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Diálogos Desenvolvimentistas 26: hold on, Obama

Leandro Aguiar

Espirituoso, simpático, engraçado e inteligente. O extremo oposto do seu antecessor.

Por onde passa, ele é notícia. Agrada vascaínos e rubro-negros. A mídia brasileira o adora.  Esse é Barack Obama, o homem que foi eleito como um messias para assumir a presidência dos EUA, quando o país passa por um de seus mais delicados momentos. E que, até agora, não tem se dado muito bem, em parte pela grandiosidade de seu desafio, mas em grande medida, também, pela resistência que os Republicanos tem lhe imposto.

Pois esse homem, talvez não seja exagero chamá-lo de O Mais Importante Do Mundo, esteve no Brasil no fim de semana do dia 18 de março, e sua visita gerou toda sorte de comportamentos: desde cartolas do futebol que queriam presenteá-lo com camisas, até movimentos sociais que protestaram contra o comício do Primeiro Presidente Negro na Cinelândia, RJ, que, no final das contas, acabou não acontecendo, graças à pressão social.

O Desenvolvimentistas reproduziu uma série de artigos de outros sites (JB, CC, VOM, CM), que compactuam com a nossa visão sobre as reais intenções da viagem diplomática de Obama ao Brasil. Mais do que celebrar a união entre os dois países, acreditamos que o presidente norte-americano veio até aqui para resguardar os interesse de seu país, que, na maior parte das vezes, são exatamente o contrário dos interesses do Nosso.

A seguir, algumas considerações dos Desenvolvimentistas sobre a visita de Obama e a relação Brasil-EUA:

 

“Precisamos ser realistas. Os EUA ainda são a primeira potência econômica do planeta e detêm a moeda de reserva e circulação internacional. Nas Américas, o Brasil é a segunda economia em termos de PIB.

Precisamos negociar com eles e traçar projetos de interesses e benefícios comuns. Talvez alguns achem essa forma de pensar ingênua, mas considero realismo político puro. Muitos dos empregos, não todos, que foram deslocados nas últimas décadas para o Leste asiático poderiam ter ficado nas Américas. Elas ainda podem ser trazidos, em alguma medida, para as Américas.”

“O presidente Barack Obama declarou em 2010 numa visita a Detroit que os norte-americanos deveriam voltar a andar em veículos produzidos por eles mesmos. Bom, ao menos ele sinaliza que pode utilizar o arsenal de instrumentos de política comercial e industrial que tornaram os EUA um dos campeões mundiais do protecionismo.”

No relatório ao presidente Obama da comissão que investigou o acidente da BP no Golfo do México há uma menção ao “Triângulo de Ouro”, ou seja, costa brasileira, oeste da África e o Golfo do México. Essas são as regiões das reservas do ouro negro do futuro.

Obama não veio passear no Brasil. Podemos aproveitar essa vinda dele para colocarmos na mesa algumas questões que nos são caras – desenvolvimento nacional.”

Rodrigo Medeiros, professor adjunto da UFES e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)

“Os Estados Unidos nunca irão concordar com negociação em condições simétricas. O importante é comunicar para o povo que estamos abertos à negociação e, se ela não acontecer, não fomos nós que a vetamos. A mídia do capital trabalha muito vendendo a imagem que nós (que queremos beneficiar a sociedade brasileira) somos radicais, “queremos virar a mesa”.”

Paulo Metri

“Fique bem claro que o repúdio não é à visita do presidente norte-americano. Mas ao comício (na Cinelândia). Precedente de alto risco. Se Obama pode fazer comício, o presidente da China também pode. E até Fidel e Chavez.”

Ceci Juruá, economista

Eu acho que esta (visita) é uma excelente oportunidade para o Brasil resgatar a sua soberania. Sabemos que o Obama veio ao nosso País tendo como objetivo principal o petróleo do pré-sal, pois os EUA estão numa situação dramática quanto ao petróleo e o Oriente Médio está em ebulição. A invasão do Iraque não funcionou. O Iran não se submete. A Arábia Saudita pode ser a próxima peça do dominó. Portanto, acho a hora muito oportuna para o Brasil cobrar dos EUA um tratamento à altura da sua importância estratégica como celeiro de matérias primas daquele País. É a grande chance de cobrar mais caro pela viabilização da sobrevivência deles como País. Assim, para começar, o Brasil tem que exigir que a relação bilateral seja boa para os dois lados, inclusive para toda a América Latina. É hora de acabar com a assimetria de direitos nas relações”

Fernando Siqueira, presidente da AEPET, Associação dos engenheiros da Petrobrás

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 23: PMDB, PSB, DEM, “PDB” e Gilberto Kassab

Leandro Aguiar

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, parece ter ambições maiores que a prefeitura paulista. Ele pretende se candidatar a governador do Estado de São Paulo em 2014, e, para isso, já se articula nos bastidores. Sua principal estratégia, desfiliar-se do DEM e criar uma nova legenda, o “PDB”, Partido Democrático Brasileiro, vai certamente balançar as estruturas partidárias do Brasil, isso justamente quando se discute a reforma política.

O PDB, que por enquanto é apenas uma possibilidade, contaria com a adesão imediata de 20 deputados federais, seis estaduais e dois vice-governadores (da Bahia e de São Paulo). Especula-se que o partido servirá de trampolim para que políticos migrem para outras legendas (sobretudo o PMDB e o PSB) sem correr risco de perder o mandato por infidelidade partidária, já que a legislação aceita a troca de partido quando ela é feita para um partido recém fundado.  O que se comenta é que o PDB já será criado pensando-se numa futura fusão com o PSB, do governador pernambucano Eduardo Campos.

Honrando suas famas de exímios articuladores, o vice-presidente da república Michel Temer e o governador Eduardo Campos, do PMDB e PSB respectivamente, já se movimentam no apoio a Kassab. Os dois partidos seriam a base de sua candidatura para governador em 2014. Mas esse apoio só será possível se Kassab de fato criar o PDB, uma vez que o DEM não irá tolerar o flerte do prefeito da capital paulista com a esquerda.     

Quais os efeitos de uma fusão do PSB com um partido que já nasce com vocação direitista, que é o que se espera do PDB?

Enquanto isso, o PMDB, caso agremie mais deputados para sua legenda, poderá ultrapassar o PT em número de congressistas, aumentando sua influência no governo Dilma e sua fome por cargos públicos eletivos. Que implicação isso trará?

O Desenvolvimentistas discutiu os bastidores da política brasileira, a suposta nova sigla de Kassab e os rumos do PSB. Acompanhe:

“Brizola chegou a pensar numa fusão com o PSB e, se não me engano, com o
próprio PPS. (…) uma tríplice fusão (PDT, PPS e PSB) abriria um belo espaço para os desenvolvimentistas, trabalhistas e demais órfãos políticos de propostas verdadeiramente progressistas, anti-imperialistas sem xenofobia e até social-democratas (no melhor sentido).”

Rogério Lessa, jornalista

 

“Essa estratégia (do PMDB) só funcionará se o “partido de transição” se fundir com o PMDB. Caso contrário, quem se beneficiará será o PSB.”    

Landes, economista

 

“acho q o jeito é quem se interessa por política se filiar a algum partido com o qual se identifica (ou voltar a militar, no caso de quem estiver afastado) e dar sua contribuição por dentro. Cobrar que tenha democracia interna, prestação de contas, compromissos programáticos etc. (…) agora, sobre o Kassab, até onde sei, ele tem um perfil administrativo como tantos outros por aí… Há algo que o desqualifique?”

Márcio Oliveira, analista político

 

boa parte do EX-PFL cria um novo partido para entrar no Partido Socialista Brasileiro para poderem apoiar o Governo do PT, mostra que a organização partidária brasileira está evidenciando uma completa falência, ao menos nos termos clássicos de se pensar partidos políticos (…)

(…) não faz sentido esperar uma posição clara entre esquerda e direita nos partidos fora do eixo São Paulo – Sul. E de fato, os partidos cuja força relativa esta fora desse eixo (como o PSB) não se comportam “bonitinhos” como seria esperado pelo manual de socilogia da USP (copiado da Europa).

 

Da mesma forma, mesmo os partidos cuja força principal está em São Paulo, nos outros estados se comporta fora do esperado.

 

Então faz sentido cobrar dos partidos no Brasil que se comportam a partir de um script importado que já não funciona direiro nem no local de origem?

 

E mais, se não for para separar os partidos em termos de partido trabalhistas e partido pro capital (ou liberal), para que precisam existir partidos? Porque os representantes não poderiam ser eleitos avulsamente?”

 

“falta um partido assumir no Brasil a Bandeira do Desenvolvimentismo ou do Nacional-Desenvolvimentismo para que a questão Centro-Periferia entre de forma oficial e explícita no debate político. Por exemplo, o PSB, por ser um partido fundamentado principalmente em estados brasileiros periféricos, tem uma base social e conhecimento de problemas reais adequado a fazer esse movimento. O PMDB está na mesma situação.

Como nenhum partido assumiu isso ainda, às vezes as decisões, debate e posições políticas parecem estar sendo muito mais confusas do que realmente estão, uma vez que as legítimas e altamente importantes posições desenvolvimentistas ficam dispersas em um monte de partidos.”

Gustavo Santos, economista

 

“É verdade, porém, que aos partidos que operam nessas circunstâncias (fisiologismo, personalismo, centralismo) é mais difícil manter a clareza, já que seus estatutos dizem uma coisa e a prática do dia-a-dia diz outra (a dicotomia clássica é a assunção por parte dos “trabalhadores” dos interesses do capital, ou de práticas que lhes tira poder, recursos e liberdade), mas isso não significa que não seja possível caminhar em direção a práticas menos corruptoras e a procedimentos mais ideológicos.

(…)

vale a pena ter partidos? Vale, porque, do mesmo modo que, ainda que não haja script pronto, é possível enxergar rumos, é possível buscar separar o joio do trigo no jogo político. Esse processo – de identificação – é perene e é balizado pelas composições partidárias, ainda que haja várias confusões, peças fora de lugar, mesclas, vira-casacas. Os partidos ajudam os operadores da política (infelizmente nem tanto os eleitores, que pouco se importam com a questão) a identificarem seus pares e isso é importante para o jogo político. Negar esse papel dos partidos é simplificar a realidade aos moldes dos editoriais do Jornal Nacional. Do mesmo modo que os scripts não explicam a realidade, jogar tudo no mesmo saco também não. A política é tão complexa quanto a vida.”

Rômulo Neves

“acho que, do ponto de vista do quadro partidário brasileiro, a se confirmar esse movimento, o PSB passa a se posicionar à direita do PT no espectro partidário do país.

Aliás, engraçado pensar que as opções levantadas por Kassab seriam justamente o PMDB ou o PSB. Nessa linha, o PSB passa a, cada vez mais, se parece com o PMDB, um partido de lideranças regionais fortes, sem uma identidade política clara.

Do ponto de vista partidário, o PSB, com esse movimento, poderia se consolidar como um dos poucos partidos médios que sobreviveriam a uma eventual reforma política que acabasse com as coligações nas eleições proporcionais. E parece ser por esse lado pragmático que Eduardo Campos vem se posicionando.

De outro lado, as lideranças do PSB mais identificadas com um programa de esquerda começam a se manifestar contrariamente a esse movimento. Penso que enquanto esse movimento não se confirmar, e essas lideranças continuarem militando no partido, tentarão tensionar à esquerda. Seria interessante, nessa perspectiva, uma tentativa de aproximação com o PDT e outros partidos médios-pequenos de esquerda não radical. Apenas assim poderiam se converter e se firmar como uma alternativa eleitoralmente viável posicionada à esquerda do PT, que rumou ao centro, no espectro partidário nacional.”

Leandro Couto, analista político

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 22: 0% de crescimento?

Leandro Aguiar

O capitalismo que vivemos hoje se baseia em grande parte no aumento contínuo dos níveis de consumo. Foi esse aumento que ajudou os EUA a retomar, mesmo que timidamente, suas taxas de crescimento econômico, e parece ser o consumo das famílias, também, que puxou a alta nada tímida do PIB brasileiro, estimado em 7% para o ano de 2010.  

Para alguns economistas, entretanto, a idéia de que crescimento econômico e consumo são inerentemente bons deve ser revista imediatamente.

Quanto ao consumo, nada de novo. Filmes, festivais de música e candidatos a presidente já defenderam a idéia de um consumo mais consciente. Todos sabemos que a água deve ser usada com parcimônia, que eletrodomésticos com o selo do Inmetro são preferíveis aos que não possuem o selo, e não há quem não seja a favor da diminuição dos níveis de gases estufa expelidos pela indústria.

O que esses economistas chamados de “economistas ecológicos” defendem, no entanto, é bem mais polêmico que o politicamente-correto “crescimento sustentável”. Para alguns desses estudiosos, como o canadense Peter Victor, a solução para o problema ambiental é o crescimento zero, além de uma mudança radical no modo como as pessoas encaram o consumo, que hoje é visto como fator indispensável para bem estar social. (leia a matéria da Época sobre crescimento zero).   

O Desenvolvimentistas discutiu a necessidade de se remodelar a economia para atingir a sustentabilidade. Foi chamada a atenção para o fato de que os países desenvolvidos são aqueles que possuem maiores níveis de consumo insustentável, ambientalmente falando, e de que eles dificilmente estariam dispostos a diminuir tal ritmo. Sobraria, portanto, para os países em desenvolvimento, como Brasil, Índia e China, brecar seu crescimento. Alternativas também foram apontadas: o desenvolvimento tecnológico, por exemplo, pode ser uma forma de contornar o problema ambiental.

A seguir, os principais momentos do debate:

“(…) Trata-se de um debate bem polêmico. Ouso, entretanto, dizer que se John M. Keynes estivesse vivo ele provavelmente acrescentaria no capítulo 24 da sua ‘Teoria geral’ os problemas ambientais.

Para quem não se recorda da famosa citação de Keynes: “Os dois principais defeitos da sociedade econômica em que vivemos são a sua incapacidade para proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza e das rendas”. (cap. 24, I).”

(…)

“A aposta no desenvolvimento tecnocientífico é uma mitologia do tipo Prometeu. Pode ajudar na eficiência energética com certeza, porém o desenvolvimento econômico busca elevar o padrão de vida médio de uma sociedade, que, por sua vez, irá consumir mais energia per capita.”

Rodrigo Medeiros, professor adjunto da UFES e sócio da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)

(…) Quem vai pagar o preço?: 1) o pobres vão continuar relativamente mais pobres e ou desinteressados em se reproduzir até sua população decrescer (como querem os conservadores e já está tendendo a acontecer em muitos países, inclusive o Brasil, Índia, China e boa parte da áfrica subsaariana)? 2) ou os países ricos vão reduzir sua renda até se igualar aos atuais pobres em um ponto médio? 3) ou é melhor apostar no desenvolvimento tecnológico?”

Gustavo Santos, economista

“Acredito que o desenvolvimento passa por aumento do consumo nos países mais pobres simultaneamente com a diminuição do consumo nos países mais ricos. Provavelmente há países com nível de consumo per capita sustentável, ainda que desigual e injusto internamente. O Brasil deve ser um exemplo desse tipo de país.

Desenvolvimento tecnológico é sem dúvida necessário, mas é evidente que há limites para o consumo total no planeta. A aposta que o desenvolvimento tecnológico é a resposta para todos os problemas é a aposta do Capital, que não conhece limites e quer continuamente se expandir na sua lógica competitiva.”

Mauro Patrão, professor do departamento de matemática da UNB

Em termos globais, depois dos fracassos das convenções internacionais, parece evidente que as lideranças mundiais são insensíveis ao problema. Agora, aqui no Brasil, a questão é tratada de forma equivocada há muito tempo. O fato de termos uma matriz mais renovável não nos deveria “isentar” do problema.”

Roberto Pereira D´Araújo, engenheiro eletricista

Diálogos Desenvolvimentistas No 21: o trem-bala brasileiro

Leandro Aguiar

O governo brasileiro está prestes a dar início a um de seus mais arrojados projetos. Trata-se do TAV, o Trem de Alta Velocidade, que ligará São Paulo ao Rio de Janeiro. Numa velocidade superior a 250 quilômetros por hora, o TAV vai atender a região que concentra 33% do PIB brasileiro, e aonde residem 20% da população. Os investimentos previstos são da ordem de 30 bilhões de reais, sendo que mais da metade desse valor será financiado pelo BNDES. As críticas que o projeto recebe, entretanto, são proporcionais ao tamanho da obra.

Aqueles que discordam do TAV chamam atenção para a rapidez com que o projeto está sendo preparado, sem o devido diálogo entre o governo e a sociedade. Atentam também para o que poderia ser feito com tanto dinheiro, como por exemplo o aumento da linha metroviária das grandes capitais, que sofrem com o trânsito caótico. Outro argumento recorrente é o de que o TAV não será lucrativo em médio prazo, e o dinheiro para cobrir o prejuízo, claro, não sairá do bolso do investidor privado, mas sim do contribuinte.

Ou seja: o TAV, além de dar pouco retorno econômico e social, e irá gastar uma vultuosa quantia de dinheiro, que poderia ser investida em projetos alternativos mais interessantes.

Esse pensamento, claro, não é hegemônico. Os que defendem o TAV argumentam que o projeto é autofinanciável, e, portanto, o dinheiro despendido não atrapalhará o investimento em outras obras. Ainda, o trajeto Rio/São Paulo tem um formidável potencial, capaz de tornar o TAV lucrativo. Por último, ao contrário do que dizem os críticos, o trem-bala dará, sim, alto retorno a sociedade, dizem seus defensores.

Acompanhe as considerações do Desenvolvimentistas, a respeito do TAV:

“O projeto não afeta em nada a capacidade de financiar nenhum outro projeto no país, pelo contrário, como é altamente rentável em termos de externalidades, aumenta a capacidade do governo fazer mais investimentos em outras áreas”

“esse argumento (de que o investimento no trem-bala inviabiliza outros investimentos) não é válido, porque o projeto é auto-financiável, o custo é zero, aliás o custo líquido é negativo! Portanto, ele não afeta em nada a capacidade de se investir em outros projetos. Pelo contrário, investir no Trem de Alta Velocidade aumenta a capacidade do governo gastar mais em outras atividades, como fferrovias, universidades, metrôs, entros de pesquisas, boas escolas, bons hospitais etc.

Gustavo Santos, economista

“Quando o projeto é estatal o déficit é socializado, e é ou pode ser compensado pelos benefícios indiretos não internalizados pela empresa, mas que vão compensar o investimento e os custos de operação. A empresa privada não pode socializar custos, ou déficit.  Ela vai depender do Estado para obter o equilíbrio econômico financeiro, e esta é uma das razões para a existência das PPP’s. O trem bala não vai se pagar, o Estado vai precisar oferecer subvenções à empresa, subsidiando sua atividade e inclusive seu lucro e o dos acionistas, vai utilizar portanto recursos públicos.

O que se discute portanto, no projeto é a alocação dos recursos públicos. A tese, com a qual eu concordo, é que eles seriam mais bem utilizados (com maior benefício social, isto é, satisfazendo necessidades de um número maior de pessoas) em outras frentes, como o transporte urbano de passageiros.

Por enquanto, a idéia que tem emergido é que este trem está destinado a camadas de maior renda, vai cobrir trajetos que levam ao exterior (aos aeroportos, por exemplo), e vai ser caríssimo, beneficiando sobretudo empresas localizadas no exterior que vão exportar para o Brasil seus equipamentos.  E eu concordo. Do ponto de vista da rede ou malha ferroviária, digo também que o desenho proposto não é prioritário, não é o que indicaria um planejamento de longo prazo (maior do que 25 anos).

Ceci Juruá, economista

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 20: in God we trust? A questão do câmbio valorizado

Leandro Aguiar

Foi divulgado na semana passada um estudo cambial do Banco para Compensações Internacionais, uma espécie de articulador entre os Bancos Centrais de todo o mundo. Nele, Real é apontado como a moeda que mais se valorizou nos últimos anos, dentre as 58 maiores economias do globo.

Se você pretende ir ao exterior nos próximos meses, quer comprar um carro importado ou está de olho no novo Iphone, a atual valorização do Real é uma boa notícia. Mas caso você seja um industrial brasileiro, desses que exportam produtos, a apreciação da nossa moeda provavelmente lhe causa calafrios.  

A princípio, o câmbio valorizado auxilia no controle da inflação. Ele facilita a entrada de produtos importados, que concorrem os nacionais, diminuindo o reajuste dos preços. No atual momento, entretanto, com a inflação sob controle, o Real sobrevalorizado não traz benefícios deste tipo para a economia.

O Desenvolvimentistas discutiu a valorização da moeda, e todos concordam que o dólar a 1 e 60 e poucos centavos de Real é insustentável a longo prazo. Acompanhe:

“Pergunto se parte dessa valorização seria devida à uma desvalorização exagerada anterior. Digo isso porque vi aquele índice Big Mac do Economist, e ali a valorização é de menos de 40%. Além disso, a filosofia não é a de câmbio flutuante?”       

Roberto Pereira D´Araújo, engenheiro

“Acontece que o câmbio flutuante, junto com o excesso de dólares derramado pela política de monetização da dívida norte-americana, permite que os grandes players do cassino global, isto é, os bancos globais e os conglomerados, invadam qualquer país e forcem a valorização das moedas locais. Isto não é mercado livre, é manipulação do câmbio por oligopólios mundiais. A economia brasileira não tem dimensão para acolher a moeda podre que chega, incentivada pelo câmbio flutuante e seu reverso – a taxa básica de juros.”

Ceci Juruá, economista

“Este câmbio atual está destruindo a indústria brasileira e, portanto, boa parte de nosso futuro. A única referência precisa sobre o quanto o câmbio está valorizado é o interesse público nacional. Qualquer outra referência é arbitrária. Porque dependendo do ponto no tempo em que começamos a medir o câmbio está mais ou menos valorizado, ou se usamos como referência uma “cesta de consumo” (ex: o (índice) big mac), ou outra, também é arbitrário.”

Gustavo Santos, economista

Diálogos Desenvolvimentistas Nº 19: O Brasil e a crise

Leandro Aguiar

Apesar dos números da economia brasileira em 2010, que apontaram para o aumento de 11% das vendas no comércio, elevação estimada de 7,8% do PIB e recorde no crescimento da produção industrial, que foi de 10,5%, economistas e analistas políticos andam preocupadíssimos com o que nos espera num futuro próximo. Nas previsões mais nefastas destes especialistas, se a crise dos mercados financeiros de 2008 foi uma bala que nos acertou de raspão, nos próximos anos o tiro poderá ser certeiro.

Juros altos, real sobrevalorizado, desindustrialização, inflação. São esses problemas – que se alimentam mutuamente – que tiram o sono de 8 a cada 10 economistas que eu conheço.

Bruno Galvão, Gustavo Santos e Ceci Juruá, todos economistas, discutiram os rumos do Brasil nos próximos anos, e expressaram seu pessimismo moderado, de quem acredita que a situação não é irreversível, contanto que tenhamos lideranças inteligentes e capazes de ler a atual situação em que nos encontramos. Acompanhe as principais aspas:

“qual é o futuro de um país que dá mais importância para a inflação ser 4,5% e não 5,9% do que impedir a completa destruição da competitividade da indústria nacional? Que (considera) mais importante ouvir elogios do mercado financeiro internacional do que traçar uma estratégia de desenvolvimento nacional?”       

“É impressionante que depois de uma valorização nominal de 100% em relação ao dólar e de uma valorização real de 150%, a inflação não consegue convergir para a taxa dos EUA. Isso demonstra que há algo muito errado com a economia brasileira. Os preços no Brasil estão muito mais elevados do que no resto do mundo e o diferencial dos preços do Brasil e do resto do mundo continua a aumentar.”

Mas, o mais desanimador foi o BC ter aumentado a taxa de juros. Estamos caminhando para uma taxa de juros real de 7% a.a., enquanto não há qualquer país no mundo com taxa de juros real maior do que 2% a.a. Mas, e a inflação? O Brasil é um dos únicos países que cumpriu as metas de inflação nos últimos anos. Não há justificativa para choque de juros, quando a inflação está dentro do intervalo das metas. Muito menos quando o câmbio está tão valorizado.”

Bruno Galvão

 

“O desafio que está colocado para nós – partidários do desenvolvimento soberano – é saber se é possível avançar no programa nacionalista de Lula sem desmontar integralmente as armadilhas do Plano Real, articuladas com propósitos de recolonizarão e desenvolvimento não-soberano. Pessoalmente tenho dúvidas, e se me fosse dado montar uma estratégia, eu daria prioridade a desmontar a questão do endividamento público, reduzindo abruptamente, com audácia, a taxa de juros para o teto da inflação – 6% – acrescentando apenas 1% na taxa real. Uma SELIC de 7% pode ser a nossa reivindicação.”

“Continuaremos nossa luta e venceremos, no nosso passo e no nosso tempo. Invasões (neoliberais) como a que tem ocorrido desde 1990 foram muitas. Tentativas de aculturação também. Pilhagem foram inúmeras. Mas nós sempre vamos, e sempre continuaremos a ir em frente.”

Ceci Juruá

 

“O Pimentel foi encarregado de resolver esse problema e de evitar que essa crise aconteça. Mas o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, sozinho, jamais será capaz de resolver isso. O Ministério da Fazenda e o Banco Central precisam cooperar muito para isso! Tenho poucas esperanças que mudem a tempo. Por mais que a Dilma tenha feito várias coisas melhor do que o Lula, tem que fazer muitíssimo mais.”

Gustavo Santos

 

“(A crise) Deve vir lá para 2013. E aí, o bicho pega. O modelo é baseado na expansão do crédito privado (mais endividamento e problema de alavancagem). E maiores serão os passivos externos do Brasil. Solução:

1) Usar os limites superiores da meta de inflação, como qualquer país usa.

2) Inflação deve ser combatida de outras maneiras que não a valorização do câmbio.

3) Temos que desvalorizar a moeda. Desvalorização mesmo: R$2,30/US$. Isso, aliás, é pouco. Vender reservas só a partir de determinado ponto, ao contrário do que o BC faz hoje.”  

Bruno Galvão

Diálogos desenvolvimentistas Nº18: energia nuclear, tório, China

Leandro Aguiar

Seja por apresentar taxas estratosféricas de crescimento econômico, sediar as Olimpíadas, cercear direitos humanos ou por seus recorrentes problemas com Tawain, a China está sempre em evidência. O que garantiu ao país a atenção internacional, nas últimas semanas, foi o anúncio do governo a respeito da implementação do programa nuclear chinês: a China está, oficialmente, empenhada a produzir energia nuclear a partir do Tório, pretenso substituto do Urânio.  

Segundo o Wen Hui Bao, uma espécie de Folha de São Paulo chinês, o sucesso dos reatores a base de Tório seria duplamente bom para o país: o sonho de produzir energia nuclear “limpa” seria realizado, e os EUA se tornariam dependentes dessa tecnologia. Ainda de acordo com o periódico, o Tório é um combustível mais seguro, limpo, e mais abundante que o Urânio. Além disso, tem a vantagem de não produzir Plutônio como derivado – que é a “matéria prima” das armas nucleares. Atualmente, a matriz energética chinesa é centrada no carvão, o que torna o país o maior emissor de CO2 do mundo.  

Qual o impacto estratégico disso? Essa é a indagação do economista Gustavo Santos, que se pergunta, também, se as reservas de Tório serão abundantes o bastante para substituir o carvão. O jornalista Rogério Lessa, por sua vez, disse estar bastante otimista com a possibilidade de a energia nuclear se desenvolver na China, sobretudo quando levada em conta a quantidade de carvão queimado pelo país.    

Diretor do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, Paulo Metri questiona os termos usados pelo jornal Wen Hui Bao. Ele lembra que a energia nuclear gerada a partir do urânio também é limpa, e portanto o Tório gerará, caso o projeto dê certo, uma energia tão limpa quanto a do urânio, na melhor das hipóteses. Para o engenheiro, a China investe na tecnologia do Tório por deter grande parte das reservas deste elemento químico, e por não ter Urânio. Ele questiona também o porquê de os Estados Unidos, que já pesquisou a aplicabilidade do Tório na geração de energia, ter abandonado tais pesquisas.       

Engenheiro, que trabalha na área de energia nuclear, Carlos afirma que esse é um passo estratégico para a China, atualmente muito dependente do carvão. Ele diz também que, apesar de a produção efetiva de energia a base de Tório ainda demandar muitos esforços, o país tem know-how para fazê-lo. Carlos exemplifica algumas práticas chinesas, que capacitaram o país a começar a desenvolver tal tecnologia:

“A China aplica, em todas as áreas tecnológicas e de produção, uma interessante estratégia, que implica basicamente em: 

1- Uma empresa para se instalar na China deverá estar associada a uma
empresa chinesa (quase sempre estatal). Assim, a tecnologia é “absorvida”.

2- Fazem contratos de aquisição milionários, sempre com a contrapartida da transferência de tecnologia, implicando no desenvolvimento e fabricação por empresas locais. Por exemplo, na área nuclear, eles compraram e estão construindo: 4 usinas modelo AP 1000 (Westinghouse – EUA) + 2 (com opção de + 2) EPR 1600 (AREVA – França) com a transferência da tecnologia e pesada fatia de fornecimento local incluída nos respectivos contratos.

Assim, isto somado ao conhecimento que eles já têm com os reatores russos e
canadenses + o que já desenvolvido pela própria China, podemos imaginar o
que poderão oferecer ao mundo, no futuro, quando toda esta tecnologia tiver
sido “absorvida”.”

No entanto, os resíduos gerados pela geração nuclear de energia, e os perigos de um desastre, levam muitos a relativizar o termo “energia limpa” que é conferido à energia nuclear. Dentre eles, Atenágoras, funcionário público, que, chineses a parte, não acha “sensato expandir esta forma de gerar energia elétrica, especialmente em um país como o Brasil, dotado de tão ampla capacidade de geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis e não geradoras de resíduos nocivos como a energia eólica e a energia solar”. Ele lembra que falhas técnicas e humanas acontecem com relativa freqüência em hidrelétricas, mas que basta um erro numa usina nuclear para que um desastre de proporções dantescas aconteça.

Carlos, especialista em energia nuclear, diz que os riscos envolvendo a produção de energia nuclear não são tão grandes quanto se imagina. Isso porque “O projeto de uma usina nuclear contempla diversos níveis de barreiras de segurança, tornando-a intrinsecamente segura”, e quanto aos rejeitos, ele tranqüiliza os ambientalistas:

“Os chamados rejeitos de alta (elemento combustível “queimado”) ficam armazenados na própria usina, dentro da contenção metálica, em total segurança. Fiz uso da palavra “chamados” porque as novas tecnologias, em desenvolvimento, levarão a que estes elementos possam vir a ser reaproveitados.

Por outro lado, os rejeitos de baixa (filtros, ferramentas, resinas, etc) são armazenados em local seguro e sofrem permanente controle. Também aqui, novas tecnologias têm propiciado processos de reprocessamento e redução dos volumes.”