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Para nova geração, lugar de política é no Facebook

Por Marina Demartini | Via Exame

Jovem usando o Facebook: segundo a pesquisa, os millennials confiam mais na rede social para encontrar notícias sobre política

São Paulo – Muitos acreditam que os jovens perderam o interesse na política. Uma pesquisa do Centro de Pesquisas Pew revelou que os millennials (pessoas nascidas entre 1981 e 1996) continuam buscando informações sobre o tema. Porém, para obtê-las, eles usam o Facebook em vez da TV.

pesquisa “Millennials e as Notícias Políticas” perguntou para os norte-americanos que fazem parte dessa geração (e têm acesso online) sobre seus hábitos de consumo de notícias.

Segundo o estudo do Pew, 61% dos jovens millennials leem notícias sobre política e governo no Facebook. Apenas 37% dos entrevistados obtêm informações sobre o assunto em canais de TV.

Já no caso dos Baby Boomers (indivíduos nascidos entre 1946 e 1964), a estatística teve um resultado inverso. Cerca de 60% deles leem, assistem ou ouvem notícias políticas em canais de TV, enquanto 39% recebem informações políticas no Facebook.

Tudo bem, os millennials estão realmente menos interessados em política, segundo a pesquisa. Além disso, eles estão menos familiarizados com fontes de notícias específicas.

Contudo, apesar dessa lacuna, os jovens da geração millennial consumem muitas notícias políticas no Facebook. Cerca de um quarto (24%) dos millennials que usam Facebook dizem que pelo menos metade dos posts em suas linhas do tempo são sobre política.

Enquanto isso, poucos adultos das gerações X (18%) e Baby Boomers (16%) veem publicações sobre política na rede social de Mark Zuckerberg.

“Os dados sugerem que as gerações mais jovens e mais velhas adotam maneiras diferentes para se manterem informadas sobre notícias políticas”, escreveram os autores Amy Mitchell, Jeffrey Gottfried e Katerina Eva Matsa em artigo no site do Centro de Pesquisas.

Eles ainda adicionaram que “essas diferenças terão um grande impacto nas eleições norte-americanas de 2016″.

A corrupção eternamente impune

Por Rennan Martins | Vila Velha, 29/05/2015

O timing e as coincidências em torno dos escândalos de corrupção sugerem que há uma coordenação por trás deles que visa favorecer uma agenda específica de interesses geopolíticos. A sabotagem está travestida de justiça?

Vigilância é liberdade

É intrigante, deveras conveniente o timing no qual os escândalos de corrupção têm estourado nos últimos tempos. Ainda mais estranhado ficamos ao notar os beneficiários diretos destes, interrelacionando-os com alguns fatos amplamente publicizados, mas pouco lembrados pelos comentaristas e críticos de uma imprensa cada dia mais submissa a interesses econômicos e geopolíticos.

O primeiro dos escândalos – impune e talvez chave para compreensão da sincronia no qual são expostos os outros – é o que veio à tona por meio ex-analista da CIA, Edward Snowden. Em 2013, o mundo inteiro descobriu, perplexo, que o Big Brother saiu do romance de Orwell e existe na realidade, encarnado na National Security Agency (NSA). A agência em questão opera um esquema de ciberespionagem massiva que monitora as comunicações de inúmeros políticos, grandes empresas e até mesmo cidadãos comuns. O aparato tinha como justificativa a segurança nacional, mas serviu a interesses comerciais e geopolíticos. Um levantamento do Washington Post baseado em de 160 mil e-mails e mensagens de chats de mais de 11 mil contas de internet descobriu que nada menos que 90% dos vigiados constituem pessoas comuns. Ou seja, no momento que lês esse artigo, caro leitor, talvez estejas sendo bisbilhotado.

No Brasil, não podemos deixar de notar como a Operação Lava Jato se deu justamente no contexto consolidação do pré-sal como reserva altamente produtiva, e da Petrobras no posto de operadora única desses recursos. A prática do superfaturamento, ou “overprice”, é velha conhecida do mundo executivo. Empreiteiras das mais variadas nacionalidades corrompem políticos largamente financiados por interesses corporativos. E eis que, justamente no ano em que se contrapuseram candidaturas presidenciais com propostas divergentes para o pré-sal, uma de entrega pura e simples por meio das concessões, a outra de desenvolvimento e relativa soberania, caso da partilha, é que explodiram as revelações de práticas espúrias na estatal e parceiros comerciais. Que coincidência agradável para os “investidores” e o “mercado”.

Os beneficiários dessa crise já colhem seus frutos. Empreiteiras estrangeiras tomam o lugar das nacionais nos contratos com a Petrobras, a nova gestão encabeçada por Bendine planeja a venda de ativos com intermédio de bancos norte-americanos, e no Congresso Nacional pululam projetos de retrocesso que visam “flexibilizar” a lei do pré-sal, abrindo espaço para operadores de fora. Ora, considerando que os desvios na estatal ocorriam desde no mínimo 98, conforme assegurou o delator e diretor Pedro Barusco, por que razão nossos parceiros do norte não nos alertaram? Sim, se são os líderes excepcionais e baluartes da transparência e democracia, poderiam ter informado o Brasil, já que espionaram a presidente Dilma, seus assessores e a própria Petrobras durante bom tempo, e provavelmente ainda o fazem.

Essa semana foi a vez da FIFA, também sabidamente mafiosa, sofrer intervenção do FBI, que ordenou a prisão de sete executivos da entidade que estavam reunidos em Zurique, Suíça. O contexto desse escândalo impressiona. As prisões se deram justamente na semana das eleições para a presidência do órgão, onde se esperava reeleição tranquila de Joseph Blatter. Os ventos mudaram, providencialmente, e agora o adversário de Blatter, o príncipe da Jordânia Ali bin Al-Hussein, tem chances de chegar ao segundo turno.

Outro ponto interessante é que a Rússia – com quem os EUA vive uma escalada de tensão desde o golpe de Estado na Ucrânia – será a próxima anfitriã da Copa do Mundo, tendo em Blatter grande entusiasta. Nem bem ocorreram as prisões e as lideranças ianques iniciaram sua agenda. Os senadores Robert Menendez e John McCain pediram o afastamento de Blatter e a revisão da sede do evento para 2018, dizendo que “Ao permitirem que (a Rússia) receba a competição, vão oferecer um salva-vidas econômico que contraria as sanções multilaterais impostas pela comunidade internacional”. Outra coincidência, vejam só, é o apoio da Europa, EUA, Austrália, entre outros “parceiros”, a Ali bin Al-Hussein.

Aos que duvidam e pensam se tratar de teoria da conspiração, temos as palavras do professor John Shulman, formado em direito na Universidade de Harvard, especialista em mediação e negociações e cofundador do Centro para a Negociação e a Justiça dos EUA. Na visão dele o acontecido significa “os EUA mobilizando seu aparato legal interno em prol de questões geopolíticas. No caso, para colocar pressão na Rússia (sede da Copa de 2018), com quem o país tem tido problemas recentemente, e no Qatar (sede da Copa de 2022), onde também existem questões geopolíticas”, acrescentando que “É claro que a FIFA é corrupta. Todo mundo sabe disso. Mas os EUA não estão fazendo isso pelo bem do futebol”.

Por fim, fica evidente que está longe de ser justiça o que se pretende tanto para a Petrobras quanto para a FIFA. Os fatos, quando contextualizados, dão sérios indícios de que os serviços de inteligência norte-americanos usam de informações ilegalmente obtidas para promover a agenda da Casa Branca e das castas oligárquicas a ela alinhadas.

Carta em defesa do Brasil, da Democracia e do Trabalho

Via Carta Maior

O Fórum 21, organização da sociedade civil constituída em dezembro de 2014, organizou uma Carta em defesa de temas caros a todos nós. A comissão final de redação foi formada por Luiz Gonzaga Belluzzo, Ladislau Dowbor, Leda Paulani, Reginaldo Moraes e por Pedro Paulo Zahluth Bastos. A Carta tem apoio dos movimentos sociais abaixo listados que também apoiaram o manifesto lido no Senado Federal na semana do dia 18 de maio de 2015 pelo senador Lindberg Farias. A Carta amplia os temas do manifesto para discutir outras reformas populares e conclama as forças de esquerda para formar uma frente para defendê-las. Clique aqui para assiná-la.

O pacto político e social da Constituição de 88 está sob um ataque de exceção. Contra a política, contra os partidos, especialmente do campo da esquerda, contra os movimentos sociais.

Este ataque representa a maior ofensiva organizada pelas forças políticas da direita e pelo oligopólio da mídia conservadora, desde 1968.

A luta contra a corrupção, que deveria atingir de forma indistinta e igual quem viola a legalidade e desmoraliza a política e o Estado, está sendo instrumentalizada por setores conservadores e foi colocada a serviço de um projeto autoritário de restauração de uma democracia restrita e de redução das funções públicas do Estado.

Parte da direita não hesita em clamar pela intervenção militar, como se o Brasil fosse uma república bananeira, e as nossas forças armadas fossem feitoras dos interesses do capital financeiro. Promovem a contra-reforma política para manter o financiamento empresarial de campanhas eleitorais e partidos políticos e buscam terceirizar o Banco Central, pretendendo sua “independência” em relação ao Estado e sua submissão total à especulação globalizada.

Agendam a redução da maioridade penal e organizam ataques às conquistas das mulheres, negros e homossexuais. Incitam o ativismo judicial seletivo, antidemocrático, para desestabilizar o pacto político de 1988.

A direita e o grande empresariado promovem agora uma reforma penosa aos trabalhadores, para universalizar a terceirização, com um ataque severo às conquistas laborais do século passado. Aprovada, terá como efeito mais grave maior precarização das relações de trabalho e a redução de salários.

- A democracia: reforma política e dos meios de comunicação

No Brasil, a luta pela democratização da política assume, hoje, duas formas principais.
Primeiro, a luta contra o financiamento empresarial de campanhas eleitorais e dos partidos políticos.
Segundo, a luta contra o controle plutocrático dos meios de comunicação, desrespeitando dispositivo constitucional que veda o monopólio e oligopólio.

Contra a decadência do sistema político, as esquerdas e as forças comprometidas com a democracia e com o avanço social precisam se unir em torno da reforma política e pela democratização dos meios de comunicação.

Unir-se pela verdadeira liberdade de imprensa, que implica no direito à livre circulação da opinião, normalmente censurada pelos oligopólios, e pela transparência e democratização das concessões para rádios e TVs, que hoje são feitas no subsolo da política nacional.

As duas reformas são fundamentais para controlar o papel que o dinheiro exerce como agente corruptor da democracia.

No que concerne à reforma política, o principal mecanismo de democratização de campanhas eleitorais e prevenção contra a corrupção é o bloqueio do financiamento empresarial de campanhas e partidos políticos.

No que tange à reforma dos meios de comunicação, para limitar o poder do dinheiro é necessário limitar a propriedade e o controle, em uma mesma área, de órgãos de comunicação controlados por um mesmo grupo empresarial.

O controle de grupos milionários e de políticos sem escrúpulos sobre meios de comunicação confere vantagens políticas que pervertem a cláusula democrática e deformam as eleições.

A agenda destas reformas nos unifica, imediatamente, no seguinte: a) proibição do financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais por empresas; b) a limitação do número de veículos de comunicação, por grupo empresarial, em uma mesma área geográfica.

- A democratização do desenvolvimento econômico e a rejeição da austeridade

Apesar da crise global, os defensores do projeto neoliberal não desanimam na defesa dessa utopia direitista e dos interesses que ela atende.

Seu ataque quer atingir o que diferenciou, no mundo, o desenvolvimento brasileiro na última década: a expansão de salários e direitos sociais; a formação de um mercado interno ampliado pelo aumento do consumo popular; a recuperação de alguma capacidade de planejamento estatal; a rejeição do projeto de integração subordinada à globalização neoliberal.

A direita emparedou o Governo da Presidenta Dilma Rousseff em função da dominação que o dinheiro exerce na formação da opinião, por meio dos oligopólios da mídia, aproveitando os erros cometidos na formação dos preços públicos, na manutenção de alguns subsídios, combinados com a elevação das taxas de juros e a retração do investimento público.

Todo ajuste ortodoxo de corte neoliberal se assenta em dois pilares: juros elevados e restrições orçamentárias para investimentos em infraestrutura e para programas de combate às desigualdades sociais e regionais.

O “ajuste” ? como proposto no Brasil – não toca nas desigualdades de patrimônio e renda, penaliza principalmente os trabalhadores e camadas sociais vulneráveis, fragiliza as forças progressistas diante do avanço das forças conservadoras.

O nosso “ajuste” deve ser outro. Deve garantir o crescimento com a ampliação dos investimentos para combater desigualdades sociais, regionais e gargalos produtivos. Deve potencializar um projeto de nação democrática e justa: a democratização da estrutura tributária brasileira é essencial para que o desenvolvimento soberano e inclusivo receba a contribuição dos que podem contribuir mais.
Nesse sentido, o Imposto de Renda deve ser reduzido para trabalhadores e camadas médias, mas majorado, progressivamente, para grandes salários e lucros distribuídos.

A tributação da riqueza acumulada deve contar com Imposto sobre as Grandes Fortunas e Grandes Heranças.

Finalmente, deve ser veementemente repelida a proposta de eliminar a independência do Banco Central em relação aos bancos que deve regular.

Depois do repúdio do povo brasileiro durante a campanha presidencial à proposta de um Banco Central “Independente” (em relação ao governo eleito), reavivá-la no Congresso Nacional é uma atitude que denota um enorme afastamento dos representantes do povo em relação aos interesses da maioria da nação.

A agenda mínima de reformas que nos unifica, imediatamente, quanto ao desenvolvimento, fundamenta-se no seguinte: rejeição da austeridade que é inepta para a retomada do crescimento; redução das taxas de juros; retomada do investimento público; reestruturação imediata do Imposto de Renda, com aumento das alíquotas para os muito ricos; taxação de Grandes Fortunas e Grandes Heranças; programa de largo alcance e qualidade técnica para combater a sonegação de impostos, políticas que devem ser debatidas na cena pública democrática, tanto no Parlamento como na relação direta do Governo com a sociedade.

- Participação direta da cidadania nas decisões sobre políticas públicas

A Constituição Brasileira abre a possibilidade de participação direta da cidadania (art. 14) e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101/1999) recomenda que os governos procedam discussões públicas sobre o Orçamento.

Esses preceitos ainda não se materializam em instituições e práticas efetivas. Consultas públicas, plebiscitos e referendos não devem ser eventos raros em uma democracia ampliada.

É necessário construir mecanismos que efetivem a participação direta e desenvolvam a democracia na definição de políticas públicas, prioridades orçamentárias e formas de financiá-las que ampliem a justiça social.

- Pela defesa da democracia, do trabalho e da soberania nacional

Diante do avanço da direita, é necessário pensar hoje não apenas na estabilidade e na governabilidade democrática, mas na defesa de um programa mínimo que unifique as forças sociais comprometidas com a defesa da democracia, do trabalho e da soberania nacional.

Para construir, debater e defender esse programa, é fundamental a constituição gradual de uma Frente Democrática pelas Reformas Populares. Uma Frente que aponte, nos processos eleitorais e nas lutas sociais, para uma nova governabilidade com base programática.

A formação desta Frente é uma tarefa política de toda a esquerda, com participação ampla da sociedade civil não organizada em partidos e membros de partidos.

Lutamos há décadas pela democracia contra as mesmas forças do atraso que, hoje, querem voltar a limitá-la. Lutemos em conjunto para que a democracia brasileira supere a nova ameaça reacionária, e atenda progressivamente aos anseios do povo brasileiro por menores desigualdades, mais direitos e oportunidades de vida digna.

Se concordar com seus termos, por favor subscreva este documento por meio da Petição Pública.

ENTIDADES:

Adere (Articulação dos Empregados Rurais de Estado de Mg)
Associação de Mulheres de Viamão Maria Quitéria – Presidenta: Joice Dutra
CUT Nacional – Central Única dos Trabalhadores – Executiva Nacional
Coletivo Brasil de Comunicação Social Intervozes
Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé
Consulta Popular
Federação das Mulheres Gaúchas – FMG – Presidenta: Adriana Damasceno
Feremg (Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de Minas Gerais
Levante Popular da Juventude
Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo –MTC
MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
Nação Hip Hop Brasil
Observatório da Mulher
Sindicato dos Assalariados Rurais da Região Sul De Minas Gerais
Sindicato dos Assalariados Rurais de Conceição Do Rio Verde Mg
Sindicato dos Assalariados Rurais de Guapé
Sindicato dos Assalariados Rurais de Tres Corações Mg
Sindicato dos Assalariados Rurais e Eloi Mendes
Sindicatos dos Assalariados Rurais de Carmo de Minas
UNE – União Nacional dos Estudantes

ASSINAM ESTE DOCUMENTO:

Alfredo Saad Filho – Professor Associado – Universidade de Londres; ex- Senior Economics Affairs Officer da UNCTAD (ONU)
André Vitor Singer – Professor Associado – USP
Boaventura de Souza Santos – Centro de Estudos Sociais (Universidade de Coimbra) e University of Wisconsin-Madison
Emir Sader – Prof. da UFRJ, UERJ e USP
Fábio Konder Comparato – Advogado, escritor e jurista
Jorge Mattoso – Professor Doutor da UNICAMP; ex-presidente da Caixa Econômica Federal
José de Felippi Jr – Secretário Municipal da cidade de São Paulo
Juarez Tavares – Jurista, Prof. Titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Professor visitante da Universidade de Frankfurt
Ladislau Dowbor – Professor Titular – PUC
Leda Paulani – Professora Titular – USP; ex-Presidenta da Sociedade Brasileira de Economia Política
Leonardo Avritzer – Professor Titular da UFMG, ex-presidente da Associação Brasileira de Ciência Política
Lindbergh Farias – Senador (PT-RJ)
Luis Carlos Bresser-Pereira – Ex-Ministro da Fazenda, da Administração Federal e Reforma do estado, e de Ciência e Tecnologia, Professor da FGV-SP
Luiz Gonzaga Belluzzo – Professor Titular – UNICAMP
Marcio Pochmann – Professor Titular – UNICAMP; presidente da Fundação Perseu Abramo; Ex-Presidente do IPEA
Niemeyer Almeida Filho – Professor Titular – Universidade Federal de Uberlândia – Presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política
Paulo Pimenta – Deputado Federal, Presidente da Comissão de Direitos Humanos
Paulo Teixeira – Deputado Federal do PT
Pedro Paulo Zahluth Bastos – Professor Associado – UNICAMP, ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica
Pedro Estevam Serrano – Professor da PUC/SP
Randolfe Rodrigues – Senador pelo PSOL-AP
Reginaldo Moraes – Professor Titular UNICAMP e Fundação Perseu Abramo
Rosa Maria Marques – Professora Titular – PUC – SP
Samuel Pinheiro Guimarães – ex-Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, ex-secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores
Sebastião Velasco e Cruz – Professor Titular – UNICAMP
Tarso Genro – Ex-governador – RS, Ex-ministro da Educação, da Justiça e das Relações Institucionais
Vagner Freitas – Presidente da CUT Nacional
Vanessa Petrelli Corrêa – Professora Titular – Universidade Federal de Uberlândia; Ex-Presidenta do IPEA
Virgínia Barros – Presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE)
Wadih Damous – deputado federal PT/RJ e ex presidente da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro

Aderbal Farias Magalhães – Professor aposentado UNICAMP
Airton Paschoa – Escritor
Altamiro Borges – Centro de Estudos Barão de Itararé
André Biancarelli – Professor Doutor – UNICAMP
Andrei Koern – USP
Antonio Lassance – Cientista Político
Breno Altman – Jornalista
Camilo Vannuchi – Jornalista
Carlos Punkusfeld – Professor da UFRJ
Celio Hiratuka – Professor Doutor – UNICAMP
Célio Turino – Historiador e escritor
Edson Aparecido da Silva – Sociólogo
Esther Bermerguy de Albuquerque – Consultora
Eva Gonçalves Magalhães – Professora aposentada da UNICAMP
Fábio Sá e Silva – research fellow, Harvard Law School
Fernando Augusto Mansor de Mattos – Professor Doutor – UFF
Flavio Wolf Aguiar – Escritor, Prof. aposentado da USP
Gonzalo Berron – Cientista Político
Ivana Jinkings – Diretora da Boitempo
Jean Tible – Professor da USP
João Feres Junior – Editor do Manchetômetro e prof. da UERJ
Joaquim Ernesto Palhares – Jornalista
José Augusto Valente – Especialista em Logística e Transporte
José Luiz Del Roio – Militante Político
Laurindo Leal Filho – USP
Laymert Garcia dos Santos – Prof. da USP
Léa Maria Reis – Jornalista
Leneide Duarte-Plon – Jornalista
Luiz Alexandre Lara – Arquiteto Urbanista
Luiz Renato Martins – ECA-USP
Magda Barros Biavaschi – Desembargadora aposentada do TRT4
Marcos Aarão Reis – Jornalista
Mari Perusso – coordenadora bancada estadual PT –RS
Maria Goretti Nagime Baros Costa – Advogada
Maria Inês Nassif – Jornalista
Maria Luiza Flores da Cunha Bierrenbach – Procuradora do Estado de SP
Maria Marta Azzolini – Psicanalista
Maria Rita Bicalho Kehl – Psicanalista, jornalista, ensaísta, poetisa e crítica literária
Maria Rita Garcia Loureiro – FGV/SP
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima – Prof. Titular na UFC
Nilce Aravecchia Botas – Prof. da FAU USP
Ofélia Lopes – Prof. Aposentada Jorge Luiz Souto Maior – Professor Faculdade Direito USP
Pedro Rossi – UNICAMP
Rachael Moreno – Consultora
Reginaldo Mattar Nasser – Chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP e Prof. do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP)
Ricardo Musse – Prof. da USP
Rodrigo Vianna – Jornalista
Rubem Leão Rego – UNICAMP
Sonia Irene Silva do Carmo – Professora universitária aposentada
Valdizar Pinto do Carmo – Jornalista aposentado
Waldir Quadros – Ex-Professor da UNICAMP – Atual Coordenador do curso de Relações Internacionais – FACAMP
Walquiria Leão Rego – UNICAMP

Uma empresa, dois jornais. Um abismo

Por Sylvia Debossan Moretzsohn | Via Observatório da Imprensa

Quem pensa que os jornais produzidos por uma mesma empresa falam sempre a mesma língua, diferindo apenas na linguagem adotada de acordo com o seu “público-alvo”, teve uma surpresa diante do abismo entre O Globo e o Extra na cobertura do assassinato do médico Jaime Gold, que pedalava pela Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais do Rio, no início da noite de terça-feira (19/5). Sobretudo porque, no mesmo dia, dois jovens – um adolescente de 13 e um rapaz de 24 – foram assassinados durante uma operação da Polícia Civil no morro do Dendê, na Ilha do Governador. O médico morreria na madrugada seguinte, depois de horas na mesa de cirurgia.

Na quinta-feira (21/5), O Globo destacava na primeira página o “crime na Lagoa” e a “tragédia anunciada”, dedicando-lhe nada menos do que cinco páginas internas. A suíte das mortes no Dendê mereceram apenas duas colunas espremidas no meio de outra página interna, ainda assim assinadas – como na véspera – por um repórter do Extra.

No mesmo dia, o Extra fez bem diferente: expôs no alto da primeira página o “crime bárbaro na Lagoa”, mas destacou o apelo: “Só não se esqueçam de Gilson e Wanderson”, os dois rapazes mortos. Logo abaixo, justificou: “Como em qualquer lugar do mundo, crimes em pontos turísticos têm maior repercussão. Mas, no Dendê, mães choram mortes de seus filhos em ação da polícia e esperam que caso não caia no esquecimento”. A justificativa servia também para descartar, de maneira sucinta e didática, a eterna discussão sobre o valor da vida – e, consequentemente, da morte – conforme a região geográfica e o status social.

No dia seguinte, o abismo continuou: enquanto O Globo anunciava a prisão de um adolescente suspeito de matar o médico, enfatizava a sua ficha corrida (“16 anos e 15 crimes”), retomava, em editorial, a carga a favor da redução da maioridade penal e publicava uma charge que chegava ao cúmulo de comparar os ciclistas na Lagoa aos prisioneiros do Estado Islâmico, o Extra escancarava a manchete: “Sem família, sem escola”, apontando as “duas tragédias antes da tragédia”. O texto-legenda abaixo da foto, que ocupa metade da página e mostra o garoto conduzido por policiais, fala das 15 passagens pela polícia, da ausência do pai, da mãe, catadora de latas, indiciada por deixar o filho com fome na rua, e do abandono da escola.

Curiosamente, a reportagem do Globo ia no mesmo sentido de apontar a trajetória de transformação “da criança pobre em suspeito de um brutal assassinato”, mas a edição sugeria o contrário: parecia que a “escalada da crueldade” destacada na manchete da página interna dizia respeito à escolha do rapaz pelo mundo do crime.

No sábado (23/5), o Extra voltava a destacar na primeira página o caso da “tragédia antes da tragédia”, para tratar da situação da escola onde o rapaz estudava. Logo abaixo, noticiava o corte de verbas para a educação. No dia seguinte, sem o mesmo destaque, mostrava que 95% dos jovens infratores não haviam completado o ensino fundamental e citava o crescimento do número de apreendidos: 8.380 durante o ano passado, segundo o Instituto de Segurança Pública, “uma média de 23 por dia”. Um índice que tende a crescer: se “nos quatro primeiros meses do ano passado, 2.445 menores foram detidos, neste ano o número chega a 3.141 – um aumento de 28%”.

Enquanto isso, no mesmo dia, O Globo recorria a “especialistas” para tentar traçar o perfil psicológico desse tipo de criminoso e destacava a fala de uma psicóloga sobre a “impunidade”, ignorando os números divulgados pelo Extra. No dia seguinte (segunda, 25/5), destacava mais um ataque com faca – uma tentativa de assalto num ônibus –, o oitavo em oito dias, como se vivêssemos uma onda desse tipo de crime, e voltava a incentivar a aprovação do projeto de lei que criminaliza o uso de armas brancas, como se fosse uma medida simples: bastaria pensar em quantas pessoas utilizam facas em situações banais do cotidiano – o vendedor de coco verde, o sujeito que promove um churrasco numa praça –, a não ser que a ideia seja também criminalizar essas atividades.

Já o Extra voltava a investir no selo “A tragédia antes da tragédia” e recuperava a história do menino franzino detido com um colega após roubar um cordão de ouro, em março, e fotografado de costas por um policial, numa delegacia. Dois meses depois, continua fora da escola, cometendo pequenos delitos pelas ruas.

Desagradar o público

Mantive neste artigo o título de minha primeira publicação no Facebook a respeito desse tema por causa do debate que se seguiu: muitos elogiavam a atitude do Extra mas muitos também faziam pouco caso dela, seja porque enxergavam ali algum objetivo oculto – afinal, trata-se de um jornal “da Globo” –, seja porque entendiam que cada publicação se dirigia a seu público, e por isso seria perfeitamente natural a diferença de enfoque.

Sobre a teoria conspiratória, não vale a pena argumentar, inclusive porque é inútil enfrentar convicções, embora sempre valha a pena dizer que as intenções importam muito menos do que o resultado. Mas é necessário desfazer a lógica do outro raciocínio, por dois motivos fundamentais: primeiro, porque um jornal precisa fazer jornalismo, e isso significa frequentemente desagradar o seu público. Se um jornal diz apenas o que seu público quer ouvir, ele o aliena: é preciso apresentar-lhe as contradições da sociedade e não alimentar a ilusão de que é possível viver numa bolha, de que os malfeitores são uma espécie alienígena que vem atacar os cidadãos “de bem” e que basta trancafiá-los – ou exterminá-los – para passarmos a desfrutar de um mundo harmonioso como o de um anúncio de margarina.

Segundo, porque uma olhada nos comentários no site e, principalmente – dado o volume incomensuravelmente maior –, na página do jornal no Facebook seria suficiente para verificar que, se um jornal deve responder às expectativas de seu público, o Extra fez exatamente o contrário. É o que dá o nó nesse raciocínio canônico. Mercadologicamente, seria uma insensatez. Mas, jornalisticamente, era o que precisava ser feito.

A propósito, a entrevista com o diretor de redação do jornal, Octavio Guedes, publicada neste Observatório (ver “‘Jornalismo não é concurso de Miss Simpatia’”), ajuda a esclarecer vários pontos dessa polêmica. Afinal, não é de hoje que o Extra se comporta assim. A perseverar nessa linha, dará uma excelente contribuição para o jornalismo, mas terá embates diários tanto com uma parcela significativa de seu público quanto com a crítica externa, que também recusa a hipótese de discutir questões sociais diante de crimes bárbaros. (Esses, a propósito, devem ter ficado satisfeitos com a reação das nossas autoridades: o prefeito a dizer que “criança, menor, praticando crime é problema de polícia”, num brilhante retorno aos tempos da República Velha, e o secretário de Segurança a afirmar que é inadmissível uma situação dessas num lugar como a Lagoa Rodrigo de Freitas, o que, de tão simplório, dispensa comentários).

Desarmar o ódio de classe

O que o Extra fez foi tentar demonstrar que nada é “simples assim”, como tantos gostam de pensar para se livrar rapidamente de qualquer ameaça de questionamento às suas próprias certezas. Foi tentar lançar luz para além do imediatamente visível e chamar a atenção para a necessidade de compreender como se cultiva a exclusão que, muito previsivelmente, explode em violência. Nem sempre, é claro, porque não há relação automática de causa e efeito: mas justamente por isso é preciso entender que as reações humanas são variadas e, muitas vezes, surpreendentes. Sobretudo na adolescência, sabidamente uma fase extremamente turbulenta para qualquer um.

Daí, aliás, o equívoco do raciocínio no qual a pessoa se toma como referência para o comportamento alheio, no melhor estilo do líder que não pede a seus comandados nada que ele mesmo não seja capaz de fazer, como se todos estivessem em pé de igualdade: “Se eu passei por dificuldades e não roubei nem matei, por que alguém faria isso?”

Seria possível indagar, como fez há muito tempo a juíza Maria Lúcia Karam, “por que os indivíduos despojados de seus direitos básicos, como ocorre com a maioria da população de nosso país, estariam obrigados a respeitar as leis”. Ou lembrar da observação da socióloga Vera Malaguti Batista, também há muito tempo, a respeito da surpresa diante da crueldade de casos como o do ataque na Lagoa: “Por que achar que ‘eles’ se importam conosco? ‘Nós’ não nos importamos com ‘eles’”.

Entender as raízes do ódio de classe – o ódio, não a luta, necessária e incontornável em qualquer sociedade de classes, e que se expressa nas mais variadas formas – é o primeiro passo para desarmá-lo. Por que, então, a rejeição ao debate? Por que confundir a atitude do jornal com uma tentativa de defender, justificar ou vitimizar o agressor?

O outro lado, e mais outro

Entretanto, ao falar nas “duas tragédias antes da tragédia”, o Extra acaba assumindo, implicitamente, que o adolescente detido é de fato culpado: afinal, teria sido ele a provocar a tragédia da morte do médico. Pode ser, mas não há nada mais comum, na rotina policial, do que pegar o primeiro suspeito, ainda mais se tem uma ficha recheada, para exibi-lo e dar uma satisfação rápida ao público, em crimes de grande repercussão. Também as informações sobre a mãe do rapaz, que o teria negligenciado, aparentemente não procedem. O que não retira a força da denúncia sobre a ausência de apoio familiar – afinal uma mulher que sustenta sozinha quatro filhos como catadora de recicláveis enfrenta dificuldades inimagináveis para quem jamais viveu essa situação –, mas altera o julgamento que se pode fazer dessa mãe.

Reportagem da Agência Brasil (24/5, ver aqui) dá essa outra versão, ao finalmente entrevistar Jane Maria da Silva e apresentá-la como uma ativista do Fórum Social de Manguinhos, no dia de lançamento da cartilha “Manguinhos tem fome de direitos”. Um vídeo compartilhado no Facebook, realizado em setembro do ano passado, mostra a participação dela num encontro promovido regularmente pelo pessoal da Fiocruz – no caso específico, para tratar do impacto das obras do PAC na saúde dos moradores, e o que se diz ali, em menos de 20 minutos, sintetiza a enormidade dos problemas a se enfrentar: como tantas carências se conectam, num manancial de pautas que poderia e deveria alimentar a imprensa sensível às questões sociais.

A intervenção de Jane está na altura do décimo minuto do vídeo. É evidentemente a pessoa mais cansada, mais abatida, com mais dificuldade de se expressar, em comparação com a fluência das demais moradoras. Vista hoje, a intervenção dela ganha outro sentido: só agora, diante da prisão de um dos seus filhos, é que podemos entender o peso de sua preocupação com a falta de oportunidade de estudo, trabalho e lazer para os jovens infratores. Porque sofria isso na pele, seu filho era um deles.

De quem é a culpa?

Mas ainda que não fosse assim. Ainda que essa mulher fosse como a mãe do menino Y., de 12 anos, que o Extra levou agora novamente para a primeira página (ver aqui), o menino apreendido há dois meses, que conseguiu se safar de ser encaminhado para um abrigo porque enganou as autoridades dizendo que tinha 6 anos, e convenceu, de tão franzino que era.

Vejamos este trecho da reportagem:

“No dia em que foi detido – e, segundo ele, agredido pelos PMs –, foi liberado após sua mãe ir buscá-lo na delegacia. Dependente química, a mulher, de 26 anos, tem outros dois filhos e acabou de voltar à favela depois da quarta internação em clínicas de reabilitação. O pai de Y. morreu, vítima de tuberculose, há dez anos. Encontrar o menino na casa onde moram seus irmãos, sua mãe e seu avô, um pedreiro de 55 anos, é improvável: às vezes dorme numa quadra de futebol no alto do morro ou nas ruas, outras – como ontem – só chega em casa às 6h, depois de voltar “chapado” do baile funk da favela”.

Pensemos então em como as coisas se reproduzem. Recordemos o quase-monólogo de Anna Magani em Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini:

Sabe por que meu marido, o pai de Ettore, era um canalha? Porque a mãe era agiota e o pai, ladrão.

E por que a mãe era agiota e o pai, ladrão?

Porque o pai da mãe era um carrasco e a mãe da mãe uma mendiga. A mãe do pai, uma cafetina e o pai do pai, um dedo-duro.

Todos miseráveis, eis por quê! Se fossem ricos, seriam pessoas de bem.

E então, de quem é a culpa?

Pasolini tocava como poucos o cerne das questões, com imagens despojadas e eloquentes: Roma, a cidade brilhante lá no fundo, e em primeiro plano a aridez da periferia, os prédios degradados, os campos de terra em que a adolescência desgarrada do pós-guerra jogava bola, fumava, se drogava e se perdia. Também como no iraniano Filhos do paraíso: a tentativa de manter a dignidade na mais absoluta carência, as casas pobres e o pequeno comércio, como se aquela fosse a imagem de Teerã, e de repente o pai resolve buscar trabalho como jardineiro e leva o filho na garupa da bicicleta e começa a pedalar pelo centro de edifícios luminosos de vidro e pelas zonas residenciais de ruas arborizadas e mansões exuberantes. Uma beleza que se torna opressiva pelo contraste com a vida em que tudo é falta.

“Até quando?”, perguntamos, chocados com a morte estúpida na Lagoa. Sim: até quando esse abismo?

***

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007).

‘CBF ainda não compreendeu que a época de ‘calar’ jornalistas já passou’, diz Jamil Chade

Por Matheus Narcizo | Via Portal Imprensa

Correspondente internacional do Estadão, em Genebra, publicou reportagens com documentos que comprovam como a organização teria tornado o futebol canarinho um ‘órgão comercial’.

Pentacampeã mundial e referência quando o assunto é futebol, a seleção brasileira parece ter deixado de lado o esporte para mergulhar de cabeça no mundo do marketing e do comércio envolvendo altas cifras.

Corrupção, desvio de verbas em paraísos fiscais, amistosos ordenados e convocações de atletas única e exclusivamente por seu valor comercial parecem ser alguns sinais de como a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pode ter “vendido a seleção”.

Imprensa falou com o jornalista Jamil Chade, correspondente internacional do Estadão, em Genebra, e que publicou reportagens com documentos que comprovam como a organização teria tornado o futebol canarinho um “órgão comercial”.

Jamil diz que não se intimida com pressões a CBF após revelar contratos.

O acordo

As tratativas entre a CBF e a ISE (Internacional Sports Events), uma empresa de fachada, com sede nas Ilhas Cayman, foram firmadas em 2006, durante o período preparatório da seleção para a Copa da Alemanha, na cidade de Weggis, na Suíça. “O Brasil perdeu a Copa ali, porque a seleção passou a ser utilizada para interesses de grupos privados”, diz Chade.

Até o ano de 2012, a ISE foi responsável por sublicenciar as operações da Kentaro, empresa esportiva que passou a gerenciar todos os amistosos da seleção brasileira. A partir dali, a Kentaro deu lugar à Pitch International na administração dos jogos. “Se o acordo foi feito de forma legal e transparente, por que fazer um contrato com uma empresa que não existe? Por quais motivos entrar em acordo com uma agencia que está alocada em um paraíso fiscal? Estas informações tornam a justificativa da CBF totalmente ilegítimas”, defende.

Apuração e a intimidação da CBF

O processo de apuração das informações, entre as primeiras sondagens e o momento de encontro com a fonte, não foi fácil. Ao todo, foram nove anos de tentativas. “Há um mês recebi uma ligação de uma fonte e nos encontramos em outro país. O documento batia com todas as assinaturas e pude confirmar que era legitimo. O engraçado é que a CBF diz que é transparente com documentos. Ou eu sou um péssimo jornalista, já que fiquei nove anos atrás deste documento, ou ela é que não tem nada de transparente”, ressaltou.

Logo após a publicação da reportagem, a organização futebolística se retificou sobre a matéria e chegou a chamar o jornalista de “mentiroso” e “mal-intencionado”. Para ele, esta é a maneira que a CBF encontra – por meio da intimidação, como ressalta – de tentar calar os repórteres.

“A nota é para intimidar, tirar a legitimidade e o crédito da reportagem. Ela [CBF] deixa bem claro que o ataque é feito diretamente ao repórter. Mas, eu não me sinto intimidado porque sei que o que eu tenho em mãos é legitimo. A CBF ainda não compreendeu que a época de ‘calar’ jornalistas já passou”.

Chade ainda ressalta que a resposta dada pelo órgão é falha e inválida. O repórter também revelou que, além de definir quais jogadores farão parte da seleção – aqueles que tiverem o maior valor comercial – a ISE e a Pitch também tiveram a responsabilidade de definir os adversários brasileiros. “Falei com três emissoras de TV europeias e fui informado que as empresas prometiam que a seleção brasileira jogaria sempre com seus principais atletas”.

Uma situação bastante “interessante”, segundo Chade, aconteceu na partida amistosa entre Brasil e Gabão, em 2011. Na ocasião, Dunga não levou jogadores como Neymar, Ganso, Leandro Damião e Kaká, fato que obrigou a ISE a afirmar que “não suportaria mais o que havia acontecido naquela partida”.

Repercussão fora do Brasil 

Pouco tempo após a publicação da reportagem, o material rende comentários e especulações que vão além da imprensa nacional. “Já dei entrevistas para jornais da Grécia, Finlândia, Inglaterra”.

Chade ainda acredita que o interesse da mídia internacional se relaciona à força da seleção brasileira. “Os veículos estão cobrindo tudo o que podem, por ser a seleção brasileira. Todos perceberam que a equipe se tornou um produto”.

O jornalista crê pouco numa mudança imediata na forma de gestão do esporte no Brasil após a reportagem. Mas, para ele, o jornalismo é crucial para divulgar “perguntas que possam se tornar respostas”.

“A insistência da pergunta traz a resposta. Vivemos um momento onde a imprensa esportiva tem papel fundamental de colocar os caras na parede. Não podemos desistir da seleção e creio que o jornalismo tenha grande papel nisso”

Além da imprensa, Chade acredita que o movimento Bom-Senso, liderado por atletas de futebol brasileiro e que visa uma melhor qualidade no esporte, possa ser também uma chave para o futuro. “O Bom-Senso é o início de uma pressão dos próprios atores do futebol. Se eles conseguirem realizar mudanças, isso seria fundamental”, finaliza.

A virulência na rede digital

Por Luciano Martins Costa | Via Observatório da Imprensa

Se alguém é intolerante na vida social, tende a repetir esse comportamento quando acessa as redes digitais.

O cruzamento de algumas leituras do fim de semana e de segunda-feira (18/5) destaca algumas vozes que refletem certa preocupação com os níveis de hostilidade presentes nas relações sociais digitais.

O Estado de S. Paulo, citando a organização de defesa de direitos humanos Safernet, informa que em 2014 foram registradas 189,2 mil denúncias de crimes e abusos na rede, segundo levantamento feito com a participação do Ministério Público e da Polícia Federal. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o sociólogo Manuel Castells afirma que a internet está expressando um perfil naturalmente agressivo dos brasileiros.

Também pode-se colocar na mesma conta o episódio de que foi vítima o secretário municipal de Saúde de São Paulo e ex-ministro Alexandre Padilha, ocorrido na sexta-feira (15/5). Padilha almoçava com amigos de infância quando um cliente se levantou e, batendo com o garfo numa taça, pediu atenção aos presentes para avisar que ali estava o homem que havia criado o programa Mais Médicos cuja conta, segundo ele, cairia nas cabeças dos brasileiros. Padilha achou por bem não polemizar na ocasião, e depois usou as redes sociais para comentar o que chamou de “inaceitáveis instantes de intolerância”.

Pode-se encontrar algumas convergências e certa diversidade nas três citações da imprensa. A primeira, que se refere à preocupação de empresas e entidades civis com o aumento da agressividade nas redes sociais, aponta para um fenômeno mundial que tem sua versão brasileira associada a questões comuns como o preconceito de raça e de origem, o posicionamento político ou a preferência em termos futebolísticos. Especialistas citados na reportagem afirmam que tem havido uma redução da virulência, com outros sinais de amadurecimento do comportamento virtual.

Já Manuel Castells, que dos anos 2000 a 2006 esteve no topo das citações entre intelectuais que estudam a comunicação, com sua interpretação marxista da vida digital, faz uma projeção de teses que contrastam com a ideia equivocada do “brasileiro cordial”. A frase que a Folha escolheu para dar o título à sua entrevista reduz bastante o alcance de suas declarações: “A imagem mítica do brasileiro simpático existe só no samba”.

Mas a visão do sociólogo sobre o Brasil atual precisa ser discutida.

A fonte da intolerância

A rigor, o que Castells diz na entrevista é uma repetição de certa obviedade que vem afirmando em suas palestras: o fato de que as pessoas refletem na internet a educação que receberam ou desenvolveram. Se alguém é intolerante na vida social, tende a repetir esse comportamento quando acessa as redes digitais.

Ele acredita que a internet apenas amplifica os conflitos entre os brasileiros, que, na sua opinião, sempre foram agressivos: a internet funciona como um espelho, pondera. “A sociedade brasileira não é simpática – é uma sociedade que se mata”, afirmou, observando que a internet amplia os espaços para a expressão de sentimentos que já estão presentes na vida comum. Portanto, se nas relações virtuais “se articulam formas de violência, racismo, sexismo, é porque isso existe na sociedade”, acrescentou.

Mas Castells não acredita que a rivalidade política esteja mais intensa agora, no Brasil, do que foi antes. É nesse ponto que o sociólogo espanhol parece se distanciar da realidade brasileira: a observação diária autoriza a afirmar que o posicionamento partidário da mídia tradicional estimula radicalismos políticos no campo virtual, que se desdobram em outras formas de intolerância. O incidente que constrangeu o ex-ministro da Saúde é apenas uma das muitas manifestações diárias desse fenômeno, que mostra as classes médias urbanas expondo mais agressivamente seus preconceitos e sua visão de mundo reacionária.

Juntando-se aos dois textos o caso do ex-ministro, fica evidente que a sensação de liberdade do suposto anonimato – ou a possibilidade de uma ação incorpórea – nas redes digitais estimula a manifestação da intolerância que já existia nas camadas mais privilegiadas da sociedade brasileira. E, ao contrário do que diz Manuel Castells, essa rivalidade ideológica, estimulada e amplificada pela imprensa, oferece uma justificativa moral para o comportamento de pessoas como o cidadão que manifestou em voz alta, num restaurante, sua ignorância sobre o programa Mais Médicos.

Ao contrário da crença de Manuel Castells, o Brasil é um país conflagrado politicamente. Mas não se pode culpar a internet ou as redes sociais pela virulência que nasce nas redações.

Colunistas pitbulls e articulistas tendenciosos armam o palanque dos analfabetos políticos que esgrimem suas verdades por aí.

Globo: A mentira padrão, o padrão da mentira e o caso Mujica

Via Portal Vermelho

“O trabalho do jornalista é o de separar o joio do trigo. E publicar o joio”. Assim o jornalista e escritor Luis Fernando Veríssimo descreve com ironia o trabalho da imprensa. Esta ironia, no entanto, é expressão da prática jornalística que hoje domina as redações da mídia hegemônica. Partidarizada, sem qualquer compromisso com a isenção e a pluralidade de opiniões, a mídia brasileira tem um mantra que usa como escudo para as suas vilanias: “a defesa da liberdade de expressão”. 

Esta é a mentira padrão. Em nome dela pode-se impunemente excluir qualquer visão que confronte a linha editorial dos barões midiáticos. As matérias e opiniões verdadeiramente independentes, quando chegam a existir, são apenas pequenas e honrosas exceções que na prática tornam-se irrelevantes diante do número de manchetes, colunas e reportagens que seguem fielmente o roteiro conservador e/ou reacionário.

O caso Mujica

Dois jornalistas, Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz, publicaram uma biografia sobre o ex-presidente do Uruguai, José Mujica, intitulada “Una oveja negra al poder”. No livro, que ainda não foi editado em português, existem diversas passagens com elogios ao ex-presidente Lula, confirmando o que Mujica sempre disse sobre Lula em entrevistas e pronunciamentos. No entanto, uma atenta repórter das organizações Globo, Cristina Tardáguila, pinçou uma frase do livro onde Lula diz a Mujica: “Essa era a única forma de governar o Brasil”. Com base nesta frase, Cristina e o Globo divulgaram para todo o Brasil que Lula confessou saber sobre o “mensalão”. A matéria da jornalista a soldo da família Marinho tinha, como se viu logo depois, quase nada de jornalismo e muito de manipulação.

O caso Mujica – o padrão da mentira

Um dos autores do livro desmentiu a reportagem: “Lula estava falando sobre as ‘coisas imorais’ (com as quais teve que lidar como presidente) e não sobre o mensalão. O que Lula transmitiu ao Mujica foi que é difícil governar o Brasil sem conviver com chantagens e ‘coisas imorais’, escreveu Andrés Danza”. Mujica também desmentiu. “Ele me falou das pressões e das chantagens. Mas nada de dinheiro ou de corrupção”, contou Mujica, reafirmando: “nunca conversei com um brasileiro sobre o mensalão”. O Globo publicou o desmentido de Andrés Danza. A primeira matéria, de Cristina Tardáguila, tinha a seguinte
manchete: “Mujica, em livro, relata confissão de Lula sobre mensalão”. A matéria que traz o desmentido de Danza ganhou o título de “Lula diz que teve de lidar com ‘coisas imorais’, relatam uruguaios em livro”. Enquanto no primeiro caso a mentira é o destaque da manchete, o seu desmentido é totalmente subalternizado sendo necessária uma grande dose de paciência para, em meio ao joio, separar o trigo.

O álibi do padrão da mentira

A Globo publica e dá grande divulgação à mentira. Depois, de forma camuflada, também publica o desmentido. É, sem dúvida, uma sofisticação na arte de mentir. Mais ou menos como se o assassino ligasse para a polícia para denunciar o crime, visando com isto ter um álibi. Mas assim como o morto não voltará à vida, a verdade sempre sai muito ferida de uma operação midiática falsa. Ainda mais quando esta operação midiática tem anos de implementação, sempre com o objetivo de colar no governo, no PT e na esquerda a pecha de corrupção.

O ardil do padrão da mentira

Na edição desta segunda-feira (08) do jornal O Globo, o colunista amestrado Ricardo Noblat ignora o desmentido do autor do livro e reafirma a mentira de que Mujica teria feito “a confissão que Lula jamais fizera”. Sobre o desmentido do próprio Mujica, Noblat diz simplesmente que Lula “providenciou um desmentido” e decreta com a arrogância de um guarda da Gestapo: Mujica “não convenceu”. A desfaçatez de um pseudojornalismo que cria, deturpa ou ignora fatos, não é gratuita. O redator destas Notas Vermelhas ouviu nesta segunda-feira, de dois engravatados, entre risos, no aeroporto de Congonhas: “Mujica acabou com o Lula”. A jornalista do Portal Vermelho, Mariana Serafini, estava recentemente no Metrô de São Paulo quando entraram dezenas de professores em greve. Os professores cantaram várias músicas denunciando o governo Alckmin (PSDB). Ao saírem, a população os aplaude. Uma senhora puxa conversa com a jornalista e pergunta o que ela acha da manifestação. Mariana responde que apoia e a senhora comenta: “É isso mesmo, tem que derrubar esta Dilma”.

As consequências do padrão da mentira

Um público já convencido de uma “verdade” criada por uma operação midiática falsa torna-se cada vez mais receptivo às novas mentiras que apenas confirmam a convicção já sedimentada. Aos poucos, a convicção de que alguém e/ou algo é o mal, de tanto ser alimentada, transforma-se em um sentimento de ódio. E com um sentimento de ódio dificilmente consegue-se dialogar, pois pouco espaço resta para a razão. Assim, pessoas acreditam (segundo pesquisa da USP) que o PT trouxe 50 mil haitianos para votarem na Dilma, que o filho do Lula é dono da Friboi, que se antes ninguém era preso no Brasil por corrupção é por que a corrupção começou com o PT, entre outros tantos absurdos que ganham cada vez mais corpo diante de um governo que, perante esta ofensiva, parece optar pela tática suicida da conciliação com a máfia midiática.