Por Geniberto Campos
1. Uma nova ordem moral
Fazer Política no Brasil tornou-se uma gincana pontuada de desafios e obstáculo morais. Ou “éticos”, como preferem alguns sacerdotes do Novo Templo que está sendo erguido. Em cujos alicerces repousam biografias de conhecidos políticos. E estão sendo preparados os lugares dos transgressores da nova ética, os “empreiteiros”.
Para onde estaria sendo conduzido o destino do país, com os critérios agora vigentes no jogo da Política? E uma questão adicional: Quem estaria formulando, aplicando e avaliando as novas regras do jogo?
Quem são e o que pretendem esses novos atores dessa nova e surpreendente forma de fazer política? Que tipo de influência exercem no desenrolar dos acontecimentos e quais são os seus verdadeiros objetivos?
São questões pertinentes, colocadas de forma séria, face às possíveis consequências e desfechos que deverão influir gravemente no futuro do país.
2. As novas regras e os seus a(u)tores
Identifica-se facilmente o Sumo Sacerdote do templo. Com a demonização e o esvaziamento progressivos da política e dos políticos, o papel de comando está estregue à chamada Grande Imprensa, a qual detém há algum tempo, poderes absolutos na construção da Nova Ordem.
Jornais, revistas, TVs, rádios e outros meios de comunicação são os novos atores e autores de um obscuro roteiro, que submete segmentos dos poderes Legislativo e do Judiciário. Sempre dóceis ao seu comando. Progressivamente, os partidos políticos foram perdendo a sua representatividade, e foi, gradativamente, reduzido o seu papel no processo democrático, mesmo legitimado pelo voto popular.
Agindo fora de qualquer controle ou limites legais, este novo e inalcançável poder cria a pauta política e econômica do país, e dispõe ainda da inesgotável capacidade de criar heróis e vilões, manipulados de acordo com os interesses que representam.
Tem-se hoje a impressão que as coisas estão indo longe demais. E que é preciso, dentro dos precisos limites constitucionais, criar mecanismos de contenção deste novo poder, que tudo pode.
3. Os mecanismos sutis de controle da política
Várias são as formas de restrição e controle sutilmente introduzidas no aparato legal e na legislação eleitoral. O brasileiro médio, mal informado e despolitizado, vai aos poucos se acostumando com a “novilíngua” orwelliana. E oferecendo o seu incontido apoio aos novos padrões morais, aplicados à nova forma de fazer política.
Pelos padrões atualmente em vigor os políticos devem ser “ficha limpa”.
“Mensaleiro”, substantivo/adjetivo, qualifica algo próximo à obscenidade. Se faltam evidências legais que comprovem a culpabilidade, é legítimo que o Judiciário recorra ao “domínio do fato”. Se este ainda não é suficiente, o réu será condenado, não pelas evidências nos autos, mas pela “literatura jurídica”.
E quando se imagina que já se viu tudo, a operação “Lava Jato” nos brinda com a “delação premiada”. Esta levada às últimas consequências por alguns agentes públicos que imaginaram dar incentivos financeiros aos delatores. Os novos heróis criados pela imprensa, arrependidos e enojados dos seus crimes, ou melhor pequenos desvios, pretéritos. Então , estamos a criar uma corte de anjos e santos no campo da política. Paramentados com harpas e auréolas.
4. A saída, onde fica a saída?
Finalmente, é justo perguntar: – onde vamos parar com tudo isso?
É este o desafio colocado aos brasileiros que usam mais de dois neurônios para formular seus pensamentos. E um caminho, talvez óbvio se apresenta: que tal voltar a fazer Política? Assim com maiúsculas.
Fazer o retorno ao leito natural do jogo político. Do confronto de ideias e projetos. Do respeito ao adversário. Fazer a retomada da boa e velha Política. Se possível, se afastando definitivamente de uma deslavada e insustentável hipocrisia, a qual tornará o país cada vez mais distante do sonho de se tornar uma grande Nação.
Com a palavra as lideranças políticas e partidárias. E os infatigáveis – imprescindíveis – militantes das causas sociais.
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Geniberto Paiva Campos é méédico/ex-professor da Universidade de Brasília/Membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz da CNBB.