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1967: A CIA cunhou a expressão “teóricos da conspiração”

Via Pravda

1967: a CIA cunhou a expressão “teóricos da conspiração”, como ferramenta para atacar quem desmentisse narrativas ‘oficiais’. Antes, os teóricos da conspiração eram gente como a gente.

A democracia e o capitalismo de livre mercado nasceram sobre a base de teorias de conspiração.

A Magna Carta, a Constituição e a Declaração de Independência e outros documentos ocidentais fundacionais nasceram de teorias conspiracionais. A democracia grega e o capitalismo de livre mercado, idem.

Mas, isso, só naqueles velhos maus tempos. Depois, tudo mudou.

Em 1967, a CIA cunhou a expressão ‘teóricos da conspiração’

Nos anos 1960, tudo mudou.

Exatamente em abril de 1967, a CIA redigiu um despacho, no qual cunhou a expressão “teorias da conspiração” (…) e recomendou práticas para desacreditar tais teorias. O despacho/memorando levava um carimbo, “psico”, fórmula abreviada para “operações psicológicas” ou “ação de desinformação”; e outro carimbo, “CS”, sigla da unidade de “Clandestine Services” da CIA.

O despacho da CIA foi redigido em resposta ao requerimento de informações feito a uma corte judicial, nos termos do Freedom of Information Act ["Lei da Liberdade de Informar"], pelo jornal New York Times, em 1976.

A CIA, naquele documento diz que:
2. Essa tendência é motivo de preocupação para o governo dos EUA, inclusive para nossa organização.

***

O objetivo desse despacho é oferecer material que contradiga e desacredite os argumentos dos teóricos da conspiração, e também inibir a circulação dessas opiniões em outros países. Aqui se oferece informação de fundo, apresentada em seção sigilosa, e vários anexos não sigilosos.

3. Ação. Não recomendamos que a questão [conspirações] seja iniciada onde já não esteja implantada. Onde a discussão já esteja ativada são indispensáveis algumas medidas:

a. Discutir publicamente o problema com contatos amigáveis na elite (especialmente políticos e editores de imprensa), mostrando que [a investigação oficial do evento em discussão] foi investigação tão exaustiva quanto humanamente possível; que as acusações dos críticos não têm qualquer fundamento; e que mais discussões sobre o tema só favorecem a oposição. Deve-se também destacar as partes das conversas sobre alguma conspiração que mais pareçam deliberadamente geradas por propagandistas.

Conclamar aquelas elites para que usem a influência que têm e desencorajem qualquer especulação sem fundamento e irresponsável.

b. Usar todos os recursos de propaganda acessíveis para refutar os ataques vindos dos críticos. Colunas assinadas por especialistas amigáveis e resenhas de livros são especialmente adequadas para esse objetivo. Os anexos desse documento de orientação contêm material útil para ser passado aos agentes.

Nosso discurso deve destacar, sempre que couber, que os críticos (I) já diziam a mesma coisa antes de haver qualquer indício ou prova; que (II) têm interesses políticos; que (III) têm interesses financeiros; que (IV) dizem qualquer coisa, sem qualquer pesquisa ou investigação que o comprove; ou que (V) só dão atenção a teorias que eles mesmos inventem.

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4. Em contatos privados com a mídia, não dirigidos diretamente a qualquer jornalista, colunista ou editor ou escritor em particular, ou para atacar publicações que ainda não estejam nas ruas, os seguintes argumentos podem ser úteis:

a. Não surgiu nenhuma nova prova, que a Comissão de investigação não tenha considerado.

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b. Regra geral, os críticos sobrevalorizam itens específicos e ignoram outros. Tendem a dar mais ênfase às lembranças de testemunhas individuais (sempre menos confiáveis e mais divergentes – e, portanto, mais vulneráveis a críticas) (…)

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c. Seria impossível ocultar as grandes conspirações seguidamente sugeridas nos EUA, especialmente porque os informantes poderiam ganhar muito dinheiro se denunciassem as conspirações, etc.

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d. Os críticos sempre são tomados por alguma espécie de vaidade intelectual: falam de uma teoria e apaixonam-se por ela para sempre; e criticam os investigadores porque nem sempre respondem com prova cabal e decisão absoluta numa direção ou noutra.

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f. Quanto a acusações de que os relatórios da comissão de investigação seria serviço apressado, sem cuidado: só foi distribuído três meses depois do prazo marcado inicialmente. Mas a Comissão muito se esforçou para apressar a divulgação do relatório; o atraso explica-se pela pressão de especulação irresponsável que já surgia antes até do relatório ser conhecido, em alguns casos vinda dos mesmos críticos que, se recusando a admitir os próprios erros, aparecem agora com novas críticas.

g. Acusações vagas como “mais de dez pessoas morreram misteriosamente” sempre podem ser explicadas por via natural(…).

5. Sempre que possível, reagir contra a especulação forçando a referência ao próprio relatório da Comissão. Leitores estrangeiros de mentalidade aberta sempre podem ser impressionados pelo cuidado, atenção, objetividade e velocidade do trabalho da Comissão de Investigação. Especialistas em resenhar livros para a imprensa, devem ser encorajados a acrescentar, ao que digam sobre [seja o que for], a ideia de que, recorrendo sucessivas vezes ao texto do relatório da comissão de investigação, perceberam que o relatório foi trabalho muito mais bem feito que o trabalho dos que o criticam.

Aqui se veem fotos de parte do memorando da CIA.
Resumo das táticas que o despacho/memorando da CIA recomendava, contra os ‘teóricos da conspiração’:

- Diga sempre que seria impossível que tanta gente mantivesse segredo sobre alguma grande conspiração

- Consiga que pessoal amigável ataque as ideias de conspiração, e insistam na ideia de repetir sempre o relatório da comissão de investigação

- Diga sempre que testemunho ocular não é confiável

- Diga sempre que são notícias velhas [porque] “não surgiu nenhuma nova prova”

- Ignore completamente o que se diga sobre conspirações, exceto se a discussão já estiver ativa demais

- Diga sempre que especular é comportamento irresponsável

- Acuse os teóricos da conspiração de serem vaidosos de suas próprias ideias e de não serem capazes de superá-las

- Acuse os teóricos da conspiração de terem motivação política

- Acuse os teóricos da conspiração de terem interesses financeiros na promoção de teorias de conspirações.
Em outras palavras, a unidade de serviços clandestinos da CIA criou argumentos para atacar o que chamou de ‘teorias de conspirações’ e ‘declará-las’ não confiáveis, nos anos 1960s, como parte de suas operações de guerra psicológica.

Mas teorias da conspiração são de fato… total piração?

[...] Evidentemente não. Por exemplo, o esquema Ponzi de Bernie Madoff foi um crime de conspiração, movido por uma teoria daquela específica conspiração.

Conspirar é crime muito claramente tipificado na lei norte-americana, ensinado no primeiro ano de qualquer faculdade de Direito como item do currículo básico. Dizer a um juiz que alguém está envolvido numa “teoria de conspiração” é como dizer em juízo que o sujeito matou, roubou, invadiu propriedade alheia, roubou um carro. É conceito legal claro e conhecido.

Madoff não é o único. Diretores da Enron foram também condenados por crime de conspiração, e também do diretor de Adelphia [há muitos e muitos casos de funcionários do estado também condenados pelo mesmo crime.

Justin Fox, colunista de finanças da Time Magazine escreve:

Algumas conspirações no mercado financeiro são reais (…) Muitos bons repórteres investigativos são teóricos de conspirações, por falar nisso.

E também são criminosos, pela prática do crime de conspiração – desde que os crimes sejam denunciados e provados e os réus sejam condenados – a Agência de Segurança Nacional e as empresas de tecnologias que ajudem na prática do crime (se algum dia forem condenadas).

Mas “nossos líderes NUNCA fariam tal coisa…”

Embora já haja quem admite que empresários e funcionários de baixo escalão possam envolver-se em conspirações – ainda há muita gente que resiste à ideia de que os mais ricos e os muito poderosos também podem ter praticado o crime de conspirar.

Verdade é que até os mais poderosos conspiram; alguns até confessaram. Por exemplo, o administrador do Gabinete de Informações e Assuntos de Regulação do governo Obama, Cass Sunstein, escreveu:

Claro que algumas teorias conspiracionais, conforme nossa definição, comprovaram-se verdadeiras. O quarto do hotel Watergate usado pelo Comitê Nacional do Partido Democrata foi realmente invadido e teve instalados equimentos para escuta clandestina, por funcionários do Partido Republicano a mando da Casa Branca. Nos anos 1950s, a CIA realmente administrou LSD e outros alucinógenos a participantes do Projeto MKULTRA, para investigar possibilidades de “controle da mente”. A Operação Northwoods, muito discutido plano do Departamento de Defesa para simular atos de terrorismo e culpar a Cuba, foi realmente proposto, como conspiração, por funcionários de alto escalão do governo.

Mas “alguém teria dado coa língua nos dentes”…

Argumento sempre repetido por quem queira desviar a atenção de uma investigação, ‘diagnosticando’ alguma ‘conspiração’ no ar é que “alguém teria dado com a língua nos dentes”, caso houvesse ali realmente alguma conspiração.

Quem explica é o conhecido demolidor de metiras e whistleblower Daniel Ellsberg:

Ouve-se muito que “não se consegue guardar segredos em Washington” ou que “numa democracia, não importa o quanto o segredo seja sensível, é provável que, dia seguinte, seja publicado no New York Times.” Não há tolice maior, nem truísmo mais falso. Há, sim, estórias ocultadas, meios para enganar e desviar a atenção de jornalistas e leitores, que são parte do processo para encobrir o que é realmente secreto. Claro que eventualmente muitos segredos acabam por ser revelados, que talvez não fossem jamais revelados numa sociedade absolutamente totalitária. Mas a verdade é que a vastíssima maioria dos segredos jamais chegam ao conhecimento da opinão pública norte-americana. É verdade mesmo quando a informação ocultada é bem conhecida de algum inimigo e quando é claramente essencial para a operação do poder de guerra do Congresso e para algum controle democrático sobre a política externa.

A realidade desconhecida do público e de muitos membros eleitos do Congresso e da imprensa é que segredos da mais alta importância para muitos deles podem, sim, permanecer confortavelmente ocultados por autoridades do Executivo durante décadas, mesmo que sejam bem conhedicos por milhares de insiders.

A história prova que Ellsberg tem razão. Por exemplo:

- 130 mil pessoas, de EUA, Grã-Bretanha e Canadá trabalharam no Projeto Manhattan. O segredo foi mantido durante anos.

- Documentário da BBC mostra que:

Houve uma tentativa de golpe nos EUA em 1933, organizado por um grupo de empresários norte-americanos de extrema direita (…) O golpe pretendia derrubar o presidente Franklin D Roosevelt, com o auxílio de meio milhão de veteranos de guerra. Os golpistas, entre os quais estavam algumas das mais famosas famílias norte-americanas (proprietários de Heinz, Birds Eye, Goodtea, Maxwell Hse & George Bush [avô], Prescott) acreditavam que o país devesse adotar políticas de Hitler e Mussolini para superar a grande depressão.”

Mais que isso, “os magnatas disseram ao general Butler que o povo norte-americano aceitaria o novo governo, porque aquelas famílias controlavam todos os jornais”. Alguém ouvira falar, antes, dessa conspiração? Com certeza foi conspiração vastíssima. E, se os golpistas controlavam a imprensa-empresa naquele momento, muito mais controlam hoje, com as empresas-imprensas já ‘consolidadas’.

- sete 7 de oito bancos gigantes quebraram nos anos 1980, durante a “Crise latino-americana”, e a resposta do governo foi ocultar a insolvência. A ocultação-falcatrua durou várias décadas

- bancos foram envolvidos em comportamento criminoso sistemático e manipularam todos os mercados

- há 50 anos governos encobrem derretimento de núcleo radiativo de usinas nucleares, para proteger a indústria nuclear. Governos sempre operaram para encobrir a gravidade de inúmeros outros eventos com comprometimento do meio ambiente. Durante muitos anos os funcionários do Texas intencionalmente informaram índices diminuídos de radiação na água potável, para evitar ter de notificar violações das normas.

- A vigilância ilegal do governo dos EUA sobre os cidadãos começou sete meses antes do 11/9 (confirmado here e here. E vejam essa discussãogravada há mais de 30 anos.) Mas o público só soube sobre isso muitos anos depois. Na verdade, o New York Times adiou a publicação, de modo que não afetasse o resultado da eleição presidencial de 2004.

- A decisão de iniciar a guerra do Iraque foi tomada antes do 11/9. De fato, o ex-diretor da CIA George Tenet disse que a Casa Branca queria invadir o Iraque desde muito antes do 11/9, e inseriu “lixo” em suas justificativas para invadir o Iraque. O ex-secretário do Tesouro Paul O’Neill – membro do Conselho de Segurança Nacional – também diz que Bush planejou a guerra do Iraque antes do 11/9. E altos funcionários britânicos dizem que os EUA discutiram mudança de regime no Iraque um mês antes de Bush ser empossado. Dick Cheney ao que parece até converteu os campos de petróleo iraquianos em prioridade nacional dos EUA antes do 11/9.

E há muito tempo se sabe que um punhado de pessoas foi responsável por deliberadamente ignorar as muitas evidências de que não havia armas de destruição em massa no Iraque. São fatos que só recentemente foram abertos para conhecimento público. De fato, Tom Brokaw até explicou que “todas as guerras são baseadas em propaganda”.

E esforço organizado para gerar propaganda é uma conspiração – e é crime nos EUA.
(…) A admissão sempre ocorre várias décadas depois dos eventos. O que mostra que, sim, é possível manter conspirações em segredo por muito tempo, sem que alguém “dê coa língua nos dentes”.

(…) Além do mais, os que supõem que conspiradores dariam com a língua nos dentes esquecem que pessoal militar ou de inteligência – e quem tenha quantias gigantescas de dinheiro investido numa ‘operação’ secreta – tende a ser muitíssimo disciplinado. Dificilmente se embebedam num balcão de bar e põem-se a contar ‘vantagem’ do que fazem e de quem conhecem…

Por fim, pessoas que se envolvem em operações clandestinas podem fazê-lo por profunda convicção ideológica. Jamais subestime a convicção de um ideólogo!

Conclusão

A conclusão disso tudo é que há conspirações inventadas, mas há conspirações reais. Umas e outras têm de ser avaliadas pelos fatos que lhes dão forma. (…)

Quem opera longe dos contrapesos e controles democráticos – e sem a força desinfetante da luz do sol da supervisão democrática – tende a pensar mais nos próprios interesses; e os mais fracos são os mais prejudicados. (…) Gente de poder podem não ser más pessoas. Mas podem ser sociopatas, bandidos, doidos perversos.

Na dúvida, se alguém tentar dissuadi-lo de investigar, e acusá-lo de ter sucumbido a alguma ‘ridícula teoria da conspiração’ – expressão que a CIAinventou para afastar bons cidadãos de boas investigações – não pare, não veja, não ouça (a CIA) e… investigue mais e mais.

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Original em inglês disponível em: http://www.zerohedge.com/news/2015-02-23/1967-he-cia-created-phrase-conspiracy-theorists-and-ways-attack-anyone-who-challenge

Decisão histórica: STF reconhece direito de adoção por casal homossexual

Via Revista Fórum

O Ministério Público do Paraná havia entrado com recurso contra um casal de homens que tinha adotado uma criança. Órgão federal, no entanto, entendeu que a adoção não altera o conceito de família e que pode ser praticada por pessoas do mesmo sexo: “A Constituição Federal não faz a menor diferenciação entre casais heterossexuais e homoafetivos”, disse ministra.

Enquanto na Câmara dos Deputados os parlamentares seguem com perspectivas de aprovar o conservador Estatuto da Família, que exclui qualquer possibilidade de se reconhecer um núcleo familiar que não seja composto por um homem e uma mulher, o Supremo Tribunal Federal dá um importante passo no reconhecimento dos direitos da população LGBT.

Nesta quinta-feira (19), a Corte, em decisão inédita, reconheceu o direito de um casal composto por dois homens de adotar um filho. A iniciativa foi da ministra Carmen Lúcia e se refere ao casal mineiro Toni Reis e David Harrad, que haviam adotado uma criança em 2005, mas estavam na iminência de perder a guarda, já que o Ministério Público Estadual do Paraná entrou com recurso extraordinário contra a adoção.

Confira a íntegra da decisão do Supremo:

“A Constituição Federal não faz a menor diferenciação entre a família formalmente constituída e aquela existente ao rés dos fatos. Como também não distingue entre a família que se forma por sujeitos heteroafetivos e a que se constitui por pessoas de inclinação homoafetiva. Por isso que, sem nenhuma ginástica mental ou alquimia interpretativa, dá para compreender que a nossa Magna Carta não emprestou ao substantivo “família” nenhum significado ortodoxo ou da própria técnica jurídica. Recolheu-o com o sentido coloquial praticamente aberto que sempre portou como realidade do mundo do ser. Assim como dá para inferir que, quanto maior o número dos espaços doméstica e autonomamente estruturados, maior a possibilidade de efetiva colaboração entre esses núcleos familiares, o Estado e a sociedade, na perspectiva do cumprimento de conjugados deveres que são funções essenciais à plenificação da cidadania, da dignidade da pessoa humana e dos valores sociais do trabalho. Isso numa projeção exógena ou extramuros domésticos, porque, endogenamente ou interna corporis, os beneficiários imediatos dessa multiplicação de unidades familiares são os seus originários formadores, parentes e agregados. Incluído nestas duas últimas categorias dos parentes e agregados o contingente das crianças, dos adolescentes e dos idosos. Também eles, crianças, adolescentes e idosos, tanto mais protegidos quanto partícipes dessa vida em comunhão que é, por natureza, a família. Sabido que lugar de crianças e adolescentes não é propriamente o orfanato, menos ainda a rua, a sarjeta, ou os guetos da prostituição infantil e do consumo de entorpecentes e drogas afins. Tanto quanto o espaço de vida ideal para os idosos não são os albergues ou asilos públicos, muito menos o relento ou os bancos de jardim em que levas e levas de seres humanos abandonados despejam suas últimas sobras de gente. Mas o comunitário ambiente da própria família. Tudo conforme os expressos dizeres dos artigos 227 e 229 da Constituição, este último alusivo às pessoas idosas, e, aquele, pertinente às crianças e aos adolescentes.

Assim interpretando por forma não-reducionista o conceito de família, penso que este STF fará o que lhe compete: manter a Constituição na posse do seu fundamental atributo da coerência, pois o conceito contrário implicaria forçar o nosso Magno Texto a incorrer, ele mesmo, em discurso indisfarçavelmente preconceituoso ou homofóbico. Quando o certo – data vênia de opinião divergente – é extrair do sistema de comandos da Constituição os encadeados juízos que precedentemente verbalizamos, agora arrematados com a proposição de que a isonomia entre casais heteroafetivos e pares homoafetivos somente ganha plenitude de sentido se desembocar no igual direito subjetivo à formação de uma autonomizada família. Entendida esta, no âmbito das duas tipologias de sujeitos jurídicos, como um núcleo doméstico independente de qualquer outro e constituído, em regra, com as mesmas notas factuais da visibilidade, continuidade e durabilidade.”

Mário de Andrade: Ode ao burguês

Por Mário de Andrade

Armínio Fraga, exemplar fiel do homenageado.

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará sol? Choverá? Arlequinal!
Mas as chuvas dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiuguiri!

Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
_ Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
_ Um colar… _ Conto e quinhentos!!!

_ Más nós morremos de fome!

Come! Come-te a ti mesmo, oh! Gelatina pasma!
Oh! Purée de batatas morais!
Oh! Cabelos na ventas! Oh! Carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte á infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódios aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

***

Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945) foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro. Andrade foi a figura central do movimento de vanguarda de São Paulo por vinte anos. Músico treinado e mais conhecido como poeta e romancista, Andrade esteve pessoalmente envolvido em praticamente todas as disciplinas que estiveram relacionadas com o modernismo em São Paulo, tornando-se o polímata nacional do Brasil.

Diálogos Desenvolvimentistas: O panelaço, suas causas e efeitos (II)

Brasil de Fato

Semana passada o panelaço que ocorreu durante o pronunciamento da presidente gerou uma boa discussão disponível aqui. Ela prosseguiu enriquecedora e por isso fizemos mais este post.

Tania Faillace – Acho que o pessoal ainda não entendeu que não há um governo unificado com uma diretriz (boa ou má) integrada. A coalizão feita e acertada ainda no início dos 2000 não buscou a convergência ideológica ou política, mas juntar votos.

Desse erro básico, fundamental, decorrem todos os outros, inclusive as contradições. E o único remédio para isso, seria proibir definitiva e taxativamente as coalizões a qualquer nível.

A comunicação nem sempre resolve, a menos que ela tenha características de transparência. No mais das vezes, a comunicação do Executivo é uma comunicação de propaganda ou autojustificativas.

Falta TRANSPARÊNCIA e INTERAÇÃO.

Quanto aos think thanks vocês pensam nos norte-americanos. Graças a Deus não temos nada parecido por aqui. Os think thanks são máquinas de manipulação das mentes para fins específicos. Até para aprovar guerras e barbarismos, como todo a campanha desenvolvida a partir das Torres Gêmeas para suspender os direitos civis dos cidadãos, e a tortura rotineira das pessoas.

Nada de think thanks, porque nem os intelectuais (e eu sou uma) nem os cientistas são à prova de corrupção e mau caratismo. A comunicação necessária é bem simples: relatar fielmente as reuniões do governo, quem disse isso e quem disse aquilo, e o que foi votado. Sabendo disso, o cidadão saberá se não estão usando erradamente os impostos, ou quem e porquê está trancando decisões que lhe pareçam importante.

Sem think thanks. Atas simplificadas, cortando o palavreado que sabemos dos discursos de tribuna. Assim: ministro X pede verbas para controle da Aids em tal região, onde há tantos infectados, representando tantos por cento da população… ministro tal propõe uma superponte e uma superestrada para a Festa do Pepino.

São exemplos cômicos até. O objetivo foi mostrar como deve ser a informação útil para a população – se ela se preparar para fiscalizar devidamente o governo que elegeu. Com o tempo saberá se a super-ponte é necessária, ou se trata de um conchavão com empreiteiros, e se as informações sobre o avanço da Aids em tal região são verdadeiras ou se destinam a favorecer a compras de um determinado laboratório, quando, na verdade o problema maior da região é a falta de saneamento básico. E assim por diante.

Sem think thanks. A educação político-ideológica de um povo não cabe a um governo mas às instâncias de organização popular; sindicatos, partidos, associações, e até igrejas.

Não precisamos de sofisticação. Precisamos de FRANQUEZA e TRANSPARÊNCIA. e possibilidade de diálogo com o poder público em todos os níveis. Só assim iremos construindo uma democracia substantiva e não apenas representativa.

André Luís – O que você falou tem várias causas que está ligado a reforma política, na verdade desde a redemocratização do país na década de 80, passando pela constituição não conseguimos montar um modelo político que escape desta teia de aranha.

Quando o PT ganhou a eleição em 2002 (pode escrever PSDB em 1994, Collor em 1990 e até Sarney), foi necessário para governar ter um apoio do congresso para suas propostas (para bem ou para mal do país) e é isso que causa todas estas crises os quais nenhum governo conseguiu sair (talvez o que tenha se saído melhor foi o de Itamar Franco, mas por questões da conjuntura daquela época).

Temos também problemas estruturais e históricos pelo modo como foi formado o país (partidos fracos, falta de comunicação entre eleito e eleitores, sistema político viciado etc.), vários governos tentaram ultrapassar esses obstáculos e os que conseguiram melhor foram os que mais avançaram o país.

Houve desde a república diversas tentativas de se montar um sistema político no país e todos fracassaram redondamente, já tentaram não ter partidos nacionais, não ter partido nenhum, ter partidos contra e a favor, ter bipartidarismo estilo anglosaxão e multipartidarismo. Todos os sistemas partidários faliram. Temos que pensar o estrutural e não o conjuntural.

Por isso defendo o voto distrital com parlamentarismo.

Tania Faillace – Eu não tenho opinião firmada sobre o modelo institucional mais adequado, mas observei que nossa história tem seguido ciclos. Ora seu rumo é em direção à soberania; ora é de volta à dependência quase colonial.

Em 1961, houve o movimento para impedir a posse do vice Jango, que era um trabalhista notório, quando houve o episódio da Legalidade, etc.

Jango tinha menos dotes políticos e de estadista que Brizola. No governo aceitava idéias generosas – algumas mirabolantes – mas não tinha condições executivas nem de articulação. Era uma boa pessoa, com boas intenções. Certamente Brizola, em seu lugar, teria alcançado algum resultado.

De todo o jeito, as idéias generosas mas fantasiosas que eram anunciadas todos os dias, mas não executadas, serviram de pretexto para armar a direita e desencadear o golpe, que foi arquitetado pelos gringos – como já tinha acontecido em 1954.

A direita veio com uma fachada conservadora (nada de coxinhas, nem liberação sexual, como agora), mas o objetivo final era o desmonte de nossas estruturas estatais e econômicas.

Apenas que os militares, na época, estavam interessados em perseguir os socialistas, os comunistas, os obreiristas, os trabalhadores, mas não tinham intenção de se submeter aos apetites dos gringos. Em sua gestão, as estatais brasileiras atingiram um desenvolvimento extraordinário, e a dependência estabeleceu-se em termos do endividamento para o “Brasil Grande”, mas não em termos de entrega de patrimônio e recursos naturais aos gringos, com exceção daquelas primeiras fazendas na Amazônia, muitas delas griladas com violência pelos terratenentes de várias origens.

Assim que os gringos perderam a paciência e resolver mudar o jogo. Apoiaram a democratização, desde que sem eleição direta, para escolherem o candidato. Os militares aceitaram, porque não tinham opção, não eram populares e certamente não enfrentariam o Tio Sam. O objetivo era implantar o neoliberalismo entreguista de uma vez por todas. Sarney, Collor, FHC, a estrela máxima.

Porque os governos da frente popular não mudaram o roteiro, o script? Porque só tinham o cabeça de proa, não tinham o timão, o governo em si, cuja maioria não queria mudança alguma. Não foi só o congresso que resistiu a mudanças expressivas, que fossem além do assistencialismo, os partidos da coalizão não eram do campo popular, e estavam na coalizão exatamente para impedir que ele se tornasse instrumento popular.

Mais, os partidos da coalizão tinham (e têm) feudos definidos, ministérios definidos onde pintam-e-bordam, fora do alcance do titular do Executivo.

Como é que isso aconteceu?

Resta descobrir.

Atualmente, o próprio PT não tem influência alguma sobre a coalizão. E a nomeação de Levy, Wagner e Ana Amélia, são até cômicas, sem relação alguma com o que se chamaria governo popular. Isto é, a força popular ofereceu apenas a porta-bandeira, mas as demais alas estão sob controle absoluto das outras forças, estas não-populares.

Essa é a caixa preta: que ocorreu para que os partidos que eram de oposição abrissem mão de seus projetos concorrendo e legitimando o processo neoliberal que já corria? A birra contra a Dilma é por conta de algumas rebeldias dela aqui e ali. Inclusive sua determinação de investigar os crimes cometidos contra a área pública.

Querem vê-la morta. O bullying midiático objetiva obrigá-la a deixar de investigar e livrar a cara dos garotos. E nós, o povo, não sabemos o que está acontecendo lá, dentro do Palácio, e quais são as condições que emudecem a presidente, que a impedem de imitar a Cristina argentina, que já levou pancada na cabeça, e mil grilos de saúde (provocados) , mas que, com suas denúncias, conseguiu aglutinar o povo em torno de si (menos os sionistas, seus grandes opositores, representantes dos gringos de sempre).

Por que Dilma não fala? Não conta qual é a arma que tem contra o pescoço?

É por aí.

Ronaldo Abreu – Há uma necessidade de se mostrar via propaganda mesmo na TV várias questões. Por ex: o projeto de cabo no atlântico de fibra ótica até Portugal. O povo não sabe disso. Se souber e enxergar os benefícios, vai apoiar e defender dos interesses externos. Mas o governo ajuda a alienar mais ainda a massa. A Dilma estava inaugurando o Minha Casa Minha Vida na Bahia com o bicho pegando em tudo quanto é lugar. Ora, parece que só quer saber do público que ela entende como eleitor dela. Assim, o panelaço fica cada vez mais raivoso. Vide o caso das domésticas. Ok, formalizar o trabalho doméstico é bom, mas deixa as pessoas abaterem do IR. Todo mundo ganha. Mas não, ficou apontando o dedo acusando de classe média escravocrata. Assim não se chega a lugar algum. Bota na conta dos ricos, tributando dividendos e aumentando IOF de empréstimos intercompanhias que é uma distribuição de lucros disfarçada entre matriz e filial. Se não equilibrar estas questões só vai acirrar a disputa.

Tania Faillace – Você já está querendo falar da sintonia fina do discurso. Estamos muito longe disso. Precisamos saber antes de tudo, quais são os compromissos e acertos da coalizão, e porque a presidente não tem liberdade para chamar os ministros que bem entender.

É evidente que, por seu gosto, ela não chamaria nem o Levy, nem o Wagner, nem a Ana Amélia, que é oposição ao PT em seu estado (RS), e não só por isso, mas porque é representante do Agronegócio – e é realmente de um humor kafkiano designá-la para Reforma agrária.

O Levy é homem do FMI, com quem o Brasil tem diversas diatribes, e sabe muito bem como essa instituição usurária altera juros como bem entende, na hora que bem entende, e impõe condições também quando bem entende (e que sua atual presidente, a Lagarde, armou uma armadilha sexual contra o ex-presidente para defenestrá-lo do cargo e tomar seu lugar). E a nossa presidente não teria escolhido por gosto o Wagner, que faz uns dois anos esteve envolvido numa história que não lembro direito, mas em que foi acusado de fazer o jogo do Pentágono na América.

São três inimigos explícitos do campo popular.

Por que estão lá?

Qual é o acerto?

Temos que ir atrás e investigar.

Que é que você faz? Economista? Advogado? Engenheiro? Aposentado? Filósofo? Jornalista? Militar? Como pode usar suas habilidades e boas relações para saber o que se comenta a respeito do ministério, e como os partidos da coalizão se garantem seus privilégios de mandar totalmente em seus feudos? E isso não de agora. Nas gestões do Lula ocorria igual.

O inimigo está dentro de casa. É preciso identificá-lo. Lembrem que, na Argentina, o Kirchner teve uma morte duvidosa, e a Cristina volta e meia sumia num hospital (?) com males não revelados. Que Chávez denunciou ter sido envenenado com substância radioativa (como Fidel Castro) – numa imitação do homicídio contra o agente da KGB alguns anos antes, lembra? Que Lula, Cristina, Lugo, Chavez, Dilma, todos ficaram doentes ao mesmo tempo?

Nem os filmes de James Bond apresentavam tanto suspense.

Quem vai lá e tenta saber o que vem acontecendo dentro das embaixadas norte-americanas por toda esta nossa América Latina?

Ronaldo Abreu – Mas a massa tem que saber de alguns pontos essenciais para ajudar a pelo menos brecar uns ataques. Mas o que vejo (inclusive com os blogueiros pró Dilma) uma visão romântica do brasileiro. E isto é oba oba. Brasileiro por motivos históricos tem no consciente coletivo que o Estado tem dinheiro infinito, que não tem que ter deveres, somente direitos, etc i isto pela desinformação da midia, politicos, sistema educacional e ao meu ver por que temos ainda a cultura do doutor, ou seja, eu não chego a doutor mas quero uma forra. Não se desenvolve com este tipo de mentalidade coletiva. Como ninguém sabe o que seremos ou queremos ser daqui a 10, 15 anos, vira farinha pouca meu pirão primeiro.

O governo adorou este pseudo pleno emprego mas a maioria dos postos de trabalho são de baixa qualificação. Propaganda oba oba. E o bônus demográfico está indo embora… Por exemplo: soube que a kodak fabrica um scanner especial que poderia ser fabricado aqui segundo eles se tivéssemos escala. Ok, o setor público usa papel aos montes e pelo menos poderia digitalizá-los e e gerar arquivos eletrônicos com assinatura eletrônica acessível a qualquer computador. Mas e o reacionarismo cartorial que ainda temos a cultura do papel? Poderíamos ter uma fabricação caseira de qualidade. Outro ex: com um litoral deste só temos indústria naval para o petróleo. E o frete que é todo estrangeiro? Porque não nos especializamos em alguns tipos de embarcações e fazemos uma empresa estatal de frete marítimo?

Ficar discutindo politica macro, filosofias esquerda x direita etc não dá resultado prático. Já ouvi de pessoas bem de direita que por ex, o Kissinger não é nem direita nem esquerda, é pragmático em prol dos interesses dos EUA conforme a conveniência. Os militares eram considerados de direita, mas na economia criaram várias estatais (algo de governo socialista).

Precisamos menos oba-oba e retóricas e mais ações inteligentes e práticas.

Tania Faillace – Acho os assuntos todos muito interessantes, mas para outro momento. Un dois meses atrás, se falava disso, promover talvez um evento, do qual resultariam um ou vários grupos de trabalho para discutir e desenvolver propostas de políticas estruturais, desenvolvimentista, industriais, ou o que seja – e criar um canal de comunicação com o governo federal (em sua área tecnológica, no quadro de efetivos concursados, há bons técnicos – e provocar uma discussão e um intercambio sociedade civil/instâncias federais, num trânsito de duas mãos para a retomada de um desenvolvimento autônomo e independente (como poderíamos ter tido, se o Bautista Vidal tivesse maior presença na União que o Delfim Neto).

Agora, porém, estamos numa situação emergencial.

Haverá invasão na Venezuela ou não?

Haverá atentados nos demais países da AL (inclusive o nosso), ou não?

Teremos personalidades de destaque atingidos por drones especiais, ou não?

Haverá insurreição de marginais e coxinhas no Brasil e na Argentina e na Venezuela, ou não?

As informações agora necessárias referem-se à segurança nacional. Quem é quem, e quem é o cabo Anselmo.

E tomem nota que o Narcotráfico está enfiado nisso até suas mimosas orelhas, assim como seus dignos amigos nas altas camadas da sociedade.

A grande imprensa está criando uma legião de midiotas: Entrevista com Luciano Martins Costa

Por Rennan Martins | Vila Velha, 16/03/2015

Indignado segura cartaz que ironiza o feminicídio.

As manifestações de ontem (15) arregimentaram milhares de indignados. Com a camisa da corruptíssima CBF, estes cidadãos se juntaram pra provar a enorme capacidade de mobilização da narrativa hegemônica, e com suas palavras de ordem, reforçar o status quo.

A Globo News fez cobertura cinematográfica dos eventos enquanto seus diversos comentaristas assumiam a condição de porta-vozes da “festa cívica” cobrando atitudes do governo. Por volta das 15:00 anunciaram 240.000 pessoas na Avenida Paulista. Antes das 15:30 já eram 480.000 e faltando alguns minutos pras 16:00 a marca alcançou sensacionais 1 milhão. Além da enorme diferença de projeção em relação a Folha, que calculou 210.000 revoltados, a Globo ainda precisa explicar como 750.000 pessoas desafiaram a física chegando ao mesmo tempo nas redondezas do evento.

Ironias e críticas à parte, a realidade é que a imprensa corporativa intervém decisivamente na sociedade e instituições. A opinião pública(da), quando concentrada nas mãos de um cartel, possui grande poder de agendar e interditar debates ao gosto do dono da editoria. Esta distorção gera efeitos deletérios no processo democrático e de tomada de decisões.

A fim de analisar a fundo essa questão o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou o experiente jornalista, escritor e colunista do Observatório da Imprensa, Luciano Martins Costa. Nos explica ele que desde a redemocratização a imprensa nacional entrou num processo de oligopolização incentivado pela distribuição de concessões a caciques políticos do centrão. Segundo Luciano, este cartel constrói um simulacro de realidade que estimula os cidadãos menos críticos a assumir posições conservadoras e raivosas. O “remédio” então seria “aprender a ler” a mídia, duvidando sistematicamente das notícias, principalmente das apresentadas com mais alarde e dramatização.

Confira a íntegra:

Como vês a atuação da imprensa corporativa brasileira? É possível dizer que existe uma “cartelização editorial”?

Existe uma cartelização editorial desde que a Folha de S. Paulo negociou seu maior comprometimento com a Associação Nacional de Jornais em troca de apoio para a campanha pelo fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista e pela extinção da Lei de Imprensa.

Quais seriam os objetivos e interesses deste alinhamento? As metas estão sendo cumpridas?

O objetivo principal é se contrapor à tendência da sociedade brasileira, no fim dos anos 1990, de questionar o sistema econômico e de exigir a expansão dos direitos formalmente garantidos na Constituinte de 1988. A Constituição, como se sabe, foi feita sob a égide da “sociedade civil organizada”. Acontece que, na época, cerca de 51% da população brasileira era excluída da sociedade e a “sociedade civil organizada” era apenas uma metáfora para as entidades corporativas, como os sindicatos, federações de indústrias, OAB e setores fortemente apoiados por lobbies. O pesquisador Francisco Fonseca demonstrou como a imprensa, na época, deu voz ao chamado “Centrão” para conter o ímpeto progressista da Constituinte em seu início. Esse alinhamento está triunfando ao transformar o Brasil num país conflagrado, com a criação de legiões de midiotas que repetem o discurso raivoso da imprensa.

Seus artigos comentam com regularidade sobre a criação de um “simulacro de realidade”. Como ocorre essa construção? Poderia exemplificar um caso concreto?

Existe o mundo real, onde nos relacionamos e construímos o processo da modernidade, e o ecossistema da comunicação, onde nossas ações, reflexões e escolhas constroem a cultura, que redefine a realidade. A mídia atua, em condições ideais, mediando essa passagem entre duas dimensões da nossa existência, onde as individualidades devem aprender a negociar seus papéis sociais. No Brasil e em alguns outros países, a imprensa adotou um protagonismo central, e em vez de filtrar ou mediar esse processo, interfere na construção de significados que induzem a interpretações viciadas da realidade. O viés conservador, predominante na mídia, martelado diariamente sobre as pessoas, induz a posicionamentos reacionários, defensivos e individualistas. Um exemplo é a manipulação de dados da economia, que faz uma grande parcela da população a acreditar que o Brasil está no fundo do poço. Mesmo pessoas que ascenderam às classes de renda média tendem a se tornar conservadoras quando são convencidas de que estão prestes a perder o que conquistaram graças a seus esforços e com apoio em políticas sociais que antes não existiam. O sujeito acorda, vai para o trabalho (que não existia quando o nível de desemprego era de 18%), segue para a faculdade (a que não tinha acesso antes das políticas sociais criadas na última década) e volta para casa, mas acha que a realidade hoje é pior. Os simulacros de realidade são construídos pela manipulação dos signos que norteiam nossa compreensão da realidade que vivenciamos. A falta de educação cívica faz com que muitos culpem o poder central por carências ou dificuldades que são de responsabilidade estadual, municipal ou mesmo do âmbito privado.

Que influências a sociedade e as instituições sofrem neste contexto?

A sociedade é influenciada na medida em que um grande número de indivíduos perde a noção daquilo que é do interesse coletivo e das responsabilidades individuais na construção de uma sociedade – se não sustentável, pelo menos aceitável. Como o interesse social é difuso, o discurso manipulador da mídia transforma facilmente o sentido dos fatos. Por exemplo, os jornais pegaram o aumento do preço do tomate, há quatro anos, e alardearam que a inflação estava estourando. O pânico levou os produtores e o comércio a buscar se proteger, e isso provocou um aumento nos preços de alguns produtos alimentícios e dos restaurantes. Como nas grandes cidades todo mundo que trabalha fora é obrigado a comer em restaurantes, a sensação de mal-estar se espalhou. Então, a mídia passou a martelar o tema da “inflação de alimentos”. Quando o preço do tomate voltou ao normal, em dez dias, os preços de alimentos baixaram, mas ficou a percepção de um surto inflacionário que só existiu na imprensa. As instituições reagem ao estado de espírito da população, e ao construir uma mentalidade defensiva, a imprensa induz as instituições a adotar políticas conservadoras.

Por exemplo, os jornais fazem grande alarde quando um adolescente participa de um crime, a população pede a redução da maioridade penal, e os parlamentares conservadores correm a propor mudanças na lei. Mas acontece uma chacina, onze pessoas são assassinadas numa rua da periferia de São Paulo numa única noite, e os jornais escondem o fato, porque há indícios de que os crimes foram cometidos por policiais.

O que fazer para “aprender a ler” a imprensa? Quais são os métodos?

Há alguns métodos para “aprender a ler” a imprensa, e nenhum deles dispensa a compreensão de que vivemos numa sociedade altamente complexa, que já não pode ser interpretada corretamente pela linguagem jornalística. O essencial é adotar um procedimento que propus quando era editor executivo do Estado de S. Paulo e responsável pela primeira página: dessacralizar a notícia. Trata-se de treinar a mente para desconfiar de cada detalhe de uma notícia, questionando tudo que parece inverossímil ou fora de contexto. Por exemplo, quando a imprensa quer dar um tom negativo a um indicador econômico, a prática mais comum é mudar os parâmetros de comparação. Então, compara-se, por exemplo, as vendas do comércio em janeiro em relação a dezembro – sabe-se que a economia tem suas sazonalidades, e que o correto é comparar períodos semelhantes, destacando os fatos relevantes que ocorreram entre eles. Por exemplo, os jornais falaram muito do custo de vida entre 2013 e 2014, omitindo o fato que em 2014 houve uma Copa do Mundo no Brasil. Outro exemplo: os jornais destacam que a Bolsa de Valores anda de lado, mas escondem que o Brasil ainda é um dos principais destinos do Investimento Estrangeiro Direto, que é investimento produtivo. A Teoria da Complexidade e algum conhecimento de teorias da comunicação ajudam a enxergar essas distorções.

De que forma o Brasil, um país onde a mídia tem plena liberdade, chegou a este quadro de uma imprensa tão concentrada e de baixa diversidade?

Luciano Martins Costa. UBE

Tudo começou nas negociações para a volta da democracia, quando o Centrão foi cooptado para a ideia de que o Brasil só iria se modernizar com uma imprensa forte. A política de Sarney, distribuindo canais de TV e rádio a políticos em troca de apoio, levou a maioria deles a aceitar a oferta de parceria com a Rede Globo, que reduzia o custo das emissoras e garantia uma marca forte para captar anunciantes. Depois disso, houve uma manobra com dólar – operação que na época era chamada de “bicicletagem” – na qual o governo facilitou para grandes empresas de comunicação o acesso ao dólar oficial, para modernização de equipamentos. Os equipamentos foram superfaturados, o excedente de moeda estrangeira foi para contas no exterior e passaram a alimentar o fluxo de caixa dessas empresas, pelo câmbio paralelo. Essa operação aparece sutilmente no caso Banestado e é um dos segredos que a imprensa quer manter escondidos no escândalo do HSBC. Acho impossível investigar e provar essa história, que me foi contada pelo antigo presidente de uma grande empresa regional de comunicação, que jurava ter sido o único a não entrar nesse jogo.

Como se inserem a internet, as redes sociais e a mídia alternativa nesse cenário?

A Internet e as redes sociais se inserem no processo de redução do papel de mediação. As novas tecnologias permitem que as informações sejam trocadas horizontalmente, entres os indivíduos, e a tendência é que aquilo que chamamos de mídia passe a ter a função de ancorar essas informações, para que as pessoas possam fazer o contexto. Mas um consórcio de economistas ou sociólogos, por exemplo, poderia cumprir esse papel nas suas especialidades. A mídia alternativa só será viável quando assumir uma postura inovadora e parar de imitar a mídia hegemônica. Chamo inovação a determinação de estimular o protagonismo do cidadão e assumir o papel de checar e organizar as informações sem o viés que caracteriza a imprensa predominante.

O que você acha que acontecerá com a TV tradicional e a mídia impressa frente as mudanças que estamos vivenciando?

A TV tradicional estática, ainda é forte porque é usada como o rádio, proporcionando um ruido de fundo para a vida cotidiana, mas a própria evolução da tecnologia está tornando esse meio menos relevantes. Ele sobrevive melhor no campo do entretenimento, e por isso as emissoras apelam para o jornalismo dramatizado ou espetacularizado. A mídia impressa vai sobreviver como um nicho, dirigido essencialmente para as instituições. O cidadão vai se informar cada vez mais pelas redes sociais.

Você é favorável a proposta de regulamentação dos meios de comunicação? Quais seriam as consequências dessa medida?

Sou favorável à regulamentação dos meios de comunicação, à abertura da mídia para o capital estrangeiro (chega de cinismo), à obrigatoriedade de que toda empresa de mídia, a partir de certo porte (faturamento, patrimônio, etc.) seja obrigada a abrir o capital, à licitação pública periódica da radiodifusão, com abertura ampla para participantes, com exceção de entidades religiosas ou partidárias. Além disso, no curto prazo, defendo uma política pública que contemple iniciativas de mídia comunitários, setoriais, etc., como os coletivos de cultura, que teriam um poderoso efeito na educação da sociedade para o uso da mídia.

Qual modelo de sociedade é perfeito?

Por Tania Jamardo Faillace | Porto Alegre, 15/03/2015

A questão que nos vem angustiando há séculos, em busca da melhor proposta para o melhor mundo possível, dá-se menos em razão da proposta em si, que na metodologia a ser usada para obter a adesão e o consenso, e a aplicação de uma proposta de contrato social que se adeque às necessidades e aspirações das pessoas.

Uma das questões – e não das menores – é como você irá propor um novo contrato que se oponha radicalmente ao que hoje existe, sem ser através da ruptura violenta, – maneira pela qual ocorrem todas as revoluções sociais, sejam populares ou de elite.

Sim, há necessidade de mudar o foco, as metas e diretrizes da sociedade em pauta para chegar onde desejamos.

E daí? Como conseguir isso? Vamos, atualmente, dizer às mega-empresas que elas não devem mais prezar seus lucros e, sim, sua colaboração com as demais pessoas da sociedade onde se estabelecem?

E elas vão aceitar tais argumentações, por quê? Quer mudar quem está por baixo, não quem está ganhando ou acha que está.

Todos os partidos e religiões que se constituíram a partir do que se chama a Antiguidade, propuseram exatamente isto: um novo pacto social.

Mas há uma grande diferença entre o pacto que pode ser fechado numa Assembléia ou até numa Constituinte, e como as coisas funcionam na realidade das transações humanas e econômicas e políticas.

O capitalismo tem como característica a apropriação do produto do trabalho social por uma única pessoa ou grupo econômico, ao invés da distribuição equitativa entre os produtores. Pagas as despesas, inclusive os salários, o que sobra são os lucros, apropriados pelo dono, sejam pessoas ou corporações. Esse lucro pode ser apropriado para o uso pessoal dos donos, ou reinvestido na empresa ou em outras, ou formar um cabedal para aplicações futuras.

No socialismo – que ainda não existe, só na cabeça das pessoas, – esse produto do trabalho social seria distribuído equitativamente entre os produtores reais, uma vez quitadas as despesas. Conforme as regras e normas decididas entre todo o grupo, a distribuição poderia ser total, ou reservar-se uma parte para reinvestimento e continuidade das operações.

O mais próximo disso é a cooperativa AUTÊNTICA, bicho raríssimo, porque, quando criada numa sociedade geralmente capitalista, o sistema hegemônico trata de mantê-la sob controle, ou subornando/cooptando suas direções, ou impondo legislações restritivas que a impedem de concorrer no mercado geral em igualdade de condições. É o que acontece no Brasil.

Uma outra opção é o burocratismo estatal que alguns consideram socialismo, mas não é, uma vez que a direção é centralizada e de natureza político-partidária e não de associação livre, com bases atuantes.

O arcabouço estatal é fundamental para dar coesão ao todo social, organizar e compatibilizar as partes num conjunto harmônico e colaborativo. Mas quando se estabelece na formatagem de uma empresa capitalista, até em suas funções e organograma, se transforma insensivelmente em capitalismo de Estado.

Porém, como seu objetivo não é obter lucros, mas prestar serviços, seus funcionários não se identificam com os macro-propósitos e se comportam como quaisquer funcionários em quaisquer empresas – sem compromisso, e sem qualquer poder de influir no gerenciamento do objeto.

A empresa estatal como empresa definidamente de cunho econômico (caso da Petrobrás, por exemplo) merece um capítulo à parte, que não vai ser aqui.

Isso foi muito discutido nos séculos XIX e XX entre os espartaquistas (grupo da Rosa de Luxemburgo) e no início da revolução bolchevique (Alexandra Kollontai).

O capitalismo de Estado, – que, à primeira vista, pode ser confundido com socialismo, – por sua estruturação vertical, rapidamente se converte em burocratismo, e é aquilo que sabemos.

Mesmo que, em teoria, seja possível fazer uma combinação sábia entre o trabalho individual (aquele que envolve todas as fases da criação do produto, seja intelectual ou material, como texto, invento, artesanato), o trabalho cooperativado, e a ordenação estatal, (a mais capaz de atender a interesses gerais de tipo estratégico), há que se observar que lidamos com o elemento humano, que é instável.

Fiscalizações (no sentido do controle das operações para não emperrarem) e revisões permanentes (para garantir as necessárias adaptações e ajustes a novas circunstâncias) são indispensáveis, e certamente precisam da atenção de todo o corpo social.

Não há sistema à prova de erros ou deturpações. A conscientização e o compromisso das pessoas com o projeto/proposta, mais o gerenciamento permanente são incontornáveis. Ou existem, ou tudo vem abaixo.

***

Tania Jamardo Faillace é jornalista e escritora de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Fundadora nacional do Partido dos Trabalhadores, participante da antiga Cooperativa dos Jornalistas de POA, militante sindical (Jornalistas e Intersindical de Porto Alegre), participante do movimento de Renovação Sindical, nos anos 80, jornalista de área técnica/econômica/geral/cidade/polícia, ativista social, autora de seis livros publicados de ficção (novelas,romance,contos) e de um folhetim inédito sobre o Brasil dos anos 70, construído através de 15 anos de pesquisas de campo sobre a realidade brasileira.

Leonardo Boff: O que se esconde atrás do ódio ao PT (I e II)?

Por Leonardo Boff | Via Jornal GGN

O que se esconde atrás do ódio ao PT (I)?, por Leonardo Boff

Há um fato espantoso mas analiticamente explicável: o aumento do ódio e da raiva contra o PT. Esse fato vem revelar o outro lado da “cordialidade” do brasileiro, proposta por Sérgio Buarque de Holanda: do mesmo coração que nasce a acolhida calorosa, vem também a rejeição mais violenta. Ambas são “cordiais”: as duas caras passionais do brasileiro.

Esse ódio é induzido pela mídia conservadora e por aqueles que na eleição não respeitaram rito democrático: ou se ganha ou se perde. Quem perde reconhece elegantemente a derrota e quem ganha mostra magnanimidade face ao derrotado. Mas não foi esse comportamento civilizado que triunfou. Ao contrário: os derrotados procuram por todos os modos deslegitimar a vitória e garantir uma reviravolta política que atendesse a seu projeto, rejeitado pela maioria dos eleitores.

Para entender, nada melhor que visitar o notório historiador, José Honório Rodrigues que em seu clássico Conciliação e Reforma no Brasil (1965) diz com palavras que parecem atuais:

”Os liberais no império, derrotados nas urnas e afastados do poder, foram se tornando além de indignados, intolerantes; construíram uma concepção conspiratória da história que considerava indispensável a intervenção do ódio, da intriga, da impiedade, do ressentimento, da intolerância, da intransigência, da indignação para o sucesso inesperado e imprevisto de suas forças minoritárias” (p. 11).

Esses grupos prolongam as velhas elites que da Colônia até hoje nunca mudaram seu ethos. Nas palavras do referido autor: “a maioria foi sempre alienada, antinacional e não contemporânea; nunca se reconciliou com o povo; negou seus direitos, arrasou suas vidas e logo que o viu crescer lhe negou, pouco a pouco, a aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”(p.14 e 15). Hoje as elites econômicas continuam a abominar o povo. Só o aceitam fantasiado no carnaval. Mas depois tem que voltar ao seu lugar na comunidade periférica (favela).

Lamentavelmente, não lhes passa pela cabeça que “as maiores construções são fruto popular: a mestiçagem racial, que criava um tipo adaptado ao país; a mestiçavel cultural que criava uma síntese nova; a tolerância racial que evitou o descaminho dos caminhos; a tolerância religiosa que impossibiltou ou dificultou as perseguições da Inquisição; a expansão territorial, obra de mamelucos, pois o próprio Domingos Jorge Velho, devassador e incorporador do Piaui, não falava português; a integração psico-social pelo desrespeito aos preconceitos e pela criação do sentimento de solidariedade nacional; a integridade territorial; a unidade de língua e finalmente a opulência e a riqueza do Brasil que são fruto do trabalho do povo. E o que fez a liderança colonial (e posterior)? Não deu ao povo sequer os benefícios da saúde e da educação, o que levou Antônio Vieira a dizer:’Não sei qual lhe faz maior mal ao Brasil, se a enfermidade, se as trevas”(p. 31-32).

A que vêm estas citações? Elas reforçam um fato histórico inegável: com o PT, esses que eram considerados carvão no processo produtivo (Darcy Ribeiro) e o rebutalho social, conseguiram, numa penosa trajetória, se organizar como poder social que se transformou em poder político no PT e conquistar o Estado com seus aparelhos. Apearam do poder, pelo voto, as classes dominantes; não ocorreu simplesmente uma alternância de poder mas uma troca de classe social, base para um outro tipo de política. Tal saga equivale a uma autêntica revolução social, pacífica e de cunho popular.

Isso é intolerável para as classes poderosas que se acostumaram a fazer do Estado o seu lugar natural e de se apropriar privadamente dos bens públicos pelo famoso patrimonialismo, denunciado por Raymundo Faoro.

Por todos os modos e artimanhas querem ainda hoje voltar a ocupar esse lugar que julgam de direito seu. Seguramente, começam a dar-se conta de que, talvez, nunca mais terão condições históricas de refazer seu projeto de dominação/conciliação. Outro tipo de história política dará, finalmente, um destino diferente ao Brasil.

Para eles, o caminho das urnas se tornou inseguro pelo nível crítico alcançado por amplos estratos do povo que rejeitaram seu projeto político de alinhamento neoliberal ao processo de globalização, como sócios dependentes e agregados. O caminho militar será hoje impossível dado o quadro mundial mudado. Cogitam com a esdrúxula possibilidade da judicialização da política, contando com aliados na Corte Suprema que nutrem semelhante ódio ao PT e sentem o mesmo desdém pelo povo.

Através deste expediente, poderiam lograr um impeachment da primeira mandatária da nação. É um caminho conflituoso pois a articulação nacional dos movimentos sociais tornaria arriscado este intento e talvez até inviável.

O ódio contra o PT é menos contra PT do que contra o povo pobre que por causa do PT e de suas políticas sociais de inclusão, foi tirado do inferno da pobreza e da fome e está ocupando os lugares antes reservados às elites abastadas. Estas pensam em fazer, com boa consciência, apenas caridade, doando coisas, mas nunca buscando a justiça social.

Antecipo-me aos críticos e aos moralistas: mas o PT não se corrompeu? Veja o mensalão? Veja a Petrobrás? Não defendo corruptos. Reconheço, lamento e rejeito os malfeitos cometidos por um punhado de dirigentes. Devem ser julgados, condenados à prisão e até expulsos do PT. Traíram mais de um milhão de filiados e principalmente botaram a perder os ideais de ética e de transparência. Mas nas bases e nos municípios – posso testemunhá-lo em dezenas de assessorias – vive-se um outro modo de fazer política, com participação popular, mostrando que um sonho tão generoso não se deixar matar assim tão facilmente: o de um Brasil menos malvado, mais digno, justo pacífico. As classes dirigentes, por 500 anos, no dizer rude de Capistrano de Abreu, “castraram e recastraram, caparam e recaparam” o povo brasileiro. Há maior corrupção histórica do que esta?

Voltaremos ao tema.

O que se esconde por trás do ódio ao PT(II)?

Já dissemos anteriormente e o repetimos: o ódio disseminado na sociedade e nas mídias sociais, não é tanto ao PT, mas àquilo que o PT propiciou para as grandes maiorias marginalizadas e empobrecidas de nosso país: sua inclusão social e a recuperação de sua dignidade. Não são poucos os beneficiados dos projetos sociais que testemunharam: “sinto-me orgulhoso não porque posso comer melhor e viajar de avião, coisa que jamais poderia antes, mas porque agora recuperei minha dignidade”. Esse é o mais alto valor político e moral que um governo pode apresentar: não apenas garantir a vida do povo, mas faze-lo sentir-se digno, alguém participante da sociedade.

Nenhum governo antes em nossa história conseguiu esta façanha memorável. Nem havia condições para realizá-la porque nunca houve interesse em fazer das massas exploradas de indígenas, escravos e colonos pobres, um povo consciente e atuante na construção de um projeto-Brasil. Importante era manter a massa como massa, sem possibilidade de sair da condição de massa, pois assim não poderia ameaçar o poder das classes dominantes, conservadoras e altamente insensíveis aos padecimentos do próximo. Essas elites não amam a massa empobrecida. Mas tem pavor de um povo que pensa, pois faz valer seus direitos e pode ameaçar os privilégios dela.

Para conhecer esta anti-história aconselho aos políticos, aos pesquisadores e aos leitores/as que leiam o estudo mais minucioso que conheço:”a política de conciliação: história cruenta e incruenta”, um largo capítulo de 88 páginas do clássico “Conciliação e reforma no Brasil” de José Honório Rodrigues (1965 pp. 23-111). Ai se narra, como a dominação de classe no Brasil, desde Mende de Sá até os tempos modernos, foi extremamente violenta e sanguinária, com muitos fuzilamentos e enforcamentos e até de guerras oficiais de extermínio dirigidas contra tribos indígenas como contra os botocudos em 1808.

Também seria falso pensar que as vítimas tiveram um comportamento conformista. Ao contrário, reagiram também com rebeliões e violência. Foi a massa indígena e negra, mestiça e cabocla a que mais lutou e que foi reprimida cruelmente, sem qualquer piedade cristã. Nosso solo ficou ensopado de sangue.

As minorias ricas e dominantes elaboraram uma estratégia de conciliação entre si, por cima da cabeça do povo e contra o povo, para manter a dominação. O estratagema sempre foi mesmo. Como escreveu Marcel Burstztyn (O país das alianças: as elites e o continuismo no Brasil, 1990): “o jogo nunca mudou; apenas embaralharam-se diferentemente as cartas do mesmo e único baralho.”

Foi a partir da política colonial e continuada até recentemente que se lançaram as bases estruturais da exclusão no Brasil, como foi mostrado por grandes historiadores, especialmente por Simon Schwartzman com o seu “Bases do autoritarismo brasileiro” (1982) e Darcy Ribeiro com seu grandioso “O povo Brasileiro” (1995).

Existe, pois, com raízes profundas, um desprezo pelo povo, gostemos ou não. Esse desprezo atinge o nordestino, tido por ignorante (quando a meu ver é extremamente inteligente, vejam seus escritores e artistas), os afrodescendentes, os pobres econômicos em geral, os moradores de favelas (comunidades), e aqueles que têm outra opção sexual.

Ocorre que irrompeu uma mudança profunda graças às políticas sociais do PT: os que não eram começaram a ser. Puderam comprar suas casas, seu carrinho, entraram nos shoppings, viajaram de avião às multidões, tiveram acesso a bens antes exclusivos das elites econômicas.

Segundo o pesquisador Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade social no Brasil : 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5 mil famílias extensas. Estas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto, ganham dinheiro sem trabalho. Pouco o nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.

Veem, temerosas, a ascensão das classes populares e de seu poder. Estas invadem seus lugares exclusivos. No fundo, começa a haver uma pequena democratização dos espaços sociais.

Essas elites formaram, atualmente, um bloco histórico cuja base é constituida pela grande mídia empresarial, jornais, revistas e canais de televisão, altamente censuradores do povo, pois lhe ocultam fatos importantes, banqueiros, empresários centrados nos lucros, pouco importa a devastação da natureza e ideólogos (não são intelectuais) que se especializaram em criticar tudo o que vem do governo do PT e fornecem superficialidades intelectuais em defesa do status quo.

Esta constelação anti-popular e até anti-Brasil suscita, nutre e difunde ódio ao PT como expressão do ódio contra aqueles que Jesus chamou de “meus irmãos e irmãs menores”, os humilhados e ofendidos de nosso pais.

Como teólogo me pergunto angustiado: na sua grande maioria, essas elites são de cristãos e de católicos. Como combinam esta prática perversa com a mensagem de Jesus? O que ensinaram as muitas Universidades Católicas e as centenas de escolas cristãs para permitirem surgir esse movimento blasfemo, pois, atinge o próprio Deus que é amor e compaixão e que tomou partido pelos que gritam por vida e por justiça?

Mas entendo, pois para elas vale o dito espanhol: entre Deus e o dinheiro, o segundo é primeiro.

Infelizmente.

***

Sugestão via e-mail da participante do grupo Desenvolvimentistas, Fátima Magalhães:

Segue entrevista com o economista Marcio Pochmann e dois artigos do teólogo Leonardo Boff no Jornal GGN que – juntos – talvez possam nos ajudar a refletir na tentativa de entender um pouco mais acerca das tramas tecidas neste delicado momento politico que está a brotar no Brasil. Destas singulares publicações, destaco trechos nos quais o Prof. Marcio Pochmann e o Teol. Leonardo Boff parecem confluir para uma mesma questão central, segundo dados e interpretações que lhes são próprias.

“Nessa primeira década do século 21 a gente conseguiu ter um crescimento econômico importante, forte, significativo, combinado com democracia e política de distribuição de renda, de maneira geral. Esses três elementos, o regime político, o econômico e o social, não se combinaram dessa mesma forma nos últimos 50 anos.”

“Nós somos um país que se constituiu em cima da desigualdade. Nós somos um país herdeiro de quatro séculos de escravidão. A desigualdade é uma marca do Brasil. Na medida em que essa desigualdade começa a ser atacada, de certa maneira, ela termina expressando certo desconforto. Porque há vários sinais de manifestação em relação a essa circunstância.” Marcio Pochmann

“Segundo o pesquisador Márcio Pochmann em seu Atlas da Desigualdade social no Brasil : 45% de toda a renda e a riqueza nacionais é apropriada por apenas 5 mil famílias extensas. Estas são nossas elites. Vivem de rendas e da especulação financeira, portanto, ganham dinheiro sem trabalho. Pouco ou nada investem na produção para alavancar um desenvolvimento necessário e sustentável.” Leonardo Boff, citando estudo de Marcio Pochmann e cols.