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Rio, 70 graus

Por André Costa | Via Voz e Rio

O sufoco que moradores do Rio passaram nos últimos dias, os mais tórridos do ano, não é só culpa do El Niño. Ilhas de calor produzidas por usos do solo se acentuam e se expandem na Região Metropolitana. Desde os anos 1980, o solo ficou 15 graus mais quente.

Por dois dias seguidos, nesta quinta e nesta sexta, o Rio bateu os recordes de temperatura de 2015. A ocorrência do fenômeno El Niño, que impede a chegada de camadas de ar frio ao sudeste, fez com que a cidade registrasse, respectivamente, 42,1 e 42,4 graus. No fim de semana, uma frente fria promete trazer um pouco de refresco. A médio e longo prazo, no entanto, a região metropolitana se vê às voltas com outro fenômeno climático, em escala local, que torna o clima urbano cada vez mais escaldante: as ilhas de calor.

Numa descrição simplificada, ilhas de calor são áreas urbanas que apresentam temperaturas mais altas do que as áreas rurais à sua volta. Dentro das cidades, discrepâncias muito acentuadas – a diferença entre o Horto e Realengo, por exemplo – podem ser encontradas, de modo que a geografia hoje considera como uma ilha de calor os núcleos mais quentes das áreas urbanas. Estes núcleos estão relacionados aos usos do solo: se o terreno está ou não impermeabilizado, com que tipo de material foi realizada essa impermeabilização, se dispõe ou não de arborização.

Em sua tese de doutorado, defendida em 2012, o geógrafo Andrews Lucena, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), estudou a evolução da ilha de calor da região metropolitana entre as décadas de 1980 e 2000. Sua conclusão: a região metropolitana do Rio de Janeiro não apenas é, em média, 7°C mais quente do que seus arredores, como o fenômeno acentua-se cada vez mais, sobretudo no subúrbio e nas áreas periféricas.

Uma das principais inovações da tese de Lucena é o estudo das alterações da temperatura de superfície continental (TSC), isto é, a temperatura do chão. Analisando 99 imagens de satélite e cotejando estes resultados com outras ferramentas técnicas, o pesquisador constatou que a média da temperatura da superfície da metropóle aumentou quase 15 graus entre as décadas de 1980 e 2000: se, até então, a média do solo na RMRJ era de 38° C, na década de 2000 ela foi de 51° C.

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Temperatura da superfície da RMRJ nas décadas de 1980, 1990 e 2000. Monitoramento realizado por Andrews Lucena a partir de imagens de satélite (clique na imagem para ampliar).

Os gráficos permitem a melhor compreensão das mudanças pelas quais passou a RMRJ. Na década de 1980, a maior parte da superfície da metrópole tem valores entre 36° C e 44 °C. Os pontos mais quentes ultrapassam 48° C, mas mesmo muitas dessas áreas mais aquecidas são resguardadas por bolsões mais frios, como parques e áreas verdes, que reduzem a temperatura do chão a 35° C ou até abaixo de 30° C.

Na década de 90, a média da superfície sobe para temperaturas entre 44,1° C e 50° C. Grandes áreas da RMRJ passam a ser dominadas por temperaturas acima de 50° C, e vários pontos chegam a 56° C. Em Santa Cruz, a parte mais quente da cidade na década, a temperatura da superfície chega a 64° C.

Na década de 2000, as temperaturas sobem ainda mais. No Centro, são verificadas temperaturas médias de 61,7°C no Estácio e de 64,5°C no Caju. Cidades da Baixada que nem sequer eram notadas na década anterior, como Magé, Guapimirim, Queimados, Japeri, Seropédica e Itaguaí registram temperaturas entre 50°C e 60°C. Na Zona Norte, Vicente de Carvalho registra 67,2°, a Pavuna, 65,4° C, e o Norte Shopping, no Cachambi, chega aos 70°C.

Chão quente, ar quente

Em conversa por telefone, Lucena explicou que, embora a temperatura da superfície evidentemente não seja a mesma do ar, a primeira tem impactos na segunda. “O fato de uma área ser pavimentada faz com que concentre um maior estoque de energia. A superfície tentará liberar esta energia, e o ar ficará mais quente devido a isso. Aqui em Seropédica, hoje, por exemplo, está correndo um vento quente. Este vento não é só de origem, mas também porque atravessa a superfície”.

Segundo Lucena, para comprovar este efeito, basta prestar atenção em quais são as áreas mais quentes da cidade: todas estão próximas a grandes vias.

Este é o caso das áreas ao redor da Avenida Brasil, como Leopoldina, Caju, Manguinhos, Bonsucesso, Olaria, Irajá, Costa Barros e Deodoro; vias internas, como a Dom Hélder Câmara, ou a Avenida das Américas; partes da Baixada, como Nilópolis, São João de Meriti e Mesquita; e, em direção a Leste, trechos de São Gonçalo e de Niterói às margens da BR-101.

O pesquisador disse que o aumento da temperatura se deve sobretudo à perda de áreas arborizadas e à impermeabilização do ambiente. “Conforme as áreas rurais perdem superfície natural e passam a ter superfícies artificiais, suas trocas de energia são mudadas. As novas superfícies têm aquecimento mais rápido e resfriamento mais devagar”, disse.

Segundo Lucena, três ações principais podem ser tomadas para mitigar as ilhas de calor: a valorização das áreas verdes, como parques e ruas arborizadas (a este respeito, leia a matéria do Vozerio sobre o Plano Diretor de Arborização Urbana), que reduz a temperatura do ambiente em até 15 graus; os materiais empregados nas construções; e a coloração destes materiais, o que, como é de conhecimento comum, influencia no armazenamento de energia.

Estes três fatores, segundo o pesquisador, muitas vezes acabam por fazer com que construções mais simples tornem-se mais quentes não só por ausência de árvores, mas também pelo material que empregam. “Desenvolvi um outro estudo que constatou que os tipos de material mais comuns em favelas favorecem o acúmulo de calor. E por que o Minha Casa, Minha Vida pode usar esses materiais de qualidade muito baixa, com prédios um do lado outro, com paredes sem a espessura necessária? O desenvolvimento urbano não é igual de acordo com classes, e isso também se faz presente no clima”, disse.

O pesquisador acrescentou ainda que as ilhas de calor do Rio diferenciam-se do modelo observado nas principais metrópoles do mundo, nas quais, em geral, o centro é o principal núcleo de calor, e os arredores são mais frescos. ”Artigos internacionais sobre ilhas de calor apresentam como uma das estratégias para se lidar com o fenômeno uma mudança para o subúrbio. Isso, entretanto, não é uma opção aqui, porque os subúrbios no Brasil possuem condições habitacionais mais precárias do que o Centro. Não é de estranhar, assim, que estas áreas registrem temperaturas até maiores do que a região central ”, afirmou.

Diálogos Desenvolvimentistas: Mitos e verdades sobre a energia renovável

Publicamos o diálogo abaixo tendo em vista a importância de desmistificar os fatos e versões em torno da geração de energia elétrica no Brasil. É urgente que avancemos no entendimento sobre a complementaridade entre a energia proveniente da água, sol e vento, atentando ainda para concepções equivocadas e o lobby de empresas interessadas em manter o debate sobre o assunto em nível superficial.

Betty Almeida – Desculpem a ecochata aqui, mas hidrelétrica não tem baixo impacto. Destrói vida vegetal e animal, abala e perturba a vida humana, altera paisagem, clima, regimes fluviais e pluviais.

Melhor seria investir na energia fotovoltaica (conversão de energia térmica solar em energia elétrica). Essa teria menor impacto e poderia ser uma alternativa, a mais longo prazo, para os consumidores individuais, mesmo nas aglomerações urbanas, gerarem energia para consumo próprio e venderem o excedente. Aliás, a energia fotovoltaica (não o calor em si) não se dissipa quando o sol se põe.

Para esta ecochata, a energia eólica tem um inconveniente grave: é um perigo para as aves, principalmente as migratórias. Perturba as correntes aéreas, provocando desorientação e as hélices matam os pássaros.

Ivo Pugnaloni – Você não é ecochata. Como eu, melhor seria chamá-la ecófila, uma amiga do meio ambiente. O masculino seria ecófilo, que também não existe. Ainda.

Existem ecologistas, ecochatos e ecófilos.

Tal como existem mini-hidrelétricas (abaixo de 3MW); pequenas hidrelétricas (acima de 3 MW e com alagamento total – incluída a calha atual do rio – com área média de 15 campos de futebol); médias hidrelétricas até por volta de uns 300 MW com qualquer alagamento, grandes hidrelétricas até uns 1000 MW e mega hidrelétricas como Itaipu, Belo Monte, Três Gargantas, etc..

Não dá para pôr tudo num saco só, pois não são a todas a mesma coisa, SÓ PORQUE TODAS USAM A QUEDA DA ÁGUA E DEPOIS A DEVOLVEM AO RIO, MAIS LIMPA DO QUE ENTROU.

Senão estaremos fazendo como os coxinhas, que não querem nem saber, e acham que “todo petista ou é ladrão ou é um merda, porque apoia ladrão” A arma psicossocial é fogo! Pode atirar ódio a petista, ódio a ecologista, ódio a hidrelétricas, ao que o dono quiser…

Entendo muito pouco de outras áreas, mas nessa de engenharia elétrica já são 39 anos trabalhando contra a maré, então acho que entendo um pouco.

Se V. me der o prazer e a oportunidade de explicar, acho que todos ganharão , pois a desinformação e a contrainformação da indústria que é nossa concorrente, a do petróleo e dos armamentos, é muito grande.

Em primeiro lugar não dá para ser só “solar”. Nem só “hidrelétrica”, nem só eólica, nem só biomassa.

Isso não é campeonato de futebol onde um “é Flamengo”, o outro “é Corinthians”… e os outros são de outros times.

Sabe por que?

Porque as renováveis complementam-se uma as outras, ao longo do ano. Nos meses que chove mais, tem pouco vento. Quando venta mais, tem pouca chuva e no meio dos dois máximos. No Brasil nós temos a colheita da cana, que nos dá energia das térmicas renováveis. A solar e a eólica, de tarde, quase que param completamente.

Nessa hora, se você não quiser ligar as térmicas – que custam 6 vezes mais caro que as hidrelétricas – você tem que usar as hidrelétricas.

Que aliás, tem outra vantagem para o sistema: quando você liga uma eólica ou uma solar ou uma biomassa, você pode economizar a água nos seus reservatórios, ESTOCANDO O VENTO, O SOL, O BAGAÇO DE CANA!

Exatamente como a Dilma falou, mas como ela não mexe muito com essas coisas, na verdade, se atrapalhou toda mas disse uma grande verdade, de um jeito horrível porque ela quis explicar em dois minutos, algo que a TV BRASIL, A Eletrobrás, DEVERIAM EXPLICAR DIA E NOITE.

Por favor, veja o gráfico ilustrativo aqui na página 2 dessa Cartilha de Mitos e Verdades.

Olhando se vê o que pouca gente sabe e o que é “complementariedade”.

E por que não é certo ter “um time” quando se fala que é a favor das energias renováveis. Cada uma delas ajuda a outra porque todas elas vem do Sol: eólica, solar, biomassa e hidrelétricas, e seus máximos variam conforme a posição e a exposição do sol sobre cada parte da Terra.

E o sol muda de posição, ou melhor a Terra muda de posição no espaço ao longo de um ano, seu eixo se inclina e isso provoca mil fenômenos meteorológicos.

Quanto aos benefícios ambientais das Pequenas Hidrelétricas são muitos e novamente, pouco conhecidos, pouco mencionados na mídia, que gosta muito mais de eólica e solar pois essas são extremamente dependentes de térmicas a petróleo, estas sim a menina dos olhos da mídia que anuncia Shell, Texaco, Exxon e Petrobrás a cada minuto se você considerar todas as redes e TVs do Brasil. Acho que se víssemos todas as emissoras de TV do Brasil, ao mesmo tempo, jamais haveria um só segundo sem um anúncio da indústria do petróleo.

Natural portanto que a mídia prefira proteger e o louvar as renováveis que DEPENDEM DO PETRÓLEO PARA GERAR ENERGIA O ANO INTEIRO.

Betty Almeida – Não estou querendo criar polêmica nem dar lições, quis apenas expressar uma opinião, sem dúvida menos abalizada que a sua, apoiada nos seus 39 anos de experiência no ramo. De fato, nunca imaginei que hidrelétricas trouxessem benefícios ambientais, nem que a conversão de energia térmica solar em elétrica dependesse de petróleo. Enfim, vivendo e aprendendo.

Ivo Pugnaloni – Não é polêmica. É debate e é troca e é discussão. Então nada de mais há em termos opiniões diferentes, trocarmos opiniões, conhecermos as opiniões e fatos que não conhecemos.

As verdades e certezas absolutas, já sabemos no que dão…

Deixa eu explicar melhor (se você ver o gráfico da complementariedade fica mais fácil de entender) a coisa da solar depender de hidrelétrica.

É fácil. A noite, não há sol. Como manter a sua e a minha casa com energia? Só usando outra fonte.

A essa hora só há duas alternativas capazes de aguentar nossa carga: ou as térmicas movidas a petróleo ou as hidroelétricas (cuja energia custa mais barato do que as térmicas a petróleo – seis vezes mais barato. É pela falta de hidrelétricas suficientes que se você pegar sua conta de energia agora, você verá que está pagando uma tal bandeira vermelha, (que não é do PT) mas um 31 reais a mais. Fora o que está dentro da energia mais cara.

Tem muita coia interessante no assunto energia elétrica, Como tem na saúde, na educação, na assistência social…Mas nessas áreas a sociedade aprendeu a reivindicar e a estudar as melhores políticas públicas pois afinal desde 1937 o Governo Federal realiza de dois em dois anos a Conferencia Nacional de Saúde, de Educação, etc.

De energia elétrica nunca houve nenhuma.

Essa é a causa pela qual tanta falta de informação leva as pessoas a terem ideias completamente equivocadas e adequadas àquilo que mais interessa à indústria internacional do petróleo: combater as hidrelétricas e “torcer” como num campo de futebol, sem saber bem porque, por fontes que obrigam a um alto consumo de petróleo quando param de operar a plena carga.

Como a eólica e a solar, no final da tarde de todos os dias ou nos meses mais chuvosos, quando o vento e a irradiação solar diminuem.

Retrospectiva 2015: maiores eventos políticos internacionais

Via Sputnik Brasil

© Roberto Stuckert Filho/PR

Cúpulas do G7, BRICS e G20, Assembleia Geral da ONU e COP 21… Confira os eventos políticos internacionais mais marcantes em 2015.

Cúpula do G7

Este ano, o grupo se reuniu em Elmau, na Alemanha, e entre os principais assuntos discutidos estiveram a crise na Grécia, o conflito na Ucrânia e questões climáticas. Nos dias 7 e 8 de junho, o G7 se comprometeu a reestruturar o setor energético e a promover a diminuição dos índices de carbono na atmosfera.

A Rússia, que já fez parte do grupo, então chamado de G8, até a cúpula de 2014, realizada em Sochi, foi excluída do evento na Alemanha por conta da reintegração da Crimeia. A península optou por deixar de ser território ucraniano e voltar à Federação Russa em referendo popular em que, aproximadamente, 97% da população votaram a favor.

A Cúpula do G7 na Alemanha foi marcada por muitas manifestações, uma cúpula alternativa e, é claro, pela fotografia de Angela Merkel e Barack Obama.

A chanceler alemã Angela Merkel fala com o presidente dos EUA Barack Obama. © REUTERS/ MICHAEL KAPPELER

7ª Cúpula dos BRICS

A cúpula dos BRICS deste ano foi sediada pela Rússia, na cidade de Ufá, em 8 e 9 de julho. O evento comprovou de modo definitivo a importância política e econômica do bloco. Os líderes dos BRICS consolidaram a criação do Banco de Desenvolvimento e do Arranjo Contingente de Reservas.

A cúpula de Ufá aprovou o documento “Estratégia para uma Parceria Econômica do BRICS”, um roteiro para o fortalecimento da cooperação entre os países do bloco. A Estratégia prevê atividades consideradas prioritárias entre os BRICS em temas como comércio, investimento, energia, mineração, agricultura, cooperação financeira, infraestrutura, educação, ciência e tecnologia, turismo e mobilidade laboral. Também foram assinados acordos de cooperação cultural e para a criação de um site do BRICS.

A declaração de Ufá, assinada pelos líderes dos BRICS durante a 7ª reunião de cúpula do grupo, confirmou a convergência dos pontos de vista dos cinco países sobre muitos dos principais problemas da política e economia internacionais, e comprovou o desejo dos BRICS em aumentar o seu papel na resolução de assuntos globais.

Assembleia Geral da ONU

A Assembleia Geral da ONU deste ano foi marcada por preocupações com terrorismo e o avanço do Daesh no Síria, imigrantes e refugiados do Oriente Médio. Sputnik Brasil realizou cobertura ao vivo da Assembleia, que este ano contou com a primeira participação do presidente da Rússia, Vladimir Putin, nos últimos dez anos.

A presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, abriu os discursos do dia na 70ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, seguida pelo pronunciamento do presidente dos EUA, Barack Obama. Em seguida, foi a vez do presidente da Polônia, Andrzej Duda, do presidente da China, Xi Jinping, e do chefe de Estado da Jordânia, Abdullah II Ibn al Hussein. Depois, foi a vez de Vladimir Putin se dirigir aos líderes mundiais reunidos.

A Assembleia Geral da ONU deste ano também foi marcada pelo hasteamento da bandeira da Palestina em frente à sede da organização em Nova York.

Cúpula do G20

A Cúpula do G20, que reuniu as maiores economias do mundo, foi realizada nos dias 15 e 16 de novembro, em Antalya, na Turquia. A reunião contou com a participação da Presidenta Dilma Rousseff e teve como foco de debate três questões ligadas à economia: investimentos, inclusão e implementação.

Vladimir Putin e Barack Obama tiveram um encontro às margens da cúpula do G20, durante uma pausa entre o encontro dos líderes do BRICS e a sessão plenária. A conversa durou cerca de 20 minutos e tinha um caráter privado: perto dos líderes ficavam somente os tradutores e o misterioso e estranho personagem, que atraiu a atenção da mídia e dos serviços de segurança internacionais devido ao seu comportamento, no mínimo suspeito, em torno dos presidentes da Rússia e dos EUA.

COP 21

De 30 de novembro a 11 de dezembro, representantes de 195 países e da União Europeia se reuniram em Paris para a 21ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima (COP21). O objetivo era chegar a um acordo que reduza a emissão de gases de efeito estufa que causam o aquecimento global.

Após muitas consultas de última hora, o documento final da conferência do clima da ONU, a COP 21, foi aprovado. O texto foi apresentado pelo presidente do evento e ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, e tem o objetivo de mudar a economia mundial, hoje apoiada em combustíveis fósseis.

Aliança pelo Brasil: neoliberais, o retorno!

Por J. Carlos de Assis

No justo momento em que me preparo para assessorar o senador Roberto Requião no lançamento da Aliança pelo Brasil – uma cruzada nacional, dentro e fora do Parlamento, contra o impeachment e a favor da mudança da política econômica -, me deparo com um artigo de Marcos Lisboa, em co-autoria com Carlos Eduardo Gonçalves, que tenta ridicularizar, em tese, o que será nossa proposta central para a retomada da economia, a saber, a expansão fiscal e monetária, a exemplo do que fizeram países com bancos centrais “dependentes” da política, a exemplo de Estados Unidos, Inglaterra e Japão.

Lisboa sustenta que políticas fiscais expansivas não funcionam em países com dívidas elevadas, pouca ociosidade no sistema produtivo (segundo ele, sinalizada pela alta inflação) e juros altos. Não vou falar em juros porque temos taxas tão indecentes, fomentadas pelos neoliberais, que não consigo entender o que seria uma política monetária expansiva na presença delas. As duas outras restrições, porém, são puro fetiche ideológico. A ociosidade na economia brasileira está refletida na contração do PIB e não na inflação. A inflação é indicador do elevado grau de indexação formal e informal dos preços, sobretudo das tarifas públicas.

Ele gosta de evidências. Tome lá: com elevada dívida pública, alguma inflação e juros altos, o Governo Lula recorreu a uma vigorosa política de expansão fiscal em 2009 e 2010. Além de aumento de gastos públicos sociais, o Tesouro injetou R$ 100 bilhões no BNDES no primeiro ano e mais R$ 80 bilhões no segundo a fim de que ele irrigasse os investimentos de uma economia que havia sido abalada pela crise iniciada em 2008. Disso resultou um crescimento do PIB, em 2010, de 7,5%, o que nos colocou numa posição absolutamente invejável no mundo. A partir do fim de 2010, por conselho neoliberal, a política foi revertida.

Diga-se de passagem que não foi revertida apenas aqui. Em 2009, por estímulo do G-20, todos os países-membros haviam recorrido a políticas expansivas, que continuaram ao longo do ano e até o segundo semestre de 2010. Nesse ano, por pressão da Alemanha, e com cumplicidade do FMI e da OCDE, inventaram uma tal de “exit strategy” (literalmente, estratégia de saída) pelas qual os países ainda em crise deveriam abandonar as políticas de estímulo e adotar políticas de contração, sob batuta do BCE e, nos casos dos países mais frágeis, da troika – Comissão Europeia, FMI e BCE. O resultado é uma crise que se arrasta ainda hoje.

Gostaria que o Sr. Lisboa e o Sr. Carlos Eduardo Gonçalves mostrassem as evidências de resultados positivos das políticas de contração fiscal na Europa do euro. No nosso caso, exceto em 2009 e 2010, não reconheço verdadeiras políticas de expansão: Mantega não fez macroeconomia, fez microeconomia. Nunca apoiei aquela estupidez de subsidiar a indústria automobilística e a linha branca, supostamente para preservar empregos, quando sabíamos que estávamos subsidiando lucros remetidos para o exterior por multinacionais. Ademais, não se faz política fiscal micro: se tiver de funcionar, e pode funcionar, é no nível macro.

O retardamento do realinhamento dos preços da energia elétrica e dos combustíveis só faria sentido se implicasse apropriação de redução de custos, algo que teria de alterar toda a política tarifária brasileira, feita no Governo Fernando Henrique para beneficiar o setor privado. Enfim, ao contrário do que pensa Lisboa e seu parceiro, entre os economistas que se reconhecem como desenvolvimentistas e progressistas, a maioria não apoiou a política econômica nominalmente do PT. Na teoria, estamos mais próximos daqueles economistas heterodoxos citados em seu artigo numa espécie de renegação do neoliberalismo.

Mas é preciso dizer que estou escrevendo tudo isso em face da campanha que pretendemos fazer sob a Aliança pelo Brasil. Com o choque da crise de 2008, os neoliberais ficaram na muda durante muito tempo, espantados porque não tinham nada o que dizer. Mais recentemente alguns deles começaram a cantar, saindo do armário. Isso se deveu ao evidente fracasso do Governo Dilma na parte econômica. Num truque de mágica, atribuíram os equívocos de política aos economistas desenvolvimentistas, embora estes últimos nunca tenham comandado a política. Com isso pretendem evitar uma mudança da política, algo que acabará por ser decidido não na teoria mas na disputa do poder real.

A propósito de outras aleivosias de Marcos Lisboa, inclusive seus ataques camuflados ao professor Belluzzo, não há nada que se aproveite ou que valha a pena replicar. Seus argumentos econômicos e literários de fato não são surpresa. Na sua brilhante carreira profissional ele foi diretor-executivo do Itaú de 2006 a 2009, e vice-presidente até 2013. Portanto, dele se pode dizer o que Galbraith, o maior de todos os heterodoxos, disse a propósito de declarações do “mercado”: não se pode levar a sério opinião econômica de quem tem interesse próprio em jogo!

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José Carlos de Assis é jornalista, economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

O Estado-Maior do Exército dos EUA denuncia a influência dos falcões liberais sobre a Casa Branca

Por Thierry Meissan | Via Rede Voltaire

Podem os militares influenciar os políticos ou devem contentar-se em obedecer, mesmo quando constatam os erros deles? Este foi o tema de um célebre artigo do coronel James H. Baker, atual estrategista do Pentágono.

Este é também o sentido do artigo de Seymour Hersh quanto a maneira como o Estado-Maior alertou constantemente a Casa Branca a propósito das operações da CIA na Síria e Ucrânia. Desde há vários meses, o complexo militar-industrial, o antigo diretor da DIA, depois o ex-Chefe do Estado-Maior e agora o ex-secretário da Defesa, multiplicam as críticas sobre a política do presidente Obama.

Desde a conferência de Genebra, em junho de 2012, ao Estados Unidos acumulam contradições à vez, quer a propósito da Síria, quer sobre a Ucrânia. Entretanto, o Estado-Maior decidiu lançar fugas de informação quanto à sua posição de maneira a influenciar a Casa Branca.

Contradições e hesitações da Casa Branca

Durante os mandatos de George W. Bush, a Casa Branca queria derrubar a República Árabe Síria e criar uma área de caos na Ucrânia, tal como tinha conseguido no Iraque. Tratava-se por um lado da continuação do processo de remodelagem do «Médio Oriente Alargado» e, por outra parte, de cortar as linhas de comunicação terrestre entre o Ocidente por um lado e a Rússia e a China por outro.

Quando Barack Obama lhe sucedeu, foi aconselhado, à vez, por Brent Scowcroft e pelo seu próprio mentor em política, Zbigniew Brzezinski. Os antigos conselheiros de segurança nacional de Jimmy Carter e de Bush pai desconfiavam da teoria “straussiana” do caos. Para eles, o mundo deveria ser organizado segundo o modelo da Paz de Vestfália, quer dizer, em torno de Estados internacionalmente reconhecidos. Tal como Henry Kissinger, eles preconizavam certo enfraquecimento dos Estados, de modo que não pudessem se opor a hegemonia dos EUA, mas não a sua destruição; por conseguinte utilizavam, de preferência, grupos não-estatais para os seus golpes baixos, mas não pretendiam confiar-lhes a gestão de tais territórios.

Quando os falcões liberais, reunidos à volta de Hillary Clinton, de Jeffrey Feltman e de David Petraeus – um general de salão passado à vida civil – , sabotaram o acordo que a Casa Branca tinha acabado negociar com o Kremlin, e relançaram a guerra na Síria, em julho de 2012, Barack Obama não reagiu. A campanha eleitoral para a presidência nos Estados Unidos estava no auge, e, ele não podia dar-se ao luxo de deixar surgir à luz do dia a desordem que reinava no seio da sua equipe. Estendeu então uma armadilha ao general Petraeus que mandou deter, algemado, no dia seguinte à sua reeleição, depois agradeceu a Hillary Clinton e substituiu-a por John Kerry. Este último seria, de fato, capaz de recolar os cacos com o presidente al-Assad, com o qual mantinha relações de cordialidade. Feltman, quanto a si, estava já na ONU, e parecia delicado demiti-lo de repente.

Seja como for, John Kerry deixou-se, de início, persuadir que era demasiado tarde e que a República Árabe Síria não duraria muito mais. A única coisa que ele podia fazer era evitar ao Presidente al-Assad o fim trágico de Muammar el-Qaddafi, sodomizado à baioneta. A Casa Branca e o Departamento de Estado estavam cegos pelas mentiras da era Bush. Na altura, todos os funcionários foram mobilizados, não mais para analisar e compreender o mundo, mas para, de avanço, justificar os crimes de Washington. Em 2006, o primeiro secretário da embaixada dos E.U. em Damasco, William Roebuck, tinha redigido um relatório que foi tomado à letra: a Síria não era uma república baathista, mas, sim, uma ditadura Alauíta [1]. A Arábia Saudita, o Catar e a Turquia podiam, pois, legitimamente apoiar a maioria sunita da população afim de implantar a «democracia de mercado».

O Presidente Obama permitiu, assim, que a CIA continuasse a sua operação de derrube do regime sírio, sob a cobertura de apoio aos «rebeldes moderados». Grandes tráficos de armas foram organizados, primeiro a partir da Líbia pós-Kaddafi, depois da Bulgária de Rossen Plevneliev e Boyko Borissov [2], e mais tarde a partir da Ucrânia pós-Yanukovych [3]. Simultaneamente, gabinetes de recrutamento foram abertos em todo o mundo muçulmano para enviar combatentes afim de salvar os sunitas sírios “esmagados pela ditadura Alauíta”.

Azar, terão que admitir, a sério, que a República Árabe da Síria resiste à mais gigantesca coligação da História (114 Estados e 16 organizações internacionais reunidas no seio dos «Amigos da Síria»). Ela consegue isso simplesmente porque nunca foi uma ditadura Alauíta, mas, sim, um regime secular e socialista; os sunitas não são aí massacrados pelo exército, mas, antes pelo contrário, eles constituem a maioria dos soldados que defendem o país face à agressão estrangeira.

Quando os “neocons”, em torno de Victoria Nuland, conseguiram derrubar o regime em Kiev numa golpada de biliões de dólares, em fevereiro de 2014, o presidente Obama viu nisso o resultado merecido de longos anos de esforços. Ele não mediu, de imediato, as consequências desta operação. No seguimento, ele viu-se face a um dilema: ou, deixar o país sem um governo, como um buraco escancarado entre a U. Europeia e a Rússia, ou colocar no poder os soldadinhos da CIA, os nazis e alguns islamitas. Ele escolheu a segunda opção, pensando que os seus serviços encontrariam entre esses mercenários indivíduos capazes de se darem à respeitabilidade. A sequência dos eventos mostrou que isso não aconteceu. Em última análise, enquanto o regime de Viktor Yanukovich, era corrupto, é certo – mas não mais que os da Moldávia, da Bulgária ou da Geórgia, para não citar senão estes – , o poder atual de Kiev encarna tudo aquilo contra o qual Franklin D. Roosevelt se bateu.

O que pretendem os militares dos E.U.

Enquanto a Casa Branca e o Kremlin acabam de concluir um segundo acordo para a paz no Próximo-Oriente, o jornalista Seymour Hersh publicou, na London Review of Books, uma longa investigação sobre a forma como a Joint Chiefs of Staff (Junta de Chefes de Estado-Maior- ndT) norte-americana, sob a presidência do general Martin Dempsey, resistiu ás ilusões de Barack Obama [4]. Segundo ele, os militares tentaram manter o contacto com os seus homólogos russos, apesar da gestão política da crise ucraniana. Eles teriam entregue informações cruciais a alguns dos seus aliados, esperando assim que estes a dessem aos Sírios, mas abstendo-se de qualquer ajuda direta a Damasco. Seymour Hersh deplora que hoje em dia as coisas sejam diferentes depois que o general Joseph Dunford assumiu a presidência da Junta de Estado-Maior.

Nesse artigo, ele afirma que a política da Casa Branca jamais variou em relação a quatro pontos, todos mais absurdos uns que os outros segundo os militares:

- a insistência quanto à saída do presidente el-Assad ;
- a impossibilidade de criar uma coligação anti-Daesh com a Rússia ;
- a assunção que a Turquia é um aliado estável na guerra contra o terrorismo;
- e a assunção que existiriam realmente forças de oposição moderada aptas para um apoio por parte dos EU.

Recordemos que o secretário da Defesa, Chuck Hagel, foi demitido em fevereiro de 2014 por ter questionado esta política [5]. Ele foi substituído por Ashton Carter, um alto funcionário —antigo colaborador de Condoleezza Rice — conhecido pelo seu faro para os negócios [6].

Em seguida, em outubro de 2014, a Rand Corporation, principal think thank do complexo militar-industrial, tomou oficialmente posição em favor do presidente al-Assad. Ela sublinhou que a sua derrota seria irremediavelmente seguida de uma tomada de poder pelos jihadistas, enquanto a sua vitória permitiria estabilizar a região [7].

Em Agosto de 2015, foi a vez do general Michel T. Flynn, antigo diretor da Defense Intelligence Agency -(DIA)-(Agência de Inteligência da Defesa- ndT), revelar à Al-Jazeera os seus esforços para pôr em alerta a Casa Branca sobre as operações planificadas pela CIA, e aliados de Washington, com os jihadistas. Comentava, na altura, um dos seus relatórios recentemente desclassificados [8] anunciando a criação do Daesh [9].

Finalmente, em Dezembro de 2015, o antigo secretario da Defesa, Chuck Hagel, declarava que a posição da Casa Branca sobre a Síria descredibilizava o presidente Obama [10].

Como os militares tentaram ajudar a Síria

Segundo Hersh, em 2013, o Estado-Maior norte-americano teria dado a conhecer aos seus homólogos sírios as quatro exigências de Washington para mudar de política:

- a Síria deveria impedir o Hezbolla de atacar Israel;
- ela deveria retomar as negociações com Israel para acertar a questão do Golã;
- ela deveria aceitar a presença de conselheiros militares russos;
- finalmente, ela deveria comprometer-se a proceder a novas eleições no final da guerra autorizando uma larga franja da oposição a participar nas mesmas.

O que surpreende na leitura destas quatro condições, é tanto a completa ausência de conhecimento da política do Próximo-Oriente que têm os militares norte-americanos, como a sua vontade de impôr condições que não são e não serão, portanto, de imediato aceitas por Damasco. A menos que se trate de dar sugestões ao presidente al-Assad para que ele consiga fazer evoluir o seu homólogo norte-americano.

- Em primeiro lugar, o Hezbolla é uma rede de resistência à ocupação israelita que foi criada no Líbano em resposta à invasão de 1982. Inicialmente, não era enquadrado pelos Guardas Revolucionários Iranianos, mesmo se muito deve ao Basidji, mas pelo Exército Árabe Sírio. Ele só se virou para o Irã depois da retirada do Exército Sírio do Líbano, em 2005. E, ainda, durante a guerra israelo-libanesa de 2006, o ministro da Defesa sírio estava secretamente presente na linha frente para verificar a transferência de material. Actualmente, o Hezbolla xiita e o Exército Árabe Sírio, laico, lutam juntos, tanto no Líbano como na Síria, contra os jihadistas que Israel apoia, a nível aéreo e em assistência médica.

- De 1995 (Wye River) a 2000 (Genebra), o presidente norte-americano Bill Clinton organizou negociações entre Israel e a Síria. No fim, ficou tudo acordado de forma equitativa, quando ao mesmo tempo a delegação israelita fazia batota escutando as conversas telefônicas entre os presidentes dos E.U. e da Síria [11]. A paz teria podido, e deveria ter sido assinada, se o Primeiro-ministro israelita Ehud Barack não tivesse recuado no último momento, tal como o atesta o presidente Clinton nas suas memórias [12]. Bashar al-Assad retomou, por sua própria iniciativa, negociações indiretas, desta vez, via Turquia. Mas, ele interrompeu-as quando Israel violou grosseiramente o direito internacional abordando, em águas internacionais, a «Flotilha da Liberdade». A Síria quis sempre retomar e concluir estas negociações. É a parte israelita, e só ela, que se recusa.

- Sobre as relações militares entre Damasco e Moscou, elas remontam ao período soviético e foram mais ou menos interrompidas na época de Boris Yeltsin. Em 2005, Bashar al-Assad dirigiu-se à Rússia para renegociar a dívida contraída com a URSS. Ele ofereceu, então, ao Kremlin 30 km de costa para a ampliação do porto militar de Tartus, mas os Russos, cujo exército estava em plena reorganização, não se interessaram. Antes da Conferência de Genebra (Junho de 2012), o conselheiro de segurança nacional Hassan Tourekmani propôs aos russos colocar «Chapkas azuis» em solo sírio para estabilizar o país. O Kremlin, observando a actuação da CIA e o afluxo de jhiadistas de todo o mundo muçulmano, só um pouco mais tarde compreendeu que esta guerra não era mais que um ensaio antes de vir a ser lançada para o Cáucaso. Vladimir Putin declarou a Síria como «assunto interno da Rússia» e assumiu o compromisso de aí colocar o seu exército. Se nada se passou em 2013 e 2014 não foi porque a Rússia tivesse mudado de opinião, mas, porque ela teve que preparar as suas forças, nomeadamente aprontando o desenvolvimento de novas armas.

- Finalmente, a República Árabe da Síria procedeu, em maio de 2014, a uma eleição presidencial qualificada de justa e democrática por todas as embaixadas em Damasco. Foram os Europeus que, em violação da Convenção de Viena, impediram centenas de milhares de refugiados de nelas participar. E, foram sempre eles que convenceram os vários grupos da oposição a não apresentar candidatos. Bashar al-Assad, que ganhou o escrutínio por larga margem, está pronto a colocar o seu mandato em jogo, com antecedência, no final da guerra. Por uma simples votação da Assembleia a República poderá aceitar as candidaturas de Sírios exilados, excepto daqueles que colaboraram com os Irmãos Muçulmanos ou com as suas organizações armadas (al-Qaida, Daesh, etc.).

Os militares dos E.U. não querem ser tomados por neo-conservadores

Precisamente antes de deixar as suas funções, o general Martin Dempsey havia feito nomear o coronel James H. Baker como director do Office of Net Assessment, quer dizer do gabinete encarregado da previsão e da estratégia no Pentágono [13]. Ora, Baker tem a fama de ser ao mesmo tempo correto, racional e razoável, totalmente ao contrário dos straussianos. Muito embora Seymour Hersh não o cite no seu artigo, crê-se perceber a sua marca na posição do Estado-Maior do exército dos EUA.

Seja como for, o artigo de Seymour Hersh atesta a vontade do Estado-Maior dos E.U. de se diferenciar, ao mesmo tempo, tanto da Casa Branca como dos falcões liberais, como o general David Petraeus e John Allen; uma maneira como qualquer outra de salientar que, no contexto atual, o presidente Obama não tem nenhuma razão para prosseguir nas ambiguidades ás quais ele se forçou nestes três últimos anos.

A reter :
- Nos últimos meses, a Rand Corporation (principal “think-tank” do complexo industrial militar), o antigo diretor da Agência de Inteligência da Defesa (DIA), Michael T. Flynn, o ex-presidente da Junta Chefes de Estado-Maior (JCS- ndT), Martin Dempsey, e o antigo secretário de Defesa, Chuck Hagel, têm questionado as contradições e hesitações da Casa Branca.
- A Inteligência militar dos E.U. contesta a política herdada da era Bush, de confrontação com a Rússia. Ela exige uma colaboração na Síria e na Ucrânia, assim como uma retoma de controle dos supostos aliados: Turquia, Arábia Saudita e Catar.
- Para os oficiais superiores dos E.U. (1) é preciso apoiar o presidente al-Assad que deve sair vencedor e permanecer no poder; (2) é preciso agir com a Rússia contra o Exército Islâmico (Daesh); (3) é preciso punir a Turquia que não se comporta como aliado, mas, sim, como um inimigo; (4) Finalmente, é preciso parar de imaginar que existiriam rebeldes sírios moderados e de se esconder atrás desta fantasia para deixar a CIA apoiar estes terroristas.

Tradução: Alva

[1] “Influencing the SARG in the end of 2006”, William Roebuck, Cable from the State Department, Wikileaks.

[2] « Mise à jour d’une nouvelle filière de trafic d’armes pour les jihadistes », par Valentin Vasilescu, Traduction Avic, Réseau Voltaire, 24 décembre 2015.

[3] « Le Qatar et l’Ukraine viennent de fournir des Pechora-2D à Daesh », par Andrey Fomin, Oriental Review (Russie), Réseau Voltaire, 22 novembre 2015. “Como o Catar preparou o bombardeio de um acampamento do Exército Sírio”, Andrey Fomin, Tradução Alva, Oriental Review (Rússia), Rede Voltaire, 13 de Dezembro de 2015.

[4] “Military to Military. US intelligence sharing in the Syrian war” («De Militares para Militares. Partilha de Inteligência Americana na Guerra da Síria»- ndT), Seymour M. Hersh, London Review of Books, Vol. 38, No. 1, January 7, 2016.

[5] “Obama, ainda tem uma política militar?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria), Rede Voltaire, 1 de Dezembro de 2014.

[6] “Ash Carter rodeia-se de uma equipa da SDB Advisors”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 28 de Dezembro de 2014.

[7] Alternative Futures for Syria. Regional Implications and Challenges for the United States («Alternativas Futuras para a Síria. Implicações Regionais e Desafios para os Estados Unidos»- ndT), Andrew M. Liepman, Brian Nichiporuk, Jason Killmeyer, Rand Corporation, October 22, 2014.

[8] Declassified Report on jihadists in Iraq and Syria, Defense Intelligence Agency, (documento desclassificado, em inglês), 12 agosto de 2012.

[9] « Le renseignement militaire états-unien et la Syrie », par W. Patrick Lang, Centre français de recherche sur le renseignement (CF2R), Réseau Voltaire, 21 décembre 2015.

[10] “Hagel: The White House tried to destroy me” («C. Hagel : A Casa Branca tentou destruir-me»- ndT), Dan de Luce, Foreign Policy, December 18, 2015.

[11] Cursed Victory: A History of Israel and the Occupied Territories («Vitória amaldiçoada : a história de Israel e os territórios ocupados»- ndT), Ahron Bregman, Penguin, 2014 (Tradução disponível unicamente em alemão).

[12] My Life, Bill Clinton, Knopf Publishing Group, 2004.

[13] “Ashton Carter nomeia o novo estratega do Pentágono”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 23 de Maio de 2015.

EUA e UE a seus capachos: Façam o que dissermos, não o que fazemos

Por Mauro Santayana, em seu blog

Para os energúmenos que dizem que nos EUA o Estado não interfere na economia, uma notícia: só na semana passada foi aprovado pelo Congresso, em Washington, o fim da proibição da exportação de petróleo norte-americano, que perdurou por longos 40 anos.

Por lá, existe uma lei de conteúdo local, o Buy American Act – que, como ocorre no caso da Petrobras, aqui seria tachada de “comunista” e “atrasada” pelos entreguistas – que, desde 1933, exige que o governo dê preferência à compra de produtos norte-americanos, e que foi complementada por outra, com o mesmo nome e objetivo, em 1983.

Na área de defesa, nem um parafuso pode ser comprado pelas forças armadas norte-americanas, se não for fabricado no país.

E se a tecnologia ou o desenho pertencer a uma empresa estrangeira, ela é obrigada a se associar, minoritariamente, a um “sócio” norte-americano, para produzir, in loco, o produto.

Quem estiver duvidando, que pergunte à EMBRAER, que, para fornecer caças leves Super Tucano à Força Aérea dos EUA, teve que se associar à companhia norte-americana Sierra Nevada Corporation e montar uma fábrica na Flórida.

No Brasil, a nova direita antinacionalista, grita, nas redes sociais, o mantra da privatização de tudo a qualquer preço. Citando, automaticamente, fora de qualquer contexto, os Estados Unidos, os hitlernautas tupiniquins não admitem que estatais existam nem que dêem eventuais prejuízos, ignorando que nos EUA – a que eles se referem, abjeta apaixonadamente, como se não vivêssemos no mesmo continente, como America – a presença do estado vai muito além de setores estratégicos como a defesa.

No nosso vizinho do Norte o transporte ferroviário de passageiros, por exemplo, é majoritariamente atendido por uma empresa estatal, a AMTRAK, que – sem ser incomodada ou atacada por isso – dá um prejuízo de cerca de um bilhão de dólares por ano, porque, nesse caso, o primeiro objetivo não pode ser o lucro, e, sim, o atendimento às necessidades da população, incluídas as camadas menos favorecidas.

A União Européia, que posa de liberal no comércio internacional, e cujos jornais econômicos – assim como o Wall Street Journal, dos EUA – adoram ficar (a palavra que queríamos usar é outra) – ditando regras para o governo brasileiro, acaba de postergar, até segunda ordem, o acordo de livre comércio com o Mercosul, mesmo depois da eleição de Fernando Macri, adversário de Cristina Kirchner, na Argentina.

Apesar da propaganda contrária por parte da imprensa brasileira, a culpa não foi do Brasil ou do Mercosul.

Como previmos no post “o porrete e o vira-lata” os europeus roeram a corda porque, protecionistas como são, não querem eliminar seus subsídios ao campo nem abrir o mercado do Velho Continente aos nossos produtos agrícolas, nem mesmo em troca da assinatura de um acordo que pretendem cada vez mais leonino – para eles é claro – com a maioria dos países da América do Sul.

Se no plano econômico é assim, no contexto político a estória também não é muito diferente.

Os bajuladores dos EUA entre nós acusam a Venezuela e a Argentina – onde a oposição venceu democraticamente as respectivas eleições há alguns dias – de ditaduras “bolivarianas”.

Mas não emitem um pio com relação a “democracias” apoiadas pelos EUA, como a Arábia Saudita – governada e controlada por uma família real com algumas centenas de membros.

Um reino que detêm um fundo, estatal e bilionário, que acaba de comprar 10% da terceira maior empresa de carnes brasileira, a Minerva Foods.

E uma monarquia fundamentalista na qual as mulheres votaram pela primeira vez, apenas na semana passada.

Petrobras vende participação na Gaspetro por R$ 1,93 bilhão

Por Cristiana Índio do Brasil | Via Revista Opera

A empresa Mitsui Gás e Energia do Brasil Ltda (Mitsui-Gás) pagou, hoje (28), à Petrobras, R$ 1,93 bilhão pela participação de 49% na Petrobras Gás S.A. (Gaspetro), holding que consolida as participações societárias da Petrobras nas distribuidoras estaduais de gás natural.

Segundo a Petrobras, a transação foi concluída nesta segunda-feira com o pagamento depois da empresa atender a todas as condições precedentes previstas no Contrato de Compra e Venda de Ações, firmado em 23 de outubro deste ano. A Petrobras acrescentou que houve também a aprovação definitiva e sem restrições do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A Petrobras destacou ainda que, com a venda, foi atingida a meta do Programa de Desinvestimento da empresa. “Esta operação, feita por meio de processo competitivo, faz parte do Programa de Desinvestimentos previsto no Plano de Negócios e Gestão 2015-2019 e permitiu atingir a meta de US$ 700 milhões estabelecida para 2015, conforme anunciado em 5 de outubro de 2015”, concluiu a nota da companhia.