Arquivo do autor:Pedro Nogueira

Sobre Pedro Nogueira

Blogueiro, Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG.

Brasil tem maiores juros reais do mundo; taxa é o dobro do 2º lugar

A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de manter a taxa básica de juros do país em 10,75% ao ano fez com que o Brasil continue na liderança do ranking dos países com maiores juros reais do planeta.
Com a manutenção na taxa básica do país, os juros reais foram a 4,8% ao ano. Na segunda posição aparece a África do Sul, com taxa real de 2%. Na terceira posição está a Austrália, com 1,9%. O ranking é elaborado por Jason Vieira, analista internacional do Cruzeiro do Sul, e Thiago Davino, gerente financeiro da Weisul Agrícola, com 40 das maiores economias do planeta.
Da taxa básica, foi descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses.
Os analistas afirmam que, para que o Brasil deixasse a primeira colocação no ranking, seria necessário um corte de 3 pontos percentuais na taxa Selic, para 7,75% ao ano. Assim, o país chegaria a um juro real de 2,0%, ocupando a segunda posição.
“Mesmo com uma elevação em algumas projeções de inflação, o Brasil ocupa em todos os cenários de elevação de juros o topo do ranking como o melhor pagador de juros reais do mundo, acima do maior pagador nominal da atualidade, a Venezuela”, dizem.
Eles ressaltam, porém que a inflação de commodities tem trazido um peso diferenciado em algumas projeções de inflação mundo afora, principalmente nas economias emergentes. Para os analistas, o aumento dos índices de inflação a perspectiva de continuidade do crescimento econômico aumentam a possibilidade de elevações de juros em 2011.
Enquanto o Brasil reforça sua liderança na lista, mais da metade dos países citados registram juro real negativo. Tanto que a taxa média geral dos países analisados ficou em -0,8%. Os últimos lugares do ranking são ocupados por Venezuela (-7,0%), Turquia (5,2%) e Índia (-4,1%).
A liderança do Brasil ajuda o país a registrar uma expressiva entrada de capital externo, que ocorre porque os títulos de renda fixa emitidos no país pagam mais que seus pares internacionais. Por conta disso, o governo anunciou no segundo semestre algumas medidas para conter a valorização do real no mercado, que prejudica exportadores e amplia as importações no país.
Outros países com juros nominais altos detêm projeções inflacionárias mais fortes, e, portanto, perdem posições no ranking. Além disso, os analistas ressaltam que o Brasil conta com riscos mais modestos do que boa parte dos participantes, “o que o torna um grande atrativo para investidor internacional”.
Veja o ranking dos dez países com os maiores juros reais:
1º Brasil 4,8%
2º África do Sul 2,0%
3º Austrália 1,9%
4º Hungria 1,2%
5º China 1,1%
6º Filipinas 1,0%
7º Malásia 0,7%
8º Polônia 0,7%
9º Chile 0,5%
10º México 0,5%

Da Folha de S. Paulo

Índia volta a investir em zonas especiais para incentivar exportações

Tushar Dhara | Bloomberg Businessweek

É preciso mais de uma hora para percorrer de automóvel os 40 km da estrada congestionada e cheia de buracos que liga Nova Déli à Zona Econômica Especial (ZEE) de Noida. Do lado de dentro dos portões, há uma Índia diferente. Uma via suave de quatro faixas conecta as unidades de eletrônica, engenharia e têxtil. Um gerador garante que o fornecimento de energia elétrica não sofrerá interrupções. O sistema telefônico é de primeira. “É o tipo de lugar em que uma pessoa pensa em fazer negócios”, afirma Vishnu Pal Singh, cuja Optic Electronic India, sediada em Noida, vende dispositivos de visão noturna para rifles e tanques para a Alemanha e a Polônia.

A Índia conta com empreendedores como Singh para revitalizar um sistema em que foi pioneira há 45 anos: usar enclaves que os impostos são mais baixos, há menos burocracia e rodovias e serviços públicos melhores, para hospedar companhias que queiram aumentar suas exportações. A Índia tentou usar essas zonas nas décadas de 60 e 70. Mas os locais foram mal escolhidos e os incentivos às companhias para se mudarem para eles foram inadequados, de modo que apenas umas poucas zonas foram abertas. A China adotou o modelo na década de 80 com resultados espetaculares. A ex-vila de pescadores de Shenzhen tornou-se uma zona especial que se transformou em um dos maiores centros exportadores do mundo.

Agora, a Índia está criando essas zonas enquanto o premiê Manmohan Singh tenta aumentar a presença do setor industrial na economia do país de 17% para 22%. “Melhorar a infraestrutura no país inteiro levará muito tempo. Portanto, se você quiser promover o setor industrial, é preciso criar mais ilhas de excelência, que é o que são essas ZEEs”, afirma Dharmakirti Joshi, principal economista da Crisil, uma unidade indiana da Standard & Poor’s em Mumbai.

Os investimentos nas zonas especiais poderão dobrar, para cerca de 3 trilhões de rúpias (US$ 66,2 bilhões) até 2012, segundo o Ministério do Comércio da Índia. As exportações das ZEEs mais que dobraram no ano fiscal de 2009-10, para 2,2 trilhões de rúpias, um quarto das exportações da Índia.

Cerca de 100 zonas já operam no país – 478 outras foram aprovadas. As áreas patrocinadas pelo governo reduzem a burocracia ao usarem apenas um único departamento para conceder as autorizações, certificando que as exigências ambientais, de exportação e outras foram cumpridas. As empresas que operam nessas zonas têm isenções fiscais por 15 anos e não precisam pagar impostos locais sobre produtos industrializados ou impostos alfandegários.

Espalhada por mais de 1,254 milhão de metros quadrados, as fileiras de prédios brancos de dois andares da zona de Noida estão cheias de trabalhadores carregando e descarregando caminhões com tubos de aço, cimento, equipamentos elétricos e outros materiais destinados a novas fábricas. A zona tem sua própria usina geradora de energia, rede de transporte de ônibus, correio, bancos e terminais automáticos de bancos. As melhorias propostas incluem um segundo gerador e uma rodovia de seis faixas até Nova Déli. Singh, da Optic Electronics, investiu 100 milhões de rúpias para começar sua fábrica na zona e pretenda ampliá-la. “Posso fazer melhores negócios aqui, uma vez que há isenção das leis locais”, afirma ele.

As empresas que ajudam a construir a zona também são beneficiadas. As ações da Adani Power, que ajudou a desenvolver a Mundra Port & Special Economic Zone, que com 64 milhões de metros quadrados é uma das maiores da Índia em área, valorizaram 40% este ano, contra apenas 13% do índice da Bolsa de Valores de Mumbai.

Como o governo apenas recentemente passou a levar a sério a criação dessas zonas, a Índia ainda está bem atrás da China. “A diferença entre as zonas econômicas especiais indianas e chinesas é de escala”, afirma Rajesh Mohan, que ensina economia no Instituto Indiano de Comércio Exterior de Nova Déli. Uma das zonas especiais de maior sucesso da Índia, a Santa Cruz Electronics Export Processing Zone, cobre 405 mil metros quadrados. A maior zona especial da China em área é a de Hainan, uma ilha no sul do país, espalhada por 33,9 milhões de metros quadrados. A zona de Shenzhen inclui muitas das fábricas de eletrônicos da Foxconn, de Taiwan, que emprega 430 mil chineses no local. Juntas, todas as zonas especiais da Índia empregam 500 mil pessoas.

A dificuldade política de se conseguir comprar terrenos de bom tamanho também atrasa o desenvolvimento das zonas especiais na Índia, segundo afirma N.R. Bhanumurthy, economista do Instituto Nacional de Finanças e Políticas Públicas de Nova Déli: “Se o governo não resolver esse problema, a Índia terá dificuldades para igualar a destreza industrial da China”. O governo está apoiando uma aquisição de terras que poderá ser discutida no Congresso em breve.

Ásia: Pequim pode investir US$ 1,5 tri para se tornar líder em tecnologia

Benjamin Kang Lim e Simon Rabinovitch | Reuters, em Pequim

A China está estudando um plano de investimentos de até US$ 1,5 trilhão durante cinco anos em sete setores estratégicos, segundo fontes. Esse plano visa acelerar a transição do país da condição de fornecedor de produtos baratos ao mundo para provedor líder de tecnologias de alto valor.

Analistas expressaram ceticismo em face do enorme volume de dinheiro – equivalente a cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) chinês, em base anual -, mas disseram que a espantosa dimensão do número é uma indicação da determinação do governo de catalisar uma mudança estrutural na economia.

Entre os setores em foco estão: fontes energéticas alternativas, biotecnologia, tecnologia da informação de nova geração, equipamentos industriais de alta tecnologia, materiais avançados, carros movidos a combustíveis alternativos e tecnologias para poupar energia e não agressivas ao ambiente.

Muito provavelmente, a maior parte dos recursos não virá do governo central, que procurará estimular gastos de empresas, investimentos de governos locais e empréstimos por bancos. A Conferência Central de Trabalho Econô-mico, encontro anual decisivo no qual os líderes de mais alto escalão definem as políticas econômicas para o ano seguinte, provavelmente endossarão o plano focado nos sete novos setores estratégicos ao reunirem-se no fim deste mês.

“O Conselho de Estado está ponderando um plano para investir até 2 trilhões de yuans [US$ 300 bilhões] por ano nos sete novos setores estratégicos durante os próximos cinco anos”, disse à Reuters uma fonte próxima à liderança e com conhecimento direto sobre a proposta. A fonte não quis ser identificada devido à delicadeza da informação.

Pequim já disse que deseja incentivar os setores, uma política que espera tornará o país menos dependente de práticas industriais “sujas”, de baixo tecnologia. O valor adicionado total agregado pelos sete setores estratégicos representam atualmente cerca de 2% do PIB. O governo disse desejar que eles gerem 8% do PIB em 2015 e 15% até 2020. Ao estimular esses setores, a China estaria fazendo uma grande aposta em que a tecnologia pode ajudar a estabelecer uma ponte entre a oferta reduzida de commodities e a demanda em rápido crescimento que levou o país a tornar-se a segunda maior economia do mundo.

O plano quinquenal do Partido Comunista para 2011-2015 defende “incubar e desenvolver” os setores. Mas até agora o governo não divulgou nenhum número definindo quanto dinheiro vai gastar como parte do plano quinquenal para reformar a economia.

Os investimentos propostos para os setores deverão rivalizar (em ordem de grandeza) com o pacote de estímulo governamental de dois anos que mobilizou 4 trilhões de yuans e chegou ao fim em novembro. “É um desses números tão grandes que, mesmo que seja exagerado, o número real provavelmente ainda será grande”, disse Ben Simpfendorfer, economista do Royal Bank of Scotland em Hong Kong.

Em sua declarações, as autoridades chinesas muitas vezes ambicionam enormes investimentos como uma maneira de reunir apoio para iniciativas de investimentos, ainda que os números em última instância não correspondam às metas originais.

“A concentração nos sete novos setores estratégicos fará crescer a competitividade chinesa e elevará sua economia a patamares mais altos na cadeia de valor”, disse Zhao Changhui, economista-chefe do Banco de Exportação e Importação da China. “Isso dará rumo para uma transformação da economia chinesa”, afirmou Zhao. “É o próximo estágio da globalização”.

O governo também deve dar tratamento preferencial aos investidores em termos de impostos e de aquisição de terras.

O “China Times”, publicado em chinês, informou que a alíquota do imposto de renda para os investidores nos sete setores será reduzida para 7,5%. A imprensa oficial também informou que a China vai investir 5 trilhões de yuans em projetos de energia renovável ao longo da próxima década. O dinheiro gasto nos sete setores focados pela iniciativa que envolverá 10 trilhões de yuans poderá, em certa medida, poderá sobrepor-se (aos projetos de energia renovável). Os planos também poderão defrontar-se com oposição de alguns setores do governo.

A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (CNDR), a poderosa agência de planejamento do país, disse que o setor de energia eólica já está sofrendo excesso de capacidade, levantando dúvidas sobre a necessidade de grandes investimentos em energia alternativa. Ontem, a CNDR não quis comentar.

Xu Jian, economista da China International Capital, em Pequim, questionou se os sete setores visados têm condições de absorver tal afluxo de dinheiro. “Eles ainda estão em seu estágio inicial de desenvolvimento. São distintos de setores convencionais, que são de grandes escala. Assim, nesses termos, esse investimento pode ser grande demais”, disse.

O plano precisa ser aprovado pelo do Congresso Nacional do Povo, o Parlamento chinês, que irá realizar a sua sessão anual em março de 2011.

Não haverá mudança no Rio com corrupção policial

LUIZ FERNANDO VIANNA, da Folha
DO RIO

Como coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do Estado do Rio (1999/2000) e secretário nacional de Segurança Pública (2003), o antropólogo Luiz Eduardo Soares não conseguiu implantar a maior parte de suas ideias, mas nunca deixou de expressá-las, contrariando os coros de unanimidade.

Ele, por exemplo, enxerga “uma enorme ilusão” na oposição entre bem (polícias) e mal (tráfico) pregada pelo poder público e difundida pela mídia.
Soares apoia operações de repressão ao tráfico de drogas, mas acredita que, se a corrupção policial -que tem nas milícias sua forma mais organizada- não for enfrentada, as conquistas do complexo do Alemão agora celebradas se tornarão frustrações mais adiante.

Folha – Quando lançou o livro “Elite da Tropa 2″, o sr. deu declarações apontando que “o tráfico já era”. Agora, com a operação no Complexo do Alemão, chegou a ser ridicularizado, como se os fatos provassem que estava errado. O tráfico já era mesmo?
Luiz Eduardo Soares – Sim, já era como tendência. O negócio de drogas vai muito bem, obrigado, mas não o tráfico na sua forma que envolve, no Rio, controle territorial, organização de grupos armados, pagamento a policiais, conflito com facções, num contexto político crescentemente antagônico e com pressões sobre os governos, pois a consciência pública vai amadurecendo e se tornando mais refratária a conviver com o ilegal nessa magnitude.

É um sistema muito pesado, caro, arriscado. Há modalidades em partes mais desenvolvidas do mundo que são mais leves, racionais e econômicas, como o comércio que se dá com deslocamento nas ruas e delivery, e no qual o traficante não deve andar armado, porque já carrega a droga ilícita, que o coloca em risco de ser preso.

Folha – Justifica uma operação do tamanho e com os custos da que aconteceu para combater um modelo em declínio?
Claro. O fato de estar em declínio não significa que esteja suspensa a sua capacidade de produzir danos à sociedade, como mortes e todo tipo de violência.
A primeira medida fundamental é fazer com que a polícia pare de participar do tráfico. A parceria entre o tráfico e segmentos policiais corruptos, que vendem armas, alugam Caveirão, ganham percentuais da venda da droga, tem que ser objeto da preocupação prioritária.

Folha – Como interpreta, nesse momento, a sociedade pedindo por mortes, como num desejo de vingança?
Eu costumo apresentar um argumento a uma senhora ou a um senhor de classe média preocupado com a segurança de sua família e que diz desejar “que acabem logo com esses traficantes”.

Há outros criminosos além deles, e esses traficantes o são com apoio dos que deveriam cumprir a lei. Então, o mal atravessa os dois lados, não existe essa polaridade [entre bem e mal], e esse é o problema. Quando a autoridade dá ao policial na ponta liberdade para matar, dá-lhe também, indiretamente, a liberdade de não fazê-lo.

Isso começou a gerar negociações varejistas, em momentos de confronto. Mais adiante, transformou-se numa modalidade mais organizada da economia do crime. Até que se chegou, no final dos anos 80 e início dos 90, a um terceiro estágio da economia da corrupção: o acordo, o contrato, o arreglo ou, na corruptela carioca, arrego. Isso faz com que a polícia se torne parceira fixa.

Folha – Quando dá errado, acaba na chacina de Vigário Geral [em 1993, 21 inocentes foram mortos por policiais que vingavam colegas assassinados pelo tráfico].
Exatamente. Por exemplo, o conflito em São Conrado [em 21 de junho passado], não se deu em torno de uma operação policial planejada com inteligência, mas foi fruto de uma redefinição do contrato: inflação, mudança de preço, cobrança de sobrepreço. Os sócios se desentenderam. Em geral, os conflitos são desse tipo.

O tráfico está em declínio, os ganhos estão se reduzindo, então precisa negociar uma redução do que se paga à polícia. E a polícia não aceita e às vezes exige aumento. Com isso, os traficantes têm que completar o ganho.

O quarto estágio da economia da corrupção: é a milícia. É quando já há uma organização superior: “Nós não precisamos ser apenas sócios, podemos ser os protagonistas. Vamos buscar lucros participando de forma criminosa de tudo o que puder oferecer algum potencial econômico na vida da comunidade que estará sob nosso domínio, sob nosso terror”.

Mas os milicianos são policiais. Não têm os custos da organização, do acesso às armas. Já estão cobertos. Nós pagamos a maior parte das ações, porque usam a polícia nas invasões.

Muita gente diz que eles, pelo menos, se opõem ao tráfico. Não é verdade. Esperam que a polícia enfrente o tráfico e, se isso não acontece, fazem negócios com os traficantes. São muito mais fortes, numerosos, têm mais capacidade de organização, o rendimento é superior, têm visão política.

Outro ponto é a segurança privada. É uma das origens das milícias. Os salários dos policiais são insuficientes. O sujeito tem que complementar a renda. Vai buscar, como nós fazemos, na área de sua especialidade, no caso, a segurança.

Isso é ilegal, as autoridades sabem disso, mas fingem que não veem. Se reprimirem, projetar-se-á a demanda sobre o governo e é possível que o orçamento da segurança entre em colapso. As autoridades toleram essa complementação. Veja que situação absurda: o Estado tem um pé na legalidade e um pé na ilegalidade.

Folha – A cobertura da mídia brasileira cobre a realidade com um véu ilusório?
Há uma enorme ilusão. Não quero me arrogar o papel do único que enxerga a realidade, pelo amor de Deus. Mas é assustador que pessoas tão inteligentes e bem intencionadas se iludam com a fábula de que o bem venceu o mal. Esse mal só existiu até esse momento porque foi alimentado por isso que chamamos de bem. E, se agora esse mal é afastado, esse bem que é parte do mal parece triunfante. Vamos nos surpreender sendo apunhalados pelas costas, porque parte dos heróis são os que estão nos condenando à insegurança, levando armas e drogas para as favelas.

Folha – As tropas do Exército que ficarão no Alemão poderão ser contaminadas pelo tráfico?
A contaminação é uma preocupação constante do próprio Exército, seja por exemplos internacionais, como o do México, seja pela experiência de roubos de armas, com cumplicidade de gente da instituição. Seja também pela promiscuidade, sabendo-se que alguns saíram do Exército e foram recrutados pelo tráfico. Por conta dessa preocupação, o Exército fala em rodízio.

Divã para livrar o país da síndrome do quepe

Do Valor Econômico

O período militar é um cadáver insepulto. A jovem democracia brasileira tem uma enorme dificuldade de lidar com seu passado. Nos momentos em que os conflitos políticos são de baixa intensidade, a tendência da sociedade é simplesmente jogar esse período negro da vida do país para debaixo do tapete. Quando são de média intensidade, o passado põe a cabeça de fora e lembra que continua no ar, como uma nuvem, e a chuva pode desabar a qualquer momento sobre nossas cabeças. Em situações de grandes conflitos, como no recente período eleitoral, grupos sociais mais conservadores retiram do embornal um discurso que parece ter saído da boca de um general-presidente, com grande espaço para teorias conspiratórias dando conta de perigosas “ameaças comunistas”.

Como o uso do cachimbo normalmente entorta a boca, os movimentos políticos, desde o pré-64, voltam sempre para a lógica segundo a qual um lado sempre deve estar na ofensiva e o outro, na defensiva. A contaminação da oposição pelo velho udenismo trouxe junto o hábito de pedir a tutela dos quartéis, quando seu projeto político não consegue se viabilizar pelo voto. Mas uma das coisas que alimenta a recaída permanente da elite brasileira ao conservadorismo – e ao militarismo – é o outro lado. O velho PSD, de Tancredo Neves, também permanece como padrão de comportamento político: a recusa a qualquer tipo de confronto, em especial quando pode resvalar na área militar. Os dois lados se alimentam de um consenso forjado sabe-se lá onde, de que a direita tem legitimidade para levar o confronto ao limite, enquanto, do centro à esquerda, os atores políticos tornam-se irresponsáveis se não estiverem sempre conciliando.

As Forças Armadas são peça central nas situações de confronto: não só assimilam apelos de tutela da democracia, como são a instituição que avaliza as pressões de um grupo minoritário – de direita – sobre o resto da sociedade. A lembrança do passado só vem à cena política quando serve a esse jogo de pressão.

A UDN está aí porque também resiste no tempo o padrão PSD

O Ministério da Defesa, concebido teoricamente para submeter o poder militar às instituições democráticas, nem bem nasceu e parece estar contaminado pela visão udenista das Forças Armadas, que requer sempre uma ação pessedista, de conciliação, para evitar o pior. O ministro Nelson Jobim, que o governo Lula considera ter desempenhado um papel importante na consolidação do Ministério da Defesa, é tido como um ponto de equilíbrio não por ter assumido o comando das armas, mas por ter exercido um papel de mediador das pressões militares junto a um governo civil de esquerda.

O vazamento de documentos relativos ao ministro, pelo Wikileaks, trouxe à luz provas de que as forças militares continuam um capítulo à parte na história da democracia brasileira – e isso, mesmo quando o seu chefe é civil. Um ministro da Defesa que foi mantido e se fortaleceu nas brigas que comprou dentro do governo, com colegas mais comprometidos com visões não-conservadoras sobre os Direitos Humanos e sobre a forma de lidar com o passado autoritário do país, expôs as suas divergências com o Ministério das Relações Exteriores a ninguém menos que o embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Gentilmente, cedeu ao embaixador a informação, dada confidencialmente pelo seu chefe, o presidente da República, sobre o estado de saúde do presidente da Bolívia, Evo Morales. As inconfidências ganham os jornais dias depois de Jobim ter sido confirmado, na mesma pasta, para o próximo governo. Continua ministro de Lula e será o ministro de Dilma Rousseff.

O governo Dilma acena para a manutenção de uma situação em que o Ministério da Defesa – e portanto as Forças Armadas – não se integra a um governo legitimamente eleito, mas se mantém no governo com altíssimo grau de autonomia, graças a ondas de pânico criadas por grupos de direita. Paga o mico das inconfidências de “um ministro da Defesa invulgarmente ativo”, segundo definição do próprio Sobel em um de seus telegramas.

A falta de reação a ofensivas da direita tem seu preço. As Forças Armadas são um terreno fértil à pregação conservadora e a absorve com rapidez e clareza. Não deve ser à-toa que, depois de um processo eleitoral particularmente radicalizado – onde prevaleceu a lógica do udenismo que confronta e apela aos quartéis e do pessedismo que concilia – que a turma que se forma este ano na Academia Militar de Agulhas Negras (Aman) tenha se batizado com o nome do general Emílio Garrastazu Médici, presidente militar do período mais sangrento da ditadura.

Os militares se retiraram para os quartéis, mas é evidente que continuaram reproduzindo internamente uma ideologia altamente conservadora, que não afasta o papel de tutela sobre a sociedade civil. Isso aconteceu porque não houve uma contra-ofensiva capaz de colocar outra visão sobre o papel dos militares na sociedade e fazê-la dominante. A discussão do aprimoramento da democracia deve passar por uma profunda revisão do papel das Forças Armadas e por uma integração, de fato, da instituição nos esforços democráticos da sociedade.

A propósito: as consultas sobre os processos contra os adversários políticos da ditadura instruídos pela Justiça Militar podem ser consultados na Unicamp, que recebeu todos os arquivos reunidos pelo grupo Tortura Nunca Mais, abrigado na Arquidiocese de São Paulo, durante a ditadura. O grupo copiou os processos na Justiça Militar e, com base neles, fez um importante trabalho de denúncia de torturas e assassinatos de opositores políticos do regime. O trabalho final do grupo assume como legítima a ideia de que as denúncias de tortura por parte dos presos políticos, feitas no período à Justiça Militar, tornam sem valor as informações obtidas por esses meios. Para saber o que fizeram os presos políticos para se tornarem presos políticos, é mais garantido que se pergunte isso a eles hoje. Na democracia e em liberdade.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

‘Alguns choravam’, diz pastor que negociou rendição de traficantes

Do Último Segundo

Evangélico que acompanhou líder do AfroReggae no Complexo do Alemão defende anistia como forma de resolver confrontos no Rio

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro | 01/12/2010 04:51

Na véspera da invasão da polícia ao Complexo do Alemão, um grupo de cinco pessoas da ONG AfroReggae decidiu subir o conjunto de 14 favelas na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, e tentar convencer os traficantes a se entregarem. Liderados pelo diretor-executivo da organização, José Junior, eles argumentaram que a polícia venceria um possível confronto e que inocentes seriam as maiores vítimas. Ao lado de Junior estava um dos coordenadores da área social da entidade, Rogério Menezes, respeitado por traficantes, viciados e detentos do sistema penitenciário do Estado.

Evangelizador da Assembleia de Deus, Rogério é chamado de pastor. Em meio à negociação com os criminosos, no sábado (27), José Junior recorria ao Twitter para mandar informações em tempo real. “Pastor Rogério é o cara que mais salvou vidas que eu conheço. Muitas, inclusive, na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. Homem de Deus”, escreveu o líder do AfroReggae na ocasião.

ciado, pastor Rogério admite que já traficou drogas, pegou em armas e cometeu crimes. Foi preso. Sobreviveu a duas overdoses de cocaína, até receber um “sinal” e “ser salvo por Jesus”. Hoje, ele diz que sua vida pregressa o permite compreender o que passa pela cabeça de criminosos e apresentar argumentos para tirar muitos da marginalidade. “Já salvei uns 300 que estavam amarrados para morrer”, garante.

Sobre a ação de retomada do Complexo do Alemão pelo Estado, o pastor diz acreditar “que a intenção foi uma das melhores”. Segundo ele, “o governador tem feito um trabalho muito bom”. Contudo, o religioso defende que somente uma anistia aos traficantes será capaz de pôr fim à ameaça de guerra no Rio. “Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares e pela Justiça.”

A seguir, leia mais sobre o que pensa o pastor.

iG: Às vésperas da polícia invadir a favela, no sábado (27), o senhor e o José Junior entraram no Complexo do Alemão para conversar com os traficantes. Na sua avaliação, esse gesto ajudou a evitar derramamento de sangue?

Rogério Menezes – Sim. Eu e o José Junior estávamos todo o tempo juntos. Ele virava para mim e falava “pô, Rogério, o que a gente pode fazer para ajudar?”. Eu respondia: “Junior, eu sei que é perigoso e arriscado, mas imagina se a polícia entrar? Vai morrer muita gente. Temos de ir lá”. Expliquei que o máximo que poderia acontecer era a gente ser tomado como refém. Falei: “Deus está nos mandando ir”.

iG: O que o senhor pensava naquele momento?

Rogério Menezes – Pelas informações divulgadas pelas autoridades, havia ali mais de mil pessoas com algum envolvimento com o crime. Se houvesse confronto, eles iriam enfrentar, como foi noticiado, 2.600 policiais civis, militares, homens do Exército e da Marinha. Sem contar os inocentes, os jornalistas, imagina o derramamento de sangue que poderia existir… Eu só pensava nisso.

iG: Como vocês chegaram até os traficantes?

Rogério Menezes – Entramos na favela e perguntamos onde eles estavam. Nos orientaram a chegar até a parte mais alta. Encontramos um grupo de cerca de 60 homens, os mais perigosos. Conversamos olho no olho.

iG: E como foi a conversa?

Rogério Menezes – Eles vieram até a gente. Estavam cansados, sem forças até para falar. Nós argumentamos que não dava para eles encararem. E muitos diziam “pastor, me ajuda. Pelo amor de Deus. O que o senhor pode fazer por mim?” O José Junior respondeu que não havia nada que a gente pudesse fazer e que o melhor seria se renderem à polícia; que a única garantia que a gente podia dar era a de que ninguém seria assassinado se aceitasse a rendição.

iG: E eles estavam inclinados a aceitar a proposta?

Rogério Menezes – Um dos chefões virou para mim e falou: “Pastor, o senhor me conhece. Sabe que a minha vida todinha eu tirei dentro da cadeia. O senhor quer que eu volte?” Respondi: “Rapaz, é melhor você se entregar do que ser morto. Você tem uma vida, tem família. Pensa muito bem no que você vai fazer.”

iG: E qual foi a reação?

Rogério Menezes – Muitos deles estavam desesperados, amedrontados. Alguns tremiam, estavam com os olhos arregalados. Outros olhavam para a gente como se fôssemos uma saída, um porto seguro. E a gente foi tentando acalmá-los. Mas eles diziam que era complicado se entregar. Em determinadas facções, se entregar é complicado. Eu sei disso. Hoje sou pastor, mas já fui do crime. Entendo a posição deles. Mas é aquele negócio, para o homem é impossível, mas para Deus tudo é possível.

iG: Quer dizer que alguns queriam se render, mas tinham medo de ser assassinados na cadeia por retaliação da facção criminosa a que pertencem?

Rogério Menezes – É por aí. Cada caso é um caso. Depois dessa conversa que tivemos com eles, 37 se entregaram. Um se apresentou na delegacia com a mãe, a imprensa acompanhou. É o Mister M. Teve um pai que foi entregar o filho por acreditar que isso era melhor do que vê-lo morto pelo Bope. Acredito que eles não viam saída. Eu e o José Junior os motivamos a não irem para o confronto. Ninguém imaginava que o Alemão poderia ser ocupado da forma como foi. O maior mérito foi de Deus. Mas há também o mérito do AfroReggae, do José Junior, que foi muito corajoso.

iG: Qual foi o diálogo com os traficantes que mais marcou o senhor?

Rogério Menezes – Vi homens de alta periculosidade me chamarem no canto e se abrirem para mim e para o José Junior. Teve gente que chorou na nossa frente. Não de medo. Chorou porque não queria o confronto, porque tinha família. Ele estava se sentindo traído por amigos que o deixaram na mão. Foi o momento que mais me compadeceu. Eu ficaria o tempo todo ao lado daquelas pessoas, ainda que a polícia entrasse.

iG: Nesse grupo havia chefes do tráfico?

Rogério Menezes – Positivo. Mas não vou falar disso em detalhes. Meu trabalho é religioso e eles confiam em mim. Quero apenas afirmar que eles não queriam guerra.

iG: Quem falou mais, os senhores ou os traficantes?

Rogério Menezes – Eles ficaram mais tempo calados. Queriam ouvir a gente, queriam uma luz. Eles não estavam conversando com traficantes, mas com pessoas que simbolizavam a paz, a vida. Tem pessoas ali que me conhecem desde 1993, quando comecei a pregar. Muitos eu vi ir para a cadeia, sair da cadeia, visitei na favela. Havia homens com armas nas mãos, mas os que conversavam com a gente não estavam armados. Em momento algum eles diziam que iriam meter bala ou que optariam pelo confronto. Isso eu não vi.

iG: O senhor diz que muitos traficantes não querem se render porque temem retaliações de colegas de facção dentro da cadeia; outros que já ficaram muito tempo presos e não aceitam voltar. A polícia afirma que vai permanecer na favela até realizar as prisões e recuperar as armas. O senhor defende alguma proposta para que não aconteçam novos conflitos?

Rogério Menezes – Sou a favor da anistia. Converso muito com traficantes e com viciados, visito muita boca de fumo. Eu evangelizo muito. Faço um trabalho de Deus, um trabalho do bem, espiritual. Já tirei muitos dessa vida e encaminhei para um emprego. E já vi caso também de pessoas que largaram o crime, se mudaram para outro estado, mas não conseguiram emprego porque devem à Justiça. Tiveram de voltar e retornar para o crime, tinham família. Mas eles me diziam “pastor, o senhor viu que tentei. Voltei para o tráfico, mas não bebo, não me drogo mais, nem a baile funk eu vou. Vai acabar meu plantão na boca e vou para casa ficar com meus filhos”.

iG: O senhor não acha difícil propor para a sociedade que essas pessoas sejam anistiadas sem pagar pelos crimes que cometeram?

Rogério Menezes – É muito difícil responder sobre isso. Como religioso, acho que o culpado disso tudo são as forças espirituais do mal. Vou dar um testemunho da minha vida. Eu trabalhava, ganhava bem, três salários mínimos. Não era de uma vida errada. Mas em um determinado momento me senti sem chão. Tudo começou quando perdi meu pai. Minha mãe arrumou outro homem logo em seguida e eu não aceitei. Ela então me expulsou de casa. Eu tinha 16 anos. Bateu uma depressão tão grande, que perdi meu emprego, não conseguia trabalhar. Era morador da Baixada Fluminense, morava numa comunidade carente, conhecia bandido, conhecia traficante, mas eu era trabalhador. Nem todo mundo que mora dentro de uma comunidade é bandido. Minha família me deu estudo, o melhor que pôde dar. Mas eu caí na vida do crime, me entreguei à bebida, às drogas, fui preso. Houve momentos em que me vi sentado, chorando, querendo sair dessa. Eu despertei, procurei uma casa de recuperação. Tive apoio.

iG: Apesar da visão religiosa do senhor, a anistia não é uma proposta polêmica?

Rogério Menezes – Cada caso é um caso. Proponho que essa decisão seja avaliada pelo governo, pelos parlamentares, pela Justiça. Caso a caso, insisto. Mas, particularmente, eu acredito que num universo com 100% de criminosos, se você oferecer uma oportunidade pelo menos 40% aceitam largar essa vida. É preciso considerar que muitos temem por suas famílias. Se forem presos, quem vai sustentar suas mulheres, seus filhos? Tem que haver um projeto social também.

iG: Muitos bandidos fugiram e a polícia diz que vai capturá-los. O senhor acredita que esses traficantes vão voltar para o Complexo do Alemão futuramente? Ainda pode haver enfrentamento?

Rogério Menezes – Acredito que muitos homens que estavam ali no meio, inclusive os que fugiram, não têm antecedentes criminais. Às vezes até segura uma arma, mas é só um viciado. A polícia tem feito seu trabalho. E cabe à polícia e ao governo continuarem a fazer o seu trabalho. Contudo, também acredito que aquilo ali foi a mão de Deus a fim de despertar esses jovens. Acredito que muitos vão analisar e ver que não vale a pena se envolver com o crime. É a resposta que posso dar para essa pergunta.

iG: O senhor está certo da recuperação dessas pessoas?

Rogério Menezes – Vou dar um exemplo. Trabalha com a gente lá no AfroReggae o Gaúcho. Durante muitos anos ele foi o chefe do Alemão, era um dos mais temidos na área. Ele tirou 28 anos de cadeia e hoje está aí, fora do crime, trabalhando com carteira assinada. Isso é a prova de que enquanto há vida, há esperança. O Bem-te-vi, aquele que morreu na Rocinha, ele vivia me dizendo que queria sair do crime. Eu ia para lá pregar umas sete da noite e ele não me deixava ir embora antes das três, quatro horas da manhã. Ele tinha o prazer de estar do meu lado. Muitas vezes o vi chorar. Ele me dizia “pastor, me ajuda. Quero sair dessa vida, mas não tenho forças. A sociedade me marginaliza, não acredita em mim”. Eu dizia, “rapaz, o mais importante é Deus estar olhando para você. Deus tem um plano para sua vida. Você não pode se entregar à criminalidade”.

iG: Por que evangélicos são tão respeitados pelos criminosos?

Rogério Menezes – No sábado, na hora em que a polícia se posicionou para invadir o Complexo do Alemão, tinha um pastor na entrada da favela de terno e com a Bíblia na mão. Estava ele e a mulher dele. Aliás, havia mais de um, eram muitos. Eles ficaram entre os militares da polícia, do Exército e da Marinha, e os jovens. E eles procuravam esses jovens e diziam para que saíssem dessa vida. Ofereciam apoio: “quer se entregar comigo?”, perguntavam. No momento mais difícil, havendo risco de vida, eles estavam ali. E tem os testemunhos daqueles que saíram do crime e hoje estão aí, vivendo com dignidade. Isso mostra para eles que é possível

Dá para combinar o “feijão com arroz” econômico com o PMDB?

As possibilidades americanas de estender sua influência global estão ligadas não só ao seu poderio bélico, mas certamente às ferramentas econômicas das quais os EUA dispõem. Em artigo publicado no Valor Econômico, o professor José Luiz Fiori, da UFRJ, explica que a estratégia americana de desvalorizar a moeda enquanto aumenta sua presença militar em diferentes localidades não é nova. Ela já foi utilizada em 1973, quando os Estados Unidos abandonaram o regime de Bretton Woods, causando a primeira grande recessão desde o fim da Segunda Grande Guerra. No mesmo artigo, o professor Fiori explica que há diferenças fundamentais entre os dois cenários, já que agora o principal rival econômico dos EUA é a China, e não mais a União Soviética, o que determina uma relação econômica diferente. O desafio agora é claro, de acordo com outra analista da área, a professora Vera Thorstensen da FGV: empoderar a OMC enquanto mediadora da chamada “guerra cambial”.essa é,ainda de acordo coma professora Vera, uma das tarefas da diplomacia brasileira. Mas como a nova equipe econômica deve se portar em tempos tão complicados para o cenário cambial?

O trio Míriam-Mantega-Tombini, somados ao presidente do BNDES que, muito provavelmente, deve continuar Luciano Coutinho, dá o tom da continuidade para a economia no país, mas tende a deslocar as decisões mais para a presidente eleita do que deixá-la nas mãos dos ministros. É ela que deve direcionar decisões e soluções sobre como cumprir a alta meta de crescimento em meio à valorização do câmbio e às tendências de inflação. Contar com o apetite dos chineses pelas nossas exportações é suficiente? A expectativa geral é que Dilma não conte com os mesmos bons ventos que sopraram para Lula, considerando, por exemplo, a agitação dos europeus com a crise fiscal, que cobra revisões de cada um dos países do continente. Além do cenário global, o trio econômico pode esbarrar no principal desafio da presidente eleita: as relações com o PMDB, que saiu enorme das eleições 2010.

O analista Leandro Couto avalia que a nomeação de Miriam Belchior é positiva para o Ministério do Planejamento. “[Míriam] é gestora, vai pra tocar o PAC, acho que não vai deixar o orçamento criar empecilhos pra que as principais obras do governo sejam tocadas” explica. Ele afirma ainda que Míriam não deve interferir nas principais políticas da Presidenta para a área. Apesar da definição do trio, o Planejamento ainda precisar de outras nomeações para que haja uma expectativa final sobre sua atuação. “Não creio nem que vá interferir decisivamente na política econômica, vai apenas seguir a linha da presidente, o que já é alguma coisa. Mas, e o planejamento de médio e longo prazo? E a articulação disso com o médio e o curto prazo? Vai manter a SAE [Secretaria de Assuntos Estratégicos] isolada dos demais órgãos? E o MDIC [Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior]?”

As chefias dos próximos ministérios e secretarias devem ser anunciadas até o meio de dezembro. Nomeações de pastas como o MDIC dependem da negociação com os partidos da base aliada. A expectativa é que sejam feitas alterações institucionais, por exemplo, na própria estrutura dos ministérios, por isso a dúvida quanto ao status futuro da SAE. Os nomes a serem anunciados devem ser os dos cargos palacianos: Antonio Palocci para a Casa Civil, Gilberto Carvalho na Secretaria-geral da Presidência, Paulo bernardo no Ministério da Previdência e José Eduardo Cardozo no Ministério da Justiça. Edison Lobão deve permanecer na pasta das Minas e Energia. Moreira Franco, do PMDB, também já é nome garantido no novo governo.