Arquivos da categoria: Copa do Mundo

O estranho caso do juiz que manteve manifestantes na cadeia por eles serem da “esquerda caviar”

Por Mauro Donato, via DCM

Fabio Hideki

Fábio Hideki Harano e Rafael Lusvarghi não portavam explosivos, afirmou laudo técnico do Gate (grupo anti-bombas da PM) e do Instituto de Criminalística.

Um levava uma lata de spray fixador de tintas em tecidos e o outro um frasco de achocolatado.

Presos no último dia 23 de junho em um protesto contra a Copa, permanecem encarcerados e o laudo é uma atenuante mas a liberdade ainda parece longínqua. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, os falsos explosivos não são as únicas provas. Pesam ainda danos ao patrimônio, associação criminosa, desobediência e resistência.

Na última sexta-feira, ambos tiveram mais um pedido de liberdade negado. O juiz Marcelo Matias Pereira, da 10ª Vara Criminal, reafirmou que trata-se de “black blocs que atentam contra os poderes constituídos, desrespeitando as leis e os policiais que têm o dever de preservar a ordem, a segurança e o direito de manifestação pacífica.”

E mais, que como black blocs não passam de “esquerda caviar”.

“Além de descaradamente atacarem o patrimônio particular de pessoas que trabalham para conquistá-lo, sob o argumento de que são contra o capitalismo, mas usam tênis da Nike, celular, postam fotos no Facebook e até utilizam uma denominação grafada em língua inglesa, bem ao gosto da denominada esquerda caviar.”

O juiz se baseia, e julga, em laudos e provas e testemunhos concretos ou conforme sua ideologia política?

A patética definição rodrigoconstantinesca subiu na tribuna. O neologismo que visa desqualificar a ideologia socialista é sacado sempre que possível, sobretudo em atos individualizados.

Um socialista que sonegue impostos suja a ficha de todo mundo. Mas um capitalista não? Se ele o fizer, está dentro do previsto? É isso?

É curioso que se veja “hipocrisia naqueles que defendem causas nobres muito mais para parecer ‘legal’ que por causa dos resultados concretos daquilo que prega” (autor supra-citado). Uma coisa não exclui a outra, é tão difícil assim entender?

Segundo esse raciocínio, a madame dos jardins que ajuda uma instituição social também está sendo hipócrita. Por sua tendência político ideológica individualista não deveria ajudar ninguém. Ou podemos denunciá-la como “direita cachaça”.

Desprovido de provas concretas, o juiz Marcelo Matias Pereira resolveu mirar no abstrato.

Você, leitor, está descalço e com uma folha de parreira escondendo os genitais? Não? Sinto informar, você é esquerda caviar.

Perícia conclui que artefatos encontrados com manifestantes não são explosivos

Por Tadeu Breda, via RBA

Gate e Instituto de Criminalística relatam que objetos supostamente apreendidos com Hideki e Lusvargh não têm capacidade de ferir. ‘É outra prova que demonstra a ilegalidade da prisão’, diz advogado

Policiais prendem Rafael Lusvargh, acusado de portar ‘artefato explosivo’ que se revelou ‘inerte’.

São Paulo – Perícias realizadas pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar e pelo Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo apontaram que não são explosivos os artefatos supostamente encontrados com os manifestantes Fábio Hideki Harano e Rafael Marques Lusvargh em 23 de junho, quando foram detidos durante protesto na Avenida Paulista, na capital.

Os laudos foram entregues nesta segunda-feira (4) aos advogados de Hideki, que hoje mesmo ajuntaram ao processo os novos indícios e, depois, repassaram as informações à RBA. A PM confirmou que as perícias foram concluídas, mas “não irá divulgar seu conteúdo por não ser a titular do inquérito”. A Secretaria de Segurança Pública não quis se manifestar sob a alegação de que se trata de um assunto da esfera judicial.

Os policiais civis que participaram da prisão de Hideki e Lusvargh atestam que ambos portavam explosivos. Os ativistas negam, e são respaldados pelo testemunho de manifestantes que acompanharam e filmaram as detenções. Ainda assim, os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público acataram a versão dos policiais e levaram a denúncia à justiça.

Os jovens respondem por associação criminosa, resistência, desobediência, incitação ao crime e porte de explosivos – acusação que agora deve cair por terra com o resultado da perícia. Os dois estão presos há 44 dias: Hideki encontra-se na penitenciária de Tremembé, a 150 quilômetros da capital, e Lusvargh, na carceragem do 8º Distrito Policial, no Brás, centro de São Paulo.

‘Bombas’

Hideki é acusado de trazer na mochila “artefato explosivo” ou “artefato incendiário de fabricação rudimentar”, segundo boletim de ocorrência lavrado pelos agentes do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) no momento da prisão. Um vídeo mostra trechos da abordagem dos policiais a Hideki e da revista feita em seus pertences.

Lusvargh estaria em posse de uma “garrafa de iogurte com forte odor de gasolina”. O frasco consta no boletim de ocorrência, mas não é mencionado pelos policiais na narração dos fatos. Os agentes que abordaram Lusvargh tampouco se referem à garrafa de iogurte em seus depoimentos.

De acordo com o Gate, os materiais foram construídos à base de material inerte, desprovido de qualquer tipo de substâncias explosivas ou inflamáveis. Os objetos apresentaram ainda resultado negativo para todos os testes práticos e químicos a que foram submetidos.

Por isso, dizem os peritos, não poderiam colocar em risco a integridade física das pessoas. O IC chegou a conclusão semelhante: os materiais não possuem composição química compatível com a de materiais explosivos, nem compostos inflamáveis comumente usados em coquetéis molotov.

‘Flagrante forjado’

“É outra prova que demonstra a ilegalidade da prisão”, avalia Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado de Fábio Hideki. “Fábio foi vítima de um inquérito preparado e um flagrante preparado, que está se desmoronando.”

Greenhalgh lembra que o porte de explosivos era a principal acusação contra o manifestante – e o que justificava, perante a justiça, sua prisão preventiva. “Agora isso caiu. Quero que ele saia imediatamente da cadeia. Se não sair, ficará claro que se trata de uma prisão política.”

A Defensoria Pública, que representa Lusvargh, ainda não teve acesso ao laudo pericial do Gate e do IC, e preferiu não se pronunciar sobre as conclusões.

Alckmin

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, disse hoje (4) que a polícia age com “absoluto critério” garantindo o direito de manifestação, e afirmou que o trabalho das autoridades na prisão de Hideki e Lusvargh foi tão bem conduzido que a justiça ainda não teve como soltá-los.

“As pessoas acham que o governo prende e solta. Mas não temos o poder nem de prender nem de soltar. Tanto o trabalho da polícia foi bem feito que a Justiça não soltou”, alegou Alckmin, que é candidato à reeleição. O governador negou insinuações de que a polícia plantaria provas contra os manifestantes.

“Por que a polícia plantaria provas contra alguém? Os trabalhos da polícia são documentados. O trabalho da polícia é monitorado”, defendeu. “A polícia tem agido com absoluto critério garantindo o direito de manifestação. Infelizmente há infiltrados que começam a depredação.”

São libertados doze ativistas presos no último sábado no Rio

Por Vitor Abdala, via Agência Brasil

Mídia Negra/Reprodução

Doze dos 17 ativistas presos no último sábado (12) pela Polícia Civil foram libertados na madrugada de hoje (17) do Complexo Penitenciário de Gericinó, na zona oeste do Rio, depois de serem beneficiados por habeas corpus. Entre os libertados está a funcionária da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) Joseane Maria Araújo Freitas e mais quatro mulheres: Gerusa Lopes Diniz, Karlayne Moraes da Silva Pinheiro, Eloisa Samy Santiago e Rebeca Martins de Souza.

Elas estavam presas na Cadeia Pública Joaquim Ferreira de Souza, no Complexo de Gericinó, desde o domingo (13). Também foram libertados sete homens da Cadeia Pública José Frederico Marques, no mesmo complexo penitenciário: Emerson Raphael Oliveira da Fonseca, Rafael Rêgo Barros Caruso, Filipe Proença de Carvalho Moraes, Felipe Frieb de Carvalho, Pedro Brandão Maia, Bruno de Souza Vieira Machado e Gabriel da Silva Marinho.

Ontem (16), os cinco ativistas que não foram beneficiados por habeas corpus tiveram prorrogada por mais cinco dias a prisão temporária, que venceria hoje. São eles: Elisa de Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, Tiago Teixeira Neves da Rocha, Eduarda Oliveira Castro de Souza, Camila Aparecida Rodrigues Jourdan e Igor Pereira D’Icarahy.

Nove pessoas que estão foragidas desde sábado também tiveram a prisão temporária prorrogada por cinco dias, por decisão do juiz da 27ª Vara Criminal da capital Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau. Todos eles são investigados pela Operação Firewall, da Polícia Civil do Rio, que averigua atos violentos em protestos.

Bob Fernandes: O “povo” deu aulas ao “topo” e à política com a Copa

Por Bob Fernandes, via facebook

No jornalismo, por questões de espaço, tempo e técnica, a realidade é fatiada. Em matérias e títulos distintos.

Cada reportagem trata de um assunto que se encerra em si mesmo… Isso é Copa, aquilo é política, isso é economia…

Na vida, na real, tudo é parte inseparável do todo.

As eleições estão ai. Páginas escritas nessa Copa deixam ensinamentos para a Política, e para o “topo”. Ensinam sobre quem soube jogar.

O Brasil recebeu 1 milhão de visitantes. Pesquisa do Datafolha diz: 83% dos estrangeiros aprovaram a Copa.

Os estrangeiros perceberam os altos custos, a desigualdade social, a insegurança… mas 95% querem voltar ao Brasil.

Impressionantes 95% disseram que a recepção a eles foi “ótima” ou “boa”. Performance extraordinária em qualquer lugar do mundo.

Quem recebeu os visitantes foi um conjunto de instituições, e o coletivo de cidadãos que chamamos de “o povo brasileiro”.

Note-se: num país onde 50 mil pessoas são assassinadas a cada ano, nada de grave aconteceu ao longo de um mês com esse 1 milhão de visitantes.

Disputas entre torcidas, farras homéricas Brasil afora, e foi no trânsito que dois argentinos, jornalistas, perderam a vida.

Espancamentos em manifestações, prisões arbitrárias, os assassinatos nossos de cada dia, tudo isso se deu entre brasileiros… Aprendamos algo com isso.

Aprenderam sobre o Brasil e sua gente bilhões de pessoas que acompanharam a Copa e o rosário de notícias.

Se os alemães souberam vender e comprar simpatia, quem recebeu bem 1 milhão de hóspedes também soube jogar.

Essa lição de maturidade coletiva deve ser assimilada pela Política, e pelo “topo”.

Pelos que anunciaram e apostaram no caos.

E por quem tenha sonhando em obter dividendos com a eventual glória alheia.

A eleição está ai. Virá a marquetagem, vendedores e vendedoras de fumaça.

Vai errar quem duvidar de novo da capacidade de entender, decidir e agir do chamado “povo brasileiro”.

Juca Kfouri: o que fica pro futebol brasileiro

Por Juca Kfouri, via Blog da Boitempo

O que é pior, o vira-latismo ou o puxa-saquismo? Se o primeiro se confundir com espírito crítico certamente o segundo é pior, porque mera bajulação. Comecemos pelo começo: a imagem do Brasil depois da Copa é muito melhor do que, com carradas de motivos, se imaginava antes dela. Fez-se, em resumo, um bom anúncio do país. Porque houve a festa que se imaginava que haveria nos estádios e não houve a tensão prevista fora dele.

Por incrível que possa parecer, Joseph Blatter, o poderoso chefão da Fifa, tinha razão: a sedução do futebol falou mais alto, ainda mais porque, paradoxalmente, se a Copa não apresentou nenhuma seleção inesquecível, mostrou jogos formidáveis, como uma homenagem ao país que já foi o do jogo bonito. Repita-se para suavizar o que virá a seguir: o Brasil ganhou a 20a Copa do Mundo da Fifa e ainda por cima prendeu gente dela que há décadas atenta contra a economia popular, um legado inestimável, exemplar, digno de ser aplaudido de pé assim como a hospitalidade nacional.

Tamanhas vitórias não escondem as derrotas e aqui não se fará nenhuma menção, além desta, à goleada alemã. Por falar nisso, em alemães, nossa Copa foi muito melhor que a da África do Sul, mas não foi, como organização, melhor que a de 2006. Claro, da Alemanha se espera perfeição e a Alemanha esteve perto disso. Do Brasil esperava-se uma catástrofe e o Brasil ficou longe disso. Contudo, na Alemanha não foram construídos elefantes brancos como os de Manaus, Cuiabá, Natal e Brasília, cujas contas jamais serão pagas a não ser que ocorra mais um milagre brasileiro.

Lá não morreram tantos trabalhadores, nem caiu viaduto com duas mortes, nem se desalojou tantas famílias, nem nada custou tanto a ponto de a nossa Copa ter superado o custo dos três últimos torneios e nenhum estádio foi invadido por torcedores como o Maracanã pelos chilenos. Tampouco faltou luz no jogo de abertura. Esquecer tais fatos em nome da imagem externa é que é o verdadeiro vira-latismo, como se a aprovação estrangeira nos bastasse.

É verdade sim que o governo federal, um mês antes de a Copa começar, partiu em busca de empatar um jogo que perdia por 4 a 0 e que conseguiu vencer, digamos,por 6 a 5 — o que exige elogios ao ataque assim como críticas à defesa. Ocorre que há quem queira fazer apenas elogios e outros que só desejam criticar, todos movidos ou por cegueira partidária ou por outros interesses.

Não se trata de negar o sucesso da Copa, mas de dizer que poderia ser melhor. Tudo, aliás, sempre pode ser melhor, por melhor que tenha sido. Trata-se de não esquecer o quanto custou em vidas e dinheiro, em desalojamentos e atrasos, em remendos de última hora, uma porção de coisas para as quais os estrangeiros não estão nem aí, mas que devem preocupar os que estão aqui e que, enfim, pagarão a conta. Porque outro legado da Copa é a consciência de que megaeventos são muito bons para quem os promove e para as celebridades que gravitam em torno,mas não são necessariamente bons para quem os recebe, razão pela qual será excelente se os próximos forem submetidos à consulta popular.

O turista que veio não se hospedou nos melhores hotéis nem comeu nos melhores restaurantes, preferiu albergues ou sambódromos, lanchonetes ou churrasquinhos de gato. Até mesmo os aeroportos inconclusos (o de Brasília é simplesmente espetacular, registre-se) suportaram bem a carga,entre outras razões porque o movimento foi menor que o normal neste período.

Em resumo: o Brasil ganhou a Copa de virada e o resultado pode ser considerado excepcional, digno de comemoração para irritação dos vira-latistas. Mas não foi de goleada como bimbalham os puxa-sacos. Além do mais, se o jogo acabou para o mundo, segue correndo no nosso campo. A um custo que ainda será mais bem apurado.

Democratizar o futebol brasileiro

O resultado em campo e a eliminação do Brasil não alteram, em nada, a minha opinião sobre a crise existencial que arrasa o futebol brasileiro há mais de uma década. O buraco é muito mais embaixo. Os que dirigem o futebol nacional não deram as caras, se esconderam em ambas oportunidades. Como de costume, evitaram e evitarão ao máximo falar sobre as propostas para o futuro pois não entendem bulhufas do que deve ser feito. Entendem de política, de se manter no poder, de explorar o futebol, de mamar nas tetas da vaca. E como disse o senhor José Maria Marin na primeira reunião do Bom Senso na CBF: “Posso afirmar que não temos nada a aprender com ninguém de fora, principalmente no futebol. Sempre tivemos os melhores do mundo no Brasil. Já vencemos cinco vezes a Copa”.

Ninguém tem necessidade daquilo que desconhece. “Coitado”, ele e seus pares achavam que tudo ia muito bem e que o talento bruto resolveria a questão. Não fazem ideia de que a Seleção Brasileira é o menor, apenas a ponta do iceberg (incrível dizer isso depois de tomar de 7), dos problemas do nosso futebol. Devemos aceitar esta derrota como mais uma das muitas importantes lições que a Copa nos trouxe até aqui. Se a procura por um legado era apenas para justificar o excesso dos gastos públicos, agora passou a ser o último lampejo de dignidade. Então proponho uma solução ao caos, DEMOCRATIZEM A CBF e salvem o futebol brasileiro.

Campeões, Bicampeões, Tricampeões, Tetracampeões, Pentacampeões, vocês que construíram o futebol brasileiro dentro de campo, estão convocados. Precisamos de vocês, precisamos ainda mais dos que já provaram sua capacidade fora de campo, gerindo, planejando, vivenciando o que há de melhor no futebol contemporâneo mundial.

Leonardo, Raí, Cafu, Juninho Pernambucano, Kaká, Ricardo Gomes, Roque Junior, Edmilson, Juninho Paulista, Vagner Mancini, Tite, Paulo Autuori e tantos outros, venham, passou da hora de discutirmos um plano de desenvolvimento nacional do futebol, de criarmos regras e licenças para capacitar os novos treinadores, de formar melhor as nossas jovens promessas, de desenvolver ou resgatar o estilo de jogo brasileiro, de proteger as boas práticas de gestão, de punir os infratores, de trazer a família de volta aos estádios de futebol, etc…

Se a CBF não promove esse debate, montemos a nossa Seleção fora dos gramados para desbancar a paralisia da entidade e desatar os nós das amarras políticas que impedem o desenvolvimento, a transparência e a democracia do nosso futebol.

Não os queremos apenas para que deem a cara e tenham a imagem explorada como aconteceu com alguns de nossos companheiros nos últimos anos. Queremos sua experiência, sua paixão pelo esporte, sua alma vencedora e incansável para concretizar mudanças significativas a longo prazo. Acadêmicos, cientistas, estudiosos também são bem vindos, o conhecimento de vocês é fundamental na construção de um novo rumo.

À imprensa e ao torcedor, digo: Não esperem milagres, não acreditem em soluções mágicas como uma simples troca de comissão técnica ou o aparecimento de um novo Neymar. Se o planejamento e o trabalho forem executados por pessoas competentes, apaixonadas e com conhecimento técnico em cada uma das diversas dimensões do futebol, ainda assim, levaremos pelo menos 10 anos para chegar lá. Uma caminhada de mil milhas começa com um simples primeiro passo.

Dilma e Aécio

A presidenta Dilma Rousseff está convocando o Bom Senso FC para uma reunião na sexta-feira da semana que vem para dar prosseguimento à conversa iniciada no último dia 26 de maio, quando se manifestou solidária com o movimento e convencida de que o legado da Copa do Mundo para o futebol brasileiro deve ser a urgente reforma de seus métodos de gestão e a correspondente democratização de suas práticas.

“Agora que temos os estádios, como fazer para mantê-los lotados?”, pergunta a presidenta ao mesmo tempo em que responde: “A grande lição da Copa é a necessidade de reformar o futebol brasileiro”.

Aécio Neves é amigo de José Maria Marin e o homenageou, escondido, no Mineirão. Deu-se mal porque o que escondeu em sua página na internet, Marin mandou publicar na da CBF. Aécio também é velho amigo de baladas de Ricardo Teixeira e acaba de dizer que o país não precisa de uma “Futebras”, coisa que ninguém propôs e que passa ao largo, por exemplo, das propostas do Bom Senso FC.

Uma agência reguladora do Esporte seria bem-vinda e é uma das questões que devem surgir neste momento em que se impõe um amplo debate sobre o futuro de nosso humilhado, depauperado e corrompido futebol. Mas Aécio é amigo de quem o mantém do jeito que está. Não está nem aí para os que reduziram nosso futebol a pó.

*- Este artigo é uma compilação de textos extraídos do Blog do Juca Kfouri.

Em campo, vitória alemã. Nas ruas, autoritarismo

Cerco policial ilegal aos manifestantes. A Nova Democracia/Reprodução

Por Rennan Martins

E então chegamos ao fim da segunda Copa do Mundo ocorrida em nosso país. A taça não veio, ficou com os alemães. O apocalipse da infraestrutura também passou longe, o que se viu em termos de organização é digno de reconhecimento. Os 7 a 1 sofridos no Mineirão entraram pra história, mas o que realmente manchou o quadro foi o aparato policial e judiciário armado pra garantir o evento, que desconheceu o termo legalidade.

Durante todo o desenrolar do torneio ocorreram manifestações das mais diversas pautas, de lemas variando do hostil Não Vai Ter Copa, ao realista Copa Pra Quem? E então tivemos a reação do poder público diante desses atos, que demonstrou todo o seu desgaste e deficit de representatividade quando trataram de criminalizar os cidadãos que vão às ruas com pautas legítimas.

Deixo de lado nesse ensaio o histórico de repressão do evento, já bem documentado e que, sem dúvida, será compilado, para me ater somente aos acontecimentos do final de semana de encerramento. Estes, por si só, são o suficiente pra evidenciar toda a arbitrariedade judiciária e policial que se deram como que orquestradas, objetivando a uma “ordem” benéfica somente aos escolhidos, os que ficaram com os dividendos.

O serviço de encarceramento dos julgados potencialmente perigosos iniciou no sábado, quando a polícia civil deflagrou a operação Firewall II, coordenada pela Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática. Foram expedidos 26 mandados de prisão pela 27ª Vara Criminal, 19 destes foram presos, os outros são considerados foragidos.

Esta operação gerou uma onda imensa de críticas por parte de diversas entidades e intelectuais.

O deputado estadual do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, considerou que essas prisões são “uma derrota da democracia, uma derrota do campo da política e dos direitos”. O jornalista Leonardo Sakamoto ironizou em seu blog, dizendo que instituiu-se a divisão de pré-crimes na polícia civil, esta só retratada no filme de ficção futurista, Minority Report. O também jornalista e ex-preso político Cid Benjamin, recordou-se das arbitrariedades da ditadura com estes fatos.

O juiz João Batista Damasceno, integrante da Associação Juízes para a Democracia (AJD) posicionou-se sobre o caso, para ele “Violou-se o direito constitucional de liberdade de manifestação do pensamento e direito de reunião.” Disse ainda que “não há como defender a legalidade de tais prisões”.

A Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ apresentou ontem (13) o pedido de soltura dos presos. Marcelo Chalréo, seu presidente, declarou que “É um escândalo o chefe da polícia civil (delegado Fernando Veloso) corroborar com esse tipo de ação de seus subordinados. Não há provas de que eles formam uma quadrilha armada. Trata-se, nitidamente, de uma prisão política”.

A Anistia Internacional, por sua vez, publicou nota definindo a situação como “preocupante por parecer repetir um padrão de intimidação que já havia sido identificado pela organização antes do início do mundial.”

Os acusados permanecem sob prisão temporária, contando ainda com o vergonhoso, mas já não surpreendente, silêncio da grande mídia.

Passemos então pro ato ocorrido ontem na Praça Saens Pena, centro da capital carioca, também recheado de exemplos de desrespeito ao Estado de Direito. Tratou-se de uma verdadeira aula de abuso de autoridade e violação de direitos por parte da polícia militar.

O sindicato de jornalistas do estado registrou ontem que 12 profissionais de mídia sofreram violência por parte dos agentes públicos de “segurança”. As agressões variaram de cacetadas, passando por quebra de equipamentos de trabalho, chegando até mesmo ao uso de spray de pimenta nos olhos a curta distância.

Mídia NINJA/Reprodução

O Jornal A Nova Democracia noticia que “Dezenas de pessoas ficaram feridas e seis foram presas. As lentes de AND registraram toda ordem de abusos cometidos por policiais: agressões, linchamentos, roubos, bombas de gás e efeito moral sendo atiradas a esmo, tiros de bala de borracha”.

Alguns dos abusos podem ser vistos no vídeo abaixo:

Como se não bastasse, ao final do ato cerca de 400 ativistas remanescentes foram cercados pelos mesmos policiais. Esta medida constitui violação grave a direitos e liberdades garantidas por lei.

Essa escalada de autoritarismo que temos testemunhado desde junho do ano passado põe em cheque a própria democracia que voltamos a construir há nem três décadas. Necessário é que todos os que possuem compromisso com estes valores políticos, independente de eventuais diferenças, se unam pra garantir direitos e liberdades para além da letra morta.

Futebol: A queda de uma superpotência

Por Pepe Escobar, via facebook

Sei que não tem importância alguma. Israel está bombardeando Gaza, Kiev está bombardeando a Ucrânia do leste, o Califa anda por aí totalmente pirado, o Império do Caos joga rouba-monte. Mas, agora, tenho de desabafar.

Estava guardando essa foto para o momento certo. É hoje. Conheçam um paraíso tropical clássico – Santo André, na Bahia, perto do local onde o Brasil foi ‘descoberto’ pela Europa em 1500.

Eu também estava aí no início da Copa do Mundo, na casa de Anna, minha amiga e anfitriã generosa. O campo de treino dos alemães – de fato, um condomínio de casas de veraneio – foi vedado e adaptado com perfeição. Mas os jogadores visitavam a vila, visitaram a escola local, dançaram com índios pataxó, andavam pela praia ao raiar do dia. E treinaram MUITO. Disciplina, compromisso, trabalho decente – e curtindo cada minuto desse apaixonante canto do paraíso. Foi aí que os já famosos/infames 7-1 da demolição do futebol brasileiro começaram.

O time do Brasil, entrementes, estrelava um convulsionante, lacrimoso (literalmente) psicodrama enlouquecido que envolveu 200 milhões de pessoas. Foi como uma telenovela abismal – NENHUM trabalho decente ou disciplina; só Plim-Plim e um doentio sentimento de posse: ‘é nossa’ (a taça). Tinha de ser deles, porque, afinal, o principal mito nacional brasileiro ensina que “Deus é brasileiro”.

Como parábola da globalização, muito antes da Copa, o Brasil – que um dia foi superpotência futebolística – já havia sido reduzido, por níveis concêntricos de má administração, a um papel subalterno de exportador de matéria prima (jogadores de talento, por exemplo). Nem uma linha de qualquer ideia de investir no futuro; tudo sempre se tratou de lucrativos ‘direitos’ de transmissão por televisão, reservados sempre, como privilégio, só a algumas redes.

A Alemanha, por outro lado, desde que perdeu a Copa do Mundo de 2002 (para o Brasil), passou a investir em vasta rede de escolas de futebol, parte de um programa nacional de fomentar o surgimento de talentos e dar-lhes educação e formação. E de preparar técnicos.

Três horas antes do início da humilhação dos 7-1, meu barbeiro pediu-me um palpite para o jogo. “Alemanha 4 a zero”, mandei eu. Todos ficaram boquiabertos. Ora, ora… Viajei da Ásia, depois da Europa, para cobrir a Copa do Mundo aqui, como se estivesse cobrindo uma guerra. E o que de início era só desconfiança confirmou-se, quando começou a desenrolar-se o psicodrama envolvendo 200 milhões de pessoas.

Todos os sinais indicavam que ‘o grupo’, um bando de jovens milionários psicologicamente instáveis estava a ponto de explodir espetacularmente. Já haviam ameaçado explodir no jogo contra o Chile; depois novamente no jogo contra a Colômbia. Até que finalmente aconteceu durante 6 minutos, enquanto a Alemanha fazia quatro gols – e, aos 29 minutos, já ganhava por 5-0.

Surpresa? Não, de fato, não. O Brasil já deixou há muito tempo de jogar “jogo bonito”, depois daquele fabuloso 1970, e, depois, do mais bonito ainda, que jamais venceu coisa alguma, em 1982. Depois daquilo, o Brasil, lar do jogo bonito, virou mais um mito – um elaborado truque de marketing (com ‘uma mãozinha’ da Nike).

E os brasileiros gostaram da autoenganação, enrolados numa grife de nacionalismo perenemente barata tipo “We Are the Champions.” Deu no que deu. A Alemanha fez a coisa certa – “jogo bonito” de verdade, com passes cintilantes, acabamento perfeito, triangulação elegantíssima, padrão Chicago Bulls dos seus dias de glória.

O time dos brasileiros entrou em colapso nervoso, antes de tudo, por razões táticas/técnicas; foi time sem meio campo, jogando contra o melhor meio de campo do planeta. Culpa dos cartolas, da federação brasileira de futebol, da “comissão técnica” que indicaram – bando de ignorantões arrogantes sem talento, que reproduz, igualzinho, sem tirar nem pôr, a arrogância/ignorância das elites políticas e econômicas brasileiras, velhas e novas. Assim como a polícia brasileira, bem ironicamente, desmantelou uma gangue de gente da FIFA que vendia ingressos no mercado negro no Rio de Janeiro (a Scotland Yard nem desconfiava!), mais uma vez deixaram passar a outra gangue – que enche os corredores e os gabinetes do futebol brasileiro.

Haverá infindáveis reverberações políticas sobre esses 7-1 arrasadores. Vai muito além dos endinheirados brasileiros que podem pagar ingressos a preços FIFA e, simultaneamente, desprezam a presidenta Dilma pelo que gasta para melhorar as condições de bem-estar social. Com certeza tem a ver com pagar a conta da funfest da própria FIFA ($4 bilhões, sem impostos) pagos pelos locais, para nem falar da conta total (espantosíssimos $13,6 bilhões). (…)

A maior humilhação esportiva global na memória do mundo ESTÁ diretamente relacionada à síndrome da ignorância/arrogância das elites brasileiras e ao senso de “já ganhou”/“nunca perderá”.

Ao mesmo tempo, ninguém pode aspirar a tornar-se “superpotência” quando sua autoidentidade é construída em torno de um esporte – o futebol – comandado por escroques. Os deuses do futebol decidiram encerrar o psicodrama dos 200 milhões em campo. Lamento pelos derrotados – a maioria daqueles 200 milhões de torcedores, muitos dos quais gente boa e trabalhadora, porque foram engambelados.

O Brasil pode beneficiar-se de quantidades ilimitadas de soft power em todo o mundo, mas vocês têm de se livrar dessa sua elite corrupta e ineficiente. Se o futebol continua a ser o único elemento que mantém coeso o país, melhor começar a pensar sério, compreender de onde brotou a humilhação, livrar-se para sempre desses salafrários autopromovidos a sumidades, mostrar muita humildade e trabalhar DE VERDADE. Examinem em detalhe o que fez a Alemanha – e vocês reencontrarão o paraíso.

Tradução: Vila Vudu