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Diálogos Desenvolvimentistas: A ditadura foi nacionalista ou subserviente?

Os ex-presidentes Médici (Brasil) e Nixon (EUA)

Foi enviado ao grupo de discussão dos Desenvolvimentistas um texto assinado pelo General Olympio Mourão Filho que testemunha a visão dos militares sobre o golpe de Estado que perpetraram contra o país em 64, mergulhando-nos numa ditadura de 21 anos.

De confusa visão, o general fala sobre uma suposta defesa do nacional ao mesmo tempo que esquece da interferência decisiva dos EUA neste episódio histórico. Afinal, os militares tinham um projeto nacional ou foram serviçais do império norteamericano?

Confira o debate:

General Olympio Mourão Filho – Porque a verdade é que alguns demônios andaram soltos neste país, enquanto a maioria desta Nação estava entocada, apavorada, os chefes militares prontos a se deixarem dominar, contanto que continuassem a viver, viver de qualquer maneira, sem coragem de arriscar as carreiras. Os pobres continuando pobres. A classe média e os ricos podendo morar e comer três vezes ou mais por dia. Os políticos em condições de aderir, permanecendo em sua profissão, maldita profissão.

Os chefes militares, tolhidos por um falso legalismo, esperando que o Chefe do Executivo lhes dessem maiores motivos para a reação, imobilizados, atônitos e impermeáveis à compreensão dos fatos iniciados com o plebiscito e completados com o comício do dia 13 de março, surdos ao verdadeiro clamor de medo vindo de toda a Nação. Ainda mesmo depois dos deploráveis incidentes na Marinha, que estava ameaçada de destruição, havia chefe militar com a esperança vã de que o Chefe do Executivo recuasse, quando ele já não mais podia fazê-lo.

Todos queriam viver, eis o problema. Eis o segredo do aparente sucesso dos demônios soltos no país. Minoria audaciosa que sabia usar os meios de que dispunham e que eram os máximos, oriundos desta maldita forma de governo que é o Presidencialismo.

Ponha-se na Presidência qualquer medíocre, louco ou semi-analfabeto e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará a sua volta, brandindo o elogio como arma, convencendo-o de que é um gênio político e um grande homem, de que tudo quanto faz está certo.

Em pouco tempo transforma-se um ignorante em sábio, um louco em gênio equilibrado, um primário em estadista.

E um homem nessa posição, empunhando nas mãos as rédeas de um poder praticamente sem limites, embriagado pela bajulação, transforma-se num monstro perigoso.

Enquanto esse monstro é dirigido e explorado apenas pela lisonja, bajulado pela corte, a Nação sofre prejuízos de monta, é verdade, mas, apenas danos materiais em sua maioria e morais alguns.

Quando, porém, sua roda é formada ou dominada por um bando refece de demônios, nesse momento a Nação corre os mais sérios perigos.

Esta era a conjuntura do perigo e do terror na qual viveu o Brasil de 1962 a 1964.

Adriano Benayon – Os governos militares tinham um projeto que imaginavam ser nacional, o qual explicitamente afirmava o objetivo de fortalecer o poder nacional. Mas era um projeto incoerente, inconsistente, porque se fundamentava ideologicamente na ‘aliança’ com os EUA, motivada por visão obnubilada pela suposta ameaça comunista, devidamente magnificada desde a ‘intentona’ de 1935. O projeto ‘nacional’ era inconsistente, porque não é possível fortalecer o poder nacional, enquanto se subsidia as empresas transnacionais para se apoderarem da indústria do País. Um dos resultados do fracasso de tal projeto é a dívida externa, que resultou das transferências feitas pelas transnacionais para o exterior. Não menos fatídico: a crescente inviabilização do desenvolvimento de tecnologias no País a serviço do País, pois asfixiou-se as empresas locais, retirando-lhes o solo e os nutrientes, que são o mercado. Em suma, o objetivo proclamado de desenvolver o País teve como resultado enfraquecê-lo, torná-lo impotente.

Milton Saldanha – Vale lembrar que os Estados Unidos sofreram duas grandes derrotas, no Vietnam e com a perda do seu bordel que era Cuba. Então criaram uma geopolítica de financiar e fomentar golpes “preventivos” na América Latina, para resguardar seu quintal. Houve um momento em que apenas cinco países não viviam sob ditaduras. Eram todas sanguinárias, com tortura e assassinatos. E todas tinham a mesma justificativa: combater o comunismo. Havia no Brasil uma esquerda militar, minoritária, mas real e disposta a lutar. Se tivesse ocorrido resistência a derrota dos legalistas seria inevitável, inclusive com a intervenção militar norte-americana, que trazia fuzileiros na Operação Brother Sam. Depois os fascistas teriam feito uma caça aos esquerdistas, de casa em casa, jogando o país num banho de sangue jamais visto, e talvez pior do que aconteceu no Chile. A propósito, sobre o Chile falta muito a ser revelado. Foi menos mal o golpe vencer sem luta, mesmo tendo jogado o Brasil em 21 anos de atraso cultural, ao mesmo tempo em que militares sonhavam com um projeto de potência militar, com a Engesa, pesquisa de bomba atômica, Angra, submarino atômico, etc. Além da base de Alcântara, que os gringos explodiram numa sabotagem nunca investigada. O projeto não foi em frente por falta de grana e tecnologia. A sociedade civil nunca foi convidada a discutir se queria isso. Tudo desabou de vez com a democratização, que passou a priorizar, ainda que de forma paliativa, o social. O fim da Guerra Fria e o começo da globalização mudou o cenário completamente. Só idiotas e espertalhões ainda acham que regime militar seria solução.

Tania Faillace – O perigo na ótica daquele grupo militar (não foi unânime essa ótica, tanto que os militares democratas ou de esquerda foram os primeiros a serem punidos e degradados na carreira), era o eventual perigo comunista.

Mas, como categoria profissional, que lhes interessava o perigo comunista ou o perigo fascista (o que realizaram)? Não perderiam o emprego, se continuassem a cumprir com seus deveres constitucionais. A troco de que santo defender os interesses do poder econômico, e mais ainda, do poder econômico imperialista, de fora do País?

Sim, alguns militares “forraram o poncho” como se diz no RS, e fundaram montepios, e uma série de empresas semi-fantasmas, que quebraram mais ou menos rapidamente, deixando a clientela a ver navios.

Mas como isso justificaria a traição à própria nacionalidade?

Mistérios ainda não bem decifrados, a menos que vocações ideológicas na linha fascista estivessem sendo embaladas pelas chefias.

Posteriormente, vários desses mesmos militares fizeram sua auto-crítica e justamente no governo FHC, quando se tornou evidente ser esse governo um agente do imperialismo anglosaxão.

Eis porque esse mesmo poder anglosaxão trocou de parceiros no meio do caminho: a casta militar não aceitava um segundo lugar na proposta dos gringos, queria protagonismo e ser representante de um país pujante e não de uma nova colônia. Perdeu espaço quando fracassou seu projeto, embalados como estavam nas “idéias” enganosas dos imperiais, cairam em todas as armadilhas econômico-desenvolvimentistas que lhes sugeriram, inclusive a ciranda financeira.

Bom, estamos num outro momento, mas que repete alguns modismos clássicos que nós velhos reconhecemos – a ameaça subjacente de guerra explícita, que levou Goulart a renunciar prematuramente, e que hoje espera obrigar a atual presidente a fazer o mesmo.

A América Latina e a nova ofensiva imperial: Entrevista com FC Leite Filho

Por Rennan Martins | Brasília, 30/03/2015

O final da década de 90 e início do século XXI na América Latina foi marcado pela ascensão de governos progressistas, em maior ou menor grau, em diversos países. Dedicados a construção de uma alternativa a doutrina neoliberal imposta pelo império de Washington, o fato é que conseguiram imprimir nova direção ao continente com políticas que favoreceram principalmente os cidadãos mais pobres.

Absorto em outras questões e julgando ter conseguido impor uma ordem unipolar ao mundo, os EUA se depararam com um movimento político pouco disposto a ceder a seus caprichos. O fortalecimento de instituições multilaterais como Mercosul, Alba e Unasul impulsionou a integração latino-americana que por sua vez isolou Washington em diversas frentes, como no caso de Cuba em que se viu obrigado a mudar minimamente sua política por conta do total descrédito em que caíram.

No entanto, a vocação de uma potência hegemônica, ainda que declinante, tornou a se manifestar e agora os EUA inauguraram nova rodada de hostilidades contra a América Latina, como no caso em que declarou ser a Venezuela uma ameaça a sua segurança nacional, decretando inclusive sanções contra alguns cidadãos do país bolivariano. A aprovação do aumento de tropas no Peru e a ressurgimento da IV frota evidenciam a guinada norte-americana no sentido de pôr ordem no que consideram “seu quintal”.

É diante desse panorama que o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou FC Leite Filho, jornalista e editor do blog Café na Política. FC nos adverte que a postura beligerante dos EUA se dá por sua ambição de dominar mercados e recursos. Discorre sobre as lideranças que impulsionaram a integração latino-americana e sobre os vários acontecimentos recentes que desestabilizaram os governos progressistas.

Confira a íntegra:

Como entender a desestabilização que alguns países da América Latina, principalmente Venezuela, Argentina e Brasil, têm sofrido? Que interesses estão por trás disso?

A integração latino-americana desatada pelo presidente Hugo Chávez, presidente da Venezuela, a partir de 1999, quando se instalou no Palácio de Miraflores, fez os países do subcontinente priorizar seus negócios entre si e não mais dependentes dos Estados Unidos e Europa. Eles começaram a trocar petróleo por frutas, gado, alimentos e a contratar empresas brasileiras, argentinas e colombianas para fazer suas pontes, estradas, metrôs, portos, petroleiros etc. Isto, naturalmente, traduziu-se em prejuízos às empresas americanas, acostumadas que estavam a ganhar automaticamente todas as licitações nesse terreno ou mesmo dispensando estas.

Há ainda o aspecto geoestratégico. A Venezuela, por exemplo, era, antes de Chávez, um protetorado dos Estados Unidos, que dominavam sua política, sua economia e, particularmente a energia, ou seja, suas imensas jazidas de petróleo e gás, consideradas as maiores do mundo. No Brasil, a descoberta do petróleo na área ,do pré-sal, cuja capacidade não foi de todo definida mas beira aí alguns bilhões de barris despertou a velha cobiça das Sete Irmãs, que hoje são em menor número, mas continuam com a mesma gula e poder. Acresça-se o fato de os Estados Unidos terem sempre atuado por aqui como donos do pedaço. Quando o coronel Vernon Walters, designado pelo presidente Kennedy, em 1962, para articular o golpe militar de 1964 no Brasil, alertou: “Não podemos perder o Brasil, porque o Brasil não é uma Cuba, o Brasil é uma China”. Já a Argentina foi ao longo da história (à exceção dos períodos Perón e Kirchner) um protetorado do capital financeiro internacional. Então, esses interesses agora se agudizaram, depois de terem sido, em parte, negligenciados em função de outras prioridades americanas no Oriente Médio e na Ásia e tendem a apelar até para a guerra militar, se preciso for, como previu o presidente Nicolás Maduro, sucessor de Chávez.

Porque ao mesmo tempo em que retoma relações com Cuba os EUA alegam ser Caracas uma ameaça a sua segurança nacional? Trata-se de política externa contraditória?

Este foi um golpe de mestre do presidente Barack Obama, para se livrar e desmoralizar a política belicista de seus rivais republicanos na política estadunidense. Obama disse que o embargo de 50 anos à Cuba não produziu nada de benéfico para os chamados interesses ocidentais. Não se deduza daí que Obama esteja sendo bonzinho. Ele visa afastar Cuba da Venezuela e do resto da América Latina e atrelá-la à política de Washington, mas Cuba, que ainda é, entranhadamente, castrista, recusa todos esses mimos e aprofunda cada vez mais seus vínculos com Maduro, pois toda a sua infraestrutura depende do petróleo venezuelano e da tecnologia do Brasil e da Argentina. Tentando se equilibrar com os falcões locais, Obama, ao mesmo tempo dá uma guinada, no que demonstra não estar nem aí para a política de boa vizinhança, decreta as sanções contra Caracas quase que ao mesmo tempo que tentava aproximar-se de Cuba.

Quais reais motivos movem Washington a escalar as hostilidades contra Venezuela e seu governo bolivariano?

A pergunta está em parte respondida no primeiro item. Mas Washington, na realidade, sempre hostilizou a política chavista. Para isso, utilizou todo o seu aparato, que vai das sabotagens econômicas e das várias tentativas de golpe, à mobilização da mídia internacional para desmonizar e desmoralizar o bolivarianismo. Observe o noticiário da grande imprensa no Brasil, na Argentina, na Colômbia e até na Espanha. Eles acharam que derrubariam fácil o Maduro, em quem viam um líder fraco e mesmo trapalhão. Mas Maduro é um quadro importante. Ele teceu, durante seis anos como chanceler de Chávez, toda a teia latino-americana, chinesa e árabe, pela qual certos golpes, como a queda do preço do petróleo não mais afeta de morte o regime. Nicolas Maduro ainda revelou ser um bom ganhador de eleições, mais até do que o Chávez, apesar de não ter o carisma deste. Outro ponto para ele foi o de neutralizar a mídia local, coisa que o Chávez tampouco conseguiu. Finalmente, seria interessante observar o que está acontecendo na Espanha. O movimento popular Podemos, de Pablo Iglesias, credencia-se para ter importante papel nas eleições nacionais de 20 de dezembro, podendo até fazer o primeiro-ministro, se não agora, pelo menos nos próximos anos. Ironia das ironias: o Podemos tem suas raízes no bolivarianismo e na experiência e defesa dos governos populares de Chávez, Evo Moralez, Kirchner, Lula, Daniel Ortega e Rafael Correa.

Sobre a Argentina. Qual foi o desfecho do conflito com os fundos abutres? Ele teve alguma influência nas relações bilaterais Buenos Aires – Washington?

Os fundos abutres quiseram quebrar a Argentina com aquela conversa do juiz Griesa, de Nova York. Chegaram mesmo a declarar o default do país. Cristina resistiu bravamente, como tem resistido e ganhado todas as batalhas com a mídia de lá, dominada pelo Grupo Clarín. Ela simplesmente não pagou cerca de 1,3 bi de dólares, por uns títulos podres que os abutres haviam comprado por uma bagatela dos enganados pelo corralito. Cristina simplesmente afirmou, quando revidou o achaque dos buitres (é assim como eles são chamados em Buenos Aires): “Amanhã vai ser um dia normal e tudo vai continuar como nos outros dias. E foi o que aconteceu. A Argentina não quebrou e sua economia está bem melhor do que a nossa. Nós precisamos de líderes deste talante, que não se dobram, pelo contrário, vão em frente, com a soberania, a independência e, principalmente, os interesses de nossos países.

O caso Nísman permanece sem desfecho. É possível que o governo argentino tenha envolvimento na morte do promotor? Quem se beneficiou com sua morte?

Este caso é outra crise fabricada pela mídia, tendo a auxiliá-las os fundos buitres, que agem como irmãs siamesas. O promotor Alberto Nisman dominou a cena midiática durante quase dez anos como pretenso defensor das vítimas do atentado à associação israelita AMIA, que redundou em 85 mortos e quase 300 feridos. Não fez nada pelas vítimas nem pelas investigações do caso, que até hoje, depois de 21 anos, não saíram da estaca zero. Era também um homem muito ligado à embaixada dos Estados Unidos, em Buenos Aires, a quem submetia seus relatórios, antes de encaminhar às autoridades (isto foi comprovado pelos documentos da embaixada vazados pelo Wikileaks). Depois, ele se envolveu numa denúncia sem pé nem cabeça contra a presidenta Cristina Kirchner. Seu papel inseria-se num plano diabólico, com base numa espécie de megafactoide, que queria aproveitar a comoção do Charlie Hebdo com aqueles milhões que percorreram as ruas da França, para transplantá-la para Buenos Aires. Era algo megalomaníaco, mas que poderia funcionar se se defrontasse com uma presidenta débil. O objetivo era derrocar a presidenta Cristina Kirchner ou, no mínimo, abalar a performance de seu partido na eleição presidencial do próximo 20 de outubro. O promotor acabou pagando com a morte, não se sabe se por suicídio unilateral ou induzido ou mesmo assassinado, pois a causa envolve interesses imperscrutáveis da CIA, do Mossad israelense e do submundo dos serviços secretos da Argentina. Como se sabe, até o incidente Nisman, esses serviços eram dominados por egressos da ditadura. Cristina aproveitou a oportunidade para fazer uma limpa no organismo e depois foi inocentada da denúncia mal-ajambrada de Nisman. Aquilo que era um golpe em seu prestígio político acabou por alça-la ainda mais na simpatia dos argentinos. Segundo as últimas pesquisas, seu prestígio situa-se acima dos 45%.

De que forma EUA e União Europeia encaram a ascensão de instâncias multilaterais como BRICS, Unasul e ALBA? Preocupa-lhes o fato de não estarem sobre sua tutela?

Estas instituições é que têm garantido a sobrevivência dos governos populares, na medida que previnem golpes e sustentam suas economias e políticas sociais dos ataques especulativos, das guerras econômicas e da sabotagem midiática. O BRICs, que chegou a ser esnobado como “piada” pelos doutos de Washington e Londres, é que está suprindo, com empréstimos a longo prazo, os prejuízos com a queda do petróleo, os quais afetaram dramaticamente a Venezuela e mais ainda a Rússia. É outro sinal de independência em relação aos antigos mercados cativos desses dois centros financeiros e uma prova de que o mundo multipolar e não mais unipolar, como querem os americanos, é possível. O plano dos mercados era baixar o preço do petróleo a menos de 30 dólares, mas agora, com essa crise do Yemen, grande país exportador do ouro negro e passagem dos navios petroleiros do mundo árabe, tudo pode acontecer, inclusive o petróleo voltar a subir.

Como o Brasil se insere nesse contexto de formação de uma ordem mundial multipolar? Quais os cuidados e contribuições que o Brasil pode adotar nesse caminho?

O Brasil avançou muito neste papel durante o governo Lula. A Dilma travou um pouco este processo, no primeiro governo, mas agora parece empenhada em participar mais, tanto da Unasul como dos BRICs. Seu apoio à Venezuela, neste momento, é crucial para a sobrevivência dessa política de integração dos emergentes. Seja como for, o Brasil, pelo peso de sua economia e amplitude de seu território, além da afinidade de que desfruta com os hermanos latino-americanos, é uma peça decisiva nesse xadrez.

O entendimento e cooperação entre os Estados latino-americanos está acontecendo? A quantas anda o processo?

A integração ainda está no seu estágio inicial. A morte de Chávez e o recolhimento do Lula diminuíram um pouco a seu vigor. Chávez e Lula eram dois caixeiros-viajantes que, com sua presença física constante nos diversos países, impulsionavam esse processo. Mas como atingiu uma dinâmica própria, creio que deve progredir, ainda que em ritmo mais lento. Vamos ver a eleição na Argentina. Se a Cristina fizer seu sucessor, ela terá mais tempo de substituir o Hugo Chávez nesta articulação. Essa mulher tem muita garra e é corajuda, como dizem nossos hermanos.

Quanto aos milhares de marines autorizados a desembarcar no Peru. Eles representam ameaça à América do Sul? Que objetivos esse contingente possui?

O Peru está como o México, super atrelados aos americanos. Seu presidente, Olanta Humala, que era chavista além de militar, entregou-se tal modo ao sistema de dominação americano-europeu, que privatizou tudo, desde a Petroperu até o Banco de la Nación. Agora, ele abre as portas para os soldados estadunidenses instalarem bases e cruzarem o território, sem necessidade sequer de apresentar documento. Mas isto também tem seus influxos. Você se lembra das sete bases que os Estados Unidos queriam instalar na Colômbia. Onde estão essas bases. Isto é mais para nos infundir medo.

Quais as perspectivas diante desse quadro geopolítico internacional? Que fazer para deter a investida contra os governos não-alinhados da América Latina?

Eu só espero que a Dilma não dê uma de João Goulart, querendo se compor com a direita. O Brizola aconselhou-o muito as e voltar para as suas bases. Jango era, por natureza, um tipo conciliador, que ouvia o embaixador americano, Lincoln Gordon, o golpista-mor, digamos assim. Por isso, foi atropelado pelo golpe de 64. É claro que a situação é outra e a Dilma tem uma tradição de enfrentamento. O perigo no momento é midiático. A matriz de opinião da mídia consegue se infiltrar na sociedade e impor sua narrativa. Você quer um exemplo? Outro dia fui falar para uma amiga dos riscos que estamos sofrendo com uma nova privataria do tipo FHC, que, como você sabe, rebentou no México e Peru. Sabe o que ela me respondeu? “Ora, mas não é a Dilma que está querendo privatizara a Caixa Econômica?” E eu fiquei sem argumentos. Como é que a Dilma entra numa dessas. Como é que ela coloca contra si 200 mil funcionários da Caixa, que seriam seus potenciais defensores e aliados na luta contra o golpismo? Prefiro crer que isso seja boato. Mas sou um otimista e acho que uma mobilização maciça das forças progressistas, inclusive partindo da internet, pode ganhar as ruas e reverter esta arremetida golpista. O Lula tampouco pode continuar calado e o Cid Gomes parece estar surgindo aí para abrir um flanco na classe média.

EUA eliminam empresas, indivíduos e barcos de Cuba de lista de sanções por terrorismo

Via Opera Mundi

Retirada das sanções não significa, no entanto, que Cuba saiu da relação de Estados patrocinadores do terrorismo elaborada pelo Departamento de Estado.

O governo dos Estados Unidos retirou nesta terça-feira (24/03) as sanções contra 45 companhias, indivíduos e embarcações de Cuba por o que Washington chamava de “apoio ao terrorismo ou ao narcotráfico”, em um novo passo para suavizar as restrições à economia cubana, segundo o processo de aproximação bilateral. Foram eliminados da lista seis indivíduos, 28 entidades e 11 embarcações.

A retirada das sanções não significa, no entanto, que Cuba saiu da relação de Estados patrocinadores do terrorismo elaborada pelo Departamento de Estado, medida que o governo cubano reivindica e que os Estados Unidos ainda estão avaliando. A inclusão de Cuba nesta relação é um dos argumentos que Washington utiliza para recrudescer a política de sanções econômicas e de perseguição internacional dos ativos da ilha e é parte do bloqueio econômico imposto ao país há mais de meio século.

Retomada das negociações gerou expectativas sobre futuro, sobretudo econômico, de Cuba. Agência Efe

Várias das empresas têm relação com a indústria turística de Cuba, como a Caribbean Happy Lines e a agência de viagens Guama; ou com atividades pesqueiras e navais, como a Abastecedora Naval e Industrial e as Pescados e Mariscos do Panamá. Mais de 30 dos 45 indivíduos, entidades e navios retirados da lista são registrados em território panamenho, mesmo procedendo de Cuba.

As sanções impediam que indivíduos ou entidades americanas realizassem transações financeiras com as pessoas e empresas afetadas, e congelavam qualquer ativo que pudessem ter sob jurisdição americana.

A retirada faz parte de “uma revisão interna e está de acordo com a linha política do presidente (Barack Obama) em relação a Cuba”, afirmou à Efe o porta-voz do Tesouro, que pediu o anonimato.

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(*) Com Efe

Cristina resiste contra golpistas apoiados pelos EUA

Por Dario Pignotti, de Buenos Aires | Via Pátria Latina

O que se viu na Avenida de Maio tem muita semelhança com as manifestações da Avenida Paulista, composta por muitos viúvos e viúvas da ditadura militar.

Um verão portenho asfixiante. Dias antes de completar 39 anos do golpe de Estado na Argentina, milhares de pessoas participaram de uma marcha contra a presidenta Cristina Fernández de Kirchner, exibindo uma atitude desestabilizadora nunca vista desde a recuperação da democracia, no começo da década de 80.

O ambiente político que impera nesses primeiros dias de março evoca a atmosfera do tango Verano Porteño, em que Piazzolla mescla uma sonoridade encrespada com uma melodia densa.

Os últimos dias de estio têm sido tórridos, com temperaturas superiores aos 30 graus, podendo alcançar os 35 graus quando alguém caminha pelas estreitas ruas do centro, próximas à Casa Rosada, o palácio de onde despacha a Chefe de Estado.

A morte do procurador Alberto Nisman, cujo corpo foi encontrado com um tiro na cabeça, é o pretexto em que se apoiam os neogolpistas interessados em incendiar o cenário.

Quando faltam 7 meses para o fim de seu segundo mandato, Cristina é objeto de uma campanha destituinte lançada pela oposição direitista e pela imprensa local, ambas respaldadas pelos principais grupos internacionais de notícias, com a CNN na vanguarda. E por trás de tudo isso, parece atuar o grande braço de Washington, interessado em fazer com que Cristina pague caro por sua aproximação com Irã, Venezuela e China.

Cristina não retrocede diante da estratégia incendiária de seus inimigos e promete enfrentá-los convocando os militantes, em boa parte os jovens, para “defender o projeto” iniciado em 2003 por seu marido, o falecido Néstor Kirchner, responsável pelo estreitamento das relações com o Brasil.

Fundamentalistas

Fanáticos, alguns inimigos do governo kirchnerista reconhecem que estão dispostos a prosseguir até um golpe branco, se com isso pudessem “defenestrar essa mulher de merda que está ocupando a Casa Rosada”, declara a senhora Beatriz Gimenez.

“Essa máfia bolivariana que está governando nosso país está acabando com tudo de bom que tivemos”, me diz uma indignadíssima Gimenez, que se apresenta como gerente de uma empresa de turismo na Avenida Santa Fe, situada no endinheirado bairro Norte, conhecido como um dos principais redutos do “anticristinismo”.

“Cristina está metida em tudo o que há de podre neste país. Eu tenho certeza de que ela mandou matar o procurador Alberto Nisman para calá-lo, foi um assassinato mafioso típico dos peronistas (seguidores do general Juan Perón). Essa gentalha tem que sair da (Casa) Rosada de qualquer jeito, porque na Argentina a maioria somos gente decente”, acrescenta.

De cabelo loiro e pele bronzeada – além de um botox que dá volume exagerado a seus lábios –, a senhora Gimenez dá por certo que o procurador Nisman “foi assassinado por gente a mando do governo”, apesar de os relatórios dos peritos da Corte Suprema não terem encontrado elementos para sustentar essa hipótese que, por ora, parece pouco crível.

As opiniões da senhora Gimenez, contaminadas pelo bombardeio de notícias falsas lançado pela imprensa tradicional, se repetem nos shoppings de alto padrão de consumo ou nos bares do aristocrático bairro da Recoleta, onde o mundo fala de política.

Espelho da Avenida Paulista

Aqui, na orla do Rio da Prata, a oposição ao kirchnerismo não emprega o termo “impeachment”, como fazem no Brasil os detratores da presidenta Dilma, mas querem que Cristina saia de qualquer modo, acusando-a pela morte do procurador Nisman – que em meados de janeiro apareceu morto com um tipo na cabeça em seu apartamento, em um episódio ainda não esclarecido, mas que poderia ter sido suicídio.

Milhares de portenhos – entre eles, a gerente Beatriz Gimenez – que participaram da passeata desestabilizadora do dia 18 de fevereiro, insultaram o governo e o grupo La Cámpora, formado por jovens quadros kirchneristas leais à mandatária e a uma gestão que culmina com os acordos estratégicos firmados com a China há um mês e com a reestatização das ferrovias, promulgada na primeira semana de março.

O que se viu na Avenida de Maio, em Buenos Aires, em fevereiro, tem muita semelhança com as manifestações da Avenida Paulista, onde senhoras bem vestidas e perfumadas escondem sua saudade pela ditadura que derrubou João Goulart em 1964.

A mobilização destituinte do mês passado que desembocou na histórica Praça de Maio foi encabeçada por um grupo de procuradores – entre os quais há vários com um passado ligado à ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983, com um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos.

Em que pese sua grande exposição, a mobilização de 18 de fevereiro não conseguiu convocar um número importante de trabalhadores organizados, nem moradores das favelas, nem jovens com menos de 25 anos, uma faixa etária na qual o kirchnerismo é forte.

Em contrapartida, o ato de respaldo ao governo, ocorrido em 1° de março, contou com a presença de uma maioria de jovens junto a quem marcharam cidadãos oriundos dos subúrbios pobres da Grande Buenos Aires.

Intromissão dos EUA e de Israel

O procurador Alberto Nisman, que era um assíduo visitante da embaixada dos EUA, segundo documentou o Wikileaks, morreu pouco depois de acusar Cristina Fernández de Kirchner, em uma entrevista exclusiva ao Grupo Clarín, de ter obstruído a investigação do atentado terrorista que matou 85 pessoas em 1994, em uma associação da comunidade judia.

Atuando como um bispo dentro do xadrez diplomático que há anos os Estados Unidos e a Argentina disputam, Nisman recebia ordens de seus chefes políticos nos Estados Unidos e, também não se descarta, em Israel.

Essa relação do fiscal morto Nisman com Washington e Tel Aviv é algo que praticamente ninguém desconhece, e é até admitida implicitamente por alguns porta-vozes da direita, como a deputada Elisa Carrió.

Com seu tom provocador, similar ao da golpista venezuelana Maria Corina Machado (amiga de Aécio Neves), a opositora Carrió recomendou ao governo que solicite apoio à CIA e denunciou uma suposta conspiração de Venezuela e Irã para semear o terror na Argentina.

É claro que o governo argentino não seguiu os conselhos da legisladora, cujas declarações extravagantes não fazem inveja às do ex-militar e deputado carioca Jair Bolsonaro.

Em 8 de março, dia Internacional da Mulher, o ministro de Relações Exteriores Héctor Timmerman declarou que seu governo segue uma política exterior “independente” e considera que não é necessário “estar muito perto” da Casa Branca.

Em entrevista ao programa “60 minutos”, do canal norte-americano CBS, o ministro disse que “Washington estava sempre pressionando” o procurador Nisman para manipular a investigação do atentado contra a associação judia em 1994, a fim de culpar o governo do Irã.

Antes de falar no “60 minutos”, o chefe da política externa portenha havia solicitado aos governos de Barack Obama e Benjamin Netaniahu que não usassem o caso Nisman para intervir na política argentina, agravando o quadro desestabilizador construído pelas forças conservadoras.

“A Argentina não tem qualquer interesse estratégico, militar ou de inteligência no Oriente Médio. E observa com preocupação como alguns Estados intervêm em outros países para resolver suas disputas geopolíticas. Meu país rechaça essas ações e solicita que elas não ocorram em território argentino”.

Essa posição do titular do Palácio San Martin, sede do ministério de Relações Exteriores, recebeu enérgicas respostas das autoridades americanas e israelenses, que insistem em culpar o Irã pela matança de 85 pessoas em 1994, em Buenos Aires.

O próprio Netaniahu reiterou sua acusação ao Irã pelo massacre ao falar no Parlamento norte-americano no começo de março, o que foi entendido como uma advertência ao governo de Cristina, que acabará em 10 de dezembro.

O mensalão de Cristina

Em várias pesquisas, Cristina, eleita duas vezes e impedida constitucionalmente de tentar um terceiro mandato, conserva uma popularidade próxima aos 40%, bastante superior à de seus adversários políticos – como Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires e homem forte do clube Boca Juniors; e Sergio Massa, um ex-funcionário do governo de Néstor Kirchner que migrou para a oposição.

Mauricio Macri e Massa possivelmente serão candidatos nas eleições presidenciais do próximo dia 15 de outubro, quando o kirchnerismo se apresentará com um postulante ainda não definido. Este terá como principal capital o respaldo da mandatária.

É nesse contexto que a estratégia conservadora se apoia no desgaste da imagem presidencial, associando-a à morte do procurador Nisman e judicializando a campanha por meio de manobras de um importante grupo de juízes e procuradores que integram o “partido judicial”, segundo definição dada por Crisina.

Embora não escondam o fato de fazerem parte da ofensiva desestabilizadora, os procuradores são tratados como próceres pela imprensa, num roteiro em que são elevados à condição de heróis nacionais por sua obsessiva perseguição ao governo – imitando o ocorrido no Brasil, com o endeusamento do ministro Joaquim Barbosa durante o processo do mensalão.

Isso explica por que a multitudinária marcha opositora de fevereiro foi encabeçada por procuradores, por trás de quem caminham, semiocultos, os dirigentes da oposição, que ainda não tem uma estratégia comum para enfrentar o kirchnerismo nas eleições de outubro.

Podemos e Chomsky

Na segunda-feira, 9 de março, quando os EUA anunciavam represálias contra a Venezuela, um grupo de jovens defendiam o governo do presidente Nicolás Maduro em um café da rua Córdoba, próximo ao belíssimo Teatro Cervantes.

“Obama está tentando derrotar Maduro e Cristina ao mesmo tempo, para erradicar a chama latino-americana acendida por Kirchner, Chávez e Lula há 10 anos, quando eles sepultaram a Alca na reunião (Cúpula das Américas) de Mar del Plata”, afirma Guillermo Guisoni, um garoto de 18 anos que pretende cursar sociologia na Universidade de Buenos Aires.

Guillermo e dois amigos da mesma idade dizem que querem assistir ao Seminário Internacional pela Emancipação e a Igualdade, organizado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria do Pensamento Nacional, em que se reuniem algumas das cabeças mais prolíficas do pensamento político e da ação política. Representantes do partido espanhol Podemos, Noam Chomsky, o vice-presidente boliviano, Alvaro García Linera, Emir Sader, Ignacio Ramonet, o mexicano Cuauhtemoc Càrdenas e o italiano Gianni Vattimo estão entre os que dissertarão no Cervantes, uma joia arquitetônica construída à imagem e semelhança do Colégio San Idelfonso, na Espanha.

“Vamos chegar cedo ao Cervantes para ficar em primeiro na fila dos ingressos porque virá muita gente. E se não conseguirmos entrar, vamos ficar do lado de fora, vendo pelo telão”, conforma-se Guillermo, que em 15 de outubro votará pela primeira vez. “Em quem vai votar?”. “No candidato indicado por Cristina, é claro”, responde com segurança o garoto, enquanto seus companheiros sorriem com um gesto de aprovação.

Defendamos a Venezuela em perigo

Por Guilhermo Almeyra | Via Esquerda.net

É ridículo que a Venezuela (ou qualquer outro país latino-americano) possa constituir uma ameaça à segurança da primeira potência mundial e justifique uma emergência nacional dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos, cinicamente, preparam uma enésima aventura político-militar, desta vez contra a Venezuela. É ridículo que esta (ou qualquer outro país latino-americano) possa constituir uma ameaça à segurança da primeira potência mundial e justifique uma emergência nacional. A alegada fundamentação desta medida – existência de presos políticos, restrições à liberdade de imprensa, corrupção de funcionários públicos – é igualmente aberrante, além de prepotente e violadora das leis das nações e dos princípios das Nações Unidas. A corrupção é ampla e existe, mas não é qualitativamente diferente da existente nos países súbditos dos Estados Unidos, como o México, e é uma praga que os próprios venezuelanos podem e devem resolver. Quanto aos supostos presos políticos, estão encarcerados como golpistas ou terroristas ou por atos criminosos comprovados, e além disso a oposição antichavista controla a maioria dos jornais diários e das emissoras existentes no país e difunde as mentiras que quer.

Obama recorda a fábula de La Fontaine sobre o lobo e o cordeiro na qual a fera, que bebia água acima do cordeiro e queria comê-lo, o acusou de sujar-lhe a água e, perante os argumentos lógicos da sua vítima, respondeu: se não eras tu, foi o teu avô!, e lançou-se sobre ele.

A ameaça à Venezuela faz parte da mesma ofensiva que afeta o governo brasileiro de Dilma Rousseff e o de Cristina Fernández, na Argentina. Venezuela, Brasil e Argentina são o pilar do Mercosul e da Unasul que Washington deseja destruir porque têm uma política diferenciada da do seu Departamento de Estado. Os Estados Unidos precisam limpar e pôr em ordem o seu quintal (isto é, derrubar os governos que não sejam, como o do México, agentes servis ainda que tenham políticas capitalistas muito moderadas) para encarar com a retaguarda protegida a preparação do confronto bélico contra a Rússia e a China.

A recuperação da economia norte-americana é débil, frágil, e está ameaçada pelo aumento da crise racial e social. A União Europeia, por sua vez, sofre os efeitos do aumento do dólar, que só a mais longo prazo favorecerá as exportações alemãs, inglesas e francesas mas aumentará a crise social nos países meridionais. O retorno aos Estados Unidos das divisas antes dedicadas à especulação com o petróleo ou com as matérias primas lança gasolina no fogo nos países que exportam esses produtos (como as monarquias árabes, os BRICS, os países emergentes). Assim, enquanto Washington foi derrotado no Iraque, não consegue nada na Síria, na Líbia, no Afeganistão e na Ucrânia e perde pouco a pouco a sua hegemonia (que ainda conserva, sobretudo no plano militar).

Ainda que o capitalismo não esteja ameaçado por uma revolução socialista em nenhuma parte do mundo, está-o pelos movimentos nacionais em defesa da soberania nacional, estejam ou não cobertos por véus raciais ou religiosos, aos quais qualifica de terroristas quando o verdadeiro terrorista é quem invade, bombardeia, ameaça, sabota e mata massivamente desde há décadas. Washington, sobretudo, teme os efeitos que uma catástrofe mundial maior (bélica ou ecológica), provocada pelo lucro dos monopólios à custa de todos e de tudo, poderia ter sobre a decisão e a visão política das grandes massas.

Esse é o sentido da ameaça contra a Venezuela: preparar um possível bloqueio naval, ou bombardeamentos, ou uma invasão de mercenários a partir da Colômbia… se uma rápida contraofensiva diplomática dos países da região e um apoio a Caracas da Rússia ou de Pequim não lhe dificultar a tarefa.

Maduro não é Chávez, que tinha maior sensibilidade e abertura aos trabalhadores. É torpe, pretende lutar contra a extrema direita com o aparelho e as instituições, não enfrenta a burocracia e vê os operários e os camponeses como simples infantaria, que para ele pesa muito menos que os comandos militares, educados num pensamento verticalista e conservador, dos quais depende. Aparte os seus delírios com os pássaros, levado pela verborreia não sabe medir as consequências das suas palavras e assim dá pretextos e armas aos inimigos do processo venezuelano. O seu cesarismo, ao mesmo tempo, afasta-lhe amigos numa esquerda que não sabe distinguir entre um processo social de mudança, confuso e inédito, e a direção transitória do mesmo e é, portanto, ou chavista acrítica ou antichavista cega perante o facto de que o imperialismo ataca a Venezuela por medo do contágio a outros países sul-americanos das experiências venezuelanas de auto-organização popular e não pelas torpezas de Maduro.

Quase metade dos eleitores venezuelanos não são chavistas, e nesse setor só um grupo é pró-imperialista e fascista. Quando Maduro acusa toda a oposição de terrorismo e de servir os Estados Unidos na realidade une, quando o elementar é separar os simplesmente atrasados ou conservadores dos exploradores e agentes da CIA.

Mas os povos não se devem deixar enganar. Os inimigos de Washington não são os governos progressistas (Maduro, Fernández, Rousseff), mas os setores populares que estes ao mesmo tempo controlam, contêm, subordinam e utilizam como apoio. A ação desestabilizadora desses governos procura fazer retroceder ainda mais os trabalhadores e as suas conquistas para ter as mãos livres para aumentar a exploração e os lucros. A ameaça não vai contra Maduro, mas sim contra o nível de consciência e de organização conseguido desde há anos em alguns países a que se quer impor uma situação e um governo do tipo mexicano. É uma ameaça contra todos e além disso faz parte de um plano selvagem que desemboca numa terrível guerra para a qual desde há algum tempo os Estados Unidos se preparam.

Devemos opor-nos fortemente às tentativas destrutivas dos Estados Unidos. Os que, como o governo uruguaio e o seu vice-presidente Raúl Sendic, acham que tirarão proveito do seu vergonhoso papel de lambe-botas, devem ser repudiados porque ajudam os modernos escravizadores.

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Guilhermo Almeyra é historiador, investigador e jornalista. Doutor em Ciências Políticas (Universidade de París VIII), professor-investigador da Universidade Autónoma Metropolitana, unidade Xochimilco, do México, professor de Política Contemporânea da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autónoma do México. Jornalista do La Jornada do México.

Alba exige que EUA anule decreto contra Venezuela

Via AFP

Reunião da Alba no Palácio de Miraflores, em Caracas. AFP / Federico Parra

A Aliança Bolivariana para os Povos da América (Alba) exigiu nesta terça-feira do presidente Barack Obama a anulação do decreto que considera a situação política da Venezuela uma “ameaça incomum e extraordinária” para a segurança dos Estados Unidos.

Em declaração firmada em Caracas e lida pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a Alba exige do “governo dos Estados Unidos a derrogação da ordem executiva, que constitui uma ameaça à soberania da Venezuela”.

“A irmã República Bolivariana da Venezuela não representa ameaça para qualquer país sendo uma nação solidária que já demonstrou sua vontade de cooperar com os povos e os governos da região”, acrescenta o documento, que exige de Washington “a suspensão imediata da perseguição e da agressão” contra este país.

Imerso em uma severa crise econômica, escassez de artigos básicos, recessão e falta de divisas, o governo Maduro lidera uma ofensiva diplomática para responder às sanções impostas pelo presidente dos Estados Unidos contra seis altos militares e policiais e uma procuradora, acusados de violar direitos humanos e estar envolvidos em casos de corrupção.

A medida de Washington, que tachou a Venezuela como “uma ameaça extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”, lançada em 9 de março, já havia gerado manifestações de apoio por parte da Unasul, do Movimento de Países Não Alinhados, e de grupos regionais de esquerda.

Nesta terça-feira, o governo venezuelano publicou uma “carta ao povo dos Estados Unidos” no jornal New York Times negando ser uma ameaça para o país e exigindo a derrogação das recentes sanções impostas pelo presidente Obama.

Em um preâmbulo à reunião em Caracas, o líder cubano Fidel Castro também afirmou em uma carta a Maduro que a Venezuela está preparada tanto no campo diplomático como militar para enfrentar “a insólita política de ameaças e imposições dos Estados Unidos”.

Além de Venezuela, Cuba e Bolívia, a Alba é formada por Equador, Nicarágua, Antígua e Barbuda, Comunidade da Dominica, Santa Lúcia, Granada, São Cristóvão e Neves, e São Vicente e Granadinas.

A Alba foi criada em 14 de dezembro de 2004 por Hugo Chávez (falecido em 2013) e Fidel Castro (que deixou o poder em 2006) como alternativa à Alca, o Acordo de Livre Comércio entre as Américas, defendida pelos Estados Unidos.

Morales diz que Obama deve pedir “perdão” à Venezuela antes de cúpula

Via Agência Efe

O presidente da Bolívia, Evo Morales, exigiu nesta sexta-feira que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, “peça perdão” à Venezuela por suas “ameaças” antes da Cúpula das Américas, e advertiu que se não fizer isso terá que enfrentar os “presidentes anti-imperialistas” na reunião do Panamá.

Em entrevista coletiva na cidade de Cochabamba, Morales criticou o fato dos EUA terem declarado estado de emergência nacional pelo “risco” de que a situação na Venezuela representa para sua segurança.

Evo diz que obama “ameaçou” o país. EFE/Hugo Ortuño

Morales afirmou que a os EUA não são “apenas uma ameaça para a Venezuela, mas para a América Latina”.

A Cúpula das Américas será realizada entre os dias 10 e 11 de abril.

Além disso, o governo americano ampliou as sanções a vários funcionários venezuelanos incluídos em uma lei aprovada em dezembro do ano passado por Washington.

Morales afirmou que com esta decisão os Estados Unidos estão “planejando a intervenção militar na Venezuela”.

Segundo o governante boliviano, todos os países “rejeitaram essa ameaça”, por isso, segundo sua opinião, será “melhor” para o presidente Obama “chegar bem” na Cúpula das Américas para debater sobre outros temas de desenvolvimento.

Segundo sua opinião, “o melhor sinal” que o governo americano pode enviar para a região é suspender o embargo econômico a Cuba antes da reunião de chefes de Estado no Panamá.