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O Brasil que queremos

Por Ronaldo Campos Carneiro

Coube a um estadista sociólogo lançar as bases da legislação de proteção social e a um retirante nordestino com pouca instrução, mas marcante sensibilidade humana, reunir toda esta legislação e ampliar as bases daquilo que é conhecido hoje como Bolsa Família, passando de alguns milhões para muitos milhões de beneficiários. Desde então, este programa tem moldado a estrutura de poder neste País. Não vai ser diferente nesta eleição. Acredito mesmo que o sucesso de programas sociais pode ser medido por quantas pessoas deixam o programa e não por quantas são adicionadas.

Apresento, adiante uma sugestão para a evolução do programa Bolsa família, em linha com as manifestações de rua de meados do ano passado, onde um enorme contingente de pessoas protestou contra a situação geral de forma difusa, sem foco, sem uma clara ideia de rumos a seguir – todos sabiam que algo estava errado mas não exatamente o que. O fato é que capitalismo e socialismo são remédios amargos na historia da humanidade que estão com prazo de validade vencido.

Proponho um novo pacto social, refletido num contrato de trabalho de adesão voluntária, onde nutrição, saúde e educação – aos empregados e todos seus dependentes – passam a ser responsabilidades do processo produtivo comprados no livre mercado privado e o governo, reduzindo a tributação correspondente.

Não falamos de filantropia, mas num novo conceito de trabalho humano como processo de transformação de energia humana em energia física ou intelectual. Trata-se de substituir a cambiante lógica de ideias – ideologia – pela invariável lógica da vida – biologia, ou ainda, buscar a inclusão por direito natural e não por consumo.

A liberação total de preços e salários conduzirá, inexoravelmente, ao pleno emprego produtivo.

Somente com pleno emprego não precisamos da supervisão do estado – mão invisível age de forma inexorável.

Certamente o empresário não ira agir por filantropia, é o pleno emprego produtivo que será o fiador deste Pacto Social.

“Fazemos caridade quando não conseguimos impor a justiça. Porque não é de caridade que necessitamos. A justiça vai às causas; a caridade, aos efeitos”. Escritor francês Victor Hugo

Vamos avaliar os efeitos desta proposta na sociedade brasileira:

Garantia de vida e progresso a todos – sustentabilidade – fome, saúde e educação não são variáveis de mercado, mas necessidades biológicas;

Lucro diretamente vinculado a saúde humana;

Mais comida na boca de crianças e menos recursos na mão de políticos inescrupulosos;

Corrupção tendendo a zero – acabam as necessidades politicas de compra de consciências – troca de favores, jatinhos forrados de dinheiro vivo: na cueca nas meias!!! Enfim toda a indignidade que envergonha a todos, alguns se locupletando a custa do sacrifício de todos. Cessam também a presença de aproveitadores no meio politico onde só fazem negociatas em beneficio próprio. Seca a fonte de dinheiro no meio politico e burocrata. Nesta nova conjuntura as pessoas vão se dar conta de como a segunda profissão mais antiga do mundo – políticos aproveitadores – guarda uma semelhança incrível com a primeira!!! Estas vendem o corpo e aqueles vendem a consciência!!!

Economia totalmente privatizada – garantia de eficiência e eficácia. Um mito econômico que perpassa mentes, muitas vezes brilhantes, é uma falácia, uma mentira que empresas estatizadas são do povo. A única participação do povo na compra de gasolina é pagar o alto preço na bomba do posto. Estatal só serve para políticos aproveitadores colocarem apaniguados, parentes, amigos, negociatas: vide a ponta do iceberg em escândalos um atrás de outro inflando o preço da gasolina que pagamos. Os mexicanos, com ironia, traduzem esta necessidade politica: “Fora do orçamento não tem salvação”.

Outra falácia econômica muito disseminada, sem nenhuma base conceitual sólida, fracassada no mundo inteiro, consiste na crença numa mistura de mercado com intervenção do estado – neoliberalismo – ou socialismo de mercado, isto só conduz a pobreza e burocracia. O chamado mercado sob supervisão do governo é uma justificativa para defesa dos interesses de plutocratas, das empresas e super-ricos que chamam a isto de democracia social para enganar os eleitores. Isto não tem nada a ver com teoria econômica, mas tudo a ver com manutenção de poder. Fora da economia de mercado não tem solução. A melhor relação qualidade/preço só acontece num ambiente de livre mercado onde predomina a meritocracia e a saudável concorrência

Estatizantes são ingênuos, mal intencionados ou usam de desonestidade intelectual. Não suportam meia hora de discussão racional.

Sugiro ainda que os PhD´s que vão assumir o comando da economia façam um curso de humanidades, pois o capitalismo existe para lidar com o dinheiro e não com seres humanos. Aliás, capitalismo é a exploração do homem pelo homem, socialismo é o inverso.

“O trabalho existe antes, e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e jamais teria existido sem a prévia existência do trabalho. O trabalho é superior ao capital, e merece muito mais consideração”.

Esta verdade expressa por Abraham Lincoln deve ser resgatada por todos aqueles zumbis que estão vagando perdidos e descolados de conceitos básicos da economia.

Ao valorizar o superávit primário, vale dizer, pagamento dos juros devidos, estes operadores mágicos da economia se esquecem de que só o trabalho consegue gerar capital e que este nada mais é que trabalho acumulado. Tão importante quanto pagar os juros aos banqueiros é resgatar a enorme divida social, algo como superávit primário para quitação da dívida e inclusão social – buscando aumentar os brasileiros no mercado de trabalho e gerar mais capital.

A competição de mercado que se assiste hoje é como uma corrida de atletismo: alguns de barriga cheia e com acesso aos sistemas de saúde e de educação, disparados lá na frente; e uma multidão de excluídos lá atrás: o mínimo decente e justo é colocá-los na mesma linha de partida ou igualar as oportunidades na largada.

Pretendo com estas linhas, contribuir para o debate racional de ideias para que nossos filhos, netos e bisnetos possam viver num mundo com mais oportunidades e decência. Buscar a inclusão social por direito natural e não pelo consumo. Quero ter orgulho de meu país. Faço minhas as palavras de Lya Luft – O Brasil que podemos ter:

“Quero um pais integrado no contexto global mais civilizado, não obtuso e à margem, não ofuscado pela ideologia ou caprichos, não alardeando um ufanismo descabido e pobre, mas aberto ao intercambio com os países mais avançados, mais livres e mais justos, sendo ouvido, respeitado e admirado por vencer a alienação e o atraso.”

“Toda verdade passa por três estágios. Primeiro é ridicularizada. Segundo, enfrenta uma violenta oposição. Finalmente é aceita como evidente” Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão.

***

Araújo Bento – Claro que todos nós cidadãos brasileiros queremos um Brasil melhor. Anseio isto desde os anos 1950 quando estava ainda no colégio e notamos que esse processo foi interrompido com a tentativa de golpe militar contra Getúlio Vargas na madrugada de 24 de agosto de 1954, lembramos muito bem dessa data.

Concordo com muitas coisas do texto que o ilustre economista enviou mas discordo na questão dos preços dos derivados. Você se enganou nesse ponto.

Desde a época dos governos militares, após a crise mundial do petróleo, a Petrobras recebe em torno de 25% do preço na bomba. A diferença do preço são impostos e subsídios, incluindo o subsídio ao diesel para manter a matriz dos transportes, o subsídio ao glp (gás de cozinha) que é considerado um subsídio social, e outros subsídios que vieram caindo como o tempo como o subsídio ao álcool e o subsídio à nafta que caiu na década de 1990 por conta das privatizações das megapetroquímicas que pertenciam a Petrobras.

Portanto, meu amigo, você se equivocou ao citar o ônus à estatal sobre o preço na bomba. A Petrobras recebe hum real e quinze centavos por litro da “gasolina a”, ou seja, da gasolina ainda não misturada ao álcool, que por exigência ambiental, desde 1982, é adicionado 22% de álcool na gasolina. O álcool tem oxigênio na molécula e isso torna a combustão da mistura menos poluente, a diferença sobre os preços na bomba continua sendo impostos e subsídios que existem há quatro décadas. Portanto, é injusto atribuir a estatal o ônus do preço final da gasolina.

Diálogos Desenvolvimentistas: O panelaço, suas causas e efeitos

Brasil de Fato

No último domingo diversos bairros de classe média e alta fizeram a orquestra da indignação com suas respectivas panelas. Este não foi uma resposta ao pronunciamento, os envolvidos nem mesmo ouviram o que a presidenta tinha a dizer. A estridência do metal expressava um sentimento anticorrupção que tentaram expressar, mas o curioso disso tudo é que a maioria dos indignados votaram no candidato derrotado da oposição, Aécio Neves, e agora ignoram solenemente o fato dele ter sido citado na lista da Lava Jato, enquanto Dilma Rousseff, não.

Sem mais delongas, fiquem com este interessante debate.

Tania Faillace – Não vejo porque fazer todo esse auê com o panelaço. Já foram feitos muitos e muitos panelaços, e até durante a ditadura militar. Seu significado é sempre o mesmo: manifestar inconformidade com o status quo na área política e pública. Não tem poder transformador, pois não passa de uma vaia, de um bullying, e está também dispensado de ser orgânico e coerente em suas reivindicações, porque sua grande característica é ser divertido. Todos gostam de fazer panelaços porque é uma espécie de regressão à irresponsabilidade infantil – ninguém será castigado nem responsabilizado, e não precisa comportar-se seriamente. Se pintar reclamação, é só jogar fora a panela, e adotar um ar respeitável.

Eu também já fiz panelaço, e é relaxante, emocionalmente relaxante, e deixa as pessoas bem humoradas e sorridentes, dispostas a fazer piadas sobre tudo.

Quanto às observações de Miguel do Rosário sobre a atitude do governo, são impressões subjetivas, de quem não está por dentro do assunto, nem frequenta movimentos políticos contra ou a favor. Puro achômetro.

O governo brasileiro é produto de uma coalizão – isso ainda não ficou claro? Esse governo, pois, não tem uma linha definida de atuação. Se fosse um governo do PT, não teria engolido a Ana Amélia, nem o Levy, nem o Wagner. E já teria feito sinalização positiva para a Reforma Agrária e a taxação das grandes fortunas. Pelo contrário, está propondo ajustes fiscais que cairão sobre o cidadão comum, não sobre os super-ricos em especial. Por que acontece isso? Porque os progressistas não têm maioria no Congresso nem na própria coalizão.

Por outro lado, denunciar a coalizão poderia agudizar a crise – e os gringos estão esperando por isso. Canvas – antiga Otpor – já está preparada para entrar em ação com seus mascarados, e possivelmente, ações violentas.

Rennan Martins – O governo ser de coalizão não é desculpa para o tantos erros do governo, principalmente no que se refere a comunicação, que é uma esculhambação sim. Miguel está certo quando diz que um think thank formado por intelectuais de esquerda aflitos e prontos para cooperar faria uma diferença enorme na correlação de forças.

A apatia do Planalto tem deteriorado a situação a tal ponto que quando a presidenta resolve fazer algo o bombardeio reacionário já está pronto. Tania, se a coalizão impedirá para sempre o PT de continuar avançando na agenda progressista, bem, então que desistamos de fazer política.

Roberto Oliveira – O Governo Federal não tem Comunicação Social. Simplesmente não tem.

Acho muito perigoso ignorar essa classe média ignorante. É uma pequena parcela da sociedade? Sim. Mas, é gente que influencia outras pessoas e cria o climão “apocalíptico”.

E é um erro enorme imaginar que o discurso reacionário e desinformado não chega às classes mais populares. É só dar uma passeada pelas redes sociais e comentários de rodapés do noticiário político para ver o quanto essa lobotomia já foi introduzida entre os mais pobres.

O Governo e o PT precisa mudar sua estratégia comunicacional para ontem! É desesperador essa letargia.

Tania Faillace – Não existem think tanks no Brasil. Nem na esquerda nem na direita. Essa é uma invenção norte-americana.

E os partidos não funcionam como empresas comerciais, com organogramas funcionais, e sim com concessões mútuas entre as tendências e grupos internos.

No caso do PT, a rota de inflexão foi a gestão do José Dirceu, que perseguiu a esquerda e conseguiu alijá-la das posições de comando, e a invenção da filiação online, com o inchaço havido por meio de oportunistas não-ideológicos, e até os acertos havidos com o Garotinho, no Rio, etc., e depois a introdução do Valério na eleição seguinte (Valério que entrou justamente para fazer a política do PSDB dentro do PT). O que causou revolta à esquerda do Partido, mas a maioria agora era a maioria amorfa e silenciosa, com esperança de arranjar uma vaguinha nas nominatas.

Que o pessoal da Engenharia e outras áreas técnicas desconheça tão completamente como funcionam os grupos sociais, a dinâmica social em qualquer agrupamento, se compreende, – só lidam com objetos inertes, projetos definidos tecnicamente, não lidam com seres humanos (sociólogos estariam mais à vontade no assunto), vontades convergentes, divergentes, conflitantes, jogos de interesses abertos ou disfarçados.

Mas um jornalista tem a obrigação de conhecer a dinâmica das relações humanas e dos grupos de quaisquer natureza.

Assim que a maioria das críticas feitas ao PT como se se tratasse de uma entidade burocrática regida por regulamentos cartoriais, não têm sentido porque falam de “conceitos”, não de “realidades”, e presumem uma homogeneidade que não existe nem no seio das famílias.

E veja você o mensalão – claro que foi uma falsa bandeira. Isto é, os mensalões são de uso corrente em todas as casas legislativas que eu conheço e conheci desde que sou jornalista. Todo o mundo sabe que existem, cochicha-se nos corredores a respeito, ou até promovem-se vaias a partir das galerias (já assisti e participei de várias), identificamos os legisladores que “comem bola” – mas uma coisa é saber, outra coisa é provar, e o MP não tem gosto nem vontade para se meter nesses assuntos.

Então, me diga, como o mensalãozinho do José Dirceu explodiu para a mídia? Só por denúncia interna, de quem participava do mesmo. Justamente para fazer o estrago que fez, e Dirceu provar sua boa fé, aceitando ser indiciado e preso.

Já ouviu falar do cabo Anselmo nas agitações na marinha antes de 1964? Em 1968, a mesma pessoa participava da direção da UNE. Os estudantes dos estados não sabiam que o Congresso seria em Ibiúna. Só a direção… e os órgãos de segurança. E a direção esteve em Ibiuna, e encomendou milhares de pãozinhos de uma só vez, assinalando de vez que seria ali o Congresso.

Eu trabalhava na ZH, não sabia onde seria o Congresso, mas recomendava discrição aos estudantes que nos procuravam e que expulsassem de suas reuniões quaisquer pretensos jornalistas que se apresentassem. Estávamos sabendo que tínhamos espiões dentro da redação e nossos telefones estavam grampeados. E sabíamos também quem eram esses espiões.

Isso em Porto Alegre, claro.

Então faz muito tempo que os brasileiros vêm dançando segundo a música dos gringos. E não acordam, e confiam em eventos milagrosos, sem se mexerem, nem se organizarem.

Agora, que vem guerra mesmo, que se vai fazer? Vai-se discutir detalhes formais, de um projeto de recolonização que tem mais de 50 anos, tentando achar um bode expiatório fácil, porque organizar-se para lutar contra o inimigo real, lá fora, não se tem cacife nem coragem?

Rennan Martins – Criticar o PT e seus erros não é ignorar a ameaça externa e recolonizadora, o que estás a postular é uma falsa dicotomia. Podemos sim, criticar o governo, principalmente nos pontos mais vulneráveis no que concerne aos ataques do império. Faço exatamente isso, minha pauta ultimamente está voltada para produção quase exclusiva de conteúdo para conscientização sobre o que realmente está em jogo na Petrobras.

Compreendo as influências que um governo de coalizão tem sobre uma agenda e também entendo que as propostas precisam se ajustar a correlação de forças, porém, a meu ver o que me pedes é apoio acrítico ao PT e não foco no inimigo real.

Roberto Oliveira – Que me desculpem os petistas, mas quem estava na vaia que a presidenta levou em São Paulo não era a “elite”, tampouco a “burguesia” brasileira. Ou o Governo e o PT acordam, ou a coisa ficará cada vez pior. Este é o preço salgado da letargia comunicacional do Governo Federal.

Muitas pessoas das camadas mais populares acabam reproduzindo o comportamento da classe média burra e desinformada por um mimetismo bisonho. Este ódio já se encontra muito difundindo entre a tal “nova classe média”.

E o “inimigo externo”, travestido em nossas Globos, Folhas e Estadões, deita e rola.

Rennan Martins – O que indigna o trabalhador que votou no PT por pragmatismo e consciência de que esse papo de corrupção proveniente do PSDB e correlatos não passa de oportunismo é este ajuste fiscal que está a todo vapor. Votaram em Dilma justamente por reconhecer que este partido mudou a realidade da maioria da população, e agora se veem perplexos diante dessa guinada ortodoxa que lhes ataca frontalmente.

Daí temos que a esquerda orgânica que foi crucial para a reeleição não se sente a vontade para defender o governo, enquanto as forças reacionárias não ficarão satisfeitas nem se toda a agenda tucana for praticada pois a questão já se impregnou de ódio de classe.

Então temos essa cínica imprensa que antes não convencia o trabalhador, somente a classe média alienada, instrumentalizando a raiva legítima das massas por votar em “Mais Mudanças” e ganhar retrocesso. E não, de nada adianta recorrer ao argumento da correlação de forças e do governo de coalizão para o caso Levy, Dilma foi reeleita com o keynesianismo moderado do Mantega e tomou a opção de abandoná-lo.

Roberto Oliveira – Não sei se as “massas” chegam a ter esta percepção, pelo menos creio que não por enquanto. Os trabalhadores sindicalizados e mais esclarecidos e as pessoas ligadas a movimentos sociais podem ter esta percepção. Entretanto, o que sinto é muito mais uma tremenda ignorância política que envolve toda a sociedade brasileira, inclusive os pobres que foram beneficiados pelas políticas sociais do governo petista. Essa “idiotia política” é como um oba oba, um movimento de manada. Xinga-se por xingar. O importante é fazer parte da trupe barulhenta. E é justamente aí que o governo peca e muito ao não oferecer informação às pessoas e permitir que estas sejam embaladas pelas torcidas organizadas.

Sem informação, estes milhões se penduram naqueles que gritam mais alto.

Neste vídeo das vaias desta semana, o que vejo é comportamento de manada. Muitos daqueles que gritavam eram montadores de estandes, trabalhador pobre, deslumbrado pela vaia à presidente que partia de algumas pessoas da classe média imbecilizada. Os pobres mimetizarão esta classe média estúpida. Questão de tempo para estar “tudo dominado”.

Rennan Martins – Aí é que está, os indignados de classe média e alta já estavam desde antes nessa histeria e não comoviam os trabalhadores.

Que elemento então foi inserido pra que aderissem a esse comportamento de manada? As medidas que sinalizam arrocho, como por exemplo as restrições a direitos trabalhistas e aumento da dificuldade do crédito geram um sentimento de que foram enganados, então a imprensa direciona essa raiva contra o PT ao invés do arrocho.

Diálogos Desenvolvimentistas: Quem banca o seu representante? (II)

Em continuação ao debate publicado no dia 10/03 de mesmo título, publicamos sua segunda parte abaixo, complementando essa importante discussão sobre representatividade, democracia e a influência do poder econômico sobre os processos decisórios.

André Luís – Mesmo que você contribua para seu candidato e este receba recursos de grandes empresas, nunca teremos condições de termos a mesma influência destas (a não ser com deputados ideológicos), nem sabemos se estes vão nos defender.

No caso do voto distrital talvez isso aconteceria, pois estaríamos mais perto dos eleitos e poderíamos cobrar mais efetivamente.

Os deputados entre defender os interesses de seus eleitores e de seus contribuintes, sempre preferirão o de seus contribuintes, pois estes nas próximas eleições contribuirão para suas campanhas de novo e seus eleitores podem ser enganados por promessas, discursos, uma posição em determinado assunto e uma ou outra obrinha do orçamento (que às vezes a burocracia atrasa).

Eu mesmo nesta eleição vi o pessoal do meu bairro em que nasci votar em candidatos que só aparecem em eleição (mesmo depois de um ano de enchente).

Temos de mudar conceitos.

Weber Figueiredo – Temos de mudar conceitos. Isso!

Tania Faillace – Receio que não tenhamos tempo. Acho que lhe enviei um artigo do politólogo argentino Atílio Boron sobre o fato de Barack Obama ter recebido uma ordem do CMI (Complexo Militar Industrial) para arranjar um pretexto qualquer de atacar Venezuela imediatamente.

Teremos guerra nos vizinhos, e teremos guerra aqui dentro. O panelaço foi um sinal de entendimento para começar ações aqui, possivelmente depois de começarem na Venezuela.

Serão ações terroristas, atentados. E olho vivo nos meninos e meninas, nos coxinhas, que são elementos comandados pelo CANVAS, a serviço dos norteamericanos.

A República de Weimar foi derrubada também por movimentos jovens, e sabemos o que aconteceu nos anos seguintes.

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Weber Figueiredo é engenheiro e professor da CEFET-RJ.

André Luís é economista e funcionário do BNDES.

Tania Faillace é jornalista e escritora.

Diálogos Desenvolvimentistas: Quem banca o seu representante?

Weber Figueiredo – Você já pegou dinheiro do seu próprio bolso para ajudar a eleger algum político em quem confia?

Certamente a imensa maioria nunca fez isso, deixando praticamente todos os candidatos eleitos nas mãos das empresas e negocistas que os financiaram. Só que a TV nunca lhes contou isso.

Portanto, não se espante em ver listas e mais listas de financiamento privado de campanhas eleitorais conforme essa do PSDB e FURNAS, verdadeira ou não. Há décadas essa é a práxis (contrária à democracia) que só será mudada após uma reforma político-eleitoral de verdade e punição severa tanto para os corruptos quanto para os entreguistas do patrimônio nacional.

Defenda um modelo de desenvolvimento com soberania e justiça. Defenda a educação de qualidade para todos, em todos os níveis. Defenda a pesquisa científica e tecnológica como a única forma de gerar riquezas sem cair na armadilha da dependência que gera desemprego, pobreza e criminalidade. Defenda a nossa cultura. Defenda as empresas nacionais que desenvolvem tecnologia e geram milhares de empregos qualificados, a exemplo da estatal Petrobras (nunca defenda os corruptos).

E se você tiver dúvidas, mire-se no exemplo dos países ricos e rejeite a desnacionalização da economia proposta pelos golpistas espertos (e bobinhos distraídos).

Tania Faillace – O livro-de-ouro para passar entre amigos e simpatizantes de campanhas, ação de grupos, etc., há muito deixou de ser passado, e até não é mais conhecido das novas gerações.

Poderia ser interessante ressuscitá-lo em termos modernos e até chegar a um entendimento fiscal para sua classificação como despesa de interesse social, assim como as doações benemerentes.

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Weber Figueiredo é engenheiro e professor da CEFET.

Tania Faillace é jornalista e escritora.

Diálogos Desenvolvimentistas: O domínio tecnológico e a falácia privatista

Weber Figueiredo – Observar que quem domina a tecnologia, isto é, quem domina o projeto de engenharia, é quem especifica toda a cadeia produtiva, ou seja, especifica todos os insumos necessários à obtenção do produto final, quer seja uma refinaria, plataforma, viaduto, máquina ou equipamento.

Quando as empresas estrangeiras substituem as empresas nacionais, elas passam a desenvolver os seus próprios projetos de engenharia, e, portanto, passam a ter o domínio dos preços e fornecedores e, aí, adeus aos controles nacionais. Isso significa perda de autonomia (ou soberania).

Quando as empresas de telecomunicações foram privatizadas e entregues ao capital estrangeiro pelo mago do entreguismo, a primeira coisa que fizeram foi cortar diversos fornecedores brasileiros e passar a comprar equipamentos e serviços de seus parceiros estrangeiros.

Esses juristas de meia tigela, ministérios públicos, tcu’s etc, não metem o bico com nenhuma empresa mundial para dizer se houve superfaturamento ou não de um produto ou serviço, porque é difícil discutir com o americano, chinês ou coreano se alguma coisa feita sob encomenda (customizada) no exterior tem o preço correto de R$ 100 e não de R$ 1000 como ofertado.

Se já é moroso discutir preço com as empreiteiras nacionais (com as nossas planilhas de preços), imagine discutir com as empresas estrangeiras que dominam todo o negócio. Além disso, quando eliminamos a inteligência nacional de projetos, eliminamos pessoas que possam dialogar sobre tecnologia e preços de igual para igual com os estrangeiros. Ficam uns “burros” brasileiros recebendo receitas e preços prontos dos “parceiros” estrangeiros. E mais, os empregos que deveriam ficar aqui são transferidos para o exterior.

Dependência tecnológica, significa cortar a cabeça do conhecimento e decisões e ficar apenas coma a mão-de-obra subalterna.

Isso é bonito?

Acho que não, por isso devemos defender empresas nacionais que têm autonomia tecnológica a exemplo da Petrobras e construtoras (que projetam e constroem).

Nelson Prata – A dominação estrangeira dos projetos em quaisquer setores significa dar o golpe final na soberania. Alguém realmente acha que as privatizações eliminam a corrupção? O Estado está a salvo com as privatizações? Ledo engano, o Estado é saqueado com ainda mais vigor após os desmontes, pois as antigas estatais são e continuarão sendo subsidiadas pelos cofres públicos, só que fora do holofote da mídia conivente, sob o manto do disfarce privado.

Veja o recente caso japonês, onde ministros renunciaram e o Primeiro-Ministro está sob pressão por haver recebido doações de empresas “privadas”, subsidiadas pelo governo japonês. Imagine agora a festa que fazem e farão os investidores beneficiados pela privataria passada e futura. Este é o verdadeiro buraco em que nos meterão, estaremos eternamente condenados a cobrir rombos orçamentários, escravos em uma colônia disfarçada de nação.

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Weber Figueiredo é engenheiro e professor da CEFET-RJ.

Nelson Prata é engenheiro, professor e consultor.

Diálogos Desenvolvimentistas: O povo brasileiro e sua natureza

Operários, de Tarsila do Amaral (1933)

A questão do subdesenvolvimento brasileiro e a índole de nosso povo é o destaque deste debate de ricas análises e ideias. Os que desejam construir um país justo, soberano e desenvolvido muito se afeiçoarão as reflexões deste diálogo.

Confira:

Norton Seng – Onde estão nossos governantes?

Com uma dívida elevada e que não para de crescer, e com níveis insuportáveis de impunidade e corrupção, e desvios bilionários, também crescentes, entre tantos outros dados negativos e tão enraizados em nosso país, conclui-se que o Brasil jamais se reerguerá. A Alemanha, por exemplo, é o maior exportador de café solúvel do mundo e ganha bilhões de dólares com o nosso café ‘in natura’ – mesmo sem ter um pé de café. Assim, os alemães devem morrer de rir com a estultice dos que gerenciam o nosso país.

Tristemente, o mesmo acontece com a nossa madeira, exportada em toras; nosso couro, exportado cru; nossa soja, em grãos; nossas pedras preciosas e semipreciosas, ouro, mármore, cristal, minério de ferro, com o maior teor de pureza do mundo, todos ‘in natura’, nossas frutas, exportadas em xarope e processadas (envasadas) nos EUA e vendidas para o mercado europeu e asiático. A lista é imensa.

A pauta de exportações brasileiras, hoje, aponta o mesmo porcentual de mais de 70% de produtos primários, quer dizer, exportamos hoje o mesmo que exportávamos há 70 anos!

Parece claro que seríamos, se tivéssemos uma maioria de governantes sérios e nacionalistas, ao longo de nossa história, um dos países mais ricos do mundo. Mas esse deletério e anacrônico processo, pelos inegáveis registros e fatos, mostra que isso dificilmente acontecerá.

Nelson Antônio Prata – Isto é a prova de que o maior inimigo é o interno. Ele está encastelado no próprio governo, desde sempre.

Gustavo Santos – Se o maior inimigo é interno, somos sub-raça? O que querem dizer com isso? Vocês estão reproduzindo (de graça e alegremente) conteúdo feito por agências de inteligência estrangeiras para aviltar e humilhar o povo brasileiro e para jogar brasileiros contra brasileiros, acabando com nossa autoestima e capacidade de termos esperança e de acreditarmos em nós mesmos. Esta é uma velha tática dos impérios sanguinários para subjugar os povos mais pacíficos.

Prefiro mil vezes ser brasileiro do que ser um povo que apoiou alegremente vários holocaustos. Prefiro perder do lado do meu povo do que vencer do lado de povos poderosos mas capazes das maiores atrocidades por se acharem superiores ou mais humanos do que os outros, que possuem menos tecnologia ou capacidade militar.

É para isso que estamos nessa Terra? Subjugar ou ser subjugado? Não é assim que pensa o povo brasileiro.

O que há de mais profundo no povo simples do Brasil é a ausência do censo de superioridade que os povos do Velho Mundo tanto valorizam e tentam impor aos mais fracos. Se tem um lugar do Mundo que dá chances para um futuro realmente promissor para a humanidade, onde as pessoas sinceramente acreditam na igualdade entre as raças, os povos e as culturas é aqui.

O Brasil, desse povo alegremente mestiço pode mostrar realmente um futuro de paz para a humanidade, apesar de toda propaganda e sabotagem contrária.

Tecnologia, poder, capacidade organização e manipulação podem subjugar, podem causar admiração, mas não alimentam a alma, não trazem paz e alegria.

Nós podemos aprender com o Velho Mundo e Império do Norte, mas eles também precisam aprender muito conosco, para começar: tolerância sincera e depois a experiência de que é possível ser feliz sem ser superior e em especial sem ser materialmente superior.

É honroso ser brasileiro. Mesmo na derrota, mesmo sendo fraco.

Um dia venceremos pela tolerância, pela cordialidade, pela alegria e pela paz. Quando venceremos… quando vencermos não haverá perdedores, não haverá inferiores, apenas diferentes, humanamente diferentes.

Roberto D’Araújo – Estás a defender a velha ilusão do homem cordial? Sérgio Buarque já esmiuçou esse conceito em 1936. Desculpem os que pensam ao contrário, mas estamos cada vez mais primários em todos os sentidos: industrial, educacional, cultural, infraestrutura, transportes, saúde e, principalmente, em política. Nos últimos anos só temos assistido as velhas oligarquias retornando de mãos dadas com as falsas esquerdas. Para onde vai o país? Estamos repletos de bizarrices sob a ideologia de que esses caminhos são o jeitinho brasileiro que só nós entendemos. Tô fora!

Sem preconceito racial? Onde?

O que falta ao Brasil é exatamente uma boa dose de pessimismo do Velho Mundo, pois essa ode romântica ao otimismo, discurso afiado com essa pobre cultura “brasileira”, só traz problemas.

Para construir um país é preciso ideias e planejamento. Planejamento é justamente a área onde as visões devem lidar com eventos ruins. Sendo pessimista, viadutos e aviões não caem, reservatórios não se esvaziam, leitos de hospitais não se esgotam, orçamentos não estouram e muitas outras coisas adversas são evitadas.

A palavra tolerância é muito próxima da complacência, enfermidade arraigada na sociedade, brasileira imersa na falta de informação e enganada pelos falsos profetas.

Adriano Benayon – Penso que a posição defendida por Gustavo vai no sentido de compreender e apreciar o grande valor das virtudes humanas do povo brasileiro e que elas contribuem para formar bom ambiente no País, em todos os sentidos.

Há, porém, um porém. É que a grande abertura de muitos brasileiros às influências vindas do exterior – combinada com a devastação cultural e de valores em que o império anglo-americano vem investindo com intensidade, entre nós, há cerca de um século, e combinada ainda com as condições miseráveis para o grosso da população, decorrentes das políticas entreguistas, implantadas com radicalidade, desde 1954/1955 – acabaram fazendo, no mínimo, relativizar, se não prejudicar gravemente – esse ambiente favorável tanto à felicidade, como até a produção de condições de vida minimamente dignas.

Então, uma das coisas de que o povo brasileiro precisa conscientizar-se agora é que já apanhou de mais, devido talvez nem tanto a uma inata complacência, mas ao fato de vir sendo enganado e desinformado há tanto tempo.

E que, portanto, sem perder a bondade, tem que se endurecer para enfrentar o presente desafio, que coloca em risco até mesmo a preservação da unidade nacional e de suas condições de sobrevivência, tanto como Nação, como individualmente, para dezenas de milhões, assolados por doenças e pela perspectiva de morte muito prematura.

Sem falar na sobrevivência da dignidade de todos, pois, além dos traidores que já a perderam – se algum dia a tiveram – já que a continuidade do processo político e econômico dos últimos sessenta anos implica o aviltamento do País e a condição de cidadãos de quinta categoria dentro da ordem mundial governada pela oligarquia financeira estrangeira.

É óbvio também que o crescimento do crime organizado e do desorganizado já criaram condições próximas da convulsão social e que essa violência sem sentido, que não seja o do mal, vem comprometendo seriamente e talvez modificando a suposta boa índole do povo brasileiro, a qual, de resto, já não era tão generalizada assim, até mesmo nos bons tempos da Velha República e nos da Era Vargas que lhe seguiu. Já se praticavam então muitos crimes não só por ambição de propriedade, mas os de lavagem de suposta honra, até mesmo quando esta se julgava ofendida só por subjetivos “agravos”.

***

Norton Seng é aposentado. Presidiu o Banco do Brasil em Pequim durante vários anos.

Gustavo Santos é doutor em economia e funcionário do BNDES.

Roberto D’Araújo é engenheiro e presidente do Instituto Ilumina.

Adriano Benayon é aposentado. Ex-diplomata e doutor em economia.

Diálogos Desenvolvimentistas: A estiagem e a energia

Rio São Francisco enfrenta uma de suas mais severas estiagens. Uol/Reprodução

No último dia 10 o colunista do Valor Econômico, Sergio Leo, publicou artigo intitulado São Pedro exige apoio no ministério de Dilma. Nele constatamos que a estiagem que o Brasil enfrenta este ano já cobra uma alta fatura também nas questões energéticas. O quadro é o de um setor que precisa recorrer cada vez mais a ativação das caras e poluidoras termelétricas e a empréstimos, tomados para que a geração de energia prevista nos contratos seja cumprida.

A perspectiva para o próximo ano é negativa caso as chuvas não venham. É possível que falte energia para atividades produtivas e isso contribua para mais desaquecimento econômico.

Diante desse quadro os economistas Gustavo Santos e Luís Otávio Reiff, funcionários do BNDES, debateram com o engenheiro eletricista Roberto D’Araújo, diretor do Instituto Ilumina, onde escreve regularmente sobre o setor energético brasileiro.

Confira:

Gustavo Santos – Dilma terá de fazer racionamento e isso vai reduzir a taxa já medíocre de crescimento. Sem falar que não poderá colocar a culpa em ninguém porque ela foi a ministra que montou esse modelo. Não é um desastre que aleijaria o país, mas para a imagem e moral política dela será.

Luís Otávio – Por que não importamos gás natural/petróleo do oriente médio e da Rússia? Na verdade, podemos trocar carne, soja, milho por petróleo russo. Seria uma forma de “tomar” mercado da Europa e EUA lá. Creio que há muita miopia na discussão sobre energia do país.

Gustavo Santos – Isso não muda nada:

1) Este é um problema de falta de capacidade de geração de energia elétrica (se faltar água), não tem ligação com oferta de combustíveis;

2) Ainda que houvesse capacidade de geração de energia as termoelétricas têm contratos de fornecimento de eletricidade que independem dos fornecedores deles;

3) Se dependesse, isso não mudaria quase nada;

4) Se mudasse um pouquinho ainda dependeria de comprar combustível mais barato, o que os russos não nos possibilitarão.

Luís Otávio – O Japão está há 3 anos com racionamento de 20% e mesmo assim a economia não está em recessão. É possível importar gás natural, energia da Itaipu do Paraguai e várias outras formas de geração de energia elétrica. Basta pensar um pouco.

Gustavo Santos – Podemos fazer racionamento sem grandes inconvenientes como em 2001, mas dizer que isso não teria impacto sobre o PIB é exagero. É possível crescer com racionamento (basta que setores pouco intensivos em energia cresçam de forma que mais do que compensem a queda dos setores intensivos em energia), Porém o impacto sobre o PIB e a inflação é inevitável. Importar gás natural não resolve. Há falta de capacidade de produção das termoelétricas para suprir a escassez de água nas hidroelétricas. Além do mais, já consumimos todo o excedente do Paraguai, não há como importar mais.

Luís Otávio – Meus pontos principais são os seguintes:

1. Não existe um modelo de energia capaz de garantir um suprimento continuo e a preços razoáveis indefinidamente. Todos os modelos são falhos. Portanto, a falta de energia é um dado da realidade e deveria ser colocada no planejamento. Ou seja, a cada 10-15 anos teremos uma crise. A história, brasileira (crise de 1993, 2001e 2014) e mundial demonstram isso.

2. A crise brasileira atual, comparada com as anteriores e com as crises mundiais, particularmente, a japonesa (48 usinas nucleares desligadas e perda de 30% da capacidade; seria como uma bomba tivesse destruído Itaipu e o sistema chesf ao mesmo tempo), não é representativa. Portanto, se a gente fica desesperado com uma crise dessa, o que aconteceria se tivéssemos uma crise à la Japão? Assistiríamos um Harakiri coletivo? Há soluções emergenciais de suprimento de energia elétrica: termoelétricas a carvão, a diesel, geradores isolados. etc.

3. Mais que um racionamento, precisamos de um programa de eficiência energética.

Roberto D’Araújo – Claro que não existe estabilidade de preços em prazos indefinidos, mas o Brasil conseguiu se afastar dos sistemas que tinham alguma possibilidade de manter os níveis de preço razoáveis, que tínhamos antes de 1995. Segundo dados da ANEEL, a tarifa residencial é 80% real mais cara da praticada em 1995. A industrial do mercado cativo (pequena indústria) é 108% mais cara. Alguém já viu alguém do governo dar alguma explicação sobre essa mudança estrutural? O prejuízo totalizado do setor já atinge R$ 100 bilhões e, apesar disso, parece que faz parte da paisagem de horrores do país.

Apesar de termos um sistema físico totalmente diverso das experiências mundiais de mercantilização da energia, o Brasil entrou de cabeça nessa aventura. Ao contrário do que muita gente pensa, o modelo “neoliberal” imaginado pelo governo FHC foi efetivamente implantado no governo Lula-Dilma. Fortemente agravado com a destruição da Eletrobras, sacrificada para fornecer energia gratuita para compensar os altos custos decorrentes do modelo adotado pelo governo.

Basta dar uma olhada nos diversos estados americanos para ver que aqueles que permaneceram sob o regime de serviço pelo custo (return rate regulation) têm tarifas mais baixas. Os sistemas mais parecidos com o brasileiro são os das províncias canadenses de Quebec e British Columbia (grandes reservatórios e longas linhas). Montreal tem uma tarifa 2,5 vezes mais barata que a brasileira. As empresas são estatais e, a não ser o Gustavo, não conheço ninguém que veja algum indício de que esse caminho seja viável no Brasil.

A crise brasileira é grave porque é difícil desmontar o colonialismo de mentes que toma conta do setor elétrico. No fundo, todos os técnicos experientes do setor sabem que o que está implantado no Brasil é uma gambiarra mal feita, mas a crença fundamentalista que “o mercado resolve” é imensamente forte. Muitos deles simplesmente aguardam a aposentadoria.

Hoje temos um sistema que avalia a segurança de forma otimista e não pode alterar nada porque emitiram certificados fixos de energia por usina e, se fossem alterar, o setor privado reclamaria muito. Como se sabe, quando eles reclamam, o governo aumenta os tiros no pé.

A crise é extremamente grave pelo seu custo e por ter um horizonte de grandes conflitos.