Arquivos da categoria: América Latina

Ramonet: O impacto global da crise financeira

Por Ignacio Ramonet | Via Pátria Latina

O apocalipse financeiro não terminou, está se transformando em recessão global e tudo indica que vamos até uma Grande Depressão. Por espetaculares que sejam, as medidas adotadas na Europa e nos Estados Unidos não vão provocar o final das dificuldades. Isso foi admitido pelo próprio Henry Paulson, secretário do Tesouro estadunidense: “Apesar do nosso grande plano de resgate, mais instituições financeiras vão quebrar”.

Em um informe sobre as crises dos últimos 30 anos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) confirma que aquelas que têm os bancos e o setor imobiliário como protagonistas são especialmente “intensas, grandes, profundas e danosas para a economia real”. Os efeitos já se estendem pelos cinco continentes: em umas algumas semanas, o real brasileiro perdeu 30% de seu valor; o zloty polonês, 22%; a rupia índia, 10%; o peso mexicano, 14%. Pressões similares afrontam a Indonésia, Filipinas e a República Checa.

As autoridades estadunidenses já injetaram mais de um bilhão e meio de euros (o equivalente ao dobro do que custou, desde 2001, as guerras do Afeganistão e do Iraque) em seus diferentes planos de resgate de bancos e companhias de seguros. E os grandes brancos do mundo ainda necessitam de bilhões de euros… O que os conduz a restringir o crédito às empresas e aos cidadãos. Com as conseqüências muito negativas que isso tem na economia real.

Os países avançados, entre eles a Espanha, que recorreram à inovação financeira para garantir altas rentabilidades aos investidores, são os que levam o golpe mais duro. O FMI estima que a economia desses países terá o avanço mais débil dos últimos 27 anos. O mundo caminha para sofrer seu pior pesadelo desde 1929.

Por suas inéditas dimensões, essa crise põe fim ao período neoliberal baseado nas teses monetaristas de Milton Friedman, que dominaram, durante três décadas, o campo capitalista. E ofuscaram também a social-democracia internacional. A repentina derrota desse credo deixa a maioria dos dirigentes políticos desamparados. O patético espetáculo de responsáveis multiplicando de modo disparatado as reuniões e as “medidas de resgate” dá uma idéia de seu despiste.

Nos Estados Unidos, os bancos trabalharam em condições de liberdade absoluta concedidas em nome de fundamentos ideológicos. Por isso, a classe política norte-americana tem a responsabilidade do caos atual. O dogma do mercado infalível se auto-destruiu. O modelo dos países que mantêm algum tipo de controle de câmbio – China e Venezuela, por exemplo – se vê agora reivindicado. E ainda que o impacto da crise seja sentido em todo planeta, essas economias que não adotaram a desregulação ultra-liberal se sairão melhor. Alguns analistas ressaltam, para a América Latina, o interesse de mecanismo como a Alba, o Banco do Sul ou a idéia de um banco da Opep, proposta recentemente feita pelo presidente Hugo Chávez.

É um momento histórico. Se derruba não apenas um modelo de economia, mas também um estilo de governo. Isso altera a liderança dos Estados Unidos no mundo – e em particular sua hegemonia econômica. Suas finanças dependem de que sigam entrando fortes somas de capital estrangeiro. E os países de onde procede esse dinheiro – China, Rússia, petromonarquias do Golfo – vão agora influir no seu futuro.

Em 2006, a China e parte do oriente financiaram, em partes iguais, 86% do déficit dos países industriais. em 2013, o superávit chinês excederá a totalidade do déficit dos países industriais. Tudo isso outorga a Pequim um papel decisivo na manutenção da estabilidade do sistema financeiro internacional. E é provável que, em pouco tempo, a China trate de obter concessões em assuntos como o de Taiwan ou do Tibet.

A queda da economia anuncia, em geral, a decadência dos impérios. Poderá a debilitada economia estadunidense seguir assumindo a caríssima guerra do Iraque? O conflito do Vietnã acabou com a equivalência entre o dólar e o ouro, e fez oscilar o sistema de Bretton Woods. A guerra do Iraque, por seu custo, provocou uma transferência de riqueza dos EUA a seus competidores. A influência dos fundos soberanos e da China se reforçou. A crise atual reforça esse movimento e provoca um reequilíbrio fundamental: o centro de gravidade do mundo se descola do ocidente até o oriente.

Mas tal descolamento desencadeia conseqüências em cascata como as que planeja o ensaísta britânico John N. Gray: “Se os EUA se retiram do Iraque, o Irã sairá como vencedor regional. Como reagirá a Arábia Saudita? Haverá mais ou menos possibilidades de uma ação militar para impedir que o Irã adquira armas nucleares? É evidente que Washington está perdendo poder. A guerra da Geórgia, em agosto passado, mostrou a Rússia redesenhando o mapa geopolítico do Cáucaso, sem que os EUA pudessem dizer nada.

A situação econômica é tão grave que muitos governos deixam de lado suas crenças ideológicas, e estão dispostos a adotar medidas que eles mesmos haviam tachado de heréticas há pouco tempo. Por exemplo, aumento do gasto público. Relançar os investimentos em obras de infra-estrutura importantes como estímulo econômico. O próprio FMI advoga por uma intervenção pública mais radical.

O modelo de capitalismo, desenhado pelos estados do Norte para o maior proveito dos países ricos, morreu. A nova arquitetura de economia social de mercado será definida, a partir da reunião de 15 de novembro em Washington, não apenas pelos grandes do G8, mas também, pela primeira vez, por potências do Sul como Argentina, Brasil, China, Índia e México. Já era hora.

Tradução: Fernando Damasceno

COP20: aprovada responsabilidade diferenciada entre países ricos e pobres na redução do efeito estufa

Por Marcela Belchior | Via Adital

Há até bem pouco tempo, o debate acerca do meio ambiente girava em torno da mensuração da interferência humana na alteração do clima mundial. Ao que tudo indica, esta já não é a grande questão da agenda global. Durante a primeira semana da 20ª Conferência das Partes sobre a Mudança Climática das Nações Unidas (COP20), que acontece desde o último dia 1º de dezembro, em Lima, capital do Peru, a discussão se concentra nos riscos que a transformação climática apresenta à população e à economia, e os possíveis mecanismos de enfrentamento desse novo contexto. Para isso, uma proposta brasileira que muda o compromisso de cada país já foi aceita pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Pela proposta da diplomacia brasileira, os países em desenvolvimento serão divididos em diferentes graus de responsabilidade pelo aquecimento. A ideia foi lançada pelo país ainda em novembro deste ano e permite que nações emergentes como China, Brasil e Índia assumam compromissos mais ambiciosos de cortes de emissões.

Países ditos menos desenvolvidos, ou seja, mais pobres e menos industrializados, seriam apenas estimulados a reduzir emissões, ficando livres de cumprirem meta. Isto porque essas nações, sobretudo situadas na África e na Ásia, são uma parte muito pequena do bolo de emissões mundiais. No caso dos países em desenvolvimento, as metas de corte seriam relativas, ficando dependentes do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), do número populacional ou das projeções de emissões.

Já os 37 países considerados desenvolvidos teriam metas de redução de emissões e de ajuda financeira. Para este caso, cientistas recomendam um corte global de 40% a 70% até 2050. Com esse modelo de divisão, a expectativa é de que os países pobres que melhorarem seus padrões de vida migrem, gradualmente, para o centro, assumindo metas de corte de emissão mais rígidas.

Uma vantagem dessa proposta é que deve incluir no acordo os Estados Unidos e as nações emergentes, que são os grandes emissores e vinham se recusando a adotar medidas. Já uma desvantagem está na ausência de uma lei que garanta o cumprimento do acordo. A grande diferença entre a proposta brasileira e o atual modelo (Protocolo de Kyoto, de 1997) é que o número de países submetidos a metas rigorosas pode aumentar pouco a pouco.

Segundo a COP20, as mudanças climáticas matam mais de meio milhão de pessoas por ano. Foto: COP20.

As primeiras conversações desta semana se sustentaram no debate com cientistas do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), do secretariado da Convenção e dos representantes das Partes, para discutir dados técnicos. O momento serve de base para a tomada de decisões políticas e funciona como um termômetro de como anda o processo de negociação entre os países envolvidos na Convenção.

Nestes primeiros dias de debate, pesquisas técnico-científicas têm sido utilizadas no diálogo político para a construção do acordo climático. Compreendendo que já vivemos em um planeta climaticamente alterado por ações danosas do ser humano, o esforço da Convenção é na busca por instrumentos que suavizem essa repercussão socioambiental. Com uma temperatura média do planeta Terra 0,8°C mais alta, o foco é entender o que, efetivamente, é necessário fazer para que esse aumento não supere os 2°C até o final do século XXI.

O evento é dividido em duas partes. Na primeira semana, são realizadas reuniões oficiais e paralelas, com a função de alinhar os temas e preparar a negociação de acordos. Os negociadores, membros das equipes de cada país, juntamente com o secretariado da Organização das Nações Unidas (ONU), avançam no processo de formulação das ações e orientações mundiais. Já na segunda semana da COP20, com a presença dos chefes de Estado, são firmados os acordos formalmente.

Os dias iniciais da Conferência se deram sob a expectativa de grandes mudanças no tratamento da questão, principalmente pelo recente anúncio de compromisso (informal, até agora) entre Estados Unidos e China, os dois maiores poluidores do globo (concentrando juntos praticamente a metade das emissões), para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. O principal objetivo da Conferência é revestir um caminho para um grande acordo global que deve ser selado em 2015, em Paris, capital da França, durante a COP21.

Esse rascunho deve abordar as principais questões do setor, debatidas há duas décadas pelos países. Uma delas é a responsabilidade comum das nações, mas diferenciada, respeitando as chamadas condições de “desenvolvimento” de cada uma. Assim, todos os países devem assumir algum tipo de compromisso com relação à mitigação da mudança climática. Os chamados “desenvolvidos”, historicamente os maiores responsáveis pelo acúmulo de gases danosos na atmosfera, deverão assumir compromissos mais audaciosos que os demais. O evento se estende até o próximo dia 12 de dezembro.

Temperatura da Terra já aumentou em 0,8°C. Foto: COP20.

Entenda a COP20

A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (CMNUCC), que entrou em vigor em 1994 com o objetivo de reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Até o momento, 195 países participam das discussões e apresentam recursos para ratificarem os acordos e orientações internacionais. As nações reúnem-se anualmente para debaterem como são aplicadas as deliberações da Convenção, negociarem novos compromissos com responsabilidades comuns, considerando suas prioridades nacionais e regionais de desenvolvimento, seus objetivos e circunstâncias nacionais. Nesta 20ª edição, participam cerca de 10 mil delegados de todo o mundo.

Movimentos sociais fazem debate alternativo

De 08 a 11 de dezembro, também na capital peruana, será realizada a Cúpula dos Povos Frente à Mudança Climática, um encontro paralelo à COP20. O intuito é promover um espaço livre para que os movimentos sociais e civis debatam o fenômeno da mudança climática e formulem alternativas, ampliando a discussão institucional realizada pelas Nações Unidas. Com o lema “Mudemos o sistema, não o clima!”, o evento estima a participação de 8 mil representantes de vários setores, além da presença de 200 organizações de todo o mundo.

Dentre os participantes, a Cúpula dos Povos receberá delegações indígenas de diversos países. Foto: Cúpula dos Povos.

Porque um evento que reúne chefes de Estado de toda a América do Sul não é notícia?

Por Vanessa Martina Silva | Via Diferente, Pero no Mucho

Enquanto a TeleSUR transmitia ininterruptamente as falas e o ato cultural que marcou a inauguração da sede da Unasul na tarde desta sexta-feira (05/12), a GloboNews transmitia entrevista com a ex-candidata à presidência pelo Psol Luciana Genro e o principal telejornal do país, o Nacional, da mesma Rede Globo, ignorou solenemente a reunião realizada no Equador e que reuniu mandatário e representantes dos 12 países sul-americanos.

Neste sábado (07/12), a capa dos jornais destacam o suposto esquema de corrupção da Petrobras e não há, com exceção do Estadão, nenhuma menção à Cúpula da Unasul.

O jornal paulista traz apenas a seguinte menção: “Petróleo cai e Venezuela pede ajuda à Unasul”. Texto semelhante foi veiculado sobre Dilma: “Em Quito, Dilma continua culpando a ‘crise internacional’ pelos problemas no Brasil”, como veicularam o site da revista Veja e o Estadão online. Também na internet, outros portais deram matérias isoladas com declarações de um ou outro presidenciável, de forma descontextualizada e sem enfoque nas medidas ou questões que estavam em pauta no encontro. Por quê?

Uma reunião com presidentes de todo o continente não é importante? Se estivesse presente o mandatário dos Estados Unidos, da Alemanha ou França a cobertura seria diferente? Quando a discussão foi na Europa e foi aprovada a cidadania europeia a apatia foi semelhante? E quando foi criada a sede da ONU?

Néstor Kirchner foi o primeiro secretário-geral da entidade e um dos impulsionadores da integração sul-americana| Foto: Divulgação/ Twitter

O processo que permitirá aos cidadãos sul-americanos estudar e trabalhar em qualquer país da região ainda não tem data para ser definido, mas a sinalização do estabelecimento da livre mobilidade para os cerca de 400 milhões de habitantes que vivem nos 12 países que compõem o bloco e a adoção da chamada “cidadania sul-americana” é suficientemente importante para merecer algumas análises e destaques por parte de nossa imprensa.

De acordo com o secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, o passaporte sul-americano seria similar ao Schengen da União Europeia. A partir dele, os sul-americanos poderão estudar, trabalhar e homologar títulos profissionais na região.

Por que então a apatia?

Além da cidadania sul-americana, os presidentes do bloco também aprovaram a criação de uma escola técnica de coordenação eleitoral e da Escola Sul-Americana de Defesa.

Edifício Néstor Kirchner tem 1.500 metros quadrados e empregou mais de 700 pessoas durante a construção| Foto: Agência Andes

A unidade técnica de coordenação eleitoral visa fortalecer o papel da Unasul nas missões de acompanhamento de eleições no subcontinente e profissionalizá-las, estabelecendo um padrão de observação e reconhecendo o papel fundamental que o organismo tem na defesa da democracia na região.

Já a Escola Sul-Americana de Defesa é uma antiga demanda e tem como objetivo fazer frente à Escola das Américas, criada pelos Estados Unidos e que formou muitos dos militares que participaram, nos anos 1960-1980, das ditaduras militares que foram implementadas na região. Ela ainda está em atuação.

A escola regional, no entanto, será um centro de altos estudos responsável pela articulação das diversas iniciativas dos países-membros do Conselho de Defesa da União de Nações Sul-Americanas (CDS/Unasul) de capacitação de civis e militares na área de defesa e segurança regional, com cursos compartilhados e troca de experiências de defesa, como explicou a presidenta brasileira, Dilma Rousseff, em entrevista a jornalistas após a Reunião de Cúpula da Unasul.

A inauguração da nova sede da Unasul, considerda histórica por Samper, marca também o novo papel e o novo momento da organização a partir da nomeação do ex-presidente da Colômbia ao cargo.

Após um breve período de protagonismo regional durante a gestão de do ex-mandatário da Argentina e primeiro secretário-geral do bloco Néstor Kirchner, que ao lado do líder venezuelano Hugo Chávez e brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos principais impulsionadores da integração regional, a iniciativa caiu em um período de inércia devido ao fato de que o secretário-geral Alí Rodríguez Araque que ficou à frente do organismo regional de 2012 a 2014 ficou gravemente doente e, portanto, impedido de levar o processo adiante.

Para Samper, a cúpula deve marcar a consolidação da Unasul como liderança regional| Foto: Unasul

Samper, no entanto, tem se empenhado para retomar a importância da Unasul. Durante o encontro, propôs uma agenda com diversos pontos para serem avaliados pelos mandatários do bloco e considera que é fundamental dar sequência aos projetos considerados prioritários pelo Cosiplan (Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento).

Entre esses projetos estão: a instauração de um banco de preços de medicamentos, viabilizando a melhor compra possível pelos países do bloco; a criação de um fundo para bolsas de estudo entre os países do bloco, tendo a ciência e tecnologia como questão fundamental; o estabelecimento de cooperação na gestão de riscos de desastres naturais, a exemplo do Cemaden no Brasil; e discussão sobre a possibilidade de abertura do espaço aéreo dentro da Unasul.

Nada disso foi considerado importante pela imprensa tradicional do país.

Resultado de autópsia para determinar causa da morte de Jango é inconclusivo

Via Agência EFE

A tese de que o ex-presidente João Goulart, morto na Argentina em 1976, foi vítima do chamado Plano Condor perdeu força nesta segunda-feira com o resultado de uma autópsia que, sem ser conclusiva, se inclina para “causas naturais” como motivo de sua morte.

O resultado da autópsia realizada com os restos de Goulart foi apresentado hoje pelos especialistas responsáveis do estudo, que explicaram que não foram encontrados traços de veneno ou alguma outra substância tóxica e que “os dados clínicos são compatíveis com os de uma morte natural”.

No entanto, o perito Jeferson Correa, chefe da equipe médica que realizou a autópsia, ressaltou que não se chegou a uma conclusão “determinante” por conta dos quase 38 anos passados desde a morte do ex-presidente, que governou o Brasil entre 1961 e 1964, quando foi derrubado por uma ditadura que se prolongou até 1985.

Tanto a exumação dos restos de Goulart, realizada há pouco mais de um ano, como a autópsia foram solicitadas à justiça pela família do ex-presidente, que há anos contesta a tese de que sua morte foi ocorreu por conta de um enfarto, como se disse em 1976.

A suspeita da família Goulart se intensificou há seis anos, quando um ex-agente de inteligência uruguaia, detido no Brasil, disse que Goulart foi envenenado no marco do Plano Condor, articulado pelas ditaduras do Cone Sul na década de 1970 para reforçar a perseguição dos ativistas de esquerda.

No entanto, a autópsia realizada por analistas brasileiros, em cooperação com peritos argentinos, cubanos, espanhóis, uruguaios e portugueses, não conseguiu confirmar essa tese.

“Nas amostras analisadas, não foi identificado nenhum remédio tóxico ou veneno”, embora pelo longo tempo transcorrido “também não se possa descartar o envenenamento”, declarou Correa.

O especialista explicou que, embora tenham sido realizadas “exaustivas” provas toxicológicas, só foi confirmada “a presença de substâncias poluentes presentes no cotidiano, como restos de xampu e algum remédio, mas tudo dentro do quadro terapêutico” de João Goulart, que sofria de problemas cardíacos.

Correa também indicou que “não foram encontrados indícios de morte violenta” e que os restos ósseos não apresentavam “fraturas e nem corpos estranhos”.

Desse modo, o “infarto agudo de miocárdio” assinalado de forma oficial em 1976 como motivo da morte “pode ser a verdadeira causa”, embora “também poderia ter sido outra patologia cardíaca ou cerebrovascular”, indicou Correa.

O chefe da equipe médica ressaltou que “a análise pericial é fria”, não leva em conta “as circunstâncias políticas” e que, no caso de Goulart, foi realizada em um “estrito marco científico” e com o material genético disponível.

Com a conclusão da autópsia, os restos de Goultart voltarão a ser depositados em um túmulo do cemitério da cidade de São Borja, fronteiriça com a Argentina, desde onde foram transferidos no ano passado a Brasília para os exames e um funeral de Estado que, no momento de sua morte, foi negado pela ditadura.

A ministra da Secretaria de Direitos Humanos do Brasil, Ideli Salvatti, que participou da apresentação dos resultados da autópsia, explicou que essa análise é apenas “parte de um processo que foi instaurado para restabelecer a verdade histórica” sobre o ocorrido durante a ditadura.

Ideli indicou que, como a morte de Goulart ocorreu na Argentina, nesse país também existe uma investigação em curso e que o tribunal responsável poderá ter acesso aos resultados da autópsia.

A ministra destacou que uma investigação essa natureza “só poderia ser realizada em democracia” e destacou a “ferrenha vontade política” da presidente Dilma Rousseff para tentar esclarecer totalmente a morte de João Goulart.

Uruguaios elegem Tabaré Vasquez sucessor de Mujica

Por Monica Yanakiew | Via Agência Brasil

Os uruguaios elegeram nesse domingo (30) o sucessor do presidente José Pepe Mujica: no dia 1º de março, o médico socialista Tabaré Vasquez será reconduzido ao cargo, que ocupou de 2005 a 2010. Este vai ser o terceiro governo consecutivo da coligação de partidos de esquerda, Frente Ampla.

No discurso em que festejou a vitória, Tabaré convocou a oposição a um diálogo. “Convoco todos os uruguaios, não para que me sigam, mas para que me guiem e me acompanhem”, disse. Ao mesmo tempo prometeu que seu retorno ao poder não representará “mais do mesmo” porque o país que vai presidir nos próximos cinco anos “não é o mesmo de 2005 nem de 2010”.

Tabaré Vasquez disputou o segundo turno das eleições presidenciais com o candidato do tradicional Partido Nacional (ou Blanco), Luis Lacalle Pou. Ele obteve 53,6% dos votos, enquanto seu adversário ficou com 41,1%. A Frente Ampla ainda assegurou a maioria no Congresso, no primeiro turno das eleições, em outubro passado.

No Uruguai, o Congresso é totalmente renovado a cada troca de governo. E os eleitores são obrigados a escolher candidatos a presidente, à Câmara dos Deputados e ao Senado do mesmo partido. Todos têm mandatos de cinco anos e o presidente não pode ter dois mandatos consecutivos.

A legislação, no entanto, não impede que uma pessoa dispute o cargo de presidente e uma vaga no Congresso, em uma mesma eleição, ou que o presidente em exercício se candidate ao Senado. Por isso, no dia 1º de marco, Lacalle Pou (que foi derrotado na eleição presidencial, mas obteve votos suficientes na eleição legislativa) assumirá como senador do Partido Nacional. José Pepe Mujica vai liderar a bancada da Frente Ampla no Senado.

Em entrevista à Agência Brasil, Mujica disse que quer impulsionar uma reforma constitucional e criar mecanismos para evitar a corrupção politica. A primeira-dama, a senadora Lucia Topolanski, foi reeleita em outubro e vai integrar a bancada governista junto com o marido.

Segundo Victor Rossi, que foi ministro de Transporte e Obras Públicas na primeira gestão de Tabaré Vasquez, o novo governo vai manter a politica de redistribuição da riqueza dos últimos dez anos, que deu bons resultados: a redução da pobreza de 39% a 11% e a queda do desemprego. “Mas existem novos desafios porque os uruguaios hoje estão mais exigentes do que em 2005 e em 2010”, disse Rossi.

Responsável por conduzir a Frente Ampla ao poder, rompendo com a hegemonia dos partidos Nacional e Colorado (ambos com mais de 170 anos de historia), Tabaré Vasquez obteve votação histórica. Ele ganhou as eleições com a maior margem de diferença em relação ao segundo colocado desde 1996.

Apesar de Tabaré ser um político popular, foi seu sucessor – o ex-guerrilheiro José Pepe Mujica, preso durante 14 anos – que colocou o pequeno país no mapa, graças ao seu jeito simples de ser. Ele foi manchete da imprensa local e internacional porque continua vivendo na mesma chácara e dirigindo o mesmo fusca velho (que um xeque árabe quis comprar por US$ 1 milhão e que ele se recusou a vender).

Mujica também ganhou fama de ser o “presidente mais pobre do mundo” porque doa 90% de seu salario para financiar projetos sociais. Na gestão dele, o Uruguai legalizou o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a produção e venda da maconha.

O desafio da desigualdade social: ricos com mais 1 bilhão de dólares cresceram 38%

Via Adital

A América Latina e o Caribe continuam sendo as regiões mais desiguais do mundo. Os mais ricos abocanham em média 50% das rendas totais da região, enquanto os mais pobres ficam apenas com 5%. Se as três pessoas mais ricas do mundo gastassem 1 milhão de dólares por dia cada uma, seriam necessários 200 anos para acabar todo o seu dinheiro. Isso não ocorre, unicamente, nos países mais ricos. No México, Carlos Slim, o mais rico de todos os latinos e o segundo homem mais rico do mundo, poderia pagar só com suas rendas de um ano os salários anuais de 440.000 mexicanos.

Este cenário desanimador impõe uma constatação a crescente desigualdade é o maior desafio social para os governos de todo o mundo, em especial os latino-americanos. Um informe recente da organização internacional de direitos humanos Oxfam, “Iguais: Acabemos com a desigualdade extrema”, destaca que a desigualdade dificulta o crescimento econômico, corrompe a política, limita as oportunidades e alimenta a instabilidade, enquanto que exacerba a discriminação, especialmente contra as mulheres.

A crescente desigualdade poderá causar um retrocesso de décadas na luta contra a pobreza. Só na América Latina e Caribe, o número de ricos que acumulam mais de 1 bilhão de dólares cresceu em 38% de 2012 a 2013. Em nenhuma outra região do mundo, esse grupo subiu tanto.

O informe revela ainda que apenas entre 2013 e 2014 as 85 pessoas mais ricas do Planeta – que possuem a mesma riqueza da metade mais pobre da população mundial – aumentaram seu patrimônio em 668 milhões de dólares por dia, o que equivale a quase meio milhão de dólares a cada minuto.

De acordo com a Oxfam, desde o Fundo Monetário Internacional até o Papa Francisco, passando pelo presidente estadunidense, Barack Obama, e o Fórum Econômico Mundial, cada vez mais existe um consenso de que a desigualdade é um dos maiores desafios do tempo atual e não combatê-la aprofunda os problemas econômicos e sociais. Apesar de todas essas advertências, não são tomadas medidas concretas. “Essa falta de ação por parte dos governos é inaceitável, mais ainda no caso da América Latina e Caribe, que continua sendo a região mais desigual do Planeta”, salienta a entidade.

Com seu novo informe, respaldado pelo ex-secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU) Kofi Annan e o economista Joseph Stiglitz, entre outras personalidades, a Oxfam lança uma campanha cujo objetivo é exigir aos líderes mundiais que convertam suas palavras em atos e garantam um tratamento justo para as pessoas mais pobres. Para isso, uma das ações importantes que os governos devem cumprir é frear a evasão e a sonegação fiscal de grandes empresas e pessoas endinheiradas. Isso para que os Estados tenham suficientes recursos para construírem sociedades mais justas. Os ricos latino-americanos acumulam ao redor de 2 bilhões de dólares (equivalente ao PIB – Produto Interno Bruto – do Brasil) em paraísos fiscais. Segundo a Oxfam, as empresas na América Latina e Caribe registram níveis de evasão que vão de 46% no México a 65% no Equador, sem suficientes punições.

Winnie Byanyima, diretora executiva da Oxfam Internacional, afirma: “longe de fomentar o crescimento econômico, a desigualdade extrema constitui um obstáculo para a prosperidade dos habitantes do Planeta. Hoje em dia, o crescimento econômico só beneficia os mais ricos, e continuará sendo assim até que os governos ajam. Não deveríamos permitir que as doutrinas econômicas – que só buscam o beneficio em curto prazo –, ou as pessoas ricas e poderosas – que buscam apenas o benefício próprio – nos ceguem ante esses fatos”.

Pequenas ações podem frear a desigualdade

Os benefícios de pequenas ações para frear a desigualdade falam por si só. Um ligeiro aumento de 1,5% no imposto sobre a riqueza dos multimillonários de todo o mundo seria suficiente para que todas as crianças do mundo estejam na escola, bem como para a provisão de serviços básicos de saúde nos países mais pobres.

Investir em serviços públicos gratuitos também é essencial para acabar com a brecha entre as pessoas ricas e o restante. Todos os anos, 100 milhões de pessoas em todo o mundo ficam mais pobres por terem que pagar para receber assistência médica. De 2009 a 2014, pelo menos 1 milhão de mulheres morreu durante o parto, devido à falta de serviços básicos de saúde.