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A defesa do imperialismo do dólar

Por Mike Whitney | Via Resistir.info

“A ‘necessidade’ de o Fed ter um papel ainda mais activo, enquanto os estrangeiros abrandam ainda mais a compra da nossa divisa, é para travar a corrida da desvalorização cambial que ocorre no mundo desenvolvido – uma corrida que está a precipitar-nos para o fim do actual regime de divisas”. 

– Stephanie Pomboy, MacroMavens 

“Seja o que for que os nossos correspondentes ocidentais nos digam, 
podemos ver o que se está a passar. A NATO está a montar 
descaradamente as suas forças na Europa de Leste, 
incluindo as áreas do Mar Vermelho e do Mar Báltico. 
As suas actividades operacionais e de treino em combate estão a aumentar”. 

– Presidente russo Vladimir Putin

Se houvesse uma forma de os Estados Unidos poderem concretizar os seus objectivos a longo prazo e, simultaneamente, evitarem uma guerra com a Rússia, fa-lo-iam. Infelizmente, isso não é uma opção e por isso vai haver um confronto entre os dois adversários com armas nucleares em algum momento no futuro próximo.

Passo a explicar: A administração Obama está a tentar reequilibrar a política dos EUA mudando o foco da atenção do Médio Oriente para a Ásia, que, segundo se prevê, será a região de maior crescimento no próximo século. Chama-se a esta mudança de política o “pivô” para a Ásia. A fim de beneficiar do grande crescimento da Ásia, os EUA planeiam incrementar a sua presença neste continente, expandir as suas bases militares, reforçar alianças bilaterais e acordos comerciais e assumir o papel-chave da segurança regional. O objectivo nada secreto desta política é a “contenção” da China, ou seja, Washington quer preservar a sua posição de única superpotência mundial, controlando o crescimento explosivo da China. (Os EUA querem uma China fraca, dividida, que faça o que lhe mandarem).

A fim de atingir os seus objectivos na Ásia, os EUA precisam de empurrar a NATO mais para Leste, apertar o seu cerco à Rússia e controlar o fluxo do petróleo e do gás de Leste para Oeste. Estas são as pré-condições necessárias para instituir o domínio hegemónico no continente. E é por isso que a administração Obama está tão interessada em apoiar o governo torpe da junta de Kiev; é porque Washington precisa das tropas de choque neonazis de Poroshenko para arrastar a Rússia a um conflito na Ucrânia que esgote os seus recursos, desacredite Putin aos olhos dos seus parceiros comerciais da UE e crie o pretexto para posicionar a NATO na fronteira ocidental da Rússia.

A ideia de que o exército pró-Obama na Ucrânia está a defender a soberania do país é uma charlatanice pura. O que se passa nos bastidores é que os EUA estão a tentar combater um declínio económico irreversível e uma parte sempre contracção do PIB global, em permanente redução, através da força militar. Assistimos hoje na Ucrânia a uma versão do século XXI do Grande Jogo, implementado por fantasistas políticos e com dificuldades financeiras, que acham que podem atrasar o relógio para o tempo do apogeu pós II Guerra Mundial do Império americano, quando o mundo era a pérola da América. Graças a Deus, esse período acabou.

Não se esqueçam que as gloriosas forças armadas americanas passaram os últimos 13 anos a lutar no Afeganistão com pastores de cabras calçados com sandálias num conflito que, na melhor das hipóteses, pode ser caracterizado como um impasse. E agora a Casa Branca quer conquistar a Rússia?

Estão a ver a loucura desta política?

Foi por isso que o secretário da Defesa, Chuck Hagel, foi demitido na semana passada, porque não se mostrou suficientemente ansioso para prosseguir nesta política louca de reforçar as guerras no Afeganistão, no Iraque, na Síria e na Ucrânia. Toda a gente sabe que é verdade, a administração nem sequer tentou negá-lo. Preferem agarrar-se a palhaços enraivecidos, como Susan Rice e Samantha Power, do que a um veterano condecorado que tem mais credibilidade e inteligência no dedo mindinho do que toda a equipa de Segurança Nacional de Obama, em conjunto.

Portanto, Obama está agora totalmente rodeado por imbecis defensores da guerra, que subscrevem o mesmo conto de fadas de que os EUA vão reduzir a Rússia a pó, derrubar Assad, redesenhar o mapa do Médio Oriente, controlar o fluxo de gás e de petróleo do Médio Oriente para os mercados da UE, e estabelecer miríades de bases pela Ásia onde podem manter um controlo apertado sobre o crescimento da China.

Diga-me, caro leitor, isso não lhe parece um pouco improvável?

Claro que a claque de Obama pensa que tem tudo sob controlo, porque, bem, porque é o que lhe têm dito para pensar e porque isso é o que os EUA têm de fazer se quiserem manter a sua posição excelsa enquanto única superpotência mundial, quando o seu significado económico no mundo está a declinar paulatinamente. Este é o problema. A nação excepcional está a tornar-se cada vez menos excepcional e é isso que tem preocupado a classe política, porque vêem os graffiti nas paredes e eles dizem: “Gozem enquanto dura, porque já não vão ser o número um por muito mais tempo”.

Os EUA também têm aliados nesta louca cruzada, nomeadamente Israel e a Arábia Saudita. Os sauditas têm sido especialmente prestimosos ultimamente, inundando o mercado com petróleo para fazer baixar os preços e esmagar a economia russa. (Na sexta-feira, os preços de referência do crude caíram ao nível do preço de há quatro anos, com o preço do crude Brent a baixar para os 69,11 dólares por barril). A administração Obama está a usar o clássico golpe duplo das sanções económicas e da quebra das receitas do petróleo para forçar Moscovo a retirar-se da Crimeia, para que Washington possa avançar com o seu arsenal nuclear para uma distância mínima de Moscovo. Aqui está algo do Guardian:

“Pensem em como a administração Obama vê o estado do mundo. Quer que Teerão desista do seu programa nuclear. Quer que Vladimir Putin se retire da Ucrânia oriental. Mas, depois das recentes experiências no Iraque e no Afeganistão, a Casa Branca não está interessada em pôr as botas americanas no terreno. Em vez disso, e com a ajuda do seu aliado saudita, Washington está a tentar baixar o preço do petróleo, inundando de crude um mercado já débil. Como os russos e os iranianos são profundamente dependentes das exportações do petróleo, a presunção é que assim será mais fácil lidar com eles.
John Kerry, o secretário de Estado dos EUA alegadamente fechou um acordo com o rei Abdullah em Setembro, segundo o qual os sauditas venderiam o crude abaixo do preço de mercado. Isso ajudaria a explicar porque é que o preço tem estado a descer numa altura em que, dadas as convulsões no Iraque e na Síria provocadas pelo ‘estado islâmico’, o natural seria que estivesse a subir”.
Stakes are high as US plays the oil card against Iran and Russia , Larry Eliot, Guardian )

E há mais, de Patrick L. Smith, do Salon:

“Menos de uma semana depois da assinatura do Protocolo Minsk, Kerry fez uma viagem pouco noticiada a Jedá para se encontrar com o rei Abdullah na sua residência de Verão. Quando acabou por ser noticiada, foi justificada como fazendo parte da campanha de Kerry para garantir o apoio árabe na luta contra o ‘estado islâmico’”.
Alto lá. A visita não foi só por causa disso, é o que me dizem minhas fontes de confiança. A outra metade da visita teve a ver com o desejo inabalável de Washington de arruinar a economia russa. Para isso, Kerry disse aos sauditas 1) para aumentar a produção, e 2) para reduzir o preço do crude. Não se esqueçam destes números pertinentes: os sauditas precisam de um preço de menos de 30 dólares/barril para equilibrar o orçamento nacional, enquanto os russos precisam de 105 dólares.
Pouco depois da visita de Kerry, os sauditas começaram de facto a aumentar a produção – em mais 100 mil barris por dia durante o resto de Setembro, segundo parece, para virem a aumentar ainda mais…
Pensem nisto. O Inverno está a chegar, há graves interrupções de produção no Iraque, na Nigéria, na Venezuela e na Líbia, há outros membros da OPEP aos gritos a pedir um alívio e os sauditas fazem movimentos de recuo que levam a uma maior descida dos preços? Façam as contas, pensando no itinerário oculto de Kerry e, para vos ajudar, ofereço-vos isto de uma fonte extremamente bem posicionada nos mercados de produtos: ‘Há agora mãos muito poderosas a pressionar o petróleo na oferta global, escreveu noutro dia essa fonte num e-mail”.
What Really Happened in Beijing: Putin, Obama, Xi And The Back Story The Media Won’t Tell You , Patrick L. Smith, Salon)

A equipa de Obama conseguiu convencer os nossos bons amigalhaços, os sauditas, a inundar o mercado de petróleo, a baixar os preços e a precipitar a economia russa no abismo. Simultaneamente, os EUA intensificaram as sanções económicas, fizeram tudo o que puderam para sabotar o gasoduto South Stream da Gazprom (que contornaria a Ucrânia e forneceria o gás natural à Europa através dum caminho pelo Sul) e convenceu o parlamento ucraniano a leiloar 49 por cento dos direitos de leasing e das instalações de armazenagem subterrâneas a empresas estrangeiras pertencentes a privados.

Gostam disto? Assim, os EUA desencadearam uma guerra devastadora contra a Rússia que tem sido totalmente omitida pelos meios de comunicação ocidental. Estão surpreendidos?

Washington está determinado a bloquear ainda mais a integração económica da Rússia na União Europeia, a fim de fazer desabar a economia russa e pôr o capital estrangeiro a controlar a distribuição regional da energia. Tem tudo a ver com o eixo. Os rapazes do grande capital acham que os EUA têm que ser o eixo para a Ásia. para poderem manter o seu papel no próximo século. Todos estes ataques não provocados a Moscovo baseiam-se nessa estratégia louca.

Mas as pessoas na UE não vão ficar irritadas quando não puderem obter a energia de que precisam (aos preços que querem) para os seus negócios e para aquecer a casa?

Washington acha que não. Washington acha que os seus aliados no Médio Oriente podem satisfazer as necessidades de energia da UE sem qualquer dificuldade. Vejam este trecho de um artigo do analista F. William Engdahl:

“… estão a aparecer pormenores dum novo segredo e de um acordo bastante estúpido Arábia Saudita-EUA sobre a Síria e o chamado ‘estado islâmico’. Envolve o controlo do petróleo e do gás de toda a região e o enfraquecimento da Rússia e do Irão, pela inundação saudita do mercado mundial com petróleo barato…
A 11 de Setembro, o secretário de estado Kerry encontrou-se com o rei saudita Abdullah no seu palácio do Mar Vermelho. O rei convidou o antigo chefe dos serviços secretos sauditas, o príncipe Bandar, para assistir. Foi preparado um acordo que previa o apoio saudita a ataques aéreos sírios contra o ISIS com a condição de Washington dar apoio aos sauditas para derrubar Assad, um firme aliado da Rússia e também do Irão, e um obstáculo aos planos sauditas e dos Emirados Árabes Unidos para controlar o mercado emergente do gás natural da UE e destruir o comércio lucrativo da Rússia com a UE. Uma notícia no Wall Street Journal fazia notar que tinha havido meses de trabalho nos bastidores entre os líderes americanos e árabes, que acordaram na necessidade de cooperar contra o ‘estado islâmico’ mas não como nem quando.
O processo deu aos sauditas a possibilidade de arrancar aos EUA o compromisso de reforçar o treino para os rebeldes lutarem contra o Sr. Assad, cuja queda os sauditas continuam a considerar uma prioridade absoluta”. ( The Secret Stupid Saudi-US Deal on Syria , F. William Engdahl, BFP)

Portanto, as guerras na Ucrânia e na Síria não são conflitos separados de modo algum. Fazem parte da mesma guerra global por recursos que os EUA têm desencadeado nos últimos 15 anos. Os americanos planeiam cortar o fluxo de gás russo e substitui-lo pelo gás do Qatar que atravessará a Síria e entrará no mercado da UE depois de Assad ser derrubado.

Eis o que se está a passar: os problemas da Síria começaram pouco depois de ela ter anunciado que ia participar de um “gasoduto islâmico” para transferir o gás natural do reservatório de gás de South Pars, ao largo da costa do Irão, através do Iraque e da Síria, que viria a ligar ao lucrativo mercado da Grécia e da UE. Segundo o autor Dmitri Minin:

“Um gasoduto a partir do Irão seria altamente lucrativo para a Síria. A Europa também ganharia com isso, mas há nitidamente no ocidente quem não goste da ideia. Os fornecedores de gás, aliados do ocidente no Golfo Pérsico, também não ficaram satisfeitos, nem a Turquia, o transportador de gás número um, porque ficaria fora do jogo”.
The Geopolitics of Gas and the Syrian Crisis: Syrian “Opposition” Armed to Thwart Construction of Iran-Iraq-Syria Gas Pipeline , Dmitri Minin, Global Research)

Dois meses depois de Assad ter assinado o acordo com o Iraque e o Irão, rebentou a rebelião na Síria. É uma grande coincidência, não acham? É curioso como este tipo de coisas acontece tão frequentemente quando os líderes estrangeiros não afinam com Washington.

Mas há mais de Minin:

“O Qatar está a fazer tudo o que pode para torpedear a construção do gasoduto, incluindo armar os combatentes de oposição na Síria, muitos dos quais vêm da Arábia Saudita, do Paquistão e da Líbia…
O jornal árabe Al-Akhbar cita informações segundo as quais há um plano aprovado pelo governo dos EUA para criar um novo gasoduto para transportar gás de Qatar para a Europa, envolvendo a Turquia e Israel…
Este novo gasoduto deverá começar em Qatar, atravessar o território saudita e depois o território da Jordânia, ultrapassando assim o Iraque xiita, e chegar à Síria. Perto de Homs o gasoduto dividir-se-á em três direcções: para Lataquia, Trípoli no norte do Líbano, e Turquia. Homs, onde também há reservas de hidrocarbonetos, é a principal encruzilhada do projecto, e não é para admirar… que ocorra aí a luta mais feroz. O destino da Síria está a ser decidido aí. As partes do território sírio onde estão a operar os destacamentos de rebeldes, com o apoio dos EUA, Qatar e Turquia, ou seja, o Norte, Homs e os arredores de Damasco, coincidem com o caminho que o gasoduto deverá seguir para a Turquia e Trípoli, no Líbano. Uma comparação de um mapa das hostilidades armadas e um mapa da rota do gasoduto de Qatar indica um elo entre as actividades armadas e o desejo de controlar estes territórios sírios. Os aliados de Qatar estão a tentar atingir três objectivos: quebrar o monopólio do gás da Rússia na Europa; libertar a Turquia da sua dependência do gás iraniano; e dar a Israel a hipótese de exportar o seu gás para a Europa por terra a um custo menor”.

Que tal, gostam disto, mais uma coincidência: “A luta mais feroz (na Síria) está a ocorrer” onde há enormes “reservas de hidrocarbonetos” e ao longo da rota planeada para o gasoduto.

Portanto, o conflito na Síria não tem nada a ver com terrorismo. Trata-se do gás natural, de gasodutos concorrentes e do acesso aos mercados na UE. Trata-se de dinheiro e de poder. Toda essa história do ISIS é uma grande mistificação para esconder o que se está realmente a passar, que é uma guerra global pelos recursos, mais sangue para o petróleo.

Mas como é que os EUA beneficiam de tudo isto, afinal as receitas do gás não vão para Qatar e para os países por onde transita o gasoduto, em vez de irem para os EUA?

Claro que vão. Mas o gás também vai ser denominado em dólares que aumentarão brutalmente a procura do dólar americano, perpetuando assim o sistema de reciclagem do petrodólar, o que cria um grande mercado para a dívida dos EUA e que ajuda a manter as acções e títulos dos EUA na secção da hemorragia (apenas) nasal. É disto que se trata, de preservar a supremacia do dólar forçando as nações a manterem quantidades excessivas de dólares americanos para usar nas transacções de energia e para servir suas dívidas denominadas em dólares.

Enquanto Washington puder controlar os abastecimentos mundiais de energia e forçar o mundo a comerciar em dólares, pode gastar muito mais do que produz e não ser responsabilizado por isso. É como ter um cartão de crédito que nunca seja preciso reembolsar.

Isto é uma trapaça que o Tio Sam está preparado para defender com tudo o que tiver, incluindo bombas nucleares.

***

Vive no estado de Washington, EUA, fergiewhitney@msn.com , colaborou em Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion , AK Press.

O original encontra-se em www.counterpunch.org/2014/12/01/defending-dollar-imperialism/ . Tradução de Margarida Ferreira.

Rússia e OTAN instalam linha de comunicação direta

Via Sputnik

Os comandos militares da Rússia e da OTAN instalaram uma linha telefônica direta para o caso de crise, escreve o jornal alemão Frankfurter Allgemeine.

Os comandos militares da Rússia e da OTAN instalaram uma linha telefônica direta para o caso de crise, escreve o jornal alemão Frankfurter Allgemeine.

Na semana passada, os números de contato foram entregues ao lado russo. No entanto, os detalhes da criação do novo canal de comunicação ainda não são públicos, de acordo com a publicação.

Pela primeira vez desde a Guerra Fria, a Rússia e OTAN passam novamente a ter uma forma de comunicação direta entre as chefias militares. Agora o comandante das forças conjuntas da OTAN na Europa, bem como o chefe do Comitê Militar da OTAN, terão acesso à linha direta com Moscou. Os canais de comunicação permanecerão sempre abertos e serão alvo de verificação de segurança constante.

O jornal escreveu que o tempo de ativação da linha ainda é desconhecido.

A iniciativa de criar a linha direta pertence ao ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier. Anteriormente, devido ao aumento das tensões no mundo, nomeadamente ao conflito ucraniano, ele propôs a criação de uma ligação direta entre a Rússia e a OTAN, a ser usada nas situações de crise.

Após a crise dos mísseis de Cuba em 1962 entre a liderança militar da União Soviética e os Estados Unidos também foi criada uma linha telefônica direta, chamada de “telefone vermelho”.

A guerra termonuclear como possibilidade real: Entrevista com Paul Craig Roberts

Por The Saker | Via Resistir.info

Já há muito queria entrevistar Paul Craig Roberts. Durante muitos anos acompanhei seus escritos e entrevistas e sempre que o lia esperava ter um dia o privilégio de entrevista-lo acerca da natureza do estado profundo dos EUA e do Império. Recentemente, enviei-lhe um email e pedi-lhe uma entrevista e, muito gentilmente, ele concordou. Fico-lhe muito grato por esta oportunidade.

The Saker: Tem-se tornado bastante óbvio para muita gente, se não para a maioria, que os EUA não são uma democracia ou uma república, mas antes uma plutocracia dirigida por uma pequena elite à qual alguns chamam “os 1%”. Outros falam do “estado profundo”. Assim, minha primeira pergunta é a seguinte: Podia por favor gastar algum tempo para avaliar a influência e pode de cada uma das seguintes entidades, uma por uma? Em particular, pode especificar para cada uma se tem uma posição “top” na tomada de decisão, ou uma posição “média” na implementação da decisão na estrutura real do poder (lista sem qualquer ordem específica):

  • Federal Reserve
  • Grande banca
  • Bilderberg
  • Council on Foreign Relations
  • Skull & Bones
  • CIA
  • Goldman Sachs e bancos de topo
  • “100 famílias do topo” (Rothschild, Rockefeller, Dutch Royal Family, British Royal Family, etc.)
  • Israel Lobby
  • Maçons e suas lojas
  • Big Business: Big Oil, Complexo militar-industrial, etc.
  • Outras pessoas ou organizações não listadas acima?

Quem, qual grupo, que entidade consideraria que está realmente no cimo do poder na actual política dos EUA?

Paul Craig Roberts: Os EUA são dirigidos por grupos de interesses privados e pela ideologia neoconservadora que sustenta ter sido escolhido pela História como o país “excepcional e indispensável” com o direito e a responsabilidade de impor sua vontade ao mundo.

Na minha opinião os grupos de interesses privados mais poderosos são:

  • O Complexo militar/segurança
  • Os quatro ou cinco bancos de mega dimensão “demasiado grandes para falirem” e a Wall Street
  • O agronegócio
  • As indústrias extractivas (petróleo, mineração, madeira).

Os interesses destes grupos coincidem com aqueles dos neoconservadores. A ideologia neoconservadora apoia o imperialismo ou a hegemonia financeira e político-militar americana.

Não há imprensa ou TV independente americana. Nos últimos anos do regime Clinton, 90% dos media impressos e da TV estavam concentrados em seis mega companhias. Durante o regime Bush, a National Public Radio perdeu sua independência. Assim, os media funcionam como um Ministério da Propaganda.

Ambos os partidos políticos, republicanos e democratas, estão dependentes dos mesmos grupos de interesses privados para fundos de campanha, assim ambos os partidos dançam para os mesmos mestres. A deslocalização de empregos destruiu os sindicatos manufactureiros e industriais e privou os democratas das contribuições políticas de sindicatos trabalhistas. Naqueles dias, os democratas representavam o povo trabalhador e os republicanos representavam os negócios.

O Federal Reserve está ali para os bancos, principalmente os grandes. O Federal Reserve foi criado como prestamista de último recurso para impedir bancos de falirem devido a corridas bancárias ou retirada de depósitos. O Fed de Nova York, o qual conduz as intervenções financeiras, tem uma directoria que consiste nos executivos dos grandes bancos. Os últimos três presidentes do Federal Reserve foram judeus e o actual vice-presidente é o antigo governador do banco central israelense. Judeus são proeminentes no sector financeiro, no Goldman Sachs por exemplo. Nos últimos anos, os secretários do Tesouro dos EUA e dirigentes das agências regulatórias financeiras foram principalmente os executivos da banca responsáveis pela fraude e pela alavancagem excessiva de dívida que lançaram a última crise financeira.

No século XXI, o Federal Reserve e o Tesouro serviram apenas os interesses dos grandes bancos. Isto tem sido a expensas da economia e da população. Exemplo: pessoas reformadas não tiveram o rendimento de juros durante oito anos a fim de que as instituições financeiras pudessem tomar emprestado a custo zero e ganhar dinheiro.

Não importa quão ricas sejam algumas famílias, elas não podem competir com poderosos grupos de interesses tais como o complexo militar/segurança ou a Wall Street e os bancos. A riqueza estabelecida há muito pode cuidar dos seus interesses e alguns, tais como os Rockfellers, têm fundações activistas que na maior parte trabalham provavelmente em estreita colaboração com o National Endowment for Democracy para financiar e encorajar várias organizações não governamentais (ONGs) pró americanas em países que os EUA querem influenciar ou subverter, tal como se verificou na Ucrânia. As ONGs são essencialmente Quintas Colunas dos EUA e operam sob nomes como “direitos humanos”, “democracia”, etc. Um professor chinês contou-me que a Fundação Rockfeller criou uma universidade americana na China e que ela é utilizada para organizar diversos chineses anti-regime. No passado, e talvez ainda hoje, havia na Rússia centenas de ONGs com financiamento estado-unidense e alemão, possivelmente até 1000.

Não sei se os bilderbergs fazem o mesmo. Possivelmente são apenas pessoas muito ricas e têm seus protegidos em governos que tentam proteger seus interesses. Nunca vi quaisquer sinais de bilderbergrs ou maçons ou Rothchilds a afectarem decisões do Congresso ou do ramo executivo.

Por outro lado, o Council for Foreign Relations é influente. O conselho é composto de antigos responsáveis da política governamental e académicos envolvidos em política externa e relações internacionais. A publicação do conselho, Foreign Affairs, é o principal fórum de política externa. Alguns jornalistas também são membros. Quando fui proposto como membro na década de 1980, fui vetado.

A Skull & Bones é uma fraternidade secreta da Universidade de Yale. Algumas universidades têm tais fraternidades. A Universidade de Virgínia, por exemplo, tem uma e a da Georgia também. Estas fraternidades não têm tramas governamentais secretas ou poderes de domínio. Sua influência seria limitada à influência pessoal dos membros, os quais tendem a ser filhos de famílias da elite. Na minha opinião, estas fraternidades existem para dar status de elite aos membros. Elas não têm funções operacionais.

The Saker: E quanto a indivíduos? Quem são, na sua opinião, as pessoas mais poderosas nos EUA de hoje? Quem toma a decisão estratégica final, em alto nível?

Paul Craig Roberts: Não há realmente pessoas poderosas por si próprias. Pessoas poderosas são aquelas que têm por trás grupos de interesses poderosos. Desde que o secretário da Defesa William Perry privatizou grande parte das funções militares em 1991, o complexo militar/segurança tem sido extremamente poderoso e o seu poder é ainda mais ampliado pela sua capacidade para financiar campanhas políticas e pelo facto de que é uma fonte de emprego em muitos estados. Essencialmente as despesas do Pentágono são controladas pelos fornecedores da defesa.

The Saker: Sempre acreditei que em termos internacionais, organizações tais como a NATO, a UE e todas as outras são apenas uma frente e que a aliança real que controla o planeta são os países ECHELON: EUA, Reino Unido, Canada, Austrália e Nova Zelândia, também conhecidos como “AUSCANNZUKUS” (também são mencionados como a “anglo-esfera” ou os “Cinco olhos”), sendo os EUA e Reino Unido parceiros sénior e os outros três parceiros júnior. Será correcto este modelo?

Paul Craig Roberts: A NATO foi uma criação estado-unidense, alegadamente para proteger a Europa de uma invasão soviética. Seu propósito expirou em 1991. Hoje a NATO proporciona cobertura à agressão dos EUA, bem como forças mercenárias para o Império Americano. A Grã-Bretanha, Canada, Austrália são simplesmente estados vassalos dos EUA assim como a Alemanha, França, Itália, Japão e o resto. Não há parceiros, apenas vassalos. É o império de Washington, nada mais.

The Saker: Diz-se frequentemente que Israel controla os EUA. Chomsky e outros dizem que são os EUA que controlam Israel. Como caracterizaria o relacionamento entre Israel e os EUA – é o cão que abana a cauda ou é a cauda que abana o cão? Diria que o lobby de Israel está no controle total dos EUA ou ainda há outras forças capazes de dizer “não” ao lobby israelense e impor a sua própria agenda?

Paul Craig Roberts : Nunca vi qualquer evidência de que os EUA controlam Israel. Toda a evidência é de que Israel controla os EUA, mas só na sua política do Médio Oriente. Nos últimos anos Israel, ou o lobby israelense, foi capa de controlar ou impedir nomeações académicas nos EUA e a estabilidade no emprego (tenure) para professores considerados críticos de Israel. Israel tem tido êxito tanto em universidades católicas como nas estaduais em travar estabilidades e nomeações. Israel pode também bloquear algumas nomeações presidenciais e tem uma influência vasta sobre os media impressos e da TV. O lobby israelense também tem abundância de dinheiro para financiar campanhas políticas e nunca falha em remover deputados e senadores dos EUA considerados críticos de Israel. O lobby israelense foi capaz de penetrar no distrito negro do Congresso de Cynthia McKinney, uma mulher negra, e derrotá-la na sua reeleição. Como disse o almirante Tom Moorer, Chefe de Operações Navais e Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas: “Nenhum presidente americano pode enfrentar Israel”. O almirante Moore não pôde sequer conseguir uma investigação oficial ao ataque mortífero de Israel ao USS Liberty em 1967.

Qualquer um que critique políticas israelenses, mesmo num espírito colaborativo, é etiquetado como “anti-semita”. Na política, nos media e nas universidades americanas, isto é uma sentença de morte. Você pode ser atingido por um míssil infernal.

The Saker: Qual das 12 entidades de poder que listei acima tem, na sua opinião, desempenhado um papel chave no planeamento e execução da operação “falsa bandeira” do 11/Set? Afinal de contas, é difícil imaginar que isto foi planeado e preparado entre a posse de GW Bush e o 11 de Setembro – deve ter sido preparado durante os anos da administração Clinton. Não é verdade que a bomba de Oklahoma City foi um ensaio para o 11/Set?

Paul Craig Roberts: Na minha opinião o 11/Set foi o produto dos neoconservadores, muitos dos quais são judeus aliados a Israel, Dick Cheney, e Israel. Seu objectivo foi proporcionar “o novo Pearl Harbor” que os neoconservadores disseram ser necessário para lançar suas guerras de conquista no Médio Oriente. Não sei durante quanto tempo antes foi planeado, mas Silverstein obviamente fez parte disto e ele não teve o World Trade Center durante muito tempo antes do 11/Set.

Quanto ao bombardeamento do Murrah Federal Building na cidade de Oklahoma, o general Partin, da Força Aérea, seu perito em munições, preparou um relatório técnico provando para além de qualquer dúvida que o edifício explodiu a partir de dentro, para fora, e que o camião com a bomba foi encobrimento. O Congresso e os media ignoraram este relatório. O bode expiatório, McVeigh, já estava definido e isso foi a única estória permitida.

The Saker: Pensa que as pessoas que dirigem os EUA hoje percebem que estão numa rota de colisão com a Rússia a qual poderia levar à guerra termonuclear? Em caso afirmativo, por que é que eles assumiriam tamanho risco? Será que eles realmente acreditam que no último momento os russos “piscarão” e recuarão, ou acreditam realmente que podem vencer uma guerra nuclear? Não terão medo de que numa conflagração nuclear com a Rússia perderão tudo o que têm, incluindo seu poder e mesmo suas vidas?

Paul Craig Roberts: Estou tão perplexo quanto você. Penso que Washington está perdida no excesso de confiança e na arrogância e está mais ou menos insana. Também há a crença de que os EUA podem vencer uma guerra nuclear com a Rússia. Houve um artigo na Foreign Affairs cerca de 2005 ou 2006 na qual se apresentava esta conclusão. A crença na “vencibilidade” da guerra nuclear tem sido promovida pela fé nas defesas ABM (Anti-Ballistic Missile). O argumento é que os EUA podem atingir a Rússia tão duramente num primeiro ataque antecipativo (preemptive) que a Rússia não retaliaria por medo de um segundo ataque.

The Saker: Como avalia o actual estado de saúde do Império? Durante muito anos temos visto sinais claros de declínio, mas ainda não há colapso visível. Acredita que um tal colapso é inevitável e, se não, como poderia isto ser impedido? Será que veremos o dia em que o US Dólar subitamente se tornará sem valor ou será que algum outro mecanismo precipitará o colapso deste Império?

Paul Craig Roberts: A economia dos EUA está esvaziada. Não tem havido qualquer crescimento do rendimento real mediano das famílias durante décadas. Alan Greenspan, como presidente do Fed, utilizava uma expansão do crédito ao consumidor para substituir o crescimento em falta no rendimento do mesmo, mas a população está agora demasiado endividada para contrair mais crédito. Assim, não há nada para conduzir a economia. Tamanha quantidade de empregos na manufactura e em serviços profissionais transaccionáveis, como engenharia de software, foram removidos para o exterior que a classe média sofreu uma contracção. Licenciados em universidades não podem obter empregos que permitam uma existência independente. De modo que não podem constituir famílias, comprar casas, electrodomésticos e mobílias para o lar. O governo produz baixas mensurações de inflação ao não medir a inflação e baixas taxas de desemprego ao não medir o desemprego. Os mercados financeiros são manipulados (rigged) e o ouro deitado abaixo apesar do crescimento da procura através de vendas shorts a descoberto no mercado de futuros. É um castelo de cartas que tem aguentado mais tempo do que eu pensava possível. Aparentemente, o castelo de cartas pode suster-se até que o resto do mundo cesse de manter o US dólar como reservas.

Possivelmente o império impôs demasiada tensão à Europa ao envolvê-la num conflito com a Rússia. Se a Alemanha, por exemplo, abandonasse a NATO, o império entraria em colapso, ou se a Rússia pudesse encontrar engenho (wits) para financiar a Grécia, a Itália e a Espanha em troca de abandonarem o Euro e a UE, o império sofreria o golpe fatal.

Alternativamente, a Rússia pode dizer à Europa que não tem nenhuma alternativa excepto alvejar capitais europeias com armas nucleares uma vez que a Europa se juntou aos EUA na guerra contra a Rússia.

The Saker: A Rússia e a China fizeram algo único na história e foram para além do modelo tradicional de constituir uma aliança:   concordaram em tornar-se interdependentes – poder-se-ia dizer que concordaram em ter um relacionamento simbiótico. Acredita que aqueles que são responsáveis pelo Império tenham compreendido a mudança tectónica que acaba de acontecer ou estão simplesmente a cair numa negação profunda porque a realidade os assusta demasiado?

Paul Craig Roberts: Stephen Cohen diz que simplesmente não há discussão de política externa. Não há debate. Penso que o império pensa que pode desestabilizar a Rússia e a China e que isto é uma das razões porque Washington tem revoluções coloridas a actuarem na Arménia, Quirguistão e Uzbequistão. Como Washington está determinada a impedir a ascensão de outras potências e está perdida no excesso de confiança e arrogância, ela provavelmente acredita que terá êxito. Afinal de contas, a História escolheu Washington.

The Saker: Na sua opinião, será que eleições presidenciais ainda importam e, em caso afirmativo, o que é a sua melhor esperança para 2016? Pessoalmente tenho muito medo de Hillary Clinton a quem considero como uma pessoa excepcionalmente perigosa e absolutamente perversa, mas com a actual influência neocon entre os republicanos, podemos realmente esperar que um candidato não neocon obtenha a nomeação do Partido Republicano?

Paul Craig Roberts: O único meio pelo qual uma eleição presidencial poderia importar seria se o presidente eleito tivesse por trás um movimento forte. Sem um movimento, o presidente não tem poder independente e ninguém para nomear quem fará a sua parte. Os presidentes estão cativos. Reagan tinha algo de um movimento, apenas o suficiente, com o que fomos capazes de curar a estagflação apesar da oposição da Wall Street e fomos capazes de acabar com a guerra-fria apesar da oposição da CIA e do complexo militar/segurança. Reagan era idoso e vinha de um outro tempo. Ele assumiu que o gabinete do presidente era poderoso e actuou dessa forma.

The Saker: O que diz acerca das forças armadas? Pode imaginar um Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas a dizer “não, Sr. Presidente, isso é louco, não faremos isto” ou espera que os generais obedeçam a qualquer ordem, incluindo uma para começar uma guerra nuclear contra a Rússia? Tem alguma esperança de que os militares dos EUA pudessem interferir e travar os “loucos” actualmente no poder na Casa Branca e no Congresso?

Paul Craig Roberts: Os militares dos EUA são criaturas das indústrias de armamentos. O objectivo completo de se fazer general é qualificar-se para ser um consultor na indústria da “defesa”, ou tornar-se um executivo ou ir para a direcção de um empreiteiro da “defesa”. Os militares servem como fonte para carreiras de aposentação quando então os generais ganham o dinheiro grosso. Os militares dos EUA estão totalmente corruptos. Leia o livro de Andrew Cockburn, Kill Chain .

The Saker: Se os EUA estão realmente e deliberadamente descendo o caminho rumo à guerra com a Rússia – o que deveria a Rússia fazer? Deveria recuar e aceitar ser subjugada como uma opção preferível à guerra termonuclear, ou deveria resistir e portanto aceitar a possibilidade de uma guerra termonuclear? Acredita que uma deliberada e muito poderosa demonstração de força por parte da Rússia poderia deter um ataque dos EUA?

Paul Craig Roberts: Tenho muitas vezes desejado saber acerca disto. Não posso dizer que sei. Penso que Putin é bastante humano para capitular ao invés de provocar a destruição do mundo, mas Putin tem de responder a outros dentro da Rússia e duvido que nacionalistas apoiassem a capitulação.

Na minha opinião, penso que Putin deveria centrar-se na Europa e torná-la consciente de que a Rússia espera um ataque americano e não terá qualquer opção excepto exterminar a Europa como resposta. Putin deveria encorajar a Europa a desligar-se da NATO a fim de impedir a 3ª Guerra Mundial.

Putin também deveria assegurar-se de que a China entende que representa a mesma ameaça para os EUA, tanto quanto a Rússia, e que ambos os países têm de se manter unidos. Talvez se a Rússia e a China mantivessem suas forças num alerta nuclear, não o alerta máximo, mas um alerta elevado que transmitisse o reconhecimento da ameaça americana e transmitisse esta ameaça ao mundo, os EUA pudessem ser isolados.

Talvez se a imprensa indiana, japonesa, francesa, alemã, britânica, chinesa e russa começassem a informar que a Rússia e a China perguntam se receberão um ataque nuclear antecipativo (pre-emptive) de Washington o resultado fosse impedir esse ataque.

Tanto quanto posso dizer a partir das minhas muitas entrevistas com os media russos, não há consciência russa da Doutrina Wolfowitz . Os russos pensam que há alguma espécie de mal entendido acerca das intenções russas. Os media russos não entendem que a Rússia é inaceitável porque a Rússia não é um vassalo dos EUA. Os russos acreditam em toda asneirada ocidental acerca de “liberdade e democracia” e acreditam que têm pouco disso mas estão a fazer progressos. Por outras palavras, os russos não têm ideia de que são visados para a destruição.

The Saker: Quais são, na sua opinião, as raízes do ódio de tantos membros das elites estado-unidenses para com a Rússia? Será isso apenas um resto da Guerra-fria ou haverá uma outra razão para a russofobia quase universal entre as elites dos EUA? Mesmo durante a Guerra-fria, não estava claro se os EUA eram anti-comunistas ou anti-russos. Haverá algo na cultura, nação ou civilização russa que dispare essa hostilidade e, em caso afirmativo, o que é?

Paul Craig Roberts: A hostilidade para com a Rússia remonta à Doutrina Wolfowitz:

“Nosso primeiro objectivo é impedir a re-emergência de um novo rival, tanto no território da antiga União Soviética como alhures, que coloque uma ameaça da ordem daquela colocada anteriormente pela União Soviética. Isto é uma consideração dominante subjacente à nova estratégia de defesa regional e requer que nos empenhemos para impedir qualquer potência hostil de dominar uma região cujos recursos, sob controle consolidado, seriam suficientes para gerar poder global”.

Enquanto os EUA estavam centrados nas suas guerras no Médio Oriente, Putin restaurou a Rússia e travou a invasão da Síria planeada por Washington e o bombardeamento do Irão. O “primeiro objectivo” da doutrina neocon foi rompido. A Rússia tinha de ser posta em linha. Essa é a origem do ataque de Washington à Rússia. Os media dependentes e cativos dos EUA e da Europa simplesmente repetem “a ameaça russa” para o público, o qual está despreocupado e além disso desinformado.

A ofensa da cultura russa também está aqui – éticas cristãs, respeito à lei e à humanidade, diplomacia ao invés de coerção, costumes sociais tradicionais – mas isto é o pano de fundo. A Rússia é odiada porque ela (e a China) é uma restrição ao poder uno e unilateral de Washington. Esta restrição é o que levará à guerra.

Se os russos e os chineses não esperarem um ataque nuclear antecipativo por parte de Washington serão destruídos.

Unasul inaugura Escola Sul-Americana de Defesa

Via Carta Maior

A Esude formará quadros civis e militares ligados às forças armadas dos governos sul-americanos.

A criação de um perfil e uma doutrina estratégica para a defesa na América do Sul deverá contar agora não somente com os esforços das pesquisas desenvolvidos no Centro de Estudos Estratégicos (CEE), órgão criado pelo Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) em 2011, com sede em Buenos Aires. A criação da Escola Sul Americana de Defesa (Esude) irá complementar o trabalho através da formação de quadros civis e militares ligados às forças armadas dos governos sul-americanos. A inauguração oficial da escola aconteceu na última sexta (17) na sede da Unasul em Quito, no Equador. A proposta foi desenvolvida por Nilda Garre, ex-ministra da defesa do governo Kirchner, atualmente representante da Argentina na OEA.

Em fevereiro de 2014, líderes de governo aprovaram a criação deste projeto durante a IX reunião executiva do Conselho de Defesa Sul Americano (CDS). De acordo com a Declaracão do conselho de chefes de estado e de governo da Unasul de dezembro de 2014, a iniciativa deverá ser “um centro de altos estudos do Conselho de Defesa Sul-americano (CDS), de articulação das iniciativas nacionais dos Estados Membros, formação e capacitação de civis e militares em matéria de defesa e segurança regional de nivel político-estratégico.” A entidade funcionaria em rede, seguindo princípios da pluralidade e representação equitativa de membros, gradualidade e flexibilidade, e também consenso, complementaridade, cooperação e qualidade. Quatro importantes eixos de ação conduzirão os estudos: 1) geração de estratégias focadas na construção da ciberpaz sobre a base de uma ciberdefesa de proteção contra espionagem, 2) consolidação de politicas de defesa, 3) cooperação militar, ações humanitárias e operações de paz; 4) desenvolvimento da indústria de defesa na região, bem como a capacitação para garanti-la.

Tomou posse como diretor-geral da Esude Antônio Jorge Ramalho, eleito por consenso entre os vice-ministros de Defesa que se reuniram na véspera da inauguração.  Antônio Jorge é doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo e professor do Instituito de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Também atuou no Ministério da Defesa dirigindo o Departamento de Cooperação e colaborou com o Itamaraty na implantação do Centro de Estudos Brasileiros em Porto Príncipe, Haiti. Entre 2009 e 2011, foi assessor da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República na área de defesa. O comando da escola  também era concorrido com a indicação da Argentina de Jorge Battaglino, diretor da Escola de Defesa Nacional do país.

De acordo com o prof. Héctor Luis Saint-Pierre, ex-assessor do departamento de relações internacionais do Ministério da Defesa do Equador, as instituições participantes serão indicadas pelos ministérios de defesa dos países. Ernesto Samper, secretário-geral da Unasul, mencionou em recente coletiva de imprensa que as entidades integrantes seriam as academias militares. A curto prazo, portanto, não há expectativa de que universidades e academias civis sejam incluídas.