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A necessária crítica da falta de substância, réplica a Saul Leblon

Maria da Conceição Tavares

A Carta Maior publicou um acrobático artigo de Saul Leblon, onde o autor comenta a visão da economista Maria da Conceição Tavares sobre a atual crise econômica e política. O professor Adriano Benayon comentou o texto em questão “sob protesto”, alegando um vazio analítico que obscurece o debate sobre as reais causas dos problemas brasileiros. Segue abaixo a entrevista, com os comentários do professor entre colchetes.

Perdemos de novo, professora Maria da Conceição?

Por Saul Leblon 

Mal ou bem, forças progressistas estão à frente do governo há 12 anos: o ‘enrosco’, com ela diz, é pilotado pelo campo progressista. [AB. Que quer dizer isso?] E o atinge diretamente.

A professora Maria da Conceição Tavares tem dois motivos para não querer falar nesse momento.

A gripe alegada, que acentua o grave característico da voz, é o menor deles. O quadro difícil da crise brasileira, o mais contundente. Estamos falando, porém, de uma mulher que não costuma deixar desaforo esperando na soleira da porta. [AB. Muito marketing, pouca substância.]

Perdemos, professora Conceição? Ela hesita um pouco, tergiversa, mas só um pouco.

Em seguida dispara o grave com a inflexão de ordem unida famosa, capaz de acionar todas as atenções ao redor, seja qual for o redor, tenha ele a solenidade que tiver.

Perdemos. Isso está à vista, não? - devolve com a força de uma pedrada.

Mas em seguida vem outra, mais na mira: ‘O primeiro tempo, por certo’.

Num átimo recolhe o grave com a inflexão que vai buscar o distraído até no fundo do auditório e o submete às prontidões incontornáveis:

‘Não digo que perdemos o jogo, que todavia é muito duro’.  [AB. Muito blablablá, como sempre!]

Abriu a avenida para uma narrativa de longo curso, mas se contém.

A dificuldade em extrair da decana dos economistas brasileiros uma avaliação mais desabrida do governo de sua amiga Dilma Rousseff, sendo ela a economista a quem todos ligam quando o mundo despenca e é preciso saber para onde ir, é ilustrativa da gravidade do momento brasileiro.

Desta vez, o ‘enrosco’, com ela diz , é pilotado pelo campo progressista.  [AB. ???]  E o atinge diretamente.

Mal ou bem, forças progressistas estão à frente do governo há 12 anos  – ainda que não no poder e, sobretudo, na companhia não propriamente opcional de parceiros de uma ambígua ‘governabilidade’, em xeque nesse ‘momento Cunha’ da vida nacional.

Esse protagonismo singular explica a perplexidade do olhar crítico que se enxerga no próprio objeto da crítica e não gosta do que vê.

A história não é um closet no qual se possa trocar o figurino e recomeçar do zero. Neste filme, os protagonistas se defrontam com um enredo de urdidura que pode ser modificada, mas não ignorada.

A correlação de forças é uma delas. Frequentemente evocada para justificar rendições e traições, nem por isso deixa de existir.

É prima política das vantagens comparativas na economia –também e não raro evocadas para justificar a submissão ao poder econômico existente e o entreguismo conveniente.

Nem um, nem outro são fatalidade, mas construções históricas.

Até que ponto a camisa de força atual reflete recuos que contribuíram para enrijecer essas circunstâncias quando a hora era de avançar e dilatar os espaços, é uma questão em aberto.

Avaliações díspares que essa pergunta enseja retardam agora a unificação de forças e agendas que dispersas se mostram incapazes de afrontar a ofensiva conservadora em marcha.

Maria da Conceição Tavares é economista, não analista política. Faz questão de observar a diferença. Mas é uma personagem da história brasileira.

Sua experiência engajada nos principais acontecimentos nacionais remonta a 1957, três anos depois de chegar de Portugal, onde nasceu – quando se naturalizou, passou a estudar economia, ingressou no BNDES, conheceu Furtado, Ignácio Rangel, Darcy e outros gigantes aos quais hoje se ombreia no referencial dos que lutam por aquilo que eles sempre lutaram: o desenvolvimento que conduza à construção de uma democracia social efetiva no país.

Conceição desembarcou no Brasil no ano em que Getúlio Vargas com um único tiro impôs uma década de protelação ao golpe que a coalizão empresarial-militar lograria desfechar em 1964.

[AB. Mais conversa fiada.  Não pôs protelação alguma.  Passada a comoção do suicídio, vieram as medidas antinacionais do governo egresso do golpe e  aplicadas em pleno pelo governo também entreguista, de JK.]

A professora participou ativamente do esforço progressista [AB. Como abusam dessa palavra! Progressista quem? JK?]  para dilatar esse prazo e empurrar a roda do desenvolvimento até um ponto que o tornasse autossustentado [AB. Isso já abusar da ignorância. O que fizeram foi confundir, crescimento impulsionado de forma errada, com desenvolvimento.] foi pelas próprias forças sociais com ele beneficiadas.

O percurso foi interrompido à força no meio do caminho, como se sabe. Uma retomada seria ensaiada depois, nos anos 70/80, com a derrubada do regime militar e a tentativa frustrada do Cruzado –da qual participou–  igualmente decepada com a ascensão neoliberal nos anos 90.

Finalmente, em 2002, a agenda da construção de uma democracia social tardia na oitava maior economia da terra seria resgatada com a vitória presidencial do metalúrgico, seu amigo, Luís Inácio Lula da Silva. [AB. É muita ilusão num parágrafo só.].

Daí a pergunta inicial que a incita a romper o silencio diante da encruzilhada que se ergue outra vez em seu caminho, aos 83 anos de idade, e no do país, no seu ‘longo amanhecer’, como previu Celso Furtado, sua maior referência.

Perdemos de novo, professora Conceição?’

Ouvi-la extrapola a curiosidade. É uma necessidade, aqui entremeada da recuperação de reflexões anteriores que completam as atuais.

Essa crise não se parece com nenhuma outra que vivi’[AB. Por que não? Nunca viu arrocho, nem entreguismo?]. adverte com vagar escolhendo as palavras para comentar a gravidade do fator político que trava a iniciativa progressista – repita-se – confrontada agora com a própria imagem no espelho dos desafios a vencer.

‘Nenhuma das que acompanhei mais de perto –o pós-Getúlio e a do golpe de 1964, para não falar das outras, como a do fim da ditadura—envolvia um travamento estrutural e político tão difícil’, explica para sublinhar em contraponto: ‘ Sem falar no quadro internacional, que é completamente outro, marcado pelo ambiente financeiro destrambelhado’.  [AB. Tudo isso é papo furado.  O “sistema financeiro internacional” é destrambelhado há mais de 45 anos: não é isso que nos levou ao buraco; a estrutura econômica do Brasil foi pessimamente construída, e isso desde 1954: a estrutura econômica tornou-se doente e continuou sempre assim em todos os governos, inclusive o petista, claro que após o tsunami entreguista tucano. 

Foi cada vez mais desnacionalizada, e  a própria infra-estrutura sob comando estatal já começou assim: regida pelo Banco Mundial e bancos de exportação dos países ocidentais, sob dependência financeira e tecnológica. Queriam o quê. Essa Dona Maria Conceição teria feito melhor como atriz. Como economista nunca me convenceu.]

A diferença estrutural –‘estamos em uma transição de ciclo estrutural’, diz ela—é que nos anos 50 e nos anos 70, depois do suicídio de Getúlio, assim como após o golpe militar, havia espaço para se agregar novos setores à estrutura econômica brasileira.

“Agregar é mais fácil do que reformar’, ensina a decana. A agregação amortece a colisão dos interesses instalados com os novos. [AB. De daí. Para quê continuar agregando coisas erradas à estrutura econômica, sem falar na financeira.  Para agregar, sem pagar um preço caro demais, em termos, inclusive, de sermos explorados pelos carteis, temos de corrigir, ou, antes, estabelecer estruturas diferentes destas que nos têm sugado.  Do contrário é sempre a mesma conversa: os “progressistas” se lamentando, e os “ortodoxos” mandando cortar, ajustar etc.]

O que fez, afinal, Getúlio quando foi reconduzido ao poder em apoteótica votação nas eleições de 1950, com o Brasil desordenado pela ‘malta liberal’ de Dutra? Getúlio viu espaço para agregar novos motores na economia.

[AB. Mais demagogia barata e primária. Praticamente nada a ver. O governo Dutra era do entreguismo pré-industrial. Seu modelo para a indústria era a importação. O modelo getulista era o de industrialização, inclusive a natural, aquela que nem precisava de muita política industrializadora. Bastava proteção aduaneira. Além disso, havia que construir a infraestrutura, a indústria de base, e isso vinha com as iniciativas citadas abaixo. Muito dependeria de como ela fosse feita. De um lado a infraestrutura e a indústria de base.  De outro lado, a indústria de transformação, que o golpe de 1954 outorgou aos carteis das transnacionais, doação reiterada com grande entusiasmo por JK.]

Seu governo lançaria uma saraivada de iniciativas diante da avenida aberta a sua frente.

O Plano de Eletrificação em 1951, o BNDES em 1952, a Petrobrás em 1953. E o reforço convergente com uma industrialização ainda em fraldas, onde muito havia por fazer.

Vargas modernizou áreas já existentes e acionou novas turbinas: investiu no setor de bens de base – de base porque produz equipamentos, componentes, insumos universais, para todos os segmentos.

Interligou isso aos duráveis, amalgamando a economia com uma cola política feita de expansão do emprego e extensão de direitos ao florescente operariado urbano.

Aí acharam melhor eliminá-lo.

‘Mas a crise da morte do Vargas’, observa Conceição, ‘embora violenta por todos os seus ingredientes, paradoxalmente durou pouco’.

Mais à vontade, ela puxa aqui a memória de acontecimentos que acompanhou diretamente, jovem matemática atravessando a fronteira para a economia.

‘Durou pouco porque havia toda uma avenida aberta, aquela que Vargas deixou para JK  agregar: a dos bens de consumo’, interrompe para retomar o fôlego.

[AB. A morte de Vargas só durou pouco, olhando-se as aparências muito superficiais. Na realidade, como não houve lideranças que se tenham imposto após Vargas, a herança dele foi dilapidada, através da desnacionalização, espantosamente subsidiada por um governo (JK) que teve a desfaçatez de se dizer nacionalista. Deu no que deu: desnacionalização e cartelização galopantes.]

[‘O que fez JK? Fez o Plano de Metas dilatando a infraestrutura; trouxe o parque automobilístico, deslanchou um novo ciclo de expansão’.]

[AB. A incapacidade de entender o jogo ou então seu carreirismo são as únicas explicações para a reverência de C. Tavares a JK e sua falta de entendimento do desastre estrutural que ele começou a montar (tarefa continuada pelos governos militares).  Qualquer pessoa de um mínimo de bom-senso, e nem precisa ser economista, deve perceber que a Coreia do Sul e outros industrializados muito mais tarde que o Brasil fizeram mil vezes melhor com muito menos material e recursos. Que quer dizer essa senhora com “trouxe o parque automobilístico”.  Seria mais construtivo contabilizar e cobrar (!!!) quanto esse setor transnacional já sugou de recursos financeiros brasileiros.]

O impasse vivido por Jango seria um primeiro sinal de que a agregação pura já enfrentava gargalos estruturais.

‘Tanto que tivemos um golpe, uma ruptura violenta’, pontua a economista que se exilou no Chile durante a ditadura, onde assessorou a equipe de Allende.

Quando Jango se viu na contingência de ampliar o espaço do brasileiros miseráveis, excluídos do mercado e da cidadania, o que dilataria o fôlego do desenvolvimento pela alavanca do mercado de massa, os interesses estabelecidos reagiram violentamente.

Num certo sentido, em vez de apenas agregar, as reformas de base buscavam democratizar o que antes era um privilégio dos herdeiros da casa grande. A terra, por certo. Mas também a educação, o comando sobre riquezas naturais; o controle sobre a moeda e os capitais; a ampliação da democracia na base da sociedade.

Deu-se o que é sabido.

‘Só que os milicos do golpe eram eles mesmos desenvolvimentistas! ‘, atalha Conceição rindo das ironias da história.

Os ‘milicos’ no entanto tropeçariam feio.

Fizeram o torto por linhas certas.

Em vez de agregar novos polos de ponta da industrialização naquele momento, como eletroeletrônica etc, o regime ditatorial  super-dimensionou os existentes, na siderurgia, por exemplo.

Ainda assim a sobreagregação expandiu o PIB, mas endividou o país sem contrapartida de exportações para os dólares tomados a juros baixos, mas a taxas flutuantes.

Quando elas flutuaram ferozmente para cima, em 1979 –saltaram de 7,5% para 20,18% em 1980– o regime perdeu o assoalho.

O que se tem agora é mais sério, de qualquer forma, do que a transição de Vargas para JK e de Jango para o golpe.

‘É estrutural’, repete Conceição.

[AB. Todo o desastre da dívida eclodido em 1982 decorre fundamentalmente da má-formação estrutural ligada à desnacionalização e cartelização. Sem isso, o Brasil não se teria posto à mercê do cartel dos bancos, nem se teria endividado em proporções parecidas com aquelas em que foi pego de calças curtas em agosto de 1989, quando Paulo Volcker elevou absurdamente a taxa Prime Rate em Nova York.]

Estrutural no sentido que não se resolve adicionando um novo motor na mesma máquina do crescimento — como se fez antes para reacomodar o conflito de classe.

‘O Brasil não vai acabar, nem o capitalismo e não temos golpe à vista, embora haja golpistas à solta’, murmura.

[AB. É enrolação sem cessar.]

Mas há um esgotamento desse correr para frente – típico do sistema – baseado em aditivos que se sobrepõem à engrenagem anterior claudicante.

Não apenas isso.

O esgotamento, insista-se, acontece sob as asas de um governo progressista. O que adiciona ao impasse econômico um auto-questionamento político de escolhas passadas e futuras. Tudo coroado por um  ambiente internacional pantanoso, marcado pela mais anêmica, longa e incerta convalescença de uma crise capitalista, desde a ruptura de 1929.

[AB. C. Tavares provavelmente finge que acredita nessa estória de PT “governo progressista”, ignora que o PT representa muito pouco de diferente em relação aos demais partidos.]

Então é diferente de tudo o que Conceição viveu. [AB. Esses elementos da Carta Maior gostam de cultivar ficções agradáveis: todos se cumprimentam mutuamente, regozijam-se de supostamente não ter culpa de toda essa enganação e continuam cultivando seu suposto de nicho de “progressistas”.]

‘Temos uma estrutura econômica montada. É preciso recauchutar a máquina e, sobretudo, reorientar seu rumo’, a professora retoma o fio da meada.

[AB. Que vergonha! Nada disso. Dessa máquina aproveita-se muito pouco. Ou tudo se reconstrói em termos decentes e competitivos ou tudo continuará no mesmo “me-engana-que-eu-gosto” dos últimos decênios.]

O Brasil viveu um período acelerado de consolidação industrial no 2o PND (1975/79) , o plano de desenvolvimento da ditadura.  Dificilmente repetirá aquele desempenho característico da fase de instalação e consolidação de um parque industrial.

Esse tempo acabou. Assiste-se a algo oposto até.

A indústria brasileira, na verdade, está sendo corroída por duas inércias que o ciclo iniciado em 2003 não corrigiu.

De um lado, a valorização cambial acumulada nas últimas décadas. Ela favoreceu a asfixia do parque fabril brasileiro sob a avalanche das importações asiáticas (gerando um déficit comercial manufatureiro da ordem de U$ 200 bi nos último anos ).

[AB. Tudo isso é blablablá.  Quem tem carteis transnacionais mandando em sua indústria tem necessariamente custos altíssimos: custos até artificiais contabilizados como despesas para remeter os lucros das transnacionais ao exterior. Outra coisa: você não é obrigado a ficar com taxa de câmbio fixa, como ficou esses anos todos. Nem vá imaginar que a sua competitividade vai ser resolvida com taxa de câmbio, se você está desindustrializado, perde cada vez mais especialização em bens intensivos de tecnologia, e tem cada vez mesmo tecnologias proprietárias em suas empresas.  Outra coisa: você não é obrigado a ficar na OMC como pau-mandado das economias dominantes. Agora, eu pergunto, como alguém como C. Tavares, revela grande conformismo em tudo quanto seja substantivo, vai propor alguma coisa para o Brasil que não seja a mesma dependência, que caracteriza o Brasil desde 1954, com crescentes graus de agravamento dessa dependência?]

Simultaneamente, cristalizou-se uma inserção internacional capenga da economia brasileira, que perdeu o bonde tecnológico dos anos 80/90 porque ruminava a dolorida digestão da crise da dívida externa.

[AB. A própria dívida externa foi o reflexo da estrutura entreguista que C. Tavares defende desde JK e até antes deste.]

O bonde perdido de um ciclo internacional não passa de novo, adverte Conceição. Não existe aula de recuperação na história do desenvolvimento.

‘Não vamos mais competir com os chineses naquilo que eles tomaram de nós e se mostraram líderes no mundo’, adverte ao falar da erosão sofrida em vários setores industriais.

[AB. Pode competir sim. Os próprios chineses não competem mais onde competiam, há 30 anos.Além disso, para competir em alguma coisa, você precisa ter governo. Se deixar tudo entregue às baratas vai competir só naquilo que os outros querem.  E ainda vai continuar com a vergonhosa lei Kandir. Nem cobra nada para perder os recursos naturais não renováveis.]

Por isso o pré-sal e o mercado de consumo doméstico, revigorado pelo ganho de poder de compra do ciclo Lula, bem como o PAC na infraestrutura e, objetivamente, a escala do agronegócio, são tão importantes.

É esse o novo chão do desenvolvimento brasileiro no século XXI.

Os encadeamentos inscritos no regime de partilha do pre-sal, e na exigência de conteúdo nacional, ambos demonizados pelos interesses sabidos e seus porta-vozes, encerram impulsos industrializantes de ponta, com escala capaz de criar, aí sim, uma inserção virtuosa do país nas cadeias internacionais.

O mercado de massa, por sua vez,  é capaz de atrair plantas industriais e lastrear segmentos ainda não triturados por décadas de importações baratas.

O PAC arremata o comboio puxando-o pela alavanca do investimento público.

Conceição contextualiza esse tripé de forma realista, ciente de que a areia movediça da crise estreita a margem de manobra e todas as frentes.

‘Hoje isso depende muito do financiamento chinês para se viabilizar. É por aí que vamos completar o investimento público do PAC; não enxergo outra saída com as restrições impostas pelo ajuste fiscal’, suspira.

Seu próprio desalento, porém, sofre um safanão em tom de advertência na frase seguinte: ‘Se não defendermos as políticas sociais, o PAC e o pré-sal não teremos mais modelo nenhum’.

Destravar as concessões, o PAC,  e preservar o pré-sal  poderá desarmar a retranca do investimento privado?

Sim, mas para isso não se pode destruir o mercado de consumo de massa. Se a economia afundar com o estirão de arrocho, cercado de juros altos por todos os lados, ninguém salva o Brasil.

A costura dessa travessia envolve uma operação essencialmente política, como já explicou, porque mexe profundamente em interesses cristalizados.

O nome do jogo não é mais ganha/ganha.

É correlação de forças e se joga na rua.

Não por acaso o debate da reforma tributária conquista audiências nunca registradas na agenda econômica. A audiência das manifestações sindicais contra o ajuste em benefícios trabalhistas, por exemplo, confrontado com a alternativa da taxação das fortunas, do lucro dos bancos, das remessas disfarçadas de assistência, das heranças etc.

´Não existe resposta técnica para o que se tem diante de nós’, sentencia a professora de uma geração inteira de economistas, entre alunos e amigos, que a ouvem e respeitam, mesmo quando dela divergem.

Incluem-se aí nomes como os de Belluzzo, Luciano Coutinho, Mantega, a própria Presidenta, Dilma Rousseff.

[AB. Pode crer que os conselhos dela e de muitos outros desses citados foram sempre conformistas demais e deram no que deram.]

Em uma homenagem à mestra, em 2012, Dilma declarou: “Não houve momento importante na história do país, nas últimas décadas, sem as considerações da ‘nossa professora’. Nós hoje não admitimos mais a possibilidade de construir um país forte e rico dissociado de melhorias das condições de vida de nossa população, nem tampouco acreditamos mais na delegação da condução de nosso crescimento exclusivamente às forças de autorregulação  do mercado. Crença, aliás, que Maria da Conceição Tavares sempre, corretamente, criticou”, enfatizou a Presidenta.

Os ventríloquos da autorregulação do mercado preconizam justamente isso agora: estabilizar o impasse desenhado pela professora, com base nas premissas ‘técnicas’ dos mercados.

Ou seja, impedir que a luta pelo comando do crescimento deslize para o campo aberto da disputa política, onde a estrutura de repartição da riqueza e do poder seria questionada, escrutinada e repactuada em confrontos desaguados em amplas negociações.

As considerações da economista enveredam cautelosamente por essa seara.

‘Não é fácil operar essa coisa. Você tem que recauchutar e redirecionar o mecanismo do crescimento com ele andando, entende? Com o trem em movimento’, sobe a voz, refreando-a na volta da respiração: ‘É um enrosco’.

A palavra ‘conservadorismo’ resume o significado do obstáculo maior no caminho.

A operação colide com massas gigantescas de interesses que nada tem a oferecer à sociedade exceto uma obstinada resistência à mudança, associada –aliás, indissociável, de uma não menos obstinada opção pela mórbida liquidez rentista.

Pressões, chantagens, golpes, terrorismos e interditos emanados desse aparato são vocalizados e potencializados diuturnamente pelos veículos do ramo da semi-informação, enquanto o ‘ajuste’ cutuca a recessão com vara curta e a promessa difusa de uma ‘purga redentora’.

É o torniquete dos dias que correm.

E a velocidade aqui não é uma metáfora.

O arrocho já bateu no consumo das famílias, derradeiro lacre de segurança do ciclo petista que avançou de forma quase ininterrupta nos  últimos 12 anos. Esse indicador caiu 1,5% no primeiro trimestre, em relação ao final de 2014.

O consumo das famílias pesa 63% na demanda da economia e arrastou junto a receita, o investimento, o emprego… O que sobra?

A sobra é insuficiente para sustentar uma nação, um governo e um projeto progressista de desenvolvimento . O IBGE avisa que apenas 25% da economia ainda operava no azul ao final de março.

Não melhorou de lá para cá. Ao contrário.

‘Você não enfrenta isso com debate econômico’, adverte Conceição.

Nem pode paralisar um país para recauchutar a economia, que deixada a sua própria lógica não criará o espaço necessário à mudança.

Uma frente? Uma frente de forças poderia funcionar como a dissonância à espiral descendente em marcha?

‘Sim’, entusiasma-se a economista que sabe dos limites daquilo que a ‘malta’ conservadora chama de ciência econômica.

‘Mas uma frente que apenas reitere o quadro existente não adianta’, pondera, atenta ao jogo que no primeiro tempo, como já disse, mostra que perdemos.

‘É preciso algo amplo, democrático que se imponha’, arrisca para advertir de pronto: ‘Mas não me pergunte como; isso é com os políticos’.

Reserva, todavia, munição para um último disparo certeiro.

Dirigido justamente ao PT.

O partido que ajudou a construir, do qual foi deputada entre 1991 e 1995, dentro do qual sempre participou e  com o qual caminhou e caminha.

‘O PT precisa decidir o que quer; nos anos 60, nós éramos desenvolvimentistas. Mas o PT hoje parece dividido. Temos os ‘desenvolvimentistas’ – brinca com o termo hoje usado apenas como um marcador genérico para o pensamento de esquerda na economia.

‘Ao lado dos desenvolvimentistas noto que há agora no PT uma parcela grande de ‘estacionistas’, diz a professora.

A língua afiada encontrou um jeito de expressar o incômodo que não quer explicitar. Conceição escande o achado com o riso que convida à cumplicidade: ‘Tá cheio de ‘estacionistas’. Vão resolver o Brasil parando o país?’.

É um fugaz momento de descontração na penosa alternância de frases e silêncios sugestivos da intelectual que enxerga a encruzilhada do país como uma encruzilhada também das forças das quais é uma expoente.

“Tem gente que acha que você pode estacionar para estabilizar e que, feito o serviço, os capitais retomam o investimento. Isso num mundo há seis anos mergulhado numa crise em que ninguém investe em lugar nenhum’.

Nem mesmo nos EUA poderia dizer.

A economia que se notabiliza pela ‘recuperação inequívoca’ –no dizer das colunistas de certezas graníticas em relação à saúde do capitalismo — acaba de registrar a sua terceira recidiva na crise.

O PIB dos EUA caiu  0,7% no primeiro trimestre, mesmo com taxas de juros entre negativas e zero desde 2008, e sob o efeito de um regime de engorda de liquidez de U$ 1,5 trilhão, recém concluído.

O ‘estacionismo’, naturalmente, rechaça a ideia de uma frente ampla, como a  conjecturada por Conceição, para negociar o passo seguinte do desenvolvimento do país em meio a essa algaravia de sinais e lógicas em litígio, ao sabor do proficiente mercado financeiro global e de suas agências (as de risco).

Basta estabilizar.

O mercado autorregulado que a amiga Presidenta criticou em 2012 fará o resto: os capitais que não investem no mundo voltarão a investir aqui, o mel correrá das vertentes e o leite brotará nas curvas dos rios, acreditam os ‘estacionistas’ cutucados pela professora.

O risco de o ‘estacionismo’ conduzir o Brasil a um beco sem saída na boleia de uma recessão histórica não é pequeno.

Conceição não comenta.

Mas seu silêncio preocupa mais ainda que as palavras.

O caos ideológico; complementos e análise

Por José Luís Fiori | Via Valor Econômico

Charge de Carlos Latuff

Em meio à crise política e à retração econômica brasileira, o jantar do dia 12 de maio da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos no Waldorf Astoria de Nova York, reunindo banqueiros, empresários e a políticos da alta cúpula do PSDB, em torno dos ex-presidentes Bill Clinton e Fernando H. Cardoso foi um clarão no meio da confusão ideológica dominante. Em termos estritamente antropológicos, representou uma espécie de pajelança tribal de reafirmação de velhas convicções e alianças que estiveram na origem do próprio partido socialdemocrata brasileiro. Mas do ponto de vista mais amplo, pode se tornar uma baliza de referência para a clarificação e remontagem do mapa político brasileiro.

Afinal, este grupo liderado pelo ex-presidente FHC foi o único que esteve presente e ocupou um lugar de destaque nas reuniões formais e informais que cercaram a posse de Bill Clinton, em 1993, em Washington. Naquele momento foi sacramentada a aliança do PSDB com a facção democrata e o governo liderado pela família Clinton. Uma aliança que se manteve durante os dois mandatos de Clinton e FHC, assegurando o apoio do Brasil à criação da Alca e garantindo a ajuda financeira americana que salvou o governo FHC da falência.

Estes dois grupos estiveram juntos na formulação e sustentação das reformas e políticas do Consenso de Washington e voltaram a estar juntos nas reuniões da “Terceira Via”, criada por Tony Blair e Bill Clinton, em 2008, reencontrando-se agora de novo, na véspera da candidatura presidencial de Hillary Clinton.

Durante todo este tempo os social-democratas brasileiros mantiveram sua defesa incondicional do alinhamento estratégico do Brasil, ao lado dos EUA, dentro e fora da América Latina; sua opção irrestrita pelo livre comércio e pela abertura dos mercados locais; pela redução do papel do Estado na economia; pela defesa da centralidade do capital privado no comando do desenvolvimento brasileiro; e pela aplicação irrestrita das políticas econômicas ortodoxas.

Estas posições orientaram a política interna e a estratégia internacional dos dois governos do PSDB, na década de 90, e seguem orientando a posição atual do PSDB, favorável à reabertura de negociações para criação da Alca; à mudança do regime de exploração do “pré-sal”; ao fim da exigência de conteúdo nacional nos mercados de serviços e insumos básicos da Petrobras e das grandes construtoras brasileiras. Isto pode não ser “um projeto de país”, mas com certeza é um programa de governo rigorosamente liberal, que só coincide de forma circunstancial e oportunista com as teses neoconservadoras defendidas hoje por movimentos religiosos de forte conteúdo fundamentalista.

A novidade destes movimentos no cenário político brasileiro atual surpreende o observador, mas suas teses sobre família, sexo, religião etc não são originais e sua liderança carece da capacidade de formular e propor um projeto hegemônico para a sociedade brasileira. O mesmo pode ser dito com relação ao poder real das recentes mobilizações de rua e de redes sociais, que fazem muito barulho, mas também não conseguem dar uma formulação intelectual e ideológica consistente às suas próprias iras e reivindicações.

Deste ponto de vista, parece necessário reconhecer que a origem da grande confusão ideológica do país, neste momento, são as próprias forças progressistas e o governo que acabou de ser eleito por uma coalizão de centro-esquerda. Não é fácil identificar o denominador comum que une todas estas forças, mas não há dúvida que seu projeto econômico aponta muito mais para o ideal de um “capitalismo organizado” sob liderança estatal, do que para o modelo anglo-saxônico do “capitalismo desregulado”; para uma política agressiva de redistribuição de renda e prestação gratuita de serviços universais, do que para uma política social de tipo seletiva e assistencialista; e finalmente, para uma estratégia internacional de liderança ativa dentro de América Latina, e de uma aliança multipolar com as potências emergentes sem descartar as velhas potências do sistema, muito mais do que para um alinhamento focado em algum país ou bloco ideológico de países.

Se assim é, como explicar à opinião pública mais ou menos ilustrada que um governo progressista deste tipo coloque no comando de sua política econômica um tecnocrata que não tem apenas convicções e competências ortodoxas, mas que seja também um ideólogo neoliberal que defende abertamente em todos os foros uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo para o país absolutamente idêntica a que é defendida pelo grupo que participou do jantar no Waldorf Astoria, no dia 12 de maio.

E como entender um ministro de Energia que defende em reuniões internacionais o fim da política de “conteúdo local” e do “regime de partilha” do pré-sal, duas políticas que são uma marca dos últimos 13 anos de governo e uma diferença fundamental com a posição defendida pelos mesmos comensais de Nova York.

Por fim, para levar a confusão ao limite do caos, como explicar que o ministro de Assuntos Estratégicos desse mesmo governo proponha abertamente, pela imprensa, como se fosse um acadêmico de férias, que se faça uma revisão completa da política externa brasileira da última década, com a suspensão do Mercosul, que foi criado e é liderado pelo Brasil, e com a mudança do foco e das prioridades estratégicas do país, que deveria agora alinhar-se com os EUA para enfrentar a ameaça da “ascensão econômica e militar chinesa”.

Tudo isto dito de forma tranquila, exatamente uma semana antes da visita oficial do primeiro-ministro chinês ao Brasil, que já havia sido anunciada junto com um pacote de projetos e de recursos para levar a frente uma estratégia de longo prazo que passa – entre outras coisas – pela construção de uma ferrovia transoceânica capaz de dar ao Brasil, finalmente, um acesso direto ao Pacífico, com repercussões óbvias no campo da geopolítica e geoeconomia continental. Além disto, este “grande estratego” do governo fez sua proposta um mês antes da reunião do Brics, na Rússia, em que será criado o banco de investimento conjunto do grupo, sob a óbvia liderança econômica da China. Uma trapalhada pior do que esta, só se fosse proposta também a internacionalização da Amazônia.

Talvez por isto tantos humanistas sonhem hoje com o aparecimento de uma nova utopia de longo prazo, como as que moveram os revolucionários e os grandes reformadores dos séculos XIX e XX. Mas o mais provável é que estas utopias não voltem mais e que o futuro tenha que ser construído a partir do que está aí, a partir da sociedade e das ideias que existem, com imaginação, criatividade e uma imensa paixão pelo futuro do país.

Rogério Lessa - Não tem caos ideológico. Com “austeridade” fiscal (desde Palocci), leilão de petróleo e medo de ir à Rússia se alinhar com China e Índia na comemoração dos 70 anos da vitória contra Hitler, não se pode chamar o atual governo de progressista, muito menos de esquerda, apesar das bravatas contra Indonésia e Israel.

Flavio Lyra - É realmente difícil entender os posicionamentos de Dilma e do PT na fase mais recente da vida política e econômica do país. Fica a impressão de que tanto Lula, quanto Dilma, não acreditam na possibilidade de mobilização das forças de esquerda do país para a posta de prática de uma política econômica que se afaste da submissão à orientação neoliberal que aponta para a integração dependente com os Estados Unidos, em favor de maior autonomia da política econômica na defesa dos interesses nacional. O artigo de Fiori tem todos os méritos em apontar essa debilidade das lideranças políticas que poderiam comandar essa mudança. Fiori realça muito bem a afinidade do PSDB com o pensamento de lideres democratas nos Estados Unidos.

Já parece fora de dúvida que é indispensável mobilizar as forças de esquerda para se posicionarem claramente sobre o quadro atual e saírem da passividade em que se encontram na expectativa de que lideranças despreparadas as conduzam. O governo de Dilma já demonstrou claramente que não está a altura dos desafios do momento.

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Rogério Lessa é jornalista da AEPET.

Flavio Lyra é economista da escola da Unicamp.

José Luís Fiori é José Luís Fiori, professor titular de economia política internacional da UFRJ.

O Moderno e o PT; complementos e análise

Por Marcelo Barbosa | Via Algo a Dizer

Após o êxito de seus governos, o PT precisa oferecer um projeto de nação ao país. Caso não consiga, a legenda poderá cumprir a paráfrase de Lévis-Strauss, passando à decadência antes de atingir o apogeu.

Concebido em aberta ruptura com a esquerda de tradicional implantação ao fim da década de 1970 – leia-se comunistas e trabalhistas – o PT nasceu de costas para o Estado e de frente para a sociedade civil. As questões capazes de mobilizar a legenda de Lula poucas vezes coincidiram com aquelas formuladas pelas agremiações conduzidas então por personalidades como Prestes, João Amazonas ou ainda Brizola. Com isso, toda uma rica agenda de lutas anterior ao marco da eclosão do ciclo das greves do ABC paulista, a partir de 1979, derivou para um papel secundário. Guardada no baú das relíquias, a questão nacional, sobretudo o papel do Estado no combate aos vários níveis de subdesenvolvimento do país, cedeu protagonismo ao avanço de uma pauta democrática essencialmente compreendida como cidadania econômica: aumento de salário, acesso a terra, direito a moradia, entre outros itens afins. A idéia de construir o moderno com base no rompimento com as formas de dependência de nossa periferia à dominação dos países centrais, pedra de toque das concepções de construção do moderno da velha esquerda, encontrou pouco eco no interior do petismo.

Para o chamado PT das origens, nenhum sentido podia ser extraído da indagação acerca da busca do moderno em uma sociedade de extrema concentração de renda, cuja passagem para o capitalismo monopolista de Estado demandara a instalação de uma ditadura civil-militar, em 1964. Perseguindo essa ótica, empréstimo ao pensamento uspiano – de Florestan Fernandes a Chico de Oliveira, entre muitos outros – o Novo e Velho apareciam perfeitamente fundidos e entrosados na paisagem social brasileira. Eram molares da mesma engrenagem. No caso brasileiro, a obtenção do posto de 6ª economia mundial surgira sem a necessidade de ajustar contas com as instituições pré-capitalistas existentes, aí incluído o latifúndio. Em outras palavras, o moderno já predominava em nossas relações sociais a reboque das tendências à urbanização e industrialização. E mais. O desenvolvimento capitalista deflagrado nesse processo tornara mais agudas as desigualdades de classe, região e renda, em todo território nacional. Conclusão: o tempo para a conquista de objetivos intermediários como as reformas de base se esgotara. A luta pela conquista do socialismo vibrava na ordem do dia.

A projeção dos pais fundadores do PT previa atitudes como o repúdio às alianças com o chamado centro político, estando interditada, ainda, a possibilidade de apoio a qualquer coalizão de natureza pluriclassista. A esquerda social caminharia antes só que mal acompanhada. De preferência, exaltando os valores da democracia de base, da nitidez ideológica e da crítica à trajetória republicana brasileira. Ação política? A única legítima consistiria na intervenção de baixo para cima, por meio dos instrumentos da vida associativa, a exemplo dos sindicatos e das Comunidades Eclesiais. Mais revolucionário na retórica que na prática, essa modalidade de petismo das origens deu forma a um grupo de práticas voltadas para a exaltação ao chamado “poder local”, procedimento de evasão à real disputa do poder, mas que permitiu o acúmulo de forças da legenda nas conjunturas de grande instabilidade verificadas durante os primeiros anos do processo de redemocratização.

Os saudosistas do modelo de militância partidária presente na infância da atuação do PT defendem com ardor a atitude empreendida pela legenda naqueles anos de formação. Por óbvio, promovem comparações. Com alguma procedência, apontam o processo pelo qual o petismo se manteve unido e em crescimento ao longo das décadas de 1980 e 1990, ao mesmo tempo em que a esquerda tradicional caminhava para a divisão e a perda de prestígio. O problema desse argumento, no fundamental correto, reside na sua insuficiência: se o PT encarnasse apenas a crítica aos contingentes da esquerda que o precederam, nem de longe poderia cumprir um papel de destaque na vida pública brasileira. Ou seja, já em seus primeiros anos, vicejavam no terreno da cultura política do PT as sementes de uma visão mais assente à complexidade de uma sociedade de traços contraditórios como a nossa.

Personagem de sua própria história, o PT fez coexistir em seu projeto inúmeras identidades*. Algumas dessas caracterizações, com vida curta. Outras vieram para ficar e firmaram-se no acervo de experiências empreendidas pelo partido. Entre essas florações, uma classe de propostas que, diferindo da primeira das constelações teóricas formuladas pela agremiação, exibia algum grau de diálogo com a questão proposta ao início deste texto. Por esse ângulo, construir o moderno requeria o enfrentamento das oligarquias patrimonialistas, o estamento parasitário responsável pelo atraso e a desigualdade de nossa formação social, presente desde o período colonial. Em tal narrativa, o ponto de equilíbrio da atuação da esquerda devia se deslocar para o combate à corrupção. Impunha-se, nessa ótica, atacar o método pelo qual as elites decadentes se apropriavam – e se apropriam – das funções do Estado para reproduzir seus interesses particulares, entravando assim o acesso ao poder das camadas comprometidas com a democratização da vida pública, tais como o proletariado moderno e o empresariado produtivo.

Com vistas a demarcar suas posições, esses setores do petismo buscaram distinguir seus pontos de vista da parcela moralista e influenciada pela mídia monopolista. Com acerto, preferiam não ser confundidos com o fenômeno tratado pela ciência política brasileira pela designação de “udenismo”. Não à toa, adotaram a defesa de uma pauta liberal no que refere aos costumes, com ênfase na liberação das drogas ou ainda, a titulo de ilustração, a defesa da descriminalização do aborto – nada obstante uma certa presença de militantes católicos nestas correntes de opinião. Mantendo a coerência, jamais esconderam a sua solidariedade às chamadas “minorias” que, na realidade, conformam grandes maiorias no vasto mosaico das relações sociais presentes no país: mulheres, negros, grupos LGBT, índios, ambientalistas, quilombolas, entre outros.

Plural como as próprias camadas médias donde retira força, esse segmento do petismo, de igual maneira, nos últimos anos, cresceu a ponto de espalhar sua influência para a fora da legenda da estrela, fecundando o debate entre áreas do PSOL e da Rede Sustentabilidade, da senadora Marina Silva. Até mesmo no interior do governo Dilma tais tendências assumiram papel de destaque na produção de ideias: a mais influente entre muitas, a denúncia da “governabilidade” baseada no pacto PT-PMDB, fonte de paralisia (sic) e renúncia ao enfrentamento com os setores ditos conservadores do patronato político brasileiro. Fortemente vinculado à política, a prática desses agrupamentos pouco freqüenta o tema econômico. De uma maneira geral, pouco tem a dizer, por fora da abstração de princípio, sobre a contradição que cinde a qualquer sociedade capitalista: o antagonismo entre capital e trabalho.

Por fim, esse inventário, bastante ligeiro, por sinal, das respostas oferecidas pelo PT sobre o tema da construção do moderno, não deve omitir a referência a um terceiro quadro de referências. Fenômeno recente, tal posição conta pouco mais de uma década. Sua principal atitude se enuncia na busca pela recuperação (seletiva) de alguns de elementos da cultura política anterior à fundação do partido de Lula. Sem renegar as respostas fornecidas pelo PT das origens – repita-se a afirmação da identidade socialista, para uns ou a denúncia do patrimonialismo, para outros – essa nova síntese supõe: forçar a passagem ao moderno implica resolver a questão social. Cumpre, assim, impulsionar a unidade e a capacidade de mobilização das forças comprometidas com a luta pela erradicação da desigualdade no país, marca constitutiva do atraso de nossa formação social desde sempre. Inspirado no pensamento de autores como Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Nelson Werneck Sodré e Ignácio Rangel, entre outros, mas ao mesmo tempo incorporando contribuições atuais como as de Conceição Tavares e Theotonio dos Santos, apenas para citar dois autores em atividade, esse reforço de ideias à matriz original petista, pelo que tudo indica, tem por objetivo o aprofundamento contínuo dos espaços de democracia política na sociedade. Mas, não apenas isso.

Trata-se, igualmente, de transformar o atual caráter das instituições de Estado, colocando-as a serviço dos objetivos de um projeto de nação capaz de garantir a todos os brasileiros o exercício dos direitos e garantias individuais e, sobretudo coletivos, em boa parte previstos no texto da Constituição da República, de 1988. Caminho brasileiro para o socialismo, a implantação desse projeto nacional, de natureza não autárquica – porque aberto à integração com a América Latina e África – impõe, no caso do PT, o manejo de três ferramentas: um frente de centro-esquerda, um programa de reformas estruturais e uma estrutura partidária democrática e transparente.

(*) As reconstituições do debate de ideias no interior do PT, nos termos propostos neste texto, atêm-se a linhas gerais. Limitam o escopo da questão a um só tema: as estratégias de combate ao atraso estrutural do país. Outros tópicos geraram diferentes tipos de clivagem, conforme o caso das controvérsias acerca das formas de construção partidária, só para citar um dos contenciosos mais polêmicos. Por certo, outras sensibilidades em relação ao moderno existiram – e persistem existindo – no interior da agremiação. Sendo certo, ainda, que há contingentes na estrutura partidária completamente alheios a este tipo de problema teórico. Para estas áreas – presentes, em maior ou menor grau, em todas as tendências partidárias – trata-se apenas de reproduzir a presença da legenda como máquina arrecadadora de votos. Os impasses verificados pelo anseio de definição de uma cultura política adequada não tiram o sono desse tipo de militância já há muito perpassada pela deformidade burocrática.

Gustavo Santos - Esse é um bom texto e mostra bem o maior problema do PT, desde seu início é um partido mais focado na forma/ética (decisões a partir da base, democracia interna, respeito a diversas correntes, respeito aos 10 mandamentos na forma de fazer política) do que em conteúdo (objetivos políticos a serem conquistados): modelo econômico, reformas de base, protecionismo econômico, anti-imperialismo, direitos trabalhistas rígidos, típicas do velho trabalhismo (o único conteúdo/objetivo comum no PT foi combater a desigualdade).

Porém, como a forma sempre depende das circunstâncias, ela sempre será conspurcada em algum momento. por isso a grave crise do partido em razão do “mensalão” por uma questão de forma/ética cristã, e pouca crise no partido quando ele mudou os objetivos ao abraçar desde o primeiro mandato uma política econômica neoliberal e que só um pouco rejeitada pela Dilma nos seus primeiros 2 anos, antes de voltar atrás e novamente abraçar o neoliberalismo.

Um movimento político que foca mais em forma/ética do que em conteúdo/objetivos está sempre destinado ao colapso por contradição e dificuldade de manter realizações. Estou certo?

Adriano Benayon - As considerações de Marcelo Barbosa até podem ser interessantes, explicam algumas das coisas que o PT tentou ser e outras que ele sequer jamais tentou ser, como um partido controlador de governo em um país soberano.

Mas o fato é que o PT perdeu sua oportunidade histórica, se é que a teve um dia. Simplesmente eleger o presidente da República não significa governar. A herança dos últimos sessenta anos é muito pesada.

Ora, a característica de todos os governos que se sucederam em todo esse tempo – inclusive quando a sucessão foi de civis a militares, ou inversamente – é que nenhum deles foi de ruptura: tolerou-se sempre a supremacia das transnacionais, do capital estrangeiro e a financeirização, com o predomínio dos banqueiros, subordinados ao capitalismo central angloamericano.

Ora, não existe meia soberania,nem 1/5, nem outra fração de soberania. Ela existe ou não existe. O “governo” que se submete a pressões geralmente preside a seu fracasso. O PT já entrou mantendo as corruptíssimas privatizações, trazidas pelo pacote de leis de 1990 pelo facinoroso Collor e aplicadas pelo indescritível FHC.

Entrou submetido aos banqueiros, entre cujas virtudes – se há alguma – não está nem o patriotismo nem o sentido social, nem a capacidade de construir o desenvolvimento econômico e tecnológico.

Nos últimos 60 anos o Brasil assiste a uma série – aparentemente interminável – de períodos de crescimento, seguidos de crises, cada vez mais graves, pagando preço cada vez mais alto em termos de recursos naturais dilapidados e em termos de substância cultural, social e tecnológica.

Nem importa mais saber quem é o culpado pelo desastre presente, em que não só o PT está desacreditado, mas tudo que se associe a esquerda ou simplesmente a política.

Por enquanto, o PT fica condenado a continuar na presidência da República, colhendo a reprovação granjeada com o modo de governar segundo as agências de Estado criadas pelo PSDB, com as infraestruturas insuportáveis e caras, com a preferência pelas rendas de agiotas, com os escandalosos subsídios às transnacionais etc., num contexto em que a supressão dos direitos humanos e sociais é apenas o “a cereja no bolo”, e a abjeta palhaçada da reforma política dos políticos dá o toque final de mau gosto no que é uma apoteose da injustiça, também representada pelo Judiciário e outras instituições de um regime do qual muito pouco se aproveita.

Weber Figueiredo - Crítica afiada, Adriano, no entanto, minorada por medidas de alcance social imediatos adotadas pelo PT, mas nunca perenes, posto que, realmente, os governos Lula e Dilma não atacaram as sanguessugas, causas das mazelas econômicas e sociais. Inserir os pobres no orçamento da União foi bom, mas não resolve.

Semelhante a uma febre, baixada com antitérmico, mas sem debelar a infecção.

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Marcelo Barbosa é advogado, doutor em Literatura Comparada pela UERJ e diretor-coordenador do Instituto Casa Grande.

Gustavo Santos é doutor em economia e funcionário do BNDES.

Adriano Benayon é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo.

Weber Figueiredo é doutor em engenharia e professor do CEFET-RJ.

Acordo com a China: mais um xeque da Dilma? Complementos e análise

O articulista do blog O Cafezinho, Miguel do Rosário, publicou no último dia 19 uma interessante análise sobre a ofensiva contra a presidente, os acordos com a China e suas implicações no tabuleiro político. Por aqui reproduzimos o artigo juntamente com os comentários de nossos associados, Gustavo Santos, doutor em economia e funcionário do BNDES, e Weber Figueiredo, engenheiro e professor da CEFET-RJ.

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Acordo com a China: mais um xeque da Dilma?

Por Miguel do Rosário | Via O Cafezinho

Parece que subestimamos um pouco a nossa presidenta.

Em novembro do ano passado, mencionei uma jogada política astuta dela, ao “deixar rolar” a Lava Jato. Num post intitulado “O xeque-mate de Dilma em seus adversários“, eu fazia a seguinte especulação: que a investigação na Petrobrás iria deixar um rastro destruidor, mas que o setor renasceria renovado, e a presidenta levaria os louros de ter sido a primeira governante a realmente liderar uma verdadeira luta contra a corrupção. Dilma teria lutado à sua maneira, de maneira republicana, democrática, como convêm a um estadista (a quem não compete o papel de juiz ou polícia), não intervindo, em silêncio, dando autonomia inclusive a setores explicitamente hostis ao governo.

Era uma jogada arriscada, mas astuta.

Não foi um xeque-mate, porém. O jogo ainda estava longe de terminar.

Do final do ano até hoje, a mídia conseguiu diversas vitórias: elegeu Cunha, conseguiu impor a narrativa de que a corrupção na Petrobrás “nasceu” com o PT, e continuou vazando delações de maneira seletiva.

Por fim, Sergio Moro mergulhou na piscina barbosiana, recebeu o prêmio Faz Diferença, da Globo, e assumiu orgulhosamente o papel de juiz político, mais interessado em holofotes do que em justiça.

A prisão de Vaccari & família selou a sua imagem de carrasco implacável.

Então eu – e a torcida de todos os times, à esquerda e à direita – passamos a criticar duramente a presidenta Dilma.

A conspiração parecia ter saído do controle. O PSDB, com apoio explícito da mídia, passou a falar diariamente em impeachment. Todos os dias, os jornais catavam no baú algum pretexto para derrubar a presidenta. A palavra golpe se tornou companheira nossa de cada dia.

A direita botou milhões de coxinhas psicóticos na rua, pedindo intervenção militar.

E os procuradores se mostraram determinados a destruir as empreiteiras, para produzir, deliberadamente, recessão e desemprego, criando uma atmosfera propícia ao impeachment.

Dilma, mais uma vez, parecia entregar várias peças importantes, e não demonstrava nenhuma reação.

Até que ela… jogou.

E novamente aplica um xeque em seus adversários. Não arriscarei afirmar que se trata de um xeque-mate. Agora está claro que esse jogo só vai terminar em meados do ano que vem, ou então ao final de 2018.

Depois de apanhar calada como nunca dantes na história desse país, a presidenta Dilma finalmente parece ter encaçapado lindamente uma bola!

O acordo que o governo está celebrando com a China deu um prodigioso drible da vaca na conspiração midiático-judicial.

Uma conspiração que pretendia derrubá-la através de uma estratégia incrivelmente suja e canalha: asfixiando um dos setores mais importantes da economia, o de construção civil, e criando um clima de terrorismo econômico e caos político.

A semana passada, conforme analisei no post anterior, terminou mal para os paneleiros, e boa para o resto da população.

Quero martelar na cabeça do leitor dois fatos importantes: o lucro de R$ 5 bilhões da Petrobrás e o anúncio da China de investir R$ 160 bilhões no Brasil.

Hoje a presidenta encontrou o primeiro-ministro chinês, que confirmou a intenção da China de fazer os investimentos em infra-estrutura. Com destaque para… trens.

Na entrevista com Dilma da qual participei, minha pergunta foi justamente sobre isso: por que o governo não promovia a criação de uma indústria ferroviária no país, a única maneira de nos livrarmos da dependência da indústria automobilística, que é tão importante, mas que não pode, naturalmente, ter o monopólio sobre a política industrial?

A China está cruzando seu país com trens-bala e trens de transporte. Num primeiro momento, ela vai construir ferrovias para nos ajudar a escoarmos nossa produção. Num segundo, a fazer trens-bala ligando todas as grandes capitais do país.

Sobre esse tema, sugiro uma notícia publicada na BBC, que me chegou via o blog DCM.

Diante das notícias da China, a conspiração midiático-judicial ganhou uma aparência incrivelmente ridícula.

Óbvio que é importante lutar pela recuperação do dinheiro desviado da Petrobrás.

Mas não é isso que os procuradores, com apoio de setores do judiciário, estão fazendo.

O Moro já conseguiu e conseguirá recuperar alguns milhões, mas não adiantará nada se o fizer à custa da falência do setor naval, por exemplo.

Não adianta recuperar alguns ovos, e matar as galinhas.

Ontem, li que os procuradores conseguiram bloquear, nos últimos dias, cerca de R$ 1 bilhão das empreiteiras.

Pareceu-me que os procuradores estão realmente dispostos a sacrificar, no altar da Globo, nossas maiores indústrias de construção civil.

Acontece que, se as empresas quebrarem, aí que não pagarão mais nada ao Estado.

Finito.

Com a entrada da China, esse terrorismo, contudo, se torna patético e, ironicamente, antipatriótico.

A China se tornou a vacina contra o golpe. Se os procuradores levarem adiante sua estratégia insana de destruir importantes empresas nacionais, nós as substituiremos por chinesas.

Quem vai pagar o pato não serão os operários, que continuarão brasileiros, e sim um punhado de paneleiros executivos dos escalões médios das grandes empresas – e admito que terei dificuldade em sentir compaixão.

As denúncias contra os deputados, por sua vez, já aceitas pelo judiciário (um judiciário sempre pusilânime quando entram os holofotes da mídia), revelaram-se, mais uma vez, inconsistentes. Não que os deputados sejam santos, mas os procuradores não encontraram nada de concreto contra eles, e mais uma vez irão colher as provas após as denúncias, após prendê-los, invertendo pela enésima vez o princípio da presunção da inocência.

Pior, a força-tarefa da Lava Jato os acusou de crimes que não tem absolutamente nada a ver… com a Lava Jato. Um deputado do PP foi denunciado por incorporar uma doméstica como sua assessora, e um deputado petista por supostamente influenciar a Caixa a anunciar na agência de publicidade de seu irmão. Tudo ainda sem prova nenhuma, e sem nada a ver com o “petrolão”.

Com o último cartucho da Lava Jato já detonado com as delações confusas de Ricardo Pessoa, presidente da UTC, só falta resolver isso: não deixar que os procuradores, frustrados, destruam Paris.

Ou seja, é preciso impedir que os procuradores, desesperados com o fracasso de seu golpe contra o voto de 54 milhões de eleitores, detonem alguma bomba atômica sobre a indústria brasileira de construção civil, em especial os setores que trabalham com a Petrobrás.

O golpe político já está morto. Mas eles ainda podem (aliás, já estão fazendo) promover estragos de curto prazo na economia. Se conseguirmos evitar isso, através de acordos de leniência, que permitam às empreiteiras voltarem a trabalhar, pagar impostos, gerar empregos, e quitarem suas multas no devido tempo, a vitória do Brasil contra o terrorismo midiático será completa.

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Gustavo Santos - De fato ajuda a dar governabilidade, pois os gringos, que usam o Moro e os procuradores como marionetes, perceberão que apenas estão jogando o Brasil no colo da China. Essa é a disputa.

Suposta estratégia da Dilma. Se for é só uma estratégia de encurralado. Só sobrevivência, só de redução de perdas. Cair no colo da China dessa forma é muito melhor do que tomar um golpe judicial dos gringos, mas não será nada agradável. Empreiteiras estrangeiras só aumentam a corrupção porque utilizam o poder diplomático e da espionagem de seus países para facilitá-la.

Weber Figueiredo - Parabéns Dilma! Não que a relação com a China seja a “salvação da lavoura”, mas já é uma mudança de paradigma onde os negócios são realizados entre dois estados e não entre empresas que visam ao lucro em curto prazo.

A verdadeira “salvação da lavoura” só virá do próprio povo brasileiro, desde que seja instruído e evoluído. Caso contrário é a manutenção da eterna dependência externa a qual gera (1) dívida, (2) desemprego, (3) pobreza, (4) atraso e (5) criminalidade.

O ranking mundial da educação e a síndrome de vira-latas

O Brasil Econômico publicou ontem (14) uma matéria sobre o ranking mundial da educação da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O material informa que o Brasil ficou na posição 60 de 76 países avaliados, fazendo ainda comparações com os países mais bem avaliados.

Ocorre que a educação é outro tema em que o debate está obscurecido e muito do que se fez é ignorado, por isso, reproduzimos aqui o artigo em questão, seguido de uma análise crítica do economista e especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, Luis Felipe Giesteira, que nos traz algumas informações esclarecedoras.

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O ranking mundial de educação e a síndrome de vira-latas

Por Luis Felipe Giesteira, especial para o Blog dos Desenvolvimentistas

O tema educação é o prato cheio para os mitólogos que alimentam a síndrome de vira-lata brasileira. A grande mídia, e seu áulico, a classe média narcisista, se refestela, porque o assunto cai como uma luva para exalar sua convicção de que o povo brasileiro não presta pra nada.

Infelizmente, contudo, uma parte da esquerda ecoa essa baboseira preconceituosa, amiúde imbuída de uma suposta causa progressista, que é pedir mais recursos para a educação (até porque a parte da classe média que não é bestificada vive nos arredores desse meio) – é o que conduz a declarações como “Por aqui, jamais se conferiu à Educação a prioridade que merece”. Basta lembrar que nos anos 80 nós gastávamos pouco mais da metade do que a OCDE gastava, e hoje nosso padrão – 6,7% do PIB – é altíssimo, bem acima da OCDE e quase o dobro da Coréia (que o pessoal que lê jornal gosta tanto de citar tsc, tsc). No mesmo período, nosso gasto com infraestrutura, por exemplo, é que caiu para níveis irrisórios.

Além disso, é sempre bom lembrar que:

- O exame base desse ranking é o PISA da OCDE, de forma que trata-se de uma amostra absolutamente enviesada dos países do mundo (o terço das nações do mundo mencionado), pois praticamente todos desenvolvidos estão presentes, mas apenas uns poucos não desenvolvidos (3/4 da humanidade). Ou seja, o Brasil está no final de um ranking com os que formam o topo. É mais ou menos como pegar um nadador amador joão braço rápido, botá-lo pra nadar com os que formaram a final da olimpíada passada e dizer que o joão é o pior nadador do mundo.

- Aliás, não é um detalhe observar que na verdade estamos á frente de outros que tem mais tradição educacional ou são mais ricos que nós como Argentina, Peru, Albânia, Arábia e África do Sul.

- Esse resultado seria melhor caso se comparasse alhos com alhos: os estudantes brasileiros ainda estão “fora do ano correto”. Vale dizer, muitos alunos de 15 anos estão ainda na 5a ou 6a série e foram cobrados por conteúdos correspondentes à 9a, pois o PISA faz exames por idade. Só isso alteraria a nota média em 15% (no PISA), a colocando apenas pouco abaixo da média geral.

- Outro fator que prejudica fundamentalmente nosso desempenho comparado é que o Brasil está em pleno processo de universalização, partindo de uma base social horrível. Alunos que fizeram PISA em 2012 (último ano) nasceram em um Brasil muito ruim para crianças, com mortalidade infantil altíssima, desnutrição boçal etc. Eles são uns 30% dos que fazem o exame.

- Isso na verdade resulta de uma grande virtude da “falta de prioridade à educação”: a elevação impressionante na escolaridade média – que saiu de 4,5 para 8,7 anos em apenas 23 anos! É a segunda taxa mais rápida do mundo (entre 167 países, aí sim, com todos subdesenvolvidos também), só atrás da Índia (que se recusa a fazer o PISA, por que será?). Repito: é a segunda que mais melhora do mundo, o mesmo salto levou quatro décadas em países hoje ricos.

- Com tudo isso, o desempenho brasileiro em pontos na nota geral é o terceiro que mais melhorou entre todos países avaliados pelo PISA e o primeiro em matemática. Essa é a avaliação isoladamente mais relevante a ser feita quando se trata de uma política pública: o indicador alvo melhorou? Na verdade, isso está dito no relatório de 2012. Mas parece que poucos jornalistas brasileiros se interessaram pela notícia, poucos leitores chegaram a ler essa parte e os que leram preferiram se ater no que bate com os mitos inferiorizantes que lhe martelaram na cabeça desde tenra idade.

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Educação – Brasil está em 60º lugar no ranking de 76

Asiáticos lideram ranking global de educação da OCDE; os EUA aparecem apenas na 28ª posição entre 76 países, e o Brasil, bem mais abaixo, em 60º lugar.

Por Florência Costa

Países da Ásia estão no topo de um ranking global de educação em matemática e ciências divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com Cingapura em primeiro, Hong Kong (região administrativa da China) em segundo, Coreia do Sul em terceiro, e Japão e Taiwan empatados em quarto lugar. Em um dos mais completos rankings mundiais de qualidade de educação, a OCDE mostra a relação entre educação e crescimento econômico. A organização analisou 76 países ricos e pobres. Isso representa o total de um terço das nações do mundo. O Brasil figura em um distante 60º lugar, próximo das nações africanas. A última colocação coube à Gana, na África. Os asiáticos, que começaram a investir pesado em educação na década de 90, deixaram países industrializados ocidentais para trás, como o Reino Unido, que ficou na 20ª posição, a França (23º), a Itália (27º), e os EUA, maior economia do planeta, que amargou o 28º lugar, atrás de países mais pobres como o Vietnã, em uma impressionante 12ª colocação. O ranking foi estabelecido com base em resultados de testes de matemática e ciências aplicados nesses países.

Foram considerados os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), o TIMSS (dos EUA), e o TERCE, da América Latina. A China e a Índia não estão na lista porque se recusam a participar da aferição da OCDE. Entre os países dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) analisados, a Rússia está aparece melhor, em34ª posição. A África do Sul está pior do que o Brasil, em 76º lugar. Imediatamente à frente do Brasil estão a Geórgia (59º), o Líbano (58º) e Barein (57º). A OCDE calcula que o PIB do Brasil poderá crescer mais de sete vezes nas próximas décadas se o país oferecer educação básica universal de qualidade para todos os adolescentes de 15 anos, informou a BBC Brasil. “Políticas e práticas educativas deficientes deixam muitos países em um permanente estado de recessão econômica”, afirma o relatório da OCDE. Na América Latina, o país que se saiu melhor foi a Costa Rica, em 53º lugar, seguido do México, em54ª colocação, e do Uruguai, em 55ª posição. Mas a Argentina está atrás do Brasil, em 62º lugar. Outros países da região que estão na lanterninha do ranking são Colômbia (67º), Peru (71º) e Honduras (74º).

O primeiro país não asiático a aparecer na lista é a Finlândia, em sexto lugar, seguida da Estônia (7º), Suíça (8º), Holanda (9º), e Canadá (10º). O relatório da organização ressalta também o declínio da Suécia, em 35º lugar, imediatamente atrás da Rússia. A OCDE já havia advertido, em um relatório divulgado na semana passada, que o país nórdico sofre de uma série de problemas em seus sistema educacional. Segundo o diretor de educação da organização, Andreas Schleicher, a ideia é permitir aos países, ricos e pobres que comparem seu desempenho com as nações líderes em educação, “para descobrirem suas forças e fraquezas relativas, e para perceberam os ganhos econômicos de longo prazo que terão com a melhoria da educação”. O novo ranking é diferente do mais conhecido Pisa, também da OCDE, a referência internacional mais usada para avaliar a educação, e que até agora focava principalmente nos países industrializados mais ricos. “Esta é a primeira vez que temos verdadeiramente uma escala global sobre a qualidade da educação”, disse Schleicher. Se os cinco primeiro lugares estão na Ásia, os cinco piores resultados estão na África, América Latina e Oriente Médio.

O sucesso da Ásia na educação, diz Schleicher, se explica não somente pela prioridade dada pelos governos à educação, embora este seja o principal fator. Mas a cultura que valoriza o conhecimento e a obtenção do sucesso também tem forte influência. “Se você assistir uma aula em uma escola asiática, vai perceber que os professores esperam que cada um de seus alunos tenha sucesso. Há muito rigor, muito foco e coerência”, conta ele. Cingapura, a estrela do ranking, tinha altos índices de analfabetismo nos anos 60. A cidade – Estado, de 5,5 milhões de habitantes, já registrou altos níveis de analfabetismo na década de 60. Seu desempenho excelente é citado como um exemplo da evolução educacional em uma sociedade em um período de tempo relativamente curto. Ex-colônia britânica, o país asiático se tornou independente somente em 1965. Os resultados desta pesquisa serão formalmente apresentados no Fórum Mundial de Educação, que será realizado na Coreia do Sul, na próxima semana, quando as Nações Unidas vão encabeçar uma conferência sobre os alvos para a evolução da educação global até 2030.

A captura do sistema político; complementos e análise

Por Silvio Caccia Bava, comentado por Adriano Benayon | Via Le Monde Diplomatique

Para falar sobre a situação política atual no Brasil é preciso compreender algumas mudanças substantivas que ocorreram no passado recente e criaram as condições para o que chamo de captura do sistema político pelo poder econômico, o maior problema de nossa democracia.

Até 1997, no Brasil, as empresas eram proibidas de financiar campanhas eleitorais. A onda neoliberal mudou esse cenário. Foi com a lei eleitoral n. 9.504/97 que as empresas passaram a poder financiar candidatos e campanhas leitorais. E isso mudou tudo.

A nova lei eleitoral, inspirada no modelo norte-americano, permite que as empresas criem vínculos diretamente com os candidatos, sem qualquer intermediação dos partidos. Os partidos, seus programas e propostas ficam em plano secundário. E, nessa relação direta entre candidato e empresa, o que desejam os doadores? Desejam políticas que atendam a seus interesses privados, desejam a defesa de seus interesses nas arenas decisórias das políticas públicas. Para isso organizam lobbies, pautam a mídia, mas também elegem bancadas parlamentares e influem na escolha de gestores públicos.1

O modelo europeu de financiamento de campanhas eleitorais vai no sentido contrário, valorizando e fortalecendo os partidos políticos, e não as candidaturas individuais. E há países que proíbem o financiamento de campanhas eleitorais por empresas, tais como Peru, Colômbia, México, Canadá, França e Portugal. A Espanha estuda adotar essa nova política agora.2

O financiamento eleitoral por empresas foi modificando cada vez mais a composição do Congresso Nacional e reduzindo à impotência os candidatos com poucos recursos. Se nas eleições de 2002 os gastos totais foram de cerca de R$ 800 milhões, em 2014 eles chegaram a R$ 5,1 bilhões, quase em sua totalidade contribuições feitas por empresas. Além das doações privadas, os partidos políticos receberam R$ 308 milhões de recursos públicos provenientes do Fundo Partidário, e as TVs receberam R$ 840 milhões de isenções fiscais pelo tempo “gratuito” de veiculação de campanhas eleitorais.3

Em média, nas últimas eleições, um deputado federal eleito gastou R$ 1,4 milhão para se eleger; um senador, R$ 4,9 milhões; os candidatos eleitos gastaram onze vezes mais que os não eleitos.4 Os que não contaram com esse aporte financeiro em suas campanhas, por melhores candidatos que fossem, salvo raríssimas exceções, não se elegeram.

Esse fenômeno de captura do sistema político pelo poder econômico é mundial. Nos Estados Unidos, a situação é a mesma. Quando, em janeiro de 2010, a Suprema Corte norte-americana decidiu em favor do financiamento de campanhas eleitorais por empresas, o jornal The New York Times, em editorial, denunciou que esse era “um golpe no coração da democracia, facilitando o caminho para que as corporações empresariais empreguem seus vastos tesouros para inundar com dinheiro as eleições e intimidar os governantes eleitos para que obedeçam a suas determinações”. Noam Chomsky, na mesma época, denunciou: “Essa liberalização financeira cria o que alguns chamam de ‘parlamento virtual’ de investidores e credores que controlam de perto as políticas governamentais e ‘votam’ contra elas, se as consideram ‘irracionais’, quer dizer, se elas beneficiam o povo, e não o poder privado concentrado”.5

O resultado é claro. Em 2014, no Brasil, as dez empresas que mais doaram para as campanhas eleitorais para a Câmara dos Deputados elegeram 360 deputados de um total de 513, isto é, 70% da Câmara Federal.6 O Congresso Nacional de 2015 não está formado por bancadas de partidos políticos, e sim por bancadas de interesses privados que estão distribuídas por todos os partidos.

A bancada ruralista é composta por 374 deputados federais – sendo 118 deles do próprio agronegócio –, distribuídos por 23 partidos. A bancada dos bancos conta com 197 deputados e se distribui por dezesseis partidos. A bancada dos frigoríficos tem 162 deputados alojados em 21 partidos. A bancada das mineradoras tem 85 deputados em dezenove partidos. A bancada da bebida alcoólica conta com 76 deputados em dezesseis partidos.7 Isso para falarmos apenas das maiores bancadas de interesses privados e sem nos referirmos, por exemplo, à bancada evangélica, cuja agenda fundamentalista está longe da defesa do interesse público.

A realidade é que a composição atual do Parlamento brasileiro é de 70% de fazendeiros e empresários (da educação, da saúde, industriais etc.).8

O novo Congresso é militantemente conservador e reacionário. Posta sob um comando errático, que atua ao sabor da disputa política do momento, sob forte influência das bancadas de interesses privados, a Câmara dos Deputados impõe políticas de restrição de direitos, cuja expressão máxima é a proposta de terceirização para todas as atividades de qualquer empresa. É o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar.

Adriano Benayon - Este artigo é mais um documento ilustrativo do corruptíssimo sistema político que vige no Brasil, absolutamente incompatível com a democracia e com o desenvolvimento econômico e social.

Um dos aspectos notáveis do artigo é destacar a lei 9.504 de 1997, que permitiu o financiamento de campanhas eleitorais por empresas.

Como não podia deixar de ser, mais um tijolo significativo na construção da ruína do País, assentado durante o primeiro e, como o segundo, fatídico mandato do agente mais deletério para o País com que a oligarquia angloamericana contou, desde que foi controlando seus rumos, com especial toxidade desde agosto de 1954.

Considerando que o Congresso cometeu coisas terríveis para o futuro do País durante todos os quase sessenta anos que decorrem, mesmo antes de 1997, imagine-se o grau de destruição que ele acarreta, desde então.

Deixemos, pois, de questionar a cor da pintura do prédio: temos de encarar a realidade que é uma estrutura corroída a distribuir sua podridão, permanente e crescentemente.

Notar também que, mesmo os países citados no artigo que não têm lei eleitoral tão deletéria, como essa de 1997, estão longe serem reais democracias ou algo próximo a isso. Muito pelo contrário.

Referências:

1 Tiago Daher Padovesi Borges, “Um estudo sobre as doações empresariais e as carreiras nas eleições de 2006”, 36º Encontro Anual da Anpocs, 2012.

2 Mariana Schreiber, “Financiamento empresarial de campanha é proibido em 39 países”, 31 mar. 2015.Disponível em: www.pragmatismopolitico.com.br

3 Mariana Schreiber, op. cit.

4 José Roberto de Toledo e Rodrigo Burgarelli, “Candidatos eleitos gastam em média 11 vezes mais que não eleitos”, Estadão, 7 nov. 2014.

5 Noam Chomsky, “Las empresas toman la democracia de EEUU” [As empresas tomam a democracia dos EUA], Sin Permiso, 8 fev. 2010.

6 Américo Sampaio, “Do que estamos falando quando debatemos o financiamento empresarial de campanha?”. Disponível em: www.escoladegoverno.org.br/artigos/4041.

7 Sandra Gonçalves Costa, pesquisadora da USP. In: Najar Tubino, “Conflitos no campo: o rastro da violência e da política”, Carta Maior, 20 abr. 2015; Frei Betto, “Reforma política já”, Observatório da Sociedade Civil, Abong, 2015.

8 Frei Betto, op. cit.

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Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.

Adriano Benayon é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo. Autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

 

O grupo Malucelli, Álvaro Dias e a Lava Jato

Por Paulo Moreno e Adriano Benayon

Álvaro Dias e seu suplente, Joel Malucelli

O grupo Malucelli no Paraná está citado na Revista Forbes com uma das cem maiores fortunas do mundo e o segundo mais rico do Brasil, com patrimônio superior a 2,5 bilhões de dólares, incluindo o Paraná Banco, as emissoras de rádio e televisão do Paraná (filiados da Rede Globo no estado)  e a Construtora J. Malucelli que pertence a uma dos irmãos, o Joel Malucelli e uma das empresas do Cartel das Empreiteiras, e está realizando as obras na Usina Belo Monte.

Existe muita corrupção que foi escondida para baixo do tapete. Os doleiros paranaenses Alberto Youssef e Olga Youssef emprestaram jato particular para as campanhas de Jaime Lerner (1994) e Alvaro Dias em 1998 e operaram entre 1995 e 2002 para os tucanos no esquema Banestado (Banco do Estado do Paraná), o maior esquema de corrupção da história do Brasil e é cem vezes maior que o atual do Cartel das Empreiteiras que envolve vários partidos.

O delegado Protógenes Queiroz prendeu Youssef em 2001 e foi perseguido pelo sr FHC e o Judiciário (STJ) pelo sr Gilmar Mendes. Alberto Youssef operou para os tucanos por oito anos seguidos e lavou para 91 políticos demo-tucanos uma fortuna bilionária de R$ 150.000.000.000,00-  150 bilhões de reais (50 bilhões de dólares) em propinas para realização das privatizações fraudulentas (137 estatais que valiam 15 trilhões de dólares).

As propinas representaram 1% dos valor das estatais alvos de “privatarias” e foram pagas por dezenas de empresas multinacionais, sendo na área de petróleo elas foram lideradas pela ShellUm auditor da Shell, sr Zera Todd,  veio ao Brasil em 2002 investigar as denúncias contra a petrolífera e o pagamento de propinas de hum bilhão de dólares a políticos brasileiros no governo FHC na quebra do monopólio do petróleo em 1995, Zera Todd foi morto de modo brutal num simulado latrocínio, na casa alugada na Barra da Tijuca, e a mulher também foi assassinada, só escapou a filha do casal de 13 anos de idade que se trancou no banheiro e fugiu pedindo ajuda a uma viatura da PMRJ, ele foi levada de volta aso EUA pelos tios. Esse crime hediondo nunca foi investigado, os criminosos não levaram dinheiro somente os computadores da família e o LAPTOP de Zera Todd para “fazer queima de arquivos”.

Na mesma época um auditor da ANP que investigava o acidente da P-36 (explosão e afundamento), deparou-se com documentos muito confidenciais de uma “carta-caução” de um banco nas Ilhas Caymã no contrato “turn-key” da P-36 em nome de deputados, senadores e do genro de FHC, o sinistro sr David Zylbersztajne esse auditor apareceu morto envenenado no seu apartamento no bairro Botafogo.

Também no apagar das luzes do governo FHC em dezembro de 2002 foi assassinada em BH a “laranja do primeiro mensalão” sra Cristiane Aparecida Ferreira (ela transportou por 8 anos malas de dinheiro da CEMIG para remunerar deputados obedientes a FHC), conhecido como “Esquema Mensalão Mineiro”  (Mensalão Tucano) criado em 1998 por Eduardo Azeredo, Clésio de Andrade e Aécio Neves Os livros “A Privataria Tucana” de Amaury Junior e “FHC, Crise e Corrupção” de Henrique Fontana mostram documentos bombásticos investigados pelo delegado Protógenes, que levou a prisão de Youssef em 2001,e em seguida Gilmar Mendes exonerou o delegado por ter investigado os tucanos.

Quem manda no estado do Paraná são as famílias Joel Malucelli dono da construtora J. Malucelli e Andre Malucelli donos do Paraná Banco. A familia Malucelli é proprietária de quase toda a mídia no Paraná e dona das emissoras de rádio e de televisão filiadas á Rede Globo O grupo Malucelli ganhou obra da construção da Usina de Belo Monte e possui 44 empresas, uma fortuna estimada em 2 bilhões de dólares, a sócia mais conhecida na midia é Ana Lucia Malucelli Moro, parente de Sergio Moro.

Rosangela Moro atua como advogada da Shell. Isso explica as delações premiadas direcionadas “seletivas” contra o Partido dos Trabalhadores, com apoio da mídia paranaense, o Grupo Time Life (criadores da REDE GLOBO) sócios do grupo siciliano “Mondadori Civita Castellana” (Editora Veja) no Brasil orientados para o golpismo político na República do Paraná dos Maulucelli.

O mega-empresário dono de 44 empresas, banqueiro e empreiteiro Joel Malucelli é o suplente do senador Álvaro Dias e tem o Judiciário comprado, pois a sra Ana Lucia Maluccelli Moro e Joel Malucelli, suplente de Alvaro Dias e dono das emissoras de rádio e televisão filiadas a Rede Globo são os informantes no Lava Jato e fazem as publicações seletivas nos jornais e emissoras da família Malucelli no Paraná. 

As famílias Moro e Malucelli além de serem parentes muito próximos, estão unidas no Paraná para obter vantagens econômicas no Paraná, obras superfaturadas feitas em quase 20 anos de governos tucanos no Paraná pela Construtora J Malucelli.  Houve CPI abafada na Assembléia Legislativa do Estado do Paraná. O governador atual Beto Richa, Alvaro Dias e o doleiro paranaense Alberto Youssef  estão envolvidos no escândalo SANDESPAR, a empresa de saneamento do Paraná. Envolve principalmente a gestão de Álvaro Dias e negócios milionários com a empreiteira de Joel Malucelli.  Esse processo, relacionado à engavetada CPI da SANDESPAR, teve o mesmo destino, nas mãos do engavetador mór de FHC Geraldo Brindeiro.

Alvaro Dias durante toda a campanha de 1998 voou no jato particular do doleiro Alberto Youssef, o operador dos tucanos no Esquema Banestado, e nas suas campanhas políticas mais recentes, e agora finge de esquecido ou está com Alzheimer.

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Bomba! Folha liga doleiro “amigo de Vargas” a Alvaro Dias

Por Miguel do Rosário

Como tenho repetido por aqui, os jornalões agora só tratam o doleiro Alberto Yousseff como “amigo de Vargas”. As manchetes do Globo tem sido assim: “Doleiro amigo de Vargas…”, etc.

Entretanto, se a mídia fosse minimamente imparcial, teria que mencionar também outro caso. Alberto Yousseff foi pivô de um esquema multimilionário de corrupção investigado pela Procuradoria de Defesa do Patrimônio Público de Maringá. Durante a investigação, as autoridades descobriram que Alberto Yousseff pagou jatinhos para uso do senador Alvaro Dias.

Pelo que entendi, não foi uma só viagem do senador com a família, como aconteceu com André Vargas. O jatinho de Yousseff foi disponibilizado para o senador durante toda a campanha eleitoral de 1998.

Trecho da matéria: Quanto a Dias, o ex-secretário disse que Gianoto determinou o pagamento, “com recursos da prefeitura”, do fretamento de um jatinho do doleiro Alberto Youssef, que teria sido usado pelo senador durante a campanha.

“O prefeito (Gianoto) chamou o Alberto Youssef e pediu para deixar um avião à disposição do senador. E depois, quando acabou a campanha, eu até levei um susto quando veio a conta para pagar. (…) Eu me lembro que paguei, pelo táxi aéreo, duzentos e tantos mil reais na época”, afirmou.

E tudo isso no meio de um esquema cabeludíssimo de corrupção.

Mas Alvaro Dias é tucano e, portanto, membro do time dos “intocáveis”. A mídia jamais vai lembrar essa história, que poderia comprometer a narrativa que tenta construir em torno de André Vargas. O PT, como sempre, foge da luta política, e não corre atrás de quem é, verdadeiramente, Alberto Yousseff, cuja ligação com o tucanato é muito mais perturbadora do que uma viagem de jatinho de Vargas com a família.

A viagem de André Vargas no jatinho do doleiro foi um erro e uma sinalização ética invertida, mas usar jatinho de doleiro durante toda uma campanha eleitoral configura, evidentemente, uma outra escala de degradação moral, infinitamente maior.