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Ambiente favorável para um novo ciclo de investimentos no Brasil – Aceleração exige pragmatismo governamental

BotequimO Botequim Desenvolvimentista de hoje traz um artigo novo de Cézar Manoel de Medeiros, Doutor em Economia pelo IE/UFRJ.

 SUMÁRIO

 I – Modelo de desenvolvimento em curso e convergências entre programas governamentais e estratégias empresariais de investimentos

II – Movimentos capazes de aumentar a formação bruta de capital fixo no Brasil

III – Novo Padrão de Financiamento de Longo Prazo em estruturação – Migração de aplicações financeiras de curto prazo para investimentos de longo prazo

I – Modelo de desenvolvimento em curso e convergências entre programas governamentais e estratégias empresariais de investimentos

Alguns movimentos em andamento no Brasil reúnem condições favoráveis para um novo ciclo de investimentos no Brasil a partir de 2013: – Em primeiro lugar, o próprio modelo de desenvolvimento em curso no Brasil baseado na estruturação de amplo mercado de massas através da inclusão e da ascensão social, que estimula o consumo, o que também, ao mesmo tempo, estimula investimentos. Quer dizer: o aumento da renda disponível resultante de aumento do nível de emprego, valorização do salário mínimo, elevações reais de salário médio, aumento das transferências de renda (Benefício de Prestação Continuada, Bolsa Família, Brasil sem Miséria, PRONAF, Luz para Todos, Minha casa minha vida, apoio a micro empreendedores individuais), além de crédito abundante dos bancos oficiais, resultam em aumento do consumo que cria mercados e estimula investimentos em bens duráveis, semiduráveis e não duráveis, que geram emprego e maior renda disponível para o consumo e assim sucessivamente.

A sustentabilidade deste modelo exige, no entanto, permanentes aumentos da produtividade, tanto da mão de obra, quanto do capital, para evitar pressões inflacionárias, o que exige, portanto, elevação e aceleração de investimentos.

Ademais, atender o consumo interno, em expansão e, ao mesmo tempo, evitar vazamentos pelo fornecimento resultantes de importações, é necessário aumentar a produção nacional, pelo menos no mesmo ritmo do crescimento do consumo interno.

O Governo brasileiro, desde 2005, voltou a exercer funções capazes de induzir, coordenar e participar, pragmaticamente, tanto de estímulos à expansão do consumo, quanto da promoção de investimentos necessários para elevar a produtividade e para evitar pressões inflacionárias.

Para aumentar a produtividade do capital, o Governo está implementando nova política industrial através dos programas “Brasil Maior”, da Estratégia Nacional de Defesa, do INOVA-EMPRESAS, do INOVA-PETRO, do INOVAR-AUTO (recentemente lançados pelo Governo), bem como do aperfeiçoamento dos planos-safra anuais, das desonerações fiscais e previdenciárias seletivas, bem como linhas de crédito pelos bancos oficiais em condições adequadas quanto a prazos e encargos financeiros.

O Governo Dilma além de acelerar os investimentos para a Copa (2014), liberou cerca de R$ 67 bi para investimentos municipais e estaduais (PROINVEST) e criou linhas de crédito para os Estados realizarem investimentos complementares ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e ao PNLI (Plano Nacional de Logística Integrada).

Para elevar a produtividade da mão de obra, o Governo está alocando recursos em importantes programas: FUNDEB, REUNI, PROUNI, FIES, PRONATEC em parceria com o Sistema “S”, “Ciências Sem Fronteiras” e, finalmente, de um ousado PNE – Plano Nacional de Desenvolvimento da Educação, recentemente aprovado pelo Congresso.

Em outras palavras: os programas em andamento possibilitam manter elevado nível de consumo, estimular a formação bruta de capital fixo em níveis capazes de  evitar pressões inflacionárias, aumentar a produtividade e obter um crescimento do PIB próximo de 4% a 5% ao ano;

II – Movimentos capazes de aumentar a formação bruta de capital fixo no Brasil

Devem ser salientados também, alguns movimentos de grande importância que dizem respeito à elevação da eficiência de máquinas, de equipamentos e do processo da construção civil, movimentos que, inclusive, oferecem subsídios para a estruturação de políticas públicas visando acelerar a formação bruta de capital fixo no Brasil:

1- continuidade do emparelhamento tecnológico (catching up) de vários setores industriais e de serviços que têm à sua disposição, novos paradigmas tecnológicos que proporcionam obter maiores níveis de produtividade e de competitividade empresarial sem maiores dispêndios com PD&I. Neste sentido, cabe enfatizar que empresas contam com apoio governamentais mencionados;

2- máquinas e equipamentos com menores divisibilidades técnicas, que possibilitam minimizar ociosidades e responder, com maior velocidade, a estímulos fiscais como, por exemplo: depreciação acelerada para vários setores, a exemplo do complexo mínero-metalúrgico, da agroindústria, da matriz energética, entre outras cadeias intersetoriais que o Brasil reúne vantagens comparativas;

3- o declínio dos preços de investimentos em relação aos preços de bens e serviços finais em conjunto com a disponibilidade de adequadas linhas de créditos torna bastante atrativo adquirir maquinas e equipamentos. Além disso: a ociosidade e o crescimento de estoques, tanto no Brasil, quanto a nível global, permitem prever mais reduções de preços no setor de máquinas e equipamentos;

4- incorporações de TI&C (tecnologias de informação e de comunicação) em modernas máquinas e equipamentos possibilitam minimizar tempos e movimentos em vários setores: mineração, logística, construção civil, entre outros. No caso de edificações, a utilização de modernos equipamentos e de materiais de construção mais eficientes e mais baratos e, no caso da construção pesada, as adoções de novos métodos de terraplanagem e de pavimentação minimizam tempos e movimentos para acelerar instalações de usinas, de fábricas e de obras de rodovias, ferrovias, barragens, portos, aeroportos e logística integrada;

5- modernização estrutural de organizações empresariais através de alianças, fusões, aquisições e parcerias público privadas estratégicas, que elevam escalas, capturam sinergias e estabelecem relações mais estreitas entre  fornecedores e clientes no território nacional, podem acelerar o adensamento e o enobrecimento de algumas cadeias intersetoriais.

Em suma, o modelo de desenvolvimento e os programas governamentais em curso, bem como os fatores elencados sintetizam importantes estímulos para viabilizar investimentos em relação ao PIB no Brasil e podem subsidiar a estruturação de políticas publicas para orientar e estimular investimentos empresariais.

III – Novo Padrão de Financiamento de Longo Prazo em estruturação – Migração de aplicações financeiras de curto prazo para investimentos de longo prazo

O momento é oportuno para viabilizar o financiamento de referidos movimentos.

A elevada disponibilidade de excedentes financeiros nos mercados domésticos e internacionais; os lucros acumulados pelas instituições financeiras e empresas estatais e privadas, nacionais e estrangeiras; as elevadas rentabilidades obtidas pelos fundos de aposentadoria complementar e pelos fundos de investimentos; os crescentes rendimentos das classes a, b e c; podem ser canalizados para estruturar novos fundos de investimentos e para viabilizar lançamentos de títulos mobiliários (debêntures, ações resgatáveis, etc.) de modo a dinamizar o mercado de capitais e, ao mesmo tempo, evitar aplicações financeiras especulativas.

O Brasil já  dispõe de instrumentos capazes para canalizar recursos para investimentos: a configuração do sistema financeiro em grandes conglomerados ou Bancos Universais contemporâneos; empresas estatais e privadas, nacionais e estrangeiras, capazes de gerar fundos próprios; seguradoras e administradoras de previdência privada complementar em pleno crescimento.

Os BUC’S (Bancos Universais Contemporâneos) atuam em todos os segmentos do mercado financeiro (banco comercial, operações cambiais, financeira, leasing, banco de investimentos, seguradoras, empresa de administração de previdência complementar, administração de consórcios imobiliários e bens duráveis, gestão de fundos de investimentos, etc.) reunindo, portanto, plenas condições para capturar o excesso de liquidez no mercado internacional proporcionado pela flexibilização monetária quantitativa (quantitative easing) nos Estados Unidos e Reino Unido, e pelo programa de transações monetárias diretas (OMT) do BCE na região do Euro, os excedentes financeiros resultantes de lucros acompanhados por instituições financeiras e de empresas estatais e privadas, nacionais e estrangeiras, e por fundos de aposentadoria.

A redução de taxas reais de juros, a redução do custo de capital e a criação de linhas de créditos adequadas quanto a prazos e encargos financeiros, estimulam a migração de recursos aplicados com rendimentos baseados na SELIC e em CDI para investimentos de longo prazo que garantem taxa de retorno superior a 8% a.a. É iminente, portanto, que os fundos de aposentadoria que tem compromissos atuariais a taxas de 5% a.a. e outros fundos de investimentos administrados pelos bancos, acelerem a migração de suas aplicações financeiras em projetos com taxas de retorno previstas pelas concessões para investimentos em infraestrutura.

O elevado nível de incertezas resultante da previsão de duradoura crise internacional exige pragmatismo para viabilizar a expansão de investimentos no Brasil, particularmente em infraestrutura, em elevação de competitividade industrial, em implementação de ousada Estratégia Nacional de Defesa e em integração física (infraestrutura regional) entre os países da UNASUL.

Neste contexto, cabe salientar, que o governo, particularmente nas primeiras licitações de projetos estratégicos de infraestrutura, organize a constituição de parcerias entre os bancos oficiais, os fundos de pensão das estatais, das empresas públicas e a EPL – Empresa de Planejamento e Logística – recentemente criada, e empresas estrangeiras, para estruturar SPE´s – Sociedades Para Propósitos Específicos – visando implementar PPP´s – Parcerias Público Privadas – estratégicas, o que sinalizaria a mitigação de riscos para novas licitações.

Cabe, todavia, chamar atenção, que acelerar a operacionalização das proposições, é absolutamente imprescindível garantir a eficiência da gestão pública via capacitação do aparato administrativo-institucional de modo a impedir desvios na alocação de recursos e no cronograma de execução de cada programa.

 

OS CONGLOMERADOS FINANCEIROS – ABORDAGEM KEYNESIANA E O FINANCIAMENTO DE INFRAESTRUTURA – NÃO HÁ NECESSIDADE DO TESOURO NACIONAL SUBSIDIAR BANCOS

 

BotequimO Botequim Desenvolvimentista de hoje é um artigo publicado este ano pelo Economista e Doutor pelo Instituto de Economia da UFRJ, Cézar Manoel de Medeiros

 

OS CONGLOMERADOS FINANCEIROS – ABORDAGEM KEYNESIANA E O FINANCIAMENTO DE INFRAESTRUTURA – NÃO HÁ NECESSIDADE DO TESOURO NACIONAL SUBSIDIAR BANCOS –

Cézar Manoel de Medeiros

Economista – Doutor pelo IE-UFRJ

MARÇO/2013

 

O sistema bancário brasileiro é um setor altamente oligopolizado não homogêneo. A diferenciação constitui a principal estratégia empresarial para conquistar maior participação no mercado.

Segundo Keynes, os bancos podem criar fundos rotativos baseados em depósitos à vista, em aplicações financeiras e em títulos de capitalização, com compromissos de curto prazo, captados junto a seus clientes, os quais possibilitarão financiar pré-investimentos (empréstimos – ponte para projetos de expansão e modernização de capacidade de produção, para efetivar, encomendas de máquinas e equipamentos, etc.). Estes empréstimos de curto prazo, que impulsionam investimentos, podem ser substituídos por títulos mobiliários (lançamentos de ações, de debêntures, bônus, etc.) adquiridos pelo mercado de capitais através de fundos de investimentos (funding) que são estruturados pelos próprios bancos credores.

Configurados em grandes conglomerados, ou verdadeiros Bancos Universais Contemporâneos, os bancos que atuam em vários segmentos financeiros: banco comercial, banco de investimentos, administradoras de planos de previdência e de consórcios, seguradoras, crédito imobiliário, leasing, financeira, operações de cambio e de cobrança, etc., podem, percorrer todo o circuito financeiro: empréstimos de curto prazo até o financiamento de longo prazo  e/ou  capitalização no mercado de capitais.

Os bancos operacionalizam, portanto, importante premissa Keynesiana: os investimentos são realizados à priori e não a poupança como propõem os economistas ortodoxos. Ou seja: o investimento gera emprego e renda, que geram consumo e poupança. Não é necessário sacrificar o consumo para obter poupança a priori.

A elevada disponibilidade de excedentes financeiros nos mercados domésticos e internacionais; os lucros acumulados por instituições financeiras e de empresas, nacionais e estrangeiras; as elevadas rentabilidades obtidas através de aplicações financeiras de curto prazo pelos fundos de aposentadoria e fundos de investimentos, e os crescentes rendimentos das classes b e c; podem ser capturados pelo novo BB para estruturar fundos de investimentos de longo prazo para viabilizar lançamentos de títulos mobiliários (debêntures, ações resgatáveis, etc.), de modo a dinamizar o mercado de capitais

Os conglomerados financeiros privados, além do BB e da CEF, poderão capturar o movimento de mão dupla que vem sendo observado no Brasil nos últimos vinte anos: grandes empresas estão criando seus próprios  bancos e/ou financeiras, enquanto conglomerados financeiros estão procurando realizar associações societárias com grandes empresas; o Banco do Brasil poderá aumentar sua eficiência empresarial e obter maior lucratividade na medida em que efetivar PPEE´s – Parcerias e Participações em Estratégias Empresariais – com o objetivo de  conquistar novos clientes, obter maior participação no mercado financeiro e melhor aproveitar o referido movimento de mão dupla entre o sistema financeiro e as grandes empresas do setor produtivo.

O resultado deste movimento poderá ser, com certeza, a criação de um novo padrão de financiamento de longo prazo complementar ao BNDES, que é pré requisito para viabilizar a expansão de investimentos em infraestrutura (PAC – Programa de Aceleração do Crescimento – , PNLI recentemente lançado); em indústrias intensivas em capital e em conteúdo tecnológico (Brasil Maior, PAC Ciência e Tecnologia, Estratégia Nacional de Defesa) em um contexto de taxa básica de juros reais inferior a 2% a.a, menor custo de capital, TJLP inferior a 5%a.a e, portanto, rentabilidade ou taxa de retorno aproximadamente 8% a.a, que ainda é bastante atrativa, principalmente para fundos de pensão e administradoras de previdência complementar cujos compromissos atuariais estão próximos de 5% a.a, e para empresas que acumularam lucros elevados nos últimos anos;

Portanto, não há necessidade de repasses de recursos do Tesouro Nacional captados através de emissão de títulos públicos, que envolvem elevação da dívida pública, para bancos. Muito menos com subsídios. Ademais, basta o Banco Central reduzir depósitos compulsórios para possibilitar criação de fundos de investimentos visando aplicações em PPPs – Parcerias Público-Privadas – estratégicas para viabilizar investimentos em logística, portos, aeroportos, matriz energética com taxa de retorno de 15% a 16% a.a.

A propósito, cabe chamar a atenção que, diante das necessidades de migração de recursos aplicados em títulos de curto prazo baseados em CDI e SELIC pelos fundos de pensão (compromisso atuarial de aproximadamente 5% a.a.), bancos e fundos de investimentos, empresas e rentistas é perfeitamente factível canalizar recursos para infraestrutura garantindo taxa interna de retorno em torno de 10% a.a.

O Governo acertou na antecipação da modicidade tarifária de energia elétrica com a garantia de taxa de retorno de 6,5% a.a.. Porém, além de estar sendo incoerente ao garantir taxas de retorno entre 13% e 15% para projetos de infraestrutura (rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos, etc.) que resultarão em elevadas tarifas e, consequentemente, em pressões inflacionárias, está, também, elevando lucros e dividendos e, assim, promovendo maior concentração de renda e, de certa forma, reduzindo a importância de programas de transferência de renda (Bolsa Família, Brasil sem Miséria, Brasil Carinhoso, PRONAF, Luz Para Todos, Minha Casa Minha Vida, etc.).

Em outras palavras: O Brasil, no que tange a investimentos está em uma fase de transição. As taxas de juros reais inferiores a 2% e a redução dos custos de formação de capital, apresenta ambiente oportuno para investimentos. No entanto, os investidores, habituados a elevadas rentabilidades garantidas pelas concessões de serviços públicos, ainda estão revendo o processo de tomada de decisões. Contudo, a abertura para o capital estrangeiro, além da migração de recursos mencionada acima, viabilizarão, com certeza, eliminar, já no curto prazo, as incertezas e, assim, atrair investidores indecisos para participarem de novas licitações para projetos de infraestrutura.

Roberto Amaral/Ex-ministro de Ciência e Tecnologia

Por Rogério Lessa no Monitor Mercantil

Na globalização, C&T são uma questão de segurança nacional

Botequim

Em entrevista exclusiva ao MM, o ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral classifica as duas áreas como questão de segurança nacional. Além de defender um pacto social em torno de um projeto de desenvolvimento nacional, Amaral recomenda que aproveitemos a crise, “quando tradicionalmente os países desenvolvidos se esquecem do Hemisfério Sul”, para avançar nas relações Sul-Sul e construir mercados alternativos, que nosso estágio de desenvolvimento tecnológico pode atender.

Qual seria a saída para emergentes que exportam cada vez mais produtos primários e geram empregos de baixa qualidade?

O Brasil tem uma deficiência histórica, que vem dos anos 50, particularmente dos Anos Dourados de JK. Nosso projeto de desenvolvimento estava fundado na importação de tecnologia e no investimento das multinacionais. Essa tecnologia, que era simbolizada pela indústria automobilística, era de quinta categoria. Chegamos aos anos 90 assim. A única frase correta de Fernando Collor foi afirmar que nossa indústria automobilística produzia carroças.

O exemplo vale para a indústria nacional como um todo?

Sim. Nos anos 70, época do famoso “milagre” da ditadura, esteve aqui uma delegação da Coréia do Sul, que queria conhecer o tal milagre. Na época estávamos à frente da China, da Índia e da própria Coréia. Ao final, um emissário coreano afirmou que não fora bem-entendido: “Não estamos interessados em ter uma linha de produção, mas de produzir nossos veículos.”

Hoje a Coréia nos ultrapassou. Por quê?

Por que optamos pelo projeto neoliberal, enquanto a China preferiu o planejamento. Ficamos para trás em todos os indicadores. Aqueles países adotaram a participação do Estado no desenvolvimento econômico. Aqui o projeto neoliberal chegou ao extremo no governo dos dois Fernandos (Collor e Cardoso). Tínhamos um tripé estatal-multinacional-indústria nacional privada. A estatal foi desmontada, enquanto nossa indústria não investe em inovação. Acha mais barato e seguro alugar royalties do que investir em tecnologia. Por sua vez, as multinacionais só investem em tecnologia em suas matrizes.

Quem no Brasil ainda investe em ciência e tecnologia?

O Estado. Mas os dois Fernandos desorganizaram o sistema das estatais. Hoje, o pouco que temos de investimento ainda é promovido pela universidade pública – a universidade privada, quando investe, é com recursos da Capes e CNPq – Finep e agências estaduais, como Faperj e Fapesp. O capital nacional não investe. Temos um buraco que cresce a cada minuto. O mundo de hoje é dividido entre conhecimento e ignorância. O mundo digital e o mundo analógico. Os países ricos são os que detêm o conhecimento.

Os países são pobres quando não produzem conhecimento…

Ciência e tecnologia atualmente é uma questão de segurança nacional, bem como o investimento em pesquisa. Todo e qualquer país tem uma marca. Perfumes franceses, vinho, indústria norte-americana, azeite grego, moda italiana. Qual a marca brasileira? Somos o maior produtor de grãos de café do mundo e o maior exportador é a Alemanha. Temos café abundante e não fomos capazes de inventar uma máquina de fazer café.

Qual a sua opinião sobre a Embrapa?

É motivo de orgulho para o país. Mas não agrega tecnologia industrial. Mas se foi possível fazer a Embrapa, por que não é possível repetir a experiência em outros setores? Por que estamos há 35 anos paralisados com o programa espacial? Por que esperamos 35 anos para fazer Angra III. Estamos sem estratégia, sem projeto nacional. Algumas pessoas pensam que é publicar um texto no Diário Oficial. Mas é reunir a sociedade brasileira em função de alguns objetivos.

Quais são os principais objetivos nacionais?

Em torno de melhor distribuição de renda, oferta de empregos qualificados, elevação do nível educacional, poderíamos reunir a sociedade. A questão estratégica é eleger o fundamental. Temos uma crise de energia. Estamos demorando 20 anos para fazer uma hidrelétrica, mesmo sendo, ao lado de EUA e Rússia, o país de maior potencial, por questões ambientais falsas. Insegurança econômica e técnica extraordinária. Estamos, em pleno Século XXI, dependendo de São Pedro. Isso é dramático. E, no entanto, todos querem ter ar-condicionado em casa, janelas de alumínio, usufruir do progresso, como se não dependesse de energia. Não há possibilidade de desenvolvimento sem energia boa, barata e confiável. Não há precedente no mundo.

O que é mais relevante em uma estratégia?

Em torno dela não pode haver óbices. Sem energia não há educação, desenvolvimento, comércio, qualidade de vida. É fundamental também ter autonomia na área espacial. Não é lançar foguetes para cair na Califórnia, mas satélites para ter o controle de seu próprio território. Se não controlarmos nosso território, teremos de alugar satélites norte-americanos, indianos ou chineses para controlar espaço aéreo, quadro metereológico, o desmatamento da Amazônia. Muito menos as fronteiras. Estamos dependendo do Oceano Atlântico para várias coisas. É considerado outra Amazônia. Temos o pré-sal. Como defender nosso litoral sem submarinos de propulsão nuclear? Um submarino convencional fica horas submerso, enquanto o nuclear ficar meses. Precisamos eleger objetivos fundamentais e nos concentrar neles.

Qual a viabilidade política de um plano de desenvolvimento hoje?

Considero os oito anos de governo de Lula extraordinários, por vários motivos. Avanço da economia, das populações mais pobres, o mais efetivo programa de distribuição de renda que conhecemos. No entanto, faço uma crítica: fomos tímidos na reforma política e no debate político. Devolveremos o Estado recebido do neoliberalismo sem modificá-lo. Esse Estado é antipovo, enquanto poderia ser fundamental para os pobres. A burguesia pode pagar plano de saúde e escola particular. Esse é o grande desafio dos dois últimos anos de Dilma Rousseff na presidência e o grande desafio dos partidos de esquerda.

Há exemplos de países que se concentram mais na estratégia sem, porém, ter êxito no desenvolvimento. Seria um problema mundial?

Os EUA declararam em diversos documentos serem contra o desenvolvimento aeroespacial no Brasil. Quando formos fazer acordo com a Ucrânia, foi exigido, por incrível que pareça, a anuência dos EUA, que autorizaram, mas frisando que o Brasil não precisa de um programa espacial. Devemos discutir nossa posição, e não a deles.

Em vista disto não seria necessária nova estratégia dos países periféricos?

Até na Europa, com apoio dos EUA, os banqueiros conseguiram destruir a União Européia, impondo a recessão. Talvez o futuro da Europa seja ser um museu a céu aberto. Alguns países, como a Alemanha, se manterão na ponta, mas, em geral, optaram por diminuir o consumo interno para gerar excedentes exportáveis. Na globalização todos querem isto, inclusive Brasil e EUA. Aí está o impasse. Uma segunda questão relevante é o déficit orçamentário norte-americano. No momento ele é financiado principalmente por China e Alemanha. Esta última já anunciou que vai reduzir suas reservas em dólar.

A China segue crescendo acima de 7%, enquanto estamos tentando desenvolver o Mercosul, que é muito importante, pois o bloco é nosso principal importador, não EUA ou China. Devemos priorizar as relações Sul-Sul. Dificilmente vamos competir com EUA, Japão ou Alemanha exportando tecnologia. Mas nossa tecnologia está no nível das necessidades de importação de América do Sul, Latina e Sul da África. Se conseguirmos construir um grande mercado no Hemisfério Sul, teremos um consumidor alternativo.

Como vê os movimentos que estão surgindo pela paz e pelo desenvolvimento do Brasil?

A guerra é um determinismo do capitalismo e a paz é anti-econômica. Na crise, os países desenvolvidos só têm uma alternativa para produção e consumo: a guerra. Pouco podemos fazer contra isso. Os EUA desde a II Guerra não tiveram um dia sem guerra. E guerra imperialista, não é guerra de defesa. É guerra para conquistar riquezas. O fim da União Soviética foi muito ruim para a humanidade. Até então, tínhamos dois players. A força de um limitava a força do outro. Agora temos um imperialismo de rédeas soltas. Temos de evitar que chegue ao Hemisfério Sul e aproveitar que, nas crises, eles se esquecem de nós e, tradicionalmente, temos aproveitado para aprofundar o desenvolvimento.

 

O que explica os apagões recentes de energia no país

Por Gustavo Santos

BotequimEntre a alta da gasolina e queda nos níveis dos reservatórios o Botequim Desenvolvimentista de hoje vai tentar entender as verdades e os mitos que estão por trás da polêmica envolvendo uma suposta  crise energética no país. O entrevistado de hoje é o engenheiro Fernando Siqueira, vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET).

O que explica os apagões recentes de energia no país? 
R: Acho que esta resposta deve ser dada pelo Roberto. Ele conhece como ninguém o setor elétrico. Sou engenheiro eletricista de formação, mas hoje estou mais envolvido com o petróleo. O meu “palpite” é que o planejamento e a coordenação que eram feitas de forma integrada e competente pela Eletrobrás foi desmontado. E hoje não é feito um planejamento estratégico, plurianual; o plano nacional, mercantilista, e economista está capenga como tem mostrado o
Roberto, o Pinguelli, o Joaquim Carvalho e o Ildo Sauer,

Como avalia a política de energia do governo Dilma? 
R: Está muito aquém do que gostaríamos e do que o Pinguelli e o Ildo propuseram no programa do 1º Governo do Lula. Além dos defeitos da coordenação e do planejamento equivocado do setor elétrico temos erros graves no setor petróleo: a Dilma eliminou o perigo de perder o segundo
turno com um discurso de defesa do pré-sal (“o pré-sal é nosso passaporte para o futuro”, disse ela). Mas agora cede às pressões da mídia e do cartel internacional e reabre os leilões, inclusive do pré-sal! No pré-sal já foram perfurados e encontrados mais de 50 bilhões de barris (Tupi 9bi, Carioca 10bi, Iara 4bi, Guará 2bi, Franco 9bi, Libra 15 bi, área das baleias 6bi), que
somados aos 14,2bi preexistentes nos dão uma auto-suficiência para mais de 50 anos. Portanto, o problema não é achar petróleo, que já temos de sobra.O que precisamos é apressar as obras das refinarias e construir novas. Em curto e médio prazos (20 anos) não precisamos investir em novas áreas de exploração, mas em refinarias. E exportar derivados. A exportação de petróleo
bruto dá um prejuízo à Nação de mais de 30%, só de impostos. E a Petrobras deixa de lucrar um valor acima de 50%.

O que explica a queda de produção da Petrobras? 
R: Os campos produzem segundo uma curva semelhante à de Gauss. A produção cresce, passa por um pico e depois cai. É assim em todo campo de petróleo, em todo o mundo. A queda é numa taxa média em torno de 6% ao ano. A curva de produção mundial apresenta um pico de produção em 2012 e uma queda acentuada a partir daí. Então é preciso repor essa queda; A Petrobras esticou mal a manutenção de algumas plataformas para não perder sua produção com as paradas. A Aepet fez carta advertindo sobre isto. Passaram a corrigir, mas o resultado em curto prazo foi afetado. Mas o fundamental é que a queda não foi tão grande quanto propalada, pois ficou entre 5 e 10% do previsto, o que é normal em se tratando de petróleo.
É importante citar que há uma campanha insidiosa, sistemática da mídia comprometida com o interesses externos. O cartel internacional não se conforma com a mudança de Concessão – Lei 9478 de FHC – que lhes dava 100% do petróleo produzido – para partilha em que a propriedade volta para a União. Também não querem que a Petrobrás seja a operadora única. O Wikileaks mostrou isto nos telegramas que publicou. Um deles, inclusive, revelador: ”Precisamos agir nos poderes do Brasil para retornar ao regime de concessão. Mas com cuidado para não despertar o patriotismo dos Brasileiros”. Hoje, vemos editoriais semanais dos jornalões e artigos diários de
vários e conhecidos jornalistas neoliberais engajados numa campanha para tentar mostrar que a Petrobrás não pode tocar sozinha o pré-sal. Os lobistas (“especialistas”) são os mesmos: Adriano Pires, João Carlos de Luca, Wagner freire, Eloi Fernandes e outros. Tem também os jornalistas “engajados” como Merval Pereira, William Waak, Miriam Leitão, Sardenberg e vários outros. Sempre são eles “os especialistas” que são entrevistados e convidados a dar palpite. Fizeram 8 audiências públicas no Senado e na Câmara em 2010 e 2011. Cada uma com cinco mesas e cada mesa com dois deles. Tentaram induzir os parlamentares a manter a Lei 9478, de FHC que dava o petróleo todo para as cartelistas, com a prerrogativa de só pagar 10% de royalties em dinheiro. Mas o importante é que temos reservas prováveis e provadas que nos dão uma grande segurança energética ao contrário dos países desenvolvidos. E a Petrobras resolve.

O futuro da oferta de energia no Brasil está no pré-sal? 
R: O pré-sal é uma reserva monumental de um energético que é o mais eficiente de todos. Ele pode propiciar ao Brasil um grande fôlego para que se desenvolvam as energias mais limpas como a hidrelétrica, a solar e a dos ventos (“eólica”), além das marés, que são renováveis e sustentáveis. Além do tempo maior ele pode ser também uma boa fonte de recursos para que
as outras energias sejam desenvolvidas. A nuclear também tem seu espaço. Ou seja, “o pré-sal é o passaporte para o futuro” do País e das energias renováveis, confiáveis e limpas.

Como avalia a situação atual da oferta de álcool ?
R: O álcool é uma fonte energética estratégica (inclusive o bagaço da cana), renovável e que não tem tido a importância que merece. Acho que a substituição do petróleo na sua mais importante função – a petroquímica – passa pela biomassa, que inclui o álcool e o óleo vegetal. Mas o álcool
está limitado pela ambição e falta de visão, tanto dos produtores quanto do Governo. As transnacionais já viram o seu potencial há muito tempo e agora a Shell comprou a Cosan, uma cooperativa de vários produtores. O ataque sobre a Amazônia, além dos seus minerais estratégicos, biodiversidade visa uma região com o maior potencial de substituir o petróleo. Há ali o trinômio básico: terras, sol e 68% da água doce brasileira, 12% da mundial. O álcool e a
biomassa como um todo merecem muito mais atenção e apoio.

Energia eólica e solar tem futuro no Brasil? 
R: Claro. A Empresa de Pesquisa Energética levantou um potencial de 140 GW de energia eólica (cerca de 10 vezes Itaipu). A energia solar também tem um potencial imenso. Somos um continente tropical, com um dos maiores níveis de insolação do planeta. O sol é um reator natural, manancial gigangtesco e inesgotável que gera as energias eólica, solar e biomassa. A eficiência
delas tem aumentado e o preço vem caindo. Falta uma coordenação e um planejamento para integrá-las à rede elétrica convencional inclusive com incentivo aos produtores como tem sido feito na Alemanha, na China, EUA e em vários outros países. Elas têm um Futuro auspicioso.

A oferta de energia está e continuará sendo um fator que limita o crescimento da economia? 
R: Não acho que seja o principal. Acho que o principal fator é a falta de planejamento e coordenação geral e, em particular, do Governo. Os modelos estão ruins. Está faltando visão estratégica nas equipes. As privatizações também atrapalham muito o planejamento integrado e esta coordenação. Hoje vemos os interesses de grupos prevalecerem sobre o interesse geral
e social. A venda de energia no mercado independente é uma especulação só. Irresponsável e sem um comprometimento com o crescimento, mas com o lucro. O Brasil ainda não deslanchou porque falta a coordenação, planejamento, política industrial (a compra de empresas nacionais por
estrangeiros é brutal estamos regredindo nesse aspecto), política educacional. O Governo só faz política e planejamento econômico. Precisa ter mais engenheiros e menos economistas na administração federal.

A Copa e os jogos olímpicos podem estar em risco por falta de energia?
R:
 Acho que não. Basta ajustar o modelo ao interesse nacional. Temos uma oferta adequada, uma matriz energética diversificada e um potencial hidráulico para dobrar a oferta no setor elétrico. No setor petróleo temos o pré-sal que pode contribuir muito. Outro fator importante é que os ambientalistas precisam ter mais responsabilidade e aprofundamento na questão energética e pararem de atrapalhar o desenvolvimento dos projetos de hidrelétricas. Acabam fazendo com que o uso cada vez maior de termoelétricas aumente em escala 10 vezes maior a poluição do meio ambiente. Nós temos tudo para dar certo. Só falta organização, coordenação, conhecimento e integração.

Como aumentar a oferta de energia no Brasil sem comprometer o meio
ambiente? 
R: Devemos aproveitar cada vez mais a energia limpa, renovável e eterna que o sol nos oferece por ser um reator de fusão nuclear que fornece uma imensa quantidade de energia, limpa, confiável e gratuita. Temos também como já dito, condições de dobrar a oferta de energia hidrelétrica. A biomassa em geral, e o álcool em particular, são energias renováveis e que reciclam carbono, ou seja, a planta seqüestra CO2, e pela fotossíntese, gera os hidratos de carbono que nos repassa a energia do sol, devolvendo esse carbono na combustão, sendo então uma fonte de reciclagem de carbono. O bagaço de cana oferece uma energia sustentável.Temos ainda um grande potencial na energia das marés. Só precisamos então investir no desenvolvimento e otimização dessas energias. Nosso potencial energético, a auto-suficiência e a diversidade energética é de tal ordem que nenhum outro pais detém igual. Planejemos, pois.

 

Estatais irrigaram o mercado livre com energia muito barata

Por Rogério Lessa no Monitor Mercantil

Botequim
O Botequim Desenvolvimentista de hoje traz o engenheiro Roberto D”Araujo,do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico (Ilumina). Ele tem denunciado que as maiores vítimas do modelo privatista do setor de energia adotado pelo governo Fernando Henrique e, segundo ele, mantido nas gestões do PT, são as empresas estatais.

Em reforço a essa crítica, o site Contas Abertas informou que o Grupo Eletrobras, composto por 19 empresas do setor de energia elétrica, deixou de investir 30,9% do orçamento de R$ 8,5 bilhões previstos para ano. O valor é a menor aplicação da companhia nos últimos quatro anos.

Nesta entrevista exclusiva ao MONITOR MERCANTIl, D”Araujo, frisa que a política do atual governo para o setor de energia sempre atendeu ao interesse do grande capital: “E o mercado livre, para o qual foi a grande indústria, era irrigado com energia quase gratuita das estatais”, compara o engenheiro.

am5O ciclo das chuvas parece ter normalizado. Significa que o abastecimento de energia não está mais ameaçado?

O problema não é a baixa hidrologia, que, aliás, no nível atual, é comum em países de clima tropical. O que gostaríamos de entender é por que, partindo de janeiro de 2012 com 78% de armazenamento no sistema, chegamos a dezembro com apenas 37%, sabendo que a hidrologia tinha piorado.

Situação parecida só ocorreu em 2003, mas, na época, a demanda havia caído 15%, situação bem mais confortável. A falta de explicações convincentes abre a possibilidade de que a obsessão por modicidade tarifária tenha atingido a modelagem matemática. O que o setor ainda não se deu conta é que, caso haja uma mudança de critério de despacho térmico, todo o modelo mercantil precisa ser revisto, pois os “certificados” de garantia física estão errados.

Isso ajuda a explicar os apagões recentes de energia no país?

É preciso esclarecer que o problema não é a interrupção, mas, sim, o tempo de recomposição do suprimento, que tem sido muito longo. Se o defeito é originado nas distribuidoras, pode começar com um simples curto e se espalhar por falhas no sistema de proteção que falha em “ilhar” o defeito.

“Apaguinhos” das distribuidoras duram muito tempo em função da filosofia de manutenção dessas empresas que insistem em terceirizar esse tipo de serviço. Rotatividade e diversidade de empresas fazem com que os profissionais não se especializem nas áreas a que atendem. Na transmissão, falta a modernização de subestações nas quais estão conectadas linhas de proprietários diferentes, o que complica as manobras, nem todas automatizadas.

Como avalia a política de energia do Governo Dilma?

A tarifa de energia, que só explodiu sob a gestão da ministra, mostra que há erros óbvios. Nada foi feito então, por que o mercado livre, para o qual foi a grande indústria, era irrigado com energia quase gratuita das estatais. Na minha opinião a política sempre atendeu ao interesse do grande capital.

Energia eólica e solar tem futuro no Brasil?

A energia solar deveria ser incentivada para aquecimento de água. Até hoje milhões de chuveiros elétricos consomem um absurdo de energia. A solar fotovoltaica mereceria uma política de pesquisa de ponta para resolver os problemas de preço. Que eu saiba, não há sinais dessa preocupação.

A oferta de energia é e continuará sendo um fator que limita o crescimento da economia?

Depende do que queremos produzir no longo prazo. Se continuarmos insistindo em fabricar materiais básicos, eletrointensivos, não há energia que chegue. A discussão da matriz deveria começar pela política industrial. No atual governo, a indústria de commodities parece estar no comando.

A Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos podem estar em risco por falta de energia?

Triste o país que precisa de um evento esportivo para garantir que sua energia tenha garantia e qualidade.

Como aumentar a oferta de energia no Brasil sem comprometer o meio ambiente?

Não existe fonte energética inocente no meio ambiente. Algumas atingem alguns aspectos e outras se chocam com outros. Mesmo a decantada eólica ocupa extensas áreas, mata aves migratórias e não são agradáveis de se conviver em função do ruído.

A única decisão coerente com a agenda ambiental é procurar eliminar a ineficiência do sistema. Perdas da ordem de 20% na distribuição são inaceitáveis. Eletrodomésticos ineficientes continuam sendo produzidos e só ganham uma letra D. Como são mais baratos, continuam nas tomadas.

Adaptadores se multiplicam aos milhões para atender a uma mudança de padrão feita da noite para o dia sem um estudo de compatibilidade com o que já existe. Fizeram a alegria da indústria elétrica, que ganha bilhões com mais essa trapalhada.

O Brasil está enfrentando os problemas de oferta de energia?

Acho que, fora o que está ocorrendo agora, na minha opinião, um problema de modelo de planejamento que não combina com o modelo de operação, sinceramente, acho que o Brasil não vai enfrentar problemas de oferta. O problema é: a que custo? Como ficará o setor com as estatais fragilizadas? Quem vai entrar de parceiro com os privados para viabilizar projetos que, sem a entrada de sócios institucionais, não sai?

Um projeto para implantação de energia solar em massa no país, voltado sobretudo para aquecimento de água, poderia fazer diferença substancial na demanda de energia?

A utilização óbvia da energia solar no Brasil seria para aquecimento de água. Chuveiros elétricos podem ter potência acima de 5 kw. Como há uma tendência de coincidência de uso horário, pode haver um alívio na hora da ponta, principalmente em São Paulo e no Sul. Se o Brasil passar a adotar a tarifa diferenciada, pode dar uma boa economia na conta.

Por que as hidrelétricas são tão atacadas no Brasil, que tem uma matriz muito mais limpa do que países como a China, por exemplo?

Por incrível que pareça, a China está adotando um sistema eólico, solar, baterias. Não é que a solar e as baterias substituam o vento, mas a intenção é transformar a intermitência da eólica em algo mais amigável com o sistema. Quando o vento pára, as eólicas se desligam abruptamente e isso é péssimo para a estabilidade do sistema.

A China está testando a possibilidade de suavizar a saída das eólicas. Para o campo e para iluminação de estradas, a solar seria muito interessante.

O problema é a manutenção desses equipamentos. Muita pesquisa está sendo feita sobre os painéis para aumento da eficiência. Acho que o Brasil está fora mais uma vez, porque se trata da física de novos materiais.

Integração sul-americana e longa duração

INTEGRAÇÃO E LONGA DURAÇÃO

Botequim

 

O Botequim Desenvolvimentista de hoje traz um artigo do Presidente da Cátedra UNESCO-UNU sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável, Theotonio dos Santos, analisando a história da América latina desde sua colonização até os interesses brasileiros de promover a integração sul-americana.

 

no Blog do Theotonio dos Santos*
Neste artigo procuramos demonstrar uma tese central: a integração sul-americana – que se converteu num objetivo central da atual política externa brasileira – é mais que uma questão econômica, ela é um fenômeno de longa duração, expressão de um destino histórico. O continente americano, antes da chegada truculenta de Cristóvão Colombo, abrigava uma população de cinqüenta a setenta milhões de habitantes que estavam relativamente integrados, sobretudo través das conquistas Astecas no sul da América do Norte e do avanço do império Inca na região Andina. Sabemos hoje também que a região amazônica integrava cerca de cinco milhões de habitantes e havia uma alta comunicação destes impérios no seu interior, entre eles e entre os povos que não estavam incorporados a eles.

A violenta colonização espanhola e portuguesa ( além das incursões de outros centros imperiais europeus ) buscou administrar esta vastíssima região articulada demográfica, econômica, social e culturalmente sob uma direção única, ao mesmo tempo que buscou reorientar suas economias para o mercado mundial em expansão nos séculos XV ao XVIII sob a égide do capitalismo comercial-manufatureiro. Nas regiões de menor densidade de populações naturais, assistimos o fenômeno do comércio de escravos, trazidos da África em condições infra-humanas.
A luta pela libertação das Américas rompeu esta dimensão continental. As colônias inglesas conseguiram sua libertação já no século XVIII, inspiradas numa ideologia liberal e republicana que vai revolucionar o mundo no final do século, através da Revolução Francesa e sua expansão por toda Europa e pelas suas colônias, particularmente no Caribe. A onda democrática por ela deflagrada chegou à América espanhola e portuguesa sob a forma da invasão napoleônica que deflagrou a gesta independentista que cumpre agora 200 anos. Apesar de iniciar-se nos cabildos das colônias espanholas, ela percorreu toda a região numa concepção unitária da qual Bolívar foi o intérprete máximo. No Brasil com a vinda da corte Portuguesa em 1808 foi mantida a unidade em torno do príncipe português que declarou a independência.

Não devemos esquecer as várias rebeliões indígenas como a tentativa de Tupac Amaru de reconstruir o império Inca ou as revoltas afro-americanas sob a forma de quilombos cujo mais representativo foi o de Zumbi dos Palmares. Não faltaram também brotos rebeldes contra a colonização ou mesmo propostas independentistas lideradas por uma já poderosa oligarquia local ( Tiradentes ).

A América Latina surgiu unida, mas deixou-se dividir pelos interesses das oligarquias exportadoras locais, da expansão britânica sobre o comércio da região e em função dos interesses dos Estados Unidos recém formados. O conjunto dessas forças vai fortalecer as articulações regionais voltadas para o comércio e apoiadas no liberalismo econômico.

A região se dividiu assim entre duas grandes doutrinas. De um lado, o bolivarismo buscou preservar a unidade continental na busca da formação de uma grande nação, pelo menos Sul-americana. Do outro lado, a doutrina Monroe buscou afastar a presença britânica e européia em geral sob a consigna de “ a América para os americanos ”.
De um lado, Bolívar foi derrotado, mas o bolivarismo continuou a desenvolver-se como expressão desta história secular e multidimensional ( hoje em dia as descobertas arqueológicas da cidade sagrada de Caral nos remetem a uma civilização altamente desenvolvida há cinco mil anos, cuja continuidade é realmente impressionante ao ser cultivada, ainda que secretamente, pelos seus descendentes indígenas atuais ).

Do outro lado, os Estados Unidos não puderam ser fiéis à sua pretensão pan-americana. Cumprindo a previsão de Bolívar, segundo a qual os Estados Unidos estavam destinados a confrontar a América Latina, invadiu o México na metade do século XIX e se apropriou de metade de seu território; realizou várias intervenções militares na América Central e no Caribe ( a participação dos Estados Unidos na guerra de independência de Porto Rico e Cuba deu origem à incorporação de Porto Rico como uma colônia e, ao fracassar a ocupação de Cuba, ao estabelecimento da base militar de Guantánamo, a maior de suas milhares de bases militares espalhadas pelo mundo ).

O mesmo papel desempenhou a construção do canal do Panamá que separou esta região da Colômbia e tantas outras intervenções brutais na região que foram se deslocando inclusive para a América do Sul na medida que as ambições imperialistas de Estados Unidos foram se ampliando. Foi assim como os Estados Unidos teve que renunciar na prática à sua doutrina panamericana tornando-se aquele monstro que Marti, Hostos, Mella e Sandino e tantos outros pensadores latino americanos identificaram.

Nossas oligarquias exportadoras ou aquelas ligadas ao capital internacional percebem os Estados Unidos como um aliado quase incondicional mas os povos da região se sentem muito mais identificados com a visão bolivariana. Assim também se sentiram os novos empresários, sobretudo industriais, voltados para o mercado interno da região. Continuam atuando assim forças regionais que aspiram uma maior integração da mesma. Foram elas que, em 1947, se uniram em torno da idéia de formar nas Nações Unidas uma Comissão Econômica da América Latina ( CEPAL ), contra a qual se colocou inutilmente o governo norte-americano. A CEPAL não somente serviu de base para mobilizações diplomáticas mas converteu-se no centro de um pensamento alternativo que se diferenciava teórica e doutrinariamente da Organização dos Estados Americanos ( OEA ), do FMI e do Banco Mundial. Foi sob sua inspiração que se criou a ALALC em 1960. Iniciativa que os Estados Unidos responderam com a criação do Banco Interamericano de Desenvolvimento ( BID ), com a Aliança para o Progresso, a USAID e outras iniciativas diplomáticas e de segurança (anti insurreição)

A partir deste momento podemos contar uma história muito interessante da resistência mais ou menos radical latino-americana. Vários estudos nos contam boa parte desta história ao levantar de maneira didática os antecedentes e as perspectivas de um esforço integracionista regional que avança a passos largos apesar da tentativa sistemática de um pensamento dependente e subordinado insistir em ignorar todos estes passos que formam uma interessantíssima acumulação de experiências que ganhou uma intensidade extremamente rica nestes últimos anos, conseqüência em parte da degradação da hegemonia dos Estados Unidos sobre a economia mundial. É assim que assistimos, inclusive, uma presença constante de outras regiões antes totalmente ausentes de nossa história como a China que vem se convertendo no principal parceiro comercial e mesmo de investimentos de quase todos países da região.

A crescente incorporação do Brasil nesta frente latino americana, tão desprezada historicamente pela nossa oligarquia, é um fator decisivo para viabilizar este projeto histórico. Toda a região espera do Brasil que ele assuma uma liderança histórica a favor da integração regional. Uma parte significativa da população brasileira já aderiu a esta idéia e o governo Lula conseguiu substanciar esta meta histórica ao criar a Unasul, ao apoiar o Banco do Sul e ao tomar posições políticas sempre favoráveis aos interesses regionais.

O governo Dilma vem dando continuidade a estas mudanças buscando dar-lhe maior eficiência e eficácia. A constituição brasileira já havia consagrado a nossa definição estratégica por uma relação privilegiada com a América Latina, seguida da África. Caminhamos assim para uma política de Estado a favor da integração regional assim como fortalecemos nossa decisão histórica de exercer um papel unificador das duas bandas do Atlântico Sul.

O Ministério do Exterior do Brasil vem buscando definir com maior precisão o que chama de prioridades de nossa política de integração. Ele define a relação com a Argentina e, consequentemente, com o MERCOSUL como prioridade A. Em seguida, como prioridade B, coloca a integração da América do Sul, que tem na UNASUL sua expressão máxima em pleno processo de institucionalização. Assim também deveria priorizar o Banco do Sul mas vem sofrendo a oposição do capital financeiro nacional e até mesmo dos bancos públicos de investimento do pais, que aspira financiar diretamente os investimentos sobretudo de infra-estrutura da região. Em terceiro lugar, encontramos a integração latino americana no seu conjunto, incluindo o Caribe que encontra na CELAC sua expressão máxima e que pode dar passos significativos com o restabelecimento da hegemonia do PRI no México, pois lhe será muito difícil abandonar, nesta conjuntura, a postura programática histórica deste partido a favor da unidade latino americana.

Deve-se tomar em consideração que os problemas emigratórios com os Estados Unidos e as dificuldades advindas das relações comerciais preferenciais com os Estados Unidos e, finalmente, as dificuldades advindas da demanda estadunidense das drogas e a ação esdrúxula da DIA no “combate” ao tráfico ds drogas, tudo isto leva o PRI à necessidade de rever sua guinada de direita para o neoliberalismo que o tirou do poder.

Abre-se pois um contexto cada vez mais favorável para a integração regional. Falta, contudo, que as nossas Universidades e o nosso ensino em geral tomem a sério o seu papel na criação de uma consciência regional. Da grande imprensa podemos esperar pouco. Ela é propriedade das mais retrógradas oligarquias regionais que se opõem radicalmente à integração regional e a um avanço da integração regional a qualquer custo. A oligarquia tradicional e a oligarquia financeira que tem especial interesse na dispersão dos interesses regionais a favor dos centros de poder financeiro mundial, se parecem muito claramente às oligarquias regionais que, nas portas da independência da região, continuavam prisioneiras da submissão aos impérios ibéricos.

Estes setores econômicos estão cada vez mais ausentes das necessidades da população de seus países e tendem a perder liderança diante de um enfrentamento sério com eles
Está na hora das forças progressistas da região se unirem para promover um novo estilo de desenvolvimento sócio econômico, ecologicamente sustentável, com profundo sentido social e humano. Para isto, além dos avanços políticos e econômicos, tem que criar e articular uma imprensa escrita, falada e virtual que cuide dos interesses da região e dos seus povos. O exemplo da Telesur tem demonstrado a utilidade desta proposta apesar do pouco apoio que recebeu de governos como o brasileiro.

As tarefas são cada vez mais complexas, mas isto é uma consequência dos avanços que tivemos. Pois, enquanto avançamos moderadamente na integração das zonas de predomínio de políticas de altas concessões ao nosso passado colonial e à decadente ofensiva neoliberal, vemos a própria CEPALC reconhecer os resultados positivos alcançados pela ALBA. A união dos países de orientação socialista na região, inspirados sobre tudo na cooperação e solidariedade, apresenta uma vantagem derivada da unidade política dos mesmos e do peso de suas políticas públicas em todos os campos.

Para espanto dos economicistas “realistas”, apoiados no individualismo possessivo do século XVIII, são os “idealistas” e românticos coletivistas os que apresentam melhores resultados. Eles não aprenderam nada com a vitória do Socialismo sobre o Nazismo na Segunda Guerra Mundial que afetou tão intensamente as políticas econômicas do pós guerra e o Movimento de Libertação Nacional anticolonial e antiimperialista. Voltaram nos anos 70 do século passado com sua carga reacionária a favor do “livre” mercado e do chamado “estado mínimo” e com o canto de sereia do “equilíbrio” dos fundamentos do mercado como o grande objetivo econômico.

Depois de reinarem por 30 anos entraram numa crise definitiva: o legado de suas políticas foi um estado devedor máximo, submergido numa crise fiscal colossal para defender a sobrevivência de uma esfera financeira especulativa que vive às custas da transferência de recursos públicos; nos entregaram um mundo de crises econômicas e de déficits comerciais, fiscais e anarquia monetária.
Se não deixarmos que nos tomem as reservas financeiras que acumulamos nos últimos anos e aplicarmos nossos recursos na criação de um poderoso mercado regional, sustentado por umas políticas industriais que reestruturem nossa participação na divisão internacional do trabalho, ao lado das zonas emergentes no mundo, estaremos prontos para dar um salto civilizatório que nos coloque na frente da articulação de uma nova economia mundial. Esta afirmação teria que ser complementada com novos estudos sobre as mudanças civilizatórias que se impõem no mundo contemporâneo.

Eles criaram, portanto, as condições para estabelecer uma grande frente – similar a que se criou a partir de 1935 contra o fascismo e pela participação de um Estado de base popular na atenção das necessidades humanas. As interações regionais são uma parte essencial desta mudança política ao espalhar por todo o mundo uma nova fase de desenvolvimento científico e tecnológico na qual as novas nações poderão exercer um papel cada vez mais ativo. A promessa dos BRICAS se converterem em pólos econômicos cada vez mais importantes se torna realidade a cada dia.
A crescente incorporação do Brasil nesta frente mundial e latino americana, tão despresada historicamente pela nossa oligarquia, é um fator decisivo para viabilizar este projeto histórico. E uma América Latina unida poderá muitas vezes mais. Se as oligarquias não estão dispostas a cumprir este papel os setores populares não duvidarão um só instante em assumi-lo. Esta é a tarefa fundamental para transformar em realidade o sonho histórico de nossos antepassados.

*Professor emérito da Universidade Federal Fluminense, Presidente da Cátedra UNESCO-UNU sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável.

NOTA: texto publicado em espanhol no número 480-481 da revista da ALAI: América Latina em Movimento, Quito, noviembre-diciembre 2012.

 

Equilíbrio de forças prolonga guerra na Síria

Por Rogério Lessa no Monitor Mercantil

O Botequim Desenvolvimentista de hoje traz a análise do cientista social e professor emérito da Universidade Federal Fluminense (UFF),Theotonio dos Santos, sobre o posicionamneto dos líderes e das Nações Unidas no conflito que o corre na Síria desde 2011.

A guerra civil da Síria que, já vitimou 60 mil pessoas entre 15 de março de 2011 e 30 de novembro de 2012, e causou meio milhão de refugiados, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), está longe de terminar.

“Armas para a continuação dessa brutal guerra civil não faltarão, para nenhum dos dois lados”, analisa o cientista social Theotonio dos Santos, professor emérito da Universidade Federal Fluminense (UFF), ao comentar a crítica do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ao presidente da Síria, Bashar al Assad.

Segundo Ki-moon, Assad teria rejeitado recomendações para uma transição de governo: “O discurso do secretário é pró-EUA, que via Turquia enviam material bélico pesado, obrigando o governo da Síria a responder também com artilharia pesada. Da parte do governo americano não se vê nenhuma disposição de negociar, parecendo que pretendem derrubar o presidente. Mas este é apoiado pelos russos, de forma que os dois lados estão muito bem armados”, opina Santos, acrescentando que, por trás do conflito, há também o interesse de isolar o Irã.

“Há condições de enfrentamento durante muito tempo, a não ser que os EUA façam o que fizeram no Iraque e na Líbia: bombardeios. Os turcos estão articulados com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Mas um ataque terá que ser feito sem autorização das Nações Unidas, pois Rússia e China estão contra”, destaca.