar um passo à frente e se perguntar pelas coordenadas sociopolíticas do aparecimento de tal problema.

Ao que parece, alguns acreditam que simplesmente colocar a questão nesses termos já é ser cúmplice e não demonstrar solidariedade pelas vítimas. É querer ser racional com o irracional, relativizar o que seria motivado pelo mal radical, pelo ódio milenar contra nós e nossa liberdade, apoiar a superstição contra as luzes. Em nome de tal visão de combate que nada quer saber sobre causas pois não se interessa em mudá-las, estamos em “guerra contra o terror” há quase 15 anos.

No entanto, depois de 15 anos em guerra, não estamos mais seguros do que em 2001. O que temos são: três países invadidos (Afeganistão, Iraque e Mali), um conjunto impressionante de leis e práticas de controle que cerceiam a liberdade em nome da defesa da liberdade, um Estado Islâmico a controlar áreas de antigos países do Oriente Médio, o aumento exponencial da xenofobia e da islamofobia em países europeus e novas levas de jovens muçulmanos europeus dispostos a serem mártires do jihadismo internacional.

Ou seja, enveredar pela “guerra ao terror” é a melhor maneira de se afundar no problema. Pois qual seria o próximo passo: reforçar as fronteiras, uma nova intervenção militar? Mas para que, se os novos jihadistas são cidadãos europeus, morando nas periferias? Quem sabe então tentar concentrar os muçulmanos europeus em campos nos quais eles poderiam ser melhor controlados?

Insistiria que, se quisermos vencer o extremismo muçulmano, melhor começar por parar de reeditar teorias coloniais sobre o pretenso caráter arcaico da religião dos antigos colonizados, como se nós mesmos não tivéssemos nos acomodado aos nossos próprios arcaísmos. Pois se tem alguém que agradecerá de joelhos aqueles que usam a imprensa para falar que o islã não é compatível com a democracia (como se alguma religião realmente fosse) são os terroristas da Al Qaeda e do Estado Islâmico. É exatamente o que eles sempre falaram. Infelizmente, para propagar esta boa nova, eles tem bastantes aliados entre nós.

Não é vitimizar assassinos dementes tentar sair desta toada surda e entender o sentimento, a assombrar os descendentes de árabes vivendo na Europa, de impotência política, de exclusão econômica brutal, de não ter ninguém que os defenda de ataques racistas vindos de partidos e da vida ordinária. É a melhor maneira de tentar impedir que novos assassinos apareçam.

EI considera “muito estúpida” nova publicação de charge de Maomé

Via Agência Efe

O Estado Islâmico (EI) considerou nesta quarta-feira como “muito estúpida” a publicação de caricaturas de Maomé na nova edição do semanário “Charlie Hedbo”, segundo um boletim informativo divulgado pela rádio digital do grupo jihadista.

O EI, por meio de um locutor, disse que o “Charlie Hedbo publicou caricaturas que mais uma vez concernem ao profeta e isto é uma ação muito estúpida”.

Um homem lê a nova edição do satírico Charlie Hebdo. EFE/Yoan Valat

O semanário francês lançou hoje uma edição especial com uma charge de Maomé chorando com um cartaz afirmando “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie) sob a frase “Tout est perdonné” (Tudo está perdoado).

A sede em Paris da publicação foi atacada na quarta-feira passada pelos irmãos Sarif e Chérif Kouachi, que mataram doze pessoas, incluindo seu diretor, Stéphane Charbonnier, o “Charb”, e quatro dos caricaturistas mais famosos da França.

O grupo Al Qaeda na Península Arábica (AQPA), com base no Iêmen, assumiu hoje a autoria do ataque.

O EI tem sua origem na Al Qaeda no Iraque, embora enfrente na Síria o braço armado desta organização.

A mídia brasileira está usando o sangue do Charlie em causa própria

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Enquanto isso, no Brasil…

Um jornalista britânico pergunta, no Independent, se haveria a mesma comoção se o atentado contra o Charlie Hebdo tivesse como alvo uma publicação de extrema direita.

Respondo com uma pergunta.

Alguém consegue imaginar uma marcha, no Brasil, que congregue pessoas emocionalmente arrasadas que segurem cartazes que digam: “Sou a Veja?” Ou mesmo: “Sou a Globo?” Ou ainda: “Sou a Folha?”

Ou indo para pessoas físicas. Feche os olhos e veja multidões com cartazes assim: “Eu sou Jabor”. Ou: “Eu sou Merval”. Ou: “Eu sou Reinaldo Azevedo”. Ou: “Eu sou Sheherazade”.

A direita tem poder e dinheiro, mas não comove ninguém. Não muito tempo atrás, festas nas ruas celebraram na Inglaterra a morte de Margaret Thatcher.

Testemunhei uma delas, em Trafalgar Square, berço da majestosa coluna de Nelson, o almirante que impôs a primeira grande derrota à França de Napoleão.

As grandes empresas de jornalismo do Brasil e seus porta-vozes – os reais chapas brancas da mídia — são o exato oposto do Charlie. Defendem um mundo de privilégios que provocava vômitos mentais nos cartunistas mortos.

Isso não tem impedido a mídia brasileira de usar a tragédia do Charlie, cinicamente, em causa própria.

O sangue dos cartunistas franceses vem sendo utilizado sobretudo para barrar a discussão em torno da regulação da mídia no Brasil.

A liberdade de expressão pela qual morreram os jornalistas do Charlie seria, aspas, e pausa para uma gargalhada, ameaçada pela regulação.

Já que falamos de Nelson, evoquemos também Wellington, o herói inglês de Waterloo: quem acredita nisso acredita em tudo.

A “liberdade de expressão” pela qual se batem as empresas jornalísticas brasileiras pode ser resumida assim: vale tudo para defender os próprios privilégios.

Você pode assassinar reputações sem prova e sem consequências jurídicas. Você pode usar concessões públicas como rádios e tevês como arma de propaganda contra ideias e pessoas que representam ameaças, reais ou imaginárias, às mamatas. Você pode concentrar o direito à opinião em quatro ou cinco famílias. Você pode formar monopólio impunemente.

Você pode tudo, em suma – e sem contrapartida. Numa disputa com dois barões da mídia na década de 1930, o então premiê britânico Stanley Baldwin produziu uma frase ainda hoje amplamente citada no Reino Unido.

Depois de dizer que os jornais de ambos eram na realidade “máquinas de propaganda” para servir a interesses pessoais, e não públicos, Baldwin afirmou: “O que os donos desses jornais querem é poder, mas poder sem responsabilidade, coisa que no correr dos tempos tem sido o atributo das marafonas.”

De Baldwin para cá, a opinião pública inglesa esteve constantemente vigilante em relação aos barões da mídia.

O último deles, Rupert Murdoch, virou um pária social depois que os ingleses souberam os métodos que um jornal seu empregava para obter furos.

Sob a fúria da opinião pública, Murdoch foi obrigado a fechar o jornal, e jamais voltou a ter um vestígio do poder e da influência que tivera na Inglaterra.

Ainda em consequência do escândalo, a Inglaterra se pôs a discutir, prontamente, uma nova regulação da mídia. Os detalhes finais estão sendo elaborados, mas essencialmente foi decretado o fim da auto-regulação por ter se provado pateticamente ineficaz.

No Brasil, não chegamos ainda, neste terreno, aos anos 1930 de Baldwin.

Que presidente brasileiro ousou dizer a barões – e à sociedade, principalmente — as verdades que Baldwin disse?

Diversos ocupantes do Planalto não apenas silenciam como patrocinam os barões com o Bolsa Imprensa, o dinheiro público farto e constante que sempre abastece as grandes empresas na forma de publicidade federal.

É esse estado de coisas que a mídia está defendendo mais uma vez, com o caso do Charlie – e não, não e ainda não a “liberdade de expressão”.