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Há uma mudança geográfica no Brasil, aponta Marcio Pochmann

Por Pamela Mascarenhas | Via Jornal do Brasil

Marcio Pochmann. Brics Policy Center

A realidade social brasileira melhorou expressivamente durante a última década e o país diminuiu o grau de exclusão social. A desigualdade regional, contudo, continua marcante, aponta o segundo volume do Atlas da Exclusão Social no Brasil lançado agora pela Cortez Editoria. Marcio Pochmann, um dos coordenadores da obra, em conversa com o JB, destacou a necessidade de políticas que possam ser adotadas regionalmente, de acordo com distintas realidades. Não há, ainda, garantia para esses avanços. Enquanto isso, o país ainda precisa lidar com os efeitos das conquistas, que geraram, entre outras coisas, mudanças geográficas no país, com reflexo no sentimento de representação de novas elites, por exemplo.

“O Brasil convive com uma mudança no próprio regime migratório. Antes, havia uma atração muito grande da população para as regiões Sul, e houve uma migração reversa, de pessoas que voltaram para os seus estados de origem. Então, há uma mudança geográfica no Brasil”, destacou Pochmann. “Em função desse processo de transformação que o Brasil vem vivendo, nós temos o surgimento de novas elites, elites regionais, elites do interior do Brasil, em outros estados, e essas elites, no nosso modo de ver, elas também não encontram muita repercussão nas estruturas de representação que nós temos hoje.”

Para o professor, o mundo inteiro enfrenta agora um quadro dramático, com países de grande peso na economia mundial crescendo bem menos do que cresciam, o que impõe maiores dificuldades. Uma saída pelos países ricos, então, parece improvável. A solução poderia vir de outros como o Brasil, por intermédio de medidas adotadas no âmbito do Brics, por exemplo. “A criação desse banco, do fundo de reserva e agora a possibilidade de criar uma agência de avaliação de risco também no âmbito dos Brics revela o fato mais importante ocorrido, ao meu modo de ver, desde o acordo de Bretton Woods de 1944. Mas ainda é um processo lento.”

O Atlas da Exclusão Social no Brasil Volume 2, diferente da versão lançada em 2014, que se reportava somente aos dados censitários do ano de 2010, apresenta um panorama geral das mudanças sociais que aconteceram no país durante a primeira década do século 21. Os autores, André Campos, Daniel Castro, Ricardo Amorim, Marcos Paulo Oliveira e Rodrigo Coelho analisaram uma década (2000-2010) falam sobre a realidade social brasileira. O livro tem coordenação de Pochmann, Alexandre Guerra e Ronnie Aldrin Silva.

Confira a entrevista com Marcio Pochmann:

JB – Vocês lançam agora o volume 2 do atlas da exclusão social, para atualizar estudos anteriores e dar um filme do 2000-2010, em complemento à fotografia oferecida no volume primeiro. Que filme é esse?

Marcio Pochmann – Os dados que nós dispomos e trabalhamos de forma temática são, na sua grande maioria, fundamentados pelo censo demográfico. Nós tivemos a oportunidade de aplicar essa metodologia pela primeira vez no início dos anos 2000, com base no senso de 2000. Depois, até retroagimos no tempo utilizando sensos anteriores. Então, nós tínhamos mais ou menos uma imagem do que era o Brasil nas regiões fundamentais do século 20, e era uma imagem de desconexão entre o comportamento econômico e o progresso social, mais evidente disso foi em 1980. O Brasil era considerado 8ª economia do mundo e situava no terceiro posto do ranking internacional de desigualdade. Então, essa é uma marca do século passado.

No ano 2000, nós já havíamos observado um retrocesso inclusive do índice econômico e social, porque o Brasil havia sido a 8ª economia nos anos 1980 e no ano 2000 havia retroagido à posição de 13º país, e havia um quadro social mais alarmante do que em 1980 em virtude da expansão do desemprego. Tínhamos em 1980 uma taxa de desemprego de 2,7% da força de trabalho e no ano 2000 uma taxa de desemprego de 15% da força de trabalho. Havia tido uma piora da participação da renda do trabalho na renda nacional, enfim, foi isso que foi exposto naquela publicação.

Agora, é a oportunidade de atualizar essas informações. Se percebe, na verdade, uma inflexão, tanto econômica, quanto social, porque o comportamento de economia da primeira década do século, falando até o ano de 2010, o comportamento econômico foi favorável, digamos assim, e se combinou, inclusive, com uma melhora generalizada nos indicadores sociais.

Nosso entendimento é que o Brasil conseguiu registrar pela primeira vez, nos últimos 50 anos, uma tríade convergente. O que eu quero dizer com isso? Nessa primeira década do século 21 a gente conseguiu ter um crescimento econômico importante, forte, significativo, combinado com democracia e política de distribuição de renda, de maneira geral. Esses três elementos, o regime político, o econômico e o social, não se combinaram dessa mesma forma nos últimos 50 anos.

Se a gente pegar, por exemplo, entre os anos de 1960 e 1970, que foram anos inclusive que o crescimento econômico foi muito mais forte do que o verificado na primeira década deste século, esse crescimento econômico muito mais forte dos anos 60/70 se deu num quadro de regime autoritário, sem participação social, e ao mesmo tempo ausência de políticas de redistribuição de renda. Então, o resultado de crescimento acabou sendo um crescimento econômico bem desassociado de avanços sociais.

Já nos anos 1980 e 1990, que são anos em que o Brasil recupera a democracia e, portanto a participação social mais alongada, lamentavelmente, o Brasil praticamente não cresceu. Então havia democracia, havia contribuição de políticas distributivas que a constituição de 88 estabeleceu, mas não havia o que distribuir porque a economia praticamente não cresceu. Então, somente nesses primeiros anos 2000 é que você terminou tendo a oportunidade de combinar crescimento, democracia e distribuição de renda.

Os resultados finais são resultados bastante interessantes, especialmente numa década, década dos anos 2000, que apontou para, sobretudo, os países ricos, que eram inclusive referência para o Brasil, que eram Estados Unidos, a Europa, de maneira geral, países que havia conseguido reduzir desigualdade, pobreza, crescer de forma sustentada com pleno emprego, eram referência para o Brasil, mas já nos anos 2000 são países que apresentam um sinal inverso, são países que apresentam aumento da pobreza, desigualdade, o crescimento é relativamente muito baixo. Então, de certa maneira, o Brasil assumiu uma posição singular porque conseguiu oferecer resultados que anteriormente se verificava apenas por países ricos, quando agora eles mesmos não conseguem mais oferecer.

Há uma inflexão na trajetória, pelo menos nos últimos 50 anos, que a gente tem condição de analisar com dados oficiais.

O livro fala que é um bom começo ter claro que o Brasil avançou na última década, mas que fez isso de uma maneira desigual, e fala na importância de “enfrentar desigualmente as diferentes misérias”. Como é isso? O país tem ferramentas ou é um caminho ainda distante para acabar com essa marca da desigualdade?

A desigualdade não é uma desigualdade apenas social, mas uma desigualdade territorial. Os indicadores melhoraram, pelo menos aqueles que nós tomamos como referência. Só o indicador de violência que cresceu e coloca o Brasil realmente numa situação internacional bastante desfavorável em relação ao problema da violência. O que o livro quer chamar a atenção é que no Brasil nós não temos experiência de política públicas que seriam adotadas de maneira regional, elas, de maneira geral, são de caráter nacional, olham o Brasil como um todo. E o que nós percebemos é que essas políticas nacionais têm um impacto diferenciado no país em função de realidades distintas.

Mas nós não temos, infelizmente, uma boa capacidade dos estados fazerem uma intervenção mais adequada à realidade em que eles se encontram. Os estados do Brasil tinham uma capacidade de intervenção maior, praticamente, até os anos 1990, e eles foram perdendo capacidade de intervenção, seja por um processo de centralização política seja por programas nos anos 1990, que foram de certa maneira reduzindo a capacidade de intervenção do estado pela centralização que ocorreu especialmente no âmbito da política econômica. Até os anos 1980, por exemplo, cada estado tinha seu banco de desenvolvimento. Hoje, não temos mais banco de desenvolvimento nos estados. Então, a nosso modo de ver, o Brasil precisaria ter um olhar mais regional mais diferenciado, do que tem atualmente a partir das políticas nacionais.

De qualquer forma, foi grande a intensidade das mudanças ocorridas na última década, principalmente na região Norte e Nordeste?

O mais importante é essa inflexão que conseguiu realizar nos anos 2000. Mas, obviamente, como nós partimos de uma base tão grande de desigualdade, é absolutamente necessário que se mantenha essa unidade da democracia, de crescimento econômico, políticas distributivas, para poder fazer com que o Brasil se estabeleça num patamar minimamente civilizado. Porque nós temos ainda indicadores de sociedade muito primitiva.

Um artigo seu do mês passado dizia que esse Brasil menos desigual parece não agradar alguns. Que cenário é este que está montado?

Nós somos um país que se constituiu em cima da desigualdade. Nós somos um país herdeiro de quatro séculos de escravidão. A desigualdade é uma marca do Brasil. Na medida em que essa desigualdade começa a ser atacada, de certa maneira, ela termina expressando certo desconforto. Porque há vários sinais de manifestação em relação a essa circunstância. Nós até estamos fazendo um outro estudo que mostra a mudança no regionalismo brasileiro. O novo federalismo, que aponta justamente certa inversão de protagonismo.

Nós tínhamos, praticamente, a região Sul, São Paulo como protagonistas do Brasil. O que ocorreu, nessa primeira década do século, pelo menos, foi uma expansão econômica mais consistente, com melhores resultados no Nordeste, no Centro-Oeste. O Brasil, inclusive, convive com uma mudança no próprio regime migratório. Antes, havia uma atração muito grande da população para as regiões Sul, e houve uma migração reversa, de pessoas que voltaram para os seus estados de origem. Então, há uma mudança geográfica no Brasil.

Há uma disputa, até porque, em função desse processo de transformação que o Brasil vem vivendo, nós temos o surgimento de novas elites, elites regionais, elites do interior do Brasil, em outros estados, e essas elites, no nosso modo de ver, elas também não encontram muita repercussão nas estruturas de representação que nós temos hoje, sejam eles sindicatos, partidos, enfim, agremiações que são elementos fundamentais para o processo democrático.

O senhor acha que essas conquistas podem ser perdidas?

Não há garantia que elas sejam para toda a vida, até porque a referência que nós tínhamos aqui no Brasil, que eram os países europeus, sobretudo, mesmo os Estados Unidos, convivem com sinais de retrocesso. Então, do meu modo de ver, não há garantia que não seja essa combinação que se mostrou bastante efetiva, de você ter democracia, ter política distributiva e ter crescimento econômico. A falha de uma delas pode certamente comprometer essa trajetória.

Este segundo volume do Atlas também fala de um desgaste próprio desse caminho adotado nos últimos anos. Isso determina a necessidade de uma mudança?

O desgaste se dá pelo fato de que o êxito traçado, pelo menos no nosso modo de ver, nesses primeiros 10 anos do século, é um êxito que encontra limites, porque são avanços que de certa maneira não colocaram em xeque questões históricas mais importantes. Ao nosso ponto de ver, a distribuição das oportunidades seria mais efetiva se nós tivéssemos condições de fazer algumas reformas. São reformas já defendidas há muito tempo, sem que o Brasil tenha tido oportunidade de realizá-las. A mais inegável delas é a própria reforma tributária, que há uma desigualdade enorme na forma com que o Brasil arrecada seus recursos.

Certamente, o que aconteceu na primeira década foi uma certa progressividade no gasto, mas não há progressividade na arrecadação, isso distorce certamente a capacidade do Estado ser mais eficaz nas suas políticas públicas. Nós temos, se a gente olhar o universo de políticas públicas brasileiras, há políticas de corte mais voltadas para a renda. As políticas de assistência social, por exemplo, estão mais voltadas para as regiões mais pobres. Mas quando a gente começa a olhar a política pública, por exemplo, no âmbito da Cultura, os principais teatros, os principais equipamentos culturais não estão nas regiões mais pobres. Não estão nas regiões onde a população mais carente mora. Em geral, os equipamentos de cultura estão nos centros das grandes cidades, nos principais centros onde mora a população com maior poder aquisitivo, de certa maneira privilegiada pela situação que nós temos no Brasil.

Então, nós estamos chamando a atenção para a necessidade de avanços maiores que esses que até o presente momento a gente conseguiu realizar.

O governo estaria estudando a possibilidade de taxação de grandes fortunas também. Isso seria uma forma de contrabalancear essas medidas de política fiscal que afetariam só o trabalhador e o empresário?

O que nós temos visto é que as medidas tomadas até o presente momento elas afetam mais o setor produtivo brasileiro, em particular os trabalhadores e agora numa segunda rodada também os empresários, mas há uma série de outros segmentos que até então não foram atingidos, segmentos em que, de certa maneira, há uma ausência de tributação. Pela questão da justiça fiscal, certamente, seria importante que outras modalidades viessem a ser tomadas.

O livro resgata o diferente posicionamento adotado pelo Brasil em relação a outros países com a crise de 2008, e um esgotamento do Consenso de Washington. O Brasil ainda tem condição de continuar a ser referência, considerando, por exemplo, o novo Banco de Desenvolvimento e o Acordo Contingente de Reserva do Brics? Seria uma alternativa a esse neoliberalismo que não deu certo?

Eu acredito que sim. Eu quero lembrar que nós estamos diante de um quadro dramático. O ambiente internacional é um ambiente de crise fomentada desde 2008, não há saídas ainda sustentáveis. Os países estão crescendo menos. O Brasil cresce hoje 45% do que crescia até 2008. Os Estados Unidos crescem 30% do que crescia até 2008, a China cresce 75% do que crescia até 2008. Então, é um quadro de maiores dificuldades. Entendo ser difícil uma saída pelos países ricos. Até porque eles estão com problemas mais profundos. Então a solução Brics pode ser de fato uma alternativa, até porque parte importante dos fluxos comerciais de investimento vem se dando na região Sul do planeta. O fato da criação desse banco, do fundo de reserva, e agora a possibilidade de criar uma agência de avaliação de risco também no âmbito dos Brics revela o fato mais importante ocorrido ao meu modo de ver desde o acordo de Bretton Woods de 1944, mas ainda é um processo lento, mas pode, em termos médios de longo prazo, ser de fato uma realidade, uma alternativa pro mundo que ainda vive em forte crise.

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Sugestão via e-mail da participante do grupo Desenvolvimentistas, Fátima Magalhães: 

Segue entrevista com o economista Marcio Pochmann e dois artigos do teólogo Leonardo Boff no Jornal GGN que – juntos – talvez possam nos ajudar a refletir na tentativa de entender um pouco mais acerca das tramas tecidas neste delicado momento politico que está a brotar no Brasil. Destas singulares publicações, destaco trechos nos quais o Prof. Marcio Pochmann e o Teol. Leonardo Boff parecem confluir para uma mesma questão central, segundo dados e interpretações que lhes são próprias.

“Nessa primeira década do século 21 a gente conseguiu ter um crescimento econômico importante, forte, significativo, combinado com democracia e política de distribuição de renda, de maneira geral. Esses três elementos, o regime político, o econômico e o social, não se combinaram dessa mesma forma nos últimos 50 anos.”

“Nós somos um país que se constituiu em cima da desigualdade. Nós somos um país herdeiro de quatro séculos de escravidão. A desigualdade é uma marca do Brasil. Na medida em que essa desigualdade começa a ser atacada, de certa maneira, ela termina expressando certo desconforto. Porque há vários sinais de manifestação em relação a essa circunstância.” Marcio Pochmann

“Segundo o pesquisador Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade social no Brasil : 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5 mil famílias extensas. Estas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto, ganham dinheiro sem trabalho. Pouco ou nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.” Leonardo Boff, citando estudo de Marcio Pochmann e cols.

A concentração de poder midiático e a disputa popular

Por Rennan Martins | Vila Velha, 04/03/2015

A reabertura democrática brasileira foi conduzida, nas palavras dos militares, de forma “lenta, gradual e segura”. Esta versão dos fatos dão ideia de que, mesmo lentamente, as estruturas do autoritarismo acabaram dissolvidas pela Constituinte de 88. Infelizmente isso não condiz com a realidade e em pleno 2015 ainda convivemos com diversas instituições oligárquicas, que promovem interesses privados como se fossem públicos e constituem verdadeira trincheira da manutenção de privilégios e desigualdades injustificáveis.

Poderíamos falar do serviço da dívida pública, da polícia militar, mas abordaremos novamente o urgente problema da imprensa nacional. Pra entendermos a situação, é preciso contar a história do surgimento e consolidação deste oligopólio que aí está.

Após o golpe de 64 que destituiu o presidente trabalhista João Goulart, os militares se viram desafiados a consolidar o poder usurpado. Nada melhor e mais típico de regimes ditatoriais que o esmagamento de toda e qualquer voz dissonante, conjugado ao favorecimento dos capazes de promover propaganda do regime, visando convencer corações e mentes dos cidadãos.

E foi isso, precisamente, o que fizeram. Veículos populares como o histórico jornal Última Hora e a então líder de audiência Rede Excelsior de Televisão foram boicotados e perseguidos enquanto os colaboradores do golpismo tinham caminho repleto de facilidades para o crescimento.

Foi neste ínterim que o cartel da informação, hoje fortíssimo, se configurou. À época articulados em torno do famigerado Instituto de Pesquisas Sociais (IPES), impetraram verdadeira operação de engenharia social em torno da fabricação do consenso de que o Brasil precisava combater uma suposta “ameaça comunista”, disfarçando a realidade de que a ditadura serviu para sustar o projeto de desenvolvimento autônomo nacional encarnado em figuras como Getúlio Vargas e Jango.

Atualmente o Brasil convive com o fardo de uma imprensa concentrada nas mãos de algumas poucas famílias. Estas mesmas redes de comunicação aliam-se a certos políticos regionais de forma que o poder da palavra, a promoção de uma visão de mundo específica, é massiva e diuturnamente bombardeada, alienando a sociedade de seus reais obstáculos e desafios. O debate público é pautado ou interditado por essa mídia cartelizada que sonega fatos cruciais a população. Se ontem o IPES unificava a atuação dos magnatas, temos agora o Instituto Millenium, verdadeiro centro de manipulação da realidade.

O caso do escândalo de sonegação bilionária do HSBC, Swissleaks, é significativo nesse contexto. A escassa cobertura feita pela imprensa cartelizada se dá porque os desdobramentos e investigação do esquema de sonegação massiva e internacional pode incriminar os próprios donos dos veículos. Chegamos ao cúmulo inacreditável do jornalista Fernando Rodrigues, do Uol, monopolizar a lista dos mais de 8.000 brasileiros que possuíam conta na Suíça, liberando somente alguns nomes meticulosamente pinçados.

A Rede Globo parece a mais escaldada diante do vazamento desse esquema mundial de dilapidação e saque. Lembremos que a empresa é processada pela sonegação de mais de R$ 600 milhões por conta de manobra realizada em paraísos fiscais para fugir do pagamento dos impostos devidos na compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002. Será que a família Marinho está presente na lista do HSBC?

No tocante a Petrobras, é vergonhosa a campanha em andamento. A grande mídia retrata a mais importante estatal brasileira como agente e não vítima dos desvios praticados. Se aproveitam do desenrolar das investigações para convencer o público leigo de que não temos capacidade para explorar o pré-sal, que devemos entregá-lo aos estrangeiros. Quando da criação da empresa nos disseram que não tínhamos petróleo, quando dos estudos do pré-sal diziam que ele não existia, agora a tese é de que somos incapazes de administrá-lo. Os partidários do atraso estavam errados ontem, não reconhecem e fazem pior, continuam divulgando inverdades hoje, em prejuízo de toda a população.

O que os concentradores de poder político e econômico não contavam era com a possibilidade da virada, do enfrentamento. O avanço tecnológico nos trouxe a internet e a massificação da banda larga, e com ela surgiu uma nova mídia, livre de compromissos escusos, disposta a fazer o contraponto e disputar a hegemonia política na sociedade. O Blog dos Desenvolvimentistas se enquadra nessa proposta.

Somos uma associação que toca este projeto de jornalismo alternativo e independente com doações e contribuições livres dos interessados na construção de um país desenvolvido, justo e soberano. Passamos a admitir publicidade não invasiva para que consigamos complementar os rendimentos.

Na semana passada adicionamos no alto do canto direito do blog uma caixa de doações aos interessados. Pedimos a vocês que nos acompanham e acreditam na proposta, que se disponham a colaborar, basta clicar no box do pagseguro (ou aqui) e proceder conforme as instruções para se aliar a nós nessa batalha pelo aprofundamento da democracia e contra as oligarquias que atravancam e sabotam o desenvolvimento do país.

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Blogueira elitista e a “imagem da Globo”

Por Altamiro Borges | Via Blog do Miro

A “divertidíssima” jornalista Silvia Pilz, que utilizava seu blog para difundir preconceitos e esbanjar elitismo, não aguentou a saraivada de críticas e decidiu encerrar suas postagens no site do jornal O Globo. Não se sabe ao certo se ela “se suicidou” ou se foi “suicidada” pela direção global. No post intitulado “Me cago en la hostia”, ela se faz de vítima dos “politicamente corretos” e tenta explicar “o fim do blog Zona de Desconforto”, que estava hospedado no jornalão da famiglia Marinho. Garante, porém, que seguirá escrevendo as suas bobagens elitistas em sua própria página.

Segundo afirma, o objetivo do seu blog “era trazer ao jornal alguns assuntos que não são naturalmente abordados em jornais e discuti-los aberta e francamente. Dizer o que ninguém tem coragem de dizer. Fazer com que as pessoas reavaliassem hábitos e costumes. O blog foi concebido para tratar de hipocrisia, questionar valores e comportamento. A proposta funcionou enquanto o debate girava em torno de questões sexuais ou temas da família. Mas desandou quando resolvi abordar com a mesma franqueza temas que envolvem minorias, desvalidos e desfavorecidos”.

Ela mesma reconhece que seu patético artigo “O plano cobre” – no qual esbanja seu ódio de classe aos trabalhadores que usam planos de saúde – detonou a bronca dos internautas. “[Ele] desencadeou uma onda de reprovação inesperada. A situação tornou-se tragicômica e insustentável para a imagem do jornal O Globo”, afirma, deixando no ar se ela desistiu do blog ou se foi aconselhada pelos patrões a não escrever com “tanta franqueza” o que vários outros colunistas do império global também pensam, mas são mais hábeis e dissimulados no seu oficio de manipulação.

Posando de coitadinha, ela ainda reclama das críticas. “Depois desse post, que gerou um terremoto nas redes sociais, leitores revoltados foram buscar outros textos no acervo do blog. A onda de reprovação cresceu e tomou proporções insuportáveis quando começaram ofensas pessoais. Fui chamada de nazista e fascista por dizer – em um desses posts – que os adultos escondem o desconforto que sentem quando se deparam com crianças com síndrome de Down ou anões. Enfim, preconceitos velados e disfarçados, de um modo geral, não foram bem aceitos pelos leitores politicamente corretos. Zona de Desconforto deixa de ser publicado no Globo. Os textos, a partir de hoje, serão publicados aqui”.

Para que não acompanhou a risível história da “divertidíssima” blogueira de O Globo reproduzo abaixo um texto postado em 7 de fevereiro:

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Até Romário detona blogueira de O Globo

Por Altamiro Borges

A blogueira Silvia Pilz, que se acha “divertidíssima” com as suas postagens preconceituosas no jornal O Globo, está colecionando rapidamente uma legião de oponentes. Talvez até seja este seu intento narcisista e egocêntrico. Nesta quinta-feira (5), o senador Romário Faria (PSB-RJ), que desde os seus tempos de gramado sempre manteve boas relações com o império global, resolveu dar uma canelada na jornalista. Em sua página no Facebook, ele postou uma dura mensagem de repúdio às “tolices de uma pessoa com visão de mundo muito limitada”. O ex-craque da seleção brasileira, que é pai de uma menina de nove anos com Síndrome de Down, ficou irritado com um artigo escroto da blogueira contra os portadores da doença. “De cara, um anão assusta, assim como, de cara, crianças com Síndrome de Down também nos causam certo desconforto” – obrou Silvia Pilz.

Diante destes absurdos, que apenas reforçam estereótipos e visões preconceituosas, Romário bateu pesado: “Ela vive em um tempo que não lhe cabe mais… Já vivemos um tempo em que pessoas eram escravizadas pela cor da pele, por disputas territoriais ou guerras. Neste mesmo tempo, crianças nascidas com deficiência não tinham vez, eram abandonadas, doadas, escondidas. Anões (sim, eles continuam sendo chamados assim) eram expostos em feiras de bizarrices. E tudo isso era considerado normal. Este tempo passou”. O jogador chega a sugerir que Silvia Pilz dê um tempo no jornalismo para “reflexão”. Ele mandou a “divertidíssima” blogueira do jornal O Globo para o vestiário!

Jornalista tem nojo de pobres

Silvia Pilz conquistou certa fama – e que fama! – no início deste ano ao postar outro texto asqueroso, intitulado “O plano cobre”. Entre outras barbaridades, ela ironizou as pessoas de baixa renda com os seus problemas de saúde: “Todo pobre tem problema de pressão. Seja real ou imaginário. É uma coisa impressionante. E todos têm fascinação por aferir [verificar] a pressão constantemente. Pobre desmaia em velório, tem queda ou pico de pressão. Em churrascos, não. Atualmente, com as facilidades que os planos de saúde oferecem, fazer exames tornou-se um programa sofisticado. Hemograma completo, chapa do pulmão, ressonância magnética, etc.”. Ela ainda seguiu nas asneiras:

“Acontece que o pobre – normalmente – alega que se não tomar café da manhã tem queda de pressão. Como o hemograma completo exige jejum de 8 ou 12 horas, o pobre, sempre bem arrumado, chega bem cedo no laboratório, pega sua senha, já suando de emoção [uma mistura de medo e prazer, como se estivesse entrando pela primeira vez em um avião] e fica obcecado pelo lanchinho que o laboratório oferece gratuitamente depois da coleta. Deve ser o ambiente. Piso brilhante de porcelanato, ar condicionado, TV ligada na Globo, pessoas uniformizadas. O pobre provavelmente se sente em um cenário de novela”.

Egocêntrica e “divertidíssima”

O artigo – se é possível chamá-lo desta forma – gerou um vendaval de ataques nas redes sociais. Sobraram adjetivos carinhosos para a jornalista, que virou motivo de chacota. Diante das críticas, Silvia Pilz até ficou irritadinha numa entrevista à BBC britânica: “A reação foi ridícula. E hipócrita também, porque as pessoas são todas bem hipócritas. Fui vítima de um linchamento digital dos militantes da ditadura do politicamente correto. Não ofendi ninguém e fiz um texto divertidíssimo”, afirmou. Na sequência, percebendo que não convenceu ninguém, ela recuou e postou: “Humor cáustico perde a graça quando precisa ser explicado. Falhei. Poucos se divertiram e muitos se ofenderam”.

Seu recuo, porém, também não convenceu. Em artigo postado no Jornal do Brasil, o líder comunitário Davison Coutinho, morador da Rocinha (RJ), detonou a colunista “que não consegue aceitar que os menos favorecidos tenham acesso às ‘coisas de rico’, ou melhor, não consegue aceitar que pobre tenha acesso aos mesmos serviços e direitos que antes eram da elite… Se eu li um texto tão preconceituoso antes, eu não me lembro. Envergonho-me em ter em nossa sociedade pessoas (nem sei se podemos chamar de pessoas) que pensam de tal forma. O que me envergonha, ainda mais, é um jornal de repercussão publicar o texto… Lamento, Silvia, que você seja um ser que não consegue conviver com o outro enquanto humano, e é apenas um acaso informativo de má qualidade e que precisa de reconhecimento para poder aparecer na mídia”.

Outras “calunistas” pensam da mesma forma

Já o imperdível blog “Diário do Centro do Mundo” tentou entender melhor a mentalidade elitista da blogueira e reproduziu seu perfil, postado no próprio jornal O Globo: “Silvia Pilz não conhece meio termo. Dona do blog Zona de Desconforto, a jornalista é do tipo que não mede palavras antes de expressar o que pensa. Ela diz que sempre foi assim, desde criancinha, e que não saberia ser diferente. O assunto pode ser tanto masturbação feminina quanto uma festinha infantil. São grandes doses de sinceridade sobre a natureza humana. Silvia escreve sobre cotidiano de uma forma que faz pensar e, às vezes, pode até incomodar… ‘Prefiro parar carro em vaga de deficiente, sem me sentir culpada’ – dispara a ex-aluna do Colégio Teresiano”.

De fato, a jornalista Silvia Pilz, que “gosta de atenção”, conseguiu atrair os holofotes. Levou uma canelada até do ex-craque e atual senador Romário. O pior é que tem muito “calunista” do jornal O Globo e de outros veículos da mídia “privada” – nos dois sentidos da palavra – que pensam exatamente como ela! Só não têm coragem de falar estes absurdos em público. Preferem os restaurantes e as festas luxuosas dos ricaços. São mais experientes do que a dondoca mimada!

É como se a Argentina tivesse voltado para visão de 1960, diz Mujica sobre integração regional

Via Opera Mundi

“O que a Argentina fizer ou não fizer vai incidir no rumo que o Brasil toma”, afirmou presidente uruguaio, que está no fim do mandato.

Mujica diz que Argentina parece ter “retrocedido” para uma visão de 1960. Agência Efe

“A integração precisa uma liderança, e essa liderança se chama Brasil, mas a Argentina teria que acompanhar, e não acompanha nem um c…, pelo contrário, é como se a Argentina tivesse retrocedido para uma visão de 1960″, criticou duramente o presidente uruguaio.

A poucos dias de deixar o governo do país, Mujica analisou a situação atual do processo de integração regional encarnado em organismos como o Mercosul e a Unasul e considerou que existe “um grande desafio pela frente”.

O presidente do Uruguai também afirmou que os países mais integracionistas da região latino-americana são os “menores”, por “necessidade”.

Mujica questionou o papel que Argentina desempenha neste processo, ao afirmar que o país “se esquece da integração” porque “quando as coisas vão bem agarra para o outro lado”.

O chefe de Estado se referiu ao Brasil, Argentina e México como “os países determinantes da América Latina”, mas ressaltou que seus dirigentes “falam e assumem um discurso integracionista, mas do ponto de vista prático, estão intrometidos até as orelhas nas contradições do Estado nacional”.

“A Argentina termina sendo determinante em tudo. O que a Argentina fizer ou não fizer vai incidir no rumo que o Brasil toma”, considerou Mujica.

“Se não encontramos mecanismos que vão nos integrando, que possam nos dar uma presença internacional de peso, vamos continuar como folhas soltas no vento”, acrescentou.

Após cinco anos de governo, Mujica deixará o poder em 1º de março. Em seu lugar assumirá Tabaré Vázquez, que já presidiu o Uruguai entre 2005 e 2010 e venceu o segundo turno das eleições realizadas em 30 de novembro do ano passado.

Diálogos Desenvolvimentistas: O povo brasileiro e sua natureza

Operários, de Tarsila do Amaral (1933)

A questão do subdesenvolvimento brasileiro e a índole de nosso povo é o destaque deste debate de ricas análises e ideias. Os que desejam construir um país justo, soberano e desenvolvido muito se afeiçoarão as reflexões deste diálogo.

Confira:

Norton Seng – Onde estão nossos governantes?

Com uma dívida elevada e que não para de crescer, e com níveis insuportáveis de impunidade e corrupção, e desvios bilionários, também crescentes, entre tantos outros dados negativos e tão enraizados em nosso país, conclui-se que o Brasil jamais se reerguerá. A Alemanha, por exemplo, é o maior exportador de café solúvel do mundo e ganha bilhões de dólares com o nosso café ‘in natura’ – mesmo sem ter um pé de café. Assim, os alemães devem morrer de rir com a estultice dos que gerenciam o nosso país.

Tristemente, o mesmo acontece com a nossa madeira, exportada em toras; nosso couro, exportado cru; nossa soja, em grãos; nossas pedras preciosas e semipreciosas, ouro, mármore, cristal, minério de ferro, com o maior teor de pureza do mundo, todos ‘in natura’, nossas frutas, exportadas em xarope e processadas (envasadas) nos EUA e vendidas para o mercado europeu e asiático. A lista é imensa.

A pauta de exportações brasileiras, hoje, aponta o mesmo porcentual de mais de 70% de produtos primários, quer dizer, exportamos hoje o mesmo que exportávamos há 70 anos!

Parece claro que seríamos, se tivéssemos uma maioria de governantes sérios e nacionalistas, ao longo de nossa história, um dos países mais ricos do mundo. Mas esse deletério e anacrônico processo, pelos inegáveis registros e fatos, mostra que isso dificilmente acontecerá.

Nelson Antônio Prata – Isto é a prova de que o maior inimigo é o interno. Ele está encastelado no próprio governo, desde sempre.

Gustavo Santos – Se o maior inimigo é interno, somos sub-raça? O que querem dizer com isso? Vocês estão reproduzindo (de graça e alegremente) conteúdo feito por agências de inteligência estrangeiras para aviltar e humilhar o povo brasileiro e para jogar brasileiros contra brasileiros, acabando com nossa autoestima e capacidade de termos esperança e de acreditarmos em nós mesmos. Esta é uma velha tática dos impérios sanguinários para subjugar os povos mais pacíficos.

Prefiro mil vezes ser brasileiro do que ser um povo que apoiou alegremente vários holocaustos. Prefiro perder do lado do meu povo do que vencer do lado de povos poderosos mas capazes das maiores atrocidades por se acharem superiores ou mais humanos do que os outros, que possuem menos tecnologia ou capacidade militar.

É para isso que estamos nessa Terra? Subjugar ou ser subjugado? Não é assim que pensa o povo brasileiro.

O que há de mais profundo no povo simples do Brasil é a ausência do censo de superioridade que os povos do Velho Mundo tanto valorizam e tentam impor aos mais fracos. Se tem um lugar do Mundo que dá chances para um futuro realmente promissor para a humanidade, onde as pessoas sinceramente acreditam na igualdade entre as raças, os povos e as culturas é aqui.

O Brasil, desse povo alegremente mestiço pode mostrar realmente um futuro de paz para a humanidade, apesar de toda propaganda e sabotagem contrária.

Tecnologia, poder, capacidade organização e manipulação podem subjugar, podem causar admiração, mas não alimentam a alma, não trazem paz e alegria.

Nós podemos aprender com o Velho Mundo e Império do Norte, mas eles também precisam aprender muito conosco, para começar: tolerância sincera e depois a experiência de que é possível ser feliz sem ser superior e em especial sem ser materialmente superior.

É honroso ser brasileiro. Mesmo na derrota, mesmo sendo fraco.

Um dia venceremos pela tolerância, pela cordialidade, pela alegria e pela paz. Quando venceremos… quando vencermos não haverá perdedores, não haverá inferiores, apenas diferentes, humanamente diferentes.

Roberto D’Araújo – Estás a defender a velha ilusão do homem cordial? Sérgio Buarque já esmiuçou esse conceito em 1936. Desculpem os que pensam ao contrário, mas estamos cada vez mais primários em todos os sentidos: industrial, educacional, cultural, infraestrutura, transportes, saúde e, principalmente, em política. Nos últimos anos só temos assistido as velhas oligarquias retornando de mãos dadas com as falsas esquerdas. Para onde vai o país? Estamos repletos de bizarrices sob a ideologia de que esses caminhos são o jeitinho brasileiro que só nós entendemos. Tô fora!

Sem preconceito racial? Onde?

O que falta ao Brasil é exatamente uma boa dose de pessimismo do Velho Mundo, pois essa ode romântica ao otimismo, discurso afiado com essa pobre cultura “brasileira”, só traz problemas.

Para construir um país é preciso ideias e planejamento. Planejamento é justamente a área onde as visões devem lidar com eventos ruins. Sendo pessimista, viadutos e aviões não caem, reservatórios não se esvaziam, leitos de hospitais não se esgotam, orçamentos não estouram e muitas outras coisas adversas são evitadas.

A palavra tolerância é muito próxima da complacência, enfermidade arraigada na sociedade, brasileira imersa na falta de informação e enganada pelos falsos profetas.

Adriano Benayon – Penso que a posição defendida por Gustavo vai no sentido de compreender e apreciar o grande valor das virtudes humanas do povo brasileiro e que elas contribuem para formar bom ambiente no País, em todos os sentidos.

Há, porém, um porém. É que a grande abertura de muitos brasileiros às influências vindas do exterior – combinada com a devastação cultural e de valores em que o império anglo-americano vem investindo com intensidade, entre nós, há cerca de um século, e combinada ainda com as condições miseráveis para o grosso da população, decorrentes das políticas entreguistas, implantadas com radicalidade, desde 1954/1955 – acabaram fazendo, no mínimo, relativizar, se não prejudicar gravemente – esse ambiente favorável tanto à felicidade, como até a produção de condições de vida minimamente dignas.

Então, uma das coisas de que o povo brasileiro precisa conscientizar-se agora é que já apanhou de mais, devido talvez nem tanto a uma inata complacência, mas ao fato de vir sendo enganado e desinformado há tanto tempo.

E que, portanto, sem perder a bondade, tem que se endurecer para enfrentar o presente desafio, que coloca em risco até mesmo a preservação da unidade nacional e de suas condições de sobrevivência, tanto como Nação, como individualmente, para dezenas de milhões, assolados por doenças e pela perspectiva de morte muito prematura.

Sem falar na sobrevivência da dignidade de todos, pois, além dos traidores que já a perderam – se algum dia a tiveram – já que a continuidade do processo político e econômico dos últimos sessenta anos implica o aviltamento do País e a condição de cidadãos de quinta categoria dentro da ordem mundial governada pela oligarquia financeira estrangeira.

É óbvio também que o crescimento do crime organizado e do desorganizado já criaram condições próximas da convulsão social e que essa violência sem sentido, que não seja o do mal, vem comprometendo seriamente e talvez modificando a suposta boa índole do povo brasileiro, a qual, de resto, já não era tão generalizada assim, até mesmo nos bons tempos da Velha República e nos da Era Vargas que lhe seguiu. Já se praticavam então muitos crimes não só por ambição de propriedade, mas os de lavagem de suposta honra, até mesmo quando esta se julgava ofendida só por subjetivos “agravos”.

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Norton Seng é aposentado. Presidiu o Banco do Brasil em Pequim durante vários anos.

Gustavo Santos é doutor em economia e funcionário do BNDES.

Roberto D’Araújo é engenheiro e presidente do Instituto Ilumina.

Adriano Benayon é aposentado. Ex-diplomata e doutor em economia.

Lindberg sugere que efeito Orloff pode tornar Dilma a Cristina de amanhã

Por Renato Rovai | Via Revista Fórum

Nos anos 80 uma propaganda de vodca fez muito sucesso com o slogan: “eu sou você amanhã”. À época a expressão se tornou sinônimo de um efeito político nas relações entre Brasil e Argentina. O que iria acontecer com o Brasil, se tornava realidade primeiro na Argentina. Desde a democratização, passando por inúmeros planos econômicos e pela política de privatizações que lá foi conduzida primeiro por Menen e que aqui só se viabilizou com a posse de FHC, porque Collor não deu conta do recado, a Argentina por muito tempo antecipou o Brasil.

E nesses casos, isso sempre tinha por trás a mão grande dos interesses americanos. Hoje, o senador Lindberg (PT-RJ) traz luz novamente a essa questão ao comentar a passeata com nome bem marqueteiro, “Marcha do silêncio”, que reuniu de 100 mil a 400 mil pessoas a depender da fonte informativa, em Buenos Aires, na tarde de ontem.

Lindberg avalia que o momento político vivido por lá é de radicalização total e, no texto que segue abaixo, prevê que isso pode também vir a acontecer no Brasil. Seu alerta merece ser tratado com a responsabilidade política que o momento exige.

Passei o Carnaval com minha esposa e nossas duas pequeninas em Buenos Aires. Acabei acompanhando mais de perto a cena política. Aqui, o clima é de profunda radicalização política. A morte do promotor Nisman incendiou o país. Os conservadores e a direita argentina estão se aproveitando da crise e lançaram uma grande ofensiva para desestabilizar o governo. Quis ver de perto. Estou agora na Plaza De Mayo debaixo de muita chuva. Não tem menos de cem mil pessoas. É a marcha do silêncio convocada por promotores argentinos e apoiada pelo grupo Clarin e por todas as agremiações conservadoras e de direita do país. É o mesmo clima que querem criar em toda América Latina. Movimentos golpistas, de desestabilização democrática. Querem varrer os governos populares na América Latina. Com certeza, essa marcha vai animar o discurso golpista já encampado pelo PSDB, que teima em não reconhecer a derrota nas urnas. Temos que organizar as forças populares no Brasil para resistir a essa ofensiva. Precisamos de unidade nos movimentos sociais. Para isso, é fundamental corrigirmos rumos do nosso governo. Temos que fazer com que os mais ricos paguem a conta pelo reequilíbrio fiscal, porque é o justo a se fazer. Isso nos coloca um discurso de ofensiva e de demarcação de campo. Nós surgimos para defender o povo mais pobre, os trabalhadores do Brasil. E isso fizemos nesses 12 anos. Amanhã, escreverei com mais detalhes sobre a situação argentina. A marcha está no fim e quero ver o discurso de encerramento.

O carnaval de rua e a economia de mercado

Por Pedro Rossi | Via Brasil Debate

O carnaval de rua é o espaço da não-mercadoria e da diluição das relações de mercado. É a festa da transgressão, não somente dos costumes morais, mas também da nossa sociabilidade cotidiana.

Em sua essência, o carnaval de rua brasileiro é uma festa que contrasta com a lógica capitalista de organização social. A ocupação dos espaços públicos, a mitigação de hierarquias, as iniciativas coletivas que organizam os blocos e as interações despretensiosas entre os foliões divergem da lógica do privado, dos empreendimentos individuais, da finalidade do lucro e das relações sociais mediadas pelo interesse próprio. O carnaval é a festa da transgressão, não somente dos costumes morais, mas também da nossa sociabilidade cotidiana.

Já dizia Marx que o capitalismo difunde um tipo de sociabilidade mediada pelo dinheiro, pelas relações de produção e pela troca de mercadorias. Todos os dias fazemos uso de produtos que são resultado do trabalho de outros e interagimos socialmente motivados pelas relações de troca de mercadorias, desde a compra na farmácia, do pedido ao garçom até a conversa com o chefe.

A legitimação do mercado como instância organizadora da sociedade tem, por um lado, o poder de aumentar a capacidade de produção e de disponibilizar a parte da população os benefícios dos avanços tecnológicos. Mas, por outro lado, difunde uma lógica de sociabilidade que passa pela valorização do indivíduo em detrimento do coletivo, do egoísmo em detrimento da solidariedade e dos interesses privados em detrimento dos interesses públicos.

Já o carnaval de rua é o espaço da não-mercadoria e da diluição das relações de mercado. Nele, o incentivo do folião difere do incentivo do indivíduo racional dos livros de microeconomia. A motivação carnavalesca é a busca por um tipo específico de libertação das emoções reprimidas pelo cotidiano, que passa pela mimetização coletiva de um comportamento expansivo que – diriam alguns economistas – configura um comportamento de manada. No carnaval de rua, a festa é a construção coletiva que cria um ambiente de frenesi social em que todos têm direito a uma alegria fugaz, como cantou Chico Buarque.

As pessoas se reúnem fora de suas posições sociais e substituem seus uniformes e roupas de marcas por fantasias que são capazes de inverter as relações tradicionais de hierarquia, de poder e de status social e de aplicar uma maquiagem sobre as desigualdades sociais, como já observou o antropólogo Roberto DaMatta.

Só no carnaval a moça pobre vira rainha e o menino rico ostenta uma vassoura de lixeiro. E a interação entre a rainha e o lixeiro é geralmente motivada por interesses transitórios, desapegados dos códigos sociais de conduta. Na folia, o indivíduo perde suas referências de identidade e se mistura com a multidão para viver um momento de alegria e irracionalidade coletiva.

Evidentemente, a sina do capitalismo de penetrar nas várias esferas da sociedade e de transformar tudo em mercadoria se apodera de parte do carnaval que vira negócio, atende aos interesses de patrocinadores, seleciona e elitiza o público pela venda de abadás, pelas festas nos clubes, etc. Contudo, ainda persiste nas ruas das cidades brasileiras, o carnaval genuíno e espontâneo que constitui um espaço de resistência ao movimento de mercantilização das esferas sociais promovido incessantemente pela economia de mercado. Brincar o carnaval na rua é vivenciar outro espaço de sociabilidade que, apesar de efêmero, consegue dar uma injeção de ânimo no povo brasileiro. Bom carnaval a todos!

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Pedro Rossi é professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp e membro da Rede Desenvolvimentista.