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BRICS: a Geostratégia por trás da Nova Geoeconomia

Por Marcelo Zero

Quando o economista do Goldman Sachs, Jim O´Neill, cunhou, em 2001, o acrônimo BRIC, referindo-se aos megapaíses emergentes Brasil, Rússia, Índia e China, o termo não passava de uma expressão vazia, um mero exercício intelectual que pretendia denotar a crescente importância desses países para os investidores das nações mais desenvolvidas e seu potencial de gerar bons negócios para as firmas das grandes nações industrializadas. Os BRICs eram apenas uma nova fronteira de investimentos que se abria, no quadro de uma geoeconomia rigorosamente dominada pelos mesmos players de sempre.

Mal sabia ele que, 14 anos depois, em Ufá, Rússia, os BRICs, agora transformados em BRICS, com a adição da África do Sul, já seriam um importantíssimo e atuante bloco, que vem transformando a velha geoeconomia mundial e revolucionando a arquitetura financeira internacional.

Com efeito, na recente cúpula realizada na cidade fundada por Ivã, o Terrível, os BRICS fizeram algo que era impensável há uma década. Eles concretizaram seu próprio banco de investimentos, o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NDB), e seu próprio Arranjo de Contingente de Reservas (CRA) para ajudar países em dificuldades. Criados na Reunião de Fortaleza, eles agora passam a operar. Os BRICS são, hoje, um bloco institucionalizado, que atua com desembaraço sobre a ordem mundial.

Esses dois arranjos financeiros não surgiram por acaso. Eles sugiram de uma necessidade: as velhas instituições multilaterais surgidas no longínquo ano de 1944, em Bretton Woods, o FMI e o Banco Mundial, já não conseguem lidar com os desafios postos pela nova geoeconomia mundial. A UNCTAD, agência especializada da ONU para o comércio e o desenvolvimento, estima que os países em desenvolvimento precisariam de US$ 1 trilhão para aprimorar a sua infraestrutura. FMI e Banco mundial são incapazes de responder a esse desafio.

Afinal, trata-se de instituições esclerosadas, cuja governança não incorpora os interesses e os anseios dos novos atores globais. Elas continuam nas velhas mãos das antigas potências, agora fortemente atingidas pela crise mundial. Para se ter uma ideia, a China, segunda economia mundial, tem menos votos no FMI que o Benelux ( Bélgica, Holanda e Luxemburgo). Além disso, são organismos dominados por obsoletas ideias paleoliberais, e exigem condicionalidades draconianas para fazer empréstimos.

A tentativa de abrir mais espaço para os países emergentes nessas instituições multilaterais esbarrou no Congresso dos EUA, o qual até hoje não aprovou a modificação nas cotas e no sistema de votação do FMI e do Banco Mundial. Os EUA e a Europa continuam a ser seus mandantes privilegiados.

É uma situação absurda. Afinal, os BRICS têm 42% da população mundial e 26% do território do planeta. São responsáveis por 23% da economia mundial e 15% do comércio internacional. Não bastasse, eles detêm 75% das reservas monetárias internacionais. Além disso, os BRICS foram responsáveis por 36% do crescimento da economia mundial, na primeira década deste século. Com a recessão nos países mais desenvolvidos, esse número pulou para cerca de 50%, mesmo com a desaceleração recente do crescimento desse bloco.

Em outras palavras, a importância dos BRICS não é só avassaladora, como vem crescendo ano a ano, mesmo com a crise tendo se abatido recentemente sobre seus membros.

Enganam-se, contudo, aqueles que consideram os BRICS somente uma associação de caráter econômico. Na realidade, com a nova geoeconomia, na qual os BRICS são grandes atores em ascensão, cria-se também, inexoravelmente, uma nova geopolítica e uma nova geoestratégia.

É aí que a coisa se complica e surgem as resistências e as críticas ao bloco.

Por trás da nova geoeconomia, há uma surda luta geopolítica e geoestratégica.

A China está passando por um processo de transição econômica que inclui uma calculada desaceleração. A economia chinesa, baseada em investimentos volumosos e em exportações de manufaturados, tem atualmente excesso de capacidade instalada em muitos segmentos econômicos (construção civil, energia, etc.) e precisa refazer a sua estratégia econômica, face à desaceleração do comércio mundial.

Nesse sentido, a China vem fazendo um duplo movimento. Primeiro, aumentar o consumo doméstico, de modo a compensar o baixo dinamismo do comercio mundial.

Segundo, e mais importante, reduzir a sua dependência em relação ao dólar e sua exposição às crises norte-americanas, face às suas gigantescas reservas nessa moeda, diminuindo a hegemonia do dólar norte-americano como grande meio de troca mundial e como reserva internacional de valor.

A criação do NDB e do CRA e a expansão do banco da China, bem como os maciços investimentos desse país no exterior são parte de um processo que troca investimentos em títulos do tesouro americano (reservas) por investimentos em infraestrutura em países em desenvolvimento. Com isso, a China não apenas assegura o afluxo de commodities e influência geopolítica, como prepara as condições para que o renmimbi seja uma moeda mundial, competindo com o dólar.

Outra disputa surda, mas intensa, que envolve o BRICS tange ao domínio da Eurásia.

Em 1997, Zbigniew Brzezinski, scholar extremamente influente, que fora assessor presidencial para assuntos de segurança nacional no período de 1977 a 1981, publicou, na Foreign Affairs, um artigo intitulado Uma Geoestratégia para a Eurásia, que já antecipava algumas teses de seu livro O Grande Tabuleiro de Xadrez.

Nesse artigo, ele argumenta, com razão, que a Eurásia é o eixo geoestratégico do mundo, já que esse supercontinente, além concentrar boa parte do território e dos recursos naturais do planeta, conecta os dois grandes polos econômicos do mundo além dos EUA, a União Europeia e o Leste da Ásia. Para Brzezinski, é vital que os EUA tenham o controle desse supercontinente, caso queiram permanecer como a única e inconteste superpotência.

Pois bem, a geoestratégia concebida por Brzezinski implicava várias ações de longo prazo concomitantes. Em primeiro lugar, o fortalecimento da Europa unida, sob a liderança dos EUA. Para tanto, Brzezinski já sugeria, inclusive, a celebração de um tratado de livre comércio transatlântico, como o anunciado recentemente. Em segundo, o fortalecimento das novas nações independentes da Ásia Central e do Leste Europeu, que surgiram após o colapso da União Soviética, e a consequente expansão da OTAN até a Ucrânia. Em terceiro lugar, e mais importante, a geoestratégia de Brzezinski previa o enfraquecimento da Rússia e o enquadramento de sua política externa nos imperativos geopolíticos dos EUA e seus aliados.

Essa geoestratégia colidiu, obviamente, com o fortalecimento da Rússia sob Putin e a formação do BRICS. A crise da Ucrânia nada mais é que a expressão visível e aguda desse choque geoestratégico.

Para fazer frente a esses novos desafios, os EUA reordenaram sua geoestratégia, que antes estava centrada na luta contra o terrorismo e no Oriente Médio. A nova geoestratégia norte-americana, explicitada em 2012 com o documento “Sustentando a liderança global dos EUA: Prioridades para a Defesa do Século 21”, pretende se contrapor à crescente erosão de poder econômico e geopolítico dos EUA e aliados europeus e realizar movimentos de contenção da ascensão de países emergentes, notadamente os reunidos no BRICS.

Fazem parte dessa contraofensiva a TPP, a Trasn-Pacific Partnership, que inclui países asiáticos próximos à China, mas que exclui Beijing, e a Transatlantic Trade and Investment Partnership  (TTIP), que pretende reforçar os laços econômicos entre os EUA e a União Europeia.

Essa contraofensiva também implica o abandono parcial da política unilateralista de confrontação no Oriente Médio, que não funciona e consome volumosos recursos militares e estratégicos. Os investimentos no shale oil, mesmo com todos os problemas ambientais que geram, se inserem nessa tentativa de diminuir a importância do Oriente Médio, na nova geoestratégia norte-americana.

E o Brasil, como se insere, nesse tabuleiro geoestratégico?

Em primeiro lugar, é preciso considerar que o Brasil também é alvo da contraofensiva norte-americana.

A recente distensão das relações entre os EUA e Cuba, por exemplo, faz parte de um movimento de reaproximação da única superpotência do planeta à América Latina e ao Brasil. O conflito com Cuba sempre significou um entrave desnecessário e obsoleto para uma relação mais fluida com os EUA. A eliminação desse entrave, do ponto de vista dos EUA, ajuda a abrir caminhos para uma retomada de sua histórica influência na região.

A Aliança do Pacífico, um factoide do ponto de vista econômico e comercial, representa, na realidade, uma ofensiva geopolítica direcionada contra a integração regional, sob o disfarce de um regionalismo aberto voltado à integração assimétrica com os EUA e outras potências tradicionais. O alvo é o Mercosul e sua união aduaneira.

A contraofensiva geoestratégica dos EUA passa, na América Latina, pela tentativa de desarticulação da integração regional liderada pelo Brasil e pela limitação da influência da China e da Rússia na região.

Entretanto, essa contraofensiva não é necessariamente ruim para o país. Ao contrário, o Brasil pode se aproveitar dessas disputas para se projetar ainda mais no cenário mundial.

Essa possibilidade esbarra, contudo, na total cegueira estratégica das nossas elites.

Com o arrefecimento (não o fim) do ciclo das commodities e a crise que agora também afeta países emergentes e em desenvolvimento, ressurgiu com plena força o mito de que a recente política externa brasileira é equivocada e precisa se reorientar em direção ao seu “leito natural”, isto é, os EUA e demais potências tradicionais. Critica-se o Mercosul, a integração regional, a cooperação Sul-Sul, a parceria com os países emergentes e, é claro, também os BRICS,  grande foro que o Brasil utiliza para se consolidar como liderança mundial.

Para os que padecem dessa irremediável cegueira estratégica, o Brasil deve renunciar ao Mercosul e sua união aduaneira, à cooperação Sul-Sul e a um BRICS politicamente mais atuante e investir em acordos de livre comércio com os EUA e a União Europeia, de modo a se inserir celeremente nas cadeias internacionais de produção. Com a crise e a baixa das commodities, que demanda esforços para se aumentar as exportações, principalmente as exportações de manufaturados, em razão da óbvia contração da demanda interna acarretada pelo ajuste, essas teses ganharam contornos preocupantes de urgência.

Ora, isso seria um erro gravíssimo. A integração regional absorve mais produtos manufaturados brasileiros que todos os países desenvolvidos somados. A competitividade dos nossos produtos manufaturados em nosso entorno regional está relacionada justamente à união aduaneira. Sem ela, nossos produtos não poderiam competir com bens chineses, norte-americanos, europeus, etc. O mesmo ocorre com os outros vetores da nossa política externa, como a cooperação Sul-Sul e as parcerias estratégicas com países emergentes. Foram esses vetores que nos permitiram expandir nossa participação no comércio mundial, de 0,88%, em 2000, para 1,43%, em 2011, e elevaram substancialmente o protagonismo internacional do Brasil.

É claro que o Brasil, em sua condição de global player, tem de se aproximar mais dos EUA, da União Europeia e qualquer país ou bloco que queiRa, nesse momento de baixo crescimento do comércio mundial, estreitar seus laços de cooperação conosco. Mas o país tem de fazer isso a partir da posição de relevo e de alto protagonismo que conquistou justamente com esses vetores da política externa ativa e altiva, que nos livrou da antiga dependência e fragilidade dos tempos paleoliberais. Como membro do Mercosul e do BRICS, o Brasil pode muito mais.

 A celebração açodada de acordos de livre comércio assimétricos com potências tradicionais, somada a uma desarticulação da integração regional e a um baixo investimento no BRICS e nas demais parcerias estratégicas com países emergentes, acabaria transformando o Brasil num grande México, o país da América Latina, que nos últimos 12 anos, apresentou o menor crescimento do PIB per capita na América Latina, à exceção da Guatemala. O país que tem 51% da sua população abaixo da linha da pobreza.

Na recente viagem de Dilma aos EUA, Obama declarou, em alto e bom som, que seu país considera o Brasil não somente uma potência regional, mas também uma potência mundial. Não foi mera retórica diplomática. Foi constatação da verdade.

Contudo, o Brasil só adquiriu esse status perante os EUA e os demais países do mundo porque fez aposta geoestratégica correta de investir na integração regional, na cooperação Sul-Sul e nas parcerias com os demais BRICS. O Brasil se converteu em grande ator mundial porque, em essência, investiu em seus próprios interesses.

O grande risco do Brasil no atual cenário mundial não vem, portanto, do arrefecimento do ciclo das commodities e da crise internacional, que afeta todo o mundo. Na realidade, o grande risco do país provém de sua situação política interna e da cegueira estratégica de uma elite neocolonial que aposta obtusamente na volta a um passado de dependência e fragilidade.

O centro da política externa brasileira tem de continuar a ser a integração regional a cooperação Sul-Sul e as parcerias estratégicas com emergentes, particularmente com o BRICS, que se tornou, de fato, um novo polo político que contribui para o multilateralismo e uma ordem mundial menos assimétrica. É isso que nos cacifa para termos uma relação mais proveitosa com os EUA. É isso que nos faz potência.

Entretanto, se os interesses retrógrados internos preponderarem, talvez na próxima viagem aos EUA o Brasil não seja saudado nem como potência mundial, nem como potência regional. Seremos, de novo, apenas o quintal.

O papel do BRICS na cooperação internacional

Por Fátima Mello

Grupo avança passo a passo na consolidação dos marcos de sua constituição como bloco.

Dilma Rousseff e Vladimir Putin durante VII Cúpula do BRICS, na Rússia. Foto: Roberto Stuckert Filho/ PR

A cooperação entre os Brics (grupo de economias em desenvolvimento composto por África do Sul, Brasil, China, Índia e Rússia) vem se intensificando a cada ano e abrange uma ampla gama de temas e modalidades. Desde a sua criação, a principal arena de atuação do grupo tem sido nas instituições financeiras multilaterais e no G20, objetivando a sua democratização. Tendo emergido no ambiente da crise global desencadeada em 2008, o bloco priorizou a agenda econômico-financeira e os respectivos fóruns onde houvesse a possibilidade de defesa de suas economias e de iniciativas conjuntas para ganharem peso em meio às incertezas das economias das potências tradicionais. 

A atuação conjunta do bloco, no entanto, vem se alargando e abrangendo novas agendas, merecendo destaque iniciativas e projetos de cooperação intra-bloco e atuação conjunta nos fóruns sobre cooperação internacional. Cabe ressaltar, por exemplo, a recente realização daIV Reunião de Ministros de Saúde dos Brics, na qual foi aprovado um plano de cooperação do bloco, considerado por muitos analistas como um marco histórico na cooperação internacional em saúde em relação às doenças negligenciadas pelas multinacionais da indústria farmacêutica e pelos países do Norte, como a tuberculose, entre outras.

No que se refere ao sistema de cooperação internacional ao desenvolvimento, há um consenso de que oIV Fórum de Alto Nível sobre a Eficácia da Ajuda, realizado em 2011, em Busan, na Coreia do Sul, representou um marco na trajetória do sistema de cooperação internacional, em especial porque nele foram reconhecidas a existência e a importância da Cooperação Sul-Sul. O Fórum de Busan expressou o novo contexto da cooperação internacional, em que se movem múltiplos atores e se reduz a centralidade dos doadores tradicionais reunidos no Comitê de Ajuda ao Desenvolvimento (CAD) da Organização para a cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A Declaração de Busan anuncia uma parceria global, que abrange os doadores tradicionais, a Cooperação Sul-Sul, as economias emergentes, as organizações da sociedade civil e os financiadores privados, apontando que a cooperação internacional tende a se tornar um sistema multipolar e não mais somente Norte-Sul. Além disso, reconhece que os progressos realizados na implementação da agenda da eficácia – construída na trajetória dos fóruns anteriores, em especial em Accra e Paris – continuam muito aquém do esperado, pois a arquitetura da ajuda internacional sofreu mudanças profundas na última década e é preciso alargar a agenda da eficácia da ajuda para uma perspectiva mais abrangente de “eficácia do desenvolvimento”. A parceria global une, sob princípios comuns, diversos elementos e atores da nova arquitetura da ajuda, como os novos doadores e o setor privado, definindo graus diferenciados de compromisso para cada um, no pressuposto de que a ajuda pública é apenas um dos elementos necessários para a promoção do desenvolvimento sustentável.

A posição dos Brics em Busan foi de observação e de não assinatura da Parceria Global. O fato de que a parceria global ainda não tenha se constituído no âmbito da OCDE gerou resistências no bloco e resultou na não formalização de sua participação. Afinal, como Busan sinalizou que a cooperação internacional está se tornando um sistema multipolar, o Brics resistiu a se comprometer com os parâmetros, as condicionantes e as regras tradicionais da OCDE. Ficou claro que os Brics desejam desenvolver suas políticas e seus programas de cooperação sem que sejam regulados e constrangidos em seus interesses.

Desde a sua criação, em 2009, a cada cúpula realizada, o Brics avança passo a passo na consolidação dos marcos de sua constituição como bloco. É parte desse processo a assinatura de inúmeros acordos de cooperação em um amplo leque de setores. A Declaração de Fortaleza, tirada na Cúpula realizada em 2014 no Ceará, deixou clara, com seus 72 pontos de agenda, a disposição do bloco de atuar em uma vasta agenda de temas estratégicos em disputa na arena global. Nas declarações e nos atos assinados, os Brics estabelecem acordos de cooperação, como o Acordo Contingente de Reservas, o Memorando de Entendimento sobre Cooperação entre Agências de Seguro de Crédito à Exportação, um Acordo de Cooperação em Inovação entre os bancos nacionais de desenvolvimento dos países membros e o Acordo de Criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), que teve sessão inaugural realizada na terça-feira 7.

Com o aporte de capital inicial de US$ 50 bilhões e perspectiva de chegar a U$ 100 bilhões, o NBD emprestará somente para os membros do bloco, mas a sinalização dada é a de que depois também concederá recursos para não membros. Sua finalidade principal será o financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável, mas os governos reconhecem que não há definição alguma sobre o significado dado ao desenvolvimento sustentável. Afirmam, no entanto, o desejo de atuar conjuntamente em relação às mudanças climáticas e fortalecer as metas do desenvolvimento sustentável e a energia renovável.

O perfil de cada membro do Brics revela que, embora haja especificidades, há também muitos elementos comuns, tais como a definição de diretrizes para a cooperação de acordo com os interesses de política externa de cada país (o que também é uma característica dos doadores tradicionais), uma relativa baixa institucionalidade, a ideia de parcerias horizontais e a convergência entre programas de cooperação e investimentos, tornando difícil a delimitação do universo da cooperação propriamente dita entre muitos outros aspectos.

A evolução da Cooperação Sul-Sul e, em especial, da cooperação do Brics nos anos recentes levanta um conjunto de questões que demandam acompanhamento, debate e incidência por parte das organizações da sociedade civil.

Em primeiro lugar, a participação do Brics no Fórum de Busan sinaliza uma posição consolidada de interesse em disputar, como ator político, a agenda do sistema de cooperação internacional ao desenvolvimento ou o bloco estaria adotando uma postura mais defensiva e de resistência às restrições postas pelas regras do CAD/OCDE? O Brics gostaria de erguer um novo regime multilateral e novas regras para a cooperação ou não? Neste caso, como o bloco trataria temas sensíveis, como, por exemplo, condicionalidades em direitos humanos e participação social para a aprovação de projetos de cooperação?

Os Brics concebem sua cooperação como parte de uma agenda geopolítica que visa a aumentar o poder desses países na ordem global, relacionada inclusive à sua participação em outras instâncias globais, como o G20 e as instituições financeiras multilaterais, ou sua cooperação estaria mais orientada a viabilizar seus interesses de internacionalização de empresas, ampliação de investimentos internacionais, promoção comercial e exportação de serviços? A cooperação realizada pelos países do bloco tem potencial de ser qualitativamente distinta da Cooperação Norte-Sul? A narrativa da horizontalidade e do compartilhamento de experiências se realiza na prática? Até que ponto a cooperação dos Brics pode ser de fato separada da Cooperação Norte-Sul, tendo-se em vista o peso da cooperação trilateral e o fato de que os países dos Brics são, ao mesmo tempo, doadores e receptores? Ou seria esta cooperação complementar e subsidiária à CNS? Os Brics aportarão recursos suficientes para a cooperação internacional a ponto de serem significativos frente aos recursos do CAD/OCDE?

A crescente cooperação dos Brics ainda precisa avançar muito em seus aspectos conceituais e institucionais. Não raro existem problemas de ausência de marcos legais, de estruturas organizativas consolidadas, informação, transparência, mecanismos de monitoramento e prestação de contas, de controle público e participação social. A carência de uma institucionalidade dotada de mecanismos democráticos de acompanhamento produz importantes bloqueios à análise, ao monitoramento, à coordenação entre programas e projetos em países receptores e à consolidação da cooperação nos Brics como um caminho de reforma democrática do sistema de cooperação internacional.

Finalmente, é conhecido que as concepções e prioridades de desenvolvimento adotadas por um país se expressam e se projetam em suas políticas e em seus programas de cooperação. No caso dos países do Brics, não é diferente: seus modelos de desenvolvimento internos se refletem, com suas potencialidades e contradições, nos programas de cooperação implementados nos países receptores. É sabido também que tais modelos são fontes de importantes conflitos domésticos nos países membros do Brics, o que torna os temas da participação social e da democratização do processo decisório frente à formulação das políticas de cooperação internacional assuntos prioritários para todos os países membros do Brics.

*Esse artigo integra o estudo “BRICS e e Cooperação para o Desenvolvimento Internacional“, realizado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC) e apoiado pela ONG internacional Oxfam.

Banco dos Brics é oficializado e integrantes anunciam criação de universidade para o bloco

Via Opera Mundi

Putin ressaltou preocupação com economia mundial; Já Dilma considerou que bloco seguirá impulsionando o desenvolvimento global.

Os líderes dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) formalizaram, nesta quinta-feira (09/07), a criação do NBD (Novo Banco de Desenvolvimento), ou Banco dos Brics, com capital inicial de US$ 50 bilhões e cuja sede ficará em Xangai, na China. A assinatura do memorando ocorreu no marco da realização da 7ª cúpula do bloco, realizada na cidade russa de Ufá. A sessão inaugural da instituição financeira foi realizada na terça-feira (07/07), na capital russa, Moscou.

Além do banco, anunciado em julho de 2014 e cuja criação foi aprovada na última quarta (08/07) pelo Parlamento chinês, o presidente russo, Vladimir Putin, disse, em entrevista coletiva de imprensa, que será criada uma nova universidade para fortaler o sistema educativo das nações que integram o bloco.

Objetivo central da cúpula foi aprofundar o diálogo entre países que compõem os Brics e avançar na cooperação financeira. Agência Efe

Os Estados membros também acordaram coordenar os esforços com relação à segurança da informação, incluindo a internet. Será criada ainda uma rede de universidades comunitárias para melhorar o intercâmbio científico e tecnológico entre os integrantes do bloco.

Conjuntura política

Na declaração final da cúpula consta que os Brics rejeitam “as intervenções militares e as sanções econômicas unilaterais” e insistem que deve ser descartado “o dois pesos e duas medidas” nas relações internacionais, em menção indireta à situação da Rússia, que enfrenta sanções econômicas por parte dos Estados Unidos e Europa devido à crise ucraniana. Além disso, os líderes também manifestam descontentamento pela recusa dos EUA em ratificar a reforma já aprovada do FMI que “impede a revisão das cotas e do poder de voto em favor de países em desenvolvimento e emergentes”.

Em uma alusão à situação de países como a Grécia, mas sem citar Atenas, assinalaram que “as reestruturações das dívidas foram frequentemente lentas ou tardias. É algo que se deve tramitar em benefício de credores e mutuários”. Com relação a uma possível incorporação de outros países ao bloco, o ministro de Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, disse que a ampliação dos Brics não está em debate.

Economia

Os chefes de Estado e de governo das economias emergentes que formam os Brics reconheceram que o bloco enfrenta desafios globais, mas estão decididos a continuar sendo um motor de crescimento, um “farol de esperança”, como definiu o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi.

O início do funcionamento do banco e de um Fundo de Reservas em moeda estrangeira que o ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, qualificou como “um mini FMI”, foi considerado pelos cinco líderes dos Brics um marco no desenvolvimento do bloco. “Podemos dizer que este é um ano histórico para os Brics, um grande passo adiante”, afirmou o dirigente da África do Sul, Jacob Zuma, sobre as novas instituições financeiras.

O mandatário acrescentou também o Tratado do Arranjo Contingente de Reservas (CRA, na sigla em inglês), no valor de US$ 100 bilhões, é “uma das nossas mais importantes conquistas, já que nos dará a oportunidade de reagir a movimentos dos mercados financeiros de maneira ágil e adequada”. Do total de recursos do CRA, US$ 41 bilhões virão da China. O Brasil, a Rússia e a Índia contribuirão com US$ 18 bilhões cada e a África do Sul aportará US$ 5 bilhões.

O Banco do Brics deve iniciar as operações a partir do próximo ano, com aportes a projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável para os integrantes do bloco e, posteriormente, para outros países em desenvolvimento que apresentarem interesse. Com o banco, os países-membros esperam reduzir o domínio do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial sobre o sistema financeiro global e criar espaço para outras moedas, além do dólar norte-americano, no comércio internacional.

Após cumprir agenda na Rússia, Dilma seguirá para Itália, onde se reunirá com o primeiro-ministro Matteo Renzi, em Roma. Agência Efe

Putin, que falou em nome dos líderes presentes, ressaltou a preocupação com o atual cenário da economia mundial: “Estamos preocupados com a instabilidade dos mercados, com a alta volatilidade do preço do petróleo e das commodities, com o acúmulo da dívida soberana de uma série de grandes países. Todos esses desequilíbrios estruturais causam impacto direto na dinâmica de crescimento de nossas economias. Nessas condições, os países do Brics pretendem usar ativamente seus próprios recursos para o desenvolvimento interno”, ressaltou.

Já a presidente brasileira, Dilma Rousseff, disse que os Brics continuarão impulsionando o desenvolvimento global e que “a recuperação dos países desenvolvidos ainda é lenta e frágil” e que “o crescimento dos países em desenvolvimento foi agora afetado”. Ainda em seu discurso, a mandatária classificou os emergentes e os Brics como “a força motriz do desenvolvimento global”.

Mais cedo, durante encontro com o Conselho Empresarial dos Brics, ela enfatizou a importância do bloco no cenário mundial: “os países dos Brics foram responsáveis por 40% do crescimento mundial e pela intensificação dos fluxos econômicos entre os países”.

Ela acrescentou que até 2020, os países em desenvolvimento precisarão de um volume de investimento em infraestrutura superior a US$ 1 trilhão por ano. “Atingir essa cifra não será tarefa simples. O investimento externo mundial caiu quase 50% nos últimos cinco anos. É nesse cenário que o novo banco de desenvolvimento terá um papel importante na intermediação de recursos para projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em nossos países e, posteriormente, em outros países em desenvolvimento”, concluiu.

Veja a íntegra do discurso de Dilma no conselho internacional dos Brics:

Dilma reforça que Brics é força motriz do desenvolvimento global

Via Jornal do Brasil

Presidente citou crise mundial para destacar importância econômica do grupo.

Nesta quinta-feira (9), a presidente Dilma Rousseff destacou, na Rússia, a importância dos países do Brics (Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul) para impulsionar o desenvolvimento global num momento em que a crise financeira internacional persiste afetando países ricos e os em desenvolvimento. Dilma defendeu mais espaço para os países do grupo em organismos de governança mundial, como o Fundo Monetário Internacional e o Conselho de Segurança da ONU.

As declarações foram feitas durante discurso na sessão plenária da VII Cúpula dos Brics, realizada na Rússia. Dilma também destacou que chegou o fim do “super ciclo” das commodities e que, com a crise financeira, “a recuperação dos países desenvolvidos ainda é lenta e frágil e o crescimento dos países em desenvolvimento foi agora afetado”.

Dilma durante encontro dos Chefes de Estado e de Governo do Brics com Conselho Empresarial

“A persistência da crise passou a exigir das nossas políticas econômicas novas respostas. Sabemos que chegamos ao fim do super ciclo das commodities. Sabemos que ainda permanece muita volatilidade no setor financeiro. Os emergentes, principalmente os Brics, estou certa disso, continuarão a ser a força motriz do desenvolvimento global. Seu peso deve se refletir nas instituições de governança internacional, o que reforça a necessidade de reformulação do fundo monetário”, afirmou a presidente.

A reformulação no Conselho de Segurança da ONU também foi um tema citado por Dilma. “O Brasil acredita que um Conselho de Segurança da ONU reformado e ampliado será mais legítimo e eficaz no sentido de garantir a paz internacional e a segurança coletiva.”

O presidente russo, Vladimir Putin; o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; o presidente da China, Xi Jinping; e o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, acompanharam o discurso de Dilma.

 

“Brics deixam o mundo menos dependente de uma única fonte de poder”: entrevista com Celso Amorim

Via Deutsche Welle

Em entrevista à DW Brasil, ex-ministro Celso Amorim diz que Brics podem oferecer alternativas ao sistema financeiro mundial, diante da falta de vontade dos países do G7 para reformar os organismos internacionais.

Os líderes dos Brics – grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – se reúnem pela sétima vez este ano para discutir como tornar o fórum informal de países emergentes em um instrumento eficaz de desenvolvimento. Um passo decisivo já foi dado: todos os países ratificaram a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), mais conhecido como banco dos Brics, que deve começar a operar no início de 2016.

Para o ex-ministro Celso Amorim, que ocupou as pastas das Relações Exteriores (1993-1995 e 2003-2010) e da Defesa (2011-2015), os Brics podem oferecer alternativas ao sistema financeiro mundial diante da incapacidade do G7 – grupo formado por Estados Unidos, Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão e Reino Unido – de reformar os organismos internacioanais.

DW Brasil: Há quem diga que os países que compõem os Brics têm muito pouco em comum além do desempenho econômico – como, por exemplo, em questões de direitos humanos, proteção ambiental, defesa etc. O que mantém a unidade dos Brics?

Celso Amorim: Eu diria que o que nos levou a uma aproximação inicialmente foi um movimento entre três países que tinham, sim, muitas afinidades, que é o chamado IBAS: Índia, Brasil e África do Sul. E a Rússia e a China – países que não se encaixam na lógica do G7 [grupo formado por Estados Unidos, Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão e Reino Unido], mas, ao mesmo tempo, não podem ser considerados meros países em desenvolvimento – fizeram várias ações indiretas para, de alguma maneira, se aproximar do IBAS. Em 2006 o ministro russo [do Exterior], [Serguei] Lavrov, propôs que nós tentássemos fazer algumas conversas envolvendo o grupo dos Bric, que na época não englobava a África do Sul. Finalmente, depois de uma longa história, temos os Brics como eles são hoje desde 2011, um grupo de países que têm a afinidade, talvez, de não compartilhar algumas das afinidades do G7.

Que afinidades não compartilhadas com o G7 seriam essas?

Há um interesse comum dos países dos Brics, por exemplo, em reformar a estrutura do FMI, o sistema de cotas, o que já deveria ter ocorrido. Além de buscar mecanismos de autofinanciamento dentro do próprio grupo, ou de servir de base para financiamento de outros países em desenvolvimento. Há várias coisas que aproximam os Brics, apesar das diferenças em alguns aspectos que você mencionou – que, aliás, não são tão grandes como parecem. Porque, em relação à questão dos direitos humanos, você tem problema de racismo, de tratamento discriminatório de imigrantes, que também são problemas de direitos humanos, em países desenvolvidos. Mas essa já é outra questão.

No próximo ano deve começar a funcionar o banco dos Brics, que terá atuação similar à do Banco Mundial, e um fundo de contingenciamento para crises com papel similar ao do FMI. Os Brics chegaram ao ponto em que podem oferecer de fato uma alternativa às instituições financeiras internacionais já estabelecidas?

É um teste, sem tentar não podemos saber. A realidade é que, em grande parte, a criação desses mecanismos decorre da incapacidade ou da falta de vontade política dos países mais ricos, especialmente os do G7, em reformar os órgãos internacionais. Se nós tivéssemos tido uma reforma adequada do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, talvez não fosse nem necessária a criação do banco dos Brics. Talvez seja útil, de qualquer forma, ter uma alternativa de financiamento, mas ela teria sido menos urgente se essas reformas tivessem ocorrido. E eu acho que os Brics colaboram com uma coisa muito importante, que é a formação de um mundo mais multipolar, menos dependente de um único grupo ou de uma única fonte de poder.

E o que o banco dos Brics faria diferente do Banco Mundial?

Talvez oferecer financiamentos com exigências menos drásticas e menos burocráticas do que o Banco Mundial, porque eles administram o detalhe do detalhe da aplicação dos recursos, com muito pouca margem para a autonomia do país. E os Brics, como ainda são países em desenvolvimento, que enfrentam ou enfrentaram recentemente problemas econômicos, têm uma compreensão melhor de outros aspectos dos países em desenvolvimento, inclusive o desejo de dignidade, de autonomia, que são aspectos que, às vezes, as instituições financeiras internacionais desprezam. Veja o que está ocorrendo agora na Grécia, por exemplo, e todo o impacto que isso pode ter para a Europa.

Se o banco dos Brics existisse hoje, ele seria uma alternativa para a Grécia?

Ah, é uma boa pergunta… não sei se a Grécia quereria, nem estou sugerindo que isso ocorresse, nem ninguém está querendo que a Grécia saia da União Europeia ou do euro, onde ela tem ligações regionais. E essas coisas são muito importantes também, nós não podemos desconsiderá-las.

Mas ele abriria outras possibilidades nas negociações da dívida grega…

A questão é que as tradicionais fontes de poder financeiro não estão conseguindo resolver seus próprios problemas, como no caso da Grécia. Então é preciso, sim, procurar alternativas. A gente não pode, de antemão, ter certeza de que elas vão dar certo, mas elas podem servir como um elemento de emulação que ajude os próprios países mais ricos, do G7, a compreenderem que é necessário haver uma reforma do sistema de cotas do FMI e do Banco Mundial. Da mesma forma que a Alemanha busca uma reforma do Conselho de Segurança, da qual ela deseja ser membro permanente – junto com o Brasil, por sinal –, também é necessário mudar o sistema financeiro internacional, porque ele não corresponde mais às realidades dos dias de hoje.

Na semana passada, a presidente Dilma esteve em Washington, onde se encontrou com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e nesta semana, na Cúpula dos Brics, senta-se à mesa com Vadimir Putin, que aparentemente voltou a ser um inimigo do Ocidente. Como o senhor avalia essa estratégia? O Brasil pode se beneficiar fazendo alianças de todos os lados ou pode acabar em meio a um duelo de gigantes?

Bom, o Brasil também é um gigante. Nós somos metade da América do Sul, em termos de território e população, um pouco mais da metade em matéria de PIB. Não somos um gigante econômico, ainda, mas mesmo assim somos, apesar de toda a crise, a sétima economia do mundo, então não é algo tão desprezível quanto possa parecer. Aliás, é uma economia maior que a da Rússia. Eu acho que é natural que o Brasil procure diversificar suas relações.

Em Washington, falou-se inclusive em uma disposição para um acordo de livre comércio com os Estados Unidos…

Para dizer francamente, eu não creio em um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Eu participei ativamente da tentativa de negociação da Alca [Área de Livre Comércio das Américas] quando era ministro das Relações Exteriores no governo do presidente Lula. Participei de boa fé. O Brasil fez as propostas que achava que deveriam ser feitas, mas vi que havia muitas dificuldades. As exigências que eles nos faziam em matéria de solução de controvérsias para patentes de remédios, por exemplo, iam contra as normas da Organização Mundial do Comércio. Eu acho que um acordo de livre comércio primeiro teria que ser com o Mercosul, que já é uma união aduaneira. Pode haver acordos de facilitação de comércio, acordos até de facilitação de investimentos, tudo isso eu acho muito saudável e positivo, com os Estados Unidos, com a Europa e também com a China. Por que não? Se a China tem hoje excesso de capital e necessidade de investir, e se o investimento nos interessar, por que não? Nunca é bom colocar todos os ovos numa mesma cesta.

A China, aliás, está fazendo investimentos maciços na América Latina. Há quem alerte para o risco de se criar uma dependência chinesa. Mesmo no banco dos Brics, o maior aporte vem da China. O senhor acredita que exista esse risco?

Cada país defende seus interesses, isso é normal. Por isso mesmo é interessante para o Brasil, e para outros países de porte equivalente ao do Brasil, ter uma relação diversificada. Ninguém quer trocar uma dependência por outra. A China tem no momento um grande poder, uma grande capacidade de investimento, e isso tem lados positivos, porque pode ajudar no desenvolvimento da nossa infraestrutura, mas não vou dizer que não haja um certo risco. Mas as relações têm que ser equilibradas. Por isso acho muito correto que a presidente Dilma tenha recebido o primeiro-ministro chinês no Brasil, tenha ido aos Estados Unidos e agora vá se reunir com os Brics.

Quando eu falei em duelo de gigantes, o senhor disse que o Brasil também é um gigante. Qual é o potencial do país na arena internacional, na sua opinião?

O que eu posso dizer é que a minha experiência, tanto como Embaixador na ONU como ministro das Relações Exteriores por quase dez anos, e mesmo como ministro da Defesa, indica que o Brasil tem um potencial muito grande de servir como facilitador de diálogos. No caso do Oriente Médio, o Brasil tem uma boa relação com os países e, ao mesmo tempo, não tem interesses próprios a defender, não dependemos tão diretamente do fornecimento do petróleo deles. Isso nos dá uma margem melhor [de negociação]. Concretamente, nos foi pedido [em 2010] que ajudássemos no diálogo com o Irã sobre seu programa nuclear. Isso correspondeu a um pedido do presidente Obama, que disse: ‘nós precisamos de amigos que possam falar com quem nós não podemos falar’. E, juntamente com a Turquia, obtivemos uma declaração do governo iraniano que, se tivesse sido aceita, teria dado uma base muito melhor para o acordo que está sendo discutido agora.

O Brasil tem capacidade de atuar positivamente em várias situações. Na nossa região é óbvio: o próprio presidente Obama citou o que o Brasil já havia feito em Cuba. Mesmo que a gente não tenha atuado na mediação final para o restabelecimento das relações [EUA-Cuba], todos esses anos o Brasil procurou aumentar o diálogo, sempre levando uma mensagem positiva, por exemplo, quando se discutiu a revogação da suspensão de Cuba da OEA [Organização dos Estados Americanos] em 2009. Aliás, nos casos de Cuba e do Irã, ao adotar como regra o engajamento e não a confrontação, a política externa norte americana está ficando cada vez mais parecida com a política externa brasileira.

Eu acho que essa capacidade do Brasil tem a ver com seu tamanho, mas também com uma certa abertura, uma capacidade de compreensão dos interesses de vários países e de várias culturas. O Brasil é um país novo, dinâmico, não fica preso demais no passado.

Brics querem alternativa ao SWIFT

Por Igor Rozin | Via Gazeta Russa

Nova estrutura protegeria países de decisões arbitrárias tomadas por aqueles onde sob cuja jurisdição se encontra sistema atual. Foto: Shutterstock/Legion Media

Emergentes negociam a criação de um sistema de mensagens financeiras independente após boatos de que Rússia seria de sistema existente.

Os países do Brics estão discutindo a criação de um sistema análogo ao SWIFT (Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Globais), que hoje reúne mais de 8,3 mil organizações bancárias e clientes corporativos em mais de 208 países para trocar mensagens financeiras. A informação é do vice-ministro dos Negócios Exteriores russo, Serguêi Riabkov.

A ideia de se criar uma estrutura independente surgiu após uma onda de boatos sobre a exclusão da Rússia do sistema como forma de endurecimento das sanções ocidentais. Apesar de analistas financeiros não acreditarem nessa possibilidade, o Banco da Rússia está levando a sério a discussão sobre a criação de um sistema alternativo.

“Os ministros das Finanças [dos países do Brics] estão discutindo todo um conjunto de questões, inclusive a temática da organização dos sistemas de pagamentos e as perspectivas da crescente transição dos pagamentos para moedas nacionais.  A questão de usar ou não o SWIFT existe, mas estamos tratando, de qualquer forma, da possibilidade de se criar um sistema de pagamentos multilateral, no formato de uma união que poderia prover grande independência e, mais exatamente, criaria uma certa garantia para os países contra riscos ligados a resoluções arbitrárias nessa esfera, que poderiam ser tomadas pelos países em cuja jurisdição se encontram os sistemas de pagamentos operantes”,  disse Riabkov.

‘A China sabe o que quer, mas o Brasil não’, avalia economista sobre acordo entre os dois países

Por Luiza Bulhões Olmedo e Jaqueline Silveira | Via Sul 21

Professor de economia e de Relações Internacionais da UFRGS, André Cunha acompanha o avanço da China como principal parceiro comercial de boa parte do mundo e avalia acordo analisa acordo com o Brasil. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), André Cunha acompanha o avanço da China como principal parceiro comercial de boa parte do mundo, inclusive do Brasil. Recentemente, os dois países assinaram um acordo de US$ 50 bilhões, considerado um grande negócio pelo governo brasileiro. Contudo, o economista é cauteloso ao analisar os prós e contras da parceria com a China. Na opinião de Cunha, o governo federal não tem uma visão estratégica, ao contrário da China, de modo que a parceria pode não se tornar um bom negócio para a economia brasileira.  Ele também criticou o fato de não se discutir os grandes temas do futuro do país e de o Congresso se preocupar com coisas menores, sem entrar nessa sua pauta. Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Sul21:

Sul21 - O crescimento chinês alavancou juntamente grandes produtores agrícolas, como o Brasil. Quais as consequências de ter a nossa economia tão atrelada ao ciclo econômico chinês?

André Cunha – O processo de ascensão da China é caracterizado por um crescimento muito forte nos últimos 30 anos. E com o avanço da internacionalização chinesa de 2001 para cá, quando a China entra na OMC (Organização Mundial do Comércio), ela vai se convertendo no principal parceiro comercial de boa parte do resto da humanidade. Uma dimensão que se destaca dessa internacionalização é a demanda chinesa por recursos naturais, até para dar sustentação ao seu crescimento. Então, notamos que de 2002 até meados de 2011, 2012 tem uma elevação muito grande do preço dos recursos naturais, e também um aumento da demanda quantitativa associada a essa elevação de preços. Isso contribui de fato positivamente para países que são produtores e exportadores de recursos naturais, os países da América do Sul são um exemplo disso. Para países da América Central e do Norte, como o México, já é outra coisa. Metade da África que exporta recursos naturais e energia, beneficia-se desse processo; já quem importa recursos naturais se prejudicou, porque os preços subiram. De 2012 pra cá, os preços estão refluindo mais em alguns segmentos de commodities e menos em outros. (Commodities são essas mercadorias, principalmente minérios e gêneros agrícolas, com características uniformes que são produzidas em larga escala e comercializadas em nível mundial, de modo que seus preços são definidos no mercado internacional).

Uma característica para economias como a brasileira, que tem uma estrutura de produção diversificada, é que na medida em que vão dependendo de commodities, ficam mais expostas às oscilações de demandas e de preços. Na medida em que os preços deixam de ser favoráveis, a economia brasileira vai perdendo o dinamismo do ponto de vista de comércio exterior. A principal dificuldade é a excessiva especialização na produção e na exportação em uma economia que já era diversificada, o que remete a um processo que eu chamo de regressão. Nós estamos voltando à condição a que ficamos décadas tentando superar, que é a condição de uma economia primário-exportadora. De alguma forma, o Brasil está voltando a ter uma economia mais instável, que depende mais dos estímulos externos. O Brasil emerge no começo dos anos 1980 como o 8º maior parque industrial do mundo. Aliás, o Brasil produzia mais produtos industriais que todos esses países asiáticos juntos. E hoje, o Brasil recuou bastante nesse processo. Nós tínhamos quase 3% da produção mundial de manufaturas e hoje temos pouco mais de 1,5% dessa produção. A China, ao contrário: está crescendo pela diversificação produtiva e pela diversificação do seu comércio exterior. O Brasil está se especializando em recursos naturais.

“(…) O Brasil produzia mais produtos industriais que todos esses países asiáticos juntos, e hoje o Brasil recuou bastante nesse processo.”

Sul21 – Isso pode ser prejudicial para economia do Brasil futuramente?

Cunha – Nada é bom e ruim em si. É bom o Brasil ser competitivo, ser exportador de recursos naturais? É bom, mas o problema é ser só isso. Na medida em que o Brasil vai se especializando só nisso, na minha avaliação, isso reduz potencial de crescimento. Por quê? Quando a renda mundial cresce, a demanda por recursos naturais cresce, mas menos rapidamente do que a demanda de produtos industrializados. Ou seja, se o mundo cresce e eu estou especializado em recurso natural, a procura pelos meus bens cresce, mas menos rapidamente do que quando eu cresço, e compro produtos sofisticados. Esse é um processo que muitos chamam de regressão, porque o Brasil já foi isso quando era uma fazenda de café. Depois, deixou de ser, e agora está voltando. A indústria está perdendo participação no PIB (Produto Interno Bruto), o comércio exterior depende de poucos produtos: basicamente minério de ferro e soja, e isso para um país como o Brasil é difícil. O Brasil não é uma economia pequena e especializada, como o Chile, por exemplo, então, para nós, isso é problemático. Não estou dizendo que é ruim exportar soja ou minério de ferro. O problema é exportar soja para importar o resto. Não ter uma estrutura diversificada, isso é ruim, e é o que está acontecendo, infelizmente.

“Não estou dizendo que é ruim exportar soja ou minério de ferro, o problema é exportar soja para importar o resto.”

Sul21- Como funciona a política cambial chinesa, e como ela contribui nesse processo?

Cunha – A política chinesa tem evoluído ao longo do tempo, atualmente eles procuram administrar o processo de valorização de sua moeda. Acho que um pouco da tua pergunta é se a China manipula ou não o valor de sua moeda. Eu alguma medida, sim. O que a China usa é uma estratégia mercantilista. Qual é o país que ascendeu internacionalmente que não usou a estratégia mercantilista antes? Todos usaram. A Inglaterra foi mercantilista, os Estados Unidos foram mercantilistas, o Japão, a Alemanha, em certa etapa do seu processo de ascensão. Então nesse processo o que a China evita é a entrada de dólares toda vá para o mercado. Se fosse toda para o mercado, o preço do Renminbi (Yuan Renminbi -moeda chinesa) desabaria mais rapidamente e prejudicaria sua estratégia exportadora. E eles vêm administrando isso.

O problema do Brasil não é a China, o problema é o Brasil. Nós não temos estratégia para nada, nem para nos desenvolvermos, nem para lidarmos com ascensão chinesa. O que a China quer conosco, a China sabe. O que o Brasil quer com a China, o Brasil não sabe. Não temos uma estratégia para isso, então esse é o problema. O problema do Brasil não é a política cambial chinesa, o problema é que o Brasil não tem política cambial. O Brasil usou o câmbio como âncora para estabilizar preços, para combater a inflação. Faz 20 anos que faz isso. O real é valorizado e isso está matando a indústria. Minha perspectiva não é anti-chinesa, pelo contrário A China está ascendendo e já é a maior economia do mundo em poder de compra e a segunda em valores correntes de mercado, e é o nosso principal parceiro comercial. O que nós vamos fazer com isso? Essa é a questão.

“O problema do Brasil não é a China, o problema é o Brasil. Nos não temos estratégia para nada, nem para nos desenvolvermos, nem para lidarmos com ascensão chinesa.”

Sul21 – Com a crise internacional de 2008, e o fim do boom das commodities, o que muda na relação entre Brasil e China? 

Cunha – Durante o período de boom das commodities, não só o Brasil, como os países exportadores de recursos naturais em geral, tiveram um choque favorável nos termos de intercâmbio. Os preços daquilo que a gente exporta, dispararam; e os preços daquilo que importamos, como as manufaturas, estavam moderados.  E a China contribui nas duas pontas: importando as commodities e exportando suas manufaturas baratas. Agora, esse negócio reverteu, e a gente está crescendo menos em função disso. Parte do efeito da crise internacional ainda existe e agora até aumentou. O crescimento da China está reduzido, assim como a especulação no mercado de commodities. Parte do excesso de liquidez mundial voltou para os Estados Unidos, para comprar ativos financeiros, especialmente ações, dos Estados Unidos. Tudo isso contribui para a mudança dos preços das commodities. Como nós estamos muito dependentes desses preços, crescemos menos. Parte das nossas dificuldades tem a ver com isso, com a reversão desse ciclo. Quando o ciclo vai, eu vou, quando o clico cai, eu paro. Isso é uma economia dependente e reflexa. De lá pra cá, nós estamos patinando em parte por isso.

Sul21 – A nova onda de investimentos chineses, como desse anúncio recente de mais de US$ 50 bilhões, tem sido visto por muitos como uma grande oportunidade para o Brasil neste momento de crise. Mas o senhor vê com cautela esse acordo, então como avalia os reflexos para nosso cenário econômico?

Cunha – Temos de separar em duas coisas. Nós estamos numa situação em que a economia está em contração, o PIB terá uma queda neste ano, nós temos um governo com pouco apoio da sociedade, sem apoio no Parlamento, encurralado. Sem capacidade de reação, sem capacidade de propor uma estratégia de crescimento para o país, de ter uma agenda positiva para o país.  Então, os chineses surgem, nesse momento, e não é só aqui, como nossa a grande saída. Eles vêm para a América Latina fazendo acordos, comércio, investimentos no momento em que a América Latina está com grandes dificuldades. A China pode dinamizar nossa economia? Até pode, mas eu seria um pouquinho mais cauteloso. Não vai ser uma coisa imediata, da noite para o dia. Tem esse fundo que, supostamente, a Caixa Econômica Federal vai administrar, de US$ 50 bilhões, para investir em infraestrutura. Vamos ver quando o dinheiro chegar, como o dinheiro será usado. Isso não vai gerar efeito de curto prazo.

Esses projetos chineses são fundamentalmente de infraestrutura para canalizar a produção de recursos naturais do Brasil para ser vendido na China. É aquela ferrovia para ligar o Rio ao Peru, que vai contribuir para o avanço na destruição da Floresta Amazônica. Tudo isso para vender soja e minério de ferro. Soja e minério de ferro não desenvolvem um país como o Brasil, com 8,5 milhões de km² e com 200 milhões de habitantes. Vender soja para importar iPhone: isso não vai desenvolver o Brasil. Isso vai dar dinheiro para quem produz soja, dinheiro para quem importa iphone, e vai concentrar renda, porque não terá renda para todo mundo. Mas insisto, a culpa não é dos chineses, os chineses nos trazem uma grande oportunidade, agora a gente não sabe o que fazer com isso. Este governo não tem estratégia e os anteriores também não tinham. Os chineses têm: eles querem mercado consumidor, eles querem acesso a recursos naturais, eles querem trazer seus investimentos e seus trabalhadores, porque eles têm de criar emprego. Eles têm agenda e nos estamos frágeis.

“Vender soja para importar iPhone: isso não vai desenvolver o Brasil”

Sul21- O senhor disse que, neste momento, a economia está frágil. Mas há alguns setores da economia brasileira que podem ser beneficiados pela aproximação chinesa?

Cunha – Há promessas diversas. Vamos pensar na construção de ferrovias: o Brasil tem problema de infraestrutura, tem de investir em infraestrutura e o Estado não tem dinheiro suficiente para investir em infraestrutura, nossas empreiteiras estão quebradas, esse é um momento ruim. Uma coisa seria, por exemplo, se esses investimentos fossem feitos pela Odebrecht, a Camargo Corrêa. Não estou aqui defendendo as empreiteiras. Empreiteira tem de fazer obras, não pode se meter na política, não pode financiar campanha. Nós temos de moralizar esse negócio, mas temos de preservar essas empresas. O Brasil está num processo um pouco catártico, que a gente compreende, mas daqui a pouco não terá mais empresas. Se esse investimento chinês fosse realizado por empresas brasileiras, por nossas construtoras, se eu internalizo a produção de locomotivas e demando aço produzido aqui dentro, se encadeio com a estrutura produtiva, isso gera um resultado potencialmente positivo.

O fato é que se não conseguir encadear para dentro, esse investimento simplesmente vai ser para isso: um corredor para pegar a soja aqui e levar para lá. O cara da soja vai ganhar, o do minério de ferro vai ganhar. Isso agrega pouco dentro do país. Então, depende como é que nós vamos fazer. Como nós estamos frágeis e sem estratégias, o risco do resultado líquido na ponta não ser tão bom como se promete não é pequeno. Se nós tivéssemos estratégia, se o governo tivesse capacidade de impor uma agenda, se conseguisse agregar a sociedade, agregar o empresariado nacional, que também está enlouquecido neste momento, aí os ganhos poderiam superar as perdas. Principalmente os ganhos com o setor produtivo industrial. Seria extremamente benéfico para o Brasil que empresas chinesas se instalassem e produzissem locomotivas aqui com agregação de valor no Brasil, partes, peças e componentes sendo produzidos também aqui, encadeando com o que tem no país, usando as construtoras brasileiras, ia ser uma maravilha. Agora se vai ser assim, não sei. Temos que ver o que vai acontecer.

“Empreiteira tem de fazer obras, não pode se meter na política, não pode financiar campanha. Nós temos de moralizar esse negócio, mas temos de preservar essas empresas.”

Sul21 - Dentre os investimentos anunciados está uma ferrovia que ligará o Atlântico ao Pacífico. Qual o impacto desse empreendimento para o Brasil? 

Cunha – Pode ser positivo, pode ser negativo. Qual é o impacto ambiental que vai ter isso? A própria legislação ambiental que foi aprovada recentemente reduz a capacidade do governo central de regular e joga a responsabilidade para os governos locais, isso é trágico! Como é que vai funcionar esse encadeamento com os setores produtivos locais? Eu não li nada desses documentos, em geral esses acordos são cartas de intenções, como uma coisa muita bonita. Como é que funcionou isso lá no passado? Qual foi o país que aceitou uma situação passiva como essa, de ser mero fornecedor de recursos naturais e de mercado consumidor, e que tenha se desenvolvido? Nenhum. Se isso fosse bom, a China teria feito e não fez isso. A China atraiu investimentos, as empresas que foram para lá tinham de transferir tecnologia, era o que o Brasil tinha de estar fazendo, mas não é isso que está sendo feito. Para desenvolver o Brasil, esses projetos de infraestrutura teriam de ter outra lógica, outro encadeamento. Mas o que temos é um Estado sem estratégia, e neste momento em crise política e com um empresariado que também não tem a capacidade de enxergar ali adiante. Muita gente vai ganhar, uma parte do empresariado virou o que no passado se chamava de burguesia importadora. Não produz mais aqui, simplesmente importa. Então, essa estratégia da China interessa porque eles vão ganhar dinheiro importando, não vão produzir no Brasil. Por que isso? Porque o dólar está muito barato ao longo dos anos, então é mais fácil importar do que produzir aqui porque a estrutura tributária é uma loucura, porque o ambiente de negócio é horrível. Um Estado que não tem estratégia não corrige esses problemas, que não foram corrigidos nos últimos 30 anos.

Sul21 – Então, talvez o Brasil possa não aproveitar esse abundante capital chinês e ainda colocar em xeque nosso setor industrial? 

Cunha – O setor industrial vem em queda há 30 anos, antes de a China ascender. A China não determinou isso, mas esse processo tende a se aprofundar. A aproximação com a China, se fosse usada estrategicamente pelo governo e pelo setor empresarial, poderia ajudar a reverter esse processo. Agora, no curso que as coisas estão andando, o risco de aprofundar um processo que já existia é enorme. Neste momento, eu atribuiria maior probabilidade, porque a história não está fechada, a isto. O que discute o Congresso Nacional? É manter financiamento privado, é distritão, é distritinho. Quais são os temas estratégicos futuros do Brasil? Nenhum, zero. O governo encurralado, a sociedade não apoiando. Enquanto os caras estão batendo panela, os chineses chegam e tomam conta. E eles (chineses) estão fazendo o jogo deles. A sociedade não enxerga, a mídia não coloca essas questões, todo dia se abre o jornal e só se vê escândalo, a gente não vê isso sendo discutindo pela sociedade. As nossas possibilidades de futuro estão se decidindo nessas questões. Da forma como está, o risco do Brasil é de perder mais do que ganhar. Isso não quer dizer que não tenha gente que vai ganhar muito dinheiro.

“Enquanto os caras estão batendo panela, os chineses chegam e tomam conta.”

Sul21 – Como a relação do Brasil com os vizinhos latino-americanos é afetada pela presença da China no subcontinente?

Cunha – Historicamente, o Brasil vendeu manufaturas. Para quem é que nós vendemos automóveis, geladeiras? Para os vizinhos, onde a gente consegue alguma competitividade. O Mercosul nos protege, temos a tarifa externa comum, temos acordo automotivo. Acontece que esse processo de integração é um processo problemático, de muitas disputas. O Brasil e nossos vizinhos estão quase em permanente instabilidade, ou política ou econômica. Por poucos períodos de tempo a gente consegue respirar, ter uma certa tranquilidade. E agora nós estamos sem dinheiro. Se o governo central brasileiro não tem dinheiro para pagar os terceirizados que fazem prestação de limpeza nas universidades – tá todo mundo pedalando, todo mundo -, quanto mais para bancar um projeto estratégico para financiar exportações para os vizinhos. E se o Brasil não tem dinheiro para financiar suas exportações para a Argentina, a China tem. Os chineses fizeram um projeto grande lá na Argentina. O Brasil está de joelhos, no chão, não tem estratégia, não tem governo.

Uma parte da América Latina já decidiu o que vai fazer. A Aliança do Pacífico é México, Colômbia, Chile, Peru e esses caras vão para onde? Vão para a Ásia. Tem um acordo Transpacífico, com Estados Unidos, China e vários outros. O mundo está se movimentando e nós estamos aqui, parados. Renan Calheiros (Presidente do Senado) dando recado, Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) dizendo que não vai, discutindo coisinhas, cargo aqui, cargo ali, e o mundo indo, e a gente parado. A gente não faz nada de estratégico que possa gerar resultados efetivos a longo prazo. As exportações brasileiras estão relativamente perdendo Market share. Nós tínhamos 60%, 70% do mercado de calçados na Argentina, esse mercado cresceu porque a renda cresceu, por causa da dinâmica chinesa. Mas as exportações brasileiras pra Argentina crescem menos do que esse mercado e os chineses conseguem avançar. Isso está acontecendo em vários lugares. Esse é o efeito deslocamento do comércio (os mercados crescem, mas a fatia brasileira diminui) então isso está dificultando.

Vamos comparar Estados Unidos e China: quando os EUA estabeleceram a estratégia da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), que é baseada na integração do comércio, houve uma reação aqui. E o Mercosul era um elemento central dessa reação. Por que a ALCA não aconteceu? Era no período do Fernando Henrique Cardoso, que em tese tinha um maior alinhamento com os Estados Unidos, em tese era um cara mais liberal e poderia aderir a esse projeto. Por que isso não aconteceu? Porque o Brasil concorre com o EUA em agronegócio. Não era tão claro que íamos ganhar com essa integração comercial, aí houve uma reação e parou. E agora a China?  Ela tem complementaridade e, nessa medida, vai ampliando espaço e nossos países passam a depender mais gravitacionalmente da economia chinesa. E, portanto, passam a ter relações mais fugazes entre eles, inclusive pelo comércio. Hoje, as economias da América Latina, principalmente da América do Sul, estão muito mais vinculados à China do que ao próprio EUA. A China entra onde há vácuo: África, América Latina, onde não bate de frente com os EUA. Nota 10 para eles, estão fazendo direitinho o jogo.

“O Brasil e nossos vizinhos estão quase em permanente instabilidade, ou política ou econômica, por poucos períodos de tempo a gente consegue respirar, ter uma certa tranquilidade e agora nós estamos sem dinheiro.”

Sul21- E qual seria a diferença fundamental entre a relação que temos hoje com a China e a que tivemos um dia com os Estados Unidos?

Cunha – No Brasil, a forma como nos estruturamos enquanto nação, a nossa economia, a própria colonização, se deram a reboque no processo de desenvolvimento da Europa, da sua industrialização. Nós nos tornamos satélites, principalmente do ponto de vista econômico, embora tivéssemos, a partir do Século XIX autonomia política formal. Não éramos colônias formalmente, mas economicamente estávamos dependentes. Esse modelo primário exportador gera isso: nós vendemos recursos naturais, importamos manufaturas, crescemos menos, a nossa tecnologia não se desenvolve, a sociedade concentra riqueza. Quando o desenvolvimento é baseado em recursos naturais, quem é que tem acesso à riqueza? Quem controla a terra. Isso dificulta o processo de desenvolvimento em geral, ainda que hajam exceções. A ascensão da China recoloca essa questão para nós em função da nossa complementaridade. Não significa dizer que a China, conscientemente, deseja nos tornar uma colônia formal ou do ponto de vista estritamente econômico. Trata-se de um processo que tende a acontecer pela nossa complementaridade econômica com a China. A partir dos anos 1930, com a Segunda Guerra Mundial, a disputa EUA x União Soviética na Guerra Fria, abriu-se uma janela para que nossos países se industrializassem, se urbanizassem, se diversificassem. Esse contexto da Guerra Fria abriu espaço para nossa ascensão.

A ascensão da China nos remete ao modelo anterior porque nós não temos estratégia. Insisto, se tivéssemos, aproveitaríamos de outra forma. A diferença fundamental é que a China representa uma força gravitacional, como se estivéssemos fisicamente atraídos por um corpo estelar e entramos nessa órbita. Com os EUA, a diferença é que nós concorremos com o agronegócio, nós temos economias que concorrem mais entre si. Nós não somos área estratégica para os EUA, que está mais preocupado com a Ásia, o Oriente Médico; a América Latina está lá. De alguma forma, o interesse dos EUA pra cá diminuiu. A China chegou em meio a esse vácuo de liderança local, com Estados nacionais relativamente fracos e instáveis, e ela com enorme apetite de internacionalização.

Sul21 – No âmbito das Relações Internacionais, fala-se muito da cooperação Sul-Sul. Nesse sentido, o que representa a parceria com a China?

Cunha – Este termo, para mim, não se aplica para as relações sino-brasileiras. Como é que eu chamo a China, que é a maior economia do mundo em paridade de poder de compra, a maior população do mundo, uma potência nuclear, de parceria Sul-Sul? Isso é um eufemismo. Não existe Sul-Sul nessa relação. A relação Brasil-China é uma relação Norte-Sul, tal qual a relação Norte-Sul foi historicamente. Assimétrica, de dependência. Então, não é uma relação Sul-Sul. É a mesma coisa dizer que a relação dos espanhóis com os maias foi Sul-Sul. Não. Isso é para a retórica oficial. O Brasil é o espelho reverso da China. A China avança, se diversifica, investe em infraestrutura, qualifica os recursos humanos, é potência nuclear, tem elevada autonomi. O Brasil é o contrário: não cresce, a produtividade não cresce, não investe em gente. Aí é o reverso. Como é que eu vou chamar isso de Sul-Sul? O Brasil é grande, mas é grande e não tem força.

“Não existe Sul-Sul nessa relação. A relação Brasil-China é uma relação Norte-Sul, tal qual a relação Norte-Sul foi historicamente”.