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Esclarecimentos sobre a Venezuela

Por Marcelo Zero | Via Café na Política

A versão que circula nos meios de comunicação do Brasil é de que o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, um dos líderes da oposição de extrema-direita na Venezuela, teria sido preso “a mando do presidente (Nicolás) Maduro”. Tratar-se-ia, portanto, conforme essa versão, de uma prisão abusiva e ilegal, feita sem nenhuma base jurídica, que demonstraria o caráter “ditatorial” do atual regime de Caracas.

Na realidade, Ledezma foi preso em virtude de ordem judicial de apreensão emanada do Tribunal 6º de Controle de Caracas. O juiz titular decretou a prisão “provisional” (preventiva) de Antonio Ledezma, em virtude de um pedido do Ministério Público da Venezuela. Os procuradores (fiscales) da 20ª nacional e 16° da Área Metropolitana de Caracas (AMC), Katherine Harington, Yeison Moreno y José Orta, imputaram ao prefeito os delitos de “conspiração e associação” para o cometimento de atos terroristas. Tais delitos estão previstos no Código Penal venezuelano e na “Ley Orgánica contra la Delincuencia Organizada y Financiamiento al Terrorismo”.

Saleh com Ledezma, Uribe e pessoal em uniforme militar

O pedido de prisão foi embasado por uma investigação desse órgão (Ministério Público da Venezuela), iniciada em março de 2014. O foco dessa investigação estava em organizações de extrema-direita que passaram a usar sistematicamente de violência, nas manifestações de rua na Venezuela. Entre esses atos de violência, incluíam-se, e se incluem, o incêndio de prédios públicos (inclusive de escolas), as chamadas “guarimbas” (violência proposital e não provocada nas manifestações) e até o uso de armas de fogo. Recorde-se que, desde o começo dos protestos pela “Salida” do presidente eleito Maduro, já morreram 43 pessoas na Venezuela, em sua maior parte chavistas.

Tal investigação começou a “esquentar” depois que dois “estudantes” venezuelanos, Lorent Gómez Saleh e Gabriel Valles, foram expulsos da Colômbia, sob a acusação de “irregularidades imigratórias”.

Na realidade, uma investigação conjunta Colômbia/Venezuela já havia mostrado que os dois haviam ido à Colômbia, supostamente sob a proteção de Álvaro Uribe, ex-presidente de extrema-direita e inimigo político do atual presidente colombiano Juan Manuel Santos, com o intuito de realizar treinamento militar e obter apoio e material bélico para atividades de desestabilização violenta do governo venezuelano.

Conforme vídeos e gravações obtidos pelas autoridades venezuelanas e colombianas, Lorent Gómez Saleh e Gabriel Valles, além de outros, discutiram a compra de coletes à prova de bala, armas de 9mm, granadas e, inclusive, explosivos C4, de alto poder de destruição. Esse material seria adquirido em Bogotá.

Além disso, as gravações mostram, segundo as autoridades venezuelanas, a intenção do grupo de explodir boates, mercados, uma ponte entre a Venezuela e a Colômbia e até mesmo uma sede regional do Consejo Nacional Electoral, o equivalente do nosso TSE.

As atividades do grupo se concentrariam no estado de Táchira, que faz divisa com a Colômbia, e envolveriam um grupo de 20 pessoas, entre venezuelanos e colombianos.

Em outras conversas gravadas, os “estudantes” teriam afirmado a necessidade de matar cerca de 20 lideranças chavistas, em San Cristóbal e Caracas, como forma de semear o pânico e desarticular o movimento chavista.

Mas o material que deu suporte ao pedido de prisão feito pelo Ministério Público da Venezuela contra Antonio Ledezma refere-se a um vídeo, no qual, segundo as autoridades venezuelanas, Gómez Saleh menciona explicitamente o prefeito de Caracas como uma “figura-chave” para a sua organização. Saleh teria dito que Ledezma era o político que mais lhe dava apoio e que, por isso, seria seu candidato à presidência, depois da derrocada do chavismo. No vídeo, Gómes Saleh teria mencionado, ainda, o apoio vital que Ledezma dava aos treinamentos que jovens recebiam em Caracas para promover ações violentas de rua. Esses treinamentos eram liderados por Ronny Navarro, também já preso pelas autoridades venezuelanas.

Tais investigações venezuelanas levaram à prisão não apenas de Ledezma, mas também a de outros indivíduos, como David Paredes, acusado, junto com seu grupo, de incendiar boates, ônibus, um cartório e até mesmo o campus de uma universidade no estado de Táchira.

Ressalte-se que não é a primeira vez que esses “estudantes” se envolvem em ações violentas. Saleh já havia sido preso anteriormente, em 2007 e 2010, por ações violentas em protestos. Na segunda vez, o juiz o soltou com a condição de que se apresentasse à Justiça a cada 21 dias. Saleh jamais respeitou esse livramento condicional.

Também não seria a primeira vez que Antonio Ledezma teria se envolvido em episódios de violência. Em 1989, ele foi nomeado pelo presidente Andrés Pérez governador do então Distrito Federal. Atribui-se a Ledezma, que tinha o comando da polícia, a ordem de disparar contra as manifestações populares ocorridas naquele ano, no episódio que ficou conhecido como o massacre do Caracazo, no qual morreram mais de 3 mil pessoas.

Pesa ainda contra Ledezma o fato incontestável de ter participado ativamente do golpe de 2002 contra Chávez.

Não bastasse, o governo da Venezuela afirma que Ledezma teria sido um dos líderes do fracassado planejamento de um golpe que deveria ter ocorrido dia 12 deste mês. Tal golpe, denominado de Operação Jericó, pretendia bombardear alvos estratégicos em Caracas com aviões Tucanos. As autoridades venezuelanas alegam que José Gustavo Arocha Pérez, um coronel aposentado, preso por sua participação no fracassado golpe deste ano, teria confessado que Ledezma participou, junto com outros líderes políticos, da discussão sobre o bombardeio de alvos públicos que ocorreria na operação militar do golpe.

As autoridades investigativas da Venezuela também mostraram que as atividades do mencionado grupo comandado por Saleh tinham como fachada duas ONGs: a Javu (Juventud Activa Venezuela Viva) e a Operación Libertad, esta última com sede em San José, Costa Rica, as quais teriam recebido apoio público de Ledezma.

Com relação ao suposto maltrato a Ledezma durante a prisão, é preciso esclarecer que o próprio advogado do prefeito de Caracas, Omar Estacio, afirmou que seu cliente não foi golpeado e não tem marcas ou lesões físicas. O advogado alega apenas que Ledezma foi “empurrado” para fora do escritório onde encontrava. Ademais, Ledezma tem recebido a visita de seu advogado, que está preparando a sua defesa, bem como de membros de sua família.

Em toda essa discussão, é preciso não perder de vista que a Venezuela vive um momento extremamente delicado. A oposição radical não reconheceu a vitória de Nicolás Maduro nas últimas eleições e apostou e aposta na desestabilização do governo, mediante protestos violentos de rua, incêndios de prédio públicos, locaute, desabastecimento e outras medidas que configuram delitos claramente tipificados nas leis daquele país.

A queda substancial (50%) dos preços do petróleo e do gás no mercado internacional aumentou exponencialmente a crise venezuelana, já que esses produtos respondem por cerca de 95% das receitas de exportação da Venezuela.

Saliente-se que, mesmo com a crise, a Venezuela, país membro pleno do Mercosul, continua a ser um dos grandes parceiros comerciais do Brasil. No ano passado, o Brasil conseguiu exportar US$ 4,6 bilhões para a Venezuela, com um saldo positivo de US$ 3,45 bilhões, saldo esse superior, inclusive ao obtido com a China (US$ 3,27 bilhões). Tal saldo positivo só foi inferior ao obtido com a Holanda (porta de entrada para a União Europeia, com seu porto de Roterdã).

Em relação à possibilidade de a Venezuela ser excluída do Mercosul, como defendem alguns, é necessário considerar que o Protocolo de Ushuaia e o Protocolo de Montevidéu (Ushuaia II) preveem que um membro só poderá sofrer sanções baseadas na cláusula democrática do bloco se houver “quebra da ordem democrática”, “ameaça de ruptura da ordem democrática” ou de “uma violação da ordem constitucional ou de qualquer situação que ponha em risco o legítimo exercício do poder e a vigência dos valores e princípios democráticos”.

Pois bem, o legítimo exercício do poder só pode ser exercido hoje, na Venezuela, por Nicolás Maduro, presidente eleito em pleito limpo. Não houve nenhuma violação da ordem constitucional, além da intentada pelas forças golpistas, e tampouco ruptura da ordem democrática.

Haverá, no entanto, efetiva ruptura da ordem democrática se os golpistas da Venezuela chegarem ao poder destituindo Maduro. Nesse caso, o Mercosul deverá cerrar fileiras para defender a democracia no continente, como fez no caso do Paraguai.

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(*) Marcelo Zero é sociólogo, especialista em relações internacionais.

Justiça da Argentina arquiva denúncia de Nisman contra Cristina Kirchner

Via Opera Mundi

Juiz Daniel Rafecas decidiu “não dar continuidade” ao caso; em comunicado, judiciário alega que indícios “estão longe de cumprir os critérios mínimos”.

A Justiça argentina rejeitou nesta quinta-feira (26/02) a denúncia apresentada pelo promotor Alberto Nisman, encontrado morto no mês passado, contra a presidente Cristina Kirchner. A presidente era acusada de ter acobertado o suposto papel do Irã em atentado contra uma entidade judaica que aconteceu em Buenos Aires e deixou 85 pessoas mortas, em 1994.

Secretário de Segurança do governo, Sergio Berni, testemunhou hoje sobre operação realizada pelas forças de segurança argentinas. EFE

Em nota, o Judiciário argentino argumentou hoje que o juiz Daniel Rafecas rejeitou abrir investigação sobre as acusações de Nisman. “A análise das evidências apresentadas junto com a denúncia inibem o início de um processo penal, porque não só deixam órfão de qualquer sustento típico o fato descrito, como também uma suposta manobra de ‘encobrimento’ e/ou ‘entorpecimento da investigação’ do atentado”, justificou o juiz.

“Os indícios colhidos estão longe de cumprir os critérios mínimos”, informou uma declaração do Centro de Informação Judicial, a agência de notícias do judiciário, de acordo com a Reuters.

Encontrado morto em seu apartamento em 18 de janeiro, Nisman, tinha acusado a chefe de Estado, o chanceler argentino, Héctor Timerman, e vários colaboradores por orquestrar um plano para livrar os suspeitos iranianos do ataque à entidade judaica Amia, que ocorreu há mais de 20 anos.

O falecimento do promotor de 51 anos aconteceu poucas horas antes do seu comparecimento ao Congresso, onde, tinha assegurado, iria fazer revelações explosivas sobre o ataque. Quem deu continuidade à investigação foi o promotor Gerardo Pollicita, que pediu a Rafecas para processar Cristina Kirchner e o resto dos acusados por Nisman no dia 13 de fevereiro.

Nisman vivia no bairro Puerto Madero, em Buenos Aires, e tinha sofisticado aparato de segurança para garantir sua integridade física. EFE

‘Prematuro’

Há mais de um mês, as circunstâncias da morte do promotor ainda não foram esclarecidas. Hoje, a fiscal encarregada em analisar o polêmico episódio, Viviana Fein, afirmou que ainda é “prematuro” descartar qualquer hipótese.

“Com as medidas periciais que tenho pendentes, é prematuro dizer se o mataram, se ele se suicidou ou se induziram essa morte. Tenho provas concretas, mas falta bastante”, declarou Fein, em entrevista publicada pelo jornal La Nación.

Suicídio ou assassinato, a morte de Alberto Nisman gerou uma onda de revolta da população no país e levou o governo a reformar o serviço secreto argentino. Em todas as ocasiões, Cristina Kirchner classificou as acusações de “absurdas”.

Também conhecida como 18F, manifestação foi apelidada de marcha dos guarda-chuvas. EFE

Obama falha o seu golpe de Estado na Venezuela

Por Thierry Meyssan | Via Voltairenet.org

O presidente Obama com o seu conselheiro para a América Latina, Ricardo Zuñiga, e a conselheira nacional de segurança, Susan Rice. © White House

Mais uma vez, a administração Obama tentou mudar pela força um regime político que lhe resiste. A 12 de fevereiro, um avião da Academi (ex-Blackwater), disfarçado como aeronave do exército venezuelano, devia bombardear o palácio presidencial e matar o presidente Nicolas Maduro. Os conspiradores tinham previsto colocar no poder a antiga deputada Maria Corina Machado e fazê-la aclamar, de imediato, por antigos presidentes latino-americanos.

O presidente Obama tinha prevenido. Na sua nova doutrina de Defesa (National Security Strategy), ele escreveu : «Nós ficaremos do lado dos cidadãos cujo exercício pleno dos direitos democráticos está em perigo, tal como é o caso dos Venezuelanos». Ora, sendo a Venezuela, desde a adoção da constituição de 1999, um dos mais democráticos Estados do mundo, esta frase deixava pressagiar o pior, no sentido de a impedir de prosseguir na sua via de independência e de redistribuição de riqueza.

Foi a 6 de fevereiro de 2015. Washington tinha acabado de terminar os preparativos para o derrube das instituições democráticas da Venezuela. O golpe de Estado tinha sido planejado para 12 de fevereiro.

A «Operação Jericó» foi supervisionada pelo Conselho Nacional de Segurança (NSC), sob a autoridade de Ricardo Zuñiga. Este «diplomata» é o neto do presidente homônimo do Partido Nacional das Honduras, que organizou os “putschs” de 1963 e de 1972 a favor do general López Arellano. Ele dirigiu a antena da CIA em Havana, (2009-11) onde recrutou agentes, e os financiou, para formar a oposição a Fidel Castro, ao mesmo tempo que negociava a retomada das relações diplomáticas com Cuba (finalmente concluída em 2014).

Como sempre, neste tipo de operação, Washington vela para não parecer implicado nos acontecimentos que orquestra. A CIA agiu através de organizações pretensamente não-governamentais para dirigir os golpistas : a National Endowment for Democracy (Contribuição Nacional para a Democracia- ndT) e as suas duas extensões, de direita (International Republican Institute) e de esquerda (National Democratic Institute), Freedom House (Casa da Liberdade), e o International Center for Non-Profit Law (Centro Internacional para Assistência Jurídica Gratuita- ndT). Por outro lado, os Estados Unidos solicitam sempre os seus aliados para sub-contratar certas partes dos golpes, neste caso, pelo menos, a Alemanha (encarregada da proteção dos cidadãos da Otan durante o golpe), o Canadá (encarregado de controlar o aeroporto internacional civil de Caracas), Israel (encarregado dos assassinatos de personalidades chavistas) e o Reino Unido (encarregado da propaganda dos “putschistas”). Por fim, mobilizam as suas redes políticas a estarem prontas ao reconhecimento dos golpistas : em Washington o senador Marco Rubio, no Chile o antigo presidente Sebastián Piñera, na Colômbia os antigos presidentes Álvaro Uribe Vélez e Andrés Pastrana, no México os antigos presidentes Felipe Calderón e Vicente Fox, em Espanha o antigo presidente do governo José María Aznar.

Para justificar o “putsch”, a Casa Branca tinha encorajado grandes companhias venezuelanas a açambarcar, mais do que a distribuir, as mercadorias de primeira necessidade. A ideia era a de provocar filas de espera diante das lojas, depois infiltrar agentes nas multidões para provocar tumultos. Na realidade se existiram, de fato, problemas de aprovisionamento, em janeiro-fevereiro, e filas de espera diante das lojas, jamais os Venezuelanos atacaram os comércios.

Para reforçar a sua atuação econoômica o presidente Obama havia assinado, a 18 de dezembro de 2014, uma lei impondo novas sanções contra a Venezuela e vários dos seus dirigentes. Oficialmente, tratava-se de sancionar as personalidades que teriam reprimido os protestos estudantis. Na realidade, desde o princípio do ano, Washington pagava uma importância —quatro vezes superior ao ordenado médio— a gangues para que eles atacassem as forças da ordem. Os pseudo-estudantes mataram, assim, 43 pessoas em alguns meses, e semearam o terror nas ruas da capital.

Antigo número 2 da ISAF no Afeganistão, o general Thomas W. Geary é hoje em dia o encarregado de Inteligência no SouthCom.

A ação militar era supervisionada pelo general Thomas W. Geary, a partir do SouthCom em Miami, e Rebecca Chavez, a partir do Pentágono, e sub-contratada ao exército privado da Academi (antiga Blackwater) ; uma sociedade atualmente administrada pelo almirante Bobby R. Inman (antigo patrão da NSA) e por John Ashcroft (antigo Attorney General—Procurador Geral— da administração Bush). Um avião Super Tucano, de matricula N314TG, comprado pela firma da Virgínia, em 2008, para o assassinato de Raul Reyes, o n°2 das Farc da Colômbia, devia ser caracterizado com um avião do exército venezuelano. Ele deveria bombardear o palácio presidencial de Miraflores e outros alvos, entre uma dezena deles pré-determinados, compreendendo o ministério da Defesa, a direção da Inteligência e a cadeia de televisão da ALBA, a TeleSur. Dado o avião estar estacionado na Colômbia, o Q.G. operacional da «Jericó» tinha sido instalado na embaixada dos Estados Unidos em Bogotá, com a participação direta do embaixador Kevin Whitaker e do seu adjunto Benjamin Ziff.

Alguns oficiais superiores, na ativa ou reformados, haviam registado, com antecedência, uma mensagem à Nação, na qual anunciavam ter tomado o poder a fim de restabelecer a ordem. Estava previsto que eles subscreveriam um plano de transição, publicado, a 12 de fevereiro, de manhã, pelo El Nacional e redigido pelo Departamento de Estado dos EUA. Um novo governo teria sido formado, dirigido pela antiga deputada Maria Corina Machado.

O golpe de Estado devia colocar no poder Maria Corina Machado. A 26 de janeiro, ela recebia, em Caracas, os seus principais cúmplices estrangeiros.

Maria Corina Machado foi a presidente da “Súmate”, a associação que organizou e perdeu o referendo revogatório contra Hugo Chávez Frias, em 2004, já com o financiamento da National Endowment for Democracy (NED) e os serviços do publicitário francês Jacques Séguéla. Apesar da sua derrota, foi recebida com toda a pompa pelo presidente George W. Bush, no Salão oval, a 31 de maio de 2005. Eleita como representante pelo Estado de Miranda, em 2011, ela tinha aparecido de súbito, a 21 de março de 2014, como chefe da delegação do Panamá na reunião da Organização dos Estados Americanos (O.E.A). Ela fora, de imediato, demitida do seu lugar de deputada por violação dos artigos 149 e 191 da Constituição (da Venezuela- ndT).

Para facilitar a coordenação do golpe, Maria Corina Machado organizou, em Caracas, a 26 de janeiro, um colóquio, « O Poder da cidadania e a Democracia atual», no qual participaram a maior parte das personalidades venezuelanas e estrangeiras implicadas.

Pouca sorte! A Inteligência Militar venezuelana vigiava as personalidades suspeitas de ter fomentado um complô, anterior, visando assassinar o presidente Maduro. Em maio último, o Procurador de Caracas acusava Maria Corina Machado, o governador Henrique Salas Römer, o ex-diplomata Diego Arria, o advogado Gustavo Tarre Birceño, o banqueiro Eligio Cedeño e o empresário Pedro M. Burelli, mas, eles negaram a autoria dos “e-mails” alegando que tinham sido falsificados pela Inteligência Militar. Ora é claro, eles estavam todos conluiados.

Ao rastrear estes conspiradores a Inteligência Militar descobriu a «Operação Jericó». Na noite de 11 de fevereiro, os principais líderes do complô, e um agente da Mossad, foram presos e a segurança aérea reforçada. Outros foram apanhados dia 12. No dia 20 as confissões obtidas permitiram deter um cúmplice, o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma.

O presidente da câmara de Caracas, Antonio Ledezma, era o agente de ligação com Israel. Viajou secretamente para Telavive, em 18 de maio de 2012, para se encontrar, lá, com Benjamin Netanyahu e Avigdor Lieberman. Ele, representava o chefe da oposição venezuelana, Henrique Capriles Radonski.

O presidente Nicolás Maduro interveio imediatamente, na televisão, para denunciar os conspiradores. Enquanto, em Washington, a porta-voz do departamento de Estado fazia rir os jornalistas, que se recordavam do golpe organizado por Obama nas Honduras, em 2009 —quanto à América Latina—, ou mais recentemente da tentativa de golpe na Macedoônia, em janeiro de 2015 —quanto ao resto do mundo—, declarando a propósito: «Estas acusações, como todas as precedentes, são ridículas. É uma prática política estabelecida de longa data, os Estados Unidos não apoiam mudanças políticas por meios não constitucionais. As mudanças políticas devem ser realizadas por meios democráticos, constitucionais, pacíficos e legais. Nós temos verificado, em várias ocasiões, que o governo venezuelano tenta desviar a atenção das suas próprias ações, acusando para isso os Estados Unidos, ou outros membros da comunidade internacional, por causa de acontecimentos no interior da Venezuela. Estes esforços refletem uma falta de seriedade por parte do governo da Venezuela, em fazer face à grave situação com a qual está confrontado».

Para os venezuelanos este golpe, falhado, coloca uma questão séria: como manter viva a sua democracia se os principais líderes da oposição estão na prisão, pelos crimes que se aprestavam a cometer contra a própria democracia? Para aqueles que pensam, erradamente, que os Estados Unidos mudaram, que não são mais uma potência imperialista, e, que agora defendem a democracia no mundo inteiro a «Operação Jericó» é um tema de reflexão inesgotável.

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Thierry Maissen é intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

A “Marcha do Silêncio” ficou pequena

Por Comunicado de Imprensa do Nuevo Mas | Via Correio da Cidadania

Terminou a marcha convocada pra 18 de fevereiro, a um mês da morte do fiscal da República Alberto Nisman. A primeira coisa que se pode dizer é que os fiscais e os políticos opositores convocadores, mais Jose Piumato (secretário geral do Sindicato dos Empregados do Judiciário) e a multimídia, como a TN e a CNN em nível internacional, não conseguiram transpor a habitual composição social dos “panelaços” da burguesia e das classes médias altas. Não se tratou de uma marcha multitudinária e nem popular. O centro de gravidade da marcha esteve marcado pelo pessoal hierárquico do Poder Judicial, em uma assistência que ficou pequena em relação às ambições dos organizadores.

Um número realista sobre a participação é que estiveram presentes cerca de 100 mil pessoas, não mais. Não se compara com o panelaço de novembro de 2012, que encheu não só a Praça de Maio, mas todo o entorno do Obelisco, pela imensa Avenida 9 de Julho.

A realidade, portanto, é que a mobilização não conseguiu transpor outras camadas sociais, ou seja, chegar aos setores populares. Tampouco no interior do país a marcha foi massiva. Houve importantes concentrações, mas não se viveu nenhum panelaço histórico.

Os organizadores, quiçá, se protegem atrás da chuva que atingiu a cidade de Buenos Aires. Mas isto não explica o porquê de no interior tampouco chegar a ser massiva como se esperava. Outro argumento é que estamos ainda nos meses de verão. Mas esta justificativa não resiste à análise, porque os grandes eventos históricos não respeitam o calendário.

Talvez, a razão mais profunda de o movimento ter ficado pequeno seja a limitação do programa que encarna. Os lemas da “marcha do silêncio” cantados pelos manifestantes eram “justiça”, “somos todos Nisman”, “presentes”, e estrofes do hino nacional argentino. Isto não é suficiente para ir mais além das classes médias altas. Nem ao menos para iniciar a “revolução das classes médias”, que segundo Elisa Carrió havia começado.

Outro problema da mobilização foi sua composição geracional: de maneira mais marcada do que nos panelaços, a média de idade foi muito alta, entre 50 e 60 anos, ou talvez pouco menos. Não apenas não houve a participação de setores populares como menos ainda de trabalhadores. Tampouco participaram os jovens, salvo no final da manifestação e de maneira isolada.

A realidade, portanto, é de que o governo teve certo êxito na sua política de polarização a respeito da marcha.

De um lado, estão a pauta abstrata de “República” e a defesa corporativa de uma suposta “independência” do Poder Judiciário. Poder este que é um dos mais oligárquicos, antidemocráticos e atrelados ao passado da ditadura militar.

Do outro lado, está o governo kirchnerista, que se apresenta reivindicando as “conquistas” da última década, como a superação do desemprego de massas. Algo que, na realidade, foi subproduto da rebelião popular de 2001, sob pena de que a Argentina capitalista terminasse explodindo pelos ares.

Mas também temos de advertir que vivemos um fim de ciclo cujo conteúdo massivo é a raiva ao governo Kirchner entre amplos setores populares e de trabalhadores, por conta da precarização das condições de vida: queda do salário real, tendência de aumento do desemprego, imposto sobre o salário e outras reivindicações populares. Contudo, estes sentimentos reais não alimentaram a marcha do dia 18 de fevereiro, entre outros motivos porque essa convocatória não levava em conta, como assinalamos, nenhum apelo ou problema operário e popular.

A situação em torno do caso Nisman colocou uma crise global, onde meteram os dedos setores do imperialismo ianque e do sionismo internacional, em concomitância com a reacionária islamofobia que pregam mundialmente. Mas isto parece não ser suficiente para gerar uma mobilização da sociedade em seu conjunto. O programa reacionário da “República”, abstrato e de reivindicações supostamente “democráticas”, mas de conteúdo igualmente retrógrado, de “fortalecer as instituições existentes”, não comoveu setores mais amplos.

Isto deixa um ensinamento, também, àqueles setores da esquerda que vêm levando adiante uma política “seguidora” dos mandos e desmandos da oposição de direita, como é o caso do Partido Obrero, líder indiscutível da FIT (Frente de Esquerda dos Trabalhadores).

A saída para se levantar à esquerda deve ser independente de todo bando patronal. Para acabar com a impunidade em casos como o atentado à AMIA (Associação Mutual Israelita-Argentina), em 1994, é preciso pautar uma comissão investigadora independente; também há que se pressionar pela dissolução efetiva da ex-SIDE (Secretaria de Inteligência de Estado), e não a sua substituição por um novo mecanismo de inteligência, como a AFI. Ao mesmo tempo, o Poder Judiciário deve ser reformulado de cima a baixo, a fim de liquidar seu caráter de corporação oligárquica.

Porém, mesmo tudo isso não basta. Frente a uma crise que aqui não termina, pois é global, cuja “dialética” seguirá sendo dada pelos golpes e contragolpes no lodo da política patronal, é necessária uma saída realmente democrática: uma Assembleia Constituinte Soberana. Uma saída que combine o apelo contra a impunidade e a luta contra o caráter antidemocrático deste Estado patronal, e sua “democracia” dos ricos, com as reivindicações mais sentidas dos trabalhadores e dos setores populares.

Porque o que está em crise é o ordenamento econômico, social e político do conjunto da Argentina: um ordenamento que só poderá realmente ser mudado pelas mobilizações dos trabalhadores que sejam independentes de ambos os bandos das classes superiores e do imperialismo. Isso é o que tem de ser discutido neste final de ciclo do kirchnerismo.

É como se a Argentina tivesse voltado para visão de 1960, diz Mujica sobre integração regional

Via Opera Mundi

“O que a Argentina fizer ou não fizer vai incidir no rumo que o Brasil toma”, afirmou presidente uruguaio, que está no fim do mandato.

Mujica diz que Argentina parece ter “retrocedido” para uma visão de 1960. Agência Efe

“A integração precisa uma liderança, e essa liderança se chama Brasil, mas a Argentina teria que acompanhar, e não acompanha nem um c…, pelo contrário, é como se a Argentina tivesse retrocedido para uma visão de 1960″, criticou duramente o presidente uruguaio.

A poucos dias de deixar o governo do país, Mujica analisou a situação atual do processo de integração regional encarnado em organismos como o Mercosul e a Unasul e considerou que existe “um grande desafio pela frente”.

O presidente do Uruguai também afirmou que os países mais integracionistas da região latino-americana são os “menores”, por “necessidade”.

Mujica questionou o papel que Argentina desempenha neste processo, ao afirmar que o país “se esquece da integração” porque “quando as coisas vão bem agarra para o outro lado”.

O chefe de Estado se referiu ao Brasil, Argentina e México como “os países determinantes da América Latina”, mas ressaltou que seus dirigentes “falam e assumem um discurso integracionista, mas do ponto de vista prático, estão intrometidos até as orelhas nas contradições do Estado nacional”.

“A Argentina termina sendo determinante em tudo. O que a Argentina fizer ou não fizer vai incidir no rumo que o Brasil toma”, considerou Mujica.

“Se não encontramos mecanismos que vão nos integrando, que possam nos dar uma presença internacional de peso, vamos continuar como folhas soltas no vento”, acrescentou.

Após cinco anos de governo, Mujica deixará o poder em 1º de março. Em seu lugar assumirá Tabaré Vázquez, que já presidiu o Uruguai entre 2005 e 2010 e venceu o segundo turno das eleições realizadas em 30 de novembro do ano passado.

Lindberg sugere que efeito Orloff pode tornar Dilma a Cristina de amanhã

Por Renato Rovai | Via Revista Fórum

Nos anos 80 uma propaganda de vodca fez muito sucesso com o slogan: “eu sou você amanhã”. À época a expressão se tornou sinônimo de um efeito político nas relações entre Brasil e Argentina. O que iria acontecer com o Brasil, se tornava realidade primeiro na Argentina. Desde a democratização, passando por inúmeros planos econômicos e pela política de privatizações que lá foi conduzida primeiro por Menen e que aqui só se viabilizou com a posse de FHC, porque Collor não deu conta do recado, a Argentina por muito tempo antecipou o Brasil.

E nesses casos, isso sempre tinha por trás a mão grande dos interesses americanos. Hoje, o senador Lindberg (PT-RJ) traz luz novamente a essa questão ao comentar a passeata com nome bem marqueteiro, “Marcha do silêncio”, que reuniu de 100 mil a 400 mil pessoas a depender da fonte informativa, em Buenos Aires, na tarde de ontem.

Lindberg avalia que o momento político vivido por lá é de radicalização total e, no texto que segue abaixo, prevê que isso pode também vir a acontecer no Brasil. Seu alerta merece ser tratado com a responsabilidade política que o momento exige.

Passei o Carnaval com minha esposa e nossas duas pequeninas em Buenos Aires. Acabei acompanhando mais de perto a cena política. Aqui, o clima é de profunda radicalização política. A morte do promotor Nisman incendiou o país. Os conservadores e a direita argentina estão se aproveitando da crise e lançaram uma grande ofensiva para desestabilizar o governo. Quis ver de perto. Estou agora na Plaza De Mayo debaixo de muita chuva. Não tem menos de cem mil pessoas. É a marcha do silêncio convocada por promotores argentinos e apoiada pelo grupo Clarin e por todas as agremiações conservadoras e de direita do país. É o mesmo clima que querem criar em toda América Latina. Movimentos golpistas, de desestabilização democrática. Querem varrer os governos populares na América Latina. Com certeza, essa marcha vai animar o discurso golpista já encampado pelo PSDB, que teima em não reconhecer a derrota nas urnas. Temos que organizar as forças populares no Brasil para resistir a essa ofensiva. Precisamos de unidade nos movimentos sociais. Para isso, é fundamental corrigirmos rumos do nosso governo. Temos que fazer com que os mais ricos paguem a conta pelo reequilíbrio fiscal, porque é o justo a se fazer. Isso nos coloca um discurso de ofensiva e de demarcação de campo. Nós surgimos para defender o povo mais pobre, os trabalhadores do Brasil. E isso fizemos nesses 12 anos. Amanhã, escreverei com mais detalhes sobre a situação argentina. A marcha está no fim e quero ver o discurso de encerramento.

O petróleo, a hegemonia e a distribuição do poder

Por Rennan Martins | Vila Velha, 18/02/2015

A ordem global unipolar, irradiada desde Washington e possibilitada após a queda da URSS em 1991, chega a nossos dias seriamente debilitada, o que por sinal comprova a falsidade da pretensiosa tese de Fukuyama, postulante do fim da história.

As cada vez mais recorrentes crises financeiras provocadas por um capitalismo altamente desregulado, conjugadas a crises sociais decorrentes de desastrosos planos de liberalização e austeridade, somam-se as crises humanitária e ambiental, frutos, em seu tempo, das guerras expansoras de mercado e da superexploração de recursos naturais, necessária num sistema onde a lógica predominante é a do crescimento infinito.

Os desmandos e arbitrariedades de uma potência que instrumentaliza os conceitos de democracia e direitos humanos objetivando impor sistemas e governos que lhes garantam hegemonia política e econômica, aliados a negligência do vencedor que se julga incontestável, foram fértil terreno de construção de projetos políticos alternativos, principalmente no que se refere a América Latina e aos países em desenvolvimento de maneira geral.

Eis que estes projetos chegaram ao poder em diversas partes do mundo e iniciou-se a construção de alianças e instituições alheias as receitas ocidentais que constam no FMI e Banco Mundial. Acontecimentos emblemáticos deste movimento foram a Cúpula Celac-China e o acordo dos BRICS para a criação do Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo de Reservas Contingentes. Essas instâncias de cooperação internacional constituem verdadeiro terremoto geopolítico que atinge frontalmente o projeto de globalização encabeçado pelos EUA e União Europeia.

Um dos produtos naturais desta realocação de poder é a desdolarização da economia mundial, pois, os governos do Sul Global não mais pretendem se manter expostos a inconsequente política do FED, que exporta problemas internos, fazendo com que outros países paguem a conta de uma economia imensamente endividada. Há também uma crescente desconfiança em relação ao real valor do dólar, dado que a moeda não possui lastro e os EUA a imprimem a torto e a direito para cumprir seus compromissos.

A fuga do petrodólar causa graves preocupações a uma Casa Branca de influência declinante, que responde escalando as hostilidades, intervenções e manobras econômico-financeiras, estas com fins claramente políticos.

Desde o início de 2014 os EUA coordenam, com os eternos aliados na Arábia Saudita, a inundação do mercado de petróleo que derrubou o preço do barril em mais de 50%. Esta medida afeta diretamente regimes de alta dependência das receitas do petróleo e derivados, entre eles, não por acaso, a Rússia e a Venezuela. Outras ações desestabilizadoras se somam a campanha, inclusive em países aparentemente não envolvidos, caso do Brasil.

OTAN, Rússia e Ucrânia

A Rússia enfrenta a expansão da OTAN até sua imediata fronteira desde o golpe orquestrado que se deu na Ucrânia. Após a derrubada do avião civil voo MH17 da Malaysia Airlines, uma verdadeira operação de falsa bandeira realizada pela Junta de Kiev, obteve-se o pretexto para a imposição de sanções e histérico bombardeio midiático sobre a “agressão russa”, que curiosamente jamais mostra imagens e vídeos das supostas tropas moscovitas invadindo território ucraniano.

A operação mal esconde a intenção real de Washington, que é controlar o fluxo de gás natural russo até a Europa. O FMI anunciou há poucos dias uma “ajuda” de US$ 17,5 bilhões ao governo ucraniano presidido pelo magnata Petro Poroshenko, colaborador da CIA desde no mínimo 2006, segundo vazamentos do Wikileaks. A mais importante contrapartida para os “parceiros” ocidentais é a “reforma do setor energético”, que evidentemente privatizará o setor, entregando-o a corporações norte-americanas.

É também significativo que o secretário de Estado ianque, Johnn Kerry, tenha sido excluído das negociações do segundo acordo de cessar-fogo de Minsk, o que denota que era visto como parte não cooperante. Somado ao fato dos EUA terem anunciado o envio de 600 militares a Ucrânia para fins de treinamento das forças locais, entende-se bem quem está forçando o conflito para a via bélica.

Venezuela e a oposição cooptada

O projeto chavista/bolivariano liderado pelo presidente eleito democraticamente Nicolás Maduro é alvo de incessante intervenção estrangeira, que se materializa numa oposição altamente ligada e financiada por interesses norte-americanos. A maior jazida petroleira do mundo é venezuelana e esta é a causa concreta de tanta sanha.

No ano passado a Venezuela enfrentou violentos protestos oposicionistas que incendiaram prédios públicos, armazéns e escolas e assassinavam motoqueiros que eram atingidos no pescoço por arames farpados estendidos nos piquetes. A desonestidade da oposição ficou evidente quando descobriu-se que diversas fotos por eles divulgadas como se fossem dos confrontos locais nada mais eram que imagens retiradas de buscas na internet.

Atualmente o governo local passa por sérios problemas financeiros por conta da redução no preço do barril, o que dá abertura a mais inquietações que serão outra vez aproveitadas por interesses escusos.

Brasil, Petrobras e corrupção

Por aqui a Operação Lava-Jato expõe as entranhas do esquema de propinas instalado há muito na Petrobras e nas grandes empreiteiras. As revelações, que poderiam servir para um amplo debate sobre a reforma do sistema político e a separação mais criteriosa do setor público e privado, são distorcidas e transformadas em ataque ao regime de partilha e ao próprio governo, que bancou esta legislação e a destinação de recursos do pré-sal para a educação.

A mídia brasileira, que segundo o professor Nilson Lage é “coordenada desde Miami pela Associação Interamericana de Imprensa”, pinta a baixa das ações da estatal como fruto do esquema de corrupção descoberto e não pela queda geral do setor causada pela sobreoferta do mercado de petróleo. O nível de enviesamento do noticiário e consequente alienação dos cidadãos é tão preocupante que muitos chegam a ridicularizar os que falam de interesses estrangeiros intervindo na Petrobras, esquecendo que há poucos meses descobriu-se o esquema de espionagem da National Security Agency à estatal. Enquanto isso, a Petrobras se torna a maior produtora de petróleo entre as empresas de capital aberto, descobre novas reservas e é premiada por conta das tecnologias de ponta que desenvolve.

O sucesso inegável da empresa é escondido pelos veículos submissos e cobiçado pelo capital internacional, que se satisfaz com as difamações e inverdades difundidas enquanto atua pelo lobby para primeiramente quebrar o monopólio de operações da estatal no país e em seguida acumular forças para privatizá-la, culminando no total controle dos mais de 80 bilhões de barris do pré-sal.

O desafio do tempo

O fator chave desta ofensiva é que a estratégia de manter a superprodução petroleira e o baixo preço do barril não pode ser mantida indefinidamente por conta dos efeitos colaterais que lhe são inerentes. Os atuais preços inviabilizam a exploração do petróleo não convencional – que é a aposta norte-americana para a independência energética – e atingem a saúde das finanças sauditas. Ou seja, Washington sabe que essa guerra econômica possui prazo, sob pena de arruinar setores chaves da economia nacional e enfraquecer a Arábia Saudita, parceiros fundamentais no que se refere a manutenção do dólar como moeda padrão para transações de petróleo e derivados.

A conjuntura é, portanto, de aumento da agressividade ianque frente aos que divergem das regras do “livre” mercado (livre somente se manipulado pelos próprios), e ainda mais hostilidade e ingerência aos que ousam negociar petróleo em moedas que não o dólar.

As nações atingidas recorrem, por sua vez, ao apoio da China por meio de empréstimos e aumento de comércio entre as partes. A Venezuela já obteve ajuda financeira de Pequim, enquanto a integração econômica sino-russa se dá em velocidade crescente. No entanto, a atuação chinesa não se trata de solidariedade, os estrategistas chineses têm interesse em substituir o dólar, substituindo-o por um yuan lastreado em ouro, e sabem ainda que se derrubado o governo russo, os próximos a serem submetidos a “disciplina” são eles.

Depreende-se deste quadro a inevitabilidade da ascensão de uma ordem global multipolar, a qual é adiada de todas as formas por um império declinante em influência política e econômica, mas, ainda assim, a mais ameaçadora força militar planetária. A integração e cooperação entre os países do Sul Global terminará por isolar os EUA, mais cedo ou mais tarde, e então entraremos numa era em que o poder estará distribuído com maior equidade, abrindo novas possibilidades de organização econômica e social.