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Com intervenção dos EUA, caos no Iêmen gera risco de uma guerra maior

Por Thalif Deeb | Via Carta Maior

Caos político atual, com o presidente, primeiro ministro e gabinete tendo sido forçados a renunciar em massa, ameaça tornar o país um Estado falido.

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando o Iêmen norte e sul se uniram em um único país sob a bandeira República Árabe do Iêmen em maio de 1990, um jornal britânico ressaltou com sarcasmo: “dois países pobres agora se tornaram um país pobre.”

Desde seu nascimento, Iêmen continuou a ser categorizado pela ONU como um dos 48 países menos desenvolvidos do mundo, o mais pobre dos pobres, dependente de auxilio estrangeiro e batalhando pela sobrevivência econômica.

Mas o caos político atual – com o presidente, primeiro ministro e gabinete tendo sido forçados a resignar em massa semana passada – ameaça tornar o país em um estado falido.

E, mais significante, Iêmen também corre o risco de se dividir em dois novamente – e pode estar a caminho de outra guerra civil.

Charles Schmitz, um analista do Instituto do Oriente Médio, foi citado semana passada dizendo: “Estamos olhando para a ruptura de um país, e estamos entrando em um processo longo de negociações, mas também podemos estar entrando em uma guerra.”

Em um relatório divulgado na terça-feira, o Grupo de Crise Internacional com sede em Bruxelas disse que a caída do governo botou de pé a transição atribulada e “levanta o verdadeira perspectiva de fragmentação territorial, colapso econômico e violência disseminada se não houver um acordo logo.”

O governo do presidente Abdu Rabbu Mansour Hadi era um aliado próximo dos EUA, que cooperava com os ataques de drones americanos contra a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP) localizada nas regiões remotas do Iêmen.

Os EUA estavam tão confiantes com seu aliado que as demissões no governo “surpreenderam oficiais americanos,” de acordo com o New York Times. Matthew Hoh, membro sênior no Centro de Políticas Internacionais (CIP), disse à IPS, “não sei se o Iêmen irá se dividir em dois ou não. Mas acredito que o medo maior é de que o Iêmen descenda ao caos massivo com violência entre muitas facções como vemos no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, todas as nações que foram recipientes da política externa americana de intervencionismo.”

De acordo com um diplomata Árabe, os Houthis que tomaram o poder são parte integral do setor xiita muçulmano, os Zaydis, e são aparentemente financiados pelo Irã. Mas o país é dominado por uma maioria sunita e que é apoiada pelo vizinho Arábia Saudita, ele disse, o que poderia fomentar um conflito sectário – como na Síria, Iraque e Líbano.

Ironicamente, todos eles, incluindo os EUA, têm um inimigo em comum na AQAP, o qual se disse responsável pelo recente massacre nos escritórios da revista satírica em Paris.

“Em suma, é uma bagunça política monumental,” disse o diplomata, falando como anônimo.

Vijay Prashad, George e Martha Kellner Chair em História do Sul da Ásia e Professor de Estudos Internacionais na Faculdade Trinity, disse à IPS que é muito difícil avaliar o que irá acontecer no Iêmen a esta altura.

“As linhas de batalha estão longe de serem claras,” ele disse. O chamado governo pró-EUA tem, desde 2004, jogado um jogo muito delicado com os Estados Unidos em termos de contra-terrorismo.

De um lado, ele disse, o governo do ex presidente Ali Abdullah Saleh e depois Hadi, sugeriu aos EUA que fossem anti al-Qaeda. Mas por outro lado, usaram o fato da al-Qaeda para ir atrás de seus adversários, incluindo os Zaydis (Houthis).

“Esse jogo duplo sempre foi conhecido pelos americanos. Cooperavam com isso. Foi o que permitiu a AQAP tomar Jar e outras regiões do Iêmen e segurá-las com alguma facilidade,” disse Prashad.

Ele dispensou como “ridículas” as alegações de que os Zaydis são “representantes do Irã”. Disse que são uma confederação tribal que encarou o limite da espada de Saleh-Hadi.

“São decididamente contra a al-Qaeda, e não tornariam necessariamente fácil a existência da AQAP,” disse Prashad ex Edward Said Chair na Universidade Americana de Beirute e autor de “Primavera Árabe, Inverno Libanês.”

Hoh disse à IPS: “baseado nos resultados de décadas de influencias norte-americana em tentar escolher ganhadores e perdedores nesses países ou continuar a jogar o jogo geopolítico absurdo de apoiar uma teocracia repressiva, Arábia Saudita, contra outra, Irã, em guerras representadas, o melhor para os Iemenitas é que os americanos não se metam ou tentam posicionar um lado contra o outro.” A política externa americana no Oriente Médio pode ser categorizada como um desastre, especialmente para o povo do Oriente Médio.

“Os únicos beneficiários das políticas americanos no Oriente Médio tem sido os grupos extremistas, os quais tiram vantagem da guerra, dos ciclos de violência e ódio, para recrutar e preencher sua mensagem e propaganda, e companhias de armas americanas e ocidentais que vêem lucros aumentando cada ano,” disse Hoh, que serviu junto com o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA no Iraque e nos times da embaixada no Afeganistão e no Iraque.

Quando os dois Iêmen se uniram, a maioria das armas que o pais unificado herdou vieram da Rússia, que era um aliado militar próximo do Iêmen do Sul.

Os aviões de guerra do Iêmen e seus helicópteros da ex União Soviética – incluindo MiG-29 jatos e Mi-24 helicópteros de ataque – foram mais tarde reforçados com sistemas de armas americanos e ocidentais, incluindo naves de transporte (transferidas da Arábia Saudita), helicópteros Bell, mísseis anti-tanque TOW e tanques de batalha M-60.

Nicole Auger, uma analista militar monitorando o Oriente Médio/África no Internacional Forecast, uma líder em inteligência defensiva de mercado e meteorologia industrial, disse à IPS que armas americanas e auxilio militar tem sido cruciais para o Iêmen ao longo dos anos, especialmente pelo financiamento do Departamento de Defesa 1206 “treinar e equipar.”

Desde 2006, ela apontou, Iêmen recebeu um pouco mais de 400 milhões de dólares no auxilio da seção 1206 a qual apoiou a Força Aérea Iemenita (com aquisições de transporte e naves de vigilância), suas unidades de operações especiais, seu monitoramente de fronteiras e suas guardas costeiras.

Enquanto isso, o auxilio militar americano sob os programas Financiamento Externo Militar (FMF) e Treinamento e Educação Internacionais Militares (IMET) aumentou substancialmente, ela disse.

Também, o Iêmen está recebendo assistência com os programas de Não-Proliferação, Anti-Terrorismo, Não-Exploração e Programas Relacionados (NADR) e de Controle Internacional de Narcóticos e Aplicação da Lei (INCLE).

De acordo com a justificação orçamentária congressista americana – o apoio americano ao setor militar e de segurança “irá continuar uma prioridade em 2015 de forma a avançar com a paz e a segurança no Iêmen.”

MP aponta responsabilidade de Alckmin na crise da água

Por Luis Nassif, em seu blog

Está no TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3a Região) a mais contundente acusação ao governo Geraldo Alckmin pelo descaso com que conduziu a questão da água de São Paulo.

Trata-se da Ação Civil Pública Ambiental, com pedido de tutela antecipada (isto é, de permitir decisões antes do julgamento final) proposta pelo Ministério Público Federal de São Paulo e pelo Ministério Público Estadual.

Não é ainda uma ação de responsabilização civil ou criminal. Por enquanto, é apenas uma iniciativa drástica para enfrentar a mais grave crise hídrica da história do Estado. Mas o acúmulo de provas e evidências levantado não deixará outra alternativa do que responsabilizar respectivamente o governador Geraldo Alckmin, o presidente da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), os dirigentes da ANA (Agência Nacional de Água) e do DAEE (Departamento de Água e Energia Elétrica) pela crise hídrica do Estado assim como suas consequências futuras.

Em 6 de agosto de 2004, uma portaria da ANA assegurou dez anos a mais de concessão a Sabesp, definindo as vazões médias mensais de captação para fins de abastecimento urbano da Região Metropolitana de São Paulo e medidas que deveriam ser tomadas para reduzir a vulnerabilidade do sistema Cantareira.

Nenhuma das obras previstas na outorga foi feita.

O que se seguiu foi uma gestão de alto risco na Cantareira.

A outorga do sistema à Sabesp impôs a obrigatoriedade da observância das chamadas “Curvas de Aversão a Risco” (CAR). Permite definir limites de retirada de água do sistema de forma segura, sem comprometer os 24 meses subsequentes de forma a manter uma reserva estratégica ou volume mínimo ao final do período hidrológico seco.

Diz a ação: “Se seguidas corretamente, essas regras teriam prevenido o agravamento da crise hídrica no Sistema Cantareira, possibilitando um nível de segurança de 95% podendo chegar a 99%”.

Essas curvas foram elaboradas para uma reserva estratégica de 5% (limite mínimo a ser mantido nos reservatórios) e um cenário hidrológico similar ao do biênio 1953/1954. Correspondem a um nível mínimo de segurança a ser obedecido.

Muitas vezes a ANA autorizou vazões maiores que os “Limites de Vazão da Retirada” determinadas pelas curvas de aversão ao risco.

Para driblar as restrições impostas pela “Curva de Aversão ao Risco”, a ANA e o DAEE apelaram para uma metodologia não reconhecida cientificamente, de nome “Banco de Águas”, utilizada apenas no brasil.

Funciona como um banco de horas. Teoricamente, se a Sabesp não retira a quantidade de água autorizada, fica com um “crédito” para ser utilizado a qualquer momento, independentemente da situação das bacias.

Além de rejeitar a nova metodologia, os promotores identificaram “gritantes disparidades” entre o tratamento dispensado à Sabesp e à bacia do rio Piracicaba.

Essa jabuticaba metodológica impediu a aplicação da CAR.

Pior: desde 2012 a Sabesp e o governo do estado já sabiam dos problemas climáticos. Na época, já se identificava como a pior estiagem registrada desde 1930, com vazão dos afluentes inferior às vazões mínimas registradas em 1953. E nada se fez, em um episódio de irresponsabilidade coletiva.

A Sabesp começou a agir apenas a partir de março de 2014, “de forma insuficiente e tardia”, segundo os promotores.

Em 7 de julho de 2014, outra aberração da ANA e do DAEE, uma Resolução Conjunta substituindo as regras e condições previstas na outorga de 2004. Afastaram os Comitês de Bacias e passaram a empalmar, sozinhos, as decisões. As atribuições do Comitê de Bacias são normas constitucionais. Ambos os órgãos alegaram uma crise hídrica – que eles próprios provocaram – para afastar os comitês.

“Paralelamente, foram os dois anos nos quais se obteve os maiores lucros líquidos da história da Companhia e de distribuição de dividendos, valendo observar que, neste período, o Sistema Cantareira foi responsável por 73,2% da receita bruta operacional da empresa, denotando a superexploração daquele sistema produtor que não mais conseguiu se recuperar diante da gravidade do atual evento climático de escassez”, diz a ação.

No seu relatório de gestão de janeiro de 2014, a Sabesp admitia que “todas as estratégias foram adotadas para concomitantemente no intuito de evitar a adoção do rodízio, pelo constrangimento que esta solução causa à população. No entanto, o rodízio deve ser planejado em face da situação crítica de armazenamento de água nos mananciais do sistema Cantareira (..) para evitar o colapso de seus mananciais”.

“Todavia”, constata a ação dos MPs, “o rodízio acabou sendo descartado pela alta gerência da Sabesp e pelo GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO (sic, em caixa alta), que, assumindo o risco do colapso de seus mananciais, deixou de adotar medidas de contingências efetivas, restringindo-se apenas a um “programa de incentivo”.

Governo do RJ e indústria estudam projetos de captação e reúso de água

Por Nielmar de Oliveira | Via Agência Brasil

Grandes indústrias abastecidas pela Cedae vão reaproveitar a água para evitar o racionamento Divulgação/Cesan

Pelo menos quatro das grandes indústrias que são atualmente abastecidas pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), a partir do Sistema do Guandu, apresentam hoje (30) ao governo do estado projetos alternativos de captação e reúso de água para evitar o racionamento nos próximos meses em razão da crise hídrica, causada pela falta de chuvas.

Ontem (29), o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, informou que pretende encaminhar à Assembleia Legislativa do Estado (Alerj) projeto de lei estabelecendo a obrigatoriedade da adoção da política de reúso de água pelas grandes industrias.

Os representantes das indústrias estiveram reunidos, também ontem, com o governo para discutir o problema. Eles terão que apresentar ainda hoje um documento oficializando a necessidade mínima para o funcionamento das empresas.

Segundo informações do governo, elas terão que fornecer informações que apontem quantidade e qualidade da água utilizada para manter suas operações. Com esses dados, o secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, e o presidente da Cedae, Jorge Briard, esperam formatar um novo mecanismo de reúso da água dessas indústrias.

Na ocasião, André Corrêa anunciou a adoção de uma política de governo permanente, incentivando a reutilização da água, até então, descartada na linha de produção das indústrias. A proposta foi comunicada, em particular, aos representantes das quatro principais empresas do Distrito Industrial de Santa Cruz, convocados pelo secretário e pelo presidente da Cedae para avaliar a situação dos reservatórios que abastecem o estado do Rio de Janeiro.

Segundo Corrêa, a situação dessas empresas é particularmente mais grave porque elas usam a água do Rio Paraíba do Sul, abaixo do sistema de captação do Guandu, responsável pelo abastecimento de 9 milhões de habitantes da região metropolitana do Rio de Janeiro. O problema se agravou com a crise hídrica que afeta a Região Sudeste, a maior dos últimos 84 anos. O secretário antecipou que outros segmentos da indústria que operam na região também serão convidados para debater mecanismos que estimulem o consumo eficiente em suas linhas de produção.

A Refinaria de Duque de Caxias (Reduc) deve ser a próxima convocada para uma rodada de negociação a fim de se adequar ao novo sistema. Hoje, a empresa detém uma outorga de captação de 2 metros cúbicos (m3) por segundo, volume superior ao necessário. No caso específico da Reduc, o volume poderá ser revisto e adotada uma solução semelhante à do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que já reaproveita a água que resulta do esgoto tratado na Estação de Alegria, no Caju.

Como a prioridade é o consumo humano e as indústrias terão que se adequar à política de reúso, André Corrêa foi enfático ao afirmar que vai usar a prerrogativa da gestão de recursos hídricos, da legislação ambiental: “acredito que isso não vai acontecer, mas podemos, sim, cassar outorgas de empresas.”

O sistema, administrado pela Cedae foi projetado para operar com a vazão média de 250m3 por segundo e vazão mínima de 190m3. Atualmente, por causa da escassez de chuvas, a concessionária está operando com 145m3 por segundo, conforme recomendação da Agência Nacional de Águas (ANA) para compensar o período prolongado de seca na região.

O problema das indústrias foi abordado também em uma reunião, quarta-feira (28), em Brasília, na qual a ANA acenou com a possibilidade de propor a redução para 110m3 por segundo. Para o secretário, essa redução torna a situação do estado do Rio insustentável. “Ela é extremamente limitante. Entendemos a gravidade do problema de São Paulo, todos nós somos brasileiros, mas esse número dificulta muito, torna praticamente inviável a gestão de recursos hídricos do Rio de Janeiro”, afirmou Corrêa.

Bombardeios do regime ucraniano matam pelo menos 15 civis em Donetsk

Via Agência Efe

Pelo menos 15 civis morreram nesta sexta-feira na cidade de Donetsk por bombardeios da artilharia ucraniana, segundo denunciaram os separatistas pró-Rússia.

“Cinco pessoas morreram em um trólebus que foi atingido”, informou o Ministério da Defesa da autoproclamada república popular de Donetsk.

Cerca de 15 civis morreram durante atentado na Ucrânia. EFE/Sergey Vaganov

O fato aconteceu por volta do meio-dia, hora local, na linha 14 desse transporte público, quando o trólebus se encontrava em um parada.

Outras cinco pessoas morreram ao serem atingidas pelo bombardeio quando faziam fila na Casa da Cultura do bairro Kuibuishev para receber ajuda humanitária.

As outras cinco vítimas civis foram registradas na zona de Azotni, acrescentou o Ministério.

“O bombardeio de Donetsk foi realizado desde a população de Opuitnoe, uma zona neutra que se encontra ao norte do aeroporto”, assinalou o departamento.

Na semana passada, outro trólebus foi alcançado por fogo de artilharia também em Donetsk, causando a morte de oito pessoas.

Aos 15 civis mortos é preciso somar cinco militares ucranianos que faleceram nas últimas 24 horas no leste da Ucrânia, de acordo com o porta-voz do Estado-Maior da Forças Armadas ucranianas, Vladislav Selezniov.

“Em combates e bombardeios, a Ucrânia perdeu cinco militares. Outros 23 ficaram feridos. Todos eles foram hospitalizados”, disse Selezniov ao apresentar a última parte oficial de baixas.

A situação se deteriorou gravemente nas última semanas na zona do conflito entre os rebeldes pró-Rússia e o Exército.

Representantes do governo ucraniano e dos separatistas pró-Rússia deviam retomar hoje as negociações em Minsk, a capital da Bielorrússia, com a mediação da Rússia e a OSCE, em uma tentativa de conter a escalada do conflito.

Enquanto os representantes dos rebeldes já se encontram em Minsk, o Ministério das Relações Exteriores ucraniano disse na última hora que as negociações podem acontecer hoje ou amanhã, sábado.

Desde sua explosão, em abril do ano passado, o conflito armado no leste ucraniano já deixou mais 5 mil mortos e provocou o êxodo de centenas de milhares de refugiados.

Celac: Cuba pede fim do bloqueio americano

Via AFP

O presidente cubano, Raúl Castro, participa da cúpula da Celac, em Belén, costa Rica, em 28 de janeiro de 2015. AFP / ROBERTO SANCHEZ

O presidente cubano, Raúl Castro, exigiu nesta quarta-feira que os Estados Unidos suspendam o bloqueio contra Cuba para normalizar as relações, no primeiro encontro com seus colegas da Celac após histórico anúncio da reaproximação entre os dois países.

“O restabelecimento das relações diplomáticas é o início de um processo de normalização das relações bilaterais mas esta não será possível enquanto existir o bloqueio”, disse Castro, em seu discurso na 3ª Cúpula da Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe (Celac), em Belén, 15 km a oeste da capital San José.

Embora a pobreza seja tema oficial da cúpula, Cuba centraliza a atenção internacional. Raúl Castro tem seu primeiro encontro com seus colegas latino-americanos desde o histórico anuncio de 17 de dezembro sobre a reconciliação entre Cuba e Estados Unidos, depois de meio século de hostilidades.

Castro recebeu a atenção internacional com suas primeiras declarações após a reunião em Havana altos funcionários cubanos e americano para o restabelecimento das relações bilaterais.

O cubano classificou o embargo como “o problema principal” que “não teve resultados” e que “deve acabar”, lembrando outras demandas da ilha, como a retirada da lista norte-americana de patrocinadores do terrorismo, a devolução do território de Guantánamo e mudanças nas normas migratórias dos EUA.

Castro reconheceu o pedido, feito na semana passada pelo presidente Barack Obama, para que o Congresso suspenda o embargo vigente desde 1962, e pediu que ele use suas “amplas capacidades executivas para modificar substancialmente a aplicação do bloqueio”.

Washington anunciou recentemente mudanças para flexibilizar as restrições a viagens de americanos a Cuba e o intercâmbio comercial, mas a maior parte das sanções só podem ser suspenSas pelo Congresso.

Foco sobre Obama e Castro

Uma das 25 declarações especiais que sairão da Costa Rica condenará o embargo mantido Estados Unidos contra Cuba desde 1962, como tem feito a Celac desde que foi criada.

“Basta do bloqueio criminoso a Cuba, que atenta contra toda a carta da OEA, atenta contra a carta fundamental das Nações Unidas, atenta contra o direito internacional e contra todos os princípios que seus discursos dizem defender”, disse em discurso o presidente do Equador, Rafal Correa, que receberá na quinta-feira a presidência do bloco.

Ao chegar ao aeroporto, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, afirmou que o bloqueio “terá que desaparecer”.

Em seu discurso, Raúl Castro agradeceu o apoio da Celac contra o bloqueio e reiterou seu desejo de assistir a Cúpula das Américas, nos dias 10 e 11 de abril.

Mais perto da China

Os mandatários debaterão o combate à pobreza, em um momento em que o fraco crescimento econômico na América Latina, que a Cepal projetou em 2,2% neste ano, ameaça os avanços da última década. Dos 600 milhões de latino-americanos cerca de 48% era pobre em 2002 e nos últimos dois anos se estagnou em 28%.

Para os governos da Costa Rica e do Equador, o caminho era se aproximar de países como a China, que registra taxas elevadas de crescimento econômico e disputa com os Estados Unidos sua influência na América Latina.

“Estou convencido de que a Celac deve continuar consolidando sua relação com outros blocos e países estratégicos”, acrescentou Solís em seu discurso.

Sob a presidência da Costa Rica -único país centro-americano que tem relações com a China-, a Celac se aproximou da União Europeia, mas sobretudo da China, que prometeu investir 250 bilhões de dólares nos próximos 10 anos na América Latina e no Caribe.

O apoio chinês foi principalmente em empréstimos em condições favoráveis e um dos grandes beneficiados é a Venezuela, angustiada com a queda dos preços do petróleo, com a escassez e com uma inflação de 64%.

Dos 33 governantes do bloco só estarão ausentes os da Argentina, do México, do Paraguai e do Peru.

Kobane liberada: Forças curdas expulsam o Estado Islâmico da cidade

Por Joris Leverink | Via Passa Palavra

Depois de 134 dias de resistência, as forças curdas do YPG/YPJ finalmente expulsaram o Estado Islâmico para fora de Kobane. Embora a batalha tenha sido ganha, a luta continua.

Hoje, a resistência curda e seus camaradas de Kobane conseguiram o inimaginável: expulsar os combatentes do Estado Islâmico (ISIS) da cidade.

Depois de 134 dias de batalhas ferozes entre as forças curdas do YPG (Unidades Populares de Defesa) e do YPJ (Unidades Femininas de Defesa), tropas Peshmerga e elementos do Exército Sírio Livre por um lado, e do ISIS, por outro lado, parece que os últimos bairros da cidade que estavam sob controle dos militantes jihadistas foram finalmente libertados.

Enquanto o porta-voz oficial do YPG, Polat Can, anunciou a liberação completa da cidade via Twitter, as mídias sociais estão fervilhando com imagens de combatentes da resistência comemorando, tanques do ISIS queimados e, claro, a icônica bandeira vermelha, verde e amarela do TEVDEM, o Movimento por uma Sociedade Democrática, tremulando no topo da Mishtenur, a colina estrategicamente importante com vista para a cidade.

O avanço do ISIS sobre Kobane se iniciou em meados de setembro, quando suas forças conseguiram conquistar, em questão de dias, a região rural ao redor da cidade, antes de marcharem sobre o próprio centro urbano. No processo, centenas de milhares de pessoas foram forçadas a sair de suas casas, fugindo em terror dos jihadistas fortemente armados, que deixavam pouco pelo caminho a não ser carnificina e destruição.

Cerca de 260 mil pessoas procuraram refúgio na fronteira com a Turquia, mas várias centenas de combatentes da resistência ficaram para trás para proteger a cidade. Com pouco mais a não ser seus fuzis AK-47 e uma firme determinação para deter o avanço do ISIS em Kobani, os homens e mulheres do YPG/YPJ conseguiram evitar o ISIS de adicionar mais uma cidade à sua longa lista de vitórias militares nos últimos meses.

A resistência dos combatentes curdos contra o ISIS foi prejudicada pelas políticas da vizinha Turquia, que manteve a sua fronteira com a cidade sitiada hermeticamente fechada, impedindo que qualquer ajuda chegasse até a resistência, enquanto, ao mesmo tempo, muitas fontes e observadores fizeram menção de seu suposto apoio militar, logístico e médico aos jihadistas.

Nos últimos meses, os combatentes curdos e seus apoiadores da região e de todo o mundo se reuniram no lado turco da fronteira para expressar seu apoio e solidariedade com a resistência. A batalha em Kobane não só destacou a eficácia das milícias curdas como uma das poucas forças armadas na região capaz de combater o ISIS, mas, mais importante, trouxe a atenção global para a difícil situação do povo de Rojava e sua revolução social focada em democracia direta, igualdade de gênero e sustentabilidade ambiental.

Embora a vitória em Kobane seja, sem dúvida, de importância crucial para a guerra contra o ISIS e uma razão importante para a celebração, deve ser salientado que a luta está longe de terminar. A maioria das mais de 300 aldeias que fazem parte do cantão de Kobane permanecem sob o controle do ISIS e, enquanto este continua a ser o caso, a grande maioria dos refugiados na Turquia não será capaz de voltar para suas casas.

Além disso, a cidade libertada de Kobane agora está em ruínas. Os contínuos bombardeios de morteiro, tiros de artilharia pesada e ataques com carros-bomba do ISIS, combinados com os bombardeios aéreos da coalizão liderada pelos EUA alvejando posições do ISIS na cidade, destruíram bairros inteiros.

A libertação de Kobane é uma vitória de importância do ponto de vista da estratégia militar. Mas mais importante: é uma vitória simbólica da democracia sobre o autoritarismo; do pluralismo sobre o fascismo; da liberdade sobre a repressão – e, acima de tudo, uma vitória que mostrou ao mundo o verdadeiro poder daqueles que lutam pela libertação genuína em oposição ao fanatismo daqueles que lutam por pouco mais que crenças fraudulentas.

Enquanto Kobane estava sob cerco, nos cantões vizinhos de Afrin e Cezire a revolução continuou: conselhos populares foram criados, cooperativas de trabalhadores foram desenvolvidas e as mulheres começaram a participar ativamente nos processos decisórios que lançam as bases para uma nova sociedade onde o poder é exercido pelos de baixo e não pelos de cima.

O grande desafio para o povo de Kobane e, possivelmente, um teste crucial para a força da revolução está à frente: não só a cidade, mas toda uma sociedade terá que ser reconstruída praticamente do zero.

O povo de Kobane provou sua força no campo de batalha e sua heróica resistência contra todas as probabilidades tornou-se um farol de esperança para todos os que creem que a luta contra as forças repressivas do fascismo, sob qualquer forma, pode ser vencida.

A atenção internacional que a batalha de Kobane recebeu pode agora ser usada para mostrar ao mundo que o povo de Rojava não está apenas liderando o caminho na luta contra o extremismo do ISIS, mas também na luta contra as forças do imperialismo, do capitalismo e do patriarcado que têm dado origem a muitos dos males que assolam atualmente as sociedades de todo o mundo – e no Oriente Médio, em particular.

Bijî Berxwedane Kobani!

Bijî Berxwedane YPG!

Bijî Berxwedane YPJ!

Bijî Berxwedane Rojava!

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Joris Leverink é um jornalista freelancer correspondente em Istambul, editor da ROAR Magazine e colunista da TeleSUR em inglês.

Traduzido pelo Passa Palavra. O original encontra-se disponível aqui.

Billings, a solução de Alckmin para a crise ao sabor do improviso

Por Cíntia Alves | Via Jornal GGN

Represa foi protejada nos anos 30 para abastecer uma usina de energia. Depois, teve seu uso como receptáculo de esgoto intensificado. Hoje, ao sabor do improviso, é a menina dos olhos do governador.

Nesta terça-feira (27), o engenheiro Paulo Massato, diretor da Sabesp, veio a público com um plano de rodízio drástico. A população da Grande São Paulo, em função do colapso dos sistemas Cantareira e Alto Tietê, corre o risco de ficar até cinco dias por semana sem água.

Segundo o executivo, o racionamento será implementado em três hipóteses.

1- Se as chuvas nos principais mananciais seguirem abaixo da média – e tem tudo para acontecer, visto que já estão aquém do esperado há pelo menos nove meses.

2- Se as obras que aumentarão a produção de água não ficarem prontas a tempo. Só não se sabe se a seca vai aguardar até 2016 ou 2018, primeiras previsões.

3- Se o plano de usar o que há de despoluído na Billings, intenção confirmada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) na última semana, não for viável. Mas que plano?

Alckmin não detalhou o que a Sabesp pretende com a Billings. Até agora, o que se sabe é que o uso imediato dessa represa é improvável. Isso porque metade da água que consta no reservatório artificial que é a Billings é fruto de esgoto e problemas com assoreamento. A parte relativamente limpa da bacia (os braços Taquacetuba e Rio Grande) já abastece um pedaço de São Paulo, do ABC Paulista e da Baixada Santista, e está no limite.

Não exatamente por falta de água, segundo explicou ao GGN o secretário de Gestão Ambiental de São Bernardo do Campo, João Ricardo Guimarães, em entrevista realizada em maio de 2014 (época em que Alckmin revelou pela primeira vez a intenção de usar a Billings). Mas sim porque, nos últimos anos, nenhuma estação de tratamento de água foi construída com o intuito de aproveitar o potencial da represa. Esperaram a crise chegar para enxergá-la como solução?

Hoje, ao sabor do improviso, a represa é a menina dos olhos de Alckmin. Na semana passada, inclusive, o tucano até mandou um recado ao governo federal: “Tire as mãos do meu brinquedo!”

O episódio foi contado por um periódico regional que teve acesso exclusivo a uma planilha da Sabesp com números que irritaram o governador. Em matéria atacando o governo federal, o Diário do Grande ABC cravou que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), “órgão ligado ao governo federal”, descumpriu um acordo com Alckmin e retirou, ao longo de três dias, mais água do que poderia da Billings, “apenas para produzir energia” em Henry Borden. Lei federal sustenta que em caso de crise de abastecimento, o uso de água para consumo se sobrepõe ao uso para produção de energia.

Consta na história da Billings que ela foi projetada nos idos de 1930 para servir à usina Henry Borden, não para produção de água para consumo. A usina impulsionou o desenvolvimento industrial de São Paulo e, depois, foi abandonada. Billings, por sua vez, virou, em parte, manancial para atender a uma franja de pessoas na Grande São Paulo e, em outra parte, tratamento de esgoto.

É o que afirma o engenheiro e sanitarista Roberto Kachel (que acumula 30 anos de experiência na Sabesp). Ele lembra que sempre que chove muito na capital, as águas dos rios Tietê e Pinheiros são revertidas para a Billings, para evitar enchentes. “A última vez que esse sistema foi acionado foi no verão de 2010 para 2011, quando deu aquelas enchentes no Cantareira. Ai, que saudade!”, brincou Kachel.

O governo estadual, segundo Guimarães, também dificulta os planos de recuperar a Billings combatendo as moradias irregulares em áreas de mananciais. Mesmo que o governo federal disponibilize mais recursos para construção de casas populares, os órgãos de licenciamento do Estado não superaram as burocracias que retardam o processo. Essa é uma discussão que existe ao menos desde o final da gestão de José Serra (PSDB), e pouco evoluiu.

Para Kachel, é difícil imaginar, agora, como Alckmin vai conseguir explorar o que tem de explorável na Billings em caráter emergencial. Segundo ele, o governo “já leva água da Billings ao sistema Guarapiranga por meio do braço Taquacetuba”, e não faz pouco tempo, não. “A reversão do braço Taquacetuba para o Guarapiranga existe desde 2000, apesar de Alckmin se apropriar do feito como se fosse uma novidade ou solução para a crise.”

Além disso, “a distância mínima entre os dois melhores pontos para levar água da Billings ao sistema Alto Tietê é de 40 quilômetros. (…) Do jeito que o Alckmin fala, parece que construir uma valetinha vai resolver o problema, que até o final do ano vai conseguir. Isso é crime contra o povo”, acrescentou Kachel.