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O atentado de Paris visto quatorze anos atrás

Por J. Carlos de Assis

Escrevi em outubro de 2001, um mês depois dos atentados de 11 de setembro em Nova Iorque, no Prólogo do meu livro “O Atentado da Nova Era”:

“Os atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, num desafio escatológico à maior potência militar e econômica do planeta, assinalam, sobre o sangue dos mortos e os escombros da riqueza, um ponto de mutação milenar da civilização humana, posto simbólica e objetivamente ante a alternativa da própria extinção ou da busca da prosperidade, da justiça e da paz universal. Foi uma demonstração dramática do que Raymond Aron, décadas atrás, conceituando a realidade do mundo nuclearizado, identificou como `aumento de poder com diminuição do controle´. Aron tratava de relações entre estados. Vimos agora que o poder incontrolável está concentrado também nas pessoas, inclusive nas mãos dos oprimidos da terra.

Escrevo antes da materialização da reação bélica norte-americana em toda a sua extensão. Por tudo que se informou e se disse na semana posterior aos atentados, de Washington a Brasília, de Londres a Moscou, há poucas esperanças de que seja uma reação sábia. O povo comovido quer vingança, e a liderança pusilânime quer alimentá-la com sangue. Uma reação sábia seria a imediata convocação de uma Conferência Mundial contra o Terrorismo e contra a Injustiça Social. Um Plano Marshall universal contra a miséria da África, na Ásia e na América Latina. A eliminação do desemprego. O fim das discriminações. O respeito ao direito dos povos de ter cada um a sua pátria e a sua forma de autogoverno. O resgate dos oprimidos. A proteção estatal da infância, dos doentes e dos idosos. Um New Deal em escala planetária.

A reação, porém, promete ser uma reação feroz, segundo o presidente George W. Bush. Ele quer espalhar ferro e fogo sobre países islâmicos selecionados, pagará genocídio com um genocídio cem mil vezes maior, e tudo na expectativa, segundo seu discurso patético do dia 20, de que, ‘nos próximos meses e anos, a vida na América volte quase ao normal’. Acaso alguém duvidará de que, depois da reação feroz, não haverá mais centenas, milhares, dezenas de milhares de árabes, muçulmanos, bascos, tamis, filipinos, irlandeses ou outras minorias dispostas a se glorificar na morte ante a tevê, matando simultaneamente mais norte-americanos ou seus aliados? Mais do que isso, acaso eram imprevisíveis os atentados que ocorreram?

Dirão, sob a comoção do espetáculo dantesco de televisão, que o terrorismo tem que ser punido. Mas haverá maior punição que a morte? Duas décadas de extremismo liberal e de globalização financeira espalharam, pelas mãos das próprias elites internas catequizadas, desemprego, fome e miséria em todo o mundo subdesenvolvido, e inclusive no mundo desenvolvido, caracterizado nossa época como a de mais brutal discriminação social na História, pelo espetáculo sem paralelo da prosperidade dos países ricos e dos ricos nos países pobres, incluindo a década de crescimento econômico contínuo dos Estados Unidos, em confronto com a acentuação do subdesenvolvimento da América Latina, da África e de grande parte da Ásia. Nem todos, mas muitos dos que foram deixados para trás estão atraídos para a glorificação da morte em lugar do que consideram uma vida de opressão.

Não há punição para o terror suicida. O que seria a suprema punição, que é a morte, constitui um passe espiritual para a glória: em lugar de uma vida miserável e sem sentido num campo de refugiados palestinos ou num deserto afegão, sem perspectiva e sem outra fonte de dignidade que a fé fundamentalista, oferece-se ao mártir o panteão da verdadeira imortalidade. O terrorismo político é um dado da realidade do mundo contemporâneo. O terrorismo suicida é seu epifenômeno. Não há como eliminá-lo pela força militar. Ele não é um estado, uma nação, um povo. Sua fonte é uma condição social, que está no Brasil ou em Delhi, em Buenos Aires ou na Cidade do México, e está também nos bairros populares de Londres e de Nova Iorque.” (…)

Remeto-me a esse texto de 14 anos atrás para acentuar sua conclusão óbvia: o terrorismo político suicida subsistirá enquanto houver extrema desigualdade social na terra. E ainda não estamos considerando o recurso das armas químicas e biológicas de destruição em massa, eventualmente em mãos de terroristas. E mesmo que o terrorismo não mate gente, matará as caras liberdades civis do mundo ocidental as quais, na França de Hollande, por exemplo, conforme o excelente artigo de Jânio de Freitas na Folha do último domingo, já estão sucumbindo ao toque da “guerra contra o terror”. No Atentado da Nova Era, examinei as consequências políticas, estratégicas, econômicas, religiosas e morais do ataque em Nova Iorque. Os dirigentes mundiais, contudo, preferiram acreditar que tudo voltariam ao “quase” normal, como disse Bush. E o que dirão agora do futuro?

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José Carlos de Assis é economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira e do recente “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, ed. Textonovo, SP.

Termômetro da conjuntura política #11

Por Rennan Martins | Vila Velha, 23/11/2015

O novo presidente da Argentina, Mauricio Capri, e Álvaro Uribe, ambos representantes da ultradireita sul-americana.

Retrocesso. O equivalente argentino do senador Aécio Neves, o político Maurício Macri, venceu as eleições presidenciais em segundo turno contra o candidato governista Daniel Scioli, que reconheceu a derrota antes mesmo da apuração completa das urnas. O retorno do neoliberalismo puro sangue a Casa Rosada representa duríssima perda para os movimentos de centro-esquerda latino-americanos. Os próximos quatro anos servirão ao menos para que comparemos Brasília e Buenos Aires no que se refere ao avanço neoliberal num governo completamente entreguista, o dos hermanos, e noutro que ainda tem certo constrangimento frente a sua base social. Será que as diferenças serão grandes?

Terrorismo de Estado. Dois portais internacionais da imprensa alternativa, o Oriental Review e a Rede Voltaire, publicaram reportagens que denunciam transações de armamentos entre a Ucrânia e o Qatar. A alegação, sustentada com documentos e e-mails, é de que em setembro deste ano as partes negociaram um sistema de mísseis anti-aéreos Pechora-2D, que teria sido repassado posteriormente ao Estado Islâmico. Os que acompanham o Oriente Médio sabem que as monarquias sunitas do Golfo Pérsico são os principais financiadores do EI. Sobre isso nunca se viu o governo norte-americano dar um pio.

Terrorismo de Estado [2]. A congressista norte-americana e democrata, Tulsi Gabbard, que lutou na guerra do Iraque duas vezes, é uma das poucas a dizer a verdade sobre o Estado Islâmico e a guerra na Síria. Em entrevista cedida a CNN ela deixa claro que os EUA não podem querer combater o Estado Islâmico e o governo sírio ao mesmo tempo, pois, ao tentar derrubar Bashar al-Assad ocorre fortalecimento automático dos extremistas sunitas. Vai além e declara que enquanto a Casa Branca diz que os jihadistas são a maior ameaça ao país, a CIA os financia. Juntamente do republicano Adam Scott ela propôs uma lei para impedir a “guerra ilegal” dos EUA contra a Síria. Você pode ler os argumentos dela, em inglês, aqui.

Neocolonialismo. A tragédia das barragens em Minas Gerais, provocada pela negligência da Samarco, reacendeu o debate sobre a tributação de atividades de produção e extração de produtos primários. Você sabia que a exportação de commodities, minérios não beneficiados aí incluídos, não é taxada? Isso incentiva o aprofundamento da superexploração dos recursos naturais e ainda deixa para a sociedade o custo da degradação do meio ambiente, que na linguagem econômica é a externalidade negativa, o custo socioambiental não coberto pelo produtor, que se manifesta na degradação ambiental e seus diversos problemas dela decorrentes. Faz sentido que mineradoras e produtores rurais utilizem do solo e recursos hídricos sem por isso pagar?

Oligopólio. Folha de São Paulo desse domingo (24/11) informa que o Ministério Público Federal moverá ações contra 40 parlamentares, 32 deles deputados, 8 senadores, pelo fato de serem sócios de emissoras de rádio e TV, o que é expressamente vedado pelo artigo 54 da Constituição Federal de 88. Os 40 parlamentares são sócios de nada menos que 93 radiodifusoras. A procuradoria pedirá suspensão das concessões, condenação que obrigue a novas licitações e ainda a abstenção de concessão de novas outorgas aos citados. A maioria dos políticos envolvidos sustenta que podem ser sócios de radiodifusoras, estando proibidos somente de ocupar cargos de diretoria. Argumento frágil, visto que todos sabem da influência que os sócios podem exercer na direção.

Caiiindo. Os bastidores políticos dão conta de que agora o próprio PMDB faz gestões no sentido de isolar o moribundo presidente da Câmara (ainda!), Eduardo Cunha. Diz-se que foi impedido de deixar um evento juntamente de outros caciques do partido, indispostos a arranhar suas imagens andando a seu lado. Quanto mais rápido virarmos a página Cunha, melhor para o país.

Batalha. Nesta quarta está prevista sessão conjunta do Congresso, convocada pelo presidente do senado Renan Calheiros. A intenção é deliberar e aprovar a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2016 e o Projeto de Lei de Alteração (PLN) 5/15 da LOA, que revê para baixo a meta fiscal deste ano, que poderá ser deficitária em até R$ 119,9 bilhões. Pode-se esperar uma batalha ainda mais acirrada que no ano passado, visto que caso o Planalto não consiga aprovar o PLN em questão acabará ferindo a Lei de Responsabilidade Fiscal, o que abriria precedente para o impeachment, tão sonhado pelo mau perdedor Aécio Neves.

Ajuste? Falando em contas públicas, chegamos ao fim do ano e o superavit primário, evidentemente, não foi cumprido. Este Blog dizia isso desde o momento em que se soube que Joaquim Levy, proveniente do Bradesco e verdadeiro cabeça de planilha, seria o novo ministro da Fazenda, ainda no fim do ano passado. O doutor em economia Paulo Kliass, em artigo publicado na Carta Maior, revela que o sistema da dívida pública pagou, em 2013, R$ 249 bi aos bancos, em 2014, R$ 311 bi. Este ano a módica quantia será de R$ 511 bilhões. Portanto, não se trata de ajuste, mas de transferência de riqueza dos pobres para os ricos.

Aliás. Nesta terça (24/11) e quarta (25/11) será realizada a última reunião ordinária do COPOM, órgão que decide a taxa básica de juros nacional. Atualmente estamos em 14,25%, o que já é o maior juro no mundo. A tendência é que a taxa seja mantida, pois, depois de meses de alta os diretores do COPOM notaram que esmagariam a atividade econômica caso prosseguissem no ciclo altista. Quando o Brasil finalmente enfrentará a crucial questão dos juros?

Lama expõe histórico de degradação ambiental no Rio Doce

Por Herton Escobar | via Estadão

Foz do Rio Doce despeja lama da Samarco no mar. REUTERS/Ricardo Moraes

Se por um lado a onda de rejeitos da Samarco soterrou grande parte do rio, por outro fez aflorar cicatrizes profundas de degradação espalhadas por toda a sua bacia hidrográfica, incluindo desmatamento, poluição e pesca predatória. É preciso pensar num projeto de restauração ambiental em grande escala para devolver a vida ao rio.

A onda de lama não poderia ter chegado num momento pior para o Rio Doce. “Nunca vi o rio desse jeito”, é a frase que mais se escutava esta semana em Colatina, no norte dos Espírito Santo, um dos últimos municípios a serem atingidos pelos rejeitos de minérios da Samarco. Os moradores se referiam ao tom alaranjado da água tomada pelos sedimentos, mas não só isso. Se por um lado a lama soterrou grande parte do rio, por outro fez aflorar cicatrizes profundas de degradação ambiental espalhadas por toda a sua bacia hidrográfica.

Mesmo antes da enxurrada de lama chegar, o estado de saúde do Rio Doce já era precário, resultado de séculos de desmatamento, poluição, assoreamento, construção de barragens, pesca predatória e introdução de espécie exóticas, como o dourado e a tilápia, que geram renda para os pescadores, mas substituem a fauna nativa. Tudo isso, agravado mais recentemente por um cenário de estiagem extrema, que reduziu drasticamente o volume de água no rio e, consequentemente, sua capacidade de diluir a lama que escorreu da mineradora.

“O rio já estava sofrendo, e agora ainda vem essa lama pra acabar com tudo”, diz o aposentado Nelson Rocha, morador de Itapina, o distrito mais a oeste de Colatina. Ele culpa o desmatamento das matas ciliares pela secura do rio. “Os caras metem máquina nesses morros aí pra plantar braquiária (capim de pasto), a terra fica toda solta, e quando chove ela vai pra onde? Desce toda pra dentro do rio”, reclama ele, apontando para os cumes pelados e de pastagens ressecadas que preenchem a paisagem à nossa volta. “Tem muita nascente aí pra recuperar. Se reflorestar a margem do rio, pelo menos uns 100 metros de cada lado, e acabar um pouco com essa pesca clandestina, a coisa já melhorava, e melhorava muito.”

Com a lama já chegando ao mar, 16 dias e 650 km depois do estouro das barragens de mineração da Samarco emMariana (MG), pesquisadores e autoridades começam a adotar um discurso semelhante, chamando atenção para a necessidade de uma restauração em grande escala de toda a bacia hidrográfica do Rio Doce, e não apenas da remoção da lama. “Temos de aproveitar isso como uma oportunidade para testar um grande processo de recuperação ambiental”, disse ao Estado João Pessoa Moreira Júnior, um dos coordenadores da Diretoria de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas (DBFLO) do Ibama, que chegou a Colatina na quarta-feira para acompanhar os esforços de resgate de fauna na região.

O diretor do DBFLO, Paulo Fontes, disse que a recuperação do rio deve levar no mínimo uma década — mas que é possível. No que diz respeito aos peixes, apesar da grande mortandade verificada por onde a enxurrada de lama passou, ele ressalta que o Rio Doce possui muitos afluentes em Minas Gerais, que podem ter funcionado como rota de fuga para os animais, e que poderão repovoar a calha principal do rio uma vez que o impacto maior do desastre tenha se dissipado.

Já no Espírito Santo, a situação é mais complicada, porque há poucos afluentes. Por isso, no trecho capixaba do rio, a estratégia adotada foi a de coletar amostras de espécies nativas antes da chegada da lama e preservá-las em cativeiro.

Dúvidas

As principais dúvidas relacionadas ao impacto ambiental do desastre referem-se à composição química da lama e ao tempo que ela permanecerá no ambiente. Sem esses dois parâmetros, não há como prever quais serão seus efeitos a médio e longo prazo no ecossistema. Se for apenas lama, o impacto na parte mais baixa do rio, onde ela chegou mais diluída, pode ser passageiro. Se tiver alguma contaminação associada — por metais pesados — os efeitos serão muito mais duradouros, podendo se espalhar por toda a cadeia alimentar que permeia o ecossistema da bacia.

Quanto tempo vai levar para a lama decantar naturalmente; quanto dessa lama vai ficar depositada no fundo do rio (ou no fundo do mar); e por quanto tempo a lama que ficou aprisionada em Minas Gerais continuará escorrendo rio abaixo, com a chegada das chuvas? A lama vai contaminar os lençóis freáticos e ficar impregnada nas várzeas durante os períodos de cheia, ou vai escoar toda para o mar? São perguntas em aberto.

As informações inicias da Samarco eram de que os rejeitos que vazaram da barragem do Fundão não eram tóxicos. Mas a desconfiança na população é grande, e pesquisadores cobram dados da empresa — e dos órgãos públicos — para comprovar isso.

“É inadmissível que 15 dias após o acidente ainda não tenhamos uma comunicação clara sobre o conteúdo dessa lama”, diz o biólogo Dante Pavan, coordenador do Grupo Independente de Análise de Impacto Ambiental (Giaia), que estava em Colatina esta semana coletando amostras  de água e sedimento do Rio Doce, acompanhado pela reportagem do Estado.

Segundo ele, a região corre o risco de tornar uma “nova Cubatão”, em uma analogia ao município industrial paulista que foi símbolo da degradação ambiental no século passado. “Mesmo que a lama não seja tóxica, vai destruir toda a base da cadeia alimentar do rio”, diz. “A estrutura ecológica do sistema terá de ser toda reconstruída.”

O desmatamento e a degradação dos ambientes ao redor, complementa Pavan, transformam o Rio Doce numa espécie de ralo, em que “todo o ecossistema escorre para dentro dele e vai embora”, incluindo sedimentos, poluentes e a fertilidade do solo. Assim, a bacia inteira se deteriora.

A quantidade de boatos e informações desencontradas que correm com a lama pela calha do Rio Doce é enorme. A previsão inicial, poucos dias após o rompimento da barragem, era de que a lama atingiria Colatina no dia 10, e que o nível do rio subiria até 1,5 metro. Isso não aconteceu. A mancha de rejeitos só chegou à cidade na manhã do dia 19, e as águas subiram apenas levemente. No dia seguinte, foi bater no centro em Linhares, 75 km rio abaixo. E na noite de sábado, 21, tocou as ondas do Oceano Atlântico em Regência, o distrito de Linhares que fica na foz do Rio Doce. Detalhe: o rio mal chega no mar atualmente, de tão seco e assoreado que está.

Vista da superfície, a mistura de lama parece bastante diluída, com tonalidades variando do laranja ao marrom, dependendo do ângulo da luz e da quantidade de sedimentos. Alguns moradores dizem que a coloração é igual à de períodos chuvosos, quando o rio fica naturalmente mais barrento; enquanto outros dizem nunca ter visto nada parecido.

Os animais aquáticos não morrem imediatamente, mas morrem, “sufocados” pela argila fina dos sedimentos, que entope suas guelras. “Até Governador Valadares a lama matou tudo mesmo”, praticamente esterilizando a calha principal do rio, disse um analista ambiental que trabalha na contenção da lama. Os sedimentos mais pesados correm por baixo, e não há como saber quanto dele está se depositando no fundo do rio.

Relatos de mortandade de peixes começaram a aparecer em Colatina no sábado, e o abastecimento de água para a população foi suspenso desde quinta-feira. A Agência Nacional de Águas e o Serviço Geológico do Brasildivulgaram resultados da análise de amostras de água e sedimentos do Rio Doce colhidas no dia 14 em quatro pontos próximos do epicentro do desastre. Os dados indicam que as concentrações de metais nesses locais “não diferem significativamente dos resultados colhidos em 2010 e são compatíveis” com as normas de segurança do Conama (Resolução 357).

A polêmica de Noé

Um grande esforço de voluntários para resgatar peixes do Rio Doce em Colatina (ES), apelidado de operação Arca de Noé, virou motivo de polêmica entre pescadores, pesquisadores e autoridades ambientais. Uma grande quantidade de peixes e crustáceos foi retirada às pressas do rio antes da chegada da lama e transferida para lagos da região. O problema, segundo alguns especialistas, é que muitos desses peixes são de espécies exóticas (não nativas) que, se introduzidos numa lagoa onde eles ainda não existem, poderão gerar um novo problema ambiental.

Rio Doce tem mais de 70 espécies nativas de peixes, mas as que dominam a cadeia alimentar são um punhado de exóticas, incluindo o dourado, tucunaré, tilápia, piranhas e carpas — espécies trazidas de outras bacias ou até de outros continentes. Do ponto de vista da conservação da biodiversidade, o ideal seria manter essas espécies separadas das nativas. Mas na emergência gerada pela chegada da lama não houve esse controle, gerando uma preocupação de que os ecossistemas lacustres sejam agora impactados por esses predadores, assim como aconteceu no próprio Rio Doce.

Irritado com as críticas, o pesquisador Abrahão Elesbon, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (IFES), que ajudou a organizar a operação Arca de Noé, disse que “é fácil falar de um sofá com ar condicionado”. “O único peixe que tem valor comercial aqui é o exótico. Quem mata a fome do pescador é o exótico”, disse. Ele não soube precisar para onde foram levados todos os peixes, mas disse que um dos destinos, a Lagoa do Limão, já tem as mesmas espécies do rio, incluindo as exóticas.

Em Linhares, o casal Viviane Pianna e Sandro Siqueira estava à beira do Rio Doce no sábado de manhã, passando uma peneira na água alaranjada para resgatar alguns peixinhos e camarões que encontravam por ali. “Se salvar um já vai valer a pena”, disse Sandro, que usava uma luva de látex para encostar no rio. “Vai saber o que tem nessa água”, justificou. Viviane disse que levariam os peixes para a Lagoa Juparanã, um grande lago a cerca de 15 km da cidade, e que não acreditava que poderia causar danos ao ecossistema de lá, porque o lago já tinha conexão com o rio.

Autoridades ambientais ouvidas pela reportagem continuam a desaconselhar essa estratégia, ainda mais agora que os peixes que ficaram no Rio Doce já estão “contaminados” pela lama.

Salvamento seletivo

Diante da enorme mobilização popular gerada pela Arca de Noé em Colatina, a estratégia oficial do Ibama foi a de resgatar apenas as espécies nativas, com atenção especial às ameaçadas de extinção e endêmicas (que só existem na bacia do Rio Doce), incluindo alguns tipos de cascudos, bagres e piabinhas. Representantes do órgão federal, com apoio da Samarco, coordenaram uma triagem do material coletado pela operação e os peixes nativos foram levados para tanques, preparados em caráter emergencial, no campus do IFES em Itapina.

Rio abaixo, em Linhares, o Ibama se adiantou e organizou um esforço mais qualificado de coleta, voltado apenas para as espécies nativas. Os peixes foram levados para o campus do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). “O objetivo aqui não é quantidade, é qualidade”, disse Marcelo Polese, professor de aquicultura do IFES, que coordenou o trabalho de resgate em Linhares. A ideia é manter amostras geneticamente representativas dessas espécies em cativeiro, que poderão ser usadas para repovoar o rio em caso de necessidade. Cerca de 20 peixes, de espécies como piau e curimba, forma enviados no sábado para o CEPTA de Pirassununga, em São Paulo, um centro do ICMBio especializado em pesquisa e conservação de peixes de água doce.

A manutenção da diversidade genética é um ponto chave para o futuro da biodiversidade do rio, destaca o biólogoPavan. Ainda que as espécies nativas do rio não sejam completamente extintas pela lama, haverá inevitavelmente uma redução drástica e imediata do tamanho de suas populações, causando um processo de “afunilamento” genético, que compromete a capacidade de sobrevivência da espécie a longo prazo no ambiente. “O repovoamento do rio vai ser feito por um número de indivíduos muito reduzido”, explica Pavan. “Essa perda genética é irrecuperável; uma vez que um gene desaparece da população, não volta nunca mais.”

“Precisamos documentar e estudar muito bem o que está acontecendo aqui, para que isso não se repita”, conclui o pesquisador, que tem raízes familiares em Colatina e agora sonha em transformar uma antiga fazenda de seu avô, às margens do Rio Doce, em uma estação científica dedicada à revitalização ambiental e social da região.

Futebol, oposição e espionagem: conheça Mauricio Macri, novo presidente da Argentina

Por Aline Gatto Boueri, Vanessa M. Silva e Matheus Pimentel | Via Opera Mundi

Mauricio Macri: carreira na empresa do pai e no Boca Juniors. Agência Efe

Macri, até então prefeito de Buenos Aires, foi eleito presidente derrotando Daniel Scioli, candidato de Cristina Kirchner.

Em 2010, a jornalista Gabriela Cerruti escreveu uma biografia de Mauricio Macri em que afirmava que ele era o primeiro nome da direita com chances de chegar à Presidência da Argentina. Cinco anos depois, cumpriu-se a profecia da também deputada estadual de Buenos Aires alinhada ao kirchnerismo: Macri foi eleito para a Casa Rosada neste domingo (22/11) após derrotar o candidato governista, Daniel Scioli, e toma posse em 10 de dezembro.

Atual chefe de governo da cidade de Buenos Aires, Macri se formou em engenharia civil na UCA (Universidade Católica Argentina) e iniciou a carreira no mundo corporativo, no ramo de construção. Estudou também em universidades nos Estados Unidos, em Nova York e na Filadélfia. Trabalhou nas empresas do seu pai, Franco Macri, fundador e dono de um conglomerado que leva o nome da família e que atua em diversas áreas, como de automóveis, correio e indústria alimentícia.

Nas empresas do Grupo Macri, ocupou cargos de analista sênior, gerente-geral, vice-presidente e presidente. No entanto, não foi no mundo dos negócios que Mauricio Macri alcançou destaque público na Argentina. Em 1995, tornou-se presidente do maior clube de futebol do país, o Boca Juniors. Macri deixou o cargo somente para assumir o governo da cidade de Buenos Aires, em 2007, após uma gestão vitoriosa no Boca – um total de 17 títulos.

Trajetória política

Macri criou, em 2003, o partido político Compromisso pela Mudança (Compromiso por el Cambio), que dois anos depois deu origem a sua atual sigla, o PRO (Proposta Republicana). No mesmo ano, foi derrotado por Aníbal Ibarra na primeira tentativa de se eleger chefe de governo da capital do país. Ibarra foi destituído do cargo em 2006, após um incêndio na casa de shows República de Cromañón, que deixou 194 mortos.

Entre 2005 e 2007, Macri exerceu um mandato de deputado federal e foi duramente criticado por suas ausências a votações no Congresso. Segundo levantamentos da Câmara, o presidente eleito participou de 32 das 53 reuniões da casa em 2006, e, no total, esteve ausente em 277 das 321 votações.

Já em 2007, o novo presidente da Argentina não participou de nenhuma votação na Câmara. Nesse ano, Macri foi eleito chefe de governo, cargo para o qual obteve a reeleição quatro anos depois.

Boca Juniors

Durante um almoço com a embaixadora dos EUA Vilma Martínez, em 2010, Macri, reconheceu que sua gestão à frente da cidade de Buenos Aires não lhe proporcionou muitos eleitores em nível nacional, tal como fora revelado por documentos secretos divulgados pelo Wikileaks.

“Se tenho apoio político fora de Buenos Aires, 90% dele é por ter dirigido o Boca e 10% por ser chefe do governo de Buenos Aires”, disse.

Na campanha para a conquista da prefeitura de Buenos Aires em 2007, Macri foi inquestionavelmente beneficiado pelo sucesso na gestão à frente do time. No dia 20 de junho daquele ano, apenas cinco dias antes de o então candidato ganhar a eleição de seu concorrente, o kirchnerista Daniel Filmus, o Boca Juniors se sagrava campeão da Libertadores da América pela sexta vez.

Justiça

Macri chega à presidência processado por escutas telefônicas ilegais. Ele é acusado de associação ilícita para espiar Sergio Burstein, familiar de vítima do atentado à AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), e seu próprio cunhado, Néstor Daniel Leonardo. Em 2010, a denúncia contra Macri foi aceita e ele passou a responder na Justiça pelo caso. A ele, se imputa haver utilizado a estrutura da Polícia Metropolitana, criada por ele em 2008, para realizar espionagem ilegal em conivência com funcionários de seu governo.

A defesa de Mauricio Macri alega que não há provas suficientes de que ele esteja envolvido no esquema de espionagem. Em entrevista a um programa televisivo a dias do segundo turno, Macri foi questionado pelo jornalista e advogado Darío Villarruel sobre sua campanha anticorrupção enquanto está processado pela justiça e evadiu a resposta. O então candidato disse que a causa penal foi “uma invenção do kirchnerismo” e acusou Villaruel de querer constrangê-lo.

Em abril de 2013, a Polícia Metropolitana acompanhou operários contratados pelo governo da cidade de Buenos Aires para demolir uma oficina de reabilitação do hospital psiquiátrico José Tiburcio Borda. Diante da resistência de médicos e pacientes, a força policial os reprimiu com violência e deixou 50 feridos. Macri havia sido acusado de envolvimento no caso, mas uma sentença o livrou de mais um processo em fevereiro deste ano, nove meses antes de sua vitória nas eleições.

Uma contribuição ao debate sobre os limites da dívida pública

Por Heldo Siqueira

A proposta do Senador José Serra para a trajetória da dívida pública tem provocado um acalorado debate no meio econômico. A ideia é estipular um limite para a expansão da dívida pública, de acordo com a Receita Corrente Líquida [1]. A base governista desqualificou a proposição, argumentando que trata-se de “perenizar a crise”, pois estabelece limites draconianos. Outros críticos afirmam que os valores preconizados são arbitrários, de maneira que não servem para estipular qualquer trajetória para a dívida. Independente do apoio a uma ou outra proposta, acredito que se trate de uma oportunidade interessante para discutir o papel da política monetária do Banco Central na trajetória da dívida, uma vez que a própria dívida está sendo discutida.

Pode ser interessante estabelecer para o Banco Central, assim como é a proposta para o executivo, um limite para sua margem de manobra. A taxa Selic, estabelecida pelo comitê de política monetária (Copom), é o principal índice de ajuste da dívida pública, uma vez que remunera os títulos públicos e são o critério de rolagem da dívida. A tabela 1 dá uma ideia da trajetória da dívida e de seu reajuste via Selic.

Tabela 1 – Variação da dívida pública e taxa selic [2]

Uma vez que a taxa selic reajusta os títulos da dívida brasileira, a aproximação feita pela tabela 1 mostra o impacto da taxa na dívida. Ou seja, reduzir a taxa de juros pode provocar uma diminuição significativa da dívida pública. Trata-se, efetivamente, de uma questão que os desenvolvimentistas vem debatendo, em relação ao diferencial da taxa de juros brasileira em relação ao títulos públicos de outros países. A tabela 2 mostra esse diferencial em relação aos EUA.

Tabela 2 – Diferencial de juros real entre Estados Unidos e Brasil [3]

Entre 2008 e 2015 menor diferencial de juros real observado foi de 2,77 p.p. Além disso, esse diferencial chegou a 8,4 p.p. em 2011. Uma proposta que talvez interessasse aos desenvolvimentistas seria estabelecer um limite para esse diferencial. Uma ideia dos impactos positivos dessa proposta pode ser dada analisando a trajetória da dívida pública, caso se estabelecesse um diferencial de juros real em (também arbitrário) 2,5 p.p.

Tabela 3 – Dívida pública brasileira entre 2008 e 2015 com diferencial de juros de 2,5 p.p.

A Tabela 3 mostra que, caso o critério tivesse sido adotado, ao invés de ter havido expansão da relação dívida/PIB, teria havido diminuição do indicador. Ou seja, os problemas alegados na condução da política monetária estariam completamente saneados, de maneira que seria possível estar discutindo como estabelecer uma política fiscal anticíclica. É importante salientar que, assim como a proposta do Senador José Serra não impede o executivo de contrair dívida, a proposta não impossibilita o Copom de utilizar a política monetária para combater a inflação, uma vez que pode manobrar a taxa selic entre 0 e 2,5 p.p. de diferencial. A ideia é apenas limitar a utilização desse instrumento no combate à inflação.

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Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.

Referências:

[1] http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2015/10/projeto-de-serra-para-engessar-divida-publica-e-adiado-com-pedido-coletivo-de-vista-7752.html

[2] Utilizou-se o reajuste de 12 meses da taxa selic mensal (Ipeadata) para captar a trajetória da selic e não seu valor final do ano.

[3] Os dados brasileiros são do IBGE, via Ipeadata e dos Estados Unidos. Utilizou-se a taxa de juros americana de Dezembro de 2007, pois em 2008 foram feitas diversas modificações

http://pt.global-rates.com/taxa-de-juros/bancos-centrais/bancos-centrais.aspx

Os ataques da Globo contra a Rússia

Por José Carlos de Assis

Vale suspender por um minuto a discussão da crise brasileira para gastar esse tempo numa avaliação da cobertura pela TV Globo do recente atentado em Paris. Um repórter baseado em Nova Iorque afirmou de forma categórica que a Rússia atacava apenas os dissidentes do Governo sírio. Na quinta-feira, o jornal Globo atribuiu à “coalizão”, e não à Rússia, os ataques às bases financeiras do Estado Islâmico, ou seja, à frota de caminhões transportadores de petróleo. No contexto geral da cobertura, a minimização do papel crucial que a Rússia está desempenhando na luta contra os terroristas é escandalosa.

A que se deve essa interpretação dos eventos mundiais de forma enviesada, servida quase toda a noite aos telespectadores brasileiros? Evidentemente, parte disso corresponde à imbecilidade dos jornalistas da Globo que ainda se encontram no marco da Guerra Fria. Contudo, há algo mais profundo. A vassalagem da Globo aos interesses geopolíticos norte-americanos reflete a incapacidade de avaliar nossos próprios interesses prospectivos, hoje muito mais ligados à Ásia do que aos Estados Unidos e à Europa. É algo que não vale só para os banqueiros, por sua conexão íntima com o sistema financeiro especulativo ocidental.

Do lado da Rússia temos os BRICS. Dentro dos BRICS a China. Esta é o maior importador de commodities do Brasil e um grande financiador, e pode tornar-se maior ainda caso a administração brasileira comece a governar. Na vinda do primeiro ministro Li Keqiang ao Brasil, foi-nos oferecida uma linha de crédito de 50 bilhões de dólares, através da Caixa Econômica Federal, que até agora não foi usada. Considerando a disposição de outros grandes bancos chineses de financiar empresas brasileiras (a Petrobrás que o diga), não precisamos dos bancos ocidentais com suas taxas escorchantes e suas invasivas agências de risco.

Por que, então, a rede Globo menospreza a Rússia, nosso parceiro no BRICS, em favor dos Estados Unidos, cujo principal produto que nos tem fornecido é o dos economistas neoliberais que ditam as regras para que façamos o melhor ajuste fiscal do mundo? Claro, devido à forte posição russa na defesa da legitimidade do Governo Assad, na Síria, que resiste a ter o mesmo destino que os Estados Unidos reservaram para a Líbia, os neoconservadores norte-americanos querem a todo custo atrair os russos para uma guerra fora de seu território. Na própria Rússia não dá, porque é uma potência nuclear. Mas poderia ser na Ucrânia ou Síria, para o que seria importante subtrair da Rússia um parceiro econômico como o Brasil.

O que embaraça os norte-americanos é que perderam o controle de sua criatura, ou seja, o Estado Islâmico, por eles financiado contra o Governo legítimo da Síria. Com isso, estão sendo forçados a aceitar a colaboração da Rússia, através da França, para atacar o grupo terrorista. Esse embrulho geopolítico é demais para os comentaristas da Globo, aliados ideológicos da CIA e de outras agências de informação e de manipulação da opinião pública que os alimentam de notícias nos EUA. Ah, a Globo chama Assad de ditador. Será que ele é mais ditador que a monarquia da Arábia Saudita, criada pelas potências ocidentais, e que mantém seus súditos, e sobretudo suas súditas, em regime de total opressão?

Se a Globo quiser ser imparcial na cobertura internacional, seria importante que abrisse sucursal em Moscou, muito mais importante para nós, sob o aspecto econômico e político, do que Londres ou Paris, potências de segunda classe. Afinal, a Rússia é a segunda maior potência militar do mundo, e os fatos na Síria (como, antes, na Criméia e na Geórgia) indicam que é melhor levá-la a sério.

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José Carlos de Assis é economista, doutor em Engenharia de Produção, autor do recém-lançado “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, ed. Textonovo, SP.

Fundo de pensão americano comprou terras irregularmente no Brasil, diz The New York Times

Por Simon Romero | Via MST

Gigante financeira norte-americana e parceiros brasileiros “despejaram centenas de milhões de dólares em aquisição de terras aráveis no Cerrado.

Gigante norte-americana do investimento que administra as contas de aposentadoria de milhões de funcionários de universidades, professores de escolas públicas e outros trabalhadores, a TIAA-Cref se orgulha de promover valores socialmente responsáveis, e celebra sua participação no processo de redação dos princípios das Nações Unidas para compra de terras agrícolas, com o objetivo de promover a transparência, sustentabilidade ambiental e respeito pelo direito à terra.

Mas documentos demonstram que as incursões da TIAA-Cref à fronteira agrícola brasileira podem ter avançado na direção oposta.

A gigante financeira norte-americana e seus parceiros brasileiros despejaram centenas de milhões de dólares em aquisição de terras aráveis no cerrado, uma imensa região à beira da floresta amazônica na qual vem acontecendo desmatamento em larga escala para expansão da agricultura, o que alimenta preocupações ambientais.

Em uma complicadíssima empreitada, o grupo financeiro norte-americano e seus parceiros acumularam vastas propriedades agrícolas novas, a despeito da decisão do governo brasileiro, em 2010, de proibir participação estrangeira em transações dessa escala.

Embora a ação governamental tenha bloqueado as ambições de outros investidores estrangeiros, a TIAA-Cref levou adiante suas intenções em uma parte do Brasil onde grassam os conflitos de terras, o que expõe a empresa e seus parceiros a acusações de que adquiriram terras de um especulador de credenciais suspeitas, acusado de empregar pistoleiros para roubar terras de agricultores pobres.

Os documentos possibilitam vislumbrar como um dos maiores grupos financeiros dos Estados Unidos participou daquilo que muita gente nos países em desenvolvimento define como apropriação indevida de terras.

Respondendo à disparada no interesse internacional por terras no país, o ministro da Justiça brasileiro em 2010 limitou significativamente a participação de estrangeiros em aquisições de terras agrícolas em larga escala.

Investidores ocasionalmente encaram esse tipo de transação como maneira de diversificar suas carteiras. Mas alguns funcionários de governos e ativistas afirmam que elas resultam na expulsão de agricultores pobres, na transferência do controle de recursos vitais de produção de alimentos a uma elite mundial, e na destruição de tradições agrícolas em troca de plantações em escala industrial que produzem comida para exportação.

“Já tinha ouvido falar de fundos estrangeiros tentando contornar a legislação brasileira, mas algo nessa escala é espantoso”, disse Gerson Teixeira, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária e assessor de congressistas brasileiros, se referindo aos documentos sobre as aquisições de terras aráveis brasileiras pela TIAA-Cref.

Algumas das constatações são parte de um novo relatório por pesquisadores da Rede Social pela Justiça e Direitos Humanos, uma organização brasileira, e da Grain, uma organização sediada na Espanha que acompanha as aquisições mundiais de terras.

Joint Venture com a Cosan

As revelações sobre a TIAA-Cref demonstram que suas terras aráveis no Brasil chegaram aos 256.324 hectares em 2015, ante 104.359 em 2012, mais ou menos o momento em que a empresa começou a expandir suas transações, conduzidas por meio de uma joint venture com a Cosan, gigante brasileira do açúcar e biocombustíveis.

Stewart Lewack, porta-voz da TIAA-Cref, concordou em revisar diversos aspectos da complexa estruturação dessas transações, mas se recusou a discutir as aquisições de terras aráveis de forma direta. Ele intermediou outros contatos com executivos da Cosan, controlada por Rubens Ometto, bilionário cuja família opera no setor do açúcar desde os anos 30.

“A Cosan tem 70 anos de história na administração de terras agrícolas no Brasil, e tem compromisso para com elevados padrões de responsabilidade no investimento por meio das entidades que controla”, afirmou uma porta-voz da Cosan em declaração.

As duas empresas começaram a adquirir terras aráveis no Brasil em 2008, depois de formar uma joint venture chamada Radar Propriedades Agrícolas, com 81% de participação de uma subsidiária da TIAA-Cref e 19% da Cosan. Embora a Cosan informe às autoridades brasileiras que controla a joint venture por meio de seu assento no conselho da empresa, a TIAA-Cref lista a Radar como uma das “afiliadas nas quais temos participação majoritária”.

Então surgiram as medidas brasileiras de repressão a aquisições de terras aráveis por estrangeiros, em 2010, um período de crescente nacionalismo quanto aos recursos naturais do país, exemplificado pelos esforços de impor maior controle ao setor de energia.

Na agricultura, as mudanças envolviam limitar a 5.000 hectares as vendas de terras a estrangeiros, a proibição a que eles controlassem mais de 25% das terras de qualquer município e a imposição de limites às operações de subsidiárias brasileiras de empresas estrangeiras.

“As medidas impuseram um freio ao investimento estrangeiro em terras brasileiras”, diz Kory Melby, norte-americano que oferece consultoria a investidores em agricultura no Brasil.

Mas em lugar de reduzir a escala de suas operações, a TIAA-Cref intensificou as aquisições de terras agrícolas brasileiras, se concentrando especialmente na fronteira agrícola dos Estados nordestinos do Maranhão e Piauí. Em 2012, a empresa criou um fundo mundial cujo foco era a compra de terras agrícolas no Brasil, Austrália e Estados Unidos, atraindo investimentos de fundos de pensão suecos e canadenses.

José Minaya, executivo da TIAA-Cref que responde pelos investimentos do grupo em terras agrícolas, defende esse tipo de transação, afirmando que elas são uma maneira de adquirir “um recurso finito” em um momento de crescente demanda mundial por alimentos.

“O Brasil nos oferece diversificação em termos de safras e climas”, disse Minaya a investidores em um vídeo sobre aquisição de terras agrícolas no maior país da América Latina.

Por conta da limitação ao investimento estrangeiro imposta em 2010, a TIAA-Cref e seus parceiros brasileiros criaram uma joint venture financeira para adquirir terras agrícolas. O grupo norte-americano detém 49% e a Cosan tem 51% de participação na empresa, de acordo com documentação apresentada às autoridades regulatórias brasileiras.

Embora o novo empreendimento no papel pareça ser uma empresa separada, na prática é difícil distingui-lo da parceria precedente.

As duas compartilham de muitos dos mesmos funcionários e executivos de primeiro escalão, e funcionam em escritórios na avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo, de acordo com pessoas conhecedoras das operações.

Além disso, o financiamento para as aquisições de terras agrícolas provém primariamente de subsidiárias da TIAA-Cref, em uma espécie de empréstimo que pode ser convertido em ações, de acordo com a documentação apresentada às autoridades regulatórias.

Os pesquisadores da Grain argumentam que essa estrutura empresarial torna possível à TIAA-Cref ocultar o controle que ela exerce sobre as terras agrícolas adquiridas.

“Eles podem dizer o que quiserem sobre o controle, mas a questão é que” essas estruturas “foram criadas apenas com o propósito de canalizar fundos da TIAA-Cref para terras agrícolas no Brasil”, disse Devlin Kuyek, pesquisador sênior da Grain.

Em declaração, a Cosan contesta essa posição. “Em todas as suas aquisições”, a joint venture “segue rigorosamente a legislação em vigor”, a companhia afirmou.

Os ativistas não acusam a TIAA-Cref e a Cosan de promoverem diretamente o desmatamento do cerrado. Em lugar disso, afirmam que as empresas adquiriram terras que já haviam sido desmatadas e obtidas por especuladores que podem ter usado táticas impiedosas.

Relações com grilheiro

O relatório da Grain registra como a TIAA-Cref e a Cosan parecem ter adquirido diversas fazendas controladas por Euclides de Carli, uma figura nebulosa do mundo dos negócios descrito por legisladores, estudiosos, e agricultores espoliados brasileiros como um dos mais poderosos “grileiros” dos Estados do Maranhão e Piauí.

Os grileiros são conhecidos por suas táticas de prestidigitação burocrática, entre as quais a falsificação de títulos de propriedade rural guardados em latões cheios de insetos, o que os faz parecer antigos e explica o apelido.

Alguns grileiros também forçam agricultores a abandonar suas terras de diversas maneiras, o que inclui intimidar os ativistas que lutam pelo direito à terra e até assassinar agricultores pobres.

No caso de Carli, estudiosos brasileiros já descreveram como ele forçou dezenas de famílias a abandonar suas terras, usando táticas como a destruição de safras ou a queima da casa de um líder comunitário. Um proeminente legislador maranhense também acusou Carli de orquestrar o assassinato de um trabalhador rural por conta de uma disputa de terras.

Carli, que já foi alvo de investigações oficiais por suas compras de terras, não respondeu a pedidos de comentário. Em comunicado, a Cosan reconheceu que sua joint venture havia adquirido terras controladas por Carli, mas insistiu em que uma revisão abrangente em nível municipal, estadual e federal não havia identificado “qualquer processo criminal em nome do Sr. Euclides de Carli”.

“A avaliação conduzida”, afirmou a Cosan, “precisa observar documentos oficiais e informações que baseiem a segurança da aquisição”.

Mas promotores públicos que conhecem a atuação de Carli ainda assim expressaram surpresa por investidores proeminentes realizarem esse tipo de transação quando uma simples busca na Internet revela uma longa lista de acusações de apropriação indébita de terras contra Carli.

“Euclides de Carli é um dos principais grileiros da fronteira agrícola brasileira”, disse Lindonjonson Gonçalves de Sousa, promotor público que investigou as transações de terras de Carli.

“Não deveria ser segredo para pessoa alguma que ele tem presença proeminente nos conflitos de terra na região”.