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TJ condena ‘O Globo’ a indenizar ex-chefe de Polícia do RJ por danos morais

Via Portal Imprensa

A 16ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) condenou o jornal O Globo a indenizar o ex-chefe da Polícia Civil fluminense e deputado estadual pelo PMDB, Álvaro Lins, que teve o mandato cassado.

De acordo com o ConJur, em agosto de 2008 o jornal publicou a notícia “PF investiga se Álvaro Lins Chantageia Picciani”. A reportagem usou como base um suposto relatório da Polícia Federal (PF) no qual dizia que Lins ameaçou vazar um crime atribuído ao presidente da Alerj no passado, caso perdesse o mandato.

Investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) na operação “segurança pública S/A”, que desarticulou uma quadrilha que atuava na Secretaria de Segurança Pública do RJ, o deputado foi submetido a um processo disciplinar no Conselho de Ética da Assembleia Legislativa.

Lins argumentou que a matéria “transmitiu aos leitores a ideia de que teria conhecimento sobre um mandado de prisão expedido contra o presidente da Alerj em 1990, pela 1ª Vara Criminal de Rondorápolis (MT), e que estaria se valendo dessa informação sigilosa para chantagear o então presidente da Alerj para ter alguma vantagem no processo ético-disciplinar”.

O texto foi publicado 12 dias antes da votação na qual os deputados confirmaram a cassação do mandato dele. Para Lins, a notícia influenciou a votação e serviu para embasar o decreto de sua prisão preventiva logo depois de deixar o cargo.

O jornal alegou que apenas reproduziu uma informação oficial e que a publicação da matéria não teve relação com a perda do mandato. “A jurisprudência é pacífica ao entender que, em se tratando de fatos públicos, relacionados a investigações, o veículo de comunicação se exime de culpa quando busca fontes fidedignas”, destacou.

A PF, entretanto, disse que o relatório de inteligência não foi produzido pelo órgão. O desembargador Carlos José Martins Gomes, relator do caso, avaliou que o documento seria elemento essencial para conferir autoridade e veracidade à informação, mas que ele nunca existiu.

A primeira instância condenou O Globo a pagar R$ 5 mil por danos morais ao deputado cassado. As duas partes recorreram. O autor da ação pediu o aumento da indenização e o réu solicitou a reforma da decisão. Ainda cabem recursos.

Como transformar uma boa relação diplomática em corrupção

Por Patricia Faermann | Via Jornal GGN

Ao traduzir os relatórios do WikiLeaks, em que a Odebrecht e o ex-presidente Lula são citados, é possível constatar o real teor das informações.

Desde que a investigação de seu envolvimento com o esquema de corrupção da Petrobras teve início, a Odebrecht passou a ser alvo das buscas de outros países onde a empresa tem capital. Nos Estados Unidos, a empreiteira chegou a ser monitorada pela diplomacia, em 2007, 2008 e 2009, quando foram apontadas suspeitas de irregularidades em obras da empreiteira no exterior.

A informação foi divulgada pelo Estado de S. Paulo. De quatro casos usados de relatórios do WikiLeaks como exemplos, em apenas um aparece que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi importante para fechar acordo entre uma empresa angolana e a Odebrecht. Em outro, Lula é mencionado por ter apoiado a campanha de reeleição de Hugo Chavez, em evento de inauguração de obra da companhia na Venezuela. Sem alertar para as especificações, o lead da reportagem relaciona diretamente os possíveis esquemas de corrupção da companhia com uma suposta investida de Lula nas irregularidades.

“Telegramas confidenciais do Departamento de Estado norte-americano revelados pelo grupo WikiLeaks relatam ações da empresa brasileira e suas relações com governantes estrangeiros. Lula é citado em iniciativas para defender os interesses da Odebrecht no exterior”, publica o jornal.

Ao abrir o documento intitulado “A Productive Visit By Lula”, que em português significa “Uma visita produtiva de Lula”, é possível constatar o real teor das informações referentes à Angola.

Trata-se de um relatório da visita do ex-presidente ao país, nos dias 17 e 18 de outubro de 2007. O encontro resultou em sete acordos de assistência técnica, a duplicação para US$ 2,3 bilhões da linha de crédito do Brasil para a Angola e o anúncio de um acordo de negociação para construir uma usina de etanol com a produção de cana. “O ex-presidente aproveitou a visita para agradecer a Angola pelo apoio contínuo nos esforços do Brasil para obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU”, publicou o resumo do documento do WikiLeaks.

“Na frente da diplomacia, os dois países acordaram sobre discussões regulares e formais de questões bilaterais e reforço da cooperação entre as duas academias diplomáticas”, completa o documento.

No trecho do artigo que cita “biocombustíveis e geração alternativa” está o que o Estadão considerou uma participação de Lula nas irregularidades da Odebrecht. “Apesar de não ser um acordo de governo-governo, a visita de [Lula] Silva ajudou a concluir um acordo entre a brasileira gigante da construção Odebrecht, a estatal petrolífera angolana Sonangal, e Damer, uma empresa angolana até então desconhecida, a construir uma usina de biocombustível na província de Malange. Os planos incluem a construção de uma usina capaz de produzir não apenas etanol para exportação, mas a geração de 140 megawatts de eletricidade por ano através da queima do bagaço. O bagaço e o etanol serão produzidos a partir da cana, uma nova cultura para a região. O projeto deverá gerar 2.000 novos empregos”, é a citação.

O próprio jornal admite: “o papel de Lula não é colocado em questão” e afirma que a suspeita levantada pela diplomacia dos Estados Unidos refere-se, estritamente, à “parceria fechada pela Odebrecht”, que resultou em 40% de participação para a construtora brasileira, 20% para a Sonangol e os restantes 40% para a Damer. Nada mais é levantado.

Por fim, no comentário adicionado pelo redator do relatório, Francisco Fernandez, aponta-se os benefícios para os dois países das relações comerciais entre Brasil e Angola. “A Angola vê o Brasil como um parceiro natural, e muitos dos principais homens de negócios de Angola, incluindo membros do clã do Santos [presidente angolano], supostamente têm interesses comerciais substanciais no Brasil. As grandes construtoras brasileiras também estão se beneficiado do crescimento da construção na Angola. Devido à sua história compartilhada e a linguagem comum, a vontade desses laços comerciais só tendem a se aprofundar. Os brasileiros também enxergam investimento na infra-estrutura angolana, especialmente para vinculá-la para o resto da SADC, como um sábio investimento e uma entrada potencial para eles e para o resto do mercado da África do Sul”, diz o comentário.

O segundo documento em que Lula é citado é o apoio do ex-presidente à candidatura à reeleição de Hugo Chavez. O que teria “condenado” o ex-presidente, segundo o tratamento do jornal, é que a campanha pública ocorreu em evento de inauguração de uma ponte, construída pela Odebrecht e financiada pelo BNDES, na Venezuela.

No comentário, a embaixada americana comenta sobre as relações comerciais entre os dois países e restringe-se a dizer que o apoio de Lula a Chavez “poderia parecer um passo diplomático errado, mas realmente foi simplesmente um bom negócio”.

O que é questionado como suspeito no relatório é o valor da referida obra, que teria um custo 40% acima do orçamento. Também são apontadas irregularidades nos contratos, de que construções da Odebrecht no país latino ocorreram sem licitação.

“A relação entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a empreiteira Odebrecht e o governo da Venezuela também foi alvo de um exame por parte da diplomacia norte-americana”, assim o Estadão tratou o caso à suposta interferência do ex-presidente nas irregularidades. Para estender o ato ilegal ao legal, o jornal integra as duas ações – a negociação diplomática de Lula em obras de empresas brasileiras no exterior, com o suposto superfaturamento da Odebrecht nas construções -, como se uma fosse dependente da outra.

Telesur: 10 anos de jornalismo pela integração

Por Beto Almeida | Brasília, 20/07/2015

A Telesur – tv latino-americana, fruto da visão estratégica de Hugo Chávez, com o apoio de outros países – completa 10 anos de jornalismo transformador e de integração dos povos no dia 24 de julho, simbólica data do natalício de Simon Bolivar! Estruturar, manter no ar, qualificar e expandir a programação e o alcance, são vitórias da Revolução Bolivariana e do processo de integração da América Latina, levando ao mundo uma mensagem de que sim é possível fazer um jornalismo que não seja prisioneiro da ditadura de mercado, do consumismo ou da ideologia guerreira que o imperialismo impõe aos meios de comunicação no mundo.

Telesur segue colocando em prática a recomendação de Chávez de ser uma ferramenta de “enamoramento dos povos’, pelo tratamento noticioso solidário, democrático, revolucionário na forma e no conteúdo. Foi a única emissora a cobrir com independência e denunciar, a sanguinária agressão imperialista contra a Líbia, por exemplo, país que tinha os melhores indicadores sociais da África e que agora vive uma degradante tragédia social. Nestes 10 anos, foi a Telesur que ofereceu informação veraz sobre a Causa Palestina, sobre o golpe imperial na Ucrânia, sobre os processos de lutas dos excluídos em todos os lados, sobre as eleições e as conquistas de governo populares na Celac, fenômenos sistematicamente distorcidos pela mídia do capital.

Agora que o Mercosul se amplia e se fortalece com o ingresso da Bolívia, e que a integração econômica, produtiva, social, educacional, sanitária expande-se por vários países da região, e que a Telesur expande seu alcance, já transmitindo também em inglês, é muito importante que as forças progressistas priorizem a recomendação aprovada na Reunião do Mercosul Social para que todos os países do bloco transmitam a emissora bolivariana. Ou seja, um recado direto para o Brasil, onde um Convênio entre Telesur e TV Brasil, já existente, continua engavetado há anos, ficando os brasileiros privados de terem uma informação diversificada, humanizadora e profissional sobre o mundo, ao mesmo tempo em que fica descumprida diretriz constitucional que prega ser a integração latino-americana um objetivo da República do Brasil.

Acusado de chefiar quadrilha, Paulo Octavio, ex-governador do DF, premia jornalistas

Por Leandro Fortes | Via DCM

E se fosse do PT?

Em maio de 2013, a Procuradoria Geral da República apontou o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda e o ex-vice-governador Paulo Octavio como chefes da quadrilha no escândalo que ficou conhecido como “mensalão” do DEM.

A dupla e outros 37 acusados de envolvimento no esquema de corrupção e pagamentos de propinas foram pegos na Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal.

A subprocuradora-geral da República Raquel Elias Ferreira Dodge disse que a quadrilha agia a mando de Arruda e Paulo Octavio.

Os dois, segundo ela, “definiram a estratégia de dominação da máquina administrativa e seu uso para fins criminosos”.

Arruda foi cassado e Paulo Octavio, pressionado por quatro pedidos de impeachment, renunciou.

PO, como é conhecido em Brasília, voltou às atividades de investidor imobiliário, mas acabou preso, em 2014, suspeito de participação num esquema de corrupção de agentes públicos para a concessão de alvarás para empreendimentos imobiliários no Distrito Federal.

Foi solto, cinco dias depois, mas continua réu em sete processos, segundo o Tribunal de Justiça do DF.

Responde por organização criminosa, falsidade ideológica, corrupção ativa e corrupção passiva.

Pois bem, pelo segundo ano consecutivo, realizou-se, na capital federal, o Prêmio Paulo Octavio de Jornalismo.

Não vou entrar no mérito dos premiados, não li nenhuma das reportagens inscritas, nem quero fazer juízo de valor sobre a intenção de quem se inscreveu.

Mas vale uma reflexão de todos: não há nada de errado nisso?

Digamos que, de repente, surgisse o Prêmio Carlinhos Cachoeira de Jornalismo.

Não haveria nenhum constrangimento ético para jornalistas participarem de uma coisa dessas?

Agora, imaginem se José Dirceu decidisse criar um prêmio de jornalismo.

O que iria acontecer?

Eu respondo: jornais, revistas, tevês, rádios, sites e blogs que, alegremente, participaram do convescote de Paulo Octavio, não iriam permitir que seus profissionais se inscrevessem.

Iriam, no entanto, colocá-los no rastro de Dirceu para forçá-lo a responder a uma pergunta que ninguém fez a Paulo Octavio: como um acusado de comandar uma quadrilha pode pagar prêmios para jornalistas?

Qual a vantagem disso?

Entre os laureados do Prêmio Paulo Octavio de Jornalismo deste ano estão profissionais do portal UOL (do Grupo Folha), da BandNews, do Correio Braziliense e, acreditem, da Rádio Justiça, do Supremo Tribunal Federal.

Mas Paulo Octavio, vocês sabem, não é do PT.

Logo, ele não precisou dizer nada a respeito, até porque nada a respeito lhe foi perguntado.

‘A criação da Telesur demonstrou que podemos ter uma visão latino-americana própria’

Via Adital

A Agência de Notícias Prensa Armenia entrevistou, recentemente, o jornalista uruguaio e fundador do canal Telesur Aram Aharonian para falar sobre o seu novo livro “La internacional del terror mediático. Vernos con nuestros propios ojos” [A internacional do terror midiático. Vermo-nos com nossos próprios olhos, em português], na qual aborda o papel dos meios e do jornalismo a partir de uma perspectiva latino-americana.

Aram Aharonian trabalhou com Eduardo Galeano, Rodolfo Walsh, Paco Urondo, Juan Gelman e Miguel Bonasso, entre outros.

Por que elegeste como figura simbólica “a guerra” para representar “a guerra simbólica”, “batalha ideológica” ou os meios hegemônicos como “unidades militares”?

Primeiro, porque esta é a mesma luta: o que mudou foram as armas. Guerra convencional, guerra de guerrilhas, guerra cultural: o inimigo é o mesmo, a utopia continua sendo a mesma. O que muda é o cenário, os ferros. O inimigo antes – há quatro décadas – usava as forças armadas para impor um modelo político, econômico e social (com mortos, desaparecidos, torturados). Hoje, não necessita de baionetas nem de tanques; basta o controle dos meios massivos de comunicação. E assim nos bombardeiam com informação, publicidade, entretenimento (séries de televisão, jogos cibernéticos, por exemplo), 24 horas por dia, com sua mensagem e imagem única, na sala ou no dormitório das nossas próprias casas.

Hoje, o campo de batalha é simbólico. Estamos em plena batalha cultural: a guerra por impor imaginários coletivos se dá através dos meios cibernéticos, audiovisuais, gráficos. E, para lutar essas batalhas pela democratização da palavra e da imagem, das nossas sociedades, é preciso aprender a usar essas novas armas, as câmeras, Internet, microfones…

Tanto neste livro como no anterior “Vernos con nuestros propios ojos. Apuntes sobre comunicación y democracia [Vermo-nos com os nossos próprios olhos. Apontamentos sobre comunicação e democracia, em português] propõe a necessidade de construir uma cultura contra-hegemônica nos termos de Gramsci, ainda que não subalterna, que possa competir, qualitativamente, com a cultura hegemônica. Referente à construção de novos meios, é possível levar adiante esses projetos sem os orçamentos das grandes empresas? O Estado pode ser uma resposta?

Dói-me dizer isso, mas, a partir dos movimentos sociais, a partir da imprensa alternativa, há uma queixa permanente pela falta de recursos… e, muitas vezes, o que faltam são ideias, criatividade, trabalho coletivo, complementação.

Muitas vezes, a partir do campo popular, nos queixamos que não temos os recursos das empresas transnacionais… mas creio que, em geral, os fracassos vêm por falta de ideias (e não de dinheiro), por falta de convencimento no projeto coletivo (ou ausência deste) e pela grande dificuldade que temos para nos juntarmos: todos querem ser protagonistas, ainda que seja de um meio marginal, mas protagonistas. Com ideias, com criatividade, podemos conseguir os recursos e levar adiante projetos massivos; o dinheiro não produz ideias nem criatividade, e muito menos no caminho da democratização da comunicação e da informação.

Debe ser dever dos Estados fomentarem a recomposição dos espaços públicos, da formação de comunicadores populares, do fomento (não falo de financiamento) dos meios populares. Se não formamos nossa juventude nestes princípios democráticos, difícilmente podemos manter a esperança no futuro. Recuperar nossa memória histórica significa saber de onde viemos, para saber para onde vamos. Um povo que não sabe quem é, quais são suas raízes, dificilmente pode mudar seu futuro, e este lhe será imposto sempre de fora. Recuperar a memória nostalgicamente é eminentemente retrógrado, é a ancoragem no denuncismo, na resistencia per si, no chororô.

Sua frase “vermo-nos com nossos próprios olhos” faz referência a que os latino-americanos “sempre nos vemos com outros olhos, com olhos estrangeiros”. A fundação da Telesur, em seu momento, foi uma solução para essa problemática?

Eduardo Galeano dizia que não existe nenhuma fórmula para mudar a realidade se não se começar a vê-la como ela é. Isso, para poder transformá-la, é preciso começar por assumi-la. Estivemos por 520 anos cegos de nós mesmos. Seguimos apegados em que “já está tudo inventado” e, também por isso, continuamos copiando modelos estrangeirizantes (demonstrando que ainda não pudemos nos desligar do colonialismo cultural) e fazendo uma comunicação reativa (e não pró-ativa) à agenda que nos impõem os meios hegemônicos.

Não sabemos quem somos, como somos, o que queremos comunicar. E assim sempre vamos ser reativos, não nos vemos em nossos próprios espelhos.

A criação, ou mais bem, a colocação em andamento da Telesur, há 10 anos, demonstrou que sim podemos ter uma visão latino-americana própria, que isso não estava limitado às grandes corporações transnacionais. E, a partir daí, começamos a ter um olhar contra-hegemônico, alternativo à mensagem única. Não é uma solução, é um caminho. E, hoje, sabemos que de nada serve ter 100, 1 mil emissoras telesur a mais, se não temos novos conteúdos, de acordo com a nossa própria agenda informativa, cultural e política, porque senão estaremos condenados a ver “El Chavo del Ocho” [Chaves] pelo resto da nossa vida…

Levando em conta o seu trabalho na Fundação para a Integração Latino-Americana, acredita que a aliança entre meios contra-hegemônicos pode ser um dos pilares na construção de uma nova comunicação?

Diante de tudo é preciso romper com o verso de que alternativo significa marginal: é totalmente o contrário, porque para ser alternativo (à mensagem hegemônica) é preciso pensar no massivo, com meios massivos ou com redes de meios populares. Mas, para isso, é necessário ter um projeto comum, sobre princípios comuns, que permita produzir e compartilhar conteúdos em qualquer das plataformas que programemos.

As chamadas redes sociais, as novas tecnologias são apenas ferramentas, para por aí irradiar as mensagens em qualquer plataforma. Em uma primeira avaliação, parece que vai ganhando a ideia cultural capitalista do individualismo.

Creio que uma das bases para ter meios com público é fabricar novos conteúdos, fazer bancos de conteúdos – audiovisuais, sonoros, gráficos, jogos cibernéticos –, que estejam à disposição dos meios populares, para que estes não se vejam obrigados a repetirem os enlatados da anti-cultura.

Neste livro, mencionas as “notícias virtuais” e a desfasagem do contraste com a realidade, que termina desmentindo essas notícias. É nessa desfasagem que se constróem as operações midiáticas? Como funciona, nesses casos, a dinâmica de ferramentas, como o Twitter, em que a informação circula em tempo real, levando em conta o que propõe no final de “La internacional del terrorismo mediático”, quando postulas que, nas redes sociais, não se utilizam as fontes?

A única verdade e a realidade, dizia Perón. Mas a realidade é o que nos mostra a televisão, convertida em difusora de espetáculos – com sua dose de banalização e de espetacularização – e não de informação? Os meios ficaram nas mãos de conglomerados empresariais, que manipulam a informação, alheios a todo conceito de ética, à sua vontade em função dos seus interesses corporativos (políticos, econômicos, financeiros, políticos, religiosos), em nosso continente pelo menos em aliança com as mais reacionárias forças políticas, muitas vezes, para desestabilizar nossos governos populares, com a finalidade de restaurar a velha ordem conservadora e neoliberal.

Hoje parece que não nos interessa se uma notícia é verdad, mas se “me agrada”. A instanteneidade da informação e a falta de corroboração da mesma, a mentira, a montagem (caso Guerra do Golfo 1 e bombardeio de Bagdá, por exemplo) criam imaginários coletivos, verdades virtuais, que só o tempo e/ou o contraste pessoal com a realidade, conseguem desmontar. Democratizar a informação e a comunicação é apostar no pluralismo (não pela mensagem e a imagem únicas), a diversidade…

Com a massificação da Internet surgiu uma necessidade pela imediatez informativa. Um meio alternativo pode aspirar a satisfazer e cumprir com essa dinâmica sem contar com uma estrutura econômica? Pode-se competir com as agências internacionais? A construção de meios para segmentos muito específicos é uma solução para esse problema?

Mais do que uma necessidade surgiu a possibilidade da imediatez, o que muito poucas vezes significa veracidade. Mas, quando essa realidade virtual se repete até o cansaço, sem possibilidade de ter outra versão dos acontecimentos, é a demonstração da imposição de uma mentira, distante da realidade-real. E quanto dura uma primícia? Quando surgiu a Al Jazeera, havia informação alternativa que davam aos meios ocidentais, cartelizados, sobre o Oriente Médio, quando surgiu a Telesur, a CNN em espanhol não pode seguir invisibilizando e ocultando as realidades latino-americanas.

Sim, temos outro problema: muito mais da metade das imagens que usam as nossas televisões provém das transnacionais da informação que, desse modo, impõem sua agenda e seus interesses. E ainda, na América Latina, a maior parte da informação que circula sobre a nossa região, provém também de agências noticiosas transnacionais ou de meios ocidentais, e alguns até cristãos. Por isso, a necessidade de nos vermos com nossos próprios olhos.

A principal rubrica de exportação dos EUA não são as armas, mas os conteúdos, com os quais nos bombardeiam – através da informação, da publicidade e das chamadas indústrias culturais (séries, ficção) – 24 horas por dia: a nova arma mortal não difunde isótopos radioativos, se chama meios de comunicação de massas, que impõem imaginários coletivos, isso que algunos querem chamar de guerra de quarta geração.

Seguindo com o conceito do jornalista Carlos Fazio, chama “terrorismo midiático” um “entrelaçamento de estratégias políticas, econômicas, sociais e psicológicas, que buscam criar realidades fictícias, medos coletivos e converter mentiras em verdades que permitam manipular a sociedade, de acordo com o conflicto e o inimigo em questão”. Qual é o papel do jornalista, dos redatores e dos editores nesses casos, levando em conta que, hoje, cada jornalista é seu próprio meio de alguna forma a ter seus próprios seguidores no Twitter ou blogs pessoais?

A nossa academia, a latino-americana (em geral) está ancorada nos anos 1970, quando o pensamento latino-americano sobre comunicação e informação era dos mais avançados. Há mais de 40 anos. E não se produziram novas teorias e nossas universidades seguem recitando os velhos textos, descontextualizados, obviando a nova realidade latino-americana e de cada um dos nossos países, esquecendo o pensamento crítico, para nos devolver a cada ano milhares, milhares e milhares de comunicadores e jornalistas com um título universitário, sem conhecimento da sociedade a qual devem prestar serviço e, muitas vezes, sem a suficiente profissionalização no uso das ferramentas disponíveis, hoje.

Para entender bem isso, devemos partir da base que os proprietários dos meios são conglomerados econômicos, que os usam para imporem seus interesses. Que um jornalista, no melhor sentido da palavra, é um trabalhador, como um carpinteiro ou um médico: que poucos entendem a função social do jornalista, que temos que abater velhos paradigmas, como a objetividade, a imparcialidade, a neutralidade; nenhum meio de comunicação (comercial, estatal, popular, público) é objetivo, mas responde a uma linha editorial. O que é imoral é travestir-se de objetivo para impor seus interesses.

Em sua ampla trajetória, trabalhaste com muitos jornalistas que, hoje, são considerados exemplos dessa profissão e, por sua vez, são reconhecidos por sua militância política, e a forma de imbricar ambas as questões. Gostaria que nos diga algumas palavras sobre eles e sobre como é vista, hoje, a relação do jornalismo com a militância política.

Trabalhei junto com jornalistas do quilate de Carlos Quijano (Marcha), Eduardo Galeano e Carlos María Gutiérrez (Época, PL), Neiva Moreira (Cuadernos e Ahora), em Montevidéu; Juan Gelman, Paco Urondo, Rodolfo Walsh, Jarito Walker, Quique Raab, Cogote Bonasso, Pablo Piacentini, Pablo Giusani, Zelmar Michelini… em Noticias e Informaciones: Tito Paoletti, Ernesto Ponsati, e tantos outros em La Voz, na Argentina; com Blankito, na Colômbia; com tantos companheiros enamorados do processo bolivariano na Venezuela e com aqueles “loucos” que se somaram à utopia da Telesur… o que dá a pauta do velho que estou. Desde aqueles primeiros anos 1960 até hoje, a luta continua sendo a mesma: a democratização da informação e da comunicação, para que todos tenham voz e imagem, pela construção dessa nova comunicação, a partir de baixo, ombro a ombro, lado a lado, consciente de que a única coisa que se constrói a partir de cima… é um poço.

O papel da mídia no duplo linchamento do Maranhão

Por Alex Tajra | Via Brasileiros

A foto de um homem morto, amarrado como um animal ao poste, é o retrato de uma imprensa que se supera no que diz respeito ao sensacionalismo e à cultura da violência.

Foto: Reprodução/ imirante.globo.com/oestadoma

Na tarde da segunda-feira (6), a cidade de São Luís presenciou um ato de extrema violência que vem sendo recorrente no Maranhão. Um homem identificado como Cleidenilson Pereira da Silva, de 29 anos, foi amarrado em um poste e espancado até a morte em uma terrível ação de linchamento da população. Cleidenilson e um adolescente não identificado tentaram assaltar uma loja na periferia da capital maranhense, no bairro de São Cristóvão, mas foram rendidos por um grupo de pessoas que passavam pelo local.

 

Segundo informações da Polícia Civil, o homem foi linchado com mãos, pernas e tronco amarrados em um poste de luz, numa região considerada movimentada do bairro. Cleidenilson foi agredido com socos, chutes, pedradas e garrafadas, não resistiu aos ferimentos e morreu no local, vítima de hemorragia.

A morte de uma pessoa, ainda mais com os requintes de crueldade de um linchamento, sempre chama a atenção e causa uma comoção generalizada em todos os setores da sociedade. Todavia, um fator que acentua a violência e degenera ainda mais a situação é a cobertura feita pelos meios de comunicação expondo um delicado caso como este.

A foto de um homem morto, amarrado como um animal ao poste, é o retrato de uma mídia que se supera no que diz respeito ao sensacionalismo e à cultura da violência. Desta forma a situação acabou se traduzindo em um duplo linchamento: aquele que de fato matou Cleidenilson e outro depois de sua morte, explorando sua imagem no poste.

Por ter tentado cometer um crime, Cleidenilson perdeu sua credencial de ser humano e passou a ser tratado como um bicho, um indivíduo antissocial que precisa ser eliminado. Este tipo de violência, provocada por um grupo de transeuntes ‘comuns’ , mostra como alguns vínculos sociais brasileiros estão amparados pelo ódio, sentimento reforçado pelos grandes meios de comunicação, que alimentam uma ideia de insegurança fora da realidade. É o que diz a jornalista Maria Carolina Trevisan, repórter do coletivo Jornalistas Livres. “Somos um País novo na democracia, que acha que a vida das pessoas que cometeram crimes não vale nada”.

Em entrevista à Brasileiros, Maria Carolina argumentou que a imprensa tem um papel fundamental nos processos que desencadeiam este tipo de violência, gerada muito em função do sentimento de vingança e de medo. “Os noticiários reforçam a ideia de que existe uma sensação de impunidade, então reforça o sentimento de vingança nas pessoas.”

Trevisan também criticou a forma como a imprensa aborda este tipo de crime, dando viés espetaculoso a algo que deveria ser reportado de forma analítica. A própria foto de Cleidenilson, segundo ela, expõe o sensacionalismo no qual a mídia está submersa, e degrada mais ainda a imagem do homem linchado. “Aquela foto não deveria nem ser mostrada, pois coloca a pessoa e seus familiares em uma situação pior ainda.”, explicou.

Importante ressaltar que grande parte das vítimas de linchamentos são negras e de classes sociais baixas, revelando um perfil que é seguido pelos ‘justiceiros’. A pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), Ariadne Natal, autora de uma tese sobre casos de justiçamentos sumários disse, em uma entrevista concedida à Agência Brasil, que as pessoas não julgam aleatoriamente quem será alvo deste tipo de crime, e que existe uma ‘escolha’ de quem será linchado.

A pesquisadora estudou 385 casos de linchamento que foram noticiados pela imprensa, entre 1º de janeiro de 1980 e 31 de dezembro de 2009, e concluiu que não é qualquer pessoa que pode ser ‘desumanizada’. “As potenciais vítimas de linchamento carregam consigo a marca daquele que pode, em última análise, ser eliminado, (…) tanto que é muito raro identificarmos alguém de classe média entre as vítimas de linchamento”, argumentou.

Para Trevisan, o racismo impregnado no País ajuda a entender por quais razões negros e pobres são as grandes vítimas justiçamentos coletivos. Além disso, a jornalista afirmou que já existe uma pena de morte indireta aplicada nas periferias, por meio de linchamentos e ações policiais. “Vivemos em um Pais racista e sem dúvida [existe uma pena de morte]. Isso demonstra que tem um ódio muito presente na nossa sociedade neste momento, e uma sensação de medo e insegurança muito provocada pela cobertura sensacionalista da imprensa”, concluiu.

O ‘justiçamento’ de Cleidenilson não foi um fato isolado no Maranhão. De acordo com o jornal carioca Extra, foram pelo menos mais nove casos deste gênero registrados no Estado nos últimos 18 meses. Só em 2015, foram quatro casos.

Em um dos linchamentos mais explorados pela mídia nacional, no ano passado um adolescente foi espancado e preso a um poste por uma trava de bicicleta, nu, numa noite no bairro do Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em mais um caso de justiça com as próprias mãos. A apresentadora do telejornal SBT Brasil, Rachel Sheherazade, não perdeu tempo e afirmou que o espancamento do rapaz era justificável, em mais uma tentativa da imprensa de jogar álcool na discussão. Resta saber agora quem será o próximo Cleidenilson e qual será o primeiro jornalista a apedrejá-lo.

Desnorteada com o discurso do Papa na Bolívia, mídia foca em crucifixo

Via Opera Mundi

As fotos escolhidas pelos editores para ilustrar a entrega do crucifixo, ao contrário da que aparece acima, buscam mostrar o papa Francisco supostamente contrariado.

O Papa Francisco fez um discurso anticapitalista ontem na Bolívia, referindo-se ao sistema econômico como “ditadura sutil”.

Foi no Segundo Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra.

“A distribuição justa dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral”, afirmou.

Também disse que a concentração da mídia é instrumento de “colonialismo ideológico”, pois “a concentração monopólica dos meios de comunicação social pretende impor pautas alienantes de consumo e certa uniformidade cultural”.

O papa pregou “mudança de estruturas” e disse que mesmo entre a elite econômica que se beneficia do sistema “muitos esperam uma mudança que os libere dessa tristeza individualista que os escraviza”.

Para João Pedro Stélide, líder do Movimento dos Sem Terra, que estava presente, o discurso do papa foi “irretocável”, ao atacar a busca do lucro sem considerações sociais e ecológicas como um dos grandes problemas da atualidade.

O colunismo brasileiro preferiu focar no presente inusitado que o presidente da Bolívia, Evo Morales, deu a Francisco: um Cristo crucificado em foice e martelo.

Na Folha, Igor Gielow chamou de “aberração” sem explicar a origem do presente.

É a reprodução de uma escultura do sacerdote espanhol Luis Espinal, que tinha ligação com movimentos sociais bolivianos e foi assassinado por paramilitares em 1980.

Fez parte da programação do papa em solo boliviano uma homenagem a Espinal, que era jesuíta como o atual pontífice.

O governo boliviano desmentiu oficialmente boatos disseminados pelas redes sociais segundo os quais o Papa teria manifestado desconforto ao receber o presente.

Francisco, segundo difundido por parte da mídia boliviana, teria dito “não se faz isso” ao receber o presente, quando o áudio deixa claro que ele afirma “não sabia disso” ao ouvir a explicação de Evo Morales sobre a escultura.

Em outras palavras, a direita midiática boliviana pirou com o progressismo de Francisco e, por extensão, a brasileira.