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Notas ácidas sobre o desfile dos indignados

Por Rennan Martins | Vila Velha, 16/03/2015

1. Não é que esse pessoal consegue fazer algo positivo? Hoje o bobo da corte, quer dizer, da Câmara, deputado federal Jair Bolsonaro foi vaiado e impedido de discursar. Podiam exigir coerência do congressista cobrando que ele entre com pedido de cassação dos 33 colegas de partido citados na Lava-Jato. Mas aí já é pedir demais.

2. Apesar das várias comparações com as Diretas Já, Caras Pintadas e outros episódios, a manifestação de hoje possui caráter parecido é com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade de 64. As bravatas contra um inexistente comunismo e a histeria falso moralista indicam claramente.

3. A imprensa brasileira, que nas palavras do grande Millôr Fernandes sempre foi “canalha” e “pusilânime”, confunde deliberadamente desenvolvimentismo e trabalhismo com socialismo a fim de envenenar a população e fazer a manutenção do status dependente e subdesenvolvido do país. O fazem não por serem malvados, mas sim porque possuem compromissos com seus financiadores.

4. Essa mesma imprensa tem um motivo ainda mais forte para focar na corrupção dos políticos. Semana passada descobrimos que a maioria das famílias donas de rede de comunicação (Marinho da Globo, Frias da Folha, Saad da Bandeirantes, entre outros) tiveram contas numeradas no HSBC da Suíça (paraíso fiscal), que prestava serviços de evasão e sonegação fiscal e também lavagem de dinheiro. O circo precisa continuar pra que esqueçamos que os barões da mídia são suspeitos de assaltar os cofres públicos.

5. O nível de ativismo dos “analistas” atinge níveis escandalosos quando estes assumem a condição de porta-voz dos indignados cobrando medidas e respostas do poder público. Alguns exagerados conseguiram postular que os protestos de ontem possuem mais potência que os de junho de 2013, no episódio do aumento das passagens de ônibus. Haja wishful thinking.

6. A feição autoritária deste movimento fica evidente quando vemos faixas que pedem a extinção do STF e existência somente do Ministério Público e Polícia Federal. Isso significa que estes cidadãos não estão dispostos a garantir o direito de ampla defesa, somente desejam ouvir as acusações, de preferência com uma posterior execução sumária.

7. Em torno das 3 da tarde a Rede Globo noticiou que haviam 240.000 pessoas na Avenida Paulista. Antes das 3:30 já falavam em 480.000, quando eram quase 4 esse número chegou a 1 milhão. Deviam aproveitar e explicar cientificamente como 750.000 indivíduos desafiaram a física chegando ao mesmo tempo na localidade. A Folha não se rendeu a especulação barata e fala em 210.000.

8. Argumentos, debate e racionalidade não atingem os coxinhas, eles nem mesmo refletem sobre suas posições. O fato de pedirem impeachment de Dilma quando Michel Temer e Eduardo Cunha – os que estão na linha de poder em caso de vacância – são suspeitos de terem participado das falcatruas que atingiram a Petrobras, quando até mesmo o candidato a presidência que apoiaram, Aécio Neves, está no meio, expõe que não podemos esperar razoabilidade deles.

9. Uma conhecida – em viagem internacional turística – enviou corrente a um grupo de WhatsApp convocando os participantes para o panelaço que ocorreu quando os ministros do governo se pronunciaram, ao que outra interlocutora respondeu com uma charge em que a periferia dizia que bater panela justamente quando elas estão cheias não fazia sentido, em seguida a turista treplicou alegando que estava com dificuldades de encher suas panelas. O fato dos integrantes da classe média e alta, que estão longe de passar necessidades, sentirem que suas provisões são afetadas justamente no momento de ascensão social dos populares indica o componente classista e reacionário dos cidadãos que se incomodam com a prosperidade dos de baixo.

10. O governo que fique esperto. Quando o ajuste fiscal atingir em cheio a classe trabalhadora e esta vir seus ganhos materiais se esvaírem, ficarão bem mais suscetíveis a aderir ao grupo dos indignados pró retrocesso.

Diálogos Desenvolvimentistas: O panelaço, suas causas e efeitos (II)

Brasil de Fato

Semana passada o panelaço que ocorreu durante o pronunciamento da presidente gerou uma boa discussão disponível aqui. Ela prosseguiu enriquecedora e por isso fizemos mais este post.

Tania Faillace – Acho que o pessoal ainda não entendeu que não há um governo unificado com uma diretriz (boa ou má) integrada. A coalizão feita e acertada ainda no início dos 2000 não buscou a convergência ideológica ou política, mas juntar votos.

Desse erro básico, fundamental, decorrem todos os outros, inclusive as contradições. E o único remédio para isso, seria proibir definitiva e taxativamente as coalizões a qualquer nível.

A comunicação nem sempre resolve, a menos que ela tenha características de transparência. No mais das vezes, a comunicação do Executivo é uma comunicação de propaganda ou autojustificativas.

Falta TRANSPARÊNCIA e INTERAÇÃO.

Quanto aos think thanks vocês pensam nos norte-americanos. Graças a Deus não temos nada parecido por aqui. Os think thanks são máquinas de manipulação das mentes para fins específicos. Até para aprovar guerras e barbarismos, como todo a campanha desenvolvida a partir das Torres Gêmeas para suspender os direitos civis dos cidadãos, e a tortura rotineira das pessoas.

Nada de think thanks, porque nem os intelectuais (e eu sou uma) nem os cientistas são à prova de corrupção e mau caratismo. A comunicação necessária é bem simples: relatar fielmente as reuniões do governo, quem disse isso e quem disse aquilo, e o que foi votado. Sabendo disso, o cidadão saberá se não estão usando erradamente os impostos, ou quem e porquê está trancando decisões que lhe pareçam importante.

Sem think thanks. Atas simplificadas, cortando o palavreado que sabemos dos discursos de tribuna. Assim: ministro X pede verbas para controle da Aids em tal região, onde há tantos infectados, representando tantos por cento da população… ministro tal propõe uma superponte e uma superestrada para a Festa do Pepino.

São exemplos cômicos até. O objetivo foi mostrar como deve ser a informação útil para a população – se ela se preparar para fiscalizar devidamente o governo que elegeu. Com o tempo saberá se a super-ponte é necessária, ou se trata de um conchavão com empreiteiros, e se as informações sobre o avanço da Aids em tal região são verdadeiras ou se destinam a favorecer a compras de um determinado laboratório, quando, na verdade o problema maior da região é a falta de saneamento básico. E assim por diante.

Sem think thanks. A educação político-ideológica de um povo não cabe a um governo mas às instâncias de organização popular; sindicatos, partidos, associações, e até igrejas.

Não precisamos de sofisticação. Precisamos de FRANQUEZA e TRANSPARÊNCIA. e possibilidade de diálogo com o poder público em todos os níveis. Só assim iremos construindo uma democracia substantiva e não apenas representativa.

André Luís – O que você falou tem várias causas que está ligado a reforma política, na verdade desde a redemocratização do país na década de 80, passando pela constituição não conseguimos montar um modelo político que escape desta teia de aranha.

Quando o PT ganhou a eleição em 2002 (pode escrever PSDB em 1994, Collor em 1990 e até Sarney), foi necessário para governar ter um apoio do congresso para suas propostas (para bem ou para mal do país) e é isso que causa todas estas crises os quais nenhum governo conseguiu sair (talvez o que tenha se saído melhor foi o de Itamar Franco, mas por questões da conjuntura daquela época).

Temos também problemas estruturais e históricos pelo modo como foi formado o país (partidos fracos, falta de comunicação entre eleito e eleitores, sistema político viciado etc.), vários governos tentaram ultrapassar esses obstáculos e os que conseguiram melhor foram os que mais avançaram o país.

Houve desde a república diversas tentativas de se montar um sistema político no país e todos fracassaram redondamente, já tentaram não ter partidos nacionais, não ter partido nenhum, ter partidos contra e a favor, ter bipartidarismo estilo anglosaxão e multipartidarismo. Todos os sistemas partidários faliram. Temos que pensar o estrutural e não o conjuntural.

Por isso defendo o voto distrital com parlamentarismo.

Tania Faillace – Eu não tenho opinião firmada sobre o modelo institucional mais adequado, mas observei que nossa história tem seguido ciclos. Ora seu rumo é em direção à soberania; ora é de volta à dependência quase colonial.

Em 1961, houve o movimento para impedir a posse do vice Jango, que era um trabalhista notório, quando houve o episódio da Legalidade, etc.

Jango tinha menos dotes políticos e de estadista que Brizola. No governo aceitava idéias generosas – algumas mirabolantes – mas não tinha condições executivas nem de articulação. Era uma boa pessoa, com boas intenções. Certamente Brizola, em seu lugar, teria alcançado algum resultado.

De todo o jeito, as idéias generosas mas fantasiosas que eram anunciadas todos os dias, mas não executadas, serviram de pretexto para armar a direita e desencadear o golpe, que foi arquitetado pelos gringos – como já tinha acontecido em 1954.

A direita veio com uma fachada conservadora (nada de coxinhas, nem liberação sexual, como agora), mas o objetivo final era o desmonte de nossas estruturas estatais e econômicas.

Apenas que os militares, na época, estavam interessados em perseguir os socialistas, os comunistas, os obreiristas, os trabalhadores, mas não tinham intenção de se submeter aos apetites dos gringos. Em sua gestão, as estatais brasileiras atingiram um desenvolvimento extraordinário, e a dependência estabeleceu-se em termos do endividamento para o “Brasil Grande”, mas não em termos de entrega de patrimônio e recursos naturais aos gringos, com exceção daquelas primeiras fazendas na Amazônia, muitas delas griladas com violência pelos terratenentes de várias origens.

Assim que os gringos perderam a paciência e resolver mudar o jogo. Apoiaram a democratização, desde que sem eleição direta, para escolherem o candidato. Os militares aceitaram, porque não tinham opção, não eram populares e certamente não enfrentariam o Tio Sam. O objetivo era implantar o neoliberalismo entreguista de uma vez por todas. Sarney, Collor, FHC, a estrela máxima.

Porque os governos da frente popular não mudaram o roteiro, o script? Porque só tinham o cabeça de proa, não tinham o timão, o governo em si, cuja maioria não queria mudança alguma. Não foi só o congresso que resistiu a mudanças expressivas, que fossem além do assistencialismo, os partidos da coalizão não eram do campo popular, e estavam na coalizão exatamente para impedir que ele se tornasse instrumento popular.

Mais, os partidos da coalizão tinham (e têm) feudos definidos, ministérios definidos onde pintam-e-bordam, fora do alcance do titular do Executivo.

Como é que isso aconteceu?

Resta descobrir.

Atualmente, o próprio PT não tem influência alguma sobre a coalizão. E a nomeação de Levy, Wagner e Ana Amélia, são até cômicas, sem relação alguma com o que se chamaria governo popular. Isto é, a força popular ofereceu apenas a porta-bandeira, mas as demais alas estão sob controle absoluto das outras forças, estas não-populares.

Essa é a caixa preta: que ocorreu para que os partidos que eram de oposição abrissem mão de seus projetos concorrendo e legitimando o processo neoliberal que já corria? A birra contra a Dilma é por conta de algumas rebeldias dela aqui e ali. Inclusive sua determinação de investigar os crimes cometidos contra a área pública.

Querem vê-la morta. O bullying midiático objetiva obrigá-la a deixar de investigar e livrar a cara dos garotos. E nós, o povo, não sabemos o que está acontecendo lá, dentro do Palácio, e quais são as condições que emudecem a presidente, que a impedem de imitar a Cristina argentina, que já levou pancada na cabeça, e mil grilos de saúde (provocados) , mas que, com suas denúncias, conseguiu aglutinar o povo em torno de si (menos os sionistas, seus grandes opositores, representantes dos gringos de sempre).

Por que Dilma não fala? Não conta qual é a arma que tem contra o pescoço?

É por aí.

Ronaldo Abreu – Há uma necessidade de se mostrar via propaganda mesmo na TV várias questões. Por ex: o projeto de cabo no atlântico de fibra ótica até Portugal. O povo não sabe disso. Se souber e enxergar os benefícios, vai apoiar e defender dos interesses externos. Mas o governo ajuda a alienar mais ainda a massa. A Dilma estava inaugurando o Minha Casa Minha Vida na Bahia com o bicho pegando em tudo quanto é lugar. Ora, parece que só quer saber do público que ela entende como eleitor dela. Assim, o panelaço fica cada vez mais raivoso. Vide o caso das domésticas. Ok, formalizar o trabalho doméstico é bom, mas deixa as pessoas abaterem do IR. Todo mundo ganha. Mas não, ficou apontando o dedo acusando de classe média escravocrata. Assim não se chega a lugar algum. Bota na conta dos ricos, tributando dividendos e aumentando IOF de empréstimos intercompanhias que é uma distribuição de lucros disfarçada entre matriz e filial. Se não equilibrar estas questões só vai acirrar a disputa.

Tania Faillace – Você já está querendo falar da sintonia fina do discurso. Estamos muito longe disso. Precisamos saber antes de tudo, quais são os compromissos e acertos da coalizão, e porque a presidente não tem liberdade para chamar os ministros que bem entender.

É evidente que, por seu gosto, ela não chamaria nem o Levy, nem o Wagner, nem a Ana Amélia, que é oposição ao PT em seu estado (RS), e não só por isso, mas porque é representante do Agronegócio – e é realmente de um humor kafkiano designá-la para Reforma agrária.

O Levy é homem do FMI, com quem o Brasil tem diversas diatribes, e sabe muito bem como essa instituição usurária altera juros como bem entende, na hora que bem entende, e impõe condições também quando bem entende (e que sua atual presidente, a Lagarde, armou uma armadilha sexual contra o ex-presidente para defenestrá-lo do cargo e tomar seu lugar). E a nossa presidente não teria escolhido por gosto o Wagner, que faz uns dois anos esteve envolvido numa história que não lembro direito, mas em que foi acusado de fazer o jogo do Pentágono na América.

São três inimigos explícitos do campo popular.

Por que estão lá?

Qual é o acerto?

Temos que ir atrás e investigar.

Que é que você faz? Economista? Advogado? Engenheiro? Aposentado? Filósofo? Jornalista? Militar? Como pode usar suas habilidades e boas relações para saber o que se comenta a respeito do ministério, e como os partidos da coalizão se garantem seus privilégios de mandar totalmente em seus feudos? E isso não de agora. Nas gestões do Lula ocorria igual.

O inimigo está dentro de casa. É preciso identificá-lo. Lembrem que, na Argentina, o Kirchner teve uma morte duvidosa, e a Cristina volta e meia sumia num hospital (?) com males não revelados. Que Chávez denunciou ter sido envenenado com substância radioativa (como Fidel Castro) – numa imitação do homicídio contra o agente da KGB alguns anos antes, lembra? Que Lula, Cristina, Lugo, Chavez, Dilma, todos ficaram doentes ao mesmo tempo?

Nem os filmes de James Bond apresentavam tanto suspense.

Quem vai lá e tenta saber o que vem acontecendo dentro das embaixadas norte-americanas por toda esta nossa América Latina?

Ronaldo Abreu – Mas a massa tem que saber de alguns pontos essenciais para ajudar a pelo menos brecar uns ataques. Mas o que vejo (inclusive com os blogueiros pró Dilma) uma visão romântica do brasileiro. E isto é oba oba. Brasileiro por motivos históricos tem no consciente coletivo que o Estado tem dinheiro infinito, que não tem que ter deveres, somente direitos, etc i isto pela desinformação da midia, politicos, sistema educacional e ao meu ver por que temos ainda a cultura do doutor, ou seja, eu não chego a doutor mas quero uma forra. Não se desenvolve com este tipo de mentalidade coletiva. Como ninguém sabe o que seremos ou queremos ser daqui a 10, 15 anos, vira farinha pouca meu pirão primeiro.

O governo adorou este pseudo pleno emprego mas a maioria dos postos de trabalho são de baixa qualificação. Propaganda oba oba. E o bônus demográfico está indo embora… Por exemplo: soube que a kodak fabrica um scanner especial que poderia ser fabricado aqui segundo eles se tivéssemos escala. Ok, o setor público usa papel aos montes e pelo menos poderia digitalizá-los e e gerar arquivos eletrônicos com assinatura eletrônica acessível a qualquer computador. Mas e o reacionarismo cartorial que ainda temos a cultura do papel? Poderíamos ter uma fabricação caseira de qualidade. Outro ex: com um litoral deste só temos indústria naval para o petróleo. E o frete que é todo estrangeiro? Porque não nos especializamos em alguns tipos de embarcações e fazemos uma empresa estatal de frete marítimo?

Ficar discutindo politica macro, filosofias esquerda x direita etc não dá resultado prático. Já ouvi de pessoas bem de direita que por ex, o Kissinger não é nem direita nem esquerda, é pragmático em prol dos interesses dos EUA conforme a conveniência. Os militares eram considerados de direita, mas na economia criaram várias estatais (algo de governo socialista).

Precisamos menos oba-oba e retóricas e mais ações inteligentes e práticas.

Tania Faillace – Acho os assuntos todos muito interessantes, mas para outro momento. Un dois meses atrás, se falava disso, promover talvez um evento, do qual resultariam um ou vários grupos de trabalho para discutir e desenvolver propostas de políticas estruturais, desenvolvimentista, industriais, ou o que seja – e criar um canal de comunicação com o governo federal (em sua área tecnológica, no quadro de efetivos concursados, há bons técnicos – e provocar uma discussão e um intercambio sociedade civil/instâncias federais, num trânsito de duas mãos para a retomada de um desenvolvimento autônomo e independente (como poderíamos ter tido, se o Bautista Vidal tivesse maior presença na União que o Delfim Neto).

Agora, porém, estamos numa situação emergencial.

Haverá invasão na Venezuela ou não?

Haverá atentados nos demais países da AL (inclusive o nosso), ou não?

Teremos personalidades de destaque atingidos por drones especiais, ou não?

Haverá insurreição de marginais e coxinhas no Brasil e na Argentina e na Venezuela, ou não?

As informações agora necessárias referem-se à segurança nacional. Quem é quem, e quem é o cabo Anselmo.

E tomem nota que o Narcotráfico está enfiado nisso até suas mimosas orelhas, assim como seus dignos amigos nas altas camadas da sociedade.

O Brasil que queremos

Por Ronaldo Campos Carneiro

Coube a um estadista sociólogo lançar as bases da legislação de proteção social e a um retirante nordestino com pouca instrução, mas marcante sensibilidade humana, reunir toda esta legislação e ampliar as bases daquilo que é conhecido hoje como Bolsa Família, passando de alguns milhões para muitos milhões de beneficiários. Desde então, este programa tem moldado a estrutura de poder neste País. Não vai ser diferente nesta eleição. Acredito mesmo que o sucesso de programas sociais pode ser medido por quantas pessoas deixam o programa e não por quantas são adicionadas.

Apresento, adiante uma sugestão para a evolução do programa Bolsa família, em linha com as manifestações de rua de meados do ano passado, onde um enorme contingente de pessoas protestou contra a situação geral de forma difusa, sem foco, sem uma clara ideia de rumos a seguir – todos sabiam que algo estava errado mas não exatamente o que. O fato é que capitalismo e socialismo são remédios amargos na historia da humanidade que estão com prazo de validade vencido.

Proponho um novo pacto social, refletido num contrato de trabalho de adesão voluntária, onde nutrição, saúde e educação – aos empregados e todos seus dependentes – passam a ser responsabilidades do processo produtivo comprados no livre mercado privado e o governo, reduzindo a tributação correspondente.

Não falamos de filantropia, mas num novo conceito de trabalho humano como processo de transformação de energia humana em energia física ou intelectual. Trata-se de substituir a cambiante lógica de ideias – ideologia – pela invariável lógica da vida – biologia, ou ainda, buscar a inclusão por direito natural e não por consumo.

A liberação total de preços e salários conduzirá, inexoravelmente, ao pleno emprego produtivo.

Somente com pleno emprego não precisamos da supervisão do estado – mão invisível age de forma inexorável.

Certamente o empresário não ira agir por filantropia, é o pleno emprego produtivo que será o fiador deste Pacto Social.

“Fazemos caridade quando não conseguimos impor a justiça. Porque não é de caridade que necessitamos. A justiça vai às causas; a caridade, aos efeitos”. Escritor francês Victor Hugo

Vamos avaliar os efeitos desta proposta na sociedade brasileira:

Garantia de vida e progresso a todos – sustentabilidade – fome, saúde e educação não são variáveis de mercado, mas necessidades biológicas;

Lucro diretamente vinculado a saúde humana;

Mais comida na boca de crianças e menos recursos na mão de políticos inescrupulosos;

Corrupção tendendo a zero – acabam as necessidades politicas de compra de consciências – troca de favores, jatinhos forrados de dinheiro vivo: na cueca nas meias!!! Enfim toda a indignidade que envergonha a todos, alguns se locupletando a custa do sacrifício de todos. Cessam também a presença de aproveitadores no meio politico onde só fazem negociatas em beneficio próprio. Seca a fonte de dinheiro no meio politico e burocrata. Nesta nova conjuntura as pessoas vão se dar conta de como a segunda profissão mais antiga do mundo – políticos aproveitadores – guarda uma semelhança incrível com a primeira!!! Estas vendem o corpo e aqueles vendem a consciência!!!

Economia totalmente privatizada – garantia de eficiência e eficácia. Um mito econômico que perpassa mentes, muitas vezes brilhantes, é uma falácia, uma mentira que empresas estatizadas são do povo. A única participação do povo na compra de gasolina é pagar o alto preço na bomba do posto. Estatal só serve para políticos aproveitadores colocarem apaniguados, parentes, amigos, negociatas: vide a ponta do iceberg em escândalos um atrás de outro inflando o preço da gasolina que pagamos. Os mexicanos, com ironia, traduzem esta necessidade politica: “Fora do orçamento não tem salvação”.

Outra falácia econômica muito disseminada, sem nenhuma base conceitual sólida, fracassada no mundo inteiro, consiste na crença numa mistura de mercado com intervenção do estado – neoliberalismo – ou socialismo de mercado, isto só conduz a pobreza e burocracia. O chamado mercado sob supervisão do governo é uma justificativa para defesa dos interesses de plutocratas, das empresas e super-ricos que chamam a isto de democracia social para enganar os eleitores. Isto não tem nada a ver com teoria econômica, mas tudo a ver com manutenção de poder. Fora da economia de mercado não tem solução. A melhor relação qualidade/preço só acontece num ambiente de livre mercado onde predomina a meritocracia e a saudável concorrência

Estatizantes são ingênuos, mal intencionados ou usam de desonestidade intelectual. Não suportam meia hora de discussão racional.

Sugiro ainda que os PhD´s que vão assumir o comando da economia façam um curso de humanidades, pois o capitalismo existe para lidar com o dinheiro e não com seres humanos. Aliás, capitalismo é a exploração do homem pelo homem, socialismo é o inverso.

“O trabalho existe antes, e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e jamais teria existido sem a prévia existência do trabalho. O trabalho é superior ao capital, e merece muito mais consideração”.

Esta verdade expressa por Abraham Lincoln deve ser resgatada por todos aqueles zumbis que estão vagando perdidos e descolados de conceitos básicos da economia.

Ao valorizar o superávit primário, vale dizer, pagamento dos juros devidos, estes operadores mágicos da economia se esquecem de que só o trabalho consegue gerar capital e que este nada mais é que trabalho acumulado. Tão importante quanto pagar os juros aos banqueiros é resgatar a enorme divida social, algo como superávit primário para quitação da dívida e inclusão social – buscando aumentar os brasileiros no mercado de trabalho e gerar mais capital.

A competição de mercado que se assiste hoje é como uma corrida de atletismo: alguns de barriga cheia e com acesso aos sistemas de saúde e de educação, disparados lá na frente; e uma multidão de excluídos lá atrás: o mínimo decente e justo é colocá-los na mesma linha de partida ou igualar as oportunidades na largada.

Pretendo com estas linhas, contribuir para o debate racional de ideias para que nossos filhos, netos e bisnetos possam viver num mundo com mais oportunidades e decência. Buscar a inclusão social por direito natural e não pelo consumo. Quero ter orgulho de meu país. Faço minhas as palavras de Lya Luft – O Brasil que podemos ter:

“Quero um pais integrado no contexto global mais civilizado, não obtuso e à margem, não ofuscado pela ideologia ou caprichos, não alardeando um ufanismo descabido e pobre, mas aberto ao intercambio com os países mais avançados, mais livres e mais justos, sendo ouvido, respeitado e admirado por vencer a alienação e o atraso.”

“Toda verdade passa por três estágios. Primeiro é ridicularizada. Segundo, enfrenta uma violenta oposição. Finalmente é aceita como evidente” Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão.

***

Araújo Bento – Claro que todos nós cidadãos brasileiros queremos um Brasil melhor. Anseio isto desde os anos 1950 quando estava ainda no colégio e notamos que esse processo foi interrompido com a tentativa de golpe militar contra Getúlio Vargas na madrugada de 24 de agosto de 1954, lembramos muito bem dessa data.

Concordo com muitas coisas do texto que o ilustre economista enviou mas discordo na questão dos preços dos derivados. Você se enganou nesse ponto.

Desde a época dos governos militares, após a crise mundial do petróleo, a Petrobras recebe em torno de 25% do preço na bomba. A diferença do preço são impostos e subsídios, incluindo o subsídio ao diesel para manter a matriz dos transportes, o subsídio ao glp (gás de cozinha) que é considerado um subsídio social, e outros subsídios que vieram caindo como o tempo como o subsídio ao álcool e o subsídio à nafta que caiu na década de 1990 por conta das privatizações das megapetroquímicas que pertenciam a Petrobras.

Portanto, meu amigo, você se equivocou ao citar o ônus à estatal sobre o preço na bomba. A Petrobras recebe hum real e quinze centavos por litro da “gasolina a”, ou seja, da gasolina ainda não misturada ao álcool, que por exigência ambiental, desde 1982, é adicionado 22% de álcool na gasolina. O álcool tem oxigênio na molécula e isso torna a combustão da mistura menos poluente, a diferença sobre os preços na bomba continua sendo impostos e subsídios que existem há quatro décadas. Portanto, é injusto atribuir a estatal o ônus do preço final da gasolina.

A grande imprensa está criando uma legião de midiotas: Entrevista com Luciano Martins Costa

Por Rennan Martins | Vila Velha, 16/03/2015

Indignado segura cartaz que ironiza o feminicídio.

As manifestações de ontem (15) arregimentaram milhares de indignados. Com a camisa da corruptíssima CBF, estes cidadãos se juntaram pra provar a enorme capacidade de mobilização da narrativa hegemônica, e com suas palavras de ordem, reforçar o status quo.

A Globo News fez cobertura cinematográfica dos eventos enquanto seus diversos comentaristas assumiam a condição de porta-vozes da “festa cívica” cobrando atitudes do governo. Por volta das 15:00 anunciaram 240.000 pessoas na Avenida Paulista. Antes das 15:30 já eram 480.000 e faltando alguns minutos pras 16:00 a marca alcançou sensacionais 1 milhão. Além da enorme diferença de projeção em relação a Folha, que calculou 210.000 revoltados, a Globo ainda precisa explicar como 750.000 pessoas desafiaram a física chegando ao mesmo tempo nas redondezas do evento.

Ironias e críticas à parte, a realidade é que a imprensa corporativa intervém decisivamente na sociedade e instituições. A opinião pública(da), quando concentrada nas mãos de um cartel, possui grande poder de agendar e interditar debates ao gosto do dono da editoria. Esta distorção gera efeitos deletérios no processo democrático e de tomada de decisões.

A fim de analisar a fundo essa questão o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou o experiente jornalista, escritor e colunista do Observatório da Imprensa, Luciano Martins Costa. Nos explica ele que desde a redemocratização a imprensa nacional entrou num processo de oligopolização incentivado pela distribuição de concessões a caciques políticos do centrão. Segundo Luciano, este cartel constrói um simulacro de realidade que estimula os cidadãos menos críticos a assumir posições conservadoras e raivosas. O “remédio” então seria “aprender a ler” a mídia, duvidando sistematicamente das notícias, principalmente das apresentadas com mais alarde e dramatização.

Confira a íntegra:

Como vês a atuação da imprensa corporativa brasileira? É possível dizer que existe uma “cartelização editorial”?

Existe uma cartelização editorial desde que a Folha de S. Paulo negociou seu maior comprometimento com a Associação Nacional de Jornais em troca de apoio para a campanha pelo fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista e pela extinção da Lei de Imprensa.

Quais seriam os objetivos e interesses deste alinhamento? As metas estão sendo cumpridas?

O objetivo principal é se contrapor à tendência da sociedade brasileira, no fim dos anos 1990, de questionar o sistema econômico e de exigir a expansão dos direitos formalmente garantidos na Constituinte de 1988. A Constituição, como se sabe, foi feita sob a égide da “sociedade civil organizada”. Acontece que, na época, cerca de 51% da população brasileira era excluída da sociedade e a “sociedade civil organizada” era apenas uma metáfora para as entidades corporativas, como os sindicatos, federações de indústrias, OAB e setores fortemente apoiados por lobbies. O pesquisador Francisco Fonseca demonstrou como a imprensa, na época, deu voz ao chamado “Centrão” para conter o ímpeto progressista da Constituinte em seu início. Esse alinhamento está triunfando ao transformar o Brasil num país conflagrado, com a criação de legiões de midiotas que repetem o discurso raivoso da imprensa.

Seus artigos comentam com regularidade sobre a criação de um “simulacro de realidade”. Como ocorre essa construção? Poderia exemplificar um caso concreto?

Existe o mundo real, onde nos relacionamos e construímos o processo da modernidade, e o ecossistema da comunicação, onde nossas ações, reflexões e escolhas constroem a cultura, que redefine a realidade. A mídia atua, em condições ideais, mediando essa passagem entre duas dimensões da nossa existência, onde as individualidades devem aprender a negociar seus papéis sociais. No Brasil e em alguns outros países, a imprensa adotou um protagonismo central, e em vez de filtrar ou mediar esse processo, interfere na construção de significados que induzem a interpretações viciadas da realidade. O viés conservador, predominante na mídia, martelado diariamente sobre as pessoas, induz a posicionamentos reacionários, defensivos e individualistas. Um exemplo é a manipulação de dados da economia, que faz uma grande parcela da população a acreditar que o Brasil está no fundo do poço. Mesmo pessoas que ascenderam às classes de renda média tendem a se tornar conservadoras quando são convencidas de que estão prestes a perder o que conquistaram graças a seus esforços e com apoio em políticas sociais que antes não existiam. O sujeito acorda, vai para o trabalho (que não existia quando o nível de desemprego era de 18%), segue para a faculdade (a que não tinha acesso antes das políticas sociais criadas na última década) e volta para casa, mas acha que a realidade hoje é pior. Os simulacros de realidade são construídos pela manipulação dos signos que norteiam nossa compreensão da realidade que vivenciamos. A falta de educação cívica faz com que muitos culpem o poder central por carências ou dificuldades que são de responsabilidade estadual, municipal ou mesmo do âmbito privado.

Que influências a sociedade e as instituições sofrem neste contexto?

A sociedade é influenciada na medida em que um grande número de indivíduos perde a noção daquilo que é do interesse coletivo e das responsabilidades individuais na construção de uma sociedade – se não sustentável, pelo menos aceitável. Como o interesse social é difuso, o discurso manipulador da mídia transforma facilmente o sentido dos fatos. Por exemplo, os jornais pegaram o aumento do preço do tomate, há quatro anos, e alardearam que a inflação estava estourando. O pânico levou os produtores e o comércio a buscar se proteger, e isso provocou um aumento nos preços de alguns produtos alimentícios e dos restaurantes. Como nas grandes cidades todo mundo que trabalha fora é obrigado a comer em restaurantes, a sensação de mal-estar se espalhou. Então, a mídia passou a martelar o tema da “inflação de alimentos”. Quando o preço do tomate voltou ao normal, em dez dias, os preços de alimentos baixaram, mas ficou a percepção de um surto inflacionário que só existiu na imprensa. As instituições reagem ao estado de espírito da população, e ao construir uma mentalidade defensiva, a imprensa induz as instituições a adotar políticas conservadoras.

Por exemplo, os jornais fazem grande alarde quando um adolescente participa de um crime, a população pede a redução da maioridade penal, e os parlamentares conservadores correm a propor mudanças na lei. Mas acontece uma chacina, onze pessoas são assassinadas numa rua da periferia de São Paulo numa única noite, e os jornais escondem o fato, porque há indícios de que os crimes foram cometidos por policiais.

O que fazer para “aprender a ler” a imprensa? Quais são os métodos?

Há alguns métodos para “aprender a ler” a imprensa, e nenhum deles dispensa a compreensão de que vivemos numa sociedade altamente complexa, que já não pode ser interpretada corretamente pela linguagem jornalística. O essencial é adotar um procedimento que propus quando era editor executivo do Estado de S. Paulo e responsável pela primeira página: dessacralizar a notícia. Trata-se de treinar a mente para desconfiar de cada detalhe de uma notícia, questionando tudo que parece inverossímil ou fora de contexto. Por exemplo, quando a imprensa quer dar um tom negativo a um indicador econômico, a prática mais comum é mudar os parâmetros de comparação. Então, compara-se, por exemplo, as vendas do comércio em janeiro em relação a dezembro – sabe-se que a economia tem suas sazonalidades, e que o correto é comparar períodos semelhantes, destacando os fatos relevantes que ocorreram entre eles. Por exemplo, os jornais falaram muito do custo de vida entre 2013 e 2014, omitindo o fato que em 2014 houve uma Copa do Mundo no Brasil. Outro exemplo: os jornais destacam que a Bolsa de Valores anda de lado, mas escondem que o Brasil ainda é um dos principais destinos do Investimento Estrangeiro Direto, que é investimento produtivo. A Teoria da Complexidade e algum conhecimento de teorias da comunicação ajudam a enxergar essas distorções.

De que forma o Brasil, um país onde a mídia tem plena liberdade, chegou a este quadro de uma imprensa tão concentrada e de baixa diversidade?

Luciano Martins Costa. UBE

Tudo começou nas negociações para a volta da democracia, quando o Centrão foi cooptado para a ideia de que o Brasil só iria se modernizar com uma imprensa forte. A política de Sarney, distribuindo canais de TV e rádio a políticos em troca de apoio, levou a maioria deles a aceitar a oferta de parceria com a Rede Globo, que reduzia o custo das emissoras e garantia uma marca forte para captar anunciantes. Depois disso, houve uma manobra com dólar – operação que na época era chamada de “bicicletagem” – na qual o governo facilitou para grandes empresas de comunicação o acesso ao dólar oficial, para modernização de equipamentos. Os equipamentos foram superfaturados, o excedente de moeda estrangeira foi para contas no exterior e passaram a alimentar o fluxo de caixa dessas empresas, pelo câmbio paralelo. Essa operação aparece sutilmente no caso Banestado e é um dos segredos que a imprensa quer manter escondidos no escândalo do HSBC. Acho impossível investigar e provar essa história, que me foi contada pelo antigo presidente de uma grande empresa regional de comunicação, que jurava ter sido o único a não entrar nesse jogo.

Como se inserem a internet, as redes sociais e a mídia alternativa nesse cenário?

A Internet e as redes sociais se inserem no processo de redução do papel de mediação. As novas tecnologias permitem que as informações sejam trocadas horizontalmente, entres os indivíduos, e a tendência é que aquilo que chamamos de mídia passe a ter a função de ancorar essas informações, para que as pessoas possam fazer o contexto. Mas um consórcio de economistas ou sociólogos, por exemplo, poderia cumprir esse papel nas suas especialidades. A mídia alternativa só será viável quando assumir uma postura inovadora e parar de imitar a mídia hegemônica. Chamo inovação a determinação de estimular o protagonismo do cidadão e assumir o papel de checar e organizar as informações sem o viés que caracteriza a imprensa predominante.

O que você acha que acontecerá com a TV tradicional e a mídia impressa frente as mudanças que estamos vivenciando?

A TV tradicional estática, ainda é forte porque é usada como o rádio, proporcionando um ruido de fundo para a vida cotidiana, mas a própria evolução da tecnologia está tornando esse meio menos relevantes. Ele sobrevive melhor no campo do entretenimento, e por isso as emissoras apelam para o jornalismo dramatizado ou espetacularizado. A mídia impressa vai sobreviver como um nicho, dirigido essencialmente para as instituições. O cidadão vai se informar cada vez mais pelas redes sociais.

Você é favorável a proposta de regulamentação dos meios de comunicação? Quais seriam as consequências dessa medida?

Sou favorável à regulamentação dos meios de comunicação, à abertura da mídia para o capital estrangeiro (chega de cinismo), à obrigatoriedade de que toda empresa de mídia, a partir de certo porte (faturamento, patrimônio, etc.) seja obrigada a abrir o capital, à licitação pública periódica da radiodifusão, com abertura ampla para participantes, com exceção de entidades religiosas ou partidárias. Além disso, no curto prazo, defendo uma política pública que contemple iniciativas de mídia comunitários, setoriais, etc., como os coletivos de cultura, que teriam um poderoso efeito na educação da sociedade para o uso da mídia.

Qual modelo de sociedade é perfeito?

Por Tania Jamardo Faillace | Porto Alegre, 15/03/2015

A questão que nos vem angustiando há séculos, em busca da melhor proposta para o melhor mundo possível, dá-se menos em razão da proposta em si, que na metodologia a ser usada para obter a adesão e o consenso, e a aplicação de uma proposta de contrato social que se adeque às necessidades e aspirações das pessoas.

Uma das questões – e não das menores – é como você irá propor um novo contrato que se oponha radicalmente ao que hoje existe, sem ser através da ruptura violenta, – maneira pela qual ocorrem todas as revoluções sociais, sejam populares ou de elite.

Sim, há necessidade de mudar o foco, as metas e diretrizes da sociedade em pauta para chegar onde desejamos.

E daí? Como conseguir isso? Vamos, atualmente, dizer às mega-empresas que elas não devem mais prezar seus lucros e, sim, sua colaboração com as demais pessoas da sociedade onde se estabelecem?

E elas vão aceitar tais argumentações, por quê? Quer mudar quem está por baixo, não quem está ganhando ou acha que está.

Todos os partidos e religiões que se constituíram a partir do que se chama a Antiguidade, propuseram exatamente isto: um novo pacto social.

Mas há uma grande diferença entre o pacto que pode ser fechado numa Assembléia ou até numa Constituinte, e como as coisas funcionam na realidade das transações humanas e econômicas e políticas.

O capitalismo tem como característica a apropriação do produto do trabalho social por uma única pessoa ou grupo econômico, ao invés da distribuição equitativa entre os produtores. Pagas as despesas, inclusive os salários, o que sobra são os lucros, apropriados pelo dono, sejam pessoas ou corporações. Esse lucro pode ser apropriado para o uso pessoal dos donos, ou reinvestido na empresa ou em outras, ou formar um cabedal para aplicações futuras.

No socialismo – que ainda não existe, só na cabeça das pessoas, – esse produto do trabalho social seria distribuído equitativamente entre os produtores reais, uma vez quitadas as despesas. Conforme as regras e normas decididas entre todo o grupo, a distribuição poderia ser total, ou reservar-se uma parte para reinvestimento e continuidade das operações.

O mais próximo disso é a cooperativa AUTÊNTICA, bicho raríssimo, porque, quando criada numa sociedade geralmente capitalista, o sistema hegemônico trata de mantê-la sob controle, ou subornando/cooptando suas direções, ou impondo legislações restritivas que a impedem de concorrer no mercado geral em igualdade de condições. É o que acontece no Brasil.

Uma outra opção é o burocratismo estatal que alguns consideram socialismo, mas não é, uma vez que a direção é centralizada e de natureza político-partidária e não de associação livre, com bases atuantes.

O arcabouço estatal é fundamental para dar coesão ao todo social, organizar e compatibilizar as partes num conjunto harmônico e colaborativo. Mas quando se estabelece na formatagem de uma empresa capitalista, até em suas funções e organograma, se transforma insensivelmente em capitalismo de Estado.

Porém, como seu objetivo não é obter lucros, mas prestar serviços, seus funcionários não se identificam com os macro-propósitos e se comportam como quaisquer funcionários em quaisquer empresas – sem compromisso, e sem qualquer poder de influir no gerenciamento do objeto.

A empresa estatal como empresa definidamente de cunho econômico (caso da Petrobrás, por exemplo) merece um capítulo à parte, que não vai ser aqui.

Isso foi muito discutido nos séculos XIX e XX entre os espartaquistas (grupo da Rosa de Luxemburgo) e no início da revolução bolchevique (Alexandra Kollontai).

O capitalismo de Estado, – que, à primeira vista, pode ser confundido com socialismo, – por sua estruturação vertical, rapidamente se converte em burocratismo, e é aquilo que sabemos.

Mesmo que, em teoria, seja possível fazer uma combinação sábia entre o trabalho individual (aquele que envolve todas as fases da criação do produto, seja intelectual ou material, como texto, invento, artesanato), o trabalho cooperativado, e a ordenação estatal, (a mais capaz de atender a interesses gerais de tipo estratégico), há que se observar que lidamos com o elemento humano, que é instável.

Fiscalizações (no sentido do controle das operações para não emperrarem) e revisões permanentes (para garantir as necessárias adaptações e ajustes a novas circunstâncias) são indispensáveis, e certamente precisam da atenção de todo o corpo social.

Não há sistema à prova de erros ou deturpações. A conscientização e o compromisso das pessoas com o projeto/proposta, mais o gerenciamento permanente são incontornáveis. Ou existem, ou tudo vem abaixo.

***

Tania Jamardo Faillace é jornalista e escritora de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Fundadora nacional do Partido dos Trabalhadores, participante da antiga Cooperativa dos Jornalistas de POA, militante sindical (Jornalistas e Intersindical de Porto Alegre), participante do movimento de Renovação Sindical, nos anos 80, jornalista de área técnica/econômica/geral/cidade/polícia, ativista social, autora de seis livros publicados de ficção (novelas,romance,contos) e de um folhetim inédito sobre o Brasil dos anos 70, construído através de 15 anos de pesquisas de campo sobre a realidade brasileira.

A corrupção varejista e a solução real

Por Rennan Martins | Vila Velha, 13/03/2015

Ilustração de Daniel Kondo

E eis que finalmente tivemos acesso a íntegra da tão especulada lista de Janot, na qual a procuradoria-geral da República indicou ao STF os nomes dos políticos citados nas delações premiadas da Lava Jato, dizendo ainda contra quem havia indícios suficientes para abertura de inquérito e quais deles se recomendava o arquivamento das denúncias.

A cobertura realizada pela imprensa corporativa deu a impressão de que o Partido dos Trabalhadores seria majoritário, que podíamos esperar até mesmo o nome da presidenta Dilma Rousseff caso levássemos em conta o panfleto de campanha da Veja. A realidade pregou uma peça nos oportunistas e quem lá se achou foi o próprio senador Aécio Neves, acompanhado de 33 parlamentares do PP, herdeiro do Arena, que por sua vez fora o partido sustentáculo da ditadura militar.

A despeito da concretude dos fatos a hipocrisia permanece soberana no debate. A narrativa midiática continua partidarizando a questão e fazendo os leigos pensarem que a corrupção é um problema de “decência”, “ética” e “bons costumes”. Enquanto isso, a CPI da Petrobras dá show de incredibilidade, conseguindo a façanha de unir situação e oposição na defesa do lobista Eduardo Cunha, mal disfarçando que congressistas citados nos autos integram a comissão, ou seja, investigam a si mesmos.

Os indignados, que no próximo domingo darão sua demonstração de força, não deram maior amostra de coerência. Enquanto batiam panelas não atinaram que o candidato que apoiaram nas últimas eleições consta na lista, que os próximos na linha de poder – que assumiriam num eventual impeachment – são o vice-presidente Michel Temer e o presidente da câmara Eduardo Cunha, ambos do PMDB e também no meio. Está na hora dos revoltados online acharem outro motivo para histeria, pois o quadro prova que contra a corrupção é que não é.

O que esta crise nos expõe é que o esquema de propinoduto instalou-se em nossa maior estatal após o governo FHC mudar a lei de contratações, tornando desnecessária a licitação, o que abriu brecha para todo tipo de negociata e acordo entre a iniciativa privada e os agentes públicos. Os que bancaram essa medida tinham consciência de seu poder destrutivo e a intenção era após a vinda à tona dos desvios vir candidamente a público com a “solução”: privatizar a Petrobras.

Agora estes mesmos senhores se aproveitam do clima pesado e em conjunto com a mídia aliada espalham aos quatro ventos que não temos condição de bancar os investimentos necessários para a exploração do pré-sal, que precisamos entregá-lo as petroleiras estrangeiras. O senador José Serra já levantou a bandeira.

É preciso ressaltar a sociedade que a corrupção que representa a entrega de mais de 80 bilhões de barris com potencial de bancar saúde, educação e um salto tecnológico nacional é infinitamente mais perversa que essa que assistimos.

O Brasil tem uma ótima oportunidade de combater o histórico patrimonialismo e promiscuidade entre setor público e privado empunhando uma reforma política que proíba o financiamento de campanha por empresas, mecanismo chave de toda troca de favores escusos. Aproveitemos a crise para aperfeiçoar a democracia e fortalecer a Petrobras, não nos deixemos levar pelos arroubos falso moralistas.

A marcha dos insensatos e a sua primeira vítima (I)

Por Mauro Santayana | Via JB

Segundo os chamamentos que estão sendo feitos nesse momento, no WhatsAppe nas redes sociais, pessoas irão sair às ruas, no domingo, porque acusam o governo de ser corrupto e comunista e de estar quebrando o país.

Se estes brasileiros, antes de ficar repetindo sempre os mesmos comentários dos portais e redes sociais, procurassem fontes internacionais em que o mercado financeiro normalmente confia para fazer tomar suas decisões, como o FMI – Fundo Monetário Internacional – e o Banco Mundial, veriam que a história é bem diferente, e que o PIB e a renda per capita caíram, e a dívida pública líquida praticamente dobrou, foi no governo Fernando Henrique Cardoso.

Segundo o Banco Mundial, (http://search.worldbank.org/all?qterm=bresil+gdp+2013HYPERLINK “http://search.worldbank.org/all?qterm=bresil+gdp+2013&title=&filetype=”&HYPERLINK “http://search.worldbank.org/all?qterm=bresil+gdp+2013&title=&filetype=”title=HYPERLINK “http://search.worldbank.org/all?qterm=bresil+gdp+2013&title=&filetype=”&HYPERLINK “http://search.worldbank.org/all?qterm=bresil+gdp+2013&title=&filetype=”filetype=) o PIB do Brasil, que era de 534 bilhões de dólares, em 1994, caiu para 504 bilhões de dólares, quando Fernando Henrique Cardoso deixou o governo, oito anos depois.

Para subir, extraordinariamente, destes 504 bilhões de dólares, em 2002, para 2 trilhões, 300 bilhões de dólares, em 2013, último dado oficial levantado pelo Banco Mundial, crescendo mais de 400% em dólares, em apenas 11 anos, depois que o PT chegou ao poder.

E isso, apesar de o senhor Fernando Henrique Cardoso ter vendido mais de 100 bilhões de dólares em empresas brasileiras, muitas delas estratégicas, como a Telebras, a Vale do Rio Doce e parte da Petrobras, com financiamento do BNDES e uso de “moedas podres”, com o pretexto de sanear as finanças e aumentar o crescimento do país.

Com a renda per capita ocorreu a mesma coisa. No lugar de crescer em oito anos, a renda per capita da população brasileira, também segundo o Banco Mundial – (http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.CD?page=2) – caiu de 3.426 dólares, em 1994, no início do governo, para 2.810 dólares, no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, em 2002.

E aumentou, também, em mais de 400%, de 2.810 dólares, para 11.208 dólares, depois que o PT chegou ao poder, também segundo o World Bank.

O salário mínimo, que em 1994, no final do governo Itamar Franco, valia 108 dólares, caiu 23%, para 81 dólares, no final do governo FHC e aumentou em três vezes, para mais de 250 dólares, hoje, também depois que o PT chegou ao poder.

As reservas monetárias internacionais – o dinheiro que o país possui em moeda forte – que eram de 31,746 bilhões de dólares, no final do governo Itamar Franco, cresceram em apenas algumas centenas de milhões de dólares por ano, para 37.832 bilhões de dólares – (http://data.worldbank.org/indicator/FI.RES.TOTL.CD?page=2) nos oito anos do governo FHC.

Nessa época, elas eram de fato, negativas, já que o Brasil, para chegar a esse montante, teve que fazer uma dívida de 40 bilhões de dólares com o FMI.

Depois, elas se multiplicaram para 358,816 bilhões de dólares em 2013, e para 369,803 bilhões de dólares, em dados de ontem, transformando o Brasil de devedor em credor, (http://data.worldbank.org/indicator/FI.RES.TOTL.CD), depois do pagamento da dívida com o FMI em 2005, e de emprestarmos dinheiro para a instituição, quando do pacote de ajuda à Grecia em 2008.

E, também, no quarto maior credor individual externo dos EUA, segundo consta, para quem quiser conferir, do próprio site oficial do tesouro norte-americano -(http://www.treasury.gov/ticdata/Publish/mfh.txt).

O IED – Investimento Estrangeiro Direto, que foi de 16,590 bilhões de dólares, em 2002, no último ano do Governo Fernando Henrique Cardoso, também subiu mais de quase 400%, para 80,842 bilhões de dólares, em 2013, depois que o PT chegou ao poder, ainda segundo dados do Banco Mundial: (http://data.worldbank.org/indicator/BX.KLT.DINV.CD.WD), passando de aproximadamente 175 bilhões de dólares nos anos FHC (mais ou menos 100 bilhões em venda de empresas nacionais) para 440 bilhões de dólares depois que o PT chegou ao poder.

A dívida pública líquida (o que o país deve, fora o que tem guardado no banco), que, apesar das privatizações, dobrou no Governo Fernando Henrique, para quase 60%, caiu para 35%, agora, 11 anos depois do PT chegar ao poder.

E, ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil ocupa, hoje, apenas o quinquagésimo lugar do mundo, em dívida pública, em situação muito melhor do que os EUA, o Japão, a Zona do Euro, ou países como a Alemanha, a França, a Grã Bretanha – cujos jornais adoram ficar nos ditando regras e “conselhos” – ou o Canadá (http://www.economicshelp.org/blog/774/economics/list-of-national-debt-by-country/).

Também ao contrário do que muita gente pensa, a carga tributária no Brasil caiu ligeiramente, segundo Banco Mundial, de 2002, no final do governo FHC, para o último dado disponível, de dez anos depois (http://data.worldbank.org/indicator/GC.TAX.TOTL.GD.ZS), e não está entre a primeiras do mundo, assim como a dívida externa, que caiu mais de 10 pontos percentuais nos últimos dez anos, e é a segunda mais baixa, depois da China, entre os países do G20 (https://www.quandl.com/c/economics/external-debt-as-share-of-gdp-by-country).

Quanto à questão fiscal, não custa nada lembrar que a média de déficit público, sem desvalorização cambial, dos anos FHC, foi de 5,53%, e com desvalorização cambial, de 6,59%, bem maior que os 3,13% da média dos anos que se seguiram à sua saída do poder; e que o superavit primário entre 1995 e 2002 foi de 1,5%, muito menor que os 2,98% da média de 2003 e 2013 – segundo Ipeadata e o Banco Central – nos governos do PT.

Considerando-se estas informações, que estão, há muito tempo, publicamente disponíveis na internet, o grande mistério da economia brasileira, nos últimos 12 anos, é saber em que dados tantos jornalistas, economistas, e “analistas”, ouvidos a todo momento, por jornais, emissoras de rádio e televisão, se basearam, antes e agora, para tirar, como se extrai um coelho da cartola – ou da “cachola” – o absurdo paradigma, que vêm defendendo há anos, de que o Governo Fernando Henrique foi um tremendo sucesso econômico, e de que deixou “de presente” para a administração seguinte, um país econômica e financeiramente bem sucedido.

Nefasto paradigma, este, que abriu caminho, pela repetição, para outra teoria tão frágil quanto mentirosa, na qual acreditam piamente muitos dos cidadãos que vão sair às ruas no próximo domingo:

A de que o PT estaria, agora, jogando pela janela, essa – supostamente maravilhosa – “herança” de Fernando Henrique Cardoso, colocando em risco as conquistas de seu governo.

O pior cego é o que não quer ver, o pior surdo, o que não quer ouvir.

Não dá, para, em perfeito juízo, acreditar que os advogados, economistas, empresários, jornalistas, empreendedores, funcionários públicos, majoritariamente formados na universidade, que bateram panelas contra Dilma em suas varandas, há poucos dias, acreditem mais nos boatos das redes sociais, do que no FMI e no Banco Mundial, organizações que podem ser taxadas de tudo, menos de terem sido “aparelhadas” pelo governo brasileiro e seus seguidores.

Está certo que não podemos ficar apenas olhando para o passado, que temos de enfrentar os desafios do presente, fruto de uma crise que é internacional, que faz com que estejamos crescendo pouco, embora haja diversos países ditos “desenvolvidos” que estejam muito mais endividados e crescendo menos do que nós.

Assim como também é verdade que esse governo não é perfeito, e que se cometeram inúmeros erros na economia, que poderiam ter sido evitados, principalmente nos últimos anos.

Mas, pelo amor de Deus, não venham nos impingir nenhuma dessas duas fantasias, que estão empurrando muita gente a sair às ruas para se manifestar: nem Fernando Henrique salvou o Brasil, nem o PT está quebrando um país, que em 2002, era a décima-quarta maior economia do mundo, e que hoje já ocupa o sétimo lugar.