Arquivos da categoria: Copa do Mundo

Faltou tudo. Principalmente uma imprensa crítica

Por Alberto Dines, via Observatório da Imprensa

Latuff Cartoons

Nação-criança, crente no papai-do-céu, no poder de preces, fitinhas ou mandingas. Quando a coisa começou a ficar preta, lá pelo terceiro gol, o speaker Galvão Bueno começou a repetir seu novo bordão: “Calma, gente, isso é esporte, isso é futebol.” Mas ao longo de sua vasta biografia o Narrador-Mor deste Reino descreveu os jogos do nosso scratch ou escrete como se fossem batalhas cruciais, pelejas pela salvação nacional.

A grande verdade – e isso comprova-se facilmente pela web – é que os especialistas da crônica esportiva foram excessivamente complacentes com a Comissão Técnica. Com Luiz Felipe Scolari especialmente. Engoliram sem qualquer esperneio, reclamação ou revolta a convocação dos 23 jogadores. Não perceberam a gritante ausência de um eventual substituto para Neymar e, o pior, acreditaram piamente que, numa emergência, alguns atacantes poderiam vestir sua camisa ou assumir sua função.

Nossa mídia com as estrelas que gosta de exibir e adora envolver-se aprovou os amistosos da seleção, entusiasmou-se com as vitórias de Pirro da primeira fase e, preocupada em não parecer derrotista ou antigoverno, deixou de reclamar na única esfera onde pode e deve influir: o desempenho esportivo.

No malfadado jogo com a Colômbia, a avaliação dos especialistas sobre a armação do time e a atuação dos jogadores foi muito favorável. Passou uma sensação enganosa. Novamente o maldito vamo que’vamo contagiou o país. Somente um comentarista foi rigoroso, evidentemente abafado pelo otimismo.

O medíocre desempenho de Neymar foi eclipsado pelo drama da fratura lombar e a pusilanimidade do árbitro. O aspecto sensacionalista que deveria ter ficado por conta dos repórteres que cobrem os eventos esportivos absorveu toda a atenção dos filósofos da bola nos dias seguintes. Foram deixados de lado os esquemas táticos e as arrumações para neutralizar a ausência do craque. O leitor quer emoções, então vamos enchê-lo de emoções. É evidente que o técnico não vai discutir táticas e escolha de titulares em público, mas cabe à imprensa fornecer aos leitores, ouvintes, telespectadores o material informativo com o qual formará juízos.

Outro passaporte

A nação-criança tem uma imprensa-criança que adora celebrar e não pensa no dever de casa. Os jornalões reinventaram as enquetes populares e enfeitaram suas páginas com retratinhos e palpitezinhos sem qualquer relevância. Nas rádios, antes dos jogos, obedecendo ao dogma da informalidade, os comentaristas divertiam-se fazendo apostas e bolões.

Fascinados com os gadgets e as novas tecnologias, os craques da escrita e do gogó imaginaram que as estatísticas sobre o passado são suficientes para prevenir surpresas futuras. A informática é incapaz de apontar zebras ou evitar calamidades. Inclusive “maracanazos” como o do Mineirão.

Qual o pior – o vexame de 1950 ou o de 2014? O oba-oba na véspera de 16 de julho de 1950 foi menos nocivo e deletério do que a complacência deste início de julho de 2014?

Não é suficiente emocionar-se com o hino nacional cantado à capela por cerca de 58 mil vozes. Mais eficaz seria lembrar-se na véspera do jogo com a Alemanha que o seu hino foi composto por Joseph Haydn (1732-1809), mestre de Mozart e Beethoven. Idade não é documento. Mas treinamento intensivo, tanto físico como psicológico e moral, podem fazer a diferença. A Costa Rica é a prova.

Não basta convocar uma psicóloga para limpar as lágrimas dos bebês-chorões que no jogo da estreia já se mostravam desfibrados.

Incontestável, inquestionável, indiscutível: Deus abdicou de ser brasileiro – não obstante as provas exteriores de religiosidade exibidas nas arenas. É possível que prefira o passaporte alemão, holandês ou (por que não?) argentino.

Politicagem mórbida: viaduto de BH era da ‘obra da Copa’.E a viga do monotrilho que matou 1 em SP, não?

Por Fernando Brito, via Tijolaço

Jornalismo não briga com fatos.

Mas também não noticia seletivamente fatos.

Há menos de um mês, caiu uma viga da obra do monotrilho da Linha 17 – Ouro do Metrô paulista, próxima ao Aeroporto de Congonhas, e matou uma pessoa.

O monotrilho, que fará a ligação entre o aeroporto de Congonhas e a rede de trens metropolitanos da capital paulista, era, como está noticiado em uma velha matéria do UOL, ” a única obra de responsabilidade do governo do Estado de São Paulo que consta na Matriz de Responsabilidades da Copa do Mundo”.

É preciso ver em textos antigos, porque, quando do acidente, isso não foi dito ou escrito pela mídia.

Ontem caiu o viaduto Guararapes, obra da prefeitura de Belo Horizonte igualmente parte da Matriz de responsabilidade, matando duas pessoas.

Duas tragédias dolorosas, que mataram seres humanos como eu ou você e que resultaram de erros técnicos incompatíveis com as boas práticas da engenharia, pois ambas estavam em construção, sem desgastes ou acidentes de origem externa.

Pelo que, é claro, ambas são notícia, e notícia importante.

A questão jornalística é: porque o viaduto era da Copa e isso é agitado nas manchetes e o monotrilho “não era da Copa” – uma vez que é igualmente parte das obras para as quais o Governo Federal deu recursos aos governos locais?

Se a queda do viaduto mineiro é manchete, porque a viga paulista foi apenas um tímido registro nos jornais de São Paulo?

Nem no Estadão, que você vê lá em cima, nem na Folha, que reproduzo ao lado. A Folha, aliás, publica a reportagem do desastre no caderno de política.

Ambas mataram pessoas. E em número bem parecido: duas ontem, uma há um mês.

Mas uma é associada a Geraldo Alckmin, estrela do tucanato e peça-chave da eleição e a outra nem vai ser tanto a Márcio Lacerda, um burocrata insípido que – embora filiado ao PSB de Eduardo Campos e cabo eleitoral declarado de Aécio Neves – é nacionalmente desconhecido.

Assim, o monotrilho é obra de Alckmin e o viaduto é “obra da Copa” e, claro, daquela senhora que é responsável por tudo o que acontece na Copa ou em suas obras.

Embora, em nenhum dos dois casos, nem mesmo se possa suspeitar de pressões indevidas para que as obras fossem feitas de forma acelerada e imprudente, porque não seriam mesmo utilizadas na Copa, como é obvio.

Por isso, a politicagem dos jornais brasileiros, sempre asquerosa, adquire aqui tons de morbidez.

A responsabilidade pelos dois eventos é dos responsáveis pelo projeto e execução, das empresas construtoras e dos contratantes das obras, o Governo de São Paulo e a Prefeitura de Belo Horizonte, simples assim. Nas placas das obras, aliás, há os nomes dos responsáveis técnicos, que num caso ou em outro não foram sequer procurados.

E o pior, para a minha profissão, é que a imensa maioria dos jovens profissionais de imprensa, que “se acham”, nem sequer percebem o óbvio.

Obra de engenharia cai porque é mal projetada ou mal-feita. Ou mal fiscalizada.

Não porque é “da Copa”.

Ativista preso diz que polícia “quis mostrar serviço”

Por Tatiana Merlino, via Ponte

Arquivo Pessoal/Facebook

Detido em presídio em Tremembé, Fábio Hideki Harano afirma que durante a manifestação portava uma garrafa de vinagre e não explosivos

Usando uniforme de prisioneiro cor bege, sandálias havaianas e de cabeça raspada, Fábio Hideki Harano aparece numa sala do presídio de Tremembé, localizado a 147 quilômetros da capital paulista. Com o semblante tranquilo, ele recebe a visita do deputado Adriano Diogo (PT-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa (Alesp), acompanhada com exclusividade pela reportagem da Ponte.

Estudante e servidor da USP, Hideki foi preso em 23 de junho, ao final de uma das manifestações “Se não tiver direitos, Não vai ter Copa”. Sua prisão ocorreu em flagrante, dentro da estação Consolação do Metrô, acusado de portar um artefato explosivo. Na mesma manifestação também foi preso o professor Rafael Marques Lusvarghi. Os dois são acusados dos crimes de incitação à violência, resistência à prisão, desacato a autoridade, associação criminosa e porte de artefato explosivo. “São os primeiros black blocs presos em flagrante pela Polícia Civil paulista”, disse o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella. “É a resposta da lei para esses indivíduos”.

Inicialmente levado ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), depois ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros (onde seu cabelo foi cortado), no dia 25 o estudante foi transferido para o presídio de Tremembé. De acordo com a Polícia Civil, no momento de sua prisão Hideki estaria portanto explosivos. “O que eu tinha era uma garrafa de água com vinagre, para me proteger do gás lacrimogêneo. Vinagre não é explosivo”, argumenta. “Se eu estivesse com explosivos, não teria gritado pedindo que filmassem a hora em que minha mochila foi aberta”, ressalta. Segundo o ativista, ele só foi apresentado aos explosivos de verdade por um investigador de polícia, quando foi prestar depoimento no Deic.

O jovem, que é técnico em farmácia da Faculdade de Medicina da USP, afirma que não conhecia o professor que também foi detido. Apenas o havia visto em um ato anterior, ocorrido no dia 19. “Só vim a saber o nome dele no Deic”.

10 dias sem sair da cela

Para chegar à carceragem do presídio, depois de passar por um detector de metais, há um portão de ferro, sobre o qual está escrito: “Este presídio só recebe o homem. O delito e o passado ficam nesta porta”. Em Tremembé há 637 pessoas encarceradas, das quais 443 em regime fechado e 194 em regime semiaberto. Lá estão presos de casos de grande repercussão, como os irmãos Cravinhos, condenados pela morte dos pais de Suzane von Richthofen e Lindemberg Alves, que matou a ex-namorada Eloá Pimentel, de 15 anos.

No local, Hideki está cumprindo o que se chama de período de observação: dez dias sem poder sair da cela. Para que as horas passem mais rápido, ele dorme bastante, lê (como na cela só há uma Bíblia, está lendo um livro emprestado, um romance histórico) e faz exercícios físicos, como alongamento, abdominal, exercícios para perna e braços. “Junto várias coisas pesadas e faço levantamento.” Também conversa, através das grades, com os companheiros de pavilhão, “que me tratam muito bem”. Olhando para o caderninho de anotações da reportagem, ele pede: “Por favor, é importante incluir aí que todos os presos me trataram muito bem, no Deic, no CDP e aqui”.

No mesmo caderninho, o estudante escreve uma nota, que pede para ser divulgada:

“Tremembé, 1º de Julho de 2014

Tenho a consciência completamente limpa, pois participar de manifestação de rua está longe de ser crime. Ou mesmo algo, em termos vagos, errado. Eu não portaria explosivo algum, tanto é que pedi aos gritos que a abordagem fosse filmada. Afinal, eu não tinha comigo nada a esconder.

Participar de manifestações com itens de proteção individual, como capacete, roupa grossa, vinagre e máscara de gás nem de longe é crime. Aliás, além de manifestantes e repórteres, tais ítens também são usados por policiais.

E mesmo assim fui preso, passei meu aniversário de 27 anos ontem em uma cela da qual não saí, alvo de acusações completamente sem fundamento.

Fabio Hideki Harano”

Aniversário na cela

Seu aniversário foi na segunda-feira, 30 de junho. Para aguentar passar a data preso, tentou “encarar o dia como mais um sem contato com o mundo exterior”. O jovem acredita que sua prisão representa uma “investida dos setores reacionários da sociedade” e respondeu a um desejo da polícia de “mostrar serviço”. Ele afirma que foi pego “para dar uma resposta à sociedade e à imprensa, que estavam cobrando a prisão de manifestantes violentos”. “Se ser black bloc é quebrar símbolos do grande capital, eu não sou black bloc”,completa.

Para o deputado Adriano Diogo, as características da prisão do jovem “não são da vida democrática. Estamos diante de um refém das manifestações. Ele está sendo tratado como se pertencesse a uma célula terrorista”, afirma. “É como se ele fosse responsável por tudo de ruim, como se fosse um criminoso. Não me conformo com isso. Ele está preso para servir de exemplo”, sustenta.

Moleque de classe média

Tanto sua mãe, dona de casa, quanto seu pai, engenheiro, são de origem japonesa. Hideki nasceu em Vitória (ES). Sua infância e adolescência foram a de um típico “moleque de classe média”. “Aquele que joga videogame, faz natação, aula de inglês.” Seus pais, embora não sejam militantes, estão tranquilos quanto à participação política do filho. “Porque eles sabem que eu não sou um criminoso e sim um militante.”

No começo de 2005, mudou-se para São Paulo, quando entrou, aos 17 anos, na Escola Politécnica da USP. Desistiu da Engenharia no final de 2007, e se transferiu para o curso de Ciências Sociais. No final de 2011, resolveu novamente mudar de área e prestou vestibular para Jornalismo. Aprovado, desde 2012 estuda na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). O jovem de 27 anos define-se como um nerd, “que joga RPG, videogame, lê quadrinhos, gosta de fantasias medievais e assiste a seriados japoneses”. E, claro, “também quero um mundo melhor. Sou defensor de direitos humanos e da democracia”. Desde 2011, é funcionário concursado da USP.

Após sua prisão, amigos criaram o site “Liberdade para Hideki”, onde há informações sobre a vida e o caso do estudante. De acordo com o padre Julio Lancelotti, membro da Pastoral do Povo de Rua e testemunha da operação policial, o “flagrante” foi forjado.

Um ato debate realizado nesta terça, 1, em apoio à prisão de manifestantes, terminou com a prisão de seis pessoas, incluindo um advogado.

Salvem o futebol das mãos da Fifa

Por Andrew Jennings, via Blog da Boitempo

Sepp Blatter não quer que saibamos, mas já está gastando com advogados em Zurique boa parte do dinheiro que levará do Brasil. O motivo? Desde novembro ele tenta impedir a publicação de um livro.

Seria uma obra séria de jornalismo investigativo repleta de alegações de corrupção devidamente documentadas? Não. Acusações de que ele rouba o dinheiro do futebol? Não nessas páginas. Compra de votos? Isso aparece em outros textos. O conteúdo do livro é muito mais danoso a Herr Blatter, que se convenceu de que é o homem mais importante do planeta. Trata-se de uma coleção de caricaturas que não o levam muito a sério. É esse o “crime” que os advogados suíços tentam comprovar há sete meses.

O ex-jogador dinamarquês Olé Andersen desenvolveu uma segunda carreira após aposentar-se e trabalhou por muitos anos na Fifa como artista gráfico. Lá, ele viu o mundo secreto de Sepp Blatter e produziu um divertido livro de caricaturas.

Não contem aos advogados do presidente, mas eu já vi o livro. As caricaturas são engraçadas. Não há nenhuma baixaria, nada de indecente. Então, o que elas mostram, afinal? Será que ouso revelar? Andersen cometeu o crime mais grave do futebol mundial: suas caricaturas demonstram desrespeito em relação a Herr Blatter, o deus-rei do futebol. Para Blatter, levar o caso aos tribunais não custa um centavo. Ele diz que, quando é insultado, a Fifa é insultada – e, por isso, a organização arca com a conta. Ótima jogada, Sepp! Um engradado de lagostas terá de ser subtraído da conta final da hospedagem no Copacabana Palace, e haverá menos pares de chuteiras infantis para os países pobres que Blatter diz amar.

O desrespeito está no fato de as caricaturas mostrarem o Blatter de verdade. A barriga imensa, os olhos pequenos e estreitos, sempre tramando algo, as papadas de peru, a palidez da pele antes de receber a maquiagem para as aparições perante o Congresso.

A equipe de Blatter é formada por mestres do Photoshop. Seu olhar sábio e benevolente está em todas as publicações da Fifa. Jamais adivinharíamos que ele tem 78 anos e traz as cicatrizes de uma tumultuada vida pública e particular. Quer que acreditemos que o futebol não pode sobreviver sem ele.

Blatter engana a si mesmo pensando ser o homem capaz de resolver a disputa entre israelenses e palestinos num campo de futebol, coroando sua carreira com um Prêmio Nobel da Paz. Esse é um dos motivos pelos quais quer mais quatro anos.

As caricaturas mostram esse homenzinho obeso e acabado, arqueado sob o peso dos anos de manipulação e mentiras para se manter no poder.

Olé gostaria de dar uma declaração, mas isso não seria prudente.

Na semana passada, os advogados de Blatter depositaram sobre a cabeça do cartunista um tsunami legal de 21 páginas externando o pesar do presidente. O tom se alterna entre o pomposo e o suplicante. Eles dizem ao tribunal: “O livro destruirá o nome de Blatter, arruinando sua reputação”. Seria de fato surpreendente se, após décadas de alegações de corrupção, ele ainda tivesse algo de positivo na reputação.

Como seus advogados conseguem manter uma expressão séria? Eles recebem muito dinheiro porque seu chefe reluta em ir aos tribunais para descrever a dor que sente. O drama dele seria objeto da atenção da mídia mundial e, principalmente, dos risos do público. Será que esse bebê chorão de pele sensível é a pessoa mais indicada para administrar nosso esporte?

O que deixou o ditador da Fifa mais irritado? Vou dar uma dica. Trata-se de uma caricatura mostrando Blatter como Charlie Chaplin no filme O Grande Ditador.

Quarta-feira telefonei a Olé Andersen para dar-lhe umas palavras de conforto. Alguns anos atrás, Blatter procurou secretamente seu tribunal favorito em Zurique, que prontamente proibiu meu livro Jogo Sujo. Sua triunfalista assessoria de imprensa me enviou um e-mail dizendo que o livro estava morto e, se eu insistisse na tentativa de publicá-lo, acabaria encarcerado na Suíça.

Meus advogados pediram para se reunir com o tribunal no dia seguinte e solicitaram a presença de Blatter para que explicasse o problema. Ele não o fez, retirou a queixa e ainda divulgou um pronunciamento mentiroso dizendo que a obra tinha sido revisada sob pressão dele e não era mais problemática. Foi bobagem, porque o livro já tinha sido impresso e nenhuma mudança poderia ser feita. Com o episódio aprendi muito a respeito da honestidade de Blatter.

Olé vai ganhar a disputa e, poucos dias depois, suas Caricaturas de Blatter estarão disponíveis no Kindle nos mais diferentes idiomas. Nem preciso dizer muito sobre o livro: as ilustrações são incríveis!

Vou acompanhar atentamente aquilo que minha televisão mostrar do Maracanã. Quero assistir ao futebol, mas meus olhos estarão sempre buscando o reluzir das joias atrás das janelas de acrílico dos camarotes VIP. Minha pergunta: será que José Maria Marin trará secretamente seu benfeitor, Ricardo Teixeira, com a cabeça escondida sob a bandeira nacional, para assistir ao jogo de um desses exorbitantes salões corporativos?

Os contribuintes brasileiros pagaram por esses camarotes, assentos que os fãs brasileiros jamais poderiam comprar. Em nome da família Blatter, gostaria de agradecer a vocês. E também um muito obrigado da empresa Taittinger, dona do contrato exclusivo de distribuição de champanhe. O contrato de hospitalidade corporativa de todos os estádios foi concedido por tio Sepp à empresa Match, da qual a empresa Infront, do sobrinho dele, Philippe Blatter, é dona de uma parte. Os proprietários majoritários da Match são os irmãos mexicanos Jaime e Enrique Byrom, trazidos para o mundo dos lucros do futebol algumas décadas atrás por João Havelange.

Os irmãos Byrom são sortudos. Eles têm também um contrato para fornecer todos os 3 milhões de ingressos da Copa do Mundo. Das entradas, 450 mil são reservadas para a elite nos camarotes com seus chefs, garçonetes e estacionamentos privilegiados. Aqueles que estiverem desesperados por um ingresso para a final podem se encaminhar para a Entrada dos Podres de Ricos e ver se algum dos 12 mil bilhetes entregues pelo tio e por Teixeira ao sobrinho e aos irmãos está sobrando.

Os brasileiros que percorrem grandes distâncias para assistir aos jogos precisarão de quartos de hotel, e nisso os irmãos podem ajudar. Tio Sepp deu a eles o contato da indústria hoteleira e, como perderam muito dinheiro na África do Sul em 2010, a Fifa concedeu-lhes um empréstimo sem juros da ordem de £ 6 milhões (cerca de R$ 22 milhões) para lubrificar a engrenagem comercial.

Caso Sepp Blatter queira sair inteiro do aeroporto do Galeão, o Brasil precisa ser campeão da Copa do Mundo. Por isso, se Neymar, Fred ou Hulk quebrarem a perna ou se Marcelo sofrer um mal súbito como ocorreu com Ronaldo, em 1998, não há motivo para preocupação.

Por pior que seja o desempenho da seleção nos campos, Blatter tem muito poder sobre o resultado. No passado, alguns juízes das partidas não passaram de fantoches interessados apenas em viajar pelo mundo, receber quantias vultosas e participar de intercâmbios culturais nos bordéis. Blatter encontrou dois capachos do tipo em Seul em 2002, demonstrando que nada tem a aprender com os criminosos responsáveis por resultados arranjados que ele tanto gosta de criticar.

Assim como a corrida de camelos parece ser o esporte preferido no Catar, a Coreia do Sul é fã do beisebol. Uma vez que a seleção do país fosse eliminada, os estádios ficariam vazios e as emissoras de TV do mundo inteiro ficariam constrangidas ao mostrar as fileiras de assentos vagos.

A Coreia do Sul conseguiu se classificar na fase de grupos e enfrentou a Itália, sempre uma adversária formidável. Mas, para os italianos, formidável mesmo foi o juiz Byron Moreno, do Equador. Ele apitou um pênalti duvidoso para a Coreia do Sul com apenas quatro minutos de jogo – mas o goleiro defendeu. Os minutos foram passando e a Itália foi melhor, com um gol de Christian Vieri. A aparente vitória foi impedida aos 44 minutos do segundo tempo, quando a Coreia do Sul empatou.

O jogo foi para a prorrogação e, pouco antes do intervalo, Francesco Totti foi derrubado na área coreana. Os replays mostraram que um pênalti deveria ter sido apitado em favor da Itália. Em vez disso, Totti foi castigado por simulação.

No segundo tempo, o gol de ouro de Damiano Tommasi foi anulado, mais uma vez deixando perplexos os fãs do mundo inteiro. Três minutos antes do final da prorrogação, Ahn Jung-hwan saltou mais alto do que a zaga italiana para marcar de cabeça o gol de ouro. A Coreia do Sul avançou para enfrentar a Espanha nas quartas de final.

A Espanha enfrentou três adversários. A Coreia do Sul, o juiz Gamal Al-Ghandour e o bandeirinha Michael Ragoonath, de Trinidad, escolhido para apitar no torneio pelo conhecidamente corrupto Jack Warner. A Espanha marcou no segundo tempo; o juiz anulou o tento. A partida foi para prorrogação. O espanhol Fernando Morientes fez gol, mas Ragoonath ergueu a bandeira. A Coreia cobrou um tiro de meta. Nos replays, vemos que o bandeirinha foi incompetente, na melhor das hipóteses.

A Espanha conseguiu um escanteio no último minuto da prorrogação, mas o juiz encerrou a partida um minuto antes do término do segundo tempo da prorrogação, antes que a seleção espanhola tivesse chance de cobrar o lance. A Coreia do Sul venceu nos pênaltis e se classificou para as semifinais. Os estádios continuaram cheios.

Assim, se a seleção não for capaz de avançar por mérito próprio, os juízes de Blatter resolverão o problema. Ele é mesmo um grande presidente!

Vamos torcer para que João Havelange tenha pedido aos seus sócios gângsteres naquilo que restou do clã Andrade no Rio de Janeiro que declarassem cessar-fogo durante o campeonato. Não precisamos de uma repetição de abril de 2010, quando uma bomba explodiu o jovem Diogo Andrade, morte seguida por outros assassinatos vingativos, numa disputa pelo controle da corrupção.

Graças à egocêntrica determinação de Blatter de se manter na presidência da Fifa, o futebol mundial apresenta hoje um amargo cisma. Jornalistas como eu, que revelam como ele e seus associados subornaram funcionários menos ricos na África e na Ásia, são denunciados como “racistas”. Ele não tem limites. Sem nenhum constrangimento, mais dinheiro é doado aos gananciosos funcionários para que comprem votos para Blatter.

Independentemente de ele vencer a eleição ou não, seu legado será marcado pela corrupção e pelo ódio. A Fifa é uma piada global, alvo da gozação de comediantes. Depois que nos livrarmos de Blatter a Fifa vai precisar de uma faxina, para que as feridas infligidas por ele possam cicatrizar.

A resposta mais fácil é aquela seguida por muitos governos. O Parlamento suíço deve anunciar que, antes do fim do ano, a Fifa deve usar os grotescos lucros obtidos no Brasil para tornar tudo disponível na web. Registros de reuniões, votações nominais, recibos de despesas, pagamentos “especiais” autorizados por Blatter e, especialmente, o grande segredo da Fifa: a quantia que ele recebe como salário e as bonificações que atribui a si.

Na rede podemos descobrir as atividades de nossos governos. A imensa corrupção comandada por Blatter contra o esporte das multidões só pode ser reparada com uma transparência proporcional. Se a Fifa não atender a essa demanda, será necessário expulsá-la do palácio de vidro e mármore nas colinas nos arredores de Zurique.

O que mais Blatter pode fazer? Bater em retirada rumo ao Catar? Até os xeques ficariam constrangidos com as gargalhadas do mundo.

Entre os fãs existe uma tradição global de vaiar Blatter. Este ano, insisto para que todos entoem um pedido de transparência na rede sempre que ele mostrar o rosto em público, para que o mundo ouça o que precisa ser feito para salvar o futebol das mãos da Fifa.

Bob Fernandes: Copa, quebrou a cara quem apostou contra por cálculo político

Por Bob Fernandes, via facebook

“Imagina na Copa!” Por anos esse bordão carregou a promessa e o medo do fracasso, da vergonha.

A Copa traria o caos, aéreo e urbano, o vexame diante do mundo …

A Copa está na metade. Tudo, inclusive de ruim, ainda pode acontecer.

Mas, até aqui, o que dizem “os estrangeiros”, que alguns brasileiros tanto temiam?… Ou buscaram influenciar.

O Guardian, o grande jornal inglês, já aposta: “Pode ser a melhor (…) e a mais emocionante Copa da história”.

O Telegraph conta que passou por 6 aeroportos, “na maioria excelentes”, e lamentou “as histórias de terror” pré-Copa.

Mundo afora a mídia revê suas opiniões e repete… “uma linda festa … a grande Copa… a melhor da história…”.

E, claro, a mídia honesta mostra os protestos. Lembra que o Brasil é desigual, injusto, que moradores foram desalojados por conta da Copa e Olimpíadas.

Imprensa séria registra que tanto o governo federal como governos da oposição se irmanaram na bilionária farra dos estádios.

Qualquer um, óbvio, tem o direito de ser a favor ou contra a Copa. Não faltam motivos.

Mas quem apostou contra apenas por cálculo político errou, e quebrou a cara.

Dizer agora que o catastrofismo foi obra da imprensa estrangeira é cinismo. É dobrar a aposta na falta de inteligência de quem recebe informações.

Técnicos, como Capello, dizem: “É a Copa de maior nível técnico da história”. Capello resumiu: no imaginário do planeta futebol, o “estádio do mundo é o Maracanã”.

O alemão Podolski escreveu: “Não teria melhor lugar para uma Copa (…) o país do futebol”.

Certamente por isso jogadores e seleções estão jogando tudo que sabem… Muitos, até mais do que podem.

Até aqui uma seleção não jogou futebol à altura da sua história e conquistas: o Brasil.

Por muitos motivos… inclusive a descomunal tarefa de carregar um país, um povo nas costas.

Povo que por anos repetiu um bordão: “Imagina na Copa!”

 

Robben merecia ser punido como Suárez

Por Scott Moore, via DCM

DCM/Reprodução

Ladies & Gentlemen:

Um escritor afirmou que o pior pecado depois do pecado é a publicação do pecado.

Foi o que ocorreu hoje com Robben, o atacante holândes.

Depois de uma série infindável de mergulhos para simular pênaltis, ele admitiu a uma tevê holandesa que pelo menos uma vez tentou enganar o árbitro.

Diante da repercussão dessa confissão desconcertante, ele emendou posteriormente que não foi o caso do pênalti que afinal classificou a Holanda.

Neste caso, segundo ele, foi mesmo pênalti – uma afirmação que as imagens colocam claramente sob dúvida. O zagueiro mexicano teria pisado no seu pé, segundo os crédulos. Ora, isto tivesse mesmo ocorrido, o pé pisado, e portanto preso, impediria o voo de Robben. Elementar.

Ladies & Gentlemen: minha tia Mimi dizia, de um certo ator, que era muito bom apesar de careca. (Nota da tradutora: in spite of being bald.)

Sigo tia Mimi e digo que Robben é um grande jogador, apesar de careca.

Mas é também um fanfarrão. Assim como Suárez é um mordedor serial, Robben é um mergulhador serial, compulsivo.

Também como Suárez, é um caso psiquiátrico, mais que futebolístico. Ele sabe que age errado, e mesmo assim não consegue se corrigir.

Nós, europeus, conhecemos bem essa característica detestável de Robben. Não é a primeira vez que ele se desculpa publicamente por trapacear.

O que espanta é que o juiz tenha caído na armadilha de Robben. Não teria informações suficientes sobre ele? É possível.

O técnico mexicano tem razão: Robben já deveria ter recebido cartão amarelo pelas simulações antes do lance fatal. Dificilmente ele teria dado aquele último mergulho que eliminou o bravo México.

Suarez foi punido. E Robben, réu confesso, não deveria ser também?

Tenho certeza de que não será. E sei a razão: ele não é uruguaio, ou sul-americano, ou africano.

É europeu.

Sincerely.

Scott

Tradução: Erika Kazumi Nakamura

PS: Corre nesta segunda a informação de que a Fifa poderia punir Robben por encenação.

 

Ronaldo volta atrás e diz que não criticou organização da Copa

Via Pragmatismo Político

Um mês depois de declarar apoio a Aécio Neves e, consequentemente, se dizer “envergonhado” com os atrasos na Copa do Mundo, sucesso do mundial faz Ronaldo mudar o discurso

Um mês depois de se dizer “envergonhado” com os atrasos na Copa do Mundo, o ex-atacante Ronaldo Nazário disse nesta quinta-feira que nunca criticou a organização do torneio.

Em entrevista coletiva organizada pela Fifa e pelo Comitê Organizador Local (COL), o antigo camisa 9 da seleção brasileira disse que suas críticas anteriores estavam dirigidas apenas a obras de mobilidade urbana.

“Não critiquei a organização da Copa, até porque eu faço parte dela. Disse que poderia ser muito melhor se todas as obras, de mobilidade urbana, tivessem sido entregues. A minha crítica foi naquele momento sobre as obras que foram prometidas e não entregues”.

Depois de declarar apoio à candidatura de Aécio Neves (PSDB) à Presidência, Ronaldo, que é membro do COL, passou a atacar constantemente o governo Dilma em relação ao Mundial.

“E de repente chega aqui é essa burocracia toda, uma confusão, um disse me disse, são os atrasos. É uma pena. Eu me sinto envergonhado, porque é o meu país, o país que eu amo, e a gente não podia estar passando essa imagem para fora”, disse o ex-jogador, à Reuters, no dia 23 de maio.

Com a Copa já em andamento, Ronaldo disse nesta quinta-feira ter ficado surpreso com a forma como a população brasileira acabou recebendo a Copa. O bicampeão mundial (em 1994, como reserva, e 2002, como astro) afirmou que esperava mais críticas e manifestações contra o torneio.

“A população mais uma vez nos surpreendeu positivamente. Vivíamos um clima muito tenso, com a população muito descontente. Começou a Copa, e agora estamos vivendo um sonho. Nenhum de nós pensava que poderia ter esse clima tão amistoso”.

Com informações de Valor Econômico