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Diálogos Desenvolvimentistas: Para onde vai o preço do petróleo?

Confira este debate essencial sobre o mercado de petróleo mundial, a geopolítica e seus impactos. As análises de Hélio Silveira e Adriano Benayon, ambos economistas, aliado ao comentário do consultor legislativo e especialista em petróleo, Paulo César Ribeiro Lima, dão uma perspectiva relevante sobre tão importante tópico.

Confira:

Hélio Silveira – O petróleo está em queda por 2 motivos:

1. Por razões geopolíticas, os EUA mandaram a Arábia Saudita, a dona da OPEP, botar óleo no mundo no intuito de quebrar a Rússia, a Venezuela, o Irã e o Pré-Sal Brasileiro;

2. A baita recessão/depressão que assola o mundo, com os EUA mentindo que estão crescendo, quando na verdade estão mal das pernas. Por isso o consumo de gasolina também cai mesmo com o preço barato.

O óleo barato, mesmo se recuperar gradualmente, vai na verdade adiar os projetos alternativos, que ainda não possuem custos competitivos frente aos preços dos derivados do petróleo.

Quanto aos custos de produção do Pré-Sal tenho artigo que cita o custo de exploração do Pré-Sal em US$ 9/barril, dada a alta produtividade de seus poços. Matéria da AEPET esclarece que os custos dos equipamentos e serviços caem juntamente com o barril.

A cotação do petróleo, em termos reais, já está muito abaixo do mínimo de fev/2009(cotação corrigido pelo CPI) de US$ 43,79. O que considero um preço significativo pois se tratou de um momento da maior crise do capitalismo no pós 29. Então, parece que a cotação do petróleo já está em ponto de retomar a subida por dois motivos:

1. A própria Arábia Saudita está com problemas de déficits fiscais crescentes (a Casa de Saud precisa de altos subsídios para manter seu reino autoritário sem contestação social interna) por conta da renda petroleira;

2. A queda do óleo arrefeceu o nível de preços, uma das preocupações do FED, que luta com uma deflação insistente, influente na formação de expectativas recessivas.

Quanto à cotação da Petrobras, também creio estar “no chão”, já precificados todos os aspectos da “tempestade perfeita”. Há ainda fatores favoráveis de caixa pouco mencionados:

1. O preço interno dos combustíveis está bom, frente a queda do óleo;

2. Fez caixa, infelizmente, se desfazendo de ativos bons e relevantes para seu sistema produtivo;

3. Seus custos internos e externos estão caindo;

4. Está paralisando seus investimentos.

Estes fatores dão certa convicção que a cotação está atrativa, boa para compra, sendo o maior risco para tanto o governo partir para uma capitalização destrambelhada! Entretanto, Nelson Barbosa “meio” que descartou a hipótese (aí não sabemos se é uma afirmação política para desfazer expectativas momentâneas).

Esta é minha análise de “mercado” mesmo sabendo q um Governo Soberano (como sugeri no meu artigo com Rogério Lessa:) agiria de outra forma, assumindo a dívida em dólares da Petrobras, trocando-as por empréstimos do BNDES/TESOURO (com prazo estendido e compromisso de pagamento em real, com correção cambial) e recompra de ações para tesouraria (quer melhor investimento?).

Paulo César Ribeiro Lima – Nas próximas três décadas o petróleo continuará importantíssimo, com seus preços seguindo a média, desde a década de 80, de US$ 60 por barril. Não acredito que um preço de US$ 30 por barril seja sustentável. Nem o orçamento da Arábia Saudita aguentaria. Também não aguentariam muitos produtores americanos.

Dessa forma, o Pré-Sal continuará muito importante, em razão do baixo custo de extração de US$ 8 por barril e custo total de produção de US$ 16 por barril.

Penso que o Gabrielli não deveria trazer visões muito pessimistas neste momento. Isso é o que o Mercado quer. Mercado este que sempre quis destruir a Petrobras.

O governo, por sua vez, dá grande contribuição para isso. Com os sobrepreços e os superfaturamentos dos projetos da Petrobras, motivados pela desonestidade e pelo famigerado Decreto do FHC, houve um grande aumento da dívida da empresa, também afetada pela desvalorização do Real. Assim, a coisa está do jeito que o diabo gosta: venda de ativos, privatização, desintegração da empresa etc. Parece que o governo está conseguindo uma missão quase impossível: destruir a Petrobras. Coisa que nem o PSDB conseguiu.

É importante ressaltar, contudo, que a Petrobras continua com um lucro operacional extraordinário de R$ 80 bilhões por ano. Lucro que deve aumentar com a queda dos preços do petróleo. Atualmente, a Petrobras está comprando diesel a R$ 1,129 por litro no mercado internacional e vendendo a R$ 1,696 por litro. Mantidos os preços de realização nas refinarias em 2016, o lucro operacional da Petrobras deve chegar a R$ 100 bilhões. Assim, nem tudo estaria perdido. Contudo, acho que está, em razão da qualidade do atual governo. Era hora de sair do mercado e promover a transparência na empresa, que seria tornada pública. Ações inimagináveis para o governo atual. Com relação às ações, acredito que o sofrimento continuará. A cotação poderia melhorar, mas com um governo de direita. Assim, o mercado, a mídia e a justiça poderiam dar uma trégua. Entre a direita do PSDB/DEM e a direita do PT e outros, o mercado prefere a primeira.

Adriano Benayon – Convém ter sempre presente que os preços do petróleo são manipulados, não só através do “mercado” financeiro administrado por um cartel de grandes bancos, como diretamente pela oferta dos grandes produtores do Oriente Médio, quase todos Estados clientes do império angloamericano. Como sabemos, a Arábia Saudita e outros receberam ordem de bombear mais petróleo, em razão da estratégia de ferrar a Rússia (esqueceram que estão subsidiando a China e a Índia).

A estatística mais recente que encontrei dos importadores desmistifica muito do blábláblá corrente. Por exemplo, os EUA seguem sendo o maior importador, by far… Aquela conversa de produção local xisto vai substituir o petróleo não cola, mesmo que o preço deste fosse o dobro do que é no momento.

Falei em subsidiar China e Índia, porque estes não são propriamente satélites dos angloamericanos. Ao contrário, a China é considerada pelos hawks uma de suas principais ameaças geopolíticas.

Notar que a Índia, hoje com consideráveis dimensões econômicas, é o país que mostra maior taxa de crescimento das importações de petróleo na última década. Passou de longe a Alemanha (há dez anos, importava bem menos que esta). O Japão era o segundo maior importador mundial, com mais de 5 milhões de barris/dia. Mais ou menos, o volume da China, de hoje. Incrível para quem olhasse, há dez anos: o Japão importava mais de três vezes o que a Índia importava, e esta já o está alcançando. Há uns quinze anos, a importação de petróleo da Índia corresponderia + ou – à metade da Alemanha, e agora se está aproximando de ser o dobro.

A Índia realiza, com êxito, missões aeroespaciais a Marte etc., é a terceira economia mundial pela PPP, e seu PIB, mesmo em dólares, passou de longe o do Brasil. A China, mesmo desacelerando, continua o principal foco de atividade no mundo, e a Índia, que, ainda tem mais da metade da população para tirar da miséria, parece ser o pólo de dinamismo mais promissor dos próximos tempos.

Diálogos Desenvolvimentistas: Mitos e verdades sobre a energia renovável

Publicamos o diálogo abaixo tendo em vista a importância de desmistificar os fatos e versões em torno da geração de energia elétrica no Brasil. É urgente que avancemos no entendimento sobre a complementaridade entre a energia proveniente da água, sol e vento, atentando ainda para concepções equivocadas e o lobby de empresas interessadas em manter o debate sobre o assunto em nível superficial.

Betty Almeida – Desculpem a ecochata aqui, mas hidrelétrica não tem baixo impacto. Destrói vida vegetal e animal, abala e perturba a vida humana, altera paisagem, clima, regimes fluviais e pluviais.

Melhor seria investir na energia fotovoltaica (conversão de energia térmica solar em energia elétrica). Essa teria menor impacto e poderia ser uma alternativa, a mais longo prazo, para os consumidores individuais, mesmo nas aglomerações urbanas, gerarem energia para consumo próprio e venderem o excedente. Aliás, a energia fotovoltaica (não o calor em si) não se dissipa quando o sol se põe.

Para esta ecochata, a energia eólica tem um inconveniente grave: é um perigo para as aves, principalmente as migratórias. Perturba as correntes aéreas, provocando desorientação e as hélices matam os pássaros.

Ivo Pugnaloni – Você não é ecochata. Como eu, melhor seria chamá-la ecófila, uma amiga do meio ambiente. O masculino seria ecófilo, que também não existe. Ainda.

Existem ecologistas, ecochatos e ecófilos.

Tal como existem mini-hidrelétricas (abaixo de 3MW); pequenas hidrelétricas (acima de 3 MW e com alagamento total – incluída a calha atual do rio – com área média de 15 campos de futebol); médias hidrelétricas até por volta de uns 300 MW com qualquer alagamento, grandes hidrelétricas até uns 1000 MW e mega hidrelétricas como Itaipu, Belo Monte, Três Gargantas, etc..

Não dá para pôr tudo num saco só, pois não são a todas a mesma coisa, SÓ PORQUE TODAS USAM A QUEDA DA ÁGUA E DEPOIS A DEVOLVEM AO RIO, MAIS LIMPA DO QUE ENTROU.

Senão estaremos fazendo como os coxinhas, que não querem nem saber, e acham que “todo petista ou é ladrão ou é um merda, porque apoia ladrão” A arma psicossocial é fogo! Pode atirar ódio a petista, ódio a ecologista, ódio a hidrelétricas, ao que o dono quiser…

Entendo muito pouco de outras áreas, mas nessa de engenharia elétrica já são 39 anos trabalhando contra a maré, então acho que entendo um pouco.

Se V. me der o prazer e a oportunidade de explicar, acho que todos ganharão , pois a desinformação e a contrainformação da indústria que é nossa concorrente, a do petróleo e dos armamentos, é muito grande.

Em primeiro lugar não dá para ser só “solar”. Nem só “hidrelétrica”, nem só eólica, nem só biomassa.

Isso não é campeonato de futebol onde um “é Flamengo”, o outro “é Corinthians”… e os outros são de outros times.

Sabe por que?

Porque as renováveis complementam-se uma as outras, ao longo do ano. Nos meses que chove mais, tem pouco vento. Quando venta mais, tem pouca chuva e no meio dos dois máximos. No Brasil nós temos a colheita da cana, que nos dá energia das térmicas renováveis. A solar e a eólica, de tarde, quase que param completamente.

Nessa hora, se você não quiser ligar as térmicas – que custam 6 vezes mais caro que as hidrelétricas – você tem que usar as hidrelétricas.

Que aliás, tem outra vantagem para o sistema: quando você liga uma eólica ou uma solar ou uma biomassa, você pode economizar a água nos seus reservatórios, ESTOCANDO O VENTO, O SOL, O BAGAÇO DE CANA!

Exatamente como a Dilma falou, mas como ela não mexe muito com essas coisas, na verdade, se atrapalhou toda mas disse uma grande verdade, de um jeito horrível porque ela quis explicar em dois minutos, algo que a TV BRASIL, A Eletrobrás, DEVERIAM EXPLICAR DIA E NOITE.

Por favor, veja o gráfico ilustrativo aqui na página 2 dessa Cartilha de Mitos e Verdades.

Olhando se vê o que pouca gente sabe e o que é “complementariedade”.

E por que não é certo ter “um time” quando se fala que é a favor das energias renováveis. Cada uma delas ajuda a outra porque todas elas vem do Sol: eólica, solar, biomassa e hidrelétricas, e seus máximos variam conforme a posição e a exposição do sol sobre cada parte da Terra.

E o sol muda de posição, ou melhor a Terra muda de posição no espaço ao longo de um ano, seu eixo se inclina e isso provoca mil fenômenos meteorológicos.

Quanto aos benefícios ambientais das Pequenas Hidrelétricas são muitos e novamente, pouco conhecidos, pouco mencionados na mídia, que gosta muito mais de eólica e solar pois essas são extremamente dependentes de térmicas a petróleo, estas sim a menina dos olhos da mídia que anuncia Shell, Texaco, Exxon e Petrobrás a cada minuto se você considerar todas as redes e TVs do Brasil. Acho que se víssemos todas as emissoras de TV do Brasil, ao mesmo tempo, jamais haveria um só segundo sem um anúncio da indústria do petróleo.

Natural portanto que a mídia prefira proteger e o louvar as renováveis que DEPENDEM DO PETRÓLEO PARA GERAR ENERGIA O ANO INTEIRO.

Betty Almeida – Não estou querendo criar polêmica nem dar lições, quis apenas expressar uma opinião, sem dúvida menos abalizada que a sua, apoiada nos seus 39 anos de experiência no ramo. De fato, nunca imaginei que hidrelétricas trouxessem benefícios ambientais, nem que a conversão de energia térmica solar em elétrica dependesse de petróleo. Enfim, vivendo e aprendendo.

Ivo Pugnaloni – Não é polêmica. É debate e é troca e é discussão. Então nada de mais há em termos opiniões diferentes, trocarmos opiniões, conhecermos as opiniões e fatos que não conhecemos.

As verdades e certezas absolutas, já sabemos no que dão…

Deixa eu explicar melhor (se você ver o gráfico da complementariedade fica mais fácil de entender) a coisa da solar depender de hidrelétrica.

É fácil. A noite, não há sol. Como manter a sua e a minha casa com energia? Só usando outra fonte.

A essa hora só há duas alternativas capazes de aguentar nossa carga: ou as térmicas movidas a petróleo ou as hidroelétricas (cuja energia custa mais barato do que as térmicas a petróleo – seis vezes mais barato. É pela falta de hidrelétricas suficientes que se você pegar sua conta de energia agora, você verá que está pagando uma tal bandeira vermelha, (que não é do PT) mas um 31 reais a mais. Fora o que está dentro da energia mais cara.

Tem muita coia interessante no assunto energia elétrica, Como tem na saúde, na educação, na assistência social…Mas nessas áreas a sociedade aprendeu a reivindicar e a estudar as melhores políticas públicas pois afinal desde 1937 o Governo Federal realiza de dois em dois anos a Conferencia Nacional de Saúde, de Educação, etc.

De energia elétrica nunca houve nenhuma.

Essa é a causa pela qual tanta falta de informação leva as pessoas a terem ideias completamente equivocadas e adequadas àquilo que mais interessa à indústria internacional do petróleo: combater as hidrelétricas e “torcer” como num campo de futebol, sem saber bem porque, por fontes que obrigam a um alto consumo de petróleo quando param de operar a plena carga.

Como a eólica e a solar, no final da tarde de todos os dias ou nos meses mais chuvosos, quando o vento e a irradiação solar diminuem.

Diálogos Desenvolvimentistas: Capitalismo, socialismo e questão nacional

Abordando a questão do capital globalizado, soberania e desenvolvimento, os economistas Atenágoras Oliveira, professor da UFPB e Gustavo Santos, funcionário do BNDES, promoveram este memorável debate.

A discussão gira em torno da possibilidade ou não da existência de um empresariado genuinamente nacional e voltado para os interesses do país, e em que condições isso se daria. Há também importantes observações sobre a diferença entre a classe capitalista do mundo desenvolvido e em desenvolvimento, além de observações sobre socialismo real e capitalismo real, comparado as respectivas idealizações.

Confira:

Atenágoras Oliveira - A velha ilusão com o capitalismo nacional, expresso abaixo em “empresariado industrial autêntico”. A lógica do capitalismo é a acumulação infinita, sendo a forma da acumulação um componente secundário. Por isso que esse “empresariado industrial autêntico” é sócio do rentismo e do capital estrangeiro: os capitalistas que atuam predominantemente no setor produtivo nacional (tipo a Votorantim, que também tem um banco), também ganham com a esfera financeira e com parcerias com o capital estrangeiro. São todos capitalistas que, no fundamental, entendem-se muito bem.

Pacto social entre explorador e explorado nada mais é do que uma discussão do grau de exploração, quando o que precisamos urgentemente é de outro modelo de sociedade, no qual pessoas e meio ambiente não sejam mercadorias.

Gustavo Santos - Não é bem assim. Os gringos não pensam assim de forma alguma. Protegem os seus e usam o serviço secretos deles para destruir os nossos capitalistas. Estado e capital nacional são um embricamento indissolúvel nas grandes potências. Mas, sem serviço secreto impondo a vontade do Estado, o capitalismo vai pro lado do mais forte, que é quem tem poder de prender, sabotar e destruir capitalistas, os serviços de inteligência e policiais. Por isso os capitalistas brasileiros espertos se unem aos estrangeiros. Tem uns grandes capitalistas que ainda insistem em ficar do lado do Estado brasileiro (não no sentido moral ou legal, mas no sentido político ou econômico) ou ao menos fazer oposição aos concorrentes estrangeiros, esses são sempre destruídos, não importando seu tamanho.

Essa é a realidade que a velha esquerda não quer ver por dogmatismo. Mas é real.

Isso não quer dizer que eu concorde com o artigo do Assis. O capital nacional só ficará do lado do Brasil se houver um poder coercitivo forte para mandar dele e protegê-lo dos concorrentes externos. Como está hoje, só se eles fossem suicidas.

Atenágoras Oliveira – Vamos em partes:

1) Quando são os marxistas a defender suas convicções de que é possível construir um outro modelo de sociedade, não falta quem diga que os mesmos são dogmáticos e utópicos. Mas quem define um “capitalismo humano” ou coisa que o valha, aí já são “racionais e científicos”. Não há novidade neste tipo de recurso. Marx tem um trecho de suas obras que ironiza com isso (não me lembro agora em qual trecho, se em “O Capital” ou se na “Ideologia Alemã”), dizendo que todo mundo alega que suas ideias são expressão da ciência, e que as ideias dos outros são pura ideologia…

2) Os capitalistas dos países ricos ficam ao lado de seus Estados por duas razões: primeiro porque o Estado é deles (comento isso abaixo), e segundo porque os Estados das nações mais ricas são instituições muito poderosas, e os capitalistas buscam, óbvio, o abrigo das instituições mais poderosas. Contudo, não me consta que os capitalistas europeus e japoneses tenham sido fiéis a seus Estados Nacionais quando os governos europeus tentaram reformatar o sistema monetário internacional, em 1979, e os EUA rejeitaram e enquadraram o mundo com a elevação de suas taxas de juros e a desregulação do sistema financeiro. Todos correram aos EUA, jogando França, Alemanha, etc. para crise. O governo Mitterrand, então representando o poderoso Estado Nacional francês, foi um dos exemplos mais fortes deste enquadramento. Um ou outro capitalista (exceções existem para confirmar as regras) pode até ter lá suas paixões nacionalistas, mas a história mostra que o mais profundo compromisso de um capitalista é com … o seu capital. Concordo que Estados nacionais e capitalistas sempre estiveram vinculados, mas exatamente porque o primeiro é instância hegemônica do segundo grupo.

3) E aí entramos em uma das nossas mais profundas divergências: a crença em um “Estado socialmente neutro”. Porque é neste conceito que resulta sua formulação. Discordo em 100%. O que há é que uma instituição criada para exercer o domínio de uma classe social (por isso que a mesma é chamada de “dominante”), obtém muito melhores resultados quando o faz através do recurso da hegemonia, que envolve a tradicional coerção que marca a história dos Estados, mas também o consenso, cada vez mais fundamental, com o avanço das lutas sociais e o aumento da complexidade da sociedade contemporânea. De fato, todas as classes sociais são atendidas por este Estado, mas na proporção e sob a hierarquia das forças políticas (que por sua vez estão relacionadas ao poder econômico) de cada uma. Por isso que o Estado não é pura expressão da classe dominante. Para que esta classe continue nesta condição de dominante, é preciso que o Estado passe por cima de interesses capitalistas particulares, em nome dos interesses do conjunto (ou pelo menos do grupo mais forte) dos capitalistas. Com essa nossa divergência em como vemos o Estado, de fato nunca iremos falar o mesmo idioma.

4) Mas a leitura do seu texto me chamou atenção para o fato de eu misturar “ilusões” diferentes entre si no meu curto texto abaixo. Explico:

a) o caso de um país periférico, hoje, desenvolver um modelo de capitalismo nacional. Considero (e acredito que você também) que é completamente diferente este processo para os países que começaram no século XIX, para os países que tentam este objetivo no século XXI. No caso do Brasil, não é por falta de força econômica. Estamos entre as maiores economias do mundo. É porque, além de uma profunda cultura de país associado, periférico e dependente (a obra de Octávio Ianni é interessante para descrever essa disputa ideológica no Brasil), arraigada na imensa maioria de nossos capitalistas (vide nossa história), o capitalismo contemporâneo está em um momento histórico de maior grau de interdependência e de lógica internacionalizante (tese que eu teria que demonstrar, mas não vai dar para fazer aqui).

b) Outra questão, diferente, é se os capitalistas dos países ricos seriam “nacionalistas”. Eu acho que eles são fiéis ao poder que lhes garante mais poder, seja seu Estado nacional, ou o “hegemon”, e o exemplo do enquadramento mundial em 79/80, e a crescente adesão ao neoliberalismo por todo o mundo, parecem-me exemplos convincentes.

c) uma terceira questão, é se um capitalismo nacional traz “a felicidade”. Se podemos dizer que existem capitalismos nacionais, com certeza teremos que incluir nesta conta os casos da Alemanha, da França e do Japão. Com certeza, são países mais ricos que o Brasil, mas a lógica capitalista que os domina também deixa suas mazelas, mais difíceis de ver, no nosso caso, pois acumulamos mazelas piores, mas além da ainda grande desigualdade social, da destruição ambiental, das crises ajustadas com desemprego e perdas de direitos, ainda há a falta efetiva de democracia real (mais uma tese que eu teria que demonstrar, mas que não vai dar aqui). Em outras palavras: eu acho que os povos destes países, embora detentores de maiores riquezas, também precisam lutar por um outro modelo de sociedade, que basicamente desmercantilize as relações sociais. Isso sem falar, é claro, no papel de imperialismo econômico e político que tais países exercem (ainda que em graus diferentes) sobre outras nações. Minha pátria é a humanidade – o que significa dizer que todo o povo deve ter seu direito a autodeterminação, o que pode ser lido como um tipo de “nacionalismo” necessário para fundamentar um internacionalismo justo (ou seja, a dominação de um povo sobre outro não é internacionalismo).

Gustavo Santos – Infelizmente, não posso comentar todos os pontos. Mas o Atenagoras em alguns momentos resolveu debater com um espantalho que não sou eu.

Nunca disse que o capitalismo fosse humano e nem que o estado fosse neutro.

Mas o socialismo real também não é “humano” e o socialismo imaginário e tão humano quanto o capitalismo imaginário.

De boas intenções o inferno está cheio.

Se socialismo se define pelas intenções, eu sou socialista, em ideais e visão.

Mas o socialismo real que não se diferiu muito da proposta do Marx de ditadura do proletariado, só podia dar no que deu, pois uma vez instituído um exército para vencer um inimigo cruel, você será gerido por um exército e não haverá força social fora do sistema hierarquizado que possa contrabalançar o poder do soberano “socialista”.

O socialismo mais humanista que conheço é Cuba, e ela não pode deixar de ser uma sociedade hierarquizada, militarizada e de sucessão quase monárquica (Coreia do Norte é um caso exemplar de monarquia socialista). Não poderia deixar de ser, pois todo país sobre ameaça externa precisa centralizar o poder. Capitalista ou socialista.

No capitalismo, há uma pressão constante pro republicana oligárquica. Toda ditadura em países importantes será alvo do capital, ainda que possa ser taticamente aliada, sempre será combatida a longo prazo.

Os capitalistas odeiam ditadores mesmo quando lhe servem, porque sempre os temem. E de fato só a República oligárquica lhe garante total integridade e segurança física e financeira. O ditador por definição pode tudo contra o capitalista.

Então, a República, o estado de direito, os direitos civis são uma construção do capitalismo. Mas eles a querem oligárquica.

Se os socialistas não conseguem reconhecer isso continuarão presos à irrelevância ou a violência. Pois contra a violência do capital, reagirem com violência terão uma sociedade militarizada. Como construíram de fato.

O capitalismo tem também outra coisa boa que é a possibilidade de comandar trabalho sem autorização prévia do Estado. Isso deveria ser possível no socialismo. Caso contrário a sociedade cai na estagnação burocrática e desmorona em conflito civil. O socialismo tem que usar o que o capitalismo tem de bom. E Marx foi apenas superficial nessa questão.

Diálogos Desenvolvimentistas: O Direito, a Justiça e o interesse Nacional

Movidos pela prisão do vice-almirante Othon, principal liderança do projeto nuclear nacional, e pelo artigo que compara este acontecimento a execução do general Arnaldo Ochoa, alto dirigente da Revolução Cubana, alguns colaboradores da Associação Desenvolvimentista Brasileira e participantes da lista de discussões da UERJ debateram como conciliar o direito, a justiça e o interesse nacional. Sobre a necessidade de encontrar a saída certa frente a uma questão de enorme importância estratégica para o Estado.

Confira a pertinente discussão:

Gustavo Santos – Um caso não tem nada a ver com o outro. E não é uma questão de biografia. Mas de interesse público ou nacional.

O general cubano tinha realmente cometido alta traição, pois de estava fazendo tráfico de drogas certamente estava se relacionando no submundo com os inimigos do país e acabaria de um jeito ou de outro sendo um grande prejuízo ao país. Além disso era inútil, substituível, um mero chefe militar. Se o matassem por engano, não haveria grande perda.

Absolutamente oposta é a situação do almirante. Se ele cometeu um deslize ou não, não sei. Acho que não pelas evidências vazadas.

Mas certamente ele não traiu a Pátria como o general cubano. Pelo contrário, se tivesse traído, teria impedido o programa nuclear brasileiro avançar, ao contrário só avançou graças a ele; ou teria vendido a tecnologia para alguma potência. E ganhando muito mais, sem qualquer vestígio de nada contra ele, só uma conta bancária em um paraíso em alguma ilha inglesa, porque no Brasil, quem trai a pátria para uma potência da OTAN é tratado como um rei.

Samuel Gomes – São relevantes as razões que você levanta. Como de praxe, sua argumentação é bom posta, inteligente e dirigida pela defesa dos interesses nacionais. Permita-me, porém, algumas ponderações.

A lógica argumentativa honesta exige que um exemplo, quando apresentado, seja apreciado pelo que traz para o debate em razão das semelhanças que ilumina, não pelas diferenças que tem com o caso em análise. Sempre haverá diferenças. O exemplo do general cubano serve apenas para que se tenha em conta que não é possível existir justiça (do ponto de vista jurídico) sem que as pessoas sejam julgadas igualmente. Um herói nacional, que lutou em Sierra Maestra, será condenado à morte se o sistema jurídico daquele país atribuir pena capital ao tráfico de drogas. Não pode ser diferente. Um vice-almirante será julgado da forma como o sistema jurídico determinar se cometeu ilícitos. Não pode ser diferente. Se o vice-almirante foi preso ilegalmente, se não havia as razões que alegadamente determinavam sua prisão isso deve ser denunciado e corrigido e apontadas as responsabilidades do ponto de vista legal e político.

O que os nacionalistas e militantes de esquerda devemos tomar cuidado é não nos empurrarmos no beco da defesa de uma democracia de cidadãos mais iguais que os outros. Eu não gritarei nas ruas “tudo bem, os nossos roubaram, mas e outros que roubaram? Com eles nada aconteceu!”

Quanto ao vice-almirante, ele estaria sendo torturado para revelar segredos militares? Ou, mesmo sendo um guerreiro, sentindo-se aviltado pela prisão, deixaria a defesa da segurança nacional e voluntariamente entregaria aos “agentes da Cia” tudo o que sabe?

Isso não significa fazer corpo mole com o exibicionismo dos templários do MP e do Judiciário. De minha parte, tenho praticado este esporte quase diariamente no twitter, expondo as besteiras e a arrogância de procuradores e juízes federais tuiteiros.

Gustavo Santos – O exemplo que você traz entra em confronto direto com o que quer demonstrar.

Cuba não é um Estado de Direito. Portanto, especialmente lá (e também nos EUA), os generais não são julgados pela lei, mas por questões de interesse nacional, e o general foi punido por alta traição. É óbvio que nas aparências o governo cubano contou uma historinha sobre direito/leis por questões de marketing. Direito em Cuba é apenas a expressão do desejo da cúpula (que como sabemos, está interessada basicamente no interesse nacional). Se não fosse assim, já teria sucumbido.

No caso do almirante, o Moro não tem prerrogativa para julgar o interesse nacional em questão, especialmente porque boa parte do projeto é secreto e de alta sensibilidade diplomática e militar.

Além disso, não estamos falando de crime de tráfico de drogas, mas da construção de uma usina nuclear e de um submarino nuclear, considerada uma das armas mais letais e cuja tecnologia é uma das mais inacessíveis.

Até Deus mandou, “por razão de Estado”, Moisés rasgar os dez mandamentos (não matarás) e massacrar toda população (incluindo, velhos, mulheres e crianças) da terra prometida para que ela fique livre da raça dos infiéis.

Para um fariseu “da Lei”, Jesus merecia mesmo ser crucificado por levar “a Palavra” aos não-circuncidados.

As leis devem servir aos interesses do povo, e não usadas por “sacerdotes” inquestionáveis para ferir os interesses do povo. Sempre que necessário, devem ser flexibilizadas. Porém, no caso do Almirante, acho que nem precisa disso, o Moro não está julgando como outros juízes, ele age como sumo sacerdote de um direito próprio, com a benção do Deus Global.

É como penso. O que não me impede de achar esse processo todo como maravilhosamente didático e purificador, mas não por mérito ou boa intenção do Moro. Ele é só mais um Cunha. Mais uma Dilma, a mostrar que a organização do Estado da constituição de 88 não funciona. Acho difícil para um advogado perceber isso, porque são treinados a ver as leis, a constituição e a moral como absolutas, mas não são. Deus as fez todas relativas, inclusive as leis do seu próprio Livro.

Flavio Lyra – Em primeiro lugar, quero salientar que: a) Direito e Justiça não são a mesma coisa. Tratar desiguais pelas mesmas regras jurídicas é tremendamente injusto. Dizer que todos são iguais perante a lei distância o Direito da Justiça. 2) o Direito é um sistema de normas jurídicas estabelecidas a partir de certos princípios. Se esses princípios são injustos, as normas apenas consagram as injustiças contidas nos princípios; 3) uma coisa é a lei, outra coisa sua interpretação e sua aplicação; 4) Max Weber compreendeu muito bem as diferenças marcantes entre a ética individual é a ética coletiva. Questões de interesse nacional, não devem ser resolvidas com base na ética individual, pois esta não permite antever as consequências das decisões que têm impacto social.

No Brasil atual, o Direito está sendo usado com finalidades políticas, sob o pretexto de servir à Justiça. O Juiz Moro e seu grupo se amparam na lei para atuar seletivamente em favor do grupo político a que se vinculam. Eduardo Cunha, também se apoia na lei ao usar a CPI do Petrobras para chantagear seus delatores. Em resumo, partir do suposto de que cabe defender a aplicação da lei a qualquer custo, pode conduzir a consequências funestas do ponto de vista da Justiça e dos interesses sociais. A lei é um mero instrumento para a regulação da atividade humana e não uma finalidade em si mesma. O formalismo jurídico se assemelha ao uso de um algoritmo para tirar conclusões valorativas sobre operações que não se conhece os pressupostos envolvidos e o que realmente significam.

Hélio Silveira – Essa Operação Lava Jato está lavando numa velocidade impressionante o que resta da tecnologia e das conquistas brasileiras. A pergunta é: A quem interessa? Cui bono?

1 – Desmontar a Petrobras?

2 – Tirar os 30% mínimos de participação da Petrobrás na megaprovíncia do Pré-Sal que ela mesma descobriu?

3 – Quebrar a atividade econômica de regiões de Campos-RJ/Itaboraí-RJ?

4 – Minguar o status de Petroquímica de Itaboraí para refinaria?

5 – Reduzir a planta de Abreu e Lima?

6 – Desmonte da frota naval da Transpetro?

7 – Desmonte da rede de gasodutos da Petrobras?

8 – Quebrar as empresas de engenharia brasileira desenvolvendo tecnologia de defesa nacional?

9 – Retirar os recursos do Tesouro no BNDES aplicados em aumento de capacidade produtiva

10 – Prender um gênio especialista em energia nuclear?

E por último, a quem interessa reduzir a economia brasileira ao status de colônia?

Ítalo Moriconi – Essa história do Almirante Othon é bastante deprimente.

Custa crer que ele tenha se rendido à rede de propinas que alimenta a indústria de energia no Brasil e no mundo.

Porque se ele abriu essa brecha, se ele cedeu às práticas de propina, desvio de dinheiro e enriquecimento ilícito, veio dele a ameaça à segurança nacional. Um almirante e cientista da importância dele tem que ser incorruptível e ponto. Ceder à corrupção na esfera da energia nuclear é um grave atentado à segurança nacional.

No mundo da energia ninguém está para brincadeiras. Sim, a potência norte-americana tudo faz para que só ela mantenha capacidade militar no planeta. Os americanos destruirão implacavelmente qualquer tentativa de afirmação militar por parte de qualquer país do mundo. Um bom exemplo disso é o acordo com o Irã. Eu celebro o acordo conseguido por Obama porque sabemos que o povo iraniano não aguentava mais o impaco das sanções e porque com ele Obama isolou (pelo menos temporariamente) as forças políticas mais bélicas dos EUA, por cuja vontade já teria havido a invasão do Irã.

Quanto mal, quanta desgraça a potência americana (precedida pelos britânicos e franceses até o fim da primeira guerra) levou ao Irã e ao Oriente Médio em geral! Mas a situação criada pelo acordo é humilhante para a soberania da nação persa e na verdade apenas volta, de maneira mais dura e piorada, à situação anterior à crise dos últimos anos. Retomam-se as inspeções invasivas da AIEA.

Voltando à Tupilândia, a Marinha não ficou bem na foto da prisão do Othon.

E eu pergunto: como fica o movimento SOS Forças Armadas, um dos que convocam a manifestação antigovernista do próximo dia 16, quando aparece de forma assim tão nítida (até prova em contrário) o elo entre a corrupção no establishment petista e aquela que rolou desenfreada no regime militar.

Os maiores corruptos no regime militar, tanto na era Médici, quanto na era Geisel, eram justamente generais, almirantes…

Será que algum dia será feito o levantamento dos generais que se fartaram à tripa forra com propinas oriundas de grandes obras e de estatais?

E as propinas pagas pelos americanos para os generais americanófilos derrubarem Jango?

E a grana dos irmãos Koch que financia alguns desses grupos que convocam a manifestação do dia 16?

Trajano Ribeiro – O país está sob ataque, com a conivência de quem deveria defendê-lo. Nenhuma concessão à corrupção, sim, mas o que está em marcha é o desmonte de nossa capacidade produtiva em áreas de tecnologias desenvolvidas aqui, ao longo de anos, que fez com que nossas empresas de engenharia assumissem protagonismo internacional.

Não contentes resolveram colaborar com os que re recusam a aceitar que sejamos independentes na nossa defesa, onde também desenvolvemos capacidade extraordinária, com os poucos recursos destinados a essa área, principalmente no campo nuclear. Jovens promotores e juízes, considerando-se paladinos da moralidade pública, agem atabalhoadamente, manipulados pela mídia mercenária e sabe-se lá por mais quem. Como disse Shakespeare: Há um certo método nessa loucura.

Diálogos Desenvolvimentistas: O PT, o pensamento econômico e a ideologia

 Impulsionados pelo relevante artigo O PT e seu governo ignoraram que sem ideologia não há hegemonia, os colaboradores da Associação Desenvolvimentista Brasileira travaram um notável debate sobre a influência da ideologia nas massas e o quão estratégico é, principalmente em tempos de crise, ter um discurso e projeto sólidos e coerentes objetivando respostas eficientes e eficazes para os problemas socioeconômicos carentes de resolução.

Confira:

Gustavo Santos – Sua análise está ótima, mas acho que peca apenas por vincular o PT a um certo social-desenvolvimentismo.

Os petistas jamais aceitaram essa pecha, nem hoje, muito menos antes de virarem governo.

Social-desenvolvimentista era o Brizola e seu antecessor, Vargas.

O PT na verdade, foi criado para ser uma alternativa ao social-desenvolvimentismo.

O PT é o social-anti-estatismo-trostiskista-católico.

André Luís – Mas houve alguma revisão no partido depois que chegou ao poder.

Gustavo Santos – Na prática no segundo mandato do Lula houve alguma abertura para políticas um pouco desenvolvimentistas, mas o PT não incorporou isso em sua ideologia oficial.

André Luís – O problema é que no Brasil, falta quem ocupe este espaço, quem traz no sangue os ideais dos grandes sociais desenvolvimentistas brasileiros, o Requião é um dos poucos que nos restam, mas tem poucos seguidores. Esta é uma preocupação dos desenvolvimentistas, como nos unirmos para trazer de volta para os governos os ideais desenvolvimentistas?

Gustavo Santos – O problema é que o império mandou a mídia fingir que não existe mais desenvolvimentismo, que é coisa jurássica…

Heldo Siqueira – Na verdade a oposição (ou o império) entende que é a ideologia que mantém a hegemonia e é muito eficiente em defender sua ideologia. Trata-se da ideologia da maximização econômica. E a estratégia de defesa dessa ideologia é cínica: i) argumenta-se que os mercados trazem a eficiência econômica; => o interlocutor mostra que não é o caso em mercados oligopolizados; => ii) o defensor da ideologia argumenta que a iniciativa privada deve ser livre para dispor de seus próprios recursos; => o interlocutor mostra que liberdade não é um conceito absoluto; => i) argumenta-se que os mercados trazem a eficiência econômica.

O problema é que em algum momento a esquerda brasileira acreditou nesse discurso de eficiência econômica e não consegue pensar em visões alternativas que concatenem o debate pelo lado da esquerda abrangendo conjuntamente: i) liberdade econômica; e ii) eficiência econômica.

Gustavo Santos – É verdade, a esquerda (o PT) acreditou sim no discurso da eficiência econômica, mas só porque o PT é um completo vazio ideológico em questões econômicas e de Estado.

Atenágoras Oliveira – A esquerda brasileira não! O PT, o PC do B, e as alas “legítimas” do PDT e do PSB!

Já o PCB, o PSTU e a esquerda do PSOL, sem falar em muitos militantes sem partido, não caíram nessa não. Podemos ser muito poucos, muito pequenos enquanto coletivos, mas nos tire fora dessa!

André Luís – Na verdade, quais os partidos brasileiros que tem uma visão clara sobre questões econômicas ou de estado, a direita tem aquele discurso velho da década de 90, ou com um liberalismo que não se aplica nem nos Estados Unidos. Os economistas de direita que tem visão de Estado ou econômica são colocados de lado, talvez com a única exceção do Delfim. Antigamente havia um pensamento estratégico e econômico de direita e que ocupou o governo depois do golpe militar, queira ou não, goste ou não, havia um pensamento dinâmico de direita até a década de 80.

A esquerda pode ter visão em outros campos, mas na economia ou na estratégia ele é muito vesgo e até ingênuo, ninguém hoje defende um projeto como Celso Furtado, Inácio Rangel ou Maria da Conceição Tavares.

Existem economistas que pulam de um lado para o outro, Beluzzo, Bresser etc. são pessoas que tem conhecimento de economia, ou estratégia, mas eles são muito pendulares.

Vivemos hoje, talvez o maior período de mediocridade ideológica desde a idade média.

Heldo Siqueira – Quando falo que a esquerda aceitou a ideologia da eficiência econômica eu quero dizer que aceitou sem questioná-la. Não se trata de negar a possibilidade de cálculo econômico ou de calcular estratégias mais eficientes de desenvolvimento. Quero dizer que aceitou a ideologia da eficiência econômica sem propor melhoramentos que incluíssem alternativas econômicas mais complexas que as propostas pelos ditos liberais (que não passam de colonizados).

Por trás do liberalismo brasileiro não está o capitalismo, mas o patrimonialismo. É a liberdade da minoria econômica escravizar o povo. A esquerda brasileira não conseguiu desenvolver um discurso liberalizante que incluísse a maioria da população, ficando nas críticas pontuais.

Flavio Lyra – Em nenhum momento cheguei a afirmar que o PT tivesse aceitado a ideologia social-desenvolvimentista. Ao contrário, ao PT sempre faltou uma ideologia que servisse de contraponto ao neoliberalismo. O germe da ideologia social desenvolvimentista em realidade não chegou a desabrochar. O que o PT e seus governos fizeram, salvo um curto período do governo Dilma, foi aceitar a ideologia liberal-dependente, proveniente do Consenso de Washington e tentar dentro de seu arcabouço realizar uma política social. Isto só funcionou num período curto, quando a demanda chinesa de matérias primas estava em forte expansão. Foi exatamente por falta de ideologia que o PT deu com os burros n’água e não está sendo capaz sequer de manter a base popular que se beneficiou das ações realizadas na área social. O PT conseguiu chegar ao poder e manter-se no governo por quatro anos, mas sem afirmar qualquer hegemonia, pois sem ideologia só poder haver apoio popular superficial e nas conjunturas favoráveis. Na crise, só com hegemonia é possível sustentar o apoio na sociedade civil.

Diálogos Desenvolvimentistas: Galípoli, Hitler e a História do Poder

A escalada de tensão foi mais uma vez retomada entre os EUA e a Rússia. Consultando, a história, facilmente captamos que as relações entre Washington e Moscou sempre fora conturbada, repleta de desconfiança e rivalidade.

Durante a II Guerra Mundial, a Inglaterra, sob a batuta de Churchill, se via atormentada pela possibilidade de aumento da esfera de influência soviética no continente europeu e planejou a jamais realizada Operação Impensável, que previa guerra aberta de alto espectro contra a Rússia, plano que fora rejeitado pelos parceiros norte-americanos por ser impraticável e suicida. Os detalhes deste episódio histórico podem ser conhecidos no artigo “Operação Impensável”: Em 1945 os ‘aliados’ já tinham planos secretos contra a Rússia soviética
, cujo autor é Yuriy Rubtsov.

A Segunda Guerra, por sua vez, é intrincada com a Primeira e diversos eventos ocorridos nela influenciaram os caminhos da História. Que relação existe entre a Campanha de Galípoli, o massacre dos armênios e o holocausto? Que ligações estes episódios têm com a História do poder mundial? O massacre dos armênios foi usado por Hitler como justificativa e incentivo ao genocídio perpetrado contra os judeus e a fracassada Campanha de Galípoli teve profundos efeitos sobre a Rússia czarista e sobre um dos grandes líderes do século XX, Winston Churchill. O artigo Galipoli, genocídio dos armênios e Churchill , escrito por Paulo Timm (que também participa do diálogo), trata da relação aqui exposta.

O diálogo reproduzido abaixo trata dessas questões. Enquanto os dois artigos são reproduzidos em seguida.

Paulo Timm – Isso tudo é verdade, mas a História toda é mais longa. Começa no episódio de Galípoli, no início da I Guerra.

Foi marcante o episódio de Galípoli, também, porque afetou a trajetória de um dos grandes líderes do século passado, Winston Churchill, que fora responsabilizado pelo fracasso em Galípoli na primeira fase da I Guerra, eis que já à testa do Almirantado britânico. Churchill, nesta estratégica posição, havia imaginado ocupar a Turquia através do Estreito de Dardanelos, uma abertura em torno de uma milha que liga o Mediterrâneo ao Mar de Mármara, para, daí, acudir a Rússia em apuros. Deu tudo errado. A Rússia ficou desamparada e emergiu do conflito aos escombros que conduziram à Revolução Bolchevique de 1917. Talvez sentindo-se culpado por tudo isto, Churchill, quase trinta anos depois, tentaria sufocar a URSS levando até lá a vitória Aliada. No rescaldo de Galípoli, enfim, à conta de Churchill, morreram 90 mil turcos e 60 mil aliados, enquanto documentos oficiais ingleses falam, hoje, em 500 mil mortos.

Gustavo Santos – Interessante a relação quite você fez com a psicologia de culpa do Churchil, mas eu não creio que ele tivesse culpa por isso, o isolamento logístico fã Rússia era algo praticamente intransponível, aliás construído pelos próprios ingleses no século anterior. Também é interessante o grau de ousadia, maquiavelismo e até megalomania dele ao propor estratégias que para qualquer outro seriam impensáveis.

Não sei se você sabe, mas a proposta do Churchill de desembarque para o dia D sempre foi na Iugoslávia para impedir que tropas soviéticas ocupassem o Leste europeu. Mas os americanos, menos dispostos a grandes esforços de guerra, preferiram não assumir a liderança contra os alemães na principal frente de batalha que era no Leste, e em condições logísticas e de terreno muito piores só para impedir uma possível conquista daquelas regiões marginais para o comunismo soviético.

André Luís – A Operação Galípoli visava romper a frente turca para passar alimentos e munições para a Rússia czarista, que já se encontrava sufocada pela guerra, a falha da operação levou ao estrangulamento da Rússia, que desencadeou a queda do czar e posteriormente a revolução de 1917;

Churchill, depois deste fracasso, foi defenestrado da marinha, o que levou algum tempo para retomar sua carreira política e militar, isso levou a um atraso da guerra em alguns anos por causa do governo inglês de Chamberlain;

O massacre armênio foi adotado como desculpa por Hitler para o holocausto;

Galípoli levou a uma aula para Churchill em relação a guerra;

O fim do Império Otomano depois da 1ª guerra mundial é a raiz de todas as questões do Oriente Médio atual;

O fim do Império Otomano levou a um acirramento da disputa de influência tanto no Oriente Médio como na região dos balcãs, entre as potências coloniais da Europa, lembre-se que uma das regiões onde a 2ª guerra foi mais acirrada foi na região balcânica europeia. Etc.

A história tem esta questão de um novelo puxado leva a um rolo muito grande.

***

Galípoli, genocídio dos armênios e Churchill

Por Paulo Timm

No último 24 de abril, como em anos passados, o noticiário internacional fartou-se na divulgação de dois acontecimentos concorrentes:

De um lado, líderes de várias partes do mundo, compungidos, à frente de
grande multidão, na capital da Armênia, lembraram o centenário do genocídio
de mais de um milhão de armênios. Estava começando a I Grande Guerra. Os armênios, cujas máximas expressões intelectuais foram presos no dia 24 de abril de 1915, acabariam expulsos em massa da vizinha Turquia, sob a alegação de traição. Foram constrangidos a atravessar, a pé, um deserto imenso, em direção à sua terra original, atrás do monte Ararat. Nunca alcançaram. Na verdade, instaurou-se, aí, uma diáspora armênia por todos os cantos do mundo, vindos muitos, inclusive, para o Brasil. Inúmeros filmes, dentre eles “América, América” de Elia Kazan, romances e canções, falam desta tragédia.

De outro lado, os turcos, antecipando um dia o centenário de sua vitória na Batalha de Galipolli, no dia 25 de abril de 1915, sobre as Forças da Tríplice Entente , que reunia Inglaterra, França e Russia contra Alemanha, Império Austro Húngaro e Império Otomano, aproveitam para rejeitar a acusação de que teriam praticado genocídio contra o povo armênio. Alegam que jamais pretenderam liquidar os armênios, apenas tomaram medidas consideradas indispensáveis à segurança do país numa época de guerra, quando estes se mostravam mais leais ao inimigo russo, com os quais tinham afinidades culturais e religiosas, do que à Turquia muçulmana.

Aparentemente, o massacre sobre os armênios, ao qual se seguiram perseguições a gregos e russos residentes no Império Otomano, e a Batalha de Galípoli parecem dois fatos isolados – e distantes. Na verdade, estão interligados, pois ocorreram no mesmo momento, como uma represália dos turcos sobre os armênios, inclinados não só à própria independência, como pelos russos, aliados dos ingleses e franceses que tentavam quebrar a Turquia com a ocupação de Galípoli no inicio da I Grande Guerra.

Passado o vexame e duas décadas, às vésperas de II Guerra, as advertências de Churchill sobre o caráter belicoso de Hitler custaram a ser ouvidas. Diante do inevitável, a invasão alemã da Polônia, em 1939, foi, afinal redimido e virou primeiro-ministro. Conduziu os ingleses na vitória aliada. Mas nunca deixou de, ser visto como arrogante e ousado demais nas questões internacionais. E, depois da vitória na II Guerra, sendo um dos vitoriosos, ao lado de Truman, Presidente dos Estados Unidos, que sucedeu Rossevelt ,e Stalin, homem forte da União Soviética, seu açodamento na tentativa de levar a guerra contra os soviéticos, foi congelada:

Após a derrota da Alemanha, a Europa estava dividida entre os Aliados no oeste e os soviéticos no leste. Winston Churchill não confiava que Stalin fosse libertar os países ocupados pelo Exército Vermelho, sendo assim, ele e seus estrategistas militares prepararam a Operação Impensável, um plano que colocaria as forças aliadas contra as tropas soviéticas na Europa. As hostilidades começariam em 1 de julho de 1945 e envolveriam no rearmamento de 100.000 soldados alemães para que se juntassem aos Aliados. Churchill também queria que os Estados Unidos usassem a bomba atômica, caso os soviéticos se recusassem a se render. Os planos de Churchill nunca saíram do papel porque os norte-americanos estavam muito cansados para outra guerra. Em um telegrama enviado da Casa Branca, Harry Truman, o presidente americano, deixou claro que os Estados Unidos não ajudariam os ingleses na guerra para expulsar os russos da Europa Oriental (trecho do artigo 10 planos alternativos da II Guerra Mundial que teriam mudado a história).

Foi ele, Churchill, a propósito, quem reverberou Goebbels e consagrou o conceito de “Cortina de Ferro”, como se pode ver no discurso que fez no Westminster College, em Fulton, no Missouri, Estados Unidos, em 5 de março de 1946, citando a expressão “iron curtain” ou, seja, “cortina de ferro”:

“De Estetino, no [mar] Báltico, até Trieste, no [mar] Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha estão todas as capitais dos antigos Estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucarest e e Sófia; todas essas cidades famosas e as populações em torno delas estão no que devo chamar de esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não somente à influência soviética mas também a fortes, e em certos casos crescentes, medidas de controle emitidas de Moscovo.” (retirado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Cortina_de_Ferro)

Então Churchill voltou a cair. Por toda a vida carregaria a fama de impetuoso em excesso. Mas não fosse Galipoli, uma espécie de Dia D que deu errado, a História do Século XX poderia ter sido diferente.

A Campanha de Galípoli, também conhecida como Batalha dos Dardanelos, teve como palco a península de Galípoli (em turco: Gelibolu) na Turquia, de 25 de abril de 1915 a 9 de janeiro de 1916, durante a I Guerra Mundial. Foi uma das campanhas mais custosas e trágicas da guerra. Forças britânicas, francesas, australianas e neozelandesas desembarcaram em Galípoli, numa tentativa de invasão da Turquia e captura do estreito de Dardanelos. A tentativa falhou, com pesadas perdas para ambos os lados. Os aliados se retiraram do local durante os meses de dezembro de 1915 e janeiro de 1916.

As divisões ANZAC (Australian and New Zealand Army Corps) se viram especialmente danificadas, e esta campanha passou a significar certa dissensão por parte do aliados oriundos da Nova Zelândia e da Austrália, que acusaram as tropas britânicas de arrogância, crueldade e inaptidão, bem como principais responsáveis pelo fracasso das operações. O Anzac Day (25 de abril) continua a ser a comemoração mais significativa dos veteranos na Austrália e na Nova Zelândia, superando o Dia do Armistício / Dia da Lembrança.

A Campanha de Galípoli repercutiu profundamente em todas as nações envolvidas. Na Turquia, a batalha é percebida como um momento definitivo na história da nação — a defesa final da terra-mãe após séculos de desintegração do Império Otomano. A luta estabeleceu as bases para a Guerra de Independência Turca e a fundação da República Turca oito anos mais tarde, sob Atatürk, ele próprio um comandante em Galípoli.

É difícil o exercício de cenários do “se”, isto é, se tivesse acontecido isso ou
aqui, como seria o mundo?

Se o Plano de Churchill tivesse dado certo e a Turquia tivesse caído, levando os aliados ao apoio do Tzar Russo, isto poderia ter evitado sua derrocada. Isso posto, dificilmente emergeria a situação revolucionária que tanto beneficiou o assalto ao Palácio de Inverno pelos bolcheviques. Com isso, Churchill poderia ter sido ouvido a tempo na Inglaterra, evitando o fato consumado por Hitler ao final da década de 30. Ele teria, senão evitado a II Guerra, pelo menos impedido que fosse conduzida por Hitler..

E se Hitler e não os Aliados tivesse vencido a Guerra? Como seria o mundo? Teríamos, certamente, uma reedição do Congresso de Viena, de 1815, com o retardamento dos processos de descolonização da África e Ásia. Internamente à Europa, o pacto social-democrata jamais tivesse se concertado. Distante do teatro de operações, os Estados Unidos, que jamais quiseram a guerra, talvez tivessem chegado a um Acordo de Paz com o “Triunfo do III Reich”.

Imagine-se, de outra parte, se em 1945, derrotado Hitler, os Aliados – e lá estava o Brasil…, com Estados Unidos à frente, tivessem feito a guerra contra a URSS de forma a ter evitado a Guerra Fria que se instalou depois do conflito.

Não seria um enfrentamento fácil. O Exército Vermelho estava em pleno vigor, estabelecido em Berlim, exaltado por ter infligido um duro golpe nos alemães. Mas não dispunha, naquele momento, do acesso à tecnologia nuclear, a qual, em marcha forçada levaria os americanos a detonarem a primeira bomba atômica em Hiroshima, no início de agosto daquele ano. Isto significa que, ouvido Churchill, a União Soviética poderia ter sido exterminada, também, no mesmo processo, dando outra face ao século XX. A descolonização no Terceiro Mundo e o avanço social-democrático na Europa talvez não ficassem completamente comprometidos, mas seriam, certamente, bem mais conservadores do que foram.

Quanto à América Latina não creio que as mudanças derivadas da vitória alemã ou mesmo de uma eventual liquidação da URSS tivessem mudado substancialmente o desenrolar dos acontecimentos. Hitler e o nazi-fascismo também não durariam para sempre. Como a hegemonia americana, com ou sem a URSS, tampouco o será. O continente tem sua lógica política própria, avessa, aliás, tanto aos imperativos liberais proclamados desde Bretton Woods até o Consenso de Washington, como às proclamações que lhes correspondem em doutrina política, sempre avessa ao papel do Estado como promotor de cidadania e do desenvolvimento que tanto apreciamos.

Enfim, dois acontecimentos como Galipoli e Genocídio armênio, embora estranhos ao nosso cotidiano, são, não obstante, um convite à reflexão sobre os caminhos e descaminhos da História.

A Turquia, entretanto, mesmo derrotada na I Guerra e reduzida em sua geografia e influência no mundo, saiu de Galipoli erguida para as mudanças que se sucederam sob o comando de Kemal Ataturk.

Turquia é hoje um estado laico e moderno, pronto para se incorporar, talvez, mais à Agenda dos BRICS do que à da UNIÃO EUROPEIA. O genocídio armênio lhe é, por certo, indigesto, mas cedo ou tarde terá que se enfrentar com este passado. Por isso mesmo o Brasil deveria reconhecer logo este crime contra a humanidade, até como um sinal aos turcos de que a Doutrina dos Direitos Humanos não é uma amenidade, mas uma verdadeira estratégia de sobrevivência da humanidade no século XXI. Já os países europeus, sedes de Impérios Coloniais que se redesenharam no final da I Guerra com o objetivo de colocar os resíduos do Império Otomano sob seu “protetorado”, antes de exigir da Turquia a retratação do crime contra os armênios, deviam se desculpar com os povos colonizados pelas barbáries cometidas contra eles. Só para o Brasil, mais de 2 milhões de africanos foram trazidos cativos por Portugal para impulsionar a economia do Fazendão Tropical. Outro tanto morreu nas viagens… Isto não foi genocídio?

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“Operação Impensável”: Em 1945 os ‘aliados’ já tinham planos secretos contra a Rússia soviética

Por Yuriy Rubtsov | Via Pravda

No final de maio de 1945 Josef Stálin ordenou que o Marechal Georgy Zhukov deixasse a Alemanha e viesse a Moscou. Stálin estava preocupado com as ações dos aliados britânicos. Stálin observara que as forças soviéticas desarmavam os alemães e os enviavam a campos de prisioneiros; mas os britânicos, não. Em vez de desarmar e prender os alemães, os britânicos estavam cooperando com eles e lhes permitiam manter a capacidade de combate. Para Stálin, a única explicação para esse comportamento era que os britânicos planejassem usar depois aqueles soldados alemães. Stálin sabia que a atitude dos britânicos era flagrante violação do acordo entre governos, segundo os quais tropas que se rendessem tinham de ser desarmadas e imediatamente desmontadas.

A inteligência soviética pôs as mãos (e os olhos) no telegrama secreto que Winston Churchill enviara ao marechal-de-campo Bernard Montgomery, comandante das forças britânicas. O telegrama ordenava que Montgomery recolhesse as armas e as conservasse disponíveis para serem devolvidas aos alemães, caso a ofensiva soviética continuasse.

Seguindo instruções de Stálin, Zhukov condenou duramente as atividades dos britânico no Conselho de Comando dos Aliados (União Soviética, EUA, Reino Unido e França). Disse que a história registrava poucos exemplos de tamanha traição e descaso com compromissos assumidos entre nações que tinham, ou se haviam comprometido a ter, status de aliadas. Montgomery rejeitou a acusação. Poucos anos depois admitiu que recebera ordens para fazer exatamente o que Zhukov acusara os ingleses de terem feito e que as executara. Como soldado, não tivera alternativa.

Disputava-se batalha feroz nos arredores de Berlim. Dessa vez, Winston Churchill disse que a Rússia Soviética convertera-se em ameaça mortal para o mundo livre. O primeiro-ministro britânico queria que se criasse um novo front no leste, imediatamente, para conter a ofensiva soviética. Churchill vivia obcecado pela ideia de que, depois de derrotado o exército nazista alemão, a União Soviética já surgia como nova ameaça.

Essa é a razão pela qual Londes quis que Berlim fosse tomada por forças anglo-norte-americanas. Churchill quis também que os norte-americanos libertassem a Checoslováquia e Praga com a Áustria controlada pelos aliados, todos sob as mesmas condições.

Já em abril de 1945, Churchill dera instruções para que o Grupo de Planejamento Conjunto das Forças Armadas Britânicas planejasse a Operação Impensável [orig. Operation Unthinkable], nome de código de dois planos relacionados de um conflito entre os aliados ocidentais e a União Soviética. Os generais receberam ordens para traçar meios para “impor à Rússia a vontade dos EUA e do Império Britânico”. A data hipotética marcada para o início da invasão, pelos aliados, da Europa hipoteticamente tomada pelos soviéticos, seria 1º de julho de 1945. Nos últimos dias da guerra contra a Alemanha de Hitler, Londres deu início a preparativos para apunhalar a União Soviética pelas costas.

O plano previa guerra total para ocupar as partes da União Soviética que tiveram significado crucial para o esforço de guerra, e assestar assim golpe decisivo, que tiraria das forças armadas soviéticas a capacidade para defender-se.

O plano incluiu a possibilidade de as forças soviéticas recuarem com profundidade para dentro do próprio território, tática que já havia sido usada em guerras anteriores.

O Alto Comando Britânico considerou esse plano militarmente irrealizável, porque as forças soviéticas superavam as forças aliadas na proporção de três para um – na Europa e no Oriente Médio, onde o plano previa que se travassem os combates. As unidades alemãs entravam nessa conta como tentativa de equilibrar a correlação de forças: por isso Churchill tanto precisava de que os prisioneiros alemães continuassem em prontidão para combater.

O Gabinete de Guerra concluiu:

“O Exército Russo desenvolveu um Alto Comando capaz e muito experiente. O exército é incomensuravelmente mais forte, vive e se movimenta em escala muito mais leve de manutenção que qualquer exército ocidental, e usa táticas firmes, baseadas sobretudo na pouca importância atribuída às baixas, para alcançar o objetivo. O equipamento foi rapidamente aprimorado durante a guerra e hoje é bom. Sabe-se o suficiente sobre esse desenvolvimento, para dizer que com certeza absoluta o exército soviético não é inferior aos das grandes potências. A facilidade que os russos mostraram para desenvolver e aprimorar equipamento e armas existentes, e para produzi-los em massa foi realmente muito impressionante. Já se sabe até que houve casos de os alemães terem copiado traços básicos de armamento russo.”

Os planejadores britânicos chegaram a conclusões pessimistas. Disseram que qualquer ataque seria “imprevisível” e que a campanha seja “longa e cara”. Na verdade, o relatório dizia “Se vamos iniciar guerra contra a Rússia, temos de estar preparados para guerra total, que seria longa e cara”. A superioridade numérica das forças do campo soviético deixavam poucas possibilidades de sucesso.

A avaliação, assinada pelo Comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas, dia 9/6/1945 – na próxima 4ª-feira serão 70 anos! – concluía:

“Estaria além de nossas capacidades alcançar sucesso rápido, mas sempre limitado, e estaríamos comprometidos em guerra longa, contra todas as probabilidades de sucesso. E essas probabilidades convertem-se em pura fantasia, se os americanos cansarem, ficarem indiferentes e deixarem-se arrastar pelo ímã da guerra no Pacífico.”

O primeiro-ministro recebeu rascunho do plano dia 8 de junho. Por mais que o enfurecesse, Churchill teve de se conformar, ante a evidente superioridade do Exército Vermelho. Mesmo com a bomba atômica já incluída no inventário militar dos EUA, o novo presidente dos EUA Harry Truman também teve de aceitar o argumento e a conclusão.

Na sequência, em reunião com o ministro de Relações Exteriores da URSS Vyacheslav Molotov, Truman pegou o touro pelos chifres. Fez ameaça mal disfarçada de que se poderiam aplicar sanções econômicas contra a União Soviética. Dia 8 de maio, o presidente dos EUA ordenou que se reduzissem significativamente, sem qualquer notificação prévia, a venda e a entrega de suprimentos. Chegou a ponto de fazer retornar às bases nos EUA, todos os navios norte-americanos que já estavam a caminho da URSS.

Algum tempo passou, e a ordem foi cancelada, ou a URSS não entraria na guerra contra o Japão, algo de que os EUA muito precisavam. Mas as relações bilaterais haviam sido feridas para sempre.

O memorando assinado pelo secretário de Estado em exercício Joseph Grew dia 19 de maio de 1945, dizia que a guerra contra a URSS era inevitável. Ordenava ‘endurecer posições’ nos contatos com a URSS. Segundo Grew, recomendava-se iniciar imediatamente os combates, antes que a URSS conseguisse recuperar-se da guerra e restaurar seu vastíssimo potencial militar, econômico e territorial.

Os militares receberam impulso dos políticos. Em agosto de 1945 (a guerra contra o Japão ainda não terminara), o mapa dos alvos estratégicos dentro da URSS e Manchúria foi apresentado ao general L. Groves, chefe do programa nuclear dos EUA. O plano indicava 15 das maiores cidades da URSS: Moscou, Baku, Novosibirsk, Gorky, Sverdlovsk, Chelyabinsk, Omsk, Kuibyshev, Kazan, Saratov, Molotov (Perm), Magnitogorsk, Grozny, Stalinsk (provavelmente, Stalino – a atual Donetsk) e Nizhny Tagil. Cada alvo vinha acompanhado de descrições: geografia, potencial industrial e alvos a atingir primeiro. Washington abriu novo front: dessa vez, contra seu aliado.

Londres e Washington imediatamente esqueceram que haviam combatido lado a lado, ombro a ombro, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Esqueceram também todos os compromissos que haviam assumido nas conferências de Yalta, Potsdam e São Francisco.

“Operação Impensável” é o nome de um plano inicial de guerra feito pelo governo britânico em 1945. Tal operação consistia na invasão da então União Soviética por forças militares britânicas, poloneses exilados, americanos, e até alemães recém rendidos. Dada a superioridade do poder militar da União Soviética, os demais ‘aliados’ optaram por não executar tal operação”.

Mito e realidade no cotidiano petista; complementos e análise

Por Marcelo Barbosa e Kadu Machado, comentado por Flavio Lyra, Ronaldo Abreu e Ceci Juruá| Via Jornal Algo a Dizer

1- A aprovação do ajuste fiscal pelo Congresso elimina os elementos de instabilidade da atual conjuntura: mito.

Na Europa e nos EUA, as políticas da chamada “austeridade” aprofundaram a crise, ao invés de resolvê-la.

Contudo, na situação presente, a rejeição pura e simples do “pacote” de MPs encaminhado pelo Poder Executivo nos lançaria num vácuo poder sem perspectiva de solução favorável ao campo democrático-popular.

Nesse sentido, o problema consiste em abreviar, de maneira a mais acelerada, o tempo de vigência e a extensão de tais medidas.

O país precisa ser retirado da rota da recessão – e rápido!

A retomada do crescimento, porém, depende em maior medida da política do que da economia.

Somente o esforço de uma ampla coalizão de forças sociais, que reúna desde os trabalhadores até o capital produtivo – com suas respectivas representações políticas – poderá assegurar o retorno a uma contínua elevação dos níveis de emprego e renda no país, conforme vinha ocorrendo desde 2003.

2- O PT precisa construir uma frente de esquerda: mito.

Nos últimos anos, a esquerda brasileira ampliou seu peso na sociedade. Trata-se de um crescimento relativo.

De fato, sozinha, não tem força para sustentar o regime democrático e nem capacidade de mobilização para impor uma orientação econômico-financeira distinta da atual.

Necessita construir alianças ao centro.

Como não faz isso, se isola e vem sofrendo sucessivas derrotas desde o anúncio da reeleição da presidenta Dilma. Por baixo e por cima, nas ruas e no Congresso, a iniciativa passou a pertencer aos setores situados nas áreas mais reacionárias do espectro político.

Para derrotar tais ameaças – sobretudo as contestações à legitimidade do mandato da presidente Dilma – convém manter e ampliar o diálogo com todasas correntes democráticas, inclusive frações do empresariado. Movimento sem o qual também não será possível defender o setor público da economia, Petrobrás à frente.

No longo prazo, muitos setores de centro anunciam sua concordância com a necessidade introduzir reformas de estrutura em áreas sensíveis da organização do Estado e da sociedade brasileiros. A movimentação de instituições como a OAB e a CNBB expõe o engajamento de setores politicamente moderados, porém comprometidos com a ampliação dos espaços de democracia política e justiça social. É com esse tipo de aliados que devemos partir para a montagem de uma frente ampla, com caráter de centro-esquerda.

3- O PT precisa voltar às origens: realidade, em termos.

O PT não pode e nem deve abrir mão das características presentes em seus momentos inaugurais, em especial, a ênfase na afirmação da identidade de esquerda e a cultura de solidariedade ao sindicalismo e aos movimentos sociais. Ao inverso, necessita reforçar tais compromissos.

Porém, carece de assumir a defesa de temas pertencentes ao universo programático da esquerda que o precedeu, nomeadamente os trabalhistas e os comunistas.

Para tanto, incumbe recuperar a importância da chamada Questão Nacional no que se refere à defesa da soberania – inclusive a de natureza econômica – do país. Ao retomar a coordenação entres ações de caráter democrático, mas também nacional, nosso partido estará contribuindo para transformar o conteúdo das instituições do Estado brasileiro, dirigindo-as ao enfrentamento do atraso estrutural do país, principalmente a questão da desigualdade social.

Tais atitudes, ao invés de dificultar, apenas capacitarão o Brasil a atuar com mais eficácia em iniciativas de natureza não autárquica como o estímulo aos Brics e a integração com os países da América latina e África.

4- O PT precisa entender que o ciclo da Constituição de 1988 está encerrado: mito.

Mesmo sem consagrar todas as aspirações dos setores democráticos e populares que participaram de sua elaboração, a verdade é que a Carta de 1988 se inclui entre as mais avançadas do mundo!

Sem ser perfeita, assegura um regramento democrático para a luta política de classes em curso na sociedade. Sob sua égide, na contramão do resto do mundo, a esquerda petista e seus aliados conseguiram atingir o governo do país e dar início a um período de importantes mudanças.

Aliás, boa parte das demandas enunciadas nos protestos de 2013 – em favor de melhorias na saúde, educação e mobilidade urbana, só para ficar em três itens – encontrariam equacionamento caso os dispositivos da Constituição fossem efetivamente aplicados.

As elites ligadas ao capital financeiro e ao agronegócio perceberam isso. Daí porquê desde a promulgação da Lei Maior, vêm tentando desfigurá-la de todas as maneiras. Esses esforços atingem o seu ponto mais agudo na atualidade. Irradiando sua influência a partir do Congresso Nacional, a representação política do Grande Capital faz do ataque às cláusulas asseguradoras de direitos individuais e coletivos previstos na C.F. o centro de suas atividades.

Não constitui coincidência o fato de que todas as contrarreformas propostas pela direita assumam a forma jurídica de emendas à Constituição: financiamento empresarial de campanhas, terceirização das atividades laborativas, diminuição de maioridade penal, fim do voto proporcional, entre outros tópicos.

Para estruturar uma linha de contenção à ofensiva da direita o campo democrático-popular do debate político deve, resolutamente, assumir a defesa da legalidade democrática estatuída pela Carta de 1988 como centro de sua tática de ação. Sem tibieza.

5- O PT tem projeto de nação: mito.

O que o governo do PT e seus aliados fizeram nos últimos 12 anos foi articular uma proposta de crescimento econômico com atendimento parcial das demandas dos setores da base da pirâmide social. Algumas dessas extremamente importantes, a exemplo da política de valorização do salário-mínimo e os programas sociais. Algo de essencial, mas ainda insuficiente.

No documento do Núcleo Celso Furtado, do PT-RJ, publicado no Algo a Dizer, já em 2013, dizíamos:

Por projeto nacional entendemos a mobilização presente de esforços no sentido de criar as bases teóricas, programáticas e culturais para, numa dinâmica provavelmente associada ao longo prazo, pôr em prática as transformações que a sociedade brasileira requer para se transformar numa nação capaz de assegurar a todos os seus cidadãos o exercício efetivo de direitos e garantias individuais e, sobretudo, coletivos.

Entre as medidas a serem adotadas – ainda obstaculizadas pela correlação de forças atual – se incluem: assegurar o caráter público e universal à educação e à saúde; implantar o imposto sobre grandes fortunas; taxar fortemente os lucros das empresas monopolistas; realizar uma reforma agrária em grande escala combinada com a formação de uma agroindústria ecológica; submeter o sistema bancário ao interesse coletivo; assegurar o controle público das ações do Estado; descriminalizar o aborto; democratizar os meios de comunicação em todos os níveis; pôr fim à concentração fundiária urbana; garantir o domínio do país sobre seus recursos materiais, sobretudo os de natureza hídrica; intensificar os trabalhos de unificação política e econômica dos países latino-americanos; proteger os biomas ameaçados pelos interesses econômicos; mudar radicalmente o modelo de transporte público hoje inviabilizado pela opção pelo aumento da frota de automóveis, entre outros.

Conquistas, enfim, que deverão ser fruto da ação de uma nova maioria política e cultural formada pelo proletariado urbano e rural, pelos camponeses, camadas médias urbanas unidas aos movimentos sociais expressão dos anseios de mudança da juventude, das mulheres, dos negros, índios, grupos GLBT e populações quilombolas.

Por certo, tal articulação não se confunde com o atual projeto de acumulação de capital no qual nosso governo e nosso partido tentam negociar e inserir algumas reivindicações dos setores da base da pirâmide social.

Flavio Lyra - Eis uma proposta com substância, que precisa ser debatida e complementada. Á primeira vista, falta-lhe maior ênfase no trato da questão nacional. Parece-me fundamental que o PT faça opção pela via de desenvolvimento social-desenvolvimentista, opondo-se claramente a via liberal-dependente, que tem sido predominante desde os anos 90 e que claramente fracassou. O modelo de política econômica baseado no chamado “tripé”, tem sido o instrumento de implantação dessa via. A crise atual decorre essencialmente do fracasso dessa via para promover o desenvolvimento econômico e melhorar a distribuição da renda. O modelo de política econômica associado a essa via precisa ser combatido e substituído por um outro que favoreça a acumulação de capital produtivo, o controle do fluxo externo de capitais e a reestruturação da política monetária para reduzir a taxa de juros que favorece o investimento financeiro.

Agregaria a necessidade de o PT, adquirir mais independência em relação ao governo e a Lula para defender seu projeto de desenvolvimento, o que para ser bem sucedido requererá de aliança com outros segmentos da sociedade, inclusive empresariais não vinculados ao capital financeiro, mas com forte dependência do mercado interno, como são os casos da construção pesada e dos fornecedores de empresas estatais.

Ronaldo Abreu - Bom texto. Embora eu não concorde com tudo, são boas reflexões, mas um tanto simplistas. Vejamos: enquanto 12 empresas serem as cadastadas para adquirir os títulos emitidos pelo tesouro, nunca os juros cairão. tem que ter leilão público em que cada PJ ou PF possa adquirir diretamente sem um corretor. Os gastos públicos tem que focar em investimento.

O vetor de consumo mostrou-se ruim, pois vira importação. Mas a esquerda também muda o discurso de acordo com as conveniências. Agora tem professor da USP valorizando o consumo, que no passado era coisa de classe média consumista.

Temos ferrovias, metrôs, saneamento a fazer. Melhorar a estrutura de internet. Ampliar muito a pesquisa nas universidades. Mas todos querem consumo, cota, subsídios, etc. Somos 200 milhões de habitantes e certas proteções sociais ou direitos tem que ser repensados. Ao invés da aposentadoria rural que tem déficit de mais de 1 bi, que tal regularizar a terra no campo e incluir todos em cooperativas com apoio do SEBRAE e Embrapa? Garantindo um preço mínimo para os seus produtos? Teríamos maior oferta de produtos orgânicos de maior qualidade.

A alteração no seguro desemprego deveria ser diferente na indústria pois lá se realocar é mais difícil. Mas não, meteram a régua de forma simplista. Estamos num país onde a discussão é binária. Tudo ou nada. Inflação. Alguém sabe que a formação dos preços no atacado são com base no preço em dólar? Converte-se em reais e a partir daí embute-se os impostos. Por isso o câmbio impacta muito mais na inflação que simplesmente as importações. O preço do alumínio, por ex, bateu 1800 dólares no LME. A base é esta. Multiplique por 3,1 e daí forma-se o preço no mercado interno. Se a demanda for a zero, ok, os fabricantes talvez baixem, mas a princípio o preço é este. Ou seja, em Londres se faz o preço do alumínio, mesmo se não vendermos para o exterior.

Ceci Juruá - 

O que falta para mim, nos documentos em geral, é o conhecimento da realidade concreta, e o tratamento efetivo dos “múltiplos determinantes” que configuram o fato social.

Não dá para falar sobre questão nacional, em geral, sem ter alguma noção sobre o momento atual. Sem ter uma posição, por exemplo, sobre a privatização dos rios da Amazônia – Madeira, Tocantins e Tapajós -. Contra ou a favor? Porquê? Como já foi em outros momentos do passado?

Não dá para falar sobre questão nacional sem tocar na questão do capital estrangeiro. Na indústria, nas terras, nos serviços públicos. Contra ou a favor e porquê?

E a questão dos tratados internacionais? Não só os que existem, mas os que podem vir por aí, estão ameaçando…

Esta lista poderia ser um locus de debate de idéias. De proposições. Mas as pessoas não querem se manifestar a respeito de nada. Não avançam para posições coletivas. Há somente o individualismo de artigos e blogs, não há representação comunitária, ou então ela não aparece, não se destaca. Apenas os partidos se pronunciam na televisão, e com frases de efeito, com pronunciamentos escritos por publicitários, divorciados de sua própria tradição.

Gostei do documento dos petistas do diretório Celso Furtado. A iniciativa deve ser elogiada. Mas isto é só o pontapé inicial. Sem aprofundamento de questões estratégicas, não se irá longe. Estamos a ponto de sucumbir uma vez mais perante a dominação das finanças imperiais. Não dispomos mais de representantes e defensores da Nação, com atuação respeitada no plano interno e internacional. Hoje mesmo o Le Monde estampou notícia nos responsabilizando pelo escândalo da Fifa. Como se o Havelange fosse brasileiro, como se os atuais dirigentes fosses brasileiros, como se os europeus não tivessem nada com a história, como se Adidas e Nike fossem brasileiros, etc. Há uma restauração dos valores coloniais, é preciso desmoralizar os colonizados, eles pensam e praticam, que se danem os fatos e a verdade. E nossa reação é débil. Mas está se organizando, é verdade.