
Meramente ilustrativa (Sobre boas ideias/Reprodução)
Edição por Rennan Martins
O artigo anteriormente replicado aqui mesmo no blog intitulado “A Política Econômica do Governo Dilma“, de autoria conjunta de Ricardo Musse e Carlos Pissardo repercutiu bem tanto nas redes, se tornando por um tempo o mais lido em nosso portal, quanto internamente na associação, gerando um debate interessante.
O texto original critica as políticas fiscais de incentivo à indústria, que segundo os autores, se daria de forma confusa, causando problemas urbanos e ambientais. Sustentam também que as indústrias aqui residentes sempre pedem por mais incentivos mesmo sem responder à altura a estes.
Quanto a este dilema que envolve a indústria e o meio ambiente, apresentaram suas ideias os colaboradores Gustavo Santos, funcionário do BNDES e doutor em economia e Ceci Juruá, doutora em políticas públicas e membro do conselho consultivo da CNTU.
Confira as colocações:
Gustavo Santos – Esses autores são progressistas de fato, acreditam no keynesianismo. Estão do nosso lado. As propostas, porém, não são consistentes.
Para manter um mínimo de resgate de soberania econômico, precisamos ter um saldo comercial de no mínimo uns 60 bilhões de dólares por ano.
A proposta deles é boa, mas isolada, sem incentivo à indústria e às exportações, só vai ajudar o país a estar preparado para afundar em uma grande crise, porque tirar o apoio à indústria só fará com que o saldo comercial amplie.
Mas se o objetivo deles é promover uma revolução popular decorrente de uma crise econômica, talvez funcione.
Ceci Juruá – Quando Celso Furtado, Prebish e outros latino-americanos, basicamente mexicanos e argentinos, elaboraram nosso “modelo de desenvolvimento”, expresso teoricamente na obra de Celso Furtado, eles estavam fundamentados em determinadas experiências históricas e no contexto em que viviam, marcado pela Revolução Soviética e pelos avanços propiciados pelo progresso técnico canalizado para a indústria. Enfatizo particularmente as novas teorias econômicas tendo como referência a macro e não a microeconomia destacando-se aí Marx e seus seguidores e Keynes e seus seguidores. Faziam parte igualmente do contexto a Grande Depressão de 1930 e a descolonização.
Terminados os efeitos do contexto – particularmente na política, isto é a descolonização e a revolução soviética – a economia deu uma guinada e resgatou os princípios doutrinários do liberalismo. A descolonização também foi esquecida e surgiram ou ressurgiram revigoradas outras formas de dominação. Conta-se que os grandes banqueiros costumam pensar: deem-me o controle da moeda e não preciso de leis. Por tudo isto, não tenho firme convicção de que nossas passadas utopias e referências conceituais tenham aplicação prática hoje. Não digo nem que sim nem que não. Defendo apenas que é hora de voltar a ser livre pensador, procurando reconstituir utopias e referências doutrinárias a partir dos anseios dos povos e das nações. Na nossa América Latina, por exemplo, tenho muita esperança nos desdobramentos dos eventos bolivianos, isto é, nos fundamentos que se elaboram sobre o Bem Viver. E há também a questão do meio ambiente e da Pacha Mama. Provavelmente o momento é mais propício à busca do desenvolvimento sustentável do que ao “simples” desenvolvimento. E não é a mesma coisa.
Gustavo Santos – Não tenho nada contra o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável e não sou nada fã do nosso estilo de vida ocidental.
Não entendo as relações entre o que você disse sobre o que eu havia dito antes ou eng relação aos autores que eu havia criticado.
Tem um negócio chato no sistema internacional e em todas relações humanas que se chama poder.
É algo que a grande maioria das pessoas preferem desconsiderar porque considera lo em suas teorias significa aceitar, naturalizar e até recomendar o pecado.
Sem pecado não há como sobreviver no sistema internacional. Sem exportações também não. Já que elas são necessárias ao menos que sejam de manufaturas.
O mundo não mudou a ponto disso não ser mais verdade.
Ceci Juruá – Tampouco eu quis contradizê-lo. Apenas complementar. Quando à manufatura/indústria, é necessário refletir muito. Pois há grande desperdício e a preferência, no consumo diário, por produtos descartáveis. Esse é o problema.
Gustavo Santos – Sim. Mas é um problema civilizacional que não pode ser resolvido por um país isoladamente.
E resolvê-lo não muda nossas obrigações frente ao poder internacional.






