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‘A criação da Telesur demonstrou que podemos ter uma visão latino-americana própria’

Via Adital

A Agência de Notícias Prensa Armenia entrevistou, recentemente, o jornalista uruguaio e fundador do canal Telesur Aram Aharonian para falar sobre o seu novo livro “La internacional del terror mediático. Vernos con nuestros propios ojos” [A internacional do terror midiático. Vermo-nos com nossos próprios olhos, em português], na qual aborda o papel dos meios e do jornalismo a partir de uma perspectiva latino-americana.

Aram Aharonian trabalhou com Eduardo Galeano, Rodolfo Walsh, Paco Urondo, Juan Gelman e Miguel Bonasso, entre outros.

Por que elegeste como figura simbólica “a guerra” para representar “a guerra simbólica”, “batalha ideológica” ou os meios hegemônicos como “unidades militares”?

Primeiro, porque esta é a mesma luta: o que mudou foram as armas. Guerra convencional, guerra de guerrilhas, guerra cultural: o inimigo é o mesmo, a utopia continua sendo a mesma. O que muda é o cenário, os ferros. O inimigo antes – há quatro décadas – usava as forças armadas para impor um modelo político, econômico e social (com mortos, desaparecidos, torturados). Hoje, não necessita de baionetas nem de tanques; basta o controle dos meios massivos de comunicação. E assim nos bombardeiam com informação, publicidade, entretenimento (séries de televisão, jogos cibernéticos, por exemplo), 24 horas por dia, com sua mensagem e imagem única, na sala ou no dormitório das nossas próprias casas.

Hoje, o campo de batalha é simbólico. Estamos em plena batalha cultural: a guerra por impor imaginários coletivos se dá através dos meios cibernéticos, audiovisuais, gráficos. E, para lutar essas batalhas pela democratização da palavra e da imagem, das nossas sociedades, é preciso aprender a usar essas novas armas, as câmeras, Internet, microfones…

Tanto neste livro como no anterior “Vernos con nuestros propios ojos. Apuntes sobre comunicación y democracia [Vermo-nos com os nossos próprios olhos. Apontamentos sobre comunicação e democracia, em português] propõe a necessidade de construir uma cultura contra-hegemônica nos termos de Gramsci, ainda que não subalterna, que possa competir, qualitativamente, com a cultura hegemônica. Referente à construção de novos meios, é possível levar adiante esses projetos sem os orçamentos das grandes empresas? O Estado pode ser uma resposta?

Dói-me dizer isso, mas, a partir dos movimentos sociais, a partir da imprensa alternativa, há uma queixa permanente pela falta de recursos… e, muitas vezes, o que faltam são ideias, criatividade, trabalho coletivo, complementação.

Muitas vezes, a partir do campo popular, nos queixamos que não temos os recursos das empresas transnacionais… mas creio que, em geral, os fracassos vêm por falta de ideias (e não de dinheiro), por falta de convencimento no projeto coletivo (ou ausência deste) e pela grande dificuldade que temos para nos juntarmos: todos querem ser protagonistas, ainda que seja de um meio marginal, mas protagonistas. Com ideias, com criatividade, podemos conseguir os recursos e levar adiante projetos massivos; o dinheiro não produz ideias nem criatividade, e muito menos no caminho da democratização da comunicação e da informação.

Debe ser dever dos Estados fomentarem a recomposição dos espaços públicos, da formação de comunicadores populares, do fomento (não falo de financiamento) dos meios populares. Se não formamos nossa juventude nestes princípios democráticos, difícilmente podemos manter a esperança no futuro. Recuperar nossa memória histórica significa saber de onde viemos, para saber para onde vamos. Um povo que não sabe quem é, quais são suas raízes, dificilmente pode mudar seu futuro, e este lhe será imposto sempre de fora. Recuperar a memória nostalgicamente é eminentemente retrógrado, é a ancoragem no denuncismo, na resistencia per si, no chororô.

Sua frase “vermo-nos com nossos próprios olhos” faz referência a que os latino-americanos “sempre nos vemos com outros olhos, com olhos estrangeiros”. A fundação da Telesur, em seu momento, foi uma solução para essa problemática?

Eduardo Galeano dizia que não existe nenhuma fórmula para mudar a realidade se não se começar a vê-la como ela é. Isso, para poder transformá-la, é preciso começar por assumi-la. Estivemos por 520 anos cegos de nós mesmos. Seguimos apegados em que “já está tudo inventado” e, também por isso, continuamos copiando modelos estrangeirizantes (demonstrando que ainda não pudemos nos desligar do colonialismo cultural) e fazendo uma comunicação reativa (e não pró-ativa) à agenda que nos impõem os meios hegemônicos.

Não sabemos quem somos, como somos, o que queremos comunicar. E assim sempre vamos ser reativos, não nos vemos em nossos próprios espelhos.

A criação, ou mais bem, a colocação em andamento da Telesur, há 10 anos, demonstrou que sim podemos ter uma visão latino-americana própria, que isso não estava limitado às grandes corporações transnacionais. E, a partir daí, começamos a ter um olhar contra-hegemônico, alternativo à mensagem única. Não é uma solução, é um caminho. E, hoje, sabemos que de nada serve ter 100, 1 mil emissoras telesur a mais, se não temos novos conteúdos, de acordo com a nossa própria agenda informativa, cultural e política, porque senão estaremos condenados a ver “El Chavo del Ocho” [Chaves] pelo resto da nossa vida…

Levando em conta o seu trabalho na Fundação para a Integração Latino-Americana, acredita que a aliança entre meios contra-hegemônicos pode ser um dos pilares na construção de uma nova comunicação?

Diante de tudo é preciso romper com o verso de que alternativo significa marginal: é totalmente o contrário, porque para ser alternativo (à mensagem hegemônica) é preciso pensar no massivo, com meios massivos ou com redes de meios populares. Mas, para isso, é necessário ter um projeto comum, sobre princípios comuns, que permita produzir e compartilhar conteúdos em qualquer das plataformas que programemos.

As chamadas redes sociais, as novas tecnologias são apenas ferramentas, para por aí irradiar as mensagens em qualquer plataforma. Em uma primeira avaliação, parece que vai ganhando a ideia cultural capitalista do individualismo.

Creio que uma das bases para ter meios com público é fabricar novos conteúdos, fazer bancos de conteúdos – audiovisuais, sonoros, gráficos, jogos cibernéticos –, que estejam à disposição dos meios populares, para que estes não se vejam obrigados a repetirem os enlatados da anti-cultura.

Neste livro, mencionas as “notícias virtuais” e a desfasagem do contraste com a realidade, que termina desmentindo essas notícias. É nessa desfasagem que se constróem as operações midiáticas? Como funciona, nesses casos, a dinâmica de ferramentas, como o Twitter, em que a informação circula em tempo real, levando em conta o que propõe no final de “La internacional del terrorismo mediático”, quando postulas que, nas redes sociais, não se utilizam as fontes?

A única verdade e a realidade, dizia Perón. Mas a realidade é o que nos mostra a televisão, convertida em difusora de espetáculos – com sua dose de banalização e de espetacularização – e não de informação? Os meios ficaram nas mãos de conglomerados empresariais, que manipulam a informação, alheios a todo conceito de ética, à sua vontade em função dos seus interesses corporativos (políticos, econômicos, financeiros, políticos, religiosos), em nosso continente pelo menos em aliança com as mais reacionárias forças políticas, muitas vezes, para desestabilizar nossos governos populares, com a finalidade de restaurar a velha ordem conservadora e neoliberal.

Hoje parece que não nos interessa se uma notícia é verdad, mas se “me agrada”. A instanteneidade da informação e a falta de corroboração da mesma, a mentira, a montagem (caso Guerra do Golfo 1 e bombardeio de Bagdá, por exemplo) criam imaginários coletivos, verdades virtuais, que só o tempo e/ou o contraste pessoal com a realidade, conseguem desmontar. Democratizar a informação e a comunicação é apostar no pluralismo (não pela mensagem e a imagem únicas), a diversidade…

Com a massificação da Internet surgiu uma necessidade pela imediatez informativa. Um meio alternativo pode aspirar a satisfazer e cumprir com essa dinâmica sem contar com uma estrutura econômica? Pode-se competir com as agências internacionais? A construção de meios para segmentos muito específicos é uma solução para esse problema?

Mais do que uma necessidade surgiu a possibilidade da imediatez, o que muito poucas vezes significa veracidade. Mas, quando essa realidade virtual se repete até o cansaço, sem possibilidade de ter outra versão dos acontecimentos, é a demonstração da imposição de uma mentira, distante da realidade-real. E quanto dura uma primícia? Quando surgiu a Al Jazeera, havia informação alternativa que davam aos meios ocidentais, cartelizados, sobre o Oriente Médio, quando surgiu a Telesur, a CNN em espanhol não pode seguir invisibilizando e ocultando as realidades latino-americanas.

Sim, temos outro problema: muito mais da metade das imagens que usam as nossas televisões provém das transnacionais da informação que, desse modo, impõem sua agenda e seus interesses. E ainda, na América Latina, a maior parte da informação que circula sobre a nossa região, provém também de agências noticiosas transnacionais ou de meios ocidentais, e alguns até cristãos. Por isso, a necessidade de nos vermos com nossos próprios olhos.

A principal rubrica de exportação dos EUA não são as armas, mas os conteúdos, com os quais nos bombardeiam – através da informação, da publicidade e das chamadas indústrias culturais (séries, ficção) – 24 horas por dia: a nova arma mortal não difunde isótopos radioativos, se chama meios de comunicação de massas, que impõem imaginários coletivos, isso que algunos querem chamar de guerra de quarta geração.

Seguindo com o conceito do jornalista Carlos Fazio, chama “terrorismo midiático” um “entrelaçamento de estratégias políticas, econômicas, sociais e psicológicas, que buscam criar realidades fictícias, medos coletivos e converter mentiras em verdades que permitam manipular a sociedade, de acordo com o conflicto e o inimigo em questão”. Qual é o papel do jornalista, dos redatores e dos editores nesses casos, levando em conta que, hoje, cada jornalista é seu próprio meio de alguna forma a ter seus próprios seguidores no Twitter ou blogs pessoais?

A nossa academia, a latino-americana (em geral) está ancorada nos anos 1970, quando o pensamento latino-americano sobre comunicação e informação era dos mais avançados. Há mais de 40 anos. E não se produziram novas teorias e nossas universidades seguem recitando os velhos textos, descontextualizados, obviando a nova realidade latino-americana e de cada um dos nossos países, esquecendo o pensamento crítico, para nos devolver a cada ano milhares, milhares e milhares de comunicadores e jornalistas com um título universitário, sem conhecimento da sociedade a qual devem prestar serviço e, muitas vezes, sem a suficiente profissionalização no uso das ferramentas disponíveis, hoje.

Para entender bem isso, devemos partir da base que os proprietários dos meios são conglomerados econômicos, que os usam para imporem seus interesses. Que um jornalista, no melhor sentido da palavra, é um trabalhador, como um carpinteiro ou um médico: que poucos entendem a função social do jornalista, que temos que abater velhos paradigmas, como a objetividade, a imparcialidade, a neutralidade; nenhum meio de comunicação (comercial, estatal, popular, público) é objetivo, mas responde a uma linha editorial. O que é imoral é travestir-se de objetivo para impor seus interesses.

Em sua ampla trajetória, trabalhaste com muitos jornalistas que, hoje, são considerados exemplos dessa profissão e, por sua vez, são reconhecidos por sua militância política, e a forma de imbricar ambas as questões. Gostaria que nos diga algumas palavras sobre eles e sobre como é vista, hoje, a relação do jornalismo com a militância política.

Trabalhei junto com jornalistas do quilate de Carlos Quijano (Marcha), Eduardo Galeano e Carlos María Gutiérrez (Época, PL), Neiva Moreira (Cuadernos e Ahora), em Montevidéu; Juan Gelman, Paco Urondo, Rodolfo Walsh, Jarito Walker, Quique Raab, Cogote Bonasso, Pablo Piacentini, Pablo Giusani, Zelmar Michelini… em Noticias e Informaciones: Tito Paoletti, Ernesto Ponsati, e tantos outros em La Voz, na Argentina; com Blankito, na Colômbia; com tantos companheiros enamorados do processo bolivariano na Venezuela e com aqueles “loucos” que se somaram à utopia da Telesur… o que dá a pauta do velho que estou. Desde aqueles primeiros anos 1960 até hoje, a luta continua sendo a mesma: a democratização da informação e da comunicação, para que todos tenham voz e imagem, pela construção dessa nova comunicação, a partir de baixo, ombro a ombro, lado a lado, consciente de que a única coisa que se constrói a partir de cima… é um poço.

Documentos liberados provam que EUA sabiam de torturas durante ditadura militar

Por Akemi Nitahara | Via Agência Brasil

Antonio Azeredo da Silveira e Henry Kissinger

O Arquivo Nacional liberou hoje (9) para consulta documentos que provam que os Estados Unidos sabiam de torturas e desaparecimentos de presos políticos no Brasil durante a ditadura militar. O conjunto de dados digitalizados foi enviado pelo governo dos Estados Unidos após a Comissão Nacional da Verdade (CNV), que encerrou os trabalhos em dezembro, fazer o pedido via Freedom of Information Act, a lei de acesso à informação americana. O pedido foi reforçado pelo governo brasileiro.

Entre os documentos, há material sobre o desaparecimento de Stuart Angel Jones, filho da falecida estilista Zuzu Angel, e do ex-deputado Rubens Paiva, cujos corpos nunca foram localizados; de tortura sofrida por Frei Beto e do assassinato do dirigente comunista Carlos Marighela em São Paulo, entre outros. Trecho de um telegrama enviado em maio de 1973 pelo Consulado Americano em São Paulo para a Secretaria de Estado em Washington relata a prática de prisões e torturas em São Paulo: “Interrogatórios de prisioneiros políticos muitas vezes são acompanhados por torturas, como pau-de-arara [em inglês the parrot's perch], choques elétricos, fome, etc. Um candidato do MDB para o Conselho Municipal em São Paulo que foi preso depois das eleições municipais de novembro e mantido por seis semanas no centro militar de interrogatório (Oban) nos disse, depois de ser libertado, que cerca de 60 prisioneiros políticos foram mantidos no centro enquanto ele estava lá, o que é aproximadamente a capacidade do lugar. Muitos estavam claramente envolvidos em atividades subversivas, mas outros pareciam ser apenas idealistas políticos que se opuseram ao regime. Todos foram submetidos a alguma forma de tortura. Ele próprio não foi abusado, já que é um político legítimo e homem de posses, que ele não era ‘torturável’”.

O diretor-geral do Arquivo Nacional, Jaime Antunes da Silva, explica que foram enviadas ao Brasil três remessas de documentos, cada uma em um DVD de dados. A primeira, com 43 arquivos, chegou em junho do ano passado pelas mãos do vice-presidente norte-americano Joseph Biden e já estava disponível para consulta pelo site da CNV.

De acordo com Antunes, a CNV não teve tempo de analisar a segunda remessa, recebida em dezembro e com 113 documentos, nem a terceira, que chegou no dia 30 de junho com 538 documentos. Antunes ressalta que foi o governo americano que selecionou e formatou os documentos reclassificados sem o caráter sigiloso para serem enviados ao Brasil. “Trechos dos documentos que eles acharam que não deveriam ser ainda liberados estão tarjados pelo governo americano. Esse material chegou às nossas mãos ontem no final do dia e nós conseguimos colocar no nosso sistema”.

O material foi liberado da forma como foi entregue pelos americanos: em inglês e separados nos três lotes. A partir de agora, segundo Antunes, o Arquivo Nacional vai sistematizar melhor essas informações, fazendo tradução dos títulos e descritivos para facilitar a pesquisa. “É importante que tenha chegado, antes tarde do que nunca, porque todos nós sabemos que os Estados Unidos têm uma presença muito forte na América Latina e que apoiaram de perto esses movimentos, esses golpes todos aplicados em países que experimentaram durante um determinado período de tempo a exceção de democracia. Então todos nós intuíamos que haveria em materiais da CIA, do Departamento de Estado e outros órgão de inteligência do governo americano documentos sobre o período da ditadura militar, mas nunca se teve esse acesso franqueado”.

Para Antunes, é fundamental que se abram todos os arquivos referentes ao período da Ditadura Militar no Brasil. “Qualquer fonte de informação que ponha luz em períodos tortuosos, ou de não saudosas memórias, ajuda na recuperação de fatos para que isso tudo seja conhecido, para que nunca mais se repita, parafraseando dom Evaristo Arns. É importante que se conheça, para que não mais se repita. Então isso é para a comunidade de pesquisadores e dos órgãos de defesa dos direitos humanos, exemplar. Se há outros países que possam deter fontes de informação sobre esse período da ditadura militar no Brasil deveriam ser generosos e compartilharem com o povo brasileiro”.

Os documentos americanos podem ser acessados pelo Sistema de Informações do Arquivo Nacional.

Cuba é o primeiro país a eliminar a transmissão do HIV de mãe para filho

Por Silvia Ayuso | Via El País Brasil

OMS diz que ilha conseguiu feito inédito de erradicar a transmissão do vírus e o da sífilis.

Uma enfermeira do Exército de Salvação em Johanesburgo segura a uma criança infectada por HIV, em uma foto de arquivo. / REUTERS

Todo ano, cerca de 1,4 milhão de mulheres com HIV engravidam. Se não recebem tratamento, as chances de que transmitam o vírus ao bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação variam entre 15% e 45%. Portanto, é um grande desafio conseguir romper esse círculo vicioso que favorece a perpetuação de um vírus combatido há décadas sem uma cura efetiva. E é justamente isso o que Cuba fez, tal como reconheceu oficialmente a Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta terça-feira.

Em cerimônia na sede da Organização Panamericana da Saúde (OPS, o escritório regional da OMS) em Washington, a OMS entregou a Cuba a primeira certificação do mundo que estabelece que um país cumpriu o duplo desafio de eliminar a transmissão do HIV de mãe para filho, bem como da sífilis congênita.

“Foi vencida uma grande batalha na luta contra a aids”, afirmou a diretora da OPS, Carissa Etienne. Eliminar a transmissão vertical do HIV “representa um grande passo para Cuba rumo a uma geração livre de aids”, completou.

“A eliminação da transmissão do vírus é uma das maiores conquistas possíveis no campo da saúde”, disse a diretora geral da OMS, Margaret Chan, em comunicado.

 

A possibilidade de 15-45% de transmissão do HIV de mãe para filho cai para apenas 1% se tanto a mãe como o filho recebem retrovirais durante todas as fases em que pode ocorrer a transmissão. Segundo a OMS, o número de crianças que nascem a cada ano com HIV foi reduzido quase pela metade desde 2009, passando de 400.000 a 240.000 em 2013.

Mas a cifra ainda está muito longe da meta prevista para 2015: uma redução para menos de 40.000.

A batalha contra a transmissão materno-infantil da sífilis também tem ainda muitos desafios pela frente: todo ano, quase 1 milhão de mulheres grávidas são contagiadas com esse vírus, que pode provocar de morte fetal ou perinatal a infecções neonatais graves. Tudo isso, diz a OMS, quando existem “opções simples e relativamente acessíveis de detecção e tratamento durante a gravidez”, como a penicilina, que podem eliminar a maior parte dessas complicações.

Em Washington, numa cerimônia junto ao ministro cubado da Saúde, Roberto Morales Ojeda, a diretora da OPS destacou o ponto essencial da façanha cubana: “O sucesso de Cuba demonstra que é possível um acesso universal à saúde e que, de fato, ele é fundamental para o êxito da luta contra desafios tão preocupantes como o HIV”, afirmou Etienne.

Cuba conta com um serviço público de saúde “gratuito, acessível, regionalizado, integral e sem discriminação, baseado nos cuidados primários de saúde”, segundo o ministro Ojeda, que também atribuiu essa conquista a uma “vontade política” fundamental e à participação das comunidades nos programas de atendimento e prevenção.

No continente americano, a OMS-OPS tem trabalhado desde 2010 numa iniciativa regional para eliminar a transmissão materno-infantil do HIV e da sífilis.

Cuba é o primeiro país a receber o certificado oficial, mas há outros seis países e territórios que também poderiam ter eliminado a transmissão do HIV de mãe para filho: as ilhas britânicas caribenhas de Anguila e Montserrat, Barbados, Canadá, Estados Unidos e Porto Rico. Outros 14 conseguiram, supostamente, eliminar a sífilis congênita.

A OMS considera que um país eliminou a transmissão materno-infantil do HIV quando registra menos de dois bebês infectados para cada 100 nascidos de mães portadores do vírus. No caso da sífilis, é menos de um caso para cada 2.000 nascimentos vivos.

No âmbito da iniciativa da OPS, Cuba implementou nos últimos anos medidas como a assistência pré-natal precoce e exames de HIV e sífilis tanto para as mulheres grávidas como para os pais. Também oferece tratamento às mulheres cujo teste dá positivo e a seus bebês, além de fomentar medidas de prevenção, como o uso de preservativos.

Como resultado, refletido agora na certificação oficial da OMS, Cuba registrou em 2014 apenas os casos de dois bebês que nasceram com HIV e outros cinco com sífilis congênita, números inferiores aos mínimos para que se considere realizado o objetivo de eliminar a transmissão materno-infantil dessas doenças.

Nova comitiva de senadores terá agenda intensa na Venezuela

Via Agência Senado

Os senadores Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Telmário Mota (PDT-RR), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Roberto Requião (PMDB-PR) terão uma intensa agenda nesta quinta-feira (25). Eles compõem a comitiva externa do Senado que visita a Venezuela e viajaram ao país vizinho nesta quarta-feira (24), em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). O objetivo da visita, segundo Lindbergh, é conversar com representantes do governo e da oposição para entender a situação política atual da Venezuela. A comitiva também vai defender a democracia, com a realização de eleições livres e isentas.

Logo no início da manhã, a comitiva de senadores vai se reunir com o Comitê de Familiares Vítimas das Guarimbas – como são chamadas as ações de guerrilha na Venezuela. Está prevista para as 13h uma reunião com partidos de oposição. As legendas oposicionistas acusam o governo do presidente de Nicolás Maduro de tomar posições antidemocráticas e limitar a liberdade de imprensa. Logo depois, às 15h, os senadores vão se encontrar com representantes do Ministério Público e da Defensoria Pública.

Para as 17h, está prevista a última reunião oficial do dia. A comitiva vai se encontrar com o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, e com a ministra de Relações Exteriores, Delcy Rodrigues. Ao fim do dia, os senadores retornam para o Brasil.

A constituição de uma comitiva para visitar a Venezuela foi aprovada pelo Plenário do Senado na semana passada. O requerimento pedia a verificação in loco da situação política, social e econômica da Venezuela. O presidente do Senado, Renan Calheiros, disse esperar que a comitiva tenha uma recepção civilizada. Segundo o presidente, a comitiva atual representa o Senado, assim como a comitiva anterior.

Esta é a segunda comissão de senadores que visita a Venezuela em duas semanas. Na quinta-feira passada (18), um grupo de senadores desembarcou no país vizinho com a intenção de conversar com presos políticos. No entanto, a van que conduzia os senadores foi parada por manifestantes. Depois do incidente, a comitiva enfrentou problemas no trânsito e teve de voltar ao aeroporto, sem cumprir a missão.

No retorno ao Brasil, os senadores criticaram a Venezuela e o governo brasileiro – que, segundo eles, não apoiou a comitiva de forma devida. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) chegou a dizer que os parlamentares brasileiros foram para uma “arapuca armada pelo governo venezuelano”, com a cumplicidade do governo brasileiro. Como reação, os senadores integrantes da comitiva anunciaram ações que visam a exclusão da Venezuela do Mercosul.

A senadora Ana Amélia (PP-RS) apresentou um voto de repúdio – que foi enviado à Venezuela, mesmo sem ter o apoio da maioria dos colegas. A constituição de outra comissão também foi motivo de discussão entre os senadores. Para Aécio Neves (PSDB-MG), a nova comitiva é “chapa branca”. Na visão de Lindbergh, porém, a comissão anterior teve um papel incendiário na Venezuela e atuou com um viés político, de olho na política interna do Brasil.

“Queremos ter uma posição equilibrada. A última coisa que queremos é que a Venezuela entre em uma guerra civil”, afirmou Lindbergh.

Lula, Getúlio, Brizola, Chávez, Cristina e a resistência

Por FC Leite Filho | Via Café na Política

O desabafo de ontem do ex-presidente Lula me faz recordar algumas conversas que tive ao telefone com Leonel Brizola, quando este já beirava os 90, nos albores de 2002. Brizola era homem muito contido e policiado, presencialmente, mas, no telefone, costumava se soltar. Nessas nossas ligações, lamentava a inércia do PDT, sua cria que não chegou ao poder e nem por isso deixou de se acomodar. “Nós nos aburguesamos”, dizia, ao vituperar contra a burocratização e a fossilização que, impotente, via carcomer as entranhas de sua legenda e, junto com ela, toda a política nacional.

Com o Lula agora reclamando dos seus petistas que “só querem cargos” e “não mais trabalham de graça” e da inação da atual presidenta Dilma, Brizola perguntava para onde tinham ido a vibração e a pureza daqueles que lutaram contra a ditadura, em favor das diretas-já e da anistia. Sua conclusão era de que tudo ia acabar sendo engolido pelo sistema de dominação, ali pelo início do novo milênio, a todo vapor, por causa da magia da globalização, por baixo da qual o neoliberalismo devorava reputações, riquezas naturais e direitos do trabalhador.

Brizola, porém, não viveu para presenciar a virada contra os velhos dominadores que ocorreria pouco depois de sua morte, em 2004, com o advento dos presidentes progressistas Hugo Chávez, o próprio Lula, Evo Morales, Rafael Correa e Néstor e Cristina Kirchner. A postura destemida e colaborativa desta nova fornada de líderes, na mesma linha nacionalista de Brizola e Vargas, impôs uma nova correlação de forças pela qual foi possível promover, em seus países, a ascensão social de milhões de pessoas, a criação massiva de empregos, o fomento do comércio regional e o desenvolvimento com inclusão.

Como tal política implica contraria interesses secularmente incrustados, principalmente porque nossas prioridades comerciais se deslocaram dos Estados Unidos e da Europa para a China e a Rússia, a reação não se fez esperar. As investidas isoladas para derrocar Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, todas desbaratadas a partir justamente da força que havia assumido aquela cooperação regional.

Mas agora, elas voltam com ímpeto de um furacão, redobrado, coordenado e simultâneo, para aniquilar não apenas um outro presidente progressista, isoladamente, mas todos eles juntos, numa só bordoada. São as arremetidas dirigidas que acabam de ser despejadas, indistintamente, contra a Venezuela, a Argentina, o Brasil, a Bolívia e o Equador. A partir de uma articulação midiática extra-continental, essa ofensiva se imiscui na sociedade civil, na opinião pública, na Justiça, no Parlamento, nas igrejas, nos partidos políticos e nas empresas de todos esses países.

Sua estratégia visa, primeiro, desacreditar, com desinformação e fabricação de escândalos, como o “petrolão” brasileiro, o “enriquecimento ilícito da família Kirchner”, na Argentina, e as “operações de narcotráfico” do presidente do parlamento venezuelano, Diosdado Cabello. Na segunda etapa, vem o assalto ao poder, com ou sem sangue, para anular todas as medidas inclusivas que beneficiaram a classe média e trabalhadora, mas que provocaram prejuízos ao sistema dominante, ou seja, as empresas transnacionais e o sistema financeiro.

Daí os ataques a Lula, Dilma, Cristina Kirchner, Nicolás Maduro, sucessor de Chávez na Venezuela, Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador. Mas, aqui, o importante a observar é que esses ataques vêm sendo rebatidos com grande vigor e determinação, por Maduro, Cristina, Evo e Rafael, sobretudo porque eles cuidaram de engendrar uma militância articulada que vai para as ruas defender o governo e suas conquistas, sempre que estas são ameaçadas.

No Brasil, reconheçamos, tanto Lula, como Brizola e Getúlio Vargas, vítimas das mesmas ou ainda mais intensas ignomínias, descuidaram de organizar o povo para defender seus projetos. A diferença de Lula para Getúlio e Brizola é que estes últimos viviam num Brasil que se jactava de viver de costas para os vizinhos da América do Sul. Hoje, não, Lula e Dilma têm o apoio da Argentina e da Venezuela, que formam conosco as grandes potências do subcontinente, além, é claro, da Bolívia e do Equador.

Lula e Dilma, portanto, não estão sozinhos, só precisando construir seus apoios efetivos internos, para, juntamente com as forças vizinhas, rebater os golpes do grande império, inclusive porque assim estarão mais fortes para resistir. Se os dois fraquejarem, será a perdição não só do Brasil mas de toda a América Latina, progressista e não progressista, já que o arrastão imperial não se dispõe a poupar a ninguém.

A internacionalização da direita nos trópicos

Por Suhayla Khalil | Via Sul 21

A ida da comitiva de senadores brasileiros encabeçada por Aécio Neves, do PSDB, à Venezuela me fez lembrar da viagem de Richard Nixon ao país, em 1958, quando este ainda era vice-presidente dos Estados Unidos. Os episódios guardam alguma semelhança. Então como hoje, as delegações foram recebidas com fortes doses de hostilidade nas ruas de Caracas. Nos dois casos, o repúdio à visita veio de manifestações populares e não do governo instituído. Ambos também demonstraram uma sucessão de erros e provas de desconhecimento em relação à Venezuela e, em última análise,  aos países da região, mas que procuraram ser canalizados de forma positiva pelos integrantes das delegações nos seus países de origem.

Primeiramente, a visita não tinha caráter diplomático e é preciso lembrar que o sistema internacional tal qual é concebido desde a Paz de Westfália até os dias de hoje é um sistema de Estados alicerçado no princípio da soberania. Dessa forma, os esforços de mediação de qualquer crise política interna devem ser realizados com a anuência do governo e/ou com a utilização dos recursos de estruturas de cooperação internacional. No caso da Venezuela, isso já vem ocorrendo no âmbito da Unasul. O secretário da Unasul, o colombiano Ernesto Samper, nomeou uma delegação integrada pelos ministros de Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, da Colômbia, María Ángela Holguín, e do Equador, Ricardo Patiño, para promover a aproximação entre a ala governista e a oposição na Venezuela.

A visita dos senadores, da forma que foi realizada, mostrou certa arrogância e desconhecimento da lógica de funcionamento das relações internacionais. Falas de parlamentares, como Aloysio Nunes, que comentam que o pleito de excluir Venezuela do Mercosul deve ser levado à Organização dos Estados Americanos, demonstram o profundo desconhecimento dos legisladores brasileiros em relação aos processos internacionais.

Nesse sentido, a visita pirotécnica mais atrapalha do que ajuda. Manobras equivocadas como essa polarizam ainda mais a crise interna venezuelana e ameaçam as relações entre Brasil e Venezuela, além de colocarem em risco a própria integração regional. Não à toa, nos rememora o caso do diplomata Eduardo Saboia, que, contrariando ordens superiores e normas internacionais, trouxe clandestino para o Brasil o senador boliviano Roger Molina. Digo não à toa, porque Saboia também embarcou nessa nova aventura juntamente com os senadores brasileiros, já que foi descoberto que ele compunha a comitiva a Caracas. Ambos os casos puseram o governo brasileiro em uma saia justa nas suas relações externas.

Vale lembrar que o processo de institucionalização da cooperação regional é recente na América Latina e deve ser cuidado. Além disso, tal tipo de atuação reforça o discurso nada desejável de que o Brasil é um país imperialista em seu entorno regional. Assim sendo, a oposição brasileira agiu de forma muito mais auto-interessada, de forma a capitalizar o ensejo para lograr visibilidade interna e internacional, e ignorou os interesses nacionais defendidos por nossa política externa. Vale lembrar que a Venezuela é um dos nossos principais parceiros comerciais. Também é um dos principais vendedores de petróleo para os Estados Unidos, que, até hoje, nem de longe interromperam os fluxos comerciais com o país. Ademais, o processo de integração regional tem sido uma prioridade do governo brasileiro desde a redemocratização e tratada como política de Estado.

Por fim, quanto à expulsão da Venezuela das instituições regionais, é preciso ter em mente algumas ponderações. Um primeiro problema a ser enfrentado é o de que a cláusula democrática do Mercosul é bastante abrangente e não há critérios claros para a definição de regime democrático. Ou seja, temos uma questão de ordem processual a ser enfrentada. Em segundo lugar, a História já provou que a expulsão de membros não é a melhor decisão política. Na verdade, a exclusão demonstra uma inaptidão e a falta de legitimidade das instituições regionais para cuidar de suas crises internas.

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Suhayla Khalil é Doutora em Relações Internacionais e professora da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

O Engarrafamento Bolivariano

Por Marcelo Zero

Charge de Renato Aroeira

Aos que tentavam politizar todas as manifestações culturais, o grande crítico Sérgio Augusto costumava perguntar se o violão do Baden Powell era de direita ou de esquerda.

Há, de fato, coisas que não podem ser politizadas. Como o etéreo violão do Baden Powell, ou como as leis de ferro da física.

Um bom exemplo dessas últimas é a lei da impenetrabilidade da matéria, formulada, entre outros, por Newton, a qual afirma que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

É a lei que explica os engarrafamentos de trânsito. Com pouca pista (espaço) e muitos veículos (corpos) o trânsito invariavelmente engarrafa. Principalmente quando há acidentes.

Foi o que aconteceu manhã da última quinta-feira, em Caracas. Conforme todos os jornais venezuelanos, inclusive os da oposição, que funcionam livremente, uma carreta carregada de farinha tombou na já normalmente complicada autopista que liga Caracas ao seu aeroporto, provocando um enorme engarrafamento de trânsito.

Isso é um fato. Não é de esquerda e nem de direita. Simplesmente é.

Também é fato que, numa democracia, todos têm direito à manifestação. Pode parecer estranho para alguns, mas a Constituição da Venezuela, aprovada em referendo por mais de 70% da população, assegura, até mesmo aos chavistas, o direito à opinião e à manifestação.

Direitos são direitos. Não são de esquerda nem de direita. E democracia é democracia para todos. Não é prerrogativa exclusiva da direita.

Da mesma forma, é um dado da realidade que todos, de direita ou de esquerda, podem cometer equívocos. Esse parece ter sido o caso da flamante comissão senatorial que foi a Caracas na última semana.

Para ficar no terreno reconfortante dos eufemismos, era uma comissão que tinha pouco de elevada diplomacia parlamentar e demasiado de comezinha política eleitoral. Aparentemente, foi lá exportar o embate político interno do Brasil a um país já dilacerado por disputa intestina. Não foi lá para dialogar com as forças políticas responsáveis, apaziguar ânimos, propugnar pela solução à questão dos presos e, sobretudo, evitar mais violência e mortes, como faz a Reunião de Chanceleres da Unasul, da qual participa o Brasil. Conscientemente ou não, foi jogar mais lenha na descontrolada fogueira venezuelana. Tudo o que a Venezuela não precisava e não precisa.

Países que passam por crise grave e que estão à beira de uma guerra civil aberta precisam de bombeiros, não de incendiários, sejam de direita ou de esquerda. Isso também é fato.

Mas tem gente confundindo fato com ficção e Isaac Newton com Hugo Chávez.

É claro que se deve lamentar o constrangimento passado pela comissão de senadores brasileiros na Venezuela. Afinal, era formalmente uma comissão oficial do Senado, embora fosse, na realidade, uma comissão da oposição brasileira que foi lá se encontrar exclusivamente com as lideranças mais radicalizadas da oposição da Venezuela, as quais assumidamente querem derrubar o governo eleito de Maduro a qualquer custo, inclusive mediante o recurso à violência. É o beco sem saída do La Salida, proposto abertamente por Leopoldo López. Após o seu anúncio, oito chavistas foram assassinados na Venezuela. Outro fato.

Porém, lamentar o ocorrido, e pedir as explicações de praxe, não pode se confundir com uma concordância com a tese delirante de que o episódio foi ocasionado por um grande complô armado pelo governo da Venezuela, em conluio com o governo brasileiro e o Itamaraty.

Ora, o governo brasileiro, mesmo sabedor do caráter, assim digamos, pouco equilibrado da comissão deu todo o apoio à empreitada senatorial. O ministro Jacques Wagner providenciou o confortável jatinho e negociou exitosamente, com seu homólogo, o sobrevoo e o pouso da aeronave recheada de excelências. Fatos confirmados pela própria comitiva.

O embaixador brasileiro em Caracas cumpriu rigorosamente o protocolo previsto em tais ocasiões. Alugou as vans para a comitiva, providenciou a devida escolta policial e recebeu os senadores no aeroporto. Não acompanhou a comitiva porque não lhe cabia. Ademais, seria insensato fazer parte de uma comitiva em que estavam presentes representantes da oposição mais radical da Venezuela. O embaixador representa o Estado brasileiro e, como tal, tem de manter equidistância das forças em conflito. Não cabe ao embaixador do Brasil se meter nos assuntos internos da Venezuela.

Esse é um princípio básico da diplomacia que não é nem de direita, nem de esquerda.

Também não cabia ao embaixador do Brasil revogar as leis da física e remover magicamente o engarrafamento bolivariano. Ou mandar prender os poucos manifestantes chavistas que foram ao aeroporto protestar contra o assassino de uma professora grávida, que morreu nas democráticas guarimbas organizadas por ordem de Leopoldo López, as quais já mataram 43 venezuelanos, na maioria chavistas ou gente sem filiação política. Entre os mortos, há, inclusive, sete policiais venezuelanos, três deles executados com tiros na cabeça. Fatos macabros.

Morte é morte. Não é de esquerda e nem de direita.

Quanto ao governo Maduro, cabe perguntar o que ele ganharia com isso. Com efeito, a comissão, caso tivesse tido êxito, teria caído no merecido olvido reservado aos equívocos políticos. Adquiriu toda essa notoriedade graças ao seu providencial fracasso.

Outras autoridades internacionais, como Felipe González, já tinham visitado López, condenado pela justiça por incitação à violência, sem nenhum problema.

Se Maduro tivesse querido demonstrar força ante a comissão senatorial, teria facilmente convocado 400 mil chavistas ao aeroporto, não 40. Também não parece factível que Maduro tenha ordenado paralisar o trânsito de Caracas para irritar Aécio e companhia. Essa hipótese simplesmente carece de bom senso e transborda megalomania e paranoia.

E o bom senso não é de esquerda nem de direita. Não é de bom senso politizá-lo.

Agora, os senadores, irritados com o engarrafamento e magoados com a manifestação, que abalou egos mas não a segurança, querem tirar a Venezuela do Mercosul, sob a alegação que houve ruptura da ordem democrática, conforme prevê o Protocolo de Ushuaia. Também insistem em acusar o governo brasileiro e o Itamaraty pelo fracasso anunciado da intrépida comissão. Querem até levar o caso à OEA.

O engarrafamento bolivariano e a gigantesca manifestação chavista seriam, aparentemente, as provas definitivas dessa ruptura e do complô comunista binacional.

O senso do ridículo não é apanágio da esquerda ou da direita. Ou não deveria ser.