Arquivos da categoria: Copa do Mundo

Às vésperas do Mundial, metroviários veem oportunidade de virar o jogo contra Alckmin

Por Gisele Brito e Diego Sartorato, via Rede Brasil Atual

Uol/Reprodução

Sentimento anti-Copa não é unanimidade na categoria, mas oportunidade de obter vitória histórica no embate com o governo de São Paulo colocou os trabalhadores em campo, com riscos e perdas

São Paulo – A extensão das linhas de metrô de São Paulo certamente está aquém do que uma região metropolitana do porte da paulistana necessita. Mas a importância central da rede de trilhos subterrâneos que serve à circulação diária de pelo menos 4,5 milhões de pessoas, considerando-se as viagens apenas no Metrô, ou de até 7,5 milhões de pessoas, levando em conta quem faz baldeações pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), coloca os metroviários na posição de uma das categorias mais poderosas da metrópole. Afinal, os metroviários podem parar a cidade sem necessidade de convocar grandes manifestações em vias públicas, mas cruzando os braços.

Prova disso é a greve que durou cinco dias ininterruptos e foi suspensa ontem (9), a três dias da abertura da Copa do Mundo na Arena Corinthians, em Itaquera, e à revelia da Justiça do Trabalho, que julgou a paralisação abusiva e decretou multa de R$ 500 mil por dia de continuidade dos movimentos. Nos quatro primeiros dias de paralisação, não houve grandes passeatas ou atos políticos de impacto, mas o fechamento de mais da metade das 65 estações do sistema foi suficiente para bater recordes de congestionamento e atrapalhar o ir e vir do paulistano. O Metrô seguiu funcionando parcialmente apenas porque o governo estadual desviou um grupo de técnicos e supervisores para operar os trens, função que, para os funcionários de carreira, toma seis meses de treinamento antes de ser desempenhada.

Por coincidência, sorte ou azar do sindicato, que representa 9,5 mil trabalhadores, o torneio internacional de futebol é realizado no mesmo período da campanha salarial dos metroviários, e o sistema de trilhos, além de ser o mais prático para que os turistas estrangeiros conheçam a cidade, é também uma das principais ligações ao palco do jogo de abertura entre Brasil e Croácia, na quinta-feira (12). Prefeitura e governo do estado de São Paulo confiam no Expresso Copa, trem que promete ligar a Luz às estações Corinthians-Itaquera e Artur Alvim, à frente das duas entradas do estádio, em cerca de 20 minutos. O expresso está no sistema da CPTM, onde as operações não foram interrompidas. Mesmo assim, a visibilidade atraída pelo evento e a dependência de São Paulo em relação ao Metrô dão fôlego à categoria.

Em 2012, por exemplo, uma paralisação foi deflagrada exatamente no dia 5 de junho, mesma data de início da greve deste ano, mas a movimentação não teve força para continuar depois de um dia e a garantia de aumento real de apenas 1,94%. Este ano, a paralisação chegou a segunda maior realizada pela categoria, atrás da greve de 1982, que durou seis dias. Para os trabalhadores, o contexto atípico significou uma oportunidade para tentar avançar bandeiras que estiveram estancadas nos últimos anos.

O salário foi uma questão central da greve, e não apenas pelas negociações. Enquanto defendia as reivindicações por ganho salarial de dois dígitos, acima de 10%, o sindicato teve ainda de enfrentar o senso comum de que a categoria já é muito bem remunerada em relação aos demais servidores públicos, argumento utilizado para diminuir a mobilização. De fato, o salário mais alto pago na companhia, aos diretores, impressiona: são R$ 21 mil, contra R$ 1,3 mil pagos aos funcionários que recebem o piso – os cargos de diretoria, porém, são comissionados, preenchidos por indicação. Os concursados, em sua maioria, são agentes de estação ou de segurança, além dos trabalhadores da manutenção, com salários de até R$ 4 mil. As reivindicações têm muito mais a ver com trabalhar sob uma demanda que não para de crescer: dados do Metrô dão conta de que, entre 2011 e 2013, o sistema passou a receber 100 mil passageiros a mais por dia, enquanto os funcionários da casa receberam poucos reforços. Um dos mais de 100 itens da pauta original dos metroviários era a contratação de mais profissionais.

“Ainda estamos absorvendo o aumento de passageiros que recebemos na época do Bilhete Único”, relembra Jussara de Oliveira, 53, operadora de trens há 12 anos. “No Metrô, parece que a coisa não caminha. As obras de expansão demoram demais, dão problema; hoje mesmo, pouco antes da assembleia.” No mesmo dia em que Jussara conversa com a RBA, uma das vigas instaladas para o futuro monotrilho da Linha 17-Ouro despencou sobre a avenida Washington Luís, deixando um operário morto e dois feridos. A Assembleia dedica um minuto de silêncio às vítimas do acidente.

Marcelo Costa, 48, é agente de segurança do Metrô há 12 anos, e rechaça a ideia de que a categoria deveria deixar de lutar por melhores condições por conta de seu patamar atual de direitos. “Não tem essa de quem ganha mais. Todos têm de brigar por mais direitos. Somos uma categoria que brigou para ganhar, briga para manter e briga para ampliar”, resume. Ele diz que seus rendimentos estão na média de seus colegas da segurança pública, e reclama da forma de contratação do Metrô, com cada vez mais terceirizados. “Cada contratação é com uma regra, com um piso diferente. Isso não é certo.”

Depois que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) demitiu 42 trabalhadores e se negou a reabrir diálogo, no entanto, a pauta única da categoria é o cancelamento das dispensas. Diego Aparecido Madureira, agente de segurança há cinco anos e meio, recebeu na segunda-feira (9) sua carta de demissão a partir do mesmo dia. O motivo dado pelo governador para as dispensas foi a participação em piquetes, mas Madureira afirma não ter participado de nenhuma das ações do sindicato. “Posso provar que estava em outros lugares durante as paralisações. Quando começou a greve, eu fiquei em casa e aguardei o desfecho”, conta. Ele espera que o governo do estado aceite diálogo com o sindicato ou com as centrais sindicais que ofereceram apoio à causa dos trabalhadores para que as demissões sejam revertidas.

Costa foi um dos que votou pela atual diretoria e pela independência do sindicato em relação às centrais sindicais, em 2011. “Não me pego em siglas, em partidos. Votei na direção atual porque as propostas deles pareciam mais adequadas à luta da categoria, e a direção anterior estava aí há muito tempo”, conta. Jussara também prefere não se alinhar a entidades ou partidos. “Os meninos que estão aí são radicais, vêm de partidos menores, com outras perspectivas eleitorais. As pessoas estão revoltadas, então é bom”, avalia. Ela acredita que a atual reaproximação com as centrais sindicais para forçar o diálogo com o governador permitirá “peneirar” quem está ou não ao lado da categoria, mas diz que também votou pela independência do sindicato.

O atual presidente da entidade, Altino Prazeres, e sua diretoria assumiram o comando do sindicato em 2011, depois de uma disputa acirrada nas eleições. Altino é militante do PSTU e compôs chapa com outros companheiros de partido e setores independentes. A vitória foi um ponto fora da curva nas disputas sindicais dos metroviários. Desde 1981, quando foi fundada, a entidade de classe da categoria sempre fora conduzida por diretorias alinhadas à CTB e à CUT, centrais sindicais cujas lideranças militam majoritariamente por PCdoB e PT. No plebiscito que decidiu a independência em relação a centrais sindicais, Altino defendeu a filiação à CSP-Conlutas, próxima de seu partido e do Psol. Os metroviários preferiram a neutralidade.

À mesma época, pelo aparente distanciamento da política institucional, a entidade atraiu a simpatia de militantes ligados ao Movimento Passe Livre (MPL), que tiveram influência visível sobre as paralisações deste ano, em que os metroviários assumiram a proposta de liberação das catracas do metrô em troca da paralisação do serviço durante a greve. O desafio ao governo do estado, que se recusou a aceitar a proposta, avançou ao ponto de o sindicato oferecer a troca de um dia de salário dos trabalhadores pela tarifa zero.

A estratégia, além de colocar o governador Geraldo Alckmin (PSDB) na parede, tinha ainda o objetivo de amenizar a aversão à luta dos trabalhadores por parte da população, e somar às pautas da categoria aquelas que se tornaram pertinentes ao conjunto da sociedade após os protestos de junho de 2013, iniciados em São Paulo pelo próprio MPL. Outros grupos estudantis, como a Assembleia Nacional dos Estudantes Livres (Anel), também se aproximaram, além do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que chegou a realizar atos semanais com mais de 20 mil pessoas. A parceria não começou agora. Em agosto do ano passado, MPL, MTST e metroviários divulgaram juntos as denúncias do “propinoduto tucano”, esquema de cartel em licitações de trem e metrô que envolve diversos digentes tucanos das gestões de Mário Covas, José Serra e do próprio Alckmin.

A denúncia ao esquema de corrupção que levou o Ministério Público a solicitar pagamento de R$ 2,5 bilhões às empresas envolvidas foi a primeira coincidência que uniu os metroviários aos movimentos que alimentam os protestos de rua. A segunda foi a coincidência entre campanha salarial e época de Copa. Altino diz que gosta de futebol, é santista e irá assistir ao torneio. Mas tem sido um dos principais defensores, dentro da entidade, da adoção de um discurso crítico em relação ao evento. Em sua perspectiva, a realização e o debate sobre sua organização colocou em evidência os lucros vultosos gerados aos empresários, o que alimentou a indisposição da sociedade. Mas, desde que a campanha salarial deste ano se acirrou e a greve se aproximou da data de início da Copa, o sindicalista tem sido cauteloso em ressaltar que não foi por causa da Copa que a categoria decidiu cruzar os braços.

Durante a tentativa de reconciliação no Tribunal Regional do Trabalho no dia 5, a vice-presidenta judicial do TRT, desembargadora Rilma Aparecida Hemetério chegou a fazer uma crítica à pressa da categoria, lembrando que, em anos anteriores, era comum a negociação se estender por meses. Altino negou que a motivação seja atrapalhar o evento, e voltou à tese da coincidência. “Não temos culpa se marcaram a Copa justamente nesse período”, afirma Altino. “Não estamos em manifestações que dizem que vão cancelar a Copa. Não é nossa visão e nem achamos que haja ambiente político para isso. Queremos dar a visão crítica, por isso pedimos transporte ‘padrão Fifa’ nos coletes que usamos durante a campanha salarial. É um grupo muito grande. Mas tem uma visão mais crítica que o normal.”

Para o ex-presidente do sindicato e atual presidente da CTB de São Paulo, Onofre Gonçalves, a pressão no primeiro semestre é normal e a Copa só acrescenta ingredientes à agenda anual dos sindicatos, mas não chega a despertar a antipatia dos metroviários de maneira real. “Na Copa, nós queremos ver a bola rolar. Agora, queremos também um salário, queremos que o governo negocie, atenda. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E, às vezes, a categoria se irrita de querer misturar uma coisa com a outra”, critica o ex-dirigente.

Desde junho do ano passado, também é possível encontrar Altino em atos dos mais variados, seja pela tarifa zero ou ao lado do MTST. A aproximação com grupos que extrapolam as demandas internas da categoria aumentou a presença de militantes diversos nas assembleias da categoria. A relação é de união, mas há atritos. Na assembleia que decretou a suspensão da greve após cinco dias, um início de tumulto envolveu metroviários e um grupo de jovens apoiadores da greve que vaiava o discurso de um sindicalista, embora não pertencessem à categoria. Os simpatizantes do movimento acabaram afastados da quadra do sindicato onde era realizada a votação.

Altino ressalta que as manifestações de junho do ano passado, por terem uma pauta atrelada à questão da mobilidade urbana e uma repercussão inédita, “entraram na alma” das pessoas e produziram um ambiente mais favorável à mobilização política, incluindo a dos trabalhadores por melhores salários e o seu questionamento por toda a estrutura do sistema metroferroviário. Na interpretação do sindicalista, outro ingrediente de junho que motiva as pessoas neste momento é a percepção de que as condições de vida pioraram nos últimos anos, em contraste com os indicadores econômicos que demonstram a continuidade do desemprego em taxas abaixo dos 5%, valorização de 72% do salário mínimo na última década e mais de 90% dos acordos salariais com aumento real em relação à inflação desde 2008.

“A passagem aumenta e a sensação é que o salário não aumenta junto”, resume. Altino avalia que as revoltas de junho de 2013 criaram o ambiente para que o incômodo se transforme em reação. “Sem junho, a sensação seria de incerteza. Com junho, ficou o sentimento de que é possível mudar. Tanto é que teve categoria que passou por cima dos sindicatos”, pondera, lembrando que, durante a movimentação dos rodoviários de São Paulo, uma semana antes da greve do Metrô, motoristas e cobradores insatisfeitos com o acordo firmado entre patrões e sindicalistas paralisaram a cidade por dois dias. “A mobilização entrou mesmo na alma das pessoas. Isso é muito importante, a psicologia das massas. As pessoas não querem mais ficar paradas, assistindo, querem participar”, afirma.

Bob Fernandes: Copa, os protestos legítimos e a farsa dos oportunistas

Por Bob Fernandes, via facebook

A FIFA queria 8 sedes. São 12 por que 18 estados e suas populações queriam sediar a Copa.

Agnelo Queiroz, do PT, fez estádio de R$ 1 bilhão e 700 em Brasília. O Maracanã, de Sergio Cabral e PMDB, custou R$ 1 bilhão e 200.

Minas, governada por Aécio e Anastasia, do PSDB, fez o Mineirão de R$ 700 milhões. O Pernambuco de Eduardo Campos (PSB) ergueu estádio de R$ 650 milhões.

A Copa vai começar. Com protestos legítimos, justos. E também com a farsa de oportunistas e hipócritas.

Quem nada ou quase nada tem, está fora dos estádios. E doido para estar dentro.

Como quer estar dentro das melhores escolas, universidades, ter melhor serviço de saúde, melhor segurança.

Quem está fora quer o que têm os que, já dentro dos estádios, fazem de conta que gostariam de estar fora da Copa.

Milhões querem um Brasil melhor. Outros dizem querer; desde que a “PEC das Domésticas” não eleve o gasto com seus empregados.

Querem… desde que cotas não “roubem” vagas dos seus filhos. E que o Bolsa-Família não “torre” R$ 70 por pessoa para famílias que vivem com menos de R$ 140.

É obrigação cobrar legados e denunciar: Copa e Olimpíada desabrigaram milhares de famílias.

Como é obrigação lembrar: 10% dos mais ricos concentram 42% da renda do país… E escondem US$ 520 bilhões em paraísos fiscais.

A propósito de legados: o Brasil ainda é um dos 10 países mais desiguais do mundo.

Há um discurso destrutivo…escondido pelo biombo da cobrança de legado. Como se a miséria secular fosse fruto de… geração espontânea.

Só falta querer negar também o futebol e sua alegria a quem nada tem.

Como se o futebol e a seleção brasileira não fossem parte nuclear da cultura, da memória afetiva do Brasil.

Altamiro Borges: Greve do Metrô e a ditadura de Alckmin

Por Altamiro Borges, em seu blog

Em entrevista concedida à rádio Jovem Pan na manhã desta segunda-feira (9), o secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo, Jurandir Fernandes, anunciou a dispensa sumária de cerca de 60 metroviários em função da greve da categoria que já dura cinco dias. “Iniciamos às 8 horas, estamos emitindo mais ou menos seis dezenas de demissões por justa causa, aqueles que já foram catalogados, com provas materiais de vandalismo, aqueles que barraram fisicamente, que incitaram a população a pular a catraca”, afirmou o prepotente secretário tucano.

O governador Geraldo Alckmin – o mesmo que abafa as apurações das denúncias sobre o bilionário esquema do “trensalão tucano”, que envolve o Metrô e o cartel das multinacionais do setor, e que não investiu o suficiente na ampliação das linhas e na manutenção do sistema – revela mais uma vez a sua faceta ditatorial. Ele não negocia com a categoria, demite os grevistas e aciona a tropa de choque em ações violentas nas estações. Parece até que tenta provocar o caos, na véspera da abertura oficial da Copa do Mundo em São Paulo.

Em pleno domingo, numa prova inconteste de que a Justiça paulista é rápida – quando se trata de decisões contra os trabalhadores –, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) julgou a greve dos metroviários abusiva e determinou uma multa de R$ 500 mil por dia ao sindicato da categoria. Para justificar a decisão, o desembargador Rafael Pugliese destacou o não cumprimento da absurda liminar concedida na quarta-feira (4) pela desembargadora Rilma Hemerito, que determinou a manutenção de 100% de funcionamento do Metrô nos horários de pico e 70% nos demais horários.

A decisão do TRT, conhecido por sua subserviência ao tucanato paulista, não intimidou os trabalhadores. Em assembleia realizada no mesmo dia, que reuniu mais de 3 mil grevistas, os metroviários decidiram manter a paralisação aos gritos de “não tem arrego”. A categoria conta com cerca de 9 mil funcionários, que transportam diariamente mais de 4 milhões de paulistanos.

Greve no metrô paulista: PM entra nas estações e ataca trabalhadores

Via SPRESSOSP

A Tropa de Choque reprimiu com balas de borracha e bombas de efeito moral os trabalhadores que resistiam pacificamente à abertura de algumas estações; “Alguém aqui tá atacando polícia? Só tem trabalhador”, diziam os metroviários.

Por volta das 6h30 da manhã desta sexta-feira (6), trabalhadores do Metrô foram atacados pela Tropa de Choque da PM, depois de se reunirem em resistência à abertura da estação Ana Rosa, da Linha 1 – Azul. Eles tentavam convencer os “fura greve” (funcionários do campo administrativo, que não têm experiência na condução dos trens) a não iniciar as atividades nesta manhã quando foram surpreendidos pela chegada da polícia que, sem diálogos, os expulsou da estação à tiros de bala de borracha e bombas de efeito moral.

Ao menos um sindicalista foi preso por “desacato à autoridade”.

A Tropa de Choque também foi enviada à estação Bresser-Mooca, na linha 3-Vermelha, para reprimir os grevistas.

Em greve de a última quinta-feira (5), o Metrô opera parcialmente em algumas linhas em que uma minoria (em geral funcionários de escritório) não aderiu à paralisação.

O Sindicato dos Metroviários até tentou evitar uma nova paralisação nesta sexta-feira para não prejudicar a população. Eles propuseram-se a trabalhar de graça desde que o Governo do Estado liberasse as catracas. Alckmin, contudo, negou a proposta.

Sem negociação, a greve deve continuar nos próximos dias. Os trabalhadores reivindicam um reajuste salarial de 12,2%, enquanto a companhia oferece somente 8,7%.

Funcionário do Metrô ferido por tiro de bala de borracha disparado pela PM. (Foto: Fotógrafos Ativistas)

 

 

Por que o Brasil deveria ganhar a Copa

Por Juan Arias, via El País e IHU

Talvez nunca se tenha escrito tanto sobre um Mundial de futebol, nas vésperas do acontecimento como está ocorrendo agora no Brasil. A Copa para os brasileiros, em primeiro lugar, é mais do que um acontecimento esportivo, já que deixou em carne viva os nervos da sociedade, até o ponto de se falar em um antes e depois do Mundial, algo que oferece uma carga especial de responsabilidade a todos os níveis.

Se no passado, para o Brasil ganhar ou perder a Copa era só uma questão de paixão nacional pelo futebol e não afetava as eleições políticas como indicam agora as estatísticas, desta vez uma vitória ou uma derrota da Copa jogada em chão brasileiro poderia ter maiores repercussões em níveis que afetam a própria vida dos cidadãos.

Tal e como está o clima social neste país, uma vitória brasileira poderia ter consequências positivas para toda a sociedade. Por vários motivos, dentro e fora do país.

Fora, porque atrasos, erros e tropeços cometidos durante a preparação deste Mundial, junto à campanha de rua “Não vai ter Copa”, chegaram de surpresa em um momento em que o Brasil tinha uma imagem no exterior que não se lembrava há muitos anos. O país se apresentava como a nova meca da América Latina, um gigante que acordava com uma nova pujança econômica e social, um lugar onde começavam a chegar até cidadãos cansados do primeiro mundo.

As manifestações de junho passado e as organizadas contra as despesas da Copa levantaram o discurso de que, melhor que organizar esse Mundial de futebol, seria melhor, por exemplo, desfrutar de melhores serviços públicos. E aquela imagem positiva do Brasil chegou a ficar avariada. De alguma maneira, já que do mesmo modo que talvez se tinha exagerado antes ao apresentar o país como um paraíso, sem problemas e sem pobreza, hoje os problemas do país estão sob o prisma de um derrotismo talvez exagerado que também não corresponde à realidade.

Seria por isso importante, neste aspecto, que o Brasil ganhasse limpa e belamente a Copa oferecendo aquele espetáculo da bola que o mundo sempre esperou e desfrutou vendo os jogadores brasileiros jogar.

Perder a Copa ou oferecer um futebol sem graça e sem paixão poderia ser visto pelos pessimistas como a confirmação de que o país está caminhando ladeira abaixo, já que o futebol, goste ou não, continua sendo um emblema e uma bandeira de cunho brasileiro.

Mais importante, no entanto, seria que o Brasil ganhasse a Copa perante à mesma sociedade. O país está vivendo um momento de mudança geracional. Tomou consciência de seu poder real dentro e fora de suas fronteiras, de suas riquezas e possibilidades e cresceu uma forte consciência coletiva que exige melhorias a todos os níveis e maior ética política. Poderia ser dito que está nascendo um Brasil “inconformado” com parte de seu passado e que deseja um futuro melhor.

Foi escrito que o Brasil começava a deixar para trás seu proverbial complexo de inferioridade, triste herança da escravatura e de políticas arcaicas, ao se ver admirado e observado com interesse até pelas grandes potências mundiais.

De repente, essa consciência coletiva de querer forçar os políticos a melhorar o país, que foi vista como um crescimento da população, parece ter se precipitado em um pessimismo coletivo ressuscitando, sem razão, em plena luta pela modernidade, o velho complexo de seus antepassados. Ou bem uma raiva e desconsolo geral que acaba criando sintomas de depressão pessoal e coletiva.

Foi escrito neste mesmo diário que o Brasil já ganhava a Copa porque, pela vez primeira, para os brasileiros, o futebol não era prioritário em suas exigências sociais e políticas. E é verdade, já que hoje o Brasil é mais que futebol. Sonha mais alto.

E, no entanto, estão sendo os brasileiros os que, de repente, parecem ter se dado conta de que seria melhor separar as coisas, em vez de se deixar arrastar por sentimentos extremistas, algo alheio à idiossincrasia pacífica deste povo. Os brasileiros começaram, nas vésperas do Mundial, como bem escreve aqui Carla Jiménez, a “dividir o espaço entre a mente e o coração”, já que enquanto não renunciam a pressionar os governantes a forjar um país melhor, também não desejariam perder sua velha paixão pelo futebol que para eles é mais forte que os escândalos da FIFA e os erros de seus governantes.

Por tudo isso, como prêmio a esta sabedoria que estão oferecendo os brasileiros, mereceriam ganhar também o troféu. Mais ainda, neste ponto, seria importante que o Brasil ganhasse a Copa. Eles saberão depois distinguir entre esse triunfo, que seria de todos, e as responsabilidades que são só de alguns e que a sociedade, mais madura, saberá também julgar nas urnas.

O Brasil aparece como um país inconformado, mas não vencido. Tem ainda muito jogo pela frente quando as luzes e polêmicas do Mundial tiverem sido apagadas.

O Brasil não é o mesmo de um passado ainda recente pois agora não renuncia a poder ser melhor do que foi. Que ninguém, nem governo nem oposição, pretendam se fazer de surdos, porque este país cordial está aprendendo também a rugir.

Ignacio Ramonet: Brasil, futebol e protestos

Por Ignacio Ramonet*, via Other News

É pouco provável que os brasileiros obedeçam o pedido de Michel Platini – no passado um grande jogador, hoje político e presidente da União Europeia de Associações de Futebol (UEFA) – feito em 26 de abril: “Façam um esforço, segurem essa indignação e acalmem-se por um mês”(1).

A Copa do Mundo começa em São Paulo no próximo dia 12 e encerra no dia 13 de junho, no Rio de Janeiro. Há uma séria preocupação. Não somente nas instâncias internacionais do esporte como no próprio governo de Dilma Roussef, no caso dos protestos ganharem intensidade durante o evento. O rechaço da população tem sido expressado desde junho do ano passado, quando do início da Copa das Confederações. A maioria dos brasileiros afirmam que não voltariam a postular o Brasil como sede de um mundial. Pensam que isto causa mais danos que benefícios (2).

Porque tanto repúdio contra a festa suprema do futebol no país considerado a meca do próprio? Há quase um ano, sociólogos e cientistas políticos tratam de responder a esta pergunta partindo de uma constatação: nos últimos onze anos – ou seja, desde o início do governo do Partido dos Trabalhadores (PT) – o nível de vida dos brasileiros cresceu significativamente. Os sucessivos aumentos do salário-mínimo conseguiram melhorar substancialmente os ganhos dos mais pobres. Graças a programas como “Bolsa Família” e “Brasil sem miséria”, as classes modestas veem suas condições de vida cada vez melhores. Vinte milhões de pessoas saíram da pobreza. A classe média também obteve progresso e agora possuem acesso a planos de saúde, cartões de crédito, moradia e veículos próprios, viagens… Porém, ainda falta muito para que o Brasil seja um país menos injusto e com condições materiais dignas para todos, porque as desigualdades seguem abismais.

Ao não dispor de maioria política – nem na câmara dos deputados nem no senado – , a margem de manobra do PT sempre foi muito limitada. Para lograr avanços na distribuição das remunerações, os governantes do PT – e em primeiro lugar o próprio Lula – não tiveram outra opção que não aliar-se a partidos conservadores (3). Isto criou um vácuo de representação e uma paralisia política, pois, o PT teve de frear as contestações sociais em troca deste apoio.

Daí temos cidadãos descontentes que se põem a questionar o funcionamento da democracia brasileira. Sobretudo quando as políticas sociais passam a sinalizar seus limites. Pois, ao mesmo tempo, está ocorrendo uma “crise de maturidade” da sociedade. Ao sair da pobreza, muitos brasileiros passaram da exigência quantitativa (mais empregos, mais escolas, mais hospitais) para a qualitativa (melhores empregos, escolas e serviços de saúde).

Nas revoltas de 2013, pode-se constatar que os manifestantes eram na maioria jovens pertencentes as classes modestas que se beneficiam de programas sociais implementados pelos governos Lula e Dilma. Estes jovens – que estudam a noite, são aprendizes, ativistas culturais, técnicos em formação- são milhões e recebem baixa remuneração, porém, agora possuem acesso a internet e permanecem muitas horas conectados, o que lhes permite conhecer novas formas de protesto. Desejam “subir no trem”(4) deste novo Brasil até mesmo porque tiveram sua expectativa de vida aumentadas, mais que sua condição social. Mas, neste ponto, descobrem uma sociedade pouco disposta a mudar, a aceitá-los, o que gera frustração e descontentamento.

E então, temos a Copa como o catalisador destas insatisfações. Obviamente, os protestos não são contra o futebol, mas sim contra algumas práticas administrativas, contra os conchavos feitos na organização do evento. O mundial exigiu um investimento estimado em 8,2 bilhões de euros. Os cidadãos pensam que, com este montante, poderiam ter ocorrido construções de mais e melhores escolas, mais e melhores casas, mais e melhores hospitais para o povo.

Como o futebol é o universo simbólico e metafórico o qual mais se identificam muitos dos brasileiros, é normal que o tenham usado para chamar atenção do governo e do mundo para o que, segundo eles, não funciona no país. Nesse sentido, a copa foi reveladora. Serviu para denunciar, por exemplo, essa forma escusa de se fazer negócios com o dinheiro público. Só nos estádios, o custo final foi 300% superior ao pressuposto inicialmente. As obras foram financiadas com dinheiro público através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o qual confiou estas gigantescas obras às empresas privadas. Estas, calcularam friamente, e então deixaram atrasar os prazos de entrega, realizando uma extorsão sistemática. Sabiam que, ante as pressões da FIFA, quanto mais atrasassem a construção, maiores seriam os ganhos adicionais a receber. De maneira que os custos finais triplicaram. As manifestações denunciam estes superfaturamentos, feitos em detrimento dos precários serviços públicos de educação, saúde, transporte, etc.

Estas mesmas reivindicações denunciam também as expulsões, ocorridas nas cidades sede, de milhares de famílias, desalojadas de seus lares para abrir espaço para a ampliação de aeroportos, rodovias e estádios. Estima-se que 250.000 pessoas foram vítimas destas desocupações. Outros protestam contra o processo de mercantilização do futebol que a FIFA favorece. Segundo os valores dominantes atuais – difundidos pela ideologia neoliberal-, tudo é mercadoria e o mercado é mais importante que o ser humano. Uns poucos jogadores talentosos são apresentados pelos grandes meios de comunicação como “modelos” de juventude, “ídolos” da população. Ganham milhões de euros, e seu êxito cria a ilusão de uma possível ascensão social por meio do esporte.

Muitas reivindicações são dirigidas diretamente contra a FIFA, não só pelas condições que impõem para proteger os privilégios das marcas patrocinadoras do mundial (Coca Cola, McDonald’s, Budweiser, etc.) que são aceitas pelo governo, e também pelas regras que impedem, por exemplo, a venda ambulante nas proximidades dos estádios.

Diversos movimentos têm por lema “Copa sem povo, tô na rua de novo”, e expressam cinco reivindicações (uma pra cada título mundial ganho pelo Brasil): moradia própria, transporte público, educação, justiça (fim da violência do Estado nas favelas e desmilitarização da polícia militar) e por último, uma sexta: que se permita a presença de vendedores informais nas imediações dos estádios.

Os movimentos sociais que lideram as manifestações dividem-se em dois diferentes grupos. Uma fração radical, com o lema “Se não tiver direitos não vai ter copa”, que são os setores de maior violência, incluídos os Black Bloc com sua depredação extrema. O segundo grupo é organizado por meio de comitês populares da copa, e denunciam o “Mundial da FIFA” sem participar de mobilizações violentas.

De qualquer forma, as manifestações atuais não parecem possuir a amplitude das de junho do ano passado. Os grupos radicais contribuíram pro esvaziamento dos atos, e não há uma direção orgânica do movimento. Resultado: segundo uma pesquisa recente, dois terços dos brasileiros são contra as manifestações durante a copa. E, sobretudo, desaprovam as formas violentas de protesto.

Qual será o custo político de tudo isto para o governo de Dilma Roussef? As manifestações do ano passado constituíram um duro golpe na presidenta que, nas três primeiras semanas, perdeu mais de 25% de aprovação popular. Depois, a mandatária declarou escutava a “voz das ruas” e propôs uma reforma política no Congresso. Essa enérgica resposta permitiu a recuperação de parte da popularidade perdida. Desta vez, o desafio será nas urnas, porque as eleições presidenciais serão no próximo dia 5 de outubro.

Dilma desponta como favorita. Porém, terá de enfrentar uma oposição agrupada em dois polos: o do centrista Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), cujo candidato será Aécio Neves; e, o muito mais temível, do polo social-democrata Partido Socialista Brasileiro (PSB), constituído pela aliança de Eduardo Campos (ex-ministro da Ciência e Tecnologia de Lula) e da ambientalista Marina Silva (ex-ministra do Meio Ambiente de Lula). Neste cenário, decisivo não só para o Brasil como para toda a América Latina, será o desenrolar da Copa do Mundo no Brasil.

Referências:

(1) http://www.dailymotion.com/video/x1rao84_mondial-2014-platini-le-bresil-faites-un-effort-pendant-un-mois-calmez-vous-25-04_sport

(2) Folha de São Paulo, São Paulo, 8 de abril de 2014.

(3) Desde a época de Lula, a base de la coalizão que governa o Brasil é formada fundamentalmente pelo PT e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, centro-direita, além de outras pequenas forças como o Partido Progressista (PP) e o Partido Republicano de Ordem Social (PROS).

(4) Leia-se Antônio David e Lincoln Secco, “Saberá o PT identificar e aproveitar a janela histórica?”, Viomundo, 26 de junio de 2013. http://www.viomundo.com.br/politica/david-e-secco-sabera-o-pt-identificar-e-aproveitar-a-janela-historica.html

(5) http://www.rebelion.org/noticia.php?id=183873&titular=entre-goles-negociados-y-especulaciones-electorales-

*Jornalista espanhol. Presidente do Conselho de Administração e diretor de la redação do “Le Monde Diplomatique” em espanhol. Editorial Nº: 224 Junio 2014

Tradução: Rennan Martins