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Beto Richa e terceirização: Gostinho de ditadura

Por FC Leite Filho

Depois da truculência do Beto Richa, eu me pergunto como ficam esses colunistas da Veja e da Globo que vivem chamando o Lula, a Dilma e a Cristina de ditadores. Ou será que democracia para eles é o regime dos generais Médici, Pinochet e Videla, a que eles jamais aludiram como ditadores, em seus textos. Pelo contrário, os generais-presidentes da fase mais obscurantista da América Latina (1960-1980), eram por eles tratados reverencialmente como estadistas, mesmo tendo passado todos os seus governos prendendo, torturando, matando e perseguindo dissidentes, sobretudo estudantes mal entrados na universidade.

A ação policial comandada pelo governador do Paraná, que feriu 200 professores em protesto de rua em Curitiba, na semana passada, veio, no entanto, lançar uma luz sobre os reais propósitos da arremetida midiática, que quase derruba o atual governo brasileiro. Lembre-se que, num movimento paralelo, a Câmara aprovava, quase na mesma semana, o projeto da terceirização, com potencial de reduzir conquistas sociais, com diminuição de salários, eliminação de garantias trabalhistas e inviabilizar os concursos públicos. As duas ações, aparentemente independentes, mas interligadas dentro do plano maior da reinstauração do neoliberalismo, o mesmo que se abateu sobre nós por mais de 20 anos. Seu objetivo é, em última análise, transplantar para cá as políticas recessivas hoje reinantes na Europa, que já quebraram a Grécia, Espanha e Itália. Daqui a pouco vão querer dar em cima de nosso 13o. salário, reduzir pensões e impor o congelamento salarial, como já se escuta nos corredores do Congresso, pois, como se observa, a ordem é de maximizar os lucros dos banqueiros e multinacionais, nem que a à custa do sangue do trabalhador

Ainda bem que isso está vindo à tona, porque, assim, o país, não de todo refeito do torpor das piroctecnias de rua e de mídia, vai se dando conta da trama por trás do denuncismo que se apossou do noticiário nos últimos 15 meses. Mostra igualmente que eles não vieram para brincar e que estão dispostos a trazer de volta a ditadura, não a de mentirinha, mas a verdadeira, se preciso for. Nada mais sintomático, neste aspecto, do que a repressão de Beto Richa. O passar do tempo serviu igualmente para demonstrar que a Petrobrás não está assim tão mal, tendo, pelo contrário, voltado a puxar as ações da bolsa, e que os envolvidos nos seus escândalos não eram só do PT, mas, rigorosamente, de todos os partidos, inclusive os da oposição, à frente o PSDB e o PMDB dissidente. A diferença é que os jornais só noticiavam e, em alguns casos, com grosseiras manipulações, os políticos petistas, estes sem o mínimo direito de defesa, tal qual fizeram no passado contra Leonel Brizola.

É importante que observemos que tanto o atual governo de Richa,  como o de Aécio Neves, em Minas, entre 2002 e 2010, constituem, com seu “choque de gestão”, o jeito tucano de governar. Na verdade, esses dois meninos mimados da mídia corporativa, aprofundam, com sua perseguição a professores e funcionários públicos, a experiência neoliberal do octênio de Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), no plano federal, quando o presidente eleito pelo PSDB, não só entregou nossas grandes estatais a empresários amigos e associados, como também fez o trabalhador amargar oito anos de congelamento salarial, enquanto o desemprego assumia proporções alarmantes, e nosso florescente projeto de industrialização ia para o brejo.

A estratégia real era baixar um pacotaço com a eleição Aécio Neves, em 2014, que as elites consideravam como favas contadas, mas que fracassou com a decisão do eleitorado de optar pela manutenção de Dilma Rousseff como presidente da República, por mais quatro anos. Era tão evidente este plano diabólico, que Aécio tinha nomeado por antecipação seu ministro da Fazenda, Armínio Fraga. E quem é Armínio Fraga? É, um brasileiro-americano, com residências no Rio e em Nova York e tido como dos principais agentes de George Soros, um dos maiores especuladores internacionais e cérebro privilegiado da ofensiva de desmonte dos pobres estados nacionais. Para cúmulo da coincidência, o mesmo George Soros veio ao Brasil, na semana passada, para jantar com FHC, hoje, aos 83 anos, chefe dos tucanos e grande referência internacional da privataria. Para os que não se recordam, Armínio Fraga tinha sido presidente do Banco Central do mesmo FHC, trazendo evidentemente seu aporte técnico para o desmantelamento de nosso aparato estatal.

Se mirarmos os exemplos recentes do Peru e do México, onde a retomada privatista já engoliu as empresas de petróleo e os bancos oficiais, com nova explosão do desemprego, numa incipiente blitz grieg neoliberal em território latino-americano, podemos ter ideia de como também seriam aqui abocanhados a Petrobrás, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, no caso da eleição de Aécio ou de de qualquer candidato bafejado pelas ondas ensurdecedoras dos meios de comunicação. Mas se perderam o Palácio do Planalto, o esquema golpista se apoderou do quorum qualificado da Câmara e do Senado, a partir de onde começaram a agir, forçando-os a aprovar leis restritivas ao trabalhador, os direitos individuais e à soberania nacional, como bem demonstra o projeto da terceirização, aprovado pela Câmara, e em ponto de bala para tramitar no Senado.

Paralelammente, o projeto da terceirização, certamente, vai abrir caminho, se não for sustado a tempo no Senado ou vetado pela presidenta, para novas investidas do grande capital. Deus queira que não cheguemos aos níveis da Espanha, onde, com essa mesma toada de “acabar com a corrupção” e “flexibilizar o mercado de trabalho”, reduziu salários, eliminou benefícios sociais do antigo wellfare state e ainda tomou as casas de quem não pôde pagar. Mesmo despejado, o cidadão fica obrigado a continuar pagando aos bancos emprestadores. Por causa disso, há 800 mil apartamentos vazios no país. O desemprego é outra vergonha para esta potência europeia: situa-se há mais de cinco anos numa média de 25% (no Brasil, país emergente, está em 6,2 e na Argentina, 6,9%), sendo que, entre os jovens, beira os 50%, e isso depois de três anos de uma reforma trabalhista flexibilizadora, baixada por decreto-lei.

Como revela relatório da Organização Internacional do Trabalho, o Brasil, ao lado da Argentina, foi o país que mais diminuiu a desigualdade salarial no mundo nos últimos dez anos, reduzindo-a em 72%. O mesmo relatório (o Global Report 2014/15 on Wages and Income Inequality) sustenta que aconteceu o contrário nas economias desenvolvidas. onde houve aumento da desigualdade social e da perda de empregos. É isso tudo que querem eliminar os “democratas” do establishment, com sua interminável obsessão em fazer o Brasil a voltar à condição de país periférico, do qual se levantou a partir de 2003, acompanhando a tendência autonômica de outros países progressistas da região, que a mídia não cansa de chamar de ditaduras, mas que realizam eleições com crescente participação popular.

Primeira edição de “Cem anos de solidão” some na Feira do Livro de Bogotá

Via Agência Efe

Um exemplar da primeira edição de “Cem anos de solidão”, com dedicatória do nobel Gabriel García Márquez, foi roubada do pavilhão de Macondo da Feira Internacional do Livro de Bogotá (++Filbo++), confirmaram os organizadores neste domingo.

O roubo do livro foi detectado na noite de sábado, disse à Agência Efe uma fonte próxima à Câmara Colombiana do Livro.

O escritor colombiano Gabriel García Márquez, autor de “Cem anos de solidão”, morreu no ano passado aos 87 anos. EFE/Mario Guzmán

O exemplar roubado pertence ao livreiro Álvaro Castillo, que o tinha emprestado para a feira.

“Infelizmente temos que confirmar o roubo. Esta tarde emitiremos um comunicado oficial sobre o sucedido”, disse a fonte.

O livro roubado estava exposto no pavilhão de Macondo, convidado de honra da XXVIII edição da feira, que termina amanhã.

“Cem anos de solidão” foi publicado pela primeira vez em 1967 pela editora Sul-Americana de Buenos Aires e desde então se transformou em um fenômeno da literatura mundial.

 

Latino-americanos “de pele mais escura” têm menos oportunidades

Por José Baig | Via El País

Para ter menos acesso à educação, mais possibilidades de morrer durante o parto ou nos primeiros meses de vida, ganhar menos dinheiro ou ter praticamente vetada a participação na política, na América Latina basta uma única condição: ter a pele mais escura.

Segundo dados das organizações internacionais, os afrodescendentes da América Latina têm uma probabilidade duas vezes menor de ter acesso a escolas secundárias que as pessoas de raça branca.

No Brasil, as mulheres afrodescendentes são o segmento com menor ingresso de toda a população. Sua participação na vida política é mínima, e só uma pequena fração foi escolhida alguma vez como representante no parlamento.

No Equador, a taxa de mortalidade infantil na cidade de Esmeraldas (de maioria afrodescendente) é o dobro da média nacional. Na costa do Pacífico da Colômbia, onde também é predominante a população de descendência africana, esta taxa é quatro vezes maior que a média nacional.

As mulheres afro-brasileiras têm uma probabilidade três vezes maior de morrer durante o parto que as de raça branca. Cerca de 57% dos bebês de mães afro-colombianas nascem de maneira prematura.

Estas estatísticas sempre existiram, mas agora organizações defensoras dos afrodescendentes voltaram a divulgá-las pelo início do Decênio Afrodescendente (2015-2024), uma iniciativa da Organização das Nações Unidas para que este coletivo seja considerado um grupo específico cujos direitos humanos devem ser promovidos e defendidos.

“Algo está mal”

“A América Latina é a região de maior paz, a de mais democracia, na qual mais se reconheceram os direitos dos povos originários nas constituições e nas leis, mas os afrodescendentes desfrutam muito pouco dessas vantagens, temos que reconhecer que algo está mal”, disse Romero Rodríguez, embaixador itinerante do governo do Uruguai para Assuntos Afrodescendentes.

Rodríguez e outros responsáveis de temas afrodescendentes em governos da América Latina estiveram em Washington para participar das atividades oficiais de início do Decênio Afrodescendente na região.

Durante um evento na sede do Banco Mundial, os participantes debateram como enfrentar a clara exclusão dos afrodescendentes na vida dos países, especialmente no que concerne ao trabalho da instituição anfitriã: o desenvolvimento e a erradicação da pobreza.

Pastor Murillo, assessor de Assuntos Afrodescendentes do vice-Ministério para a Participação e Igualdade de Direitos da Colômbia, destacou que um dos problemas são os censos da população, pois nem sempre as pessoas são contadas como afrodescendentes.

Destacou que, embora em seu país, o último censo oficial revela que há cerca de dois milhões de afrodescendentes na Colômbia, acha que a cifra pode ser seis vezes superior, quer dizer, quase 1/3 da população colombiana.

O pior, assegura, é que por não estarem contados como tais nos censos da população, os afrodescendentes ficaram fora dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e afirma que todos os envolvidos no tema precisam trabalhar juntos na solução. “O reconhecimento diferenciado dos direitos dos afrodescendentes é um desafio regional”, afirmou.

Racismo, um mal negócio

Além das políticas diferenciadas para os afrodescendentes, os governos da região já estão tomando algumas medidas específicas como no Uruguai, onde os organismos públicos devem cumprir uma cota de contratação de pessoas afrodescendentes e as culturas africanas tradicionais fazem parte do programa escolar.

Também na Colômbia se colocou em marcha uma das demandas mais velhas das comunidades afro-colombianas, que é o reconhecimento da propriedade coletiva das terras, um processo que foi apoiado pelo Banco Mundial.

Na Costa Rica – um país onde boa parte da população afrodescendente é, além disso, falante de inglês – trabalha agora para que a discriminação racial seja considerada delito, algo que agora é apenas uma contravenção cuja multa mais elevada equivale apenas ao custo de dois refrigerantes.

Os assistentes coincidiram que existe na sociedade latino-americana um “racismo estrutural” que deve ser combatido não apenas protegendo os afrodescendentes, mas também conscientizando o resto da sociedade sobre a existência desta discriminação baseada na cor da pele.

Combater o racismo, além disso, não é apenas questão de justiça, mas de simples lógica econômica, segundo Marisela Montiliu-Muñoz, diretora da Prática Global de Desenvolvimento Social, Urbano e Rural do Banco Mundial.

“Vamos imaginar que os 150 milhões de latino-americanos que hoje estão excluídos por sua cor de pele estivessem contribuindo aos mercados, que impacto teria isso na economia?”, se pergunta.

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José Baig é editor on-line do Banco Mundial.

A crise brasileira é fruto de conflitos globais: Entrevista com Flavio Lyra

Por Rennan Martins | Vila Velha, 29/04/2015

Potências do G7 em verde, e potências ascendentes do BRICS, em vermelho.

A crise que o Brasil atravessa só pode ser compreendida em sua totalidade conjugando o panorama nacional ao internacional. As contradições entre núcleos de poder internos, influenciados por poderio externo, acirram o conflito político e econômico desencadeado pela crise de 2008 e evidenciado desde a última corrida eleitoral.

Por trás do combate a corrupção da Operação Lava Jato estão interesses globais, alinhados as potências tradicionais declinantes, que visam a preservação da hegemonia por meio da sabotagem ao BRICS, da sujeição da Petrobras as regras dos cartéis transnacionais e do desmantelamento da indústria tecnológica e empreendedora brasileira.

Essas são as interpretações do economista Flavio Lyra, da escola da Unicamp. Em seu artigo A crise brasileira e os núcleos de poder que a determinam, Lyra traça as linhas gerais dessa importante tese. Pela relevância e originalidade da análise, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou-o mais uma vez. Nela, Flavio aprofunda o diagnóstico da crise que assola o país, vê o ajuste fiscal como um perigo por conta da capacidade de desmobilização das forças populares, e sugere um pacto entre o empresariado nacional e os trabalhadores como forma de combater as forças que querem impôr um modelo eternamente dependente ao Brasil.

Confira a íntegra:

De que maneira a crise internacional afetou o modelo conciliatório praticado até o fim do ano passado? Que respostas seriam adequadas para manter e ampliar a inclusão social?

Antes de tudo, a crise interrompeu o “boom” de exportação de produtos primários, deflagrado pelo surpreendente crescimento da China. O Brasil conseguira acumular saldos positivos nas contas externas em apenas três anos. A partir de 2008 começaram a aparecer saldo negativos, que somente cresceram nos anos seguintes. Por seu turno, a indústria sofreu as consequências negativas do país manter a moeda apreciada visando controlar a inflação e favorecer a entrada líquida de capital estrangeiro para financiar o déficit das contas externas. O crescimento alcançado nos governos de Lula e a melhoria na distribuição da renda, somente foram possíveis em decorrência dessa conjuntura externa excepcional, porém com o altíssimo custo de aprofundar perigosamente o processo de desindustrialização que já vinha da década de 90.

Muito embora, tenha havido no período um forte afluxo de capital externo, a influência sobre a taxa de formação de capital foi muita pequena, mostrando que não dá para esperar que o capital estrangeiro seja fundamental para o crescimento da formação de capital no país. Para alguns autores, esse papel pode ser até negativo, pois aumenta a desnacionalização da economia quando vai para a atividade produtiva e extrai poupança interna quando se trata de capital meramente rentista.

O calcanhar de Aquiles da economia brasileira tem sido a baixa taxa de formação de capital, que está intimamente associada ao caráter rentista-financeiro do modelo de política econômica vigente, o chamado tripé, cujo funcionamento é um obstáculo ao financiamento do investimento produtivo público e privado, pois o sistema econômico é direcionado para a acumulação financeira através das altas taxas de juros que sobrecarregam as empresas produtivas e o setor público.

No quadro atual o mais provável é regridam os resultados alcançados no campo da inclusão social, pois o custo do ajuste que está sendo realizado, vai ser jogado nas costas dos trabalhadores, seja pela redução do gasto social, seja pela perda de poder de compra dos salários. Enquanto não for possível ao sistema de poder que gira em torno da classe trabalhadora se rearticular para poder influenciar as decisões do governo, será praticamente impossível retomar o crescimento e ampliar o processo de inclusão social.

A rearticulação do sistema de poder que gira em torno da classe trabalhadora, somente poderá acontecer em disputa ferrenha com o sistema de poder que gira em torno do sistema financeiro, dos setores tradicionais da indústria, das empresas estrangeiras e do agrobusiness. Essa disputa é que vai determinar o que acontecerá no país em termos de reforma política, especialmente da política econômica.

Nessa disputa, ainda não está inteiramente claro de que lado se situará o sistema de poder das grandes empresas nacionais, em que se incluem as grandes empreiteiras, que têm nítidos interesses no aumento da formação de capital produtivo do país, mas que têm interesses antagônicos em relação ao sistema de poder da classe trabalhadora. Um pacto, entre estes dois grupos de interesse seria indispensável para o país voltar a crescer e prosseguir com o processo de inclusão social. No momento, está havendo uma aliança tática entre estes núcleos, pois os interesses imediatos de ambos foram colocados sob ameaça com a campanha contra a corrupção desencadeada pelo sistema de poder que gira em torno do sistema financeiro privado, articulado com o sistema de poder externo, que gira em torno dos Estados Unidos e de seus aliados europeus.

A curto e mesmo a médio prazos não é possível vislumbrar formas de manter e ampliar a inclusão social, pois o modelo de política econômica vigente é notoriamente contrário à retomada do crescimento e ao aprofundamento da política social do governo. No melhor dos casos, será possível salvar algumas conquistas sociais alcançadas. Os salários reais deverão ser nitidamente prejudicados pela política econômica, no quadro de recessão que se desenha daqui pra frente.

Quais condições impediram o governo de prosseguir na agenda econômica progressista? De onde e como surgiu essa interdição?

A mudança na conjuntura internacional, com a desaceleração do crescimento chinês e o crescimento da competição no mercado de produtos industriais impediram a continuação do crescimento econômico e a continuação das políticas de inclusão social. Não sem razão, o crescimento industrial e a formação de capital foram bastantes afetados. A tentativa do governo Dilma de aumentar a taxa de investimento, mediante a ação de financiamento ao investimento privado pelo BNDES e a redução do superávit fiscal, para aumentar o investimento público, não produziram os resultados esperados. Os dois outros sistemas internos de poder, viram-se, então, diante da oportunidade de deslocar do governo o sistema de poder da classe trabalhadora. Para tanto, contaram com o apoio do sistema de poder externo, que gira em torno dos Estados Unidos e de seus aliados europeus, com a mobilização da grande imprensa e de setores da polícia federal e do poder judiciário.

Desencadearam, então, uma ampla campanha contra o governo e seu partido, que acabou afetando negativamente o clima negócios e neutralizando as ações do governo voltadas para a elevação da taxa de formação de capital, num quadro já desfavorável, em decorrência da redução dos preços e da taxa de expansão da demanda externa de produtos primários. A campanha eleitoral para a sucessão presidencial, voltada para concentrar no governo e no PT a culpa pelos atos de corrupção identificados nas relações entre a PETROBRAS e as empreiteiras, somente contribuiu para aumentar o clima de pessimismo entre os empresários e acelerar o processo de reajuste de preços.

Que interesses levam os núcleos externos de poder a promover/apoiar a desestabilização do Brasil? Como estes núcleos se articulam aos internos?

Flavio Lyra

O sistema externo que gira em torno dos Estados Unidos e da Europa têm basicamente quatro tipos de interesses, que são determinantes para o apoio a ações desestabilizadoras em relação ao Brasil. Primeiro, bloquear a consolidação do sistema externo de poder que começa a tomar forma em torno dos BRICS, especialmente da China, que representa uma séria ameaça a hegemonia do dólar na economia internacional. Segundo, desarticular o grupo dos países do MERCOSUL-UNASUL, que tende a acompanhar o Brasil nas disputas de poder no âmbito internacional. Terceiro, assegurar-se no tocante ao controle do petróleo da Venezuela e do Brasil. Por último, afastar competidores do mercado de construção pesada, no qual as empreiteiras do Brasil têm se destacado interna e externamente.

O sistema externo, que gira em torno dos Estados Unidos tem fortes articulações internas com o núcleo conformado pelas indústrias tradicionais, pelo setor agroexportador, pelo sistema financeiro privado e pelas empresas multinacionais. Este núcleo é defensor da integração dependente da economia brasileira com os Estados Unidos e a Europa, dentro de uma concepção neoliberal, que bloqueia o aparecimento de um novo ator de peso, como Brasil, na economia internacional. Já a articulação interna do sistema dos BRICS se dá principalmente com os segmentos que defendem maior autonomia na política de desenvolvimento do país, articulado em torno dos sistemas de poder da classe trabalhadora e das grandes empresas nacionais, privadas e públicas.

Por que mesmo diante da perda de hegemonia e alto endividamento os EUA e UE não reveem suas posições políticas e econômicas? Há sustentabilidade do arranjo que propõem essas potências?

Essa não é uma questão simples de ser equacionada. Por um lado, a liderança inconteste dos Estados na área militar, no desenvolvimento tecnológico e no controle da moeda internacional, embora ameaçados, ainda têm um papel dominante sobre os destinos da economia internacional. As mudanças que venham a ocorrer nessa área, tenderão a ser lentas e colocam o mundo diante da ameaça sempre presente de guerras de resultados imprevisíveis. Por seu turno, a Europa tem profundas divisões internas que lhe impedem ter uma estratégia comum frente ao mundo. Sem contar que, também se confrontam com contradições com os Estados Unidos, especialmente no mercado internacional.

Os arranjos propostos pelas grandes potências concentram-se essencialmente em manter as condições de dominação existentes no âmbito internacional e de evitar o fortalecimento de novos centros de poder. Daí, as ações baseadas em sanções econômicas que têm utilizado contra países como o Iran, a Rússia e as tentativas de desestabilização de governos que direta ou indiretamente tendam a participar em acordos que possam fragilizar o dólar, como moeda internacional, como é o caso dos BRICS.

Que propostas trazem os BRICS? De que forma essas propostas afrontam a ordem global?

A grande ameaça que o sistema dos BRICS representa para os interesses do sistema de poder que gira em torno dos Estados Unidos e da Europa, tem a ver com a perda de hegemonia do dólar nos mercados internacionais, seja no financiamento do comércio, seja no financiamento de grandes investimentos na infraestrutura. Atualmente, os países carentes de grandes investimentos na infraestrutura, que precisam de financiamento internacional, têm que se submeter às condicionalidades do Banco Mundial, cujo controle os Estados Unidos mantêm com mão de ferro, visando submeter as políticas econômicas desses países aos propósitos da integração dependente do sistema de poder sob a hegemonia daquele país. A política de privatização de empresas estatais no Brasil sofreu forte influência do Banco Mundial.

Por seu turno, o Fundo Monetário Internacional, continua fortemente dependente dos interesses dos Estados Unidos e da Europa. O esforço de maior participação nas quotas do Fundo, por parte de países como os BRICS, até hoje não teve desdobramentos práticos nos órgãos decisórios daquele organismo.

Por último, mas não menos importantes, o dólar como moeda de reserva internacional, constitui um importante instrumento de transferência de renda do mundo para a economia norte americana e um meio eficaz para o financiamento de sua indústria de guerra e dos projetos de desenvolvimento tecnológico associados a essa indústria.

O que desencadeou a cooptação de braços do Estado tido como neutros para a ação política? Não há formas de combater esse aparelhamento?

A influência dos Estados Unidos e dos países europeus nos centros do poder estatal no Brasil é um fenômeno que tem acompanhado nossa vida de longa data. Em certas épocas, essa influência se torna mais forte em função da conjuntura internacional. Não se pode esquecer que no golpe militar de 1964, os Estados Unidos tiveram papel determinante, não só em sua preparação, quanto na orientação das políticas internas subsequentes. Na conjuntura atual, os fato de o Brasil ter um governo considerado de esquerda, mobiliza naturalmente a atenção dos órgãos de segurança dos Estados Unidos e da Europa. Por outro lado, a atitude de maior autonomia dos países da região para a condução de suas políticas internas e externas, representa uma ameaça à hegemonia regional dos Estados Unidos e uma perda de capacidade no controle dos abundantes recursos naturais, especialmente o petróleo. Os acordos militares, de combate ao narcotráfico e de assistência técnica à formação e treinamento de pessoal, têm sido um canal privilegiado para a cooptação de funcionários do Estado brasileiro.

Poderia ilustrar como algo legítimo, que é o combate a corrupção, se torna um instrumento com fins políticos? Como diferenciar?

O combate à corrupção é uma bandeira de fácil manipulação pela imprensa e sempre esteve presente na vida política dos países, especialmente os da América Latina, onde prestou-se eficazmente para fomentar golpes de estado contra governos que se propunham a realizar reformas de cunho social. Ela tem a vantagem de atacar um problema que facilmente mobiliza as pessoas, sem despertar atenção para outras questões muito graves ligadas às desigualdades sociais. Embora a corrupção perpasse todas esferas da vida social, é muito fácil convencer as pessoas que a responsabilidade por sua existência é inteiramente do governo, quando na realidade tanto os poderes Judiciário e Legislativo, quanto a sociedade civil, têm se revelado muito susceptíveis a práticas ilícitas. A corrupção apresenta-se como um fenômeno endêmico em nossas sociedades, especialmente na cooptação de políticos por empresas, através do financiamento de caríssimas campanhas eleitorais. As campanhas contra a corrupção sempre encontram subsídios importantes na realidade e é muito difícil identificar quando seu uso é feito com finalidades políticas.

Quais os sinais de que o grande empresariado compreendeu a ameaça externa? É possível reestabelecer um pacto entre a classe trabalhadora e a indústria nacional?

Desde há bastante tempo existe uma política de reserva de mercado para as grandes empresas nacionais que atuam na siderurgia, na petroquímica, na construção civil e nas indústrias do petróleo e da energia. Essa política permitiu constituir grandes conglomerados produtivos que já estão presentes no mercado internacional, particularmente na América Latina, como competidores de peso das corporações internacionais. Os governos recentes do Brasil buscaram fortalecer esses conglomerados com apoio financeiro, através do BNDES e das políticas de compras no mercado interno, tanto no caso de grandes projetos de investimento no país, como são os casos do programa de construção naval e de exploração de petróleo pela Petrobras, da construção de hidroelétricas e obras rodoviárias e ferroviárias. Também, mediante o financiamento do BNDES na exportação de serviços, em obras importantes de infraestrutura exterior, como o porto de Mariel em Cuba.

Destaque-se, ainda a participação desses grupos no desenvolvimento da indústria de defesa, com projetos importantes na indústria de aviação civil e militar, na construção de submarinos nucleares e de armamentos em geral.

Essas grandes empresas passaram a constituir um dos três sistemas de poder que comandam a economia do país e seus interesses vão na direção de um projeto nacional de desenvolvimento, na contramão do projeto de internacionalização dependente que interessa ao sistema de poder que gira em torno das grandes corporações internacionais dos Estados Unidos e da Europa.

A campanha de combate à corrupção transformou-se, assim, num instrumento funcional para o sistema que gira em torno das grandes corporações internacionais, na medida em que presta-se para três propósitos: a) prejudicar o sistema das grandes empresas nacionais; b) desmoralizar a participação da classe trabalhadora no poder; c) desestimular a participação do Brasil na constituição do sistema dos BRICS, e d) prejudicar o esforço de integração regional com o fortalecimento do MERCOSUL – UNASUL.

O sistema de poder baseado na classe trabalhadora e o sistema de poder baseado na grande indústria vão ser naturalmente forçados a se aliarem por uma questão de sobrevivência, não obstante as contradições existentes entre eles. A questão crucial, neste caso, é a de saber qual sistema comandará o processo.

A reação em marcha no meio político contra a desestabilização do governo é uma indicação clara de que a grande empresa nacional compreendeu a inconveniência dessas ações para seus interesses econômicos. A estagnação econômica que se desenha para os próximos anos vai atuar como fator de estímulo à formação de um pacto entre o sistema da classe trabalhadora e o das grandes empresas nacionais, para a retomada do crescimento, acirrando o conflito interno entre esses dois sistemas e o sistema que gira em torno do setor financeiro e rentista da economia. A questão nacional, pode voltar a ser um ingrediente importante no cenário político do país, tão logo seja superado o clima atual de pressões para a desestabilização do governo.

É possível que a base social do PT se esvaia por conta do ajuste fiscal? Os efeitos dele ainda estão por se manifestar?

Esse é um perigo ostensivo. A incapacidade demonstrada pelo PT de preservar suas fontes de apoio junto aos movimentos sociais e de atuar para contrarrestar o controle dos meios de comunicação pelos segmentos mais tradicionais da elite brasileira, fragilizou bastante o partido, não somente na disputa pela preferência do eleitorado, quanto na afirmação de sua hegemonia sobre os partidos políticos da coalizão governamental. O ajuste fiscal que o governo está sendo obrigado a realizar vai na contramão do fortalecimento de sua base de apoio popular. Os efeitos negativos sobre o bem-estar da população ainda estão por se manifestar em toda sua extensão. A política econômica até agora adotada, não vai permitir a retomada do crescimento e, certamente vai afetar negativamente as conquistas salariais da classe trabalhadora e os benefícios alcançados pelos segmentos mais pobres da população.

Que ações imediatas seriam indicadas para despressurizar o cenário político? As perspectivas atuais são de melhora ou acirramento da crise?

O fortalecimento da aliança tática entre as forças políticas influenciadas pelo sistema de poder da classe trabalhadora e o sistema das grandes empresas nacionais, tem grande chance de atenuar as pressões, desestabilizadoras do governo, curto prazo. O direcionamento dos gastos de propaganda do governo para os segmentos da mídia menos agressivos contra o governo, pode atenuar a campanha de desestabilização vigente. Mas, como a política econômica não oferece perspectivas de retomada do crescimento, tende a prejudicar a classe trabalhadora e o ambiente de crise tende a permanecer, enquanto não seja possível realizar reformas políticas que desloquem o poder do setor financeiro e permitam mudanças na política econômica que sirvam para a retomada dos investimentos produtivos, em detrimento da acumulação financeira. A atual política econômica, centrada no tripé, precisa ser alterada em favor de uma política voltada para o investimento produtivo e a retomada do crescimento.

América Latina pode servir de exemplo para países europeus endividados

Por Astrid Prange e Pablo Kummertz | Via DW

Para especialistas, gestão da dívida latino-americana nas décadas passadas pode trazer lições para Estados europeus hoje em situação semelhante, como a Grécia. Grande problema é falta de regras para falência estatal.

Diante do endividamento de alguns países europeus, como a Grécia, especialistas afirmam ser possível comparar tal situação atual à crise da dívida da América Latina na década de 1980 e 1990. Barbara Fritz, professora do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, está entre os que defendem a ideia. Mas ela faz uma ressalva: é preciso levar em conta que a dívida dos países latino-americanos era em moeda estrangeira, enquanto a atual dos países europeus é na própria moeda.

Também para o economista Rolf Langhammer, do Instituto da Economia Mundial (IfW), sediado na Alemanha, a América Latina pode servir de inspiração para analisar o problema do endividamento de alguns países europeus. “Querendo ou não, a América Latina assumiu esse papel”, afirma.

Segundo ele, nos anos 1980, reconheceu-se que a crise da dívida latino-americana não poderia ser superada somente com a injeção de dinheiro novo. “Os problemas eram mais complexos, o serviço da dívida era muito alto. Hoje estamos na mesma situação na Europa”, diz o economista.

Langhammer já assessorou organizações como Banco Mundial, União Europeia e ministérios da Alemanha. Ele lembra-se bem da crise na América Latina da década de 1980. Do México ao Chile, o Fundo Monetário Internacional (FMI) era visto como a síntese das cruéis medidas de austeridade econômica, tidas como responsáveis pelo empobrecimento de amplas camadas da população. “Dizia-se até mesmo que o FMI comia criancinhas”, conta o economista.

Durante muito tempo, a América Latina foi um dos melhores clientes do FMI. Mas quando o México declarou insolvência – como primeiro país da região a fazê-lo, em 13 de agosto de 1982 –, a situação mudou. Os juros de empréstimos foram às alturas, e os países latino-americanos ficaram praticamente isolados do mercado internacional de capitais. Em 2001, a Argentina declarou moratória. Um ano depois, o Brasil precisou de um empréstimo emergencial do FMI. E, em 2008, o Equador reescalonou sua dívida.

Problema não é de liquidez, mas estrutural

No caso da Argentina, “já estava claro entre 1996 e 2000 que a dívida não poderia ser paga, mas o país foi apoiado por um programa de liquidez de curto prazo”, diz Fritz. “Esses programas vinham acompanhados de exigências e acabaram não ajudando muito.”

A experiência da moratória serviu para mostrar que o essencial é uma política econômica consistente de longo prazo, aponta a professora. “Os problemas econômicos que a Argentina tem hoje se devem à política econômica dos últimos oito anos e não ao impasse da dívida.”

Segundo Fritz, uma possível saída da Grécia da zona do euro seria comparável ao abandono da paridade cambial com o dólar por parte da Argentina antes da crise da dívida. “A perda de confiança seria muito grande, a desvalorização também e, com isso, a dívida em dólares convertida em moeda nacional aumentaria muito”, diz a professora. Foi isso o que efetivamente aconteceu na Argentina e é diante de uma situação parecida que a Grécia se veria caso abandonasse o euro.

Lições latino-americanas

Para Langhammer, a crise de endividamento da América Latina deixou duas lições. Em primeiro lugar, antes de serem implementados, todos os programas econômicos devem ser examinados quanto ao impacto social. Em segundo lugar, todas as reformas que impliquem mudanças estruturais, institucionais ou de base jurídica precisam de tempo.

Economista Rolf Langhammer defende marco legal para falência estatal

Hoje não são mais os países da América Latina que estão entre os mais endividados do mundo, mas os países industrializados. De acordo com o centro de pesquisa Deutsche Bank Research, entre 2000 e 2012, o endividamento público das dez maiores economias emergentes diminuiu de 50% para 25% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto no G7 (grupo das sete maiores economias industrializadas), essa cifra aumentou de 80% para 110% do PIB no mesmo período.

“Naquela época, os problemas de distribuição dos programas de estabilização de curto prazo do FMI e do Banco Mundial foram subestimados”, diz o economista. Mas, atualmente, o FMI tirou “lições muito sensatas” de seus erros. Primeiramente, o FMI ampliou consideravelmente o prazo para ajustes estruturais. Além disso, hoje, em todos os programas do órgão, questiona-se se a pobreza vai se agravar ou não. “Antes, esse não era o caso.”

Quito oferece ajuda a Atenas

O presidente do Equador, Rafael Correa, não confia na capacidade de implementação de reformas do FMI. Por esse motivo, pouco após a vitória eleitoral do novo governo grego, ele ofereceu a Atenas apoio nas negociações com os credores. Pois o Equador foi capaz de reduzir a pressão do serviço da dívida sobre o orçamento e sobre as finanças públicas por meio de uma reestruturação bem-sucedida de sua dívida.

“Nos empréstimos à Grécia, os bancos europeus fingiram não saber que o déficit orçamentário grego era três vezes maior do que o anunciado pelo governo”, escreveu Correa num artigo publicado em 2013 no jornal francês Le Monde Diplomatique. “Mais uma vez, o problema do superendividamento é tematizado, mas não se menciona o outro lado: o excesso de oferta de crédito, o que exime de responsabilidade o capital financeiro.”.

Para Barbara Fritz, no entanto, esse argumento não é válido, “já que um Estado soberano pode ou não contrair dívidas” e um credor “pode ou não emprestar dinheiro a um Estado”.

Necessidade da falência soberana

De qualquer forma, um ponto de não retorno é alcançado somente quando um país definitivamente não tem mais as condições necessárias para pagar as suas dívidas a longo prazo. Nesse caso, não parece haver outra opção a não ser o corte da dívida. “Um corte unilateral da dívida não é algo desejável, mas assim como há falências empresariais, também deveria haver um marco legal para a falência de países”, afirma Fritz.

Para a professora, o problema central é a ausência de regras do direito internacional que permitam uma falência estatal ordenada. Em sua opinião, isso é algo absolutamente necessário, “porque alguém tem que decidir como se repartem os custos em tal caso”.

Langhammer chega à mesma conclusão. “A Grécia é um caso sui generis. Mas enquanto não se chegar a uma legislação internacional para a falência estatal, devem ser criados ao menos instrumentos para se definir até que ponto os países têm capacidade de pagar suas dívidas a longo prazo”, diz. Nesse sentido, a América Latina é um exemplo do que deve e do que não deve ser feito.

Unasul inaugura Escola Sul-Americana de Defesa

Via Carta Maior

A Esude formará quadros civis e militares ligados às forças armadas dos governos sul-americanos.

A criação de um perfil e uma doutrina estratégica para a defesa na América do Sul deverá contar agora não somente com os esforços das pesquisas desenvolvidos no Centro de Estudos Estratégicos (CEE), órgão criado pelo Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) em 2011, com sede em Buenos Aires. A criação da Escola Sul Americana de Defesa (Esude) irá complementar o trabalho através da formação de quadros civis e militares ligados às forças armadas dos governos sul-americanos. A inauguração oficial da escola aconteceu na última sexta (17) na sede da Unasul em Quito, no Equador. A proposta foi desenvolvida por Nilda Garre, ex-ministra da defesa do governo Kirchner, atualmente representante da Argentina na OEA.

Em fevereiro de 2014, líderes de governo aprovaram a criação deste projeto durante a IX reunião executiva do Conselho de Defesa Sul Americano (CDS). De acordo com a Declaracão do conselho de chefes de estado e de governo da Unasul de dezembro de 2014, a iniciativa deverá ser “um centro de altos estudos do Conselho de Defesa Sul-americano (CDS), de articulação das iniciativas nacionais dos Estados Membros, formação e capacitação de civis e militares em matéria de defesa e segurança regional de nivel político-estratégico.” A entidade funcionaria em rede, seguindo princípios da pluralidade e representação equitativa de membros, gradualidade e flexibilidade, e também consenso, complementaridade, cooperação e qualidade. Quatro importantes eixos de ação conduzirão os estudos: 1) geração de estratégias focadas na construção da ciberpaz sobre a base de uma ciberdefesa de proteção contra espionagem, 2) consolidação de politicas de defesa, 3) cooperação militar, ações humanitárias e operações de paz; 4) desenvolvimento da indústria de defesa na região, bem como a capacitação para garanti-la.

Tomou posse como diretor-geral da Esude Antônio Jorge Ramalho, eleito por consenso entre os vice-ministros de Defesa que se reuniram na véspera da inauguração.  Antônio Jorge é doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo e professor do Instituito de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Também atuou no Ministério da Defesa dirigindo o Departamento de Cooperação e colaborou com o Itamaraty na implantação do Centro de Estudos Brasileiros em Porto Príncipe, Haiti. Entre 2009 e 2011, foi assessor da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República na área de defesa. O comando da escola  também era concorrido com a indicação da Argentina de Jorge Battaglino, diretor da Escola de Defesa Nacional do país.

De acordo com o prof. Héctor Luis Saint-Pierre, ex-assessor do departamento de relações internacionais do Ministério da Defesa do Equador, as instituições participantes serão indicadas pelos ministérios de defesa dos países. Ernesto Samper, secretário-geral da Unasul, mencionou em recente coletiva de imprensa que as entidades integrantes seriam as academias militares. A curto prazo, portanto, não há expectativa de que universidades e academias civis sejam incluídas.

Prometendo modernizar lei, terceirização no México consagrou precarização, diz especialista

Por Vanessa Martina Silva | Via Opera Mundi

Atualmente, 16% dos mexicanos trabalham como terceirizados, número dobrou em relação à 2004; professora Graciela Bensúsan considera cenário ‘irreversível’.

Um banco inteiro operando sem nenhum funcionário. Foi desta maneira que o espanhol Bancomer (Banco do Comércio) levou a terceirização às últimas consequências em sua operação no México na década passada. Contra práticas semelhantes, o país realizou, em 2012, uma reforma da Lei Federal do Trabalho, regulamentando no país a “subcontratação”, nome pelo qual a terceirização é conhecido. Por outro lado, na avaliação da especialista em direitos trabalhistas mexicanos e professora da UAM-X (Universidade Autônoma Metropolitana campus Xochimilco) Graciela Bensúsan, a lei “aumentou a oferta de empregos precários”.

Banco terceirizou todos os funcionários. Flickr/CC/Gary Denness

De acordo com dados oficiais, 16% da população economicamente ativa no México (8,32 milhões de pessoas) trabalham neste esquema de subcontratação precarizada. O número representa quase o dobro do que era verificado em 2004, quando, antes da reforma na legislação trabalhista, apenas 8,6% adotavam o regime. Além disso, 60% dos trabalhadores do país têm emprego informal, sem carteira assinada.

Para Bensúsan, no entanto, é difícil avaliar o impacto real da legislação porque o “México é um país onde as leis trabalhistas não são cumpridas. O fato de fazer uma reforma não implica de nenhum modo que haja mecanismo para o cumprimento e melhoria da prática trabalhista no país”.

Bancomer

O caso do Bancomer é o mais emblemático com relação à precarização no país. Em 2006, o banco criou uma operadora para a qual transferiu a totalidade de seus funcionários, passando a funcionar como se não tivesse funcionário algum.

De acordo com Bensúsan, maior parte dos sindicatos mexicanos são patronais e não defendem direitos dos trabalhadores. Flickr/ CC/ Jesús Villaseca Pérez.

Desta forma, se eximiu das responsabilidades trabalhistas com os funcionários e do pagamento das “utilidades” — bônus similar à PLR (Participação nos Lucros e Resultados) brasileira. A partir do “sucesso” obtido pela instituição, diversos outros bancos e empresas, como o Walmart, passaram a adotar a prática.

Apenas em 2012, após um trabalhador demitido ter acionado a empresa na Justiça, o Bancomer teve que reconhecer que era o patrão. O funcionário, então, obteve na Justiça a integralidade de seus direitos trabalhistas, e o caso criou jurisprudência.

Ambiguidade da lei

As mudanças foram feitas para evitar que episódios semelhantes ocorressem, já que a lei define que nenhuma empresa pode transferir todos os funcionários a uma contratista. Mas, “a lei não é específica: posso transferir todas as atividades e ficar só com trabalhador? O texto não responde isso”, aponta Bensúsan.

“Esta lei é própria de um regime autoritário, onde se deixa as coisas muito ambíguas, dando margem a interpretações discricionárias. Ou seja, não tem quem possa fazer com que ela seja cumprida”, aponta a professora, lembrando que no México as instituições sindicais não têm força e vivem contexto de “debilidade”.

Realidade

Apesar de criticar a precarização do mundo do trabalho, a pesquisadora considera que a terceirização é uma realidade em todo o mundo. “Não se pode deter esse fenômeno com nenhuma lei”, opina.

Em sua visão, deixar de regulamentar não vai, por si só, defender o direito dos trabalhadores diretos. “Penso que o problema fundamental está em fortalecer os sindicatos e as estruturas setoriais dos sindicatos”, ressalta.

Neste sentido, Bensúsan disse lamentar que o Brasil não tenha avançado mais no fortalecimento dos sindicatos durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff. “Creio isso é fundamental para frear esse sentido perverso da terceirização, que fragmenta o espaço de trabalho de tal forma que é muito difícil a sindicalização”, afirma a especialista.

Sindicalização

Mesmo considerando irreversível, Bensúsan considera que a terceirização tem impacto menor em países como o Uruguai, que negocia salários “por meio de sindicatos que representam todos os trabalhadores do setor”. No país sul-americano, os conselhos nacionais de salário “evitam os efeitos perversos da terceirização para reduzir custos trabalhistas”, aponta Bensúsan.

Salário mínimo mexicano é um dos mais baixos da região, em torno de US$ 120. Flickr/ CC/Jesús Villaseca Pérez

No México, onde apenas 8.8% da população economicamente ativa  é sindicalizada, a reforma na lei não alterou em nada as regras da sindicalização, mas em um cenário de deterioração da qualidade do emprego e no qual a rotatividade trabalhista aumenta a dispersão dos trabalhadores, “é mais difícil organizar o trabalhador”.

Na prática, a precarização do trabalho atinge principalmente os setores para vulneráveis da sociedade, como mulheres, jovens, indígenas e camponeses, conclui Bensúsan.