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A longa marcha nacional da insensatez

Por Luis Nassif | Via Jornal GGN

Nunca foi tão difícil prever cenários para o país como agora.

Em geral montam-se cenários identificando duas ou três variáveis-chave e um duas possibilidades, no máximo três para cada uma.

Hoje em dia, a quantidade de variáveis indefinidas é inédita.

  1. Quanto tempo mais perdurará a crise política e quais seus efeitos sobre as tentativas de impeachment?

  2. A Comissão de Justiça da Câmara dará ou não aval para o julgamento de Eduardo Cunha pela casa? Dando, haverá votação aberta ou fechada? Sendo fechada, ele será condenado ou absolvido?

  3. Sendo condenado ou absolvido qual será o encaminhamento que dará aos pedidos de impeachment da Presidente?

  4. Com a prisão de Delcídio Amaral, qual será a solução de continuidade das articulações do governo?

  5. No festival de delações em curso, por quanto tempo ainda serão blindadas as lideranças da oposição? Se Aécio Neves e José Serra forem engolfados pelas delações, como ficará a oposição?

  6. Quais os desdobramentos para a situação – e para Lula – de uma eventual delação de Delcídio Amaral?

  7. Que outros políticos ou Ministros do STF foram mencionados por Delcídio nos demais grampos que ainda não foram divulgados?

  8. Saindo o pacote fiscal, em quanto tempo se recompõem as finanças públicas?

  9. Não saindo, como estará a situação dos estados a partir de abril, quando cessam os efeitos da arrecadação do IPVA?

  10. O fator Dilma: qual o seu fôlego para recompor a governabilidade em caso de aumentou ou redução da crise política?

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Desse conjunto vasto de alternativas têm que emergir duas saídas para a crise:

  1. Recomposição da base de apoio político permitindo aprovar uma saída fiscal.

  2. Dilma Rousseff começar a governar.

Essa barafunda de alternativas mostra nitidamente o tamanho da crise institucional.

O Congresso converteu-se em um arquipélago de grupos sem rumo e sem liderança. O mesmo ocorre com os diversos partidos políticos, alguns na defensiva, outros na ofensiva, mas todos prisioneiros de interesses imediatos e paroquiais.

A exposição das vísceras do presidencialismo de coalisão não poupa ninguém, nem governo nem oposição.

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Por outro lado, todo o aparato judicial – Ministério Público, Polícia Federal e tribunais em geral – não parecem dispostos a nenhum tipo de trégua, alguns claramente aliados com a mídia, outros inibidos pelo chamado clamor das ruas.

O destempero da Ministra Carmen Lucia, do STF, é uma demonstração clamorosa de que o show midiático penetrou em todos os poros do poder.

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Daqui para a frente, há que se aguardar e iniciar a contagem regressiva para dois eventos.

O primeiro, é a calmaria de fim de ano, com o recesso parlamentar. A segunda são  os efeitos do vácuo fiscal em 2016.

Os estados conseguem garantir o primeiro trimestre com a arrecadação do IPVA. A partir de abril, a crise fiscal pode bater pesado nos estados e municípios. Muitos deles serão incapazes de pagar a própria folha.

Se não se conseguir virar o ano com perspectivas otimistas mínimas, as comportas do desemprego serão abertas.

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Não se sabe o que poderá interromper essa marcha da insensatez. Uma hora cairá a ficha geral para interromper essa marcha da insensatez. A incógnita é quanto mais a crise terá que se aprofundar para se chegar ao bom senso.

Desastre social teria sido menor sem espetáculo para a televisão

Por J. Carlos de Assis

Foto: Colégio Web

As investigações da Lava Jato revelaram, por trás da corrupção real, a corrupção de caráter de seus próprios autores que, por vaidade ou presunção, atropelam com prisões ilegais princípios mais elementares de Justiça e direitos consagrados dos cidadãos, como habeas corpus, presunção de inocência e julgamento com o devido processo legal. Estamos na mais aberrante situação de ditadura do Judiciário, tão detestável quanto a ditadura militar, e pior que ela pois fica sob o véu da legalidade.

Não é legítimo o poder invocado pelo Judiciário do Paraná, sob cobertura do Supremo, para criar legislação tópica no lugar de seguir a lei geral. Seus executores se superpõem ao Legislativo e ao Executivo quando, por exemplo, usam de subterfúgios para justificar prisões por tempo indeterminado com óbvio propósito de arrancar dos moralmente torturados alguma forma de delação. Isso não é Justiça. É arbítrio. Em qualquer país civilizado chama-se ditadura. Ou justiça do Cádi, como ensinou Max Weber.

Já escrevi que quem decreta prisão em flagrante de suspeito por ter apontado em declarações gravadas ilegalmente sua intenção de corromper quatro ministros do Supremo teria de tê-lo tratado ou como louco fanfarrão sem crédito, ou como potencial colaborador numa delação premiada. Por caminhos tortuosos, os ministros suspeitos deram crédito apenas à parte da gravação que falava numa fuga rocambolesca, cobrindo a si mesmos como a toga dos novos intocáveis e se escondendo por trás da situação de autoridade.

Justiça do Cádi, segundo Weber, “não conhece qualquer julgamento racional”. É a matriz do direito consuetudinário anglo-saxônico, diferente de nossa matriz romana, racional. Atende apenas ao arbítrio do juiz, não raro sob influência da opinião pública. Isso é particularmente assustador numa democracia de massas. Nesta, “a opinião pública é a conduta social nascida de ´sentimentos´ irracionais. Normalmente, ela é encenada, ou dirigida, pelos líderes partidários e pela imprensa”. No nosso caso, podemos dizer pela imprensa, a serviço de uma certa ala do poder político.

Deixo muito claro que aplaudo a parte criminal legal da Operação Lava Jato. Mas não posso concordar com a virtual paralisação da Petrobrás e da cadeia de petróleo, com a destruição de grandes construtoras brasileiras e de centenas de milhares de empregos, e com o comprometimento de toda a economia brasileira, lançada numa contração este ano que pode chegar a 5%. Se tivesse sido feita com maior discrição, sem a conotação de investigação-espetáculo, a operação poderia chegar aos mesmos resultados criminais, sem prejudicar a economia e sem atropelar a legalidade.

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José Carlos de Assis é jornalista e economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

Banco dos BRICS anuncia primeiros projetos

Via Sputnik Brasil

Abril de 2016 será um mês importantíssimo para o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS. Será o mês da assinatura do primeiro pacote de projetos da entidade, disse o seu vice-presidente, Vladimir Kazbekov.

Kazbekov, de nacionalidade russa, participou da cerimônia de abertura da cúpula da mídia dos países-membros do grupo BRICS (grupo informal composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A cúpula acontece em Pequim e marca mais um passo na consolidação do espaço midiático — e, pelos vistos, econômico — do grupo.

“Nos próximos meses, nós enfrentamos um grande trabalho, vista a necessidade de formar o pessoal do banco, de elaborar os primeiros projetos. É uma tarefa muito grande e séria, que precisa ser realizada para que possamos, até finais de abril [de 2016], preparar para assinatura o primeiro pacote, que conterá pelo menos um projeto de cada das partes”, ressaltou Kazbekov,

O vice-presidente do banco destacou que a Rússia e a Índia já apresentaram os seus projetos, o projeto brasileiro está chegando “um dia desses”.

O Novo Banco de Desenvolvimento ainda não está funcionando. Está em uma última etapa da constituição, mas o funcionamento da entidade é iminente, fato que é confirmado por vários especialistas internacionais. Por isso, “apesar de o banco não estar operando ainda, existe um grupo de trabalho temporário” que está examinando os projetos, frisou o representante russo.

Yuan abre passo

Vladimir Kazbekov destacou uma das ideias mais populares recentemente na economia internacional: intercâmbio em moeda nacional, sem recurso ao dólar estadunidense. Neste sentido, o vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento acha que o yuan renminbi, “moeda do povo” da China, seria uma ótima opção para começar.

“Claro, tendo em conta a estabilidade da moeda chinesa e do volume do mercado de dívida chinês, eu acredito que a entrada no mercado chinês para fazer empréstimos em yuans será um dos primeiros passos para garantir a criação dos fundos do Novo Banco de Desenvolvimento”, disse Kazbekov.

O yuan já teve várias experiências, que foram qualificadas de positivas, de uso duplo com o rublo russo, em regiões fronteiriçãs entre a Rússia e a China, em 2005.

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS foi anunciada na cúpula do grpo em Fortaleza, no Brasil, em 2014. Em 2015, a ideia se solidificou e o banco obteve uma sede, em Xangai (China). O principal objetivo da entdidade será financiar projetos de infraestrutura nos países-membros do grupo BRICS e em países emergentes.

O porrete e o vira-lata

Por Mauro Santayana | Via Brasil 247

Todo dia acordo no lado errado do capitalismo. Foto: Street Art

No momento em que se levantam, novamente, as vozes do neoliberalismo tupiniquim, exigindo uma rápida abertura comercial do Brasil para o exterior, e o PMDB inclui, em seu documento Uma Ponte para o Futuro, a necessidade do Brasil estabelecer acordos comerciais com a Europa e os EUA, lembrando a iminência e a imposição “histórica” do Acordo Transpacífico, e em que mídia tradicional segue com sua insistência em defender como modelo a ridícula Aliança do Pacífico, a União Européia – depois de enrolar, durante anos, nas negociações com o MERCOSUL – parece que vai simplesmente “congelar” as negociações entre os dois blocos nesta sexta-feira.

A razão é clara.

Por mais que se esforcem os vira-latas tupiniquins, fazendo tudo que os gringos querem, oferecendo quase 90% de liberação de produtos, os protecionistas europeus simplesmente se recusam a concorrer com o Mercosul na área agrícola – justamente onde somos mais competitivos.

E, além disso, como se não bastasse, a UE como um todo, para dificultar, hipocritamente, ainda mais o fechamento de um acordo, exige o equivalente a uma rendição total da nossa parte:

A liberação de quase 100% dos produtos e livre acesso, para suas empresas, como se nacionais fossem, a setores como serviços de engenharia e advocacia e ao gigantesco mercado de compras governamentais brasileiro, de dezenas de bilhões de dólares.

O recado é óbvio:

Não adianta ficar ganindo e mendigando com olhar pidão, para ter atenção ou uma migalha, porque não vamos ceder um centímetro, e, mesmo que vocês façam tudo, tudo o que queremos, poderão não ganhar nada em troca, está claro?

Como lembramos outro dia, grandes potências impõem acordos comerciais, e os pequenos países os assinam.

Nações que não tem uma indústria tão desenvolvida como a nossa, como a Argentina, ou outras, que, com salários miseráveis, se transformaram em mera linha de maquila, tendo prejuízos no comércio exterior, apesar de trabalharem como burros de carga montando produtos destinados a terceiros mercados, como o México (vide O México e a América do Sul), não tem outra saída a não ser se associar a outros países (esse é o projeto do Brasil para a América do Sul, por meio do Mercosul e da UNASUL) ou assinar acordos comerciais desvantajosos, para se integrar, subalternamente, à economia mundial.

Países maiores, com grandes mercados consumidores reais ou potenciais, como a China, preferem fechar suas economias durante anos, dedicando-se a desenvolver seu mercado interno, a indústria e a tecnologia, abrindo seletivamente seu território a empresas estrangeiras e cobrando um alto preço para quem quisesse ter acesso a ele, para depois se impor, comercialmente, ao mundo.

A pergunta é a seguinte:

Vamos nos atrelar, como um mero vagão de commodities, ao trem puxado pela Europa e os Estados Unidos, onde sempre seremos tratados, apesar de nossos eventuais progressos, como um povo de segunda classe, ou, em nossa condição de oitava economia do planeta, vamos tentar estabelecer um projeto próprio e soberano, de longo prazo, como fazem outras potências intermediárias do nosso tipo, como a China, a Rússia e a Índia, que, aliás, não têm – nenhuma delas – acordos de livre comércio com a Europa ou os EUA?

Tentar emular, abjetamente os outros, e lamber o sapato alheio é fácil.
Difícil é trabalhar para erguer – assumindo a missão e o sacrifício – no quinto maior território do mundo – uma nação justa, forte, e independente, e legá-la, como fizeram em outros países que muitos no Brasil admiram e “copiam”, como um estandarte de honra e de prosperidade, para os nossos filhos.

 

Congresso decide futuro de Delcídio, Cunha e do governo

Por Gabriela Salcedo | Via Congresso em Foco

Governo aposta na aprovação da revisão da meta fiscal para não entrar em colapso. No Senado, oposição prepara representação contra petista. Na Câmara, Cunha tenta barrar sua cassação.

A bancada vazia do senador Delcídio do Amaral no Senado. Oposição articula representação contra o ex-líder do governo. Antônio Cruz/ABr

A semana promete ser decisiva para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e para o governo. Os dois parlamentares podem ficar mais perto da cassação do mandato. Já o Executivo, que anuncia nesta segunda-feira (30), um corte de R$ 10,7 bilhões no orçamento, corre contra o relógio para que o Congresso Nacional aprove a revisão da meta fiscal para 2015. Do contrário, poderá agravar a crise que afeta suas contas.

Partidos de oposição pretendem entrar com pedido de cassação do mandato de Delcídio no Conselho de Ética, por quebra de decoro parlamentar. Receosos de o pedido não partir da Mesa, uma vez que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também é investigado no Supremo Tribunal Federal pela Operação Lava Jato, o PPS, o PSDB, o DEM e a Rede se movimentam para entrar com representação nesta terça-feira (1º) contra o ex-líder do governo. O presidente do Senado, no entanto, tem dado sinais de resistência à instalação do Conselho de Ética.

Na Câmara, a promessa também é de dias agitados. Nesta terça-feira o Conselho de Ética se reunirá para votar o parecer preliminar de Fausto Pinato (PRB-SP). O deputado já se manifestou pelo prosseguimento da ação contra o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo ele, a representação apresentada pela Rede e pelo Psol traz indícios que podem ser considerados como quebra de decoro parlamentar do peemedebista, o que o fez redigir parecer pela admissibilidade do caso. Os integrantes do conselho deverão votar agora pela continuidade ou não do processo. Entre outras coisas, Cunha é acusado de ter mentido à CPI da Petrobras ao negar a existência de contas na Suíça.

Antes de a batata assar para o seu lado, Cunha pretende acender outra fogueira. Ele anunciou que pretende decidir, no início desta semana, sobre todos os sete pedidos de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, que ainda estão pendentes de decisão. No Conselho de Ética, o deputado fluminense depende do voto de três petistas para impedir o avanço de seu processo de cassação.

Meta fiscal

Quanto às votações, a sessão conjunta para decidir sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2016 e o projeto de lei (PLN 5/15) que define a nova meta fiscal a ser cumprida em 2015. Prevista para a última semana, a votação foi adiada para esta terça devido à prisão de Delcídio. Uma vez aprovada a revisão da meta deste ano, o governo fica autorizado a cumprir déficit primário de até R$ 119,9 bilhões.

O relatório do projeto da LDO 2016 que será apreciado contraria a vontade do governo. A equipe econômica de Dilma tentou aprovar redução de pelo menos R$ 20 bilhões na meta. No entanto, a Comissão Mista de Orçamento não autorizou. Com isso, a proposição estabelece que a União e seus entes federados apresentem resultado fiscal de R$ 43,8 bilhões no próximo ano.

Uma missão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s desembarca no Brasil para uma nova análise do quadro político e econômico do país, como informa o jornal O Estado de S.Paulo. A chegada dos analistas da S&P surpreendeu negativamente o mercado financeiro. Há menos de dois meses a agência retirou o grau de investimento – o selo de bom pagador – e colocou a nota do Brasil em grau especulativo para os investidores. O receio dos analistas e do governo é que novo rebaixamento esteja em curso com o agravamento das crises política e econômica.

Supersalários

A pauta do Plenário da Câmara está trancada com proposição que também pode gerar muitos dissabores aos planos fiscais do governo. Será apreciado em plenário substitutivo ao Projeto de Lei 3.123/15, do poder Executivo, que desfigura o texto do governo para regulamentar o teto do funcionalismo. Pela nova versão, os servidores poderão receber até mais que o dobro do atual teto, que é de R$ 33,7 mil, ou seja, mais de R$ 67,5 mil.

Já o Senado deverá decidir sobre a Medida Provisória 697/15, que abre crédito extraordinário de R$ 950 milhões em favor dos Ministérios da Justiça, das Relações Exteriores, dos Transportes, da Defesa e da Integração Nacional.

Entre as despesas previstas com o montante, o Ministério da Integração Nacional receberá R$ 610 milhões para atender as populações vítimas de desastres naturais. A medida destina também R$ 300 milhões para o Ministério das Relações Exteriores, que devem ser utilizados no pagamento de aluguéis de imóveis, salários de auxiliares locais e auxílio-moradia de servidores de 227 representações diplomáticas no exterior (embaixadas, consulados e escritórios).

Duas decisões extemporâneas, um ano depois

Por Hélio Silveira | Rio de Janeiro, 27/11/2015

Levy e Dilma. Foto: Estadão

Em 27/11/2014 publicamos o artigo “Duas decisões extemporâneas: Será a oficialização da deflação e recessão global? no Blog dos Desenvolvimenistas.

Comentava-se duas notícias relevantes, uma externa e a outra interna:

Externa: A decisão da OPEP, em 27-11-14, de manter a oferta do petróleo.

Interna: A Presidente Dilma ao apresentar seu trio econômico: Ministro da Fazenda; do Planejamento e o Presidente do Banco Central anuncia aumento dos juros e um forte ajuste fiscal. Comentei que as perspectivas eram negativas, pois, tal qual 2011, ao não perceber que a situação econômica externa/interna já era de recessão, em ambas as ocasiões promoveu aumento de juros e corte de despesas.

Comentaremos, então, os principais fatos econômicos de 2015:

Vemos que a economia mundial continua em sua trajetória de recessão, desde 2008, caminha para o 8º ano de baixo crescimento, apesar das políticas monetárias de afrouxamento de liquidez e juros baixos nas principais economias centrais. A liquidez beneficia a valorização/manutenção dos valores dos ativos – o índice S&P 500 de 27/11/14 à 27/11/15 valorizou 1%, enquanto o desemprego se mantem firme na maior parte do mundo.

De fato, tornou-se regra manter política monetária frouxa e política fiscal austera, sendo a resultante o baixo crescimento e manutenção do desemprego, gerando, por sua vez o desajuste social e político.

Em janeiro de 2015, conforme nossa previsão, a queda da cotação do petróleo, provocou queda e deflação de preços nos principais países. Como resposta, não restou aos bancos centrais aumentaram suas políticas de afrouxamento de liquidez. o que teve como consequência o aumento do dólar (manchete do relatório Itau BBA : “BCs aliviam, Brasil na contra mão”).

As commodities, diante de um choque deflacionário do petróleo, também sofrem um processo de reajuste. De fato, medidas pelo Índice CRY/Bloomberg de 01/12/14 à 27/11/15 as commodities caíram 29%.

Comparemos as colocações das nossas previsões, um ano depois:

Choque deflacionário por causa do petróleo:

“2014, 41 anos depois do choque de 1973 portanto, os principais países da OCDE, lutam contra a recessão e a deflação e recebem este golpe que constitui um choque deflacionário no principal insumo (custo) global”

Vejam a Cotação do Petróleo Brent até agora: US$ 70 em 27/11/14 e US$ 45 em 27/11/15, queda de 36%.

Previsão para o Dólar e Economia dos EUA em 27/11/14: 

“O dólar possivelmente se fortalecerá o que os forçará a manter os juros negativos por muito tempo, podendo ainda ter de retomar o quantitative easing, afrouxamento quantitativo, a única política que fazem, obviamente destinada ao 1%.”

Variação da Cotação do Dólar Index: 88,41 há um ano atrás e agora – 100,05, alta de 13%. A alta dos juros pelo Fed esperada para meados de 2015, foi postergada para 9/15, depois em 10/15 e agora é esperada para 12/15, de maneira muito reduzida e de forma muito cautelosa, não sendo descartada a volta do quantitative easing se necessário, por conta de um possível risco de desarranjo por conta do endividamento bancário e corporativos dos países asiáticos em especial a China. O Fed projeta o crescimento de 2% do PIB (contra 2,4% de 2014) e se preocupa com a elevação do nível de desemprego.

Mais recentemente, com o desempenho do 3º trimestre, em termos anuais de 2,1% o crescimento anual em relação aos três trimestres de 2014 é de 2,2%, abaixo do crescimento de 2014 de 2,4%.

O Fed continua preocupado com o nível da inflação anual 0,2% (em outubro de 2015) abaixo da inflação de 2014 – 0,80%.

Previsão para a Economia do Japão em novembro de 2014:

“O Japão, forte consumidor de petróleo, luta para enfraquecer o iene a fim de criar inflação no mercado interno e recebe um choque deflacionário dessa magnitude.”

A Inflação (IPC) do Japão em nov/14 (índice mensal anualizado) foi de 2,38%; em set/15= 0,00%. Seu crescimento do PIB em 2014 foi de 0,0%; em 30/out o BOJ rebaixou sua estimativa do PIB de 2015 de 1,70% para 1,2%, sendo a taxa de crescimento em setembro/2015(3º trimestre)= – 0,2%; anualizado = – 0,8% – (acesse esses dados aqui) .

Previsão para a Zona do Euro em novembro de 2014:

“A União Europeia até outro dia estava sendo estrangulada pelo gás russo que passa pela Ucrânia. Agora, minimizam este obstáculo mas enfrentarão outro, a deflação intensificada por mais esse choque.”

A Inflação anual da Zona do Euro em dez/14= – 0,02%; em set/15(anualizada)= 0,03%.

Crescimento do PIB da Zona do Euro em 2014=1,3%; Taxa de crescimento em setembro/2015(3º trimestre)= 0,3%; anualizado =1,6% (acesse esses dados aqui). A Zona do Euro, respondeu ao aumento do afrouxamento da liquidez, apesar da queda da cotação do petróleo, com ligeiro aumento da inflação e do crescimento do PIB.

Previsão para China:

“China, também preocupada com a queda dos preços internos, recebe este choque deflacionário.”

Inflação IPC em dez/14= 1,6%; em set/2015(Dez 14 a set 15 (anualizada) = 0,13%- (acesse esses dados aqui). Crescimento do PIB da China em 2014=7,4% previsão do Banco da China para 2015 de 7,1% para 7% . E a do FMI de 6,8%. Crescimento do PIB em set/2015(3º trimestre)= 1,8%; anualizado= 6,9% .

A China em seu processo de afrouxamento de liquidez produziu um forte financiamento de operações em bolsa de valores, criando uma onda especulativa onde o Índice Shangai Composite  encerrou 31/12/14 em 3.235 pontos, alcançou o pico de 2015, em 11/junho, com 5.178 pontos ou alta de 60%. A “bolha” estourou e em 25/agosto (75 dias após), o Índice atingiu a mínima ao atingir 2.851 pontos ou queda de 45%. Hoje, fechou em 3.436.

Outro fato relevante foi a desvalorização do Iuan, em 11 e 12/agosto, o Governo Chinês desvalorizou sua moeda em 3,5% surpreendendo o mundo.

Previsão para a Índia:

“A Índia possivelmente se beneficiará da queda do petróleo, já que é altamente dependente do insumo e luta contra uma inflação renitente e preços internos elevados do setor de alimentação.”

Inflação anual pelo IPC em dez/14= 5,86%; em set/15(acumulada e anualizada)= 5%.

Crescimento do PIB da Índia em 2014=7%; Taxa média do crescimento até ago/2015 anualizado =7% - (acesse esses dados aqui). Então, a Índia manteve seu forte ritmo de crescimento e, ajudada pela queda do preço do petróleo, teve uma pequena queda no nível inflacionário.

Previsão para o Brasil:

“Dilma, como em 2010, comete o mesmo erro estratégico. Enquanto o mundo inteiro teme a deflação (em 2010 era o início da recessão, mas com commodities ainda inflacionadas, ela aumenta consistentemente a SELIC de 10% para 12%). Ao apresentar seu trio principal da equipe econômica nos “premia” com um extemporâneo e desastrado arrocho fiscal e mais aumentos de juros, no mesmo dia da decisão da OPEP.

As perspectivas são negativas diante deste desarranjo.”

Infelizmente, a realidade se confirmou. Ao não atentar para as condições econômicas, tanto interna como externa, já deterioradas apresentando forte sintoma de desaquecimento de nossa Economia, o trio econômico, de forma ortodoxa e insensata, ao adotar políticas pró-cíclicas, como o corte do crédito dos bancos oficiais, corte de gastos públicos e impostos, aumento da Selic de 11,15% (novembro/14) para 14,25%(novembro/15), a atualização agressiva dos preços e tarifas defasadas promoveu um forte choque de custos. Diante desse desarranjo, nossa taxa de câmbio, por tanto tempo anestesiada pelos maiores juros do mundo, se depreciou fortemente. Estes fatores em nossa Economia oligopolizada só podem resultar em alta inflação e desemprego. O PIB, previsto para este ano de 2015, terá uma redução de 2,6% (ou mais de acordo com as fontes) a inflação caminha para os 10% a.a. e o desemprego além dos 8%.

A atividade produtiva, que já vinha desaquecendo durante o 2º semestre de 2014, estancou. Nossas duas principais empresas, a Petrobrás e a Vale, que representam uma boa parte do PIB, ainda sofreram de situações indesejadas, tanto de natureza jurídica como de acidentes provocados por falha de conservação e manutenção provocando infelizmente: mortes e desastres ambientais. Isto tudo contribuiu para a desestruturação do nosso contexto econômico. A resultante só pode ser conflito no campo político e insatisfação social.

A solução lógica e sensata diante deste quadro só poderia vir de um consenso político liderado por um(a) Estadista e um grupo de Conselheiros respeitáveis da sociedade civil. Que ao entender a gravidade do contexto, tanto interno como externo, propusesse um Plano Emergencial Político e Econômico para superar este impasse. Lembramos que todo esse contexto interno desagradável também está inserido no contexto internacional maior, onde observamos com temor os fatos sociais e fricções políticas que ocorrem no continente europeu e oriente médio. Tudo isso faz parte logicamente do arranjo perverso instaurado no pós-2008, onde para os 1% sobram afrouxamento de liquidez e para os 99% a austeridade fiscal, desemprego, choro e ranger de dentes.

Diante deste quadro, não nos atrevemos a fazer más previsões para os próximos anos, só nos resta clamar por lógica e sensatez…

Riscos diferentes do Brasil, da Argentina e da Venezuela

Por J. Carlos de Assis

A extrema divisão interna da sociedade está encaminhando a Argentina e a Venezuela para a tragédia de uma revolução social. Nós também corremos o mesmo risco, porém com uma atenuante: aqui, depois do fim da Guerra Fria, as divisões ideológicas são menos acentuadas, e as divergências políticas nas elites dirigentes são superficiais. Com isso, é muito difícil identificar uma diferença essencial entre seguidores de Lula e de Fernando Henrique. Há diferenças, sim, mas fundamentalmente no campo emocional, como torcidas de futebol.

Antes que haja uma contestação, é bom lembrar que o principal ministro de Dilma, Joaquim Levy, na área central da administração pública, saiu das hostes tucanas. Então como dizer que há diferenças inconciliáveis entre as elites petistas e tucanas no terreno concreto da economia? Obviamente que há petistas indignados com a entrega a Levy do principal posto do Governo mas eles não contam como elite dirigente. Diante do fato, a única saída dos inconformados é estimular ações das bases contra o Ministro de forma puramente emocional.

Essa situação foi criada não por Dilma, mas por Lula, com seu espírito de conciliação. Por diferentes razões isso funcionou com ele. Por diferentes razões isso já não funciona com ela. Dois fatores nos empurraram para o estado de pré-ruptura que nos aproxima de Argentina e Venezuela: a não aceitação por Aécio Neves, sem qualquer base jurídica ou política, de sua derrota eleitoral, e as consequências econômicas da Lava Jato, que empurrou o país para uma recessão a que se somou ao ajuste Levy. O resultado é uma contração que ameaça chegar a 5%  este ano, já se anunciando oficialmente mais 2% de contração no próximo.

Se o risco de ruptura na Argentina e na Venezuela se deve a divisões ideológicas e políticas, no Brasil o problema é de outra natureza: caminhamos para uma das crises econômicas e sociais mais agudas de nossa história, o que afeta interesses reais, não propriamente ideológicos e políticos, de milhões de pessoas desempregadas ou ameaçadas de desemprego e de queda de renda real. Essa base social, na medida em que tomar consciência de que não lhe oferecem esperança, pode explodir, não contra o PT ou contra o PSDB, mas contra toda a classe dominante e dirigente, por seu fracasso na condução da economia.

A mídia tem papel decisivo no processo de gerar combustão social. A máquina de magnificação de escândalos da Rede Globo, totalmente partidarizada, está criando condições emocionais para a explosão da crise na medida em que martela a opinião pública com denúncias ainda em fase de investigação tomadas como verdadeiras (veja o caso do filho do Lula). Acontece aí o que escrevi em “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”: a grande imprensa reproduz, como verdade, toda declaração da polícia, da promotoria ou do juiz a fim de explorar, de forma muitas vezes injusta, a emoção de cada caso..

Essa situação extrema requer soluções extremas. Ninguém tem dúvida de quão difícil é arquitetar um pacto social. Mas isso vem sendo tentado e teremos notícias em breve do compromisso que está sendo costurado em torno do DIEESE juntando trabalhadores e patrões. No próximo dia 3 será anunciado um acordo. Mesmo que não seja o ideal, nem completo, será o primeiro passo para a construção do que estou chamando de Grande Acordo Social em torno do objetivo comum de mudar a política econômica no rumo da recuperação e preservação do emprego, e da retomada imediata do crescimento econômico.

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José Carlos de Assis é jornalista e economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”,  Ed. Textonovo, SP.