O Botequim Desenvolvimentista de hoje traz os resultados de um estudo elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi) e a opinião dos especialistas Reinaldo Gonçalves, professor de Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (RJ), e José Carlos de Assis, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), sobre o plano norte americano de retomada da vanguarda tecnológica.
Estudo divulgado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi) aponta como os EUA estão se mobilizando em torno de uma estratégia nacional para garantir a liderança mundial na indústria da transformação. Através de uma resenha do relatório “Report to the president on capturing domestic competitive advantage in advanced manufacturing”, recebido pelo presidente Barack Obama em julho deste ano, o Iedi pondera que a indústria daquele país contempla não somente as novas tecnologias, como também todo o conjunto de fornecedores e produtores industriais locais que atuam globalmente através de processos eficientes, altamente integrados.

O documento partiu do conselho presidencial de Ciência e Tecnologia (President’s Council of Advisors on Science and Technology – PCAST) e foi preparado pelo Comitê de Parceria em Indústria de Transformação Avançada. Na apresentação do texto os autores esclarecem que o objetivo é identificar oportunidades de investimento no setor de ponta da indústria, para assim revolucionar a indústria americana.
“A execução deste tipo de relatório evidencia a importância estratégica que o país mais poderoso do mundo atribui ao desenvolvimento industrial de ponta e serve de inspiração para o Brasil também pensar estrategicamente sua indústria como um setor fundamental para o sucesso da trajetória de desenvolvimento econômico”, resume o instituto, esclarecendo que as propostas do PCAST estão organizadas em três pilares: inovação, formação de talentos e melhoria do ambiente de negócios. Ao todo, são 16 recomendações, entre elas o estabelecimento de uma “estratégia nacional de indústria de transformação avançada”, que inclui o estabelecimento de um portal nacional.
Quanto à formação de talentos, não está excluído o aproveitamento de talento de militares veteranos e o investimento em educação de nível médio. Por sua vez, as políticas de regulação são defendidas de forma explícita, bem como as estratégias para garantir a oferta de energia.
Inovação e guerra
“Apesar de muitos países desenvolvidos estarem presos a programas de austeridade fiscal, outros mecanismos de superação das crises capitalistas estão em pleno vigor, como a inovação tecnológica e a guerra”, pondera Reinaldo Gonçalves, professor de Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (RJ). Gonçalves destaca cinco saídas tradicionais para as crises capitalistas: gasto público, distribuição de renda, exportações, inovação tecnológica e a guerra, “que, por sinal, é o que se queria evitar com a ação anti-cíclica do Estado e distribuição de renda”, lembra, ponderando, ainda, que a alternativa de exportar fica prejudicada em contexto de crise globalizada.
Por sua vez, José Carlos de Assis, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), observa que as vendas para o exterior, apesar de abaladas, são a estratégia mais clara e bem sucedida atualmente nos EUA, que em cinco anos inverteram sua posição comercial com o Brasil, passando os norte-americanos a ser superavitários. No mais, nem os EUA nem o G20 conseguiram, segundo o economista, atuar de maneira mais incisiva para regular do sistema financeiro e distribuir renda.
Na estratégia exportadora de Barack Obama está incluída a desvalorização do dólar para aumentar a competitividade. “Para se defender, o caminho para o Brasil é aprofundar o processo de integração sul-americana”, propõe o professor a UFPB. Ele defende um acordo regional que incluiria a integração das cadeias produtivas no continente. “Há problemas políticos para esse acordo, já que Peru, Chile e Colômbia têm tratado de livre comércio com os EUA. Mas é possível começar pactuando com os demais países, para depois atrair aqueles”, argumenta.
Integração e investimento público
Além da implantação de cadeias produtivas comuns, Assis requisita um projeto comum de infra-estrutura continental. “Uma iniciativa destas poderia ter grande efeito já em médio prazo”, reitera, ressaltando a importância do investimento público a partir de uma estratégia pré-determinada também em nível nacional. Nela, o professor da UFPB destaca a flexibilização da meta de superávit primário, para acelerar o investimento público, mas não desconhece que há recursos disponíveis que não são liberados por ineficiência de gestão.
“O crescimento pífio do Brasil neste ano já estava mais do que previsto. Uma razão adicional é que o investimento público está baixo, sobretudo por incapacidade de gastar dos ministérios. O Ministério dos Transportes dispunha de R$ 17 bilhões, mas não investiu nem R$ 5 bilhões em 2012. Em 2013, poderemos ter problemas de falta de recursos, pois arrecadação está caindo com a economia patinando. Mas o governo insiste no superávit primário. A perspectiva não é rósea. Espero que a presidente Dilma Rousseff descubra o caminho de transformar a América do Sul em um enorme canteiro de obras de infra-estrutura.
Plínio de Arruda Sampaio Júnior, economista da Universidade de Campinas (Unicamp), também não está otimista quanto ao futuro próximo. “Em 2013 a economia não vai parar mas o Estado será pressionado a privatizar, já que vem descartando o investimento. Desde que o PT chegou ao poder, o investimento da União não superou o 1% do PIB, percentual muito inferior ao necessário para puxar o desenvolvimento”, diz o professor da Unicamp, destacando que a pressão privatista já se faz evidente nas concessões de rodovias, portos e aeroportos.
“O governo do PT acaba cedendo. Os juros caíram, mas o governo continua proibido de gastar”, ratifica Sampaio Jr. Para ele, foi positivo o fato de o real ter se desvalorizado em relação ao dólar este ano, saindo a taxa de câmbio da faixa dos R$ 1,60 para R$ 2,10. No entanto, o professor da Unicamp não vê solução para o problema da importação de produtos e insumos industriais, que vem acelerando um processo de desindustrialização no país. “Boa parta do comércio externo é intra-empresas. Faz parte da estratégia mundial das multinacionais. O governo tem que entrar com alguma parte no investimento e obrigar as empresas que atuam no país a oferecer alguma reciprocidade, pois elas querem apenas concentração e privatização”, resume.
Manufaturados
José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), diz que a expectativa dos exportadores da indústria de manufaturados – de alto ou médio valor agregado – se deteriorou no Brasil. “As medidas tomadas até aqui têm sido apenas simbólicas. Fora da América do Sul está muito difícil exportar manufaturados, não apenas por causa da taxa de câmbio, que melhorou, mas ainda não é satisfatória. Mesmo assim, a Argentina claramente está dando preferência aos produtos chineses. Isso está fazendo com que o Brasil perca mercado.”
A expectativa do presidente da AEB é que as importações caiam em 2013, mas em função da desaceleração interna. “Novembro já mostrou que o fôlego está acabando”, diz, acrescentando que “há muitos outros custos que prejudicam a competitividade e o investimento”. Para Castro, o país está mais dependente do que ocorre no exterior, sobretudo porque os produtos básicos são a principal fonte de receita da pauta comercial.
“Ao contrário do que ocorre com os produtos mais sofisticados, não temos nenhum controle sobre os preços dos produtos básicos – commodities. Em 2013, teremos que continuar torcendo para que o mundo se comporte bem, para que preços das commodities fiquem num patamar bom”, analisa.



“Ainda que todos os poços de petróleo em operação atualmente no país fossem leiloados novamente à iniciativa privada, teríamos um total de aproximadamente R$ 27 bilhões anuais em royalties, que representam 0,6% do PIB”, calcula Ávila.