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O falso plural dos jornais

Por Luiz Weis | Via Observatório da Imprensa

O noticiário político (e não só na Folha) vive coalhado de plurais que o leitor não tem como saber se de fato o são.

A edição de terça-feira (24/3) da Folha de S.Paulo reconhece que errou a dar em manchete que “delatores” disseram a investigadores da Lava Jato que José Dirceu recebia parte da propina paga ao PT.

Foi um só, o empreiteiro Ricardo Pessoa, presidente da UTC, se corrige o jornal.

Mas o noticiário político – e não só na Folha – vive coalhado de plurais que o leitor não tem como saber se de fato o são.

Dia sim, o outro também, os jornais dão que anônimas “fontes do Planalto” confidenciam (ou informam, revelam, admitem, relatam ou o que se queira) que a presidente ficou irritada (ou contrariada, surpresa, preocupada, alegre ou o que se queira) com algo.

Pode-se apostar que muitas vezes a fonte é uma só – ainda que não seja necessariamente a mesma.

O plural indevido, nessa imprensa sem goleiros para não deixar passar mentiras ou meias verdades, tem duas serventias. Uma para dentro, outro para fora. Para dentro, como forma de mostrar serviço aos chefes. Para fora, a fim de dar mais sustança à notícia.

O que, além de fraudulento, é uma bobagem. Dependendo do informante e da posição que ocupe no governo, a sua palavra singular pode valer mais do que a de dois outros, sem o mesmo acesso aos segredos do poder.

Sem falar na hipótese de que eles abram o jogo sobre o que não conhecem, afinal de contas, como fazem crer. Só para se mostrar mais do que são aos jornalistas que os procuram.

Salsichas e notícias

Para combater a praga da notícia sem pai nem mãe, o New York Times adota uma prática de respeito ao leitor diante do que aqui se chama, barbarizando o idioma, “informação em off”.

Primeiro, o repórter tem de perguntar à fonte por que ela não pode assumir o que lhe conta – e a resposta acaba fazendo parte da matéria. Segundo, preservado o sigilo do vazador, o texto tem de incluir o máximo de pistas possíveis sobre a sua identidade. O NYT baniu faz tempo o velho e cômodo “fonte(s) bem informada(s)”.

Mas quem liga para isso nestas bandas?

Bismarck dizia que o povo ficaria revoltado se soubesse como são feitas as leis e as salsichas. Assim também o leitor brasileiro se soubesse como são feitas as notícias que consome.

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Luiz Weis é jornalista.

Alckmin na Cultura, Aécio na Istoé e a imprensa chapa branca

Por Kiko Nogueira | Via DCM

Um dos efeitos do clima de golpismo deslavado é a falta cada vez mais intensa de decoro da chamado imprensa chapa branca.

O caso da TV Cultura é exemplar, especialmente com o Roda Viva, transformado num palanque. Vide o programa com Eduardo Cunha, em que todos os entrevistadores estavam interessados apenas em saber o que o presidente da Câmara iria fazer depois de depôr Dilma — com destaque para João Dória Jr, que deu um show constrangedor de desinformação e esperteza ao contrário.

No domingo, 22, a Cultura foi além e exibiu um especial chamado Dia Mundial da Água – Uma Reflexão para o Futuro. A ideia era falar de variações climáticas, de como recursos hídricos podiam ser mais bem geridos etc.

Entre os especialistas, havia Carlos Alberto Nobre, doutor em ecologia e mudanças globais, Joaquim Guedes Filho, superintendente da Agência Nacional de Águas, ANA — e Geraldo Alckmin.

Sim, Alckmin, responsável por uma das maiores crises hídricas na história de São Paulo. O governador que não tem a menor noção do que faz e que deixa isso claro em cada declaração que dá. Mentiu para os eleitores durante a campanha e continua mentindo.

Chamar Alckmin para falar de água é como convocar Idi Amin Dada para dissertar sobre Direitos Humanos. De maneira inversa, o sujeito sabe tudo do assunto.

O aparelhamento da Cultura levou a absurdos como esse, pagos pelo contribuinte. Achava-se que o fim da picada já havia sido a transmissão ao vivo da posse de Geraldo comentada por Marco Antonio Villa, o historiador pitbull. Na ocasião, Villa usou seu tempo no ar em sua mono obsessão: detonar o governo federal. Villa, veja que coincidência, é o comentarista do principal telejornal da emissora. Ninguém acha estranho o fulano dando pitacos na entronização do chefe.

A cara dura é do mesmo tamanho que a da Istoé. Nesta semana, a revista que publicou as pesquisas mais absurdas durante as eleições, em que Aécio aparecia com 790 pontos à frente, traz uma entrevista com o senador mineiro.

É provável que a Istoé tenha seguido o protocolo aecista: tudo combinado. Não que fosse necessário, já que a intenção de fazer uma entrevista de verdade parecia não estar em questão.

Na quinzena em que Aécio Neves foi citado pelo doleiro Youssef num depoimento, poucos dias após um deputado tucano pedir cinicamente a extinção de partidos envolvidos em corrupção, o que se viu foi um espetáculo de levantamento de bola.

A primeira pergunta: “Multidões protestam contra o governo, as investigações da Lava Jato trazem novas revelações todos os dias e o ministro da Educação, Cid Gomes, foi demitido depois de dizer que mais de 300 parlamentares são achacadores. O que está acontecendo com o Brasil?”

A segunda: “Qual é a saída para a crise?”

Neste momento a conversa teve de ser interrompida por um coro de passarinhos carregando uma faixa com o nome dele, o homem, o mito, o cavaleiro da esperança, o cara: Aécio Neves.

A comunicação do governo quer sabotar a presidenta?

Por Rennan Martins | Vila Velha, 18/03/2015

Hoje (18) a blogosfera e portais de notícias repercutem um documento de cinco páginas redigido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Trata-se de um mea culpa que sintetiza e reconhece diversos problemas já diagnosticados pela imprensa alternativa como se fossem novos, adicionando ainda o demérito de não propor sequer uma medida efetiva de combate a narrativa tendenciosa da mídia hegemônica.

O autor inicia o texto dizendo ser lugar-comum acusar a política de comunicação primeiramente sempre que se instala uma crise política, talvez a fim de disfarçar a total ineficácia da gestão. Depois da ressalva, admite falhas e omissões, mas fazendo questão de dividir o ônus com o restante do governo, o que fica claro no trecho:

“A comunicação é o mordomo das crises. Em qualquer caos político, há sempre um que aponte “a culpa é da comunicação. Desta vez, não há dúvidas de que a comunicação foi errada e errática. Mas a crise é maior que isso.”

Após o autodesagravo inicia-se uma longa e dispensável exposição do histórico das redes sociais e seu envolvimento com a disputa política, apontando que as forças da oposição possuem mais orçamento e que esse fator é fundamental em termos de alcance da população, que acaba mais suscetível ao discurso oposicionista pois além disso ainda temos o bombardeio habitual da grande mídia.

O curioso dessa constatação é que a Secretaria de Comunicação é a responsável pela condução da política de publicidade estatal e mesmo assinalando que os veículos de oposição possuem mais envergadura financeira e concentram majoritariamente os anúncios, ainda assim a mudança óbvia não é sugerida. A distribuição estratégica dos recursos de forma a estimular as iniciativas de linha editorial progressista, estas que foram cruciais na reeleição e permanecem sem seu devido reconhecimento, passa longe do documento.

Em seguida a presidenta é informada que a nomeação do banqueiro Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda desmobilizou drasticamente os movimentos que defendiam o governo, dizendo que estes não “compreenderam” a importância do ajuste fiscal. Ora, é justamente por compreender o que significa o senhor Levy na Fazenda que o desânimo tomou conta da militância. Não adianta tapar o sol com a peneira, a promessa eram “Mais Mudanças” e o que veio foi o ajuste fiscal empunhado pela oposição, que oportunista como sempre, ainda se aproveitou pra falar de estelionato eleitoral.

A campanha das denúncias de corrupção também é citada, porém, é crucial lembrar que os ataques lacerdistas dos barões da mídia sonegadora sempre estiveram aí e que nenhuma medida foi tomada da parte do governo para fazer frente a esse jornalismo de esgoto. Muito pelo contrário, a verba publicitária está lá financiando a maior parte deles, a despeito da queda vertiginosa que a internet lhes trouxe em termos de mercado e audiência.

Por fim, mesmo com o óbvio desastre comunicacional do governo, a Secom candidamente defende que se deve fazer mais do mesmo, fortalecendo a Voz do Brasil, o twitter, o facebook, e pasmem, sustentando até mesmo que investir na TV aberta, a mesma que lidera o golpe, é o caminho para “virar o jogo”. A possibilidade de desconcentrar minimamente o orçamento publicitário investindo na imprensa progressista passa longe das “soluções”.

Essa autocrítica pífia, que nada traz de novo e nem ao menos ousa dar uma solução real, é fruto de alguém que não sabe o que está fazendo ou que deseja deixar a crise se perpetuar. Nos dois casos, passou da hora de uma mudança brusca. Como diria Einstein: “Fazer, todos os dias, as mesmas coisas e esperar resultados diferentes é a maior prova de insanidade.”